ALVORADA CRISTÃ - NEIO LÚCIO

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ALVORADA CRISTÃ - NEIO LÚCIO

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 06, 2011 10:20 pm


ALVORADA CRISTÃ
FRANCISCO CÂNDIDO XAVIER

DITADO PELO ESPÍRITO NEIO LÚCIO

ÍNDICE

ALVORADA CRISTÃ


CAPÍTULO 1 = Sigamos com Jesus
CAPÍTULO 2 = Na direcção do bem
CAPÍTULO 3 = Pequena história
CAPÍTULO 4 = Prémio ao sacrifício
CAPÍTULO 5 = O servo feliz
CAPÍTULO 6 = Rebeldia
CAPÍTULO 7 = O grande príncipe
CAPÍTULO 8 = O juiz recto
CAPÍTULO 9 = O ricaço distraído
CAPÍTULO 10 = O burro de carga
CAPÍTULO 11 = A lição inesquecível
CAPÍTULO 12 = A arma infalível
CAPÍTULO 13 = O servidor negligente
CAPÍTULO 14 = O descuido impensado
CAPÍTULO 15 = O poder da gentileza
CAPÍTULO 16 = A trilogia bendita
CAPÍTULO 17 = A conta da vida
CAPÍTULO 18 = A amizade real
CAPÍTULO 19 = O ensinamento vivo
CAPÍTULO 20 = O elogio da abelha
CAPÍTULO 21 = O carneiro revoltado
CAPÍTULO 22 = O pior inimigo
CAPÍTULO 23 = A decisão sábia
CAPÍTULO 24 = O aprendiz desapontado
CAPÍTULO 25 = A falsa mendiga
CAPÍTULO 26 = O grito de cólera
CAPÍTULO 27 = Carta paterna
CAPÍTULO 28 = A pregação fundamental
CAPÍTULO 29 = O barro desobediente
CAPÍTULO 30 = Dá de ti mesmo
CAPÍTULO 31 = A lenda do dinheiro
CAPÍTULO 32 = A sentença cristã
CAPÍTULO 33 = Viveremos sempre
CAPÍTULO 34 = A galinha afectuosa
CAPÍTULO 35 = Na sementeira do amor
CAPÍTULO 36 = O maior pecado
CAPÍTULO 37 = Apontamento
CAPÍTULO 38 = O remédio imprevisto
CAPÍTULO 39 = Dos animais aos meninos
CAPÍTULO 40 = A lenda da árvore
CAPÍTULO 41 = O exército poderoso
CAPÍTULO 42 = O amigo sublime
CAPÍTULO 43 = O peru pregador
CAPÍTULO 44 = Somos chamados a servir
CAPÍTULO 45 = O anjo da limpeza
CAPÍTULO 46 = No passeio matinal
CAPÍTULO 47 = O ensino da sementeira
CAPÍTULO 48 = O Espírito da Maldade
CAPÍTULO 49 = O Divino Servidor
CAPÍTULO 50 = Oração dos jovens


Última edição por O_Canto_da_Ave em Dom Jul 24, 2011 11:38 pm, editado 1 vez(es)

Ave sem Ninho

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Re: ALVORADA CRISTÃ - NEIO LÚCIO

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 06, 2011 10:20 pm

ALVORADA CRISTÃ

As páginas de Neio Lúcio, consagradas à mente juvenil em todos os padrões da experiência física, são, em verdade, valioso curso de iluminação espiritual.

Sementeira de princípios renovadores, aqui encontramos avançadas noções de justiça e bondade para a elevação da vida.

E a luta terrestre, em seus fundamentos, ainda mesmo considerada no sector expiatório, resume-se na obra educativa para a eternidade.

A instrução é, sem dúvida, a milagrosa alavanca do progresso.

Sem ela, perseveraria a mente humana nos resvaladouros da Ignorância, confinada á miséria, à ociosidade, a indigência e ao infortúnio, através da delinquência na praça pública e da correcção na penitenciária.

Mas não basta esclarecer a inteligência, repetiremos ainda e sempre.

É imprescindível aperfeiçoar o coração nos caminhos do bem.
Nero, o tirano, era discípulo de Séneca, o filósofo.

Tito, o príncipe admirável, que costumava dizer “perdi o meu dia”, quando a noite o alcançava sem algum gesto excepcional de bondade, mandou massacrar mais de dez mil Israelitas doentes, abatidos e mutilados, depois de arruinar Jerusalém.

Marco Aurélio, o Imperador virtuoso e sábio, consentiu no morticínio de cristãos Indefesos.

Inácio de Loiola, maravilhosamente bem-intencionado, tinha o cérebro cheio de letras quando incentivou a perseguição religiosa.

Marat, o demagogo sanguinário, era jornalista de mérito e intelectual de renome.

Todos os fazedores de guerra, ditadores e revolucionários, antigos e modernos, foram Incubados no convívio de professores ilustres, de páginas científicas, de livros técnicos ou de universidades famosas.
Razão sem luz pode transformar-se em simples Cálculo.

Instrução e ciência são portas de acesso à educação e à sabedoria.
Quem apenas conhece nem sempre sabe.

A cultura do espírito vai mais longe:
ajuda o homem a converter-se em santuário vivo, através do qual se irradia o Poder Soberano e Misericordioso.

Necessário, pois, semear pensamentos enobrecedores e santificantes, amparando a mente que recomeça a lição de aprimoramento Individual.

Esquecer a Infância e a juventude será desprezar o futuro.

Regozijando-nos, assim, com a tarefa do amigo que nos doou estas páginas, cheias de sentimento paternal e de idealismo superior, saudamos, em companhia dele, a alvorada sublime de amor e paz, que resplandece, com Jesus, para a Terra de amanhã, regenerada e feliz.

EMMANUEL

Pedro Leopoldo, 21 de junho de 1948.

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Re: ALVORADA CRISTÃ - NEIO LÚCIO

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 06, 2011 10:21 pm

1 - Sigamos com Jesus

Maomé foi valoroso condutor de homens.
Milhões de pessoas curvaram-se-lhe às ordens.

Todavia, deixou o corpo como qualquer mortal e seus restos foram encerrados numa urna, que é visitada, anualmente, por milhares de curiosos e seguidores.

Carlos 5º, poderoso imperador da Espanha, sonhou com o domínio de toda a Terra, dispôs de riquezas imensas, governou muitas regiões;
entretanto, entregou, um dia, a coroa e o manto ao asilo de pó.

Napoleão era um grande homem.
Fez muitas guerras.
Dominou milhões de criaturas.

Deixou o nome inesquecível no livro das nações.
Hoje, porém, seu túmulo é venerado em Paris...
Muita gente faz peregrinação até lá, para visitar-lhe os ossos...

Como acontece a Maomé, a Carlos 5º e a Napoleão, os maiores heróis do mundo são lembrados em monumentos que lhes guardam os despojos.

Com Jesus, todavia, é diferente.
No túmulo de Nosso Senhor, não há sinal de cinzas humanas.

Nem pedrarias, nem mármores de preço, com frases que indiquem, ali, a presença da carne e do sangue.
Quando os apóstolos visitaram o sepulcro, na gloriosa manhã da Ressurreição, não havia aí nem luto, nem tristeza.

Lá encontraram um mensageiro do reino espiritual que lhes afirmou: “Não está aqui.”

E o túmulo está aberto e vazio, há quase dois mil anos.
Seguindo, pois, com Jesus, através da luta de cada dia, jamais encontraremos a angústia da morte e, sim, a vida incessante.

No caminho de notáveis orientadores do mundo poderemos encontrar formosos espectáculos da glória passageira;
contudo, é muito difícil não terminarmos a experiência em desilusão e poeira.

Somente Jesus oferece estrada invariável para a Ressurreição Divina.

Quem se desenvolve, portanto, com o exemplo e com a palavra do Mestre, trabalhando por revelar bondade e luz, em si mesmo, desde as lutas e ensinamentos do mundo, pode ser considerado cidadão celeste.

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Re: ALVORADA CRISTÃ - NEIO LÚCIO

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 06, 2011 10:21 pm

2 - Na direcção do bem

O Senhor tudo criou na direcção do bem.
Todas as criaturas, por isto, são chamadas a produzir proveitosamente.

A erva tenra sustenta os animais.
A fonte oculta socorre o insecto humilde.
A árvore é abençoada companheira dos homens.
A flor produzirá fruto.

O fruto dar-nos-á mesa farta.
O rio distribui as águas.
A chuva lava o céu e sacia a terra sedenta.

A pedra faz o alicerce de nossa casa.
A boa palavra revela o bom caminho.

Como desconhecer os santos propósitos da vida, se a natureza que a sustenta reflecte os sábios desígnios da Providência?

Grande escola para o nosso espírito, a Terra é um livro gigantesco em que podemos ler a mensagem de amor universal que o Pai Celeste nos envia.

Desde a gota de orvalho que alimenta o cacto espinhoso, à luz do Sol que brilha no alto para todos os seres, podemos sentir o apelo da Infinita Sabedoria ao serviço de cooperação na felicidade, na paz e na alegria dos semelhantes.

Todo homem e toda mulher nascem no mundo
para tarefas santificantes, segundo a Divina Lei.

Com alegria, o bom administrador governa os interesses do povo.
Com alegria, o bom lavrador ara o solo e protege a sementeira.

O homem que semeia no chão, garantindo a subsistência das criaturas, é irmão daquele que dirige o pensamento das nações para o conhecimento divino.

A mulher que recebe homenagens pelas suas virtudes públicas é irmã daquela que, na intimidade do lar, se sacrifica pela criancinha doente.

Deus conhece as pessoas pelo que produzem, assim como nós conhecemos as árvores pelos frutos que nos estendem.

Em razão disto, os homens bons são amados e respeitados.
A presença deles atrai o carinho e a veneração dos semelhantes.

Os maus, todavia, são portadores de acções e palavras indesejáveis e toda gente lhes evita o convívio, tanto quanto nos afastamos das plantas espinhosas e ingratas.

O homem bom compreende que a vida lhe pede a bênção do serviço e levanta-se cada manhã, pensando:
— “Que belo dia para trabalhar!”

O mau, porém, ergue-se de mau humor. Não sabe sorrir para os que o cercam e costuma exclamar:
— “Dia terrível! Que destino cruel! Detesto o trabalho e odeio a vida!”

Um homem, qual esse, precisa de auxílio dos homens bons, porque em não se dedicando ao serviço digno será realmente muito infeliz.

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Re: ALVORADA CRISTÃ - NEIO LÚCIO

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 06, 2011 10:22 pm

3 - Pequena história

Um dia, a Gota dÁgua, o Raio de Luz, a Abelha e o Homem Preguiçoso chegaram ao Trono de Deus.

O Todo-Poderoso recebeu-os, com bondade, e perguntou pelo que faziam.

A Gota dÁgua avançou e disse:
— Senhor, eu estive num terreno quase deserto, auxiliando uma raiz de laranjeira.

Vi muitas árvores sofrendo sede e diversos animais que passavam, aflitos, procurando mananciais.

Fiz o que pude, mas venho pedir-te outras Gotas dÁgua que me ajudem a socorrer quantos necessitam de nós.

O Pai sorriu, satisfeito, e exclamou:
— Bem-aventurada sejas pelo entendimento de minhas obras.
Dar-te-ei os recursos das chuvas e das fontes.

Logo após, o Raio de Luz adiantou-se e falou:
— Senhor, eu desci... desci... e encontrei o fundo de um abismo.

Nesse antro, combati a sombra, quanto me foi possível, mas notei a presença de muitas criaturas suplicando claridade.

Venho ao Céu rogar-te outros Raios de Luz que comigo cooperem na libertação de todos aqueles que, no mundo, ainda sofrem a pressão das trevas.

O Pai, contente, respondeu:
— Bem-aventurado sejas pelo serviço à Criação.
Dar-te-ei o concurso do Sol, das lâmpadas, dos livros iluminados e das boas palavras que se encontram na Terra.

Depois disso, a Abelha explicou-se:
— Senhor, tenho fabricado todo o mel, ao alcance de minhas possibilidades.
Mas vejo tantas crianças fracas e doentes que te venho implorar mais flores e mais Abelhas, a fim de aumentar a produção...

O Pai, muito feliz, abençoou-a e replicou:
— Bem-aventurada sejas pelos benefícios que prestaste.
Conceder-te-ei novos jardins e novas companheiras.

Em seguida, o Homem Preguiçoso foi chamado a falar.

Fez uma cara desagradável e informou:
— Senhor, nada consegui fazer.
Por todos os lados, encontrei a inveja e a perseguição, o ódio e a maldade.

Tive os braços atados pela ingratidão dos meus semelhantes.
Tanta gente má permanecia em meu caminho que, em verdade, nada pude fazer.

O Pai bondoso, com expressão de descontentamento, exclamou:
— Infeliz de ti, que desprezaste os dons que te dei.
Adormeceste na preguiça e nada fizeste.

Os seres pequeninos e humildes alegraram meu Trono com o relatório de seus trabalhos, mas tua boca sabe apenas queixar, como se a inteligência e as mãos que te confiei para nada valessem.

Retira-te! os filhos inúteis e ingratos não devem buscar-me a presença.
Regressa ao mundo e não voltes a procurar-me enquanto não aprenderes a servir.

A Gota dÁgua regressou, cristalina e bela.
O Raio de Luz tornou aos abismos, brilhando cada vez mais.

A Abelha desceu zumbindo, feliz.
O Homem Preguiçoso, porém, retirou-se muito triste.

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Re: ALVORADA CRISTÃ - NEIO LÚCIO

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 06, 2011 10:22 pm

4 - Prémio ao sacrifício

Três irmãos dedicados a Jesus leram no Evangelho que cada homem receberá sempre, de acordo com as próprias obras, e prometeram cumprir as lições do Mestre.

O primeiro colocou-se na indústria do fio de algodão e, de tal modo se aplicou ao serviço que, em breve, passou à condição de interessado nos lucros administrativos.

Dentro de vinte e cinco anos, era o chefe da organização e adquiriu títulos de verdadeiro benfeitor do povo.

Ganhava dinheiro com imensa facilidade e socorria infortunados e sofredores.
Dividia o trabalho equitativamente e distribuía os lucros com justiça e bondade.

O segundo estudou muito tempo e tornou-se juiz famoso.
Embora gozasse do respeito e da estima dos contemporâneos, jamais olvidou os compromissos que assumira à frente do Evangelho.

Defendeu os humildes, auxiliou os pobres e libertou muitos prisioneiros perseguidos pela maldade.

De juiz tornou-se legislador e cooperou na confecção de leis benéficas e edificantes.
Viveu sempre honrado, rico, feliz, correcto e digno.

O terceiro, porém, era paralítico.
Não podia usar a inteligência com facilidade.
Não poderia comandar uma fábrica, nem dominar um tribunal.

Tinha as pernas mirradas.
O leito era a sua residência.

Lembrou, contudo, que poderia fazer um serviço de oração e começou a tarefa pela humilde mulher que lhe fazia a limpeza doméstica.

Viu-a triste e lacrimosa e procurou conhecer-lhe as mágoas com discrição e fraternidade.

Confortou-a com ternura de irmão.
Convidou-a a orar e pediu para ela as bênçãos divinas.

Bastou isto e, em breve, trazidos pela servidora reconhecida, outros sofredores vinham rogar-lhe o concurso da prece.

O aposento singelo encheu-se de necessitados.
Orava em companhia de todos, oferecia-lhes o sorriso de confiança na bondade celeste.

Comentava os benefícios da dor, expunha suas esperanças no Reino Divino.
Dava de si mesmo, gastando emoções e energias no santo serviço do bem.

Escrevia cartas inúmeras, consolando viúvas e órfãos, doentes e infortunados, insuflando-lhes paz e coragem.

Comia pouco e repousava menos.
Tanto sofreu com as dores alheias que chegou a esquecer-se de si mesmo e tanto trabalhou que perdeu o dom da vista.

Cego, contudo, não ficou sozinho.
Prosseguiu colaborando com os sofredores, através da oração, ajudando-os, cada vez mais.

Morreram os três irmãos, em idade avançada, com pequenas diferenças de tempo.
Quando se reuniram, na vida espiritual, veio um Anjo examinar-lhes as obras com uma balança.

O industrial e o juiz traziam grande bagagem, que se constituía de várias bolsas, recheadas com o dinheiro e com as sentenças que haviam distribuído em benefício de muitos.

O servidor da prece trazia apenas pequeno livro, onde costumava escrever suas rogativas.

O primeiro foi abençoado pelo conforto que espalhou com os necessitados e o segundo foi também louvado pela justiça que semeara sabiamente.

Quando o Anjo, porém, abriu o livro do ex-paralítico, dele saiu uma grande luz, que tudo envolveu numa coroa resplandecente.
A balança foi incapaz de medir-lhe a grandeza.

Então, o Mensageiro falou-lhe, feliz:
— Teus irmãos são benditos na Casa do Pai pelos recursos que distribuíram, em favor do próximo, mas, em verdade, não é muito difícil ajudar com o dinheiro e com a faina que se multiplicam facilmente no mundo.

Sê, porém, bem-aventurado, porque deste de ti mesmo, no amor santificante.

Gastaste as mãos, os olhos, o coração, as forças, os sentimentos e o tempo a benefício dos semelhantes e a Lei do Sacrifício determina que a tua moradia seja mais alta.

Não transmitiste apenas os bens da vida: irradiaste os dons de Deus.

E o servidor humilde do povo foi conduzido a um céu mais elevado, de onde passou a exercer autoridade sobre muita gente.

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Re: ALVORADA CRISTÃ - NEIO LÚCIO

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 06, 2011 10:22 pm

5 - O servo feliz

Certo dia, chegaram ao Céu um Marechal, um Filósofo, um Político e um Lavrador.

Um Emissário Divino recebeu-os, em elevada esfera, a fim de ouvi-los.

O Marechal aproximou-se, reverente, e falou:
— Mensageiro do Comando Supremo, venho da Terra distante.
Conquistei muitas medalhas de mérito, venci numerosos inimigos, recebi várias homenagens em monumentos que me honram o nome.

— Que deseja em troca de seus grandes serviços? — indagou o Enviado.
— Quero entrar no Céu.

O Anjo respondeu sem vacilar:
— Por enquanto, não pode receber a dádiva.
Soldados e adversários, mulheres e crianças chamam-no insistentemente da Terra.
Verifique o que alegam de sua passagem pelo mundo e volte mais tarde.

O Filósofo acercou-se do preposto divino e — Anjo do Criador Eterno, venho do acanhado círculo dos homens.
Dei às criaturas muita matéria de pensamento.
Fui laureado por academias diversas.
Meu retrato figura na galeria dos dicionários terrestres.

— Que pretende pelo que fez? — perguntou o Emissário.
— Quero entrar no Céu.
— Por agora, porém — respondeu o mensageiro sem titubear —, não lhe cabe a concessão.

Muitas mentes estão trabalhando com as ideias que você deixou no mundo e reclamam-lhe a presença, de modo a saberem separar-lhe os caprichos pessoais da inspiração sublime. Regresse ao velho posto, solucione seus problemas e torne oportunamente.

O Político tomou a palavra e acentuou:
— Ministro do Todo-Poderoso, fui administrador dos interesses públicos.
Assinei várias leis que influenciaram meu tempo.
Meu nome figura em muitos documentos oficiais.

— Que pede em compensação? — perguntou o Missionário do Alto.
— Quero entrar no Céu.

O Enviado, no entanto, respondeu, firme:
— Por enquanto, não pode ser atendido.
O povo mantém opiniões divergentes a seu respeito.

Inúmeras pessoas pronunciam-lhe o nome com amargura e esses clamores chegam até aqui.
Retorne ao seu gabinete, atenda às questões que lhe interessam a paz Íntima e volte depois.

Aproximou-se, então, o Lavrador e falou, humilde:
— Mensageiro de Nosso Pai, fui cultivador da terra... plantei o milho, o arroz, a batata e o feijão.

Ninguém me conhece, mas eu tive a glória de conhecer as bênçãos de Deus e recebê-las, nos raios do Sol, na chuva benfeitora, no chão abençoado, nas sementes, nas flores, nos frutos, no amor e na ternura de meus filhinhos...

O Anjo sorriu e disse:
— Que prémio deseja?

O Lavrador pediu, chorando de emoção:
— Se Nosso Pai permitir, desejaria voltar ao campo e continuar trabalhando.

Tenho saudades da contemplação dos milagres de cada dia...
A luz surgindo no firmamento em horas certas, a flor desabrochando por si mesma, o pão a multiplicar-se!...

Se puder, plantarei o solo novamente para ver a grandeza divina a revelar-se no grão, transformado em dadivosa espiga...

Não aspiro a outra felicidade senão a de prosseguir aprendendo, semeando, louvando e servindo!...

O Mensageiro Espiritual abraçou-o e exclamou, chorando igualmente, de júbilo:
— Venha comigo!
O Senhor deseja vê-lo e ouvi-lo, porque diante do Trono Celestial apenas comparece quem procura trabalhar e servir sem recompensa.

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Re: ALVORADA CRISTÃ - NEIO LÚCIO

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 06, 2011 10:23 pm

6 - Rebeldia

O pequeno rebelde amava a Mãezinha viúva com entranhado amor; entretanto, iludido pela indisciplina, dava ouvido, aos conselhos perversos.

Estimava a leitura de episódios sensacionais, em que homens revoltados formam quadrilhas de malfeitores, nas cidades grandes, e, a qualquer página edificante, preferia o folhetim com aventuras desagradáveis ou criminosas.

Engolfou-se em tantas histórias de gente má que, embora a palavra materna o convidasse ao trabalho digno, trazia sempre respostas negativas e rudes na ponta da língua.

— Filho — exclamava a senhora paciente —, homem de bem acomoda-se no serviço.
— Eu não! — replicava, zombeteiro.
— Vamos à oficina. O chefe prometeu ceder-te um lugar.

— Não vou! não vou!...
— Mas já deixaste a escola, meu filho.
É tempo de crescer e progredir nos deveres bem cumpridos.

— Não fui à escola, a fim de escravizar-me.
Tenho inteligência.
Ganharei com menor esforço.

E enquanto a progenitora costurava, até tarde, de modo a manter a casa modesta, o filho, já rapaz, vivia habitualmente na rua movimentada.

Tomava alcoólicos em excesso e entregava-se a companhias perigosas que, pouco a pouco, lhe degradaram o carácter.

Chegava a casa, embriagado, altas horas da noite, muita vez conduzido por guardas policiais.

Vinha a devotada Mãe com o socorro de todos os instantes e rogava-lhe, no outro dia:
— Filho, trabalhemos dignamente.
Todo tempo é adequado à rectificação dos nossos erros.

Atrevido e ingrato, resmungava:
— A senhora não me entende.
Cale-se. Só fala em dever, dever, dever...

A pobre costureira pedia-lhe calma, juízo e chorava, depois, em preces.
Avançando no vicio, o rapaz começou a às escondidas.

Assaltava instituições comerciais, onde sabia fácil o acesso ao dinheiro;
e quando a Mãezinha, adivinhando-lhe as faltas, tentou aconselhá-lo, gritou:
— Mãe, não preciso de suas observações!

Deixá-la-ei em paz e voltarei, mais tarde, com grande fortuna.
Dar-lhe-ei casa, roupa e bem-estar com fartura.
A senhora tem o pensamento preso a obrigações porque, desde cedo, vem atravessando vida miserável.

Assim dizendo, fugiu para a via pública e não regressou ao lar.
Ninguém mais soube dele. Ausentara-se, definitivamente, em direcção a importante metrópole, alimentando o propósito de furtar recursos alheios, de maneira a voltar muito rico ao convívio maternal.

Passou o tempo.
Um, dois, três, quatro, cinco anos...
A Mãezinha, contudo, não perdeu a esperança de reencontrá-lo.

Certo dia, a imprensa estampou nos jornais o retrato de um ladrão que se tornava famoso pela audácia e inteligência.

A costureira reconheceu nele o filho e tocou para a cidade que o abrigava.

A polícia não lhe conhecia o endereço e, porque fosse difícil localizá-lo rapidamente, a senhora tomou quarto num hotel, a fim de esperar.

Na terceira noite em que aí se encontrava, notou que um homem embuçado lhe penetrava o aposento às escuras.

Aproximou-se apressado para surripiar-lhe a bolsa.
Ela tossiu e ia gritar por socorro, quando o ladrão, temendo as consequências, lhe agarrou a garganta e estrangulou-a.

Nos estertores da morte, a costureira reconheceu a presença do filho e murmurou, debilmente:
— Meu... meu... filho...

Alucinado, o rapaz fez luz, identificou a Mãezinha já morta e caiu de joelhos, gritando de dor selvagem.

A desobediência conduzira-o, progressivamente, ao crime e à loucura.

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Re: ALVORADA CRISTÃ - NEIO LÚCIO

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 06, 2011 10:23 pm

7 - O grande príncipe

Um rei oriental, poderoso e sábio, achando-se envelhecido e doente, reuniu os três filhos, deu a cada um deles dois camelos carregados de ouro, prata e pedras preciosas e determinou-lhes gastar esses tesouros, em viagens pelo reino, durante três meses, com a obrigação de voltarem, logo após, a fim de que ele pudesse efectuar a escolha do príncipe que o sucederia no trono.

Findo o prazo estabelecido, os jovens regressaram à casa paterna.

Os dois mais velhos exibiam mantos riquíssimos e chegaram com enorme ruído de carruagens, mas o terceiro vinha cansado e ofegante, arrimando-se a um bordão qual mendigo, despertando a ironia e o assombro de muita gente.

O rei bondoso abençoou-os discretamente e dispôs-se a ouvi-los, perante compacta multidão.

O primeiro aproximou-se, fez larga reverência, e notificou:
— Meu pai e meu soberano, viajei em todo o centro do País e adquiri, para teu descanso, um admirável palácio, onde teu nome será venerado para sempre.

Comprei escravos vigorosos que te sirvam e reuni, nesse castelo, digno de ti, todas as maravilhas de nosso tempo.
Dessa moradia resplandecente, poderás governar sempre honrado, forte e feliz.

O monarca pronunciou algumas palavras de agradecimento, mostrou amoroso gesto de aprovação e mandou que o segundo filho se adiantasse:
— Meu pai e meu rei! — exclamou, contente — trago-te a colecção de tapetes mais ricos do mundo.

Dezenas de pessoas perderam o dom da vista, a fim de tecê-los.

Aproxima-se da cidade uma caravana de vinte camelos, carregando essas preciosidades que te ofereço, ó augusto dirigente, para revelares tua fortuna e poder!...

O monarca expressou gratidão numa frase carinhosa e recomendou que o mais moço tomasse a palavra.

O filho mais novo, alquebrado e mal vestido, ajoelhou-se e falou, então:
— Amado pai, não trouxe qualquer troféu para o teu trono venerável e glorioso...

Viajei pela terra que o Supremo Senhor te confiou, de Norte a Sul e de Leste a Oeste, e vi que os súbditos esperam de teu governo a paz e o bem-estar, tanto quanto o crente aguarda a felicidade da Protecção do Céu...

Nas montanhas, encontrei a febre devorando corpos mal abrigados e movimentei médicos e remédios, em favor dos sofredores.

Ao Norte, vi a ignorância dominando milhares de meninos e jovens desamparados e instalei escolas em nome de tua administração justiceira.

A Oeste, nas regiões pantanosas, fui surpreendido por bandos de leprosos e dei-lhes conveniente asilo em teu nome.

Nas cidades do Sul, notei que centenas de mulheres e crianças são vilmente exploradas pela maldade humana e iniciei a construção de oficinas em que o trabalho edificante as recolha.

Nas fronteiras, conheci inúmeros escravos de ombros feridos, amargurados e doentes, e libertei-os, anunciando-lhes a magnanimidade de tua coroa!...

A comoção interrompeu-o.
Fez-se grande silêncio e viu-se que o velho soberano mostrava os olhos cheios de lágrimas.

O rapaz cobrou novo ânimo e terminou:
— Perdoa-me se entreguei teu dinheiro aos necessitados e desculpa-me se regresso à tua presença envolvido em extrema pobreza, por haver conhecido, de perto, a miséria, a enfermidade, a ignorância e a fome nos domínios que o Céu conferiu às tuas mãos benfeitoras...

A única dádiva que te trago, amado pai, é o meu coração reconhecido pelo ensinamento que me deste, permitindo-me contemplar o serviço que me cabe fazer...

Não desejo descansar enquanto houver sofrimento neste reino, porque aprendi contigo que as necessidades dos filhos do povo são iguais às dos filhos do rei!...

O velho monarca, em pranto, muito trémulo, desceu do trono, abraçou demoradamente o filho esfarrapado, retirou a coroa e colocou-a sobre a fronte dele, exclamando, solene:
— Grande Príncipe:
Deus, o Eterno Senhor te abençoe para sempre!
É a ti que compete o direito de governar, enquanto viveres.

A multidão aplaudiu, delirando de júbilo, enquanto o jovem soberano, ajoelhado, soluçava de emoção e reconhecimento.

Ave sem Ninho

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Re: ALVORADA CRISTÃ - NEIO LÚCIO

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 06, 2011 10:23 pm

8 - O juiz recto

Ao tribunal de Eliaquim ben Jefté, juiz respeitável e sábio, compareceu o negociante Jonatan ben Caiar arrastando Zorobabel, miserável mendigo.

— Este homem — clamou o comerciante, furioso — impingiu-me um logro de vastas proporções!

Vendeu-me um colar de pérolas falsas, por cinco peças de ouro, asseverando que valiam cinco mil.

Comprei as jóias, crendo haver realizado excelente negócio, descobrindo, afinal, que o preço delas é inferior a dois ovos cozidos.

Reclamei directamente contra o mistificador, mas este vagabundo já me gastou o rico dinheiro.

Exijo para ele as penas da justiça!
É ladrão reles e condenável!...

O magistrado, porém, que cultuava a Justiça Suprema, recomendou que o acusado se pronunciasse por sua vez:
— Grande juiz — disse ele, timidamente —, reconheço haver transgredido os regulamentos que nos regem.

Entretanto, tenho meus dois filhos estirados na cama e debalde procuro trabalho digno, pois mo recusam sempre, a pretexto de minha idade e de minha pobre apresentação.

Realmente, enganei o meu próximo e sou criminoso, mas prometo resgatar meu débito logo que puder.

O juiz meditou longamente e sentenciou:
— Para Zorobabel, o mendigo, cinco bastonadas entre quatro paredes, a fim de que aprenda a sofrer honestamente, sem assalto à bolsa dos semelhantes, e, para Jonatan, o mercador, vinte bastonadas, na praça pública, de modo a não mais abusar dos humildes.

O negociante protestou, revoltado:
— Que ouço? Sou vítima de um ladrão e devo pagar por faltas que não cometi?
Iniquidade! iniquidade!...

O magistrado, todavia, bateu forte com um martelo sobre a mesa, chamando a atenção dos presentes, e esclareceu, em voz alta:
— Jonatan ben Caiar, a justiça verdadeira não reside na Terra para examinar as aparências.

Zorobabel, o vagabundo, chefe de uma família infeliz, furtou-te cinco peças de ouro, no propósito de socorrer os filhos desventurados, porém, tu, por tua vez, tentaste roubar dele, valendo-te do infortúnio que o persegue, apoderando-te de um objecto que acreditaste valer cinco mil peças de ouro ao preço irrisório de cinco.

Quem é mais nocivo à sociedade, perante Deus:
o mísero esfomeado que rouba um pão, a fim de matar a fome dos filhos, ou o homem já atendido pela Bondade do Eterno, com os dons da fortuna e da habilidade, que absorve para si uma padaria inteira, a fim de abusar, calculadamente, da alheia indigência?

Quem furta por necessidade pode ser um louco, mas quem acumula riquezas, indefinidamente, sem movimentá-las no trabalho construtivo ou na prática do bem, com absoluta despreocupação pelas angústias dos pobres, muita vez passará por inteligente e sagaz, aos olhos daqueles que, no mundo, adormeceram no egoísmo e na ambição desmedida, mas é malfeitor diante do Todo-Poderoso que nos julgará a todos, no momento oportuno.

E, sob a vigilância de guardas robustos, Zorobabel tomou cinco bastonadas em sala de portas lacradas, para aprender a sofrer sem roubar, e Jonatan apanhou vinte, na via pública, de modo a não mais explorar, sem escrúpulos, a miséria, a simplicidade e a confiança do povo.

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Re: ALVORADA CRISTÃ - NEIO LÚCIO

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 06, 2011 10:24 pm

9 - O ricaço distraído

Existiu um homem devoto que chegou ao Céu e, sendo recebido por um Anjo do Senhor, implorou, enlevado:
— Mensageiro Divino, que devo fazer para vir morar, em definitivo, ao lado de Jesus?
— Faz o bem — informou o Anjo — e volta mais tarde.

— Posso rogar-te recursos para semelhante missão?
— Pede o que desejas.
— Quero dinheiro, muito dinheiro, para socorrer o meu próximo.

O emissário estranhou o pedido e considerou:
— Nem sempre o ouro é o auxiliar mais eficiente para isso.
— Penso, contudo, meu santo amigo, que, sem ouro, é muito difícil praticar a caridade.

— E não temes as tentações do caminho?
— Não.
— Terás o que almejas — afirmou o mensageiro —, mas não te esqueças de que o tesouro de cada homem permanece onde tem o coração, porque toda alma reside onde coloca o pensamento.

Tuas possibilidades materiais serão multiplicadas.
No entanto, não olvides que as dádivas divinas, quando retidas despropositadamente pelo homem, sem qualquer proveito para os semelhantes, transformam-no em prisioneiro delas.

A lei determina sejamos escravos dos excessos a que nos entregarmos.

Prometeu o homem exercer a caridade, servir extensamente e retornou ao mundo.
Os Anjos da Prosperidade começaram, então, a ajudá-lo.

Multiplicaram-lhe, de início, as peças de roupa e os pratos de alimentação;
todavia, o devoto já remediado suplicou mais roupas e mais alimentos.

Deram-lhe casa e haveres.
Longe, contudo, de praticar o bem, considerava sempre escassos os dons que possuía e rogou mais casas e mais haveres.

Trouxeram-lhe rebanhos e chácaras, mas o interessado em subir ao paraíso pela senda da caridade, temendo agora a miséria, implorou mais rebanhos e mais chácaras.

Não cedia um quarto, nem dava uma sopa a ninguém, declarando-se sem recursos para auxiliar os necessitados e esperava sempre mais, a fim de distribuir algum pão com eles.

No entanto, quanto mais o Céu lhe dava, mais exigia do Céu.
De espontâneo e alegre que era, passou a ser desconfiado, carrancudo e arredio.

Receando amigos e inimigos, escondia grandes somas em caixa forte, e quando envelheceu, de todo, veio a morte, separando-o da imensa fortuna.

Com surpresa, acordou em espírito, deitado no cofre grande.
Objectos preciosos, pedaços de ouro e prata e vastas pilhas de cédulas usadas serviam-lhe de leito.

Tinha fome e sede, mas não podia servir-se das moedas;
queria a liberdade, porém, as notas de banco pareciam agarrá-lo, à maneira do visco retentor de pássaro cativo.

— Santo Anjo! — gritou, em pranto — vem!
Ajuda-me a partir, em direcção à Casa Celestial!...

O mensageiro dignou-se baixar até ele e, reparando-lhe o sofrimento, exclamou:
— É muito tarde para súplicas!

Estás sufocado pela corrente de facilidades materiais que o Senhor te confiou, porque a fizeste rolar tão-somente em torno de ti, sem qualquer benefício para os irmãos de luta e experiência...

— E que devo fazer — implorou o infeliz — para retomar a paz e ganhar o paraíso?

O Anjo pensou, pensou... e respondeu:
- Espalha com proveito as moedas que ajuntaste inutilmente, desfaz-te da terra vasta que retiveste em vão, entrega à circulação do bem todos os valores que recebeste do Tesouro Divino e que amontoaste em derredor de teus pós, atendendo ao egoísmo, à vaidade, à avareza e à ambição destrutiva e, depois disso, vem a mim para retomarmos o entendimento efectuado há sessenta anos...

Reconhecendo, porém, o homem que já não dispunha de um corpo de carne para semelhante serviço, começou a gritar e blasfemar, como se o inferno estivesse morando em sua própria consciência.

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Re: ALVORADA CRISTÃ - NEIO LÚCIO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 07, 2011 10:09 pm

10 - O burro de carga

No tempo em que não havia automóveis, na cocheira de famoso palácio real um burro de carga curtia imensa amargura, em vista das pilhérias e remoques dos companheiros de apartamento.

Reparando-lhe o pêlo maltratado, as fundas cicatrizes do lombo e a cabeça tristonha e humilde, aproximou-se formoso cavalo árabe, que se fizera detentor de muitos prémios, e disse, orgulhoso:
— Triste sina a que recebeste!
Não invejas minha posição nas corridas?
Sou acariciado por mãos de princesas e elogiado pela palavra dos reis!

— Pudera! exclamou um potro de fina origem inglesa — como conseguirá um burro entender o brilho das apostas e o gosto da caça?

O infortunado animal recebia os sarcasmos, resignadamente.

Outro soberbo cavalo, de procedência húngara, entrou no assunto e comentou:
— Há dez anos, quando me ausentei de pastagem vizinha, vi este miserável sofrendo rudemente nas mãos de bruto amansador.

É tão covarde que não chegava a reagir, nem mesmo com um coice.
Não nasceu senão para carga e pancadas.
É vergonhoso suportar-lhe a companhia.

Nisto, admirável jumento espanhol acercou-se do grupo, e acentuou sem piedade:
— Lastimo reconhecer neste burro um parente próximo.
É animal desonrado, fraco, inútil...

Não sabe viver senão sob pesadas disciplinas.
Ignora o aprumo da dignidade pessoal e desconhece o amor-próprio.

Aceito os deveres que me competem até o justo limite;
mas, se me constrangem a ultrapassar as obrigações, recuso-me à obediência, pinoteio e sou capaz de matar.

As observações insultuosas não haviam terminado, quando o rei penetrou o recinto, em companhia do chefe das cavalariças.

— Preciso de um animal para serviço de grande responsabilidade — informou o monarca —, animal dócil e educado, que mereça absoluta confiança.

O empregado perguntou:
— Não prefere o árabe, Majestade?
Não, não — falou o soberano — é muito altivo e só serve para corridas em festejos oficiais sem maior importância.

— Não quer o potro inglês?
— De modo algum.
É muito irrequieto e não vai além das extravagâncias da caça.

— Não deseja o húngaro?
— Não, não.
É bravio, sem qualquer educação.
É apenas um pastor de rebanho.

— O jumento serviria? — insistiu o servidor atencioso.
— De maneira nenhuma.
É manhoso e não merece confiança.

Decorridos alguns instantes de silêncio, o soberano indagou:
— Onde está o meu burro de carga?
O chefe das cocheiras indicou-o, entre os demais.

O próprio rei puxou-o carinhosamente para fora, mandou ajaezá-lo com as armas resplandecentes de sua Casa e confiou-lhe o filho, ainda criança, para longa viagem.

Assim também acontece na vida.

Em todas as ocasiões, temos sempre grande número de amigos, de conhecidos e companheiros, mas somente nos prestam serviços de utilidade real aqueles que já aprenderam a suportar, servir e sofrer, sem cogitar de si mesmos.

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Re: ALVORADA CRISTÃ - NEIO LÚCIO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 07, 2011 10:09 pm

11 - A lição inesquecível

Hilda, menina abastada, diariamente dirigia más palavras à pequena vendedora de doces que lhe batia humildemente à porta da casa.
— Que vergonha! De bandeja! De esquina a esquina!
Vai-te daqui! — gritava, sem razão.

A modesta menina se punha pálida e trémula.

Entrementes, a dona da casa, tentando educar a filha, vinha ao encontro da pequena humilhada e dizia, bondosa:
— Que doces tão perfeitos!
Quem os fez assim tão lindos?

A mocinha, reanimada, respondia, contente:
— Foi a mamãe.

A generosa senhora comprava sempre alguma coisa e, em seguida, recomendava à filha:
- Hilda, não brinques com o destino.
Nunca expulses o necessitado que nos procura.
Quem sabe o que sucederá amanhã?
Aqueles que socorremos serão provavelmente os nossos benfeitores.

A menina resmungava e, à noite, ao jantar, o pai secundava os conselhos maternos, acrescentando:
- Não zombes de ninguém, minha filha!
O trabalho, por mais humilde, é sempre respeitável e edificante.
Por certo, dolorosas necessidades impelirão uma criança a vender doces, de porta em porta.

Hilda, contudo, no dia seguinte, fustigava a vendedora, exclamando:
- Fora daqui! Bruxa! bruxa!...

A mãe devotada acolhia a pequena descalça e repetia à filha as advertências carinhosas da véspera.
Correu o tempo e, depois de quatro anos, o quadro da vida se modificara.
O paizinho de Hilda adoeceu e debalde os médicos procuraram salvá-lo.

Morreu numa tarde calma, deixando o lar vazio.
A viúva recolheu-se ao leito extremamente abatida e, com as despesas enormes, em breve a pobreza e o desconforto invadiram-lhe a residência.

A pobre senhora mal podia mover-se.
Privações chegaram em bando.
A menina, anteriormente abastada, não podia agora comprar nem mesmo um par de sapatos.

Aflita por resolver a angustiosa situação, certa noite Hilda chorou muitíssimo, lembrando-se do papai.
Dormiu, lacrimosa, e sonhou que ele vinha do Céu confortá-la.

Ouviu-o dizer, perfeitamente:
- Não desanimes, minha filha!
Vai trabalhar!
Vende doces para auxiliar a mamãe!...

Despertou, no dia imediato, com o propósito firme de seguir o conselho.
Ajudou a mãezinha enferma a fazer muitos quadrinhos de doce de leite e, logo após, saiu a vendê-los.

Algumas pessoas generosas compravam-nos com evidente intuito de auxiliá-la;
entretanto, outras criaturas, principalmente meninos perversos, gritavam-lhe aos ouvidos:
- Sai daqui! Bruxa de bandeja!...

Sentia-se triste e desalentada, quando bateu à porta de uma casa modesta.
Graciosa jovem atendeu.
Ah! Que surpresa! Era a menina pobre que costumava vender cocadas noutro tempo.

Estava crescidinha, bem vestida e bonita.
Hilda esperou que ela a maltratasse por vingança, mas a jovem humilde fitou nela os grandes olhos, reconheceu-a, compreendeu-lhe a nova situação e exclamou, contente:
- Que doces tão perfeitos!
Quem os fez assim tão lindos?

A interpelada lembrou os ensinamentos maternos de anos passados e informou:
- Foi a mamãe.

A ex-vendedora comprou quantos quadrinhos restavam na bandeja e abraçou-a com sincera amizade.

Desse dia em diante, a menina vaidosa transformou-se para sempre.
A experiência lhe dera inesquecível lição.

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Re: ALVORADA CRISTÃ - NEIO LÚCIO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 07, 2011 10:10 pm

12 - A arma infalível

Certo dia, um homem revoltado criou um poderoso e longo pensamento de ódio, colocou-o numa carta rude e malcriada e mandou-o para o chefe da oficina de que fora despedido.

O pensamento foi vazado em forma de ameaças cruéis.

E quando o director do serviço leu as frases ingratas que o expressava, acolheu-o, desprevenidamente, no próprio coração, e tornou-se furioso sem saber porquê.

Encontrou, quase de imediato, o subchefe da oficina e, a pretexto de enxergar uma pequena peça quebrada, desfechou sobre ele a bomba mental que trazia consigo.

Foi a vez do subchefe tornar-se neurasténico, sem dar o motivo.
Abrigou a projecção maléfica no sentimento, permaneceu amuado várias horas e, no instante do almoço, ao invés de alimentar-se, descarregou na esposa o perigoso dardo intangível.

Tão só por ver um sapato imperfeitamente engraxado, proferiu dezenas de palavras feias;
sentiu-se aliviado e a mulher passou a asilar no peito a odienta vibração, em forma de cólera inexplicável.

Repentinamente transtornada pelo raio que a ferira e que, até ali, ninguém soubera remover, encaminhou-se para a empregada que se incumbia do serviço de calçados e desabafou.

Com palavras indesejáveis inoculou-lhe no coração o estilete invisível.
Agora, era uma pobre menina quem detinha o tóxico mental.

Não podendo despejá-lo nos pratos e xícaras ao alcance de suas mãos, em vista do enorme débito em dinheiro que seria compelida a aceitar, acercou-se de velho cão, dorminhoco e paciente, e transferiu-lhe o veneno imponderável, num pontapé de largas proporções.

O animal ganiu e disparou, tocado pela energia mortífera, e, para livrar-se desta, mordeu a primeira pessoa que encontrou na via pública.

Era a senhora de um proprietário vizinho que, ferida na coxa, se enfureceu instantaneamente, possuída pela força maléfica.

Em gritaria desesperada, foi conduzida a certa farmácia;
entretanto, deu-se pressa em transferir ao enfermeiro que a socorria a vibração amaldiçoada.

Crivou-o de xingamentos e esbofeteou-lhe o rosto.
O rapaz muito prestativo, de calmo que era, converteu-se em fera verdadeira.

Revidou os golpes recebidos com observações ásperas e saiu, alucinado, para a residência, onde a velha e devotada mãezinha o esperava para a refeição da tarde.

Chegou e descarregou sobre ela toda a ira de que era portador.
— Estou farto! — bradou — a senhora é culpada dos aborrecimentos que me perseguem!
Não suporto mais esta vida infeliz! Fuja de minha frente!...

Pronunciou nomes terríveis. Blasfemou.
Gritou, colérico, qual louco.

A velhinha, porém, longe de agastar-se, tomou-lhe as mãos e disse-lhe com naturalidade e brandura:
— Venha cá, meu filho! Você está cansado e doente!
Sei a extensão de seus sacrifícios por mim e reconheço que tem razão para lamentar-se.

No entanto, tenhamos bom ânimo! Lembremo-nos de Jesus!...
Tudo passa na Terra.
Não nos esqueçamos do amor que o Mestre nos legou...

Abraçou-o, comovida, e afagou-lhe os cabelos!
O filho demorou-se a contemplar-lhe os olhos serenos e reconheceu que havia no carinho materno tanto perdão e tanto entendimento que começou a chorar, pedindo-lhe desculpas.

Houve então entre os dois uma explosão de íntimas alegrias.
Jantaram felizes e oraram em sinal de reconhecimento a Deus.

A projecção destrutiva do ódio morrera, afinal, ali, dentro do lar humilde, diante da força infalível e sublime do amor.

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Re: ALVORADA CRISTÃ - NEIO LÚCIO

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 07, 2011 10:10 pm

13 - O servidor negligente

À porta de grande carpintaria, chegou um rapaz, de caixa às costas, à procura de emprego.

Parecia humilde e educado.
O director da instituição compareceu, atencioso, para atendê-lo.

— Tem serviço com que me possa favorecer? — indagou o jovem, respeitoso, depois das saudações habituais.
— As tarefas são muitas — elucidou o chefe.

— Oh! por favor! — tornou o interessado — meus velhos pais necessitam de amparo.
Tenho batido, em vão, à porta de várias oficinas.
Ninguém me socorre.
Contentar-me-ei com salário reduzido e aceitarei o horário que desejar.

O director, muito calmo, acentuou:
— Trabalho não falta...

E, enquanto o candidato mostrava um sorriso de esperança, acrescentou:
— Traz suas ferramentas em ordem?
— Perfeitamente — respondeu o interpelado.
— Vejamo-las.

O moço abriu a caixa que trazia.
Metia pena reparar-lhe os instrumentos.
A enxó se achava deformada pela ferrugem grossa.

O serrote mostrava vários dentes quebrados.
O martelo tinha cabo incompleto.
O alicate estava francamente desconjuntado.

Diversos formões não atenderiam a qualquer apelo de serviço, tal a imperfeição que apresentavam seus gumes.

Poeira espessa recobria todos os objectos.

O dirigente da oficina observou... observou... e disse, desencantado:
— Para o senhor, não temos qualquer trabalho.
— Oh! porquê? — interrogou o rapaz, em tom de súplica.

O director esclareceu, sem azedume:
— Se o senhor não tem cuidado com as ferramentas que lhe pertencem, como preservará nossas máquinas?

Se é indiferente naquilo em que deve sentir-se honrado, chegará a ser útil aos interesses alheios?

Quem não zela atentamente no “pouco” de que dispõe, não é digno de receber o “muito”.

Aprenda a cuidar das coisas aparentemente sem importância.

Pelas amostras, grandes negócios se realizam neste mundo e o menosprezo para consigo é indesejável mostruário de sua indiferença perniciosa.
Aproveite a experiência e volte mais tarde.

Não valeram petitórios do moço necessitado.
Foi compelido a retirar-se, em grande abatimento, guardando a dura lição.

Assim também acontece no caminho comum.
Quem deseja o corpo iluminado e glorioso na espiritualidade, além da morte, cuide respeitosamente do corpo físico.

Quem aspira à companhia dos anjos, mostre boas maneiras, boas palavras e boas acções aos vizinhos.

Quem espera a colheita de alegrias no futuro, aproveite a hora presente, na sementeira do bem.

E quantos sonharem com o Céu tratem de fazer um caminho de elevação na Terra mesma.

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