O que é a Doutrina

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Re: O que é a Doutrina

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 08, 2012 9:25 am

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É assim que num banho, o braço que parece muito pesado fora da água, parece muito leve dentro da água.

Substitui o liquido por um fluido que goze das mesmas propriedades e tereis o que se passa no caso presente, fenómeno que repousa no mesmo princípio que o das mesas e das pessoas que se mantém no espaço sem ponto de apoio.

Esse fluido é o fluido perispiritual, que o Espírito dirige à vontade, e cujas propriedades modifica pela simples acção da vontade.

Na circunstância presente, deve-se, pois, imaginar o braço da Sra. Maurel mergulhado num meio fluido que produz o efeito do ar sobre os balões.

Alguém perguntava, a respeito, se na cura dessa fractura, o Espírito do Dr. Demeure teria agido com ou sem concurso da electricidade e do calor.

A isto respondemos que a cura foi produzida, no caso, como em todos os casos de cura pela magnetização espiritual, pela acção do fluido emanado do Espírito;
que esse fluido, posto que etéreo, não deixa de ser matéria;
que pela corrente que lhe imprime, o Espírito pode com ele impregnar e saturar todas as moléculas da parte doente;

que pode modificar suas propriedade, como o magnetizador modifica as da água, dando-lhe uma virtude curativa às necessidades;

que a energia da corrente está na razão do número, da qualidade e da homogeneidade dos elementos que constituem a corrente das pessoas chamadas a fornecer seu contingente fluídico.


Essa corrente provavelmente activa a secreção que deve produzir a soldadura dos ossos e assim produz a cura mais rápida do que quando entregue a si mesma.

Agora a electricidade e o calor representam um papel no fenómeno?

Isto é tanto mais provável quanto o Espírito não curou por milagre, mas por uma aplicação mais judiciosa das leis da natureza, em razão de sua clarividência.

Se, como a ciência, é levada a admitir, a electricidade e o calor não são fluidos especiais, mas modificações ou propriedades de um fluido elementar universal, devem fazer parte dos elementos constitutivos do fluido perispiritual.

Sua acção, no caso vertente, está implicitamente compreendida, absolutamente como quando se bebe vinho, necessariamente se bebe água e álcool.

§.§.§- O-canto-da-ave
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Os Evangelhos explicados pelo Sr. Roustaing

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 09, 2012 10:35 am

Revista Espírita, junho de 1866

Esta obra compreende a explicação e a interpretação dos Evangelhos, artigo por artigo, com a ajuda de comunicações ditadas pelos Espíritos.

É um trabalho considerável e que tem, para os Espíritas, o mérito de não estar, em nenhum ponto, em contradição com a doutrina ensinada pelo Livro dos Espíritos e o dos Médiuns.

As partes correspondentes às que tratamos no Evangelho Segundo o Espiritismo o são em sentido análogo.

Aliás, como nos limitamos às máximas morais que, com raras excepções, são claras, estas não poderiam ser interpretadas de diversas maneiras;
assim, jamais foram assunto para controvérsias religiosas.

Por esta razão é que por aí começamos, a fim de ser aceito sem contestação, esperando, quanto ao resto, que a opinião geral estivesse mais familiarizada com a ideia espírita.

O autor desta nova obra julgou dever seguir um outro caminho. Em vez de proceder por gradação, quis atingir o fim de um salto.

Assim, tratou certas questões que não tínhamos julgado oportuno abordar ainda e das quais, por consequência, lhe deixamos a responsabilidade, como aos Espíritos que as comentaram.

Consequente com o nosso princípio, que consiste em regular a nossa marcha pelo desenvolvimento da opinião, até nova ordem não daremos as suas teorias nem aprovação nem desaprovação, deixando ao tempo o trabalho de as sancionar ou as contraditar.

Convém, pois, considerar essas explicações como opiniões pessoais dos Espíritos que as formularam, opiniões que podem ser justas ou falsas e que, em todo o caso, necessitam da sanção do controle universal, e, até mais ampla confirmação, não poderiam ser consideradas como partes integrantes da doutrina espírita.

Quando tratarmos destas questões fá-lo-emos decididamente.

Mas é que então teremos recolhido documentos bastante numerosos nos ensaios dados "de todos os lados" pelos Espíritos, a fim de poder falar afirmativamente e ter a certeza de estar "de acordo com a maioria".

É assim que temos feito, todas as vezes que se trata de formular um princípio capital.
Dissemo-lo cem vezes, para nós a opinião de um Espírito, seja qual for o nome que traga, tem apenas o valor de uma opinião individual.

Nosso critério está na concordância universal, corroborada por uma rigorosa lógica, para as coisas que não podemos controlar com os próprios olhos.

De que nos serviria dar prematuramente uma doutrina como uma verdade absoluta se, mais tarde, devesse ser combatida pela generalidade dos Espíritas?

Dissemos que o livro do Sr. Roustaing não se afasta dos princípios do Livro dos Espíritos e do dos Médiuns.
Nossas observações são feitas sobre a aplicação desses mesmos princípios à interpretação de certos factos.

É assim, por exemplo, que dá ao Cristo, em vez de um corpo carnal, um corpo fluídico concretizado, com todas as aparências da materialidade e de facto um "agénere".

Aos olhos dos homens que não tivessem então podido compreender sua natureza espiritual, deve ter passado "em aparência", expressão incessantemente repetida no curso de toda a obra, por todas as vicissitudes da humanidade.

Assim seria explicado o mistério de seu nascimento:
Maria teria tido todas as aparências da gravidez.

Posto como premissa e pedra angular, este ponto é a base em que se apoia para a explicação de todos os factos extraordinários ou miraculosos da vida de Jesus.

Nisso nada há de materialmente impossível para quem quer que conheça as propriedades do envoltório perispiritual.

Sem nos pronunciarmos pró ou contra essa teoria, diremos que ela é, pelo menos, hipotética, e que se um dia fosse reconhecida errada, em falta de base todo o edifício desabaria.

Esperamos, pois, os numerosos comentários que ela não deixará de provocar da parte dos Espíritos, e que contribuirão para elucidar a questão.

Sem a prejulgar, diremos que já foram feitas objecções sérias a essa teoria e que, em nossa opinião, os factos podem perfeitamente ser explicados sem sair das condições da humanidade corporal.

Estas observações, subordinadas à sanção do futuro, em nada diminuem a importância da obra que, ao lado de coisas duvidosas, em nosso ponto de vista, encerra outras incontestavelmente boas e verdadeiras, e será consultada com fruto pelos Espíritas sérios.

Se o fundo de um livro é o principal, a forma não é para desdenhar e contribui com algo para o sucesso.

Achamos que certas partes são desenvolvidas muito extensamente, sem proveito para a clareza.

A nosso ver, se, limitando-se ao estritamente necessário a obra poderia ter sido reduzida a dois, ou mesmo a um só volume e teria ganho em popularidade.

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Médicos médiuns

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 09, 2012 10:36 am

Revista Espírita, outubro de 1867

A sra. Condessa de Clérambert, da qual falamos no artigo anterior, oferecia uma das variedades da faculdade de curar, que se apresenta sob uma infinidade de aspectos e de nuances, apropriadas às aptidões especiais de cada indivíduo.

Em nossa opinião, era o tipo do que poderia ser entre muitos médicos, de que muitos poderão ser, sem dúvida, quando entrarem na via da espiritualidade, que lhes abre o Espiritismo, porque muitos verão desenvolver-se em si faculdades intuitivas, que lhes serão um precioso auxílio na prática.

Dissemos, e repetimo-lo, seria um erro crer que a mediunidade curadora venha destronar a medicina e os médicos.

Ela vem lhes abrir uma nova via, mostrar-lhes, na natureza, recursos e forças que ignoravam e com as quais podem beneficiar a ciência e os doentes, numa palavra, provar-lhes que não sabem tudo, desde que há pessoas que, fora da ciência oficial, conseguem o que eles mesmos não conseguem.

Assim, não temos a menor dúvida de que um dia haja médicos-médiuns, como há médiuns-médicos que, à ciência adquirida, juntarão o dom de faculdades mediúnicas especiais.

Apenas como essas faculdades só tem valor efectivo pela assistência dos Espíritos, que podem paralisar os seus efeitos pela retirada de seu concurso, que frustram à sua vontade os cálculos do orgulho e da cupidez, é evidente que não prestarão sua assistência aos que os renegarem e entenderem servir-se deles secretamente, em proveito de sua própria reputação e de sua fortuna.

Como Espíritos trabalham para a humanidade e não vêm para servir a interesses egoístas individuais;
como, em tudo o que fazem, agem em vista da propagação das doutrinas novas, são-lhes necessários soldados corajosos e devotados, e nada têm que fazer com poltrões, que tem medo da sombra da verdade.

Assim, secundarão os que, sem resistência e sem premeditação, colocarem suas aptidões ao serviço da causa que se esforçam por fazer prevalecer.

O desinteresse material, que é um dos atributos essenciais da mediunidade curadora, será, também, uma das condições da medicina mediúnica?
Então, como conciliar as exigências da profissão com uma abnegação absoluta?


Isto requer algumas explicações, porque a posição não é a mesma.

A faculdade do médium curador nada lhe custou.
Não lhe exigiu estudo, nem trabalho, nem despesas.
Recebeu-a gratuitamente, para o bem dos outros, e deve usá-la gratuitamente.

Como antes de tudo é preciso viver, se, por si mesmo, não tem recursos que o tornem independente, deve achar os seus meios no seu trabalho ordinário, como o teria feito antes de conhecer a mediunidade.

Não dá ao exercício de sua faculdade senão o tempo que lhe pode consagrar materialmente.

Se tira esse tempo de seu repouso e se emprega em tornar-se útil aos seus semelhantes o que teria consagrado a distracções mundanas, é o verdadeiro devotamento, e nisto só tem mais mérito.

Os Espíritos não pedem mais e não exigem nenhum sacrifício desarrazoado.

Não se poderia considerar devotamento e abnegação o abandono de seu trabalho para entregar-se a um trabalho menos penoso e mais lucrativo.

Na protecção que eles concedem, os Espíritos, aos quais a gente não se pode impor, sabem perfeitamente distinguir os devotamentos reais dos devotamentos fictícios.

Muito outra seria a posição dos médicos-médiuns.

A medicina é uma das carreiras sociais que se abraça para dela fazer uma profissão, e a ciência médica só se adquire a título oneroso, por um trabalho assíduo, por vezes penoso.

O saber do médico é, pois, uma conquista pessoal, o que não é o caso da mediunidade.

Se, ao saber humano, os Espíritos juntam seu concurso pelo dom de uma aptidão mediúnica, é para o médico um meio a mais para se esclarecer, para agir mais segura e eficazmente, pelo que deve ser reconhecido, mas não deixa de ser sempre médico;
é a sua profissão, que não deixa para fazer-se médium.

Nada há, pois, de repreensível em que continue a dela viver, e isto com tanto mais razão quanto a assistência dos Espíritos por vezes é inconsciente, intuitiva, e sua intervenção se confunde, às vezes, com o emprego dos meios ordinários de cura.

Porque um médico tornou-se médium e é assistido por Espíritos no tratamento de seus doentes, não se segue que deva renunciar a toda remuneração, o que o obrigaria a procurar os meios de subsistência fora da medicina e, assim, renunciar sua profissão.

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Re: O que é a Doutrina

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 09, 2012 10:37 am

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Mas se for animado do sentimento das obrigações que lhe impõe o favor que lhe é concedido, saberá conciliar seus interesses com os deveres de humanidade.

Não se dá o mesmo com o desinteresse moral que, em todos os casos, pode e deve ser absoluto.

Aquele que, em vez de ver na faculdade mediúnica um meio a mais de tornar-se útil aos seus semelhantes, nela só procurasse uma satisfação ao amor-próprio;
que considerasse um mérito pessoal os sucessos obtidos por esse meio, dissimulando a causa verdadeira, faltaria ao seu primeiro dever.

Aquele que, sem renegar os Espíritos, não visse em seu concurso, directo ou indirecto, senão um meio de suplementar a deficiência de sua clientela produtiva, com alguma aparência filantrópica que se cobre aos olhos dos homens, faria, por isso mesmo, acto de exploração.

Num caso, como no outro, tristes decepções seria a sua consequência inevitável, porque os simulacros e as saídas falsas não podem enganar os Espíritos, que 1êem no fundo do pensamento.

Dissemos que a mediunidade curadora não matará a medicina nem os médicos, mas não pode deixar de modificar profundamente a ciência médica.

Sem dúvida haverá sempre médiuns curadores, porque sempre os houve, e esta faculdade está na natureza, mas serão menos numerosos e menos à medida que aumentar o número de médicos-médiuns, e quando a ciência e a mediunidade se prestarem mútuo apoio.

Ter-se-á mais confiança nos médicos quando forem médiuns, e mais confiança nos médiuns quando forem médicos.

Não podem ser contestadas as virtudes curativas de certas plantas e de outras substâncias que a Providência pôs ao alcance do homem, colocando o remédio ao lado do mal.

O estudo dessas propriedades é do campo da medicina.
Ora, como os médiuns curadores só agem por influência fluídica, sem o emprego de medicamentos, se um dia devessem suplantar a medicina, resultaria que, dotando as plantas de propriedades curativas, Deus teria feito uma coisa inútil, o que é inadmissível.

Há, pois, que considerar a mediunidade curadora como um modo especial e não como meio absoluto de cura. O fluido, como um novo agente terapêutico aplicável em certos casos e vindo juntar um novo recurso à medicina.

Por consequência, a mediunidade curadora e a medicina como devendo de agora em diante marchar concurrentemente, destinadas a se auxiliarem mutuamente, a se suplementar e a se completar uma a outra.

Eis porque se pode ser médico sem ser médium curador, e médium curador sem ser médico.

Então porque esta faculdade hoje se desenvolve quase que exclusivamente nos ignorantes, em vez de nos homens de ciência?
Pela razão muito simples que, até agora, os homens de ciência a repelem.

Quando a aceitarem, vê-la-ão desenvolver-se entre si, como entre os outros.

Aquele que hoje a possuísse iria proclamá-la?
Não: oculta-la-ia com o maior cuidado.

Desde que ela é inútil em suas mãos, porque lha dar?
Seria o mesmo que dar um violão a um homem que não sabe e não quer tocar.

A este estado de coisas junta-se outro motivo capital.

Dando aos ignorantes o dom de curar males que os sábios não podem curar, é para provar e estes que nem tudo sabem, e que há leis naturais além das que a ciência reconhece.

Quando maior a distância entre a ignorância e o saber, mais evidente é o facto.
Quando se produz naquele que nada sabe, é uma prova certa de que ali em nada participou o saber humano.

Mas como a ciência não pode ser um atributo da matéria, o conhecimento do mal e dos remédios por intuição, como a faculdade de vidência, só podem ser atribuídos ao Espírito.

Elas provam no homem a existência do ser espiritual, dotado de percepções independentes dos órgãos corporais e, muitas vezes, de conhecimentos adquiridos anteriormente, numa precedente existência.

Esses fenómenos tem pois, ao mesmo tempo, a consequência de serem à humanidade, e de provar a existência do princípio espiritual.

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Constituição Transitória do Espiritismo

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 10, 2012 10:22 am

Revista Espírita, dezembro de 1868

I - Considerações Preliminares

O espiritismo teve, como todas as coisas, seu período de nascimento, e até que todas as questões, principais e acessórias, que a ele se ligam, tivessem sido resolvidas, ele só pode dar resultados incompletos;
pode-se entrever o seu objectivo, presumir-lhe as consequências, mas apenas de maneira vaga.

Da incerteza sobre os pontos ainda não determinados forçosamente deveriam nascer divergências sobre a maneira de os considerar;
a unificação só poderia ser obra do tempo;
ela se fez gradualmente, à medida que os princípios foram elucidados.


Somente quando a doutrina tiver abraçado todas as partes que comporta é que formará um todo harmonioso, e só então é que se poderá julgar o que é verdadeiramente o Espiritismo.

Enquanto o Espiritismo não era mais que uma opinião filosófica, não podia haver entre os adeptos senão a simpatia natural produzida pela comunidade das ideias, mas nenhum laço sério podia existir, por falta de um programa claramente definido.

Tal é, evidentemente, a principal causa da pouca coesão e estabilidade dos grupos e sociedades que se formarem.

Assim, constantemente e com todas as nossas forças, dissuadimos os Espíritas de fundar prematuramente qualquer instituição especial apoiada na doutrina, antes que esta estivesse assentada em bases sólidas;
teria sido expor-se a revezes inevitáveis, cujo efeito teria sido desastroso, pela impressão que teriam produzido sobre o público e pelo desencorajamento disto resultante nos adeptos.

Esses revezes talvez tivessem retardado de um século o progresso definitivo da doutrina, a cuja impotência teriam imputado um insucesso que, na realidade, não teria sido senão resultado da imprevidência.

Por não saber esperar para chegar ao ponto, os muito apressados e os impacientes em todos os tempos comprometeram.

As melhores causas (1).

Não se deve pedir às coisas senão o que elas podem dar, à medida que estejam em estado de produzir;
não se pode exigir de uma criança o que se deve esperar de um adulto, nem de uma árvore recentemente plantada o que só produzirá quando estiver em toda a sua força.

O Espiritismo, em via de elaboração, não podia dar senão resultados individuais;
os resultados colectivos e gerais serão os frutos do Espiritismo completo, que se desenvolverá sucessivamente.

Posto que o Espiritismo ainda não tenha dito sua última palavra sobre todos os pontos, aproxima-se de seu complemento e não está longe o momento em que será preciso dar-lhe uma base forte e durável, não obstante susceptível de receber todos os desenvolvimentos que circunstâncias ulteriores comportarem, e dando toda segurança aos que indagam que lhe tomará as rédeas depois de nós.

A doutrina é, sem dúvida, imperecível, porque repousa sobre as leis da natureza e que, melhor que qualquer outra, responde às legítimas aspirações dos homens;
entretanto sua difusão e sua instalação definitiva podem ser adiantadas ou retardadas por circunstâncias, algumas das quais estão subordinadas à marcha geral das coisas, mas outras são inerentes à própria doutrina, à sua constituição e à sua organização;
é destas que temos que nos ocupar especialmente no momento.


Posto que a questão de fundo em tudo seja preponderante e acabe sempre por prevalecer, a questão de forma tem aqui uma importância capital;
ela poderia mesmo ultrapassá-la momentaneamente a suscitar entraves e demoras, conforme a maneira por que for resolvida.

Teríamos, pois, feito uma coisa incompleta e deixado grandes embaraços para o futuro, se não tivéssemos previsto as dificuldades que possam surgir.

Foi em vista de o evitar que, com o concurso dos bons Espíritos que nos assistem em nossos trabalhos que elaboramos um plano de organização, para o qual tiramos proveito da experiência do passado, a fim de evitar os escolhos, contra os quais se chocaram, em maioria, as doutrinas que apareceram no mundo.
Podendo este plano prestar-se a todos os desenvolvimentos que reserva o futuro, demos a esta constituição a qualificação de transitória.

O plano que segue foi concebido há muito tempo, porque sempre nos preocupamos com o futuro do Espiritismo;
fizemo-lo pressentir em diversas circunstâncias, vagamente, é certo, mas suficientemente para mostrar que não é hoje uma concepção nova, e que, trabalhando na parte teórica da obra, não neglicenciávamos o lado prático.

Antes de abordar o fundo da questão, parece-nos útil lembrar algumas passagens do relatório que apresentamos à Sociedade de Paris, a 5 de maio de 1865, a propósito da caixa do Espiritismo, e que foi publicado na Revista de junho de 1865.

As considerações que ele encerra se ligam directamente ao nosso assunto, do qual elas são as preliminares indispensáveis.

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Re: O que é a Doutrina

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 10, 2012 10:23 am

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II - Extracto do relatório da caixa do Espiritismo feito à Sociedade de Paris, a 5 de maio de 1865.

Falaram muito dos produtos que tirava de minhas obras;
ninguém sério acredita realmente em meus milhões, mau grado a afirmação dos que dizem saber de boa fonte que eu tinha em trem de vida principesco, equipagens de quatro cavalos e que em minha caso só se pisava em tapetes de Aubusson.
(Revista de junho de 1862).

A despeito do que tinha dito, além disso, o autor de uma brochura que conheceis, e que prova, por cálculos hiperbólicos, que o meu orçamento das receitas ultrapassa a lista civil do mais poderoso soberano da Europa, porque, já na França, vinte milhões de Espíritas são meus tributários (Revista de junho de 1863), ninguém jamais me deu nada, para mim pessoalmente;
numa palavra, não vivo às custas de ninguém, pois que, das somas que me foram voluntariamente confiadas no interesse do Espiritismo, nenhuma parcela foi distraída em meu proveito (2).

Minhas imensas riquezas provem, pois, de minhas obras espíritas.

Posto que estas obras tenham tido um sucesso inesperado, basta ser algo iniciado em negócios de livraria, para saber que não é com livros filosóficos que se amontoam milhões em cinco ou seis anos, quando se tem sobre a venda o direito de autor de apenas alguns cêntimos por exemplar.

Mas, muito ou pouco, sendo esse produto o fruto de meu trabalho, ninguém tem o direito de se imiscuir no emprego que dele faço.

Ainda mesmo que se elevasse a milhões, do momento que a venda dos livros, assim como a assinatura da Revista, é facultativo e não é imposto em qualquer circunstância, nem mesmo para assistir às sessões da Sociedade, ninguém tem nada com isto.

Comercialmente falando, estou na posição de todo homem que colhe o fruto de seu trabalho;
corro a chance de todo escritor que pode vencer, como pode fracassar (3).

Posto que, a respeito, não tenha contas a prestar, creio útil, para a causa mesma a que me votei, dar algumas explicações.

Para começar, direi que não sendo as minha obras minha propriedade exclusiva, sou obrigado a comprá-las ao meu editor e as pagar como um livreiro, com excepção da Revista;
que o lucro se acha singularmente diminuído pelos "sem valor" e pelas distribuições gratuitas, feitas no interesse da doutrina, a pessoas que, sem isto, seriam obrigadas a deles se privar.

Um cálculo muito fácil prova que o preço de dez volumes perdidos ou dados, que não deixo de pagar, basta para absorver o lucro de cem volumes.

Isto seja dito a guisa de informação e entre parênteses.
Tudo somado e feito o balanço, contudo resta alguma coisa.

Imaginai a cifra que quiserdes.
Que é que faço com ela?
É o que mais preocupa certas criaturas.

Quem quer que outrora tenha visto o nosso interior e o veja hoje, pode atestar que nada mudou em nossa maneira de viver, desde que me ocupo do Espiritismo;
ela é agora tão simples quanto o era outrora.

Então é certo que os meus lucros, por enormes que sejam, não servem para nos dar os prazeres do luxo.

Será que eu tinha a mania de entesourar para ter o prazer de contemplar meu dinheiro?
Não penso que o meu carácter e os meus hábitos jamais tenham podido fazê-lo supor.

Que se passa, então?
Desde que isto não me aproveita, quanto mais fabulosa a soma, mais embaraçosa a resposta.

Um dia saberão a cifra exacta, assim como o emprego detalhado, e os fazedores de histórias terão para os seus gastos de imaginação.

Hoje limito-me a alguns dados gerais, para por um freio em suposições ridículas.
Para tanto, devo entrar nalguns detalhes íntimos, pelo que vos peço perdão, mas que são necessários.

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Re: O que é a Doutrina

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 10, 2012 10:24 am

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Em todos os tempos temos tido de viver, muito modestamente, é certo;
mas o que teria sido pouco para certa gente nos bastava, graças aos nosso gostos e aos nossos hábitos de ordem e de economia.

À nossa pequena renda vinha juntar-se o produto das obras que publiquei antes do Espiritismo, e o do modesto emprego que tive de deixar quando os trabalhos da doutrina absorverem todo o meu tempo.

Tirando-me da obscuridade, o Espiritismo veio lançar-me numa nova via;
em pouco tempo vi-me arrastado num movimento que estava longe de prever.

Quando concebi a ideia do Livro dos Espíritos, minha intenção, era não me por em evidência e ficar incógnito;
mas, logo ultrapassado, isto me foi impossível;
tive que renunciar aos meus gostos de retiro, sob pena de abdicar a obra empreendida e que crescia dia a dia.


Foi-me preciso seguir o seu impulso e tomar-lhe as rédeas.

Se meu nome tem agora alguma popularidade, não fui eu, certamente, que a busquei, pois é notório que nem a devo à propaganda, nem à camaradagem da imprensa, e que jamais me aproveite de minha posição e de minhas relações para me lançar na sociedade, quando isto teria sido fácil.

Mas, à medida que a obra crescia, um horizonte mais vasto se desenrolava à minha frente, recuando os seus limites.

Compreendi então a imensidade de minha tarefa e a importância do trabalho que me restava a fazer para a completar.

Longe de me apavorar, as dificuldades e os obstáculos redobraram a minha energia;
vi o objectivo, e resolvi atingi-lo com a assistência dos bons Espíritos.

Sentia que não tinha tempo a perder e não o perdi em visitas inúteis, nem em cerimónias ociosas.

Foi a obra de minha vida;
a ela dei todo o meu tempo, sacrifiquei o meu repouso, a minha saúde, porque o futuro estava escrito diante de mim em caracteres irrecusáveis.

Sem nos afastarmos do nosso género de vida, esta posição excepcional nem por isso deixou de criar necessidades às quais meus únicos recursos não permitiam ocorrer.

Seria difícil imaginar a multiplicidade de gastos que ela determina, e que sem isto eu teria evitado.

Ora! Senhores, o que me permitiu esse suplemento de recursos foi o produto de minhas obras.

Digo-o com felicidade, é com o meu próprio trabalho, com o fruto de minha vigílias que tenho provido, pelo menos na maior parte, as necessidades materiais da instalação da doutrina.

Trouxe, assim, uma grande quota-parte à caixa do Espiritismo.
Os que ajudam a propagação das obras não poderão, assim, dizer que trabalham para me enriquecer, pois que o produto de todo livro comprado, de toda assinatura da Revista aproveita à doutrina e não a um indivíduo.

Não era prover tudo no momento;
também era preciso pensar no futuro e preparar uma fundação que, depois de mim, pudesse ajudar aquele que me substituirá na grande tarefa que terá de executar.

Essa fundação, sobre a qual me devo calar ainda, se liga à propriedade que possuo, e é em vista disso que eu aplico uma parte de meus produtos em melhorá-la.

Como estou longe dos milhões com que me gratificaram, duvido muito que, a despeito de minhas economias, meus recursos pessoais jamais me permitiram dar a essa fundação o complemento que lhe queria ver me minha vida;
mas, desde que sua realização está nas vistas de meus guias espirituais, se eu mesmo não o fizer, é provável que um dia ou outro, isto seja feito.

Esperando, elaboro os seus planos.

Longe de mim, senhores, o pensamento de tirar a menor vaidade do que vos acabo de expor;
foi preciso a perseverança de certas diatribes para me levar, posto que com pesar, a romper o silencio sobre alguns factos que me concernem.

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Re: O que é a Doutrina

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 11, 2012 10:00 am

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Mais tarde, todos aqueles que a malevol6encia houve por bem desnaturar, serão trazidos à luz por documentos autênticos;
mas o momento dessas explicações ainda não chegou;
a única coisa que me importava no momento era que ficásseis edificados sobre o destino dos fundos que a Providência fez passar por minhas mãos, fosse qual fosse a origem.


Não me considero senão depositário, mesmo daqueles que ganho e, com mais forte razão, dos que me são confiados.

Alguém me perguntava um dia, sem curiosidade, bem entendido, e por puro interesse pela causa, o que eu faria de um milhão, se o tivesse.

Respondi que o emprego seria completamente diferente do que teria sido feito no princípio.

Outrora eu teria feito propaganda por uma larga publicidade;
agora reconheço que teria sido inútil, pois os nossos adversários disto se encarregaram à sua custa.

Não pondo, então, grandes recursos à minha disposição para este objectivo, os Espíritos quiseram provar que o Espiritismo devia seu sucesso à sua própria força.

Hoje que o horizonte se alargou, que sobretudo o futuro se desdobrou, necessidades de uma outra ordem se fazem sentir.

Um capital como o que supondes, teria um emprego mais útil.

Sem entrar em detalhes que seriam prematuros, direi apenas que uma parte serviria para converter minha propriedade numa casa especial de retiro espírita cujos habitantes colheriam os benefícios de nossa doutrina moral;
a outra para constituir uma renda inalienável, destinada:

1º - À manutenção do estabelecimento;
2º - A assegurar uma existência independente aquele que me suceder e aos que o ajudarem em sua missão;
3º - A atender às necessidades correntes do Espiritismo, sem correr o risco de produtos eventuais, como sou obrigado a fazer, desde que a maior parte de seus recursos repousa em meu trabalho que terá um termo.

Eis o que eu faria.
Mas se esta satisfação não me é dada, sei que, de uma maneira ou de outra, os Espíritos que dirigem o movimento proverão a todas as necessidades em tempo útil.

Eis porque absolutamente não me inquieto com isto, e me ocupo com o que é para mim a coisa essencial:
o término dos trabalhos que me restam a concluir.

Feito isto, partirei quando a Deus aprouver chamar-me.

III - Dos Cismas

Uma questão que se apresenta logo de saída ao pensamento é a dos cismas que poderão nascer no seio da doutrina.

O Espiritismo deles será preservado?

Certamente, não;
porque terá, sobretudo no começo, que lutar contra as ideias pessoais, sempre absolutas, tenazes, lentas a se ligar às ideias de outrem, e contra a ambição dos que, a despeito de tudo, querem ligar seu nome a uma inovação qualquer;

que criam novidades unicamente para poder dizer que não pensam e não fazem como os outros;
ou porque o seu amor próprio sofre por só ocuparem um lugar secundário;
ou, enfim, que vêem com despeito um outro fazer o que não fizeram e, além disso triunfar.


Mas como lhes temos dito centena de vezes:
"Quem vos barra o caminho?
Quem vos impede de trabalho pelo vosso lado?
Quem vos proíbe de publicar as vossas obras?


A publicidade vos está aberta como a todo o mundo;
daí qualquer coisa de melhor do que o que está, ninguém a isto se opõe;
sede mais apreciados pelo público, e ele vos dará a preferência."


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Ave sem Ninho

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Re: O que é a Doutrina

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 11, 2012 10:00 am

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Se o Espiritismo não pode escapar às fraquezas humanas, com as quais sempre se há de contar, pode paralisar as suas consequências, e é o essencial.

É de notar que os numerosos sistemas divergentes, surgidos na origem do Espiritismo, sobre a maneira de explicar os factos, desapareceram à medida que a doutrina se completava pela observação e por uma teoria racional;
é difícil que hoje esses primeiros sistemas ainda encontrem alguns raros partidários.

Aí está um fato notório, do qual se pode concluir que as últimas divergências apagar-se-ão com a completa elucidação de todas as partes da doutrina;
mas haverá sempre os dissidentes de ideias preconcebidas, interessados, por uma causa ou por outra, em fazer grupo à parte:
é contra sua pretensão que é necessário presumir-se.

Para assegurar a unidade no futuro, uma condição é indispensável:
é que todas as partes do conjunto da doutrina estejam determinadas com precisão e clareza, sem nada deixar no vago;
para isto procedemos de maneira que os nosso escritos não possam dar lugar a nenhuma interpretação contraditória, e procuraremos que seja sempre assim.


Quando tiver dito claramente e sem ambiguidade que dois e dois são quatro, ninguém poderá pretender que se quis dizer de dois e dois são cinco.

Poderão, pois, ao lado da doutrina formar-se seitas que não lhe adoptem os princípios, ou todos os princípios, mas não na doutrina por interpretação do texto, como se formaram, tão numerosas, sobre o sentido das palavras mesmas do Evangelho.

Aí está o primeiro ponto, de uma importância capital.
O segundo ponto é não sair do círculo das ideias práticas.

Se é certo que a utopia de ontem seja, muitas vezes, a verdade de amanhã, deixemos ao amanhã o trabalho de realizar a utopia de ontem;
mas não embaracemos a doutrina com princípios considerados como quimeras e que fariam que os homens positivos a rejeitassem.

O terceiro ponto, enfim, é inerente ao carácter essencialmente progressivo da doutrina.
Porque ela não se embala em sonhos irrealizáveis para o presente, não se segue que ela se imobilize no presente.

Exclusivamente apoiada nas leis da natureza, ela não pode variar mais que estas leis;
mas se uma nova lei for descoberta, deve a ela ligar-se;
não deve fechar a porta a nenhum progresso, sob pena de suicidar-se;

assimilando todas as ideias reconhecidas justas, sejam de que ordem forem, físicas ou metafísicas, jamais será ultrapassada e aí está uma das principais garantias de sua perpetuidade.


Se, pois, uma seita se formar ao seu lado, baseada ou não nos princípios do Espiritismo, acontecerá de duas uma:
ou essa seita estará com a verdade, ou não estará;
se não estiver, cairá por si mesma, sob o ascendente da razão e do senso comum, como tantas outras já caíram, desde séculos;

se as ideias forem justas, ainda que só sobre um ponto, a doutrina, que procura o bem e a verdade em toda a parte em que se encontrem, os assimilará, de sorte que em vez de ser absorvida, será ela que absorve.


Se alguns de seus membros vierem a se separar dela, é que crêem poder fazer melhor;
se realmente fizerem melhor, ela os imitará;
se fizerem maior bem, ela se esforçará por fazer outro tanto ou mais, se possível;

se fizerem mais mal, ela os deixará fazer, certa de que, mais cedo ou mais tarde, o bem triunfará sobre o mal e o verdadeiro sobre o falso.


Eis a única luta que ela travará.

Acrescentemos que a tolerância, consequência da caridade, que é a base da moral espírita, lhe faz um dever respeitar todas as crenças.

Querendo ser aceita livremente, por convicção e não por constrangimento, proclamando a liberdade de consciência como um direito natural imprescritível, diz ela:
"Se eu tiver razão, os outros acabarão pensando como eu;
mas se estiver errado, acabarei por pensar como os outros.


Em virtude destes princípios, não atirando a pedra em ninguém, ela não dará qualquer pretexto a represálias, e deixará aos dissidentes toda a responsabilidade de suas palavras e actos.

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Re: O que é a Doutrina

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 11, 2012 10:01 am

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O programa da doutrina não será, pois, invariável senão nos princípios passados ao estado de verdades constatadas;
quanto aos outros, ela não os admitirá, como sempre fez, senão a título de hipóteses, até a confirmação.
Se lhes for demonstrado que está errada num ponto, ela se modificará nesse ponto.

A verdade absoluta é eterna e, por isto mesmo, invariável;
mas, quem se pode gabar de a possuir toda inteira?

No estado de imperfeição dos nossos conhecimentos, o que hoje nos parece falso, amanhã pode ser reconhecido verdadeiro, por força da descoberta de novas leis;
assim é na ordem moral como na ordem física.

É contra esta eventualidade que a doutrina jamais deve achar-se desprevenida.

O princípio progressivo, que ela inscreve no seu código, será, como dissemos, a salvaguarda de sua perpetuidade, e sua unidade será mantida precisamente porque não repousa sobre o princípio da imobilidade.

A imobilidade, em vez de ser uma força, torna-se uma causa de fraqueza e de ruína para quem não siga o movimento geral;
ela rompe a unidade, porque os que querem ir avante se separam dos que se obstinam em ficar atrás.

Mas, acompanhando o movimento progressivo, é preciso faze-lo com prudência e guardar-se de baixar a cabeça aos sonhos das utopias e dos sistemas.
É preciso faze-lo a tempo, nem muito cedo, nem muito tarde e com conhecimento de causa.

Compreende-se que uma doutrina assente em tais bases deve ser realmente forte;
ela desafia toda concorrência e neutraliza as pretensões de seus competidores.

É para este ponto que os nosso esforços tendem a conduzir a doutrina espírita.

Aliás a experiência já justificou esta previsão.

Tendo a doutrina marchado nesta via desde a sua origem, avançou constantemente, mas sem precipitação, olhando sempre se o terreno onde o pé é solido e medindo os passos pelo estado da opinião.

Fez como o navegador que não marcha senão com a sonda na mãos e consultando os ventos.

IV - O Chefe do Espiritismo

Mas quem será encarregado de manter o Espiritismo nesta via?
Quem terá mesmo a força?
Quem terá o lazer e a perseverança de se afazer ao trabalho incessante que exige semelhante tarefa?

Se o Espiritismo está entregue a si mesmo, sem guia, não é para temer que se desvie de sua rota?
Que a malevolência, a que por muito tempo ainda estará exposto, não se esforce por lhe desnaturar o espírito?


Com efeito, aqui está uma questão vital, e cuja solução é do maior interesse para o futuro da doutrina.

A necessidade de uma direcção central superior, guarda vigilante da unidade progressiva e dos interesses gerais da doutrina, é de tal modo evidente, que já se inquietam por não ver ainda um condutor surgir no horizonte.

Compreende-se que, sem uma autoridade moral, capaz de centralizar os trabalhos, os estudos e as observações, de dar o impulso, de estimular o zelo, de defender o fraco, de amparar as coragens vacilantes, de ajudar com os conselhos da experiência, de fixar a opinião sobre os pontos incertos, o Espiritismo correria o risco de marchar à deriva.

Não só essa direcção é necessária, mas é preciso que esteja nas de força e de estabilidade suficientes para enfrentar as tempestades.

Os que não querem qualquer autoridade não compreendem os verdadeiros interesses da doutrina;
se alguns pensam podem dispensar qualquer direcção, na maior parte, os que não crêem em sua infalibilidade e não tem uma confiança absoluta em suas próprias luzes, sentem necessidade de um apoio, um guia, quando mais não fosse para os ajudar a marchar com mais firmeza e segurança.
(Vide Revista de abril de 1866: O Espiritismo independente).

Estabelecida a necessidade de uma direcção, de quem o chefe receberia os poderes?
Seria aclamado pela universalidade dos adeptos disseminados no mundo inteiro?

É uma coisa impraticável.

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Re: O que é a Doutrina

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 12, 2012 10:28 am

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Se ele se impuser por sua autoridade privada, seria aceito por uns, rejeitado por outros e vinte pretendentes podem surgir erguendo bandeira contra bandeira;
seria ao mesmo tempo o despotismo e a anarquia.

Um tal acto seria o caso de um ambicioso, e nada seria menos próprio que um ambicioso, por isto mesmo orgulhoso, a dirigir uma doutrina baseada na abnegação, no devotamento, do desinteresse e na humildade;
colocado fora do princípio fundamental da doutrina, não poderia senão falsear o seu espírito.

É o que teria lugar inevitavelmente, se ele não tivesse previamente tomado medidas eficazes para evitar esse inconveniente.

Admitamos, entretanto, que um homem reuna todas as qualidades requeridas para o desempenho de seu mandado, e que chegue à direção superior por uma via qualquer:
os homens se seguem e não se assemelham;

depois de um bom pode vir um mau;
com o indivíduo pode ganhar o Espírito da direcção;

sem maus desígnios, pode ter vistas mais ou menos justas;
se quiser fazer prevalecer suas idéias pessoais, pode fazer desviar a doutrina, suscitar divisões, e as mesmas dificuldades renovar-se-ão a cada mudança.


É preciso não perder de vista que o Espiritismo ainda não está na plenitude de sua força;
do ponto de vista da organização, é uma criança que apenas começa a andar;
importa, pois, sobretudo no começo, premuni-lo contra as dificuldades do caminho.

Mas, perguntarão, um dos messias anunciados, que devem tomar parte na regeneração, não estará a testa do Espiritismo?


É provável;
mas como eles não trazem na testa uma marca para se fazerem reconhecer, como só se afirmarão por seus actos, e, na maioria, não serão reconhecidos senão
depois de sua morte, conforme o que tiverem feito durante a vida;
como, aliás, não haverá messias para a perpetuidade, é preciso prever todas as eventualidades.


Sabe-se que sua missão será múltipla;
que os haverá em todos os degraus da escada e nos diversos ramos da economia social, onde cada um exercerá sua influência em proveito das ideias novas, conforme a especialidade de sua posição;

todos trabalharão, pois, para e estabelecimento da doutrina, quer de uma parte, quer de outra, uns como chefes de Estado, outros como legistas, outros como magistrados, cientistas, literatos, oradores, industriais, etc.;

cada um fará suas provas na sua parte, desde o proletário até o soberano, sem que nada mais que suas obras o distingam do comum dos homens.


Se um deles deve tomar parte na direcção administrativa do Espiritismo, é provável que providencialmente seja colocado em posição de aí chegar pelos meios legais que forem adoptados;
circunstâncias aparentemente fortuitas, para lá o conduzirão, sem desígnio premeditado de sua parte, sem que tenha consciência da missão
(Revista: Os messias do Espiritismo, fevereiro e março de 1868).

Em semelhante caso o pior de todos os chefes seria aquele que se desse por eleito de Deus.

Como não é racional admitir que Deus confie tais missões a ambiciosos ou orgulhosos, as virtudes características de um verdadeiro messias devem ser, antes de tudo, a simplicidade, a modéstia, numa palavra, o mais completo desinteresse material e moral.

Ora, a só pretensão de ser messias seria a negação dessas qualidades essenciais;
ela provaria naquele que se prevalecesse de semelhante título, ou uma toda presunção, se fosse de boa-fé, ou uma insigne impostura.

Não faltarão intrigantes, pseudo-espíritas, que se queiram elevar pelo orgulho, pela ambição ou pela cupidez;
outros que se pretenderão supostas revelações, com a ajuda das quais procurarão por-se em relevo e fascinar as imaginações muito crédulas.

É preciso, também, prever que, sob falsas aparências, indivíduos poderiam tentar apoderar-se do leme com a segunda intenção de afundar o barco, desviando-o de sua rota.

Não naufragará, mas poderá experimentar atrasos desagradáveis, que é preciso evitar.
Eis ai, em contestação, os maiores escolhos de que o Espiritismo se deve guardar;
quanto mais consistência ele toma, mais embustes lhe criarão os seus adversários.

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Re: O que é a Doutrina

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 12, 2012 10:29 am

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É, pois, dever de todos os Espíritas sinceros desviar as manobras da intriga que podem ser urdidas nos menores, como nos maiores centros.

Deverão logo de saída repudiar do modo mais absoluto, quem quer que julgasse, por si mesmo, um messias, quer como chefe do Espiritismo, quer como simples apóstolo da doutrina.

Conhece-se a árvore pelo fruto;
esperai, pois, que ela tenha dado frutos, antes de julgar se é boa, e olhai ainda se os frutos não estão bichados
(Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap. XXXI, no. 9: Caracteres do verdadeiro profeta).

Alguém com quem conversávamos a esse respeito, propunha o seguinte expediente:
fazer designar os candidatos pelos próprios Espíritos em cada grupo ou sociedade espírita.

Além deste meio não obviar todos os inconvenientes, haveria outros especiais nesse modo de proceder, que a experiência já demonstrou e que seria supérfluo aqui os recordar.

Não se deve perder de vista que a missão dos Espíritos é instruir-nos, melhorar-nos, mas não se substituírem à iniciativa do nosso livre-arbítrio.

Eles nos sugerem pensamentos, ajudam-nos com seus conselhos, sobretudo no que toca as questões morais, mas deixam ao nosso julgamento o cuidado da execução das coisas materiais, que não tem missão de nos ocupar.

Em seu mundo eles tem atribuições que não são as daqui debaixo;
pedir-lhes o que está fora de suas atribuições, é expor-se as trapaças dos Espíritos levianos.

Que os homens se contentem com serem assistidos e protegidos por bons Espíritos, mas que não descarreguem sobre estes a responsabilidade que incumbe ao papel de encarnado.

Alias esse meio suscitaria mais embaraços do que se pensa, pela dificuldade de fazer todos os grupos participarem dessa eleição;
seria uma complicação nas engrenagens, e as engrenagens são tanto menos susceptíveis de se desorganizar, quanto mais simplificadas.

O problema é, pois, constituir uma direcção central, em condições de força e de estabilidade que aponham ao abrigo das flutuações, que respondam a todas as necessidades da causa e oponham uma barreira absoluta às manobras da intriga e da ambição.

Tal é o objectivo do plano, do qual vamos dar um rápido esboço.

V - Comité Central

Durante o período de elaboração, a direcção do Espiritismo teve de ser individual;
era necessário que todos os elementos constitutivos da doutrina, saídos do estado de embriões de uma multidão de focos, chegassem a um centro comum, para aí serem controlados e comprovados, e que um só pensamento presidisse à sua coordenação, para estabelecer a unidade no conjunto e a harmonia de todas as partes.

Se tivesse sido de outro modo, a doutrina ter-se-ia assemelhado a esses edifícios lúbridos, construídos por vários arquitectos, ou a um mecanismo cujas engrenagens não se ajustam umas nas outras com precisão.

Nós o dissemos, porque é uma incontestável verdade, hoje claramente demonstrada:
a doutrina não podia sair, em todas as peças, de um único centro, como toda a ciência astronómica de um só observatório;

e todo centro que tivesse tentado constituí-la só como as suas observações, teria feito algo de incompleto e ter-se-ia achado, numa infinidade de pontos, em contradicção com os outros.


Se mil centros tivessem querido fazer a sua doutrina, não teria havido duas iguais em todos os pontos.
Se tivesse estado de acordo quanto ao fundo, inevitavelmente teriam diferido quanto à forma.

Ora, como há muita gente que vê a forma em vez do fundo, teria havido tantas seitas quantas formas diferentes.
A unidade não podia sair senão do conjunto e da comparação de todos os resultados parciais.

Eis porque a concentração dos trabalhos é necessária
(Génese, Cap. I, Caracteres da revelação Espírita, nn. 51 e seguintes).

Mas o que era uma vantagem para um tempo, mais tarde tornar-se-á um inconveniente.

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Re: O que é a Doutrina

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 12, 2012 10:29 am

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Hoje que o trabalho de elaboração está terminado, ao que concerne as questões fundamentais;
que estão estabelecidos os princípios gerais da ciência, a direcção, de individual que teve de ser no começo, deve tornar-se colectiva.

Inicialmente porque vem um momento em que seu peso excede as forças de um homem;
e, em segundo lugar, porque há mais garantia para a manutenção da unidade numa reunião de indivíduos, cada um dos quais tem apenas a sua voz no capítulo, e nada podem sem o concurso uns dos outros, do que num só, que pode abusar de sua autoridade e querer fazer predominarem suas ideias pessoais.

Em lugar de um chefe único, a direcção será entregue a um comité central ou conselho superior permanente - o nome pouco importa - cuja organização e atribuições serão definidos de maneira a nada deixar ao arbítrio.

Esse comité será composto de doze membros titulares, no máximo, os quais deverão, reunir certas condições requeridas, e um número igual de conselheiros.

Conforme as necessidades, poderá ser secundado por membros auxiliares activos.
Completar-se-á por si mesmo, segundo as regras igualmente determinadas, de natureza a evitar todo favoritismo, à medida das vagas por extinções ou outras causas.

Uma disposição especial, por sua vez, durante um ano, e o que desempenhar esta função será designado por sorteio.

A autoridade do presidente é puramente administrativa;
ele dirige as deliberações do comité, superintende a execução dos trabalhos e expedição dos negócios.

Mas, fora das atribuições que lhe são conferidas pelos estatutos constitutivos, não pode tomar qualquer decisão sem o concurso do comité.

Portanto, impossíveis os abusos, o alimento de ambições, nada de pretextos para intrigas ou ciúmes, nada de supremacia chocante.

O comité, ou conselho superior, será, pois, a cabeça, o verdadeiro chefe do Espiritismo, chefe colectivo, nada podendo sem o assentimento da maioria e, em certos casos, sem o de um congresso ou assembléia geral.

Suficientemente numeroso para se esclarecer pela discussão, não o será bastante para que aí haja confusão.

Os congressos serão constituídos por delegados das sociedades particulares, regularmente constituídas, e colocadas sob o patrocínio do comité por sua adesão e pela conformidade de seus princípios.

Para o público dos adeptos, a aprovação ou a desaprovação, o consentimento ou a recusa, as decisões, numa palavra, de um corpo constituído, representando uma opinião colectiva, terão forçosamente uma autoridade que jamais teriam se emanasse de um só indivíduo, que não representa senão uma opinião pessoal.

Muitas vezes se rejeita a opinião de um só, julga0se humilhado em se submeter a ela, quando se defere sem dificuldade a de muitos.

É bem entendido que aqui se trata de uma autoridade moral, no que concerne a interpretação e a aplicação dos princípios da doutrina, e não de um poder disciplinar qualquer.

Esta autoridade será, em matéria de Espiritismo, o que é a de uma academia em matéria de ciência.

Para o público estranho, um corpo constituído tem mais ascendente e preponderância;
contra os adversários, sobretudo, apresenta uma força de resistência e possui meios de acção que o indivíduo não poderia ter;
luta infinitamente com mais vantagem.


Uma individualidade é atacada e quebrada;
não se dá o mesmo com um ser colectivo.

Num ser colectivo há igualmente uma garantia de estabilidade que não existe quando tudo repousa numa única cabeça;
se o indivíduo for impedido por uma causa qualquer, tudo pode ser entravado.

Ao contrário, um ser colectivo se perpetua incessantemente;
se perder um ou vários de seus membros nada periclita.

Dir-se-á que a dificuldade será reunir, de maneira permanente, doze pessoas que estejam de acordo.

O essencial é que estejam de acordo quanto aos pontos fundamentais;
ora, isto seria uma condição absoluta para a admissão, como a de todos os detalhes, pouco importa sua divergência, pois é a opinião da maioria que prevalece.

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Re: O que é a Doutrina

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 13, 2012 11:00 am

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Aquele cuja maneira de ver for justa, não faltarão boas razões para a justificar.

Se um deles, contrariado por não poder fazer que suas ideias sejam admitidas, se retirasse, nem por isso as coisas deixariam de seguir o seu curso e não haveria lugar para o lamentar, pois ele daria prova de uma susceptibilidade orgulhosa pouco espírita, e que poderia tornar-se uma causa de perturbação.

A causa mais comum de divisão entre co-interessados é o conflito de interesses e a possibilidade de um suplantar outro em seu proveito.

Esta causa não tem a menor razão de ser, desde que o prejuízo de um não pode aproveitar aos outros, que são solidários e não podem senão perder, em vez de ganhar, pela desunião.

Isto é uma questão de detalhe, prevista na organização.

Admitamos que no número se ache um falso irmão, um traidor, ganho pelos inimigos da causa:
que poderia ele, se não tem senão sua voz nas decisões?

Suponhamos que, por impossível, o comité inteiro entre no mau caminho:
os congressos aí estarão para por as coisas em ordem.

O controle dos actos da administração estará nos congressos, que poderão decretar a censura ou uma acusação contra o comite central, por causa da infracção de seu mandato, do desvio dos princípios reconhecidos, ou das medidas prejudiciais à doutrina.

É por isto que ele os referirá aos congressos, nas circunstâncias em que julgar que a sua responsabilidade poderia ser comprometida de maneira grave.

Se, pois, os congressos são um freio para o comité, este adquire uma nova força em sua aprovação.
É assim que esse chefe colectivo levanta em definitiva a opinião geral e não pode, sem perigo para si mesmo, afastar-se do recto caminho.

Quando o comité for organizado, dele faremos parte a título de simples membro, tendo nossa parte de colaboração, sem reivindicar para nós nem supremacia, nem título, nem qualquer privilégio.

As atribuições gerais do comité serão anexados, como dependências locais:

1º - Uma biblioteca onde estarão reunidas todas as obras que interessam o Espiritismo, e que poderão ser consultadas no local ou dadas como leitura;

2º - Um museu, onde serão reunidas as primeiras obras de arte espírita, os trabalhos mediúnicos mais notáveis, os retratos dos adeptos que bem tiverem merecido da Causa por seu devotamento, os dos homens que o Espiritismo honra, posto que estranhos à doutrina, como benfeitores da humanidade, grandes génios missionários do progresso, etc. (4)

3º - Um dispensário destinado às consultas médicas gratuitas e ao tratamento de certas afecções, sob a direção de um médico patenteado;
4º - Uma caixa de socorro e previd6encia, em condições práticas;

5º - Uma casa de retiro;
6º - Uma sociedade de adeptos, tendo sessões regulares.

VI - Obras fundamentais da Doutrina

Muitas pessoas lamentam que as obras fundamentais da doutrina sejam de um preço tão alto para grande número de leitores, e pensam, com razão, que se fosse feitas edições populares e baixo custo, estariam muito mais espalhadas, com o que ganharia a doutrina.

Estamos completamente de acordo;
mas as condições em que são editadas não permitem que sejam de outro modo, no estado actual das coisas.

Esperamos chegar um dia a esse resultado, com o auxílio de uma nova combinação que se ligue ao plano geral de organização.
Mas essa operação não pode ser realizada senão empreendida em vasta escala.

De nossa parte, exigiria capitais que não possuímos e cuidados materiais que os nossos trabalhos, que reclamam todas as nossas meditações, não nos permitem dar.

Assim, a parte comercial propriamente dita foi neglicenciada ou, melhor dito, sacrificada ao estabelecimento da parte doutrinária.
O que importava, antes de tudo, era que as obras fossem feitas e assentadas as bases da doutrina.

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Re: O que é a Doutrina

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 13, 2012 11:01 am

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Quando a doutrina for organizada pela constituição do comité central, nossas obras tornar-se-ão propriedade do Espiritismo na pessoa desse mesmo comité, que terá a sua gerência e dará os necessários cuidados à sua publicação por meios mais próprios para as popularizar.

Deverá igualmente ocupar-se de sua tradução nas principais línguas estrangeiras.

A Revista foi, até hoje, e não podia ser senão uma obra pessoal, visto faz parte de nossas obras doutrinárias, servindo aos anais do Espiritismo.

É aí, que todos os princípios novos são elaborados e postos em estudo.
Era, pois, necessário que conservasse o seu carácter individual, para a fundação da unidade.

Muitas vezes temos sido solicitado para fazer que ela aparecesse em intervalos menores.
Por mais lisonjeiro que nos fosse tal desejo, não pudemos aceder.

Primeiro porque o tempo material não nos permitiria esta sobrecarga de trabalho;
e em segundo lugar, porque ela não devia perder o seu carácter essencial, que não é o de um jornal propriamente dito.

Hoje que a nossa obra pessoal se aproxima de seu termo, as necessidades não são mais as mesmas;
a Revista tornar-se-á, como as nossas obras feitas e por fazer, propriedade colectiva do comité, que tomará a sua direcção, para maior utilidade do Espiritismo, sem que, por isto, renunciemos a lhe dar a nossa colaboração.

Para completar a obra doutrinária, resta-nos publicar várias obras, que não são em sua parte menos difícil, nem a menos penosa.

Posto possuamos todos os seus elementos e o programam esteja traçado até o último capítulo, poderíamos lhes dar cuidados mais assíduos e as activar se, pela instituição do comité central, estivéssemos libertos de detalhes, que absorvem grande parte do nosso tempo.

VII - Atribuições do Comité

As principais atribuições do comité central serão:

1º - O cuidado dos interesses da doutrina e sua propagação;
a manutenção de sua unidade pela conservação da integridade dos princípios reconhecidos;
o desenvolvimento de suas consequências;


2º - O estudo dos princípios novos, susceptíveis de entrar no corpo da doutrina;

3º - A concentração de todos os documentos e informações que possam interessar o Espiritismo;

4º - A correspondência;

5º - A manutenção, a consolidação e a extensão dos laços de fraternidade entre os adeptos e as sociedades particulares dos vários países;

6º - A direcção da revista, que será o jornal oficial do Espiritismo, e à qual juntar-se uma outra publicação periódica;

7º - O exame e a apreciação das obras, artigos de jornais e todos os escritos que interessam a doutrina.
A refutação dos ataques, se for o caso;

8º - A publicação das obras fundamentais da doutrina, nas mais próprias condições à sua vulgarização.
A confecção e a publicação das que nos derem o plano e que não teríamos tempo de fazer em nossa vida.
Os encorajamentos dados às publicações que puderem ser úteis à causa;

9º - A fundação e a conservação da biblioteca, dos arquivos e do museu;

10º - A administração da caixa de socorro, do dispensário e da casa de retiro;

11º - A administração dos negócios materiais;

12º - A direcção das sessões da sociedade;
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Re: O que é a Doutrina

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 13, 2012 11:02 am

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13º - O ensino oral;

14º - As visitas e instruções às reuniões e sociedade particulares que se colocarem sob seu patrocínio;

15º - A convocação dos congressos e assembleias gerais.

Essas atribuições serão repartidas entre os diversos membros do comité, segundo a especialidade de cada um, os quais, se necessário, serão assistidos por um número suficiente de membros auxiliares ou por simples empregados.

Em consequência, entre os membros do comité haverá:
Um secretário geral para a correspondência e actas das sessões do comité;
Um redactor chefe para a revista e as outras publicações;

Um bibliotecário arquivista, além disso encarregado do exame e das críticas das obras e artigos de jornais;
Um director da caixa de socorro, além disso encarregado da direcção do dispensário, das visitas aos doentes e necessitados, e de tudo o que se refere à beneficência.
Será secundado por um comité de beneficência, escolhido no seio da sociedade, e formado de pessoas caridosas de boa vontade;

Um administrador contador, encarregado dos negócios e interesses materiais;
Um director especial para os negócios concernentes as publicações;

Oradores para o ensino oral, além disso encarregados de visitar as sociedades dos departamentos e aí dar instrucções.
Poderão ser tomados entre os membros auxiliares e os adeptos de boa vontade, que para tanto receberão uma autorização especial.

Seja qual for a extensão dos negócios e do pessoal administrativo, o comité será sempre limitado ao mesmo número de membros titulares.

Até agora tivemos de nos bastar sozinhos a este programa.

Assim, algumas de suas partes foram negligenciados ou apenas puderam ser esboçadas, e as que são mais especialmente da nossa competência, tiveram que sofrer inevitáveis atrasos, pela necessidade de nos ocupar de tantas coisas, quando o tempo e a força tem limites e uma só absorveria o tempo de um homem.

VIII - Vias e meios

É sem dúvida desagradável ser obrigado a entrar em considerações materiais para atingir um objectivo todo espiritual;
mas é preciso observar que a espiritualidade mesma da obra se prende à questão da humanidade terrena e de seu bem-estar;

que não se trata mais apenas da emissão de algumas ideias filosóficas, mas de fundar alguma coisa de positivo e durável, para a extensão e a consolidação da doutrina, à qual é preciso fazer produzir os frutos que é susceptível de dar.


Figurar-se que ainda estamos nos tempos em que alguns apóstolos podiam por-se a caminho com o bastão de viagem, sem preocupação de hospedagem e do pão quotidiano, seria uma ilusão logo desfeita por uma amarga decepção.

Para fazer algo de sério, há que se submeter às necessidades impostas pelos costumes da época em que se vive.

Essas necessidades são muito outras que as dos tempos patriarcais;
o próprio interesse do Espiritismo exige, pois, que se calculem os meios de acção para não ser detido em caminho.

Calculemos, pois, já que estamos num século em que é preciso contar.
As atribuições do comité central serão bastante numerosas, como se vê, por necessitar uma verdadeira administração.

Tendo cada membro funções activas e assíduas, se não se tomassem senão homens de boa vontade, os trabalhos poderiam sofrer com isto, porque ninguém teria direito de censurar os negligentes.

Para a regularidade dos trabalhos e a expedição dos negócios, é necessário ter homens sobre cuja assiduidade se possa contar, e cujas funções não sejam simples actos de complacência.

Quanto mais independência tivessem por seus recursos pessoais, menos ficariam adstritos a ocupações assíduas;
se não as tiverem, poderão dar o seu tempo.

Continua...
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Ave sem Ninho

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Re: O que é a Doutrina

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 14, 2012 9:36 am

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É preciso, pois, que sejam retribuídos, assim como o pessoal administrativo;
com isso a doutrina ganhará em força, estabilidade, pontualidade, ao mesmo tempo que será um meio de prestar serviços a pessoas que dele teriam necessidade.

Um ponto essencial na economia de toda administração previdente é que sua existência não repousa sobre produtos eventuais, que podem faltar, mas sobre recursos fixos, regulares, de maneira que sua marcha, aconteça o que acontecer, não possa ser entravada.

É, pois, necessário que as pessoas chamadas a dar o seu concurso não possam conceber qualquer inquietação pelo futuro.

Ora, a experiência demonstra que se devem considerar como aleatórios os recursos que não repassem senão no produto de quotizações, sempre facultativas, sejam quais forem os compromissos assumidos, e de uma cobertura muitas vezes difícil.

Assentar as despesas permanentes e regulares em recursos eventuais, seria uma falta de previdência, que um dia se poderia lamentar.
Sem dúvida as consequências menos graves quando se trata de fundações temporárias, que duram o que podem.

Mas aqui é uma questão do futuro.

A sorte de uma administração como esta não pode estar subordinada às chamas de um negócio comercial;
deve ser, desde o começo, senão tão florescente, ao menos tão estável quanto o será daqui a um século.

Quanto mais sólida for a sua base, menos exposta estará aos golpes da intriga.

Em semelhante caso a mais vulgar prudência quer que se capitalizem os recursos, de maneira inalienável, à medida que chegam, a fim de constituir um rendimento perpétuo, ao abrigo de todas as eventualidades.

Regulando suas despesas pelo rendimento, a existência da administração não pode ser comprometida em caso algum pois sempre terá meios para funcionar.

Começando, ela pode ser organizada numa escala menor;
os membros do comité provisoriamente podem limitar-se a cinco ou seis, o pessoal e os gastos administrativos reduzidos à sua expressão mais simples, salvo para proporcionar o desenvolvimento pelo crescimento dos recursos e das necessidades da causa, mas ainda que falte o necessário.

Pessoalmente, e posto que parte activa do comité, não seremos pesado ao orçamento, nem por emolumentos, nem por indemnização de viagens, nem por uma causa qualquer;
se jamais pedimos algo a ninguém para nós, ainda menos o faríamos nesta circunstância;
nosso tempo, nossa vida, todas as nossas forças físicas e intelectuais pertencem à doutrina.


Declaramos, pois, formalmente, que nenhuma parte dos recursos de que disporá o comité será distraída em nosso proveito.

Ao contrário, a ele trazemos nossa quota-parte:

1º - pelo abandono do lucro de nossas obras, feitas e por fazer;
2º - A entrega de valores móveis e imóveis;

Assim, fazemos votos para que a realização do nosso plano, no interesse da doutrina e não para aí nos criarmos uma posição da qual não necessitamos.
Foi para preparar as vias desta instalação que até hoje consagramos o produto de nossos trabalhos, como dissemos acima.

Se nossos meios pessoais não nos permitem fazer mais, pelo menos teremos a satisfação de nela haver posto a primeira pedra.

Suponhamos então que, por uma via qualquer, o comité central, num dado tempo, esteja posto em condições de funcionar, o que supõe um rendimento de 25 a 30 mil francos, restringindo-se, no começo, os recursos de toda natureza de que disponha, em capitais e produtos eventuais constituirão a Caixa Geral do Espiritismo, que será objecto de uma rigorosa contabilidade.

Sendo reguladas as despesas obrigatórias, o excedente da renda aumentará o fundo comum;
é proporcionalmente aos recursos desse fundo que o comité proverá às diversas despesas úteis aos desenvolvimento da doutrina, sem que jamais possa fazê-lo em seu proveito pessoal, nem uma fonte de especulação para qualquer de seus membros.

O emprego dos fundos e a contabilidade serão, aliás, submetidos à vivificação por comissários especiais, para esse efeito delegados pelos congressos ou assembleias gerais.

Um dos primeiros cuidados do comité será o de se ocupar das publicações, desde que haja possibilidade, sem esperar poder faze-lo com auxílio da renda;
os fundos afectados para esse uso não serão, na realidade, senão um adiantamento, pois reverterão pela venda das obras, cujo produto voltará ao fundo comum.

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Re: O que é a Doutrina

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 14, 2012 9:37 am

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É um negócio de administração.

Para dar a essa instituição uma existência legal, ao abrigo de qualquer contestação, dar-lhe, além disso o direito de adquirir, receber e possuir, ela será constituída, se for julgado necessário, por acto autêntico, sob forma de sociedade comercial anónima, por noventa e nove anos, indefinidamente prorrogável, com todas as estipulações necessárias para que jamais possa afastar-se do seu objectivo, e que os fundos não possam ser desviados de seu destino.

Sem aqui entrar em detalhes que seriam supérfluos e prematuros, devemos, entretanto, dizer algumas palavras sobre duas instituições acessórias do comité, a fim de que não se enganem quanto ao sentido que a elas ligamos;
queremos falar da caixa de socorro e da casa de retiro.

O estabelecimento de uma caixa geral de socorros é uma coisa impraticável, e que apresentaria sérios inconvenientes, como demonstramos num artigo especial (Revista de julho de 1866).

O comité não pode, pois, empenhar-se numa via, que em breve seria forçado a abandonar, nem empreender qualquer coisa que não esteja certo de poder realizar.

Deve ser positivo e não embalar-se em ilusões quiméricas;
é o meio de marchar muito tempo e com segurança.

Para isto deve, em tudo, ficar nos limites do possível.

Essa caixa de socorro não pode, nem deve ser senão uma instituição local, de acção circunscrita, cuja prudente organização poderá servir de modelo a outras do mesmo género, que as sociedades particulares poderiam criar.

É por sua multiplicidade que poderiam prestar serviços eficazes, e não centralizando os meios de acção.

Ela será alimentada:
1º - pela porção afectada para este destino sobre a renda da Caixa Geral do Espiritismo;
2º - pelos donativos especiais que a elas forem feitos.

Ela capitalizará as somas recebidas, de maneira a constituir uma renda;
é desta renda que dará recursos temporários ou vitalícios e cumprirá as obrigações de seu mandato, que serão estipuladas em seu regulamento constitutivo.

O projecto de uma casa de retiro, na acepção completo do vocábulo, mas pode ser realizada de início, em razão dos capitais que exigiria semelhante fundação, e, além disso, porque é preciso deixar à fundação o tempo necessário de se fixar e marchar com regularidade, antes de pensar em complicar suas atribuições por empreendimentos nos quais poderia fracassar.

Abraçar muitas coisas antes de se ter assegurado meios de execução, seria uma imprudência.
Compreender-se-á facilmente se reflectir em todos os detalhes que comportam estabelecimentos desse género.
Sem dúvida é bom ter boas intenções, mas antes de tudo é preciso poder realizá-las.

IX - Conclusão

Tais são as bases principais da organização que nos propomos dar ao Espiritismo, se as circunstâncias no-lo permitirem.
Tivemos que desenvolver os motivos um pouco longamente, a fim de dar a conhecer o seu espírito.

Os detalhes serão objecto de uma regulamentação minuciosa, na qual todos os casos serão previstos de maneira a levar em consideração todas as dificuldades.

Consequente com os princípios de tolerância e de respeito a todas as opiniões, que o Espiritismo professa, não pretendemos impor esta organização a ninguém, nem constranger quem quer que seja a se submeter a ela.

Nosso objectivo é estabelecer um primeiro laço entre os Espíritas, que o desejam desde muito tempo e se lastimam de seu isolamento.

Ora, este laço, sem o qual o Espiritismo, ficando no estado de opinião individual, sem coesão, não pode existir senão com a condição de se religar a um centro por uma comunhão de vistas e de princípios.

Esse centro não é uma individualidade, mas um foco de actividade colectiva, agindo no interesse geral e na qual a autoridade pessoal se apaga.

Se ele não existisse, qual teria sido o ponto de ligação dos Espíritas espalhados em diversos países?

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Re: O que é a Doutrina

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 14, 2012 9:37 am

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Não podendo comunicar suas ideias, suas impressões, suas observações a todos os outros centros particulares, eles também disseminados, e muitas vezes sem consistência, teriam ficado isolados, e a difusão da doutrina teria sofrido com isto.

Era, pois, necessário um ponto aonde todos chegassem, e de onde tudo pudesse se irradiar.

O desenvolvimento das idéias espíritas, longe de tornar esse centro inútil, faria melhor sentir a sua necessidade, porque a necessidade de aproximação e de formação de um feixe será tanto maior quanto mais considerável for o número de adeptos.

Mas qual será a extensão do círculo de actividades desse centro?
É destinado a reger o mundo e a tornar-se o árbitro universal da verdade?


Se tivesse essa pretensão, seria compreender mal o espírito do Espiritismo que, por isso mesmo que proclama os princípios do livre exame e da liberdade de consciência, repudia o pensamento de se erigir em autocracia;
desde o começo entraria numa via fatal.

O Espiritismo tem princípios que, em razão de se fundarem nas leis da natureza, e não em abstrações metafísicas, tendem a tornar-se, e certamente tornar-se-ão um dia, os da universalidade dos homens.

Todos os aceitarão, porque serão verdades palpáveis e demonstradas, como aceitaram a teoria do movimento da terra;
mas pretender que o Espiritismo em toda a parte seja organizado da mesma maneira;

que os Espíritas do mundo inteiro sejam sujeitos a um regime uniforme, a uma mesma maneira de proceder;

que devam esperar a luz de um ponto fixo, para o qual deverão fixar o olhar, seria uma utopia tão absurda quanto pretender que todos os povos da terra um dia não formem senão uma nação, governada por um único chefe, regida pelo mesmo código de leis e sujeita aos mesmos usos.


Se há leis gerais que podem ser comuns a todos os povos, essas leis serão sempre, nos detalhes da aplicação e da forma, apropriadas aos costumes, aos caracteres, ao clima de cada uma.

Assim será com o Espiritismo organizado.

Os Espíritas do mundo inteiro terão princípios comuns, que os ligarão à grande família pelo laço sagrado da fraternidade, mas cuja aplicação poderá variar conforme as regiões, sem que, por isto, seja rompida a unidade fundamental, sem formar seitas dissidentes que se atirem a pedra e o anátema, o que seria anti-espírita, de saída.

Poderão formar-se e formar-se-ão inevitavelmente, centros gerais em diversos países, sem outro laço além da comunidade de crença e a solidariedade moral, sem subordinação de um ao outro, sem que o da França, por exemplo, tenha a pretensão de se impor aos Espíritas americanos e reciprocamente.

A comparação das observações, que citamos acima, é perfeitamente justa. Há observações em diferentes pontos do globo;
todos, seja qual for a nação a que pertençam, estão baseados nos princípios gerais reconhecidos da astronomia, o que, por isso, não os torna tributários uns dos outros;

cada um reputa seus trabalhos como entende;
comunicam-se as suas observações, e cada um põe em proveito da ciência as descobertas de seus confrades.


Será o mesmo com os centros gerais do Espiritismo;
serão os observatórios do mundo invisível, que permutarão o que tiverem de bom e aplicável aos costumes das regiões onde estiverem estabelecidos;
pois o seu objectivo é o bem da humanidade, e não a satisfação das ambições pessoais.


O Espiritismo é uma questão de fundo;
ligar-se à forma seria uma puerilidade indigna da natureza do assunto.

Eis porque os centros diversos, que estiverem no verdadeiro espírito do Espiritismo, deverão estender-se a mão fraterna e se unir para combaterem seus inimigos comuns:
a incredulidade e o fanatismo.

(1) Tratamos especialmente a questão das instituições espíritas num artigo da Revista de julho de 1866, ao qual remetemos para maiores esclarecimentos.

(2) Estas somas se elevam naquela época a 14.000 francos, cujo emprego, em proveito exclusivo da doutrina, está justificado pelas contas.

(3) Aos que perguntaram porque vendíamos os nossos livros em vez de os dar, respondemos que o faríamos, se tivéssemos encontrado impressor que no-los imprimisse de graça, um negociante que fornecesse o papel grátis, livreiros que não exigissem nenhuma comissão para os distribuir, uma administração dos correios que os transportasse por filantropia, etc.

Esperando, como não temos milhões para cobrir esses encargos, somos obrigados a lhes dar um preço.

(4) O futuro museu já possui oito quadros de grandes dimensões, que só esperam um local conveniente, verdadeiras obras-primas de arte, especialmente executadas em vista do Espiritismo, por um artista de renome, que generosamente ofereceu à doutrina.

É a inauguração da arte espírita, por um homem que reúne a fé sincera ao talento dos grandes mestres.
Em tempo hábil daremos sua descrição detalhada.

§.§.§- O-canto-da-ave
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A Ciência e o Espírito

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 15, 2012 9:57 am

Em pleno início do século XXI e dos desenvolvimentos científicos e tecnológicos que nos aguardam neste novo milénio, somos levados a reavaliar a postura do Espiritismo perante a Ciência.

Embora Kardec tenha enunciado que “O Espiritismo e a Ciência se completam um pelo outro” eles permanecem separados, sobretudo porque o preconceito científico e sistemático da chamada “Ciência Oficial” (ou académica), mantendo sua postura materialista e céptica, leva à negação a priori dos fenómenos espíritas, tomados como superstição ou fraude e, consequentemente, rotulando o Espiritismo como destituído de bases científicas.

O Espiritismo é definido por Kardec como “a ciência que estuda a origem, a natureza e a destinação dos Espíritos, bem como sua relação com o mundo corpóreo.

É ao mesmo tempo, uma ciência de observação e uma filosofia de consequências morais”.


Por outro lado, uma boa definição de ciência é “um conjunto organizado de conhecimentos relativos a um determinado objecto, especialmente os obtidos mediante a observação, a experiência dos factos e um método próprio”.

Assim dois elementos são essenciais para ter-se uma ciência:
o objecto e o método de estudo deste objecto, que de acordo a definição acima, precisa ser adequado ao objecto.

Classicamente falando, a ciência se baseia no método indutivo, que parte do particular para o todo, sendo portanto reducionista, empirista e cartesiana.

Um dos critérios citados como de máxima importância seria a da reprodutibilidade dos experimentos, em qualquer parte do mundo, por qualquer pessoa, desde que as condições fossem mantidas as mesmas.

Mas se formos rígidos no método clássico, deixaríamos de considerar como ciências a História, a Sociologia, a Psicologia, etc., o que nos parece completamente absurdo, desde que não se produzam factos históricos em laboratório, e tão pouco se reproduzem comportamentos em pessoas submetidas às mesmas condições.

O que difere as Ciências Humanas das Ciências Exactas ou Naturais são justamente o objecto e o método, embora em alguns casos o objecto pode ser mesmo:
o homem.

Assim é que o Espiritismo, por possuir um objecto de estudo completamente alheio à “Ciência Oficial”, ou seja, o espírito ou princípio inteligente, requer um método próprio, adequado.

Kardec define este método em relação à fenomenologia espírita quando usa o termo “ciência de observação”, a qual consiste na observação criteriosa dos factos, buscando entender suas origens, suas causas.

Também a História é uma ciência de observação, e assim como não se reproduzem factos históricos, não se pode exigir a reprodução inequívoca de fenómenos espíritas, desde que o objecto de estudo é inteligente, emocional e volitivo – o Espírito.

Para o Espiritismo, a existência do Espírito e de sua comunicabilidade é um facto, decorrente do axioma de que “todo efeito inteligente precisa ter, necessariamente, uma causa inteligente”.

O que importa é o controle sobre a legitimidade da comunicação que se obtém através dos fenómenos mediúnicos, quer de efeitos físicos ou de efeitos inteligentes, e para tanto Kardec definiu um método doutrinário próprio, sumarizado por Herculano Pires em quatro pontos principais:

“i) Escolha de colaboradores mediúnicos insuspeitos, tanto do ponto de vista moral, quanto da pureza das faculdades e da assistência espiritual;

“ii) Análise rigorosa das comunicações, do ponto de vista lógico, bem como do seu confronto com as verdades científicas demonstradas, pondo-se de lado tudo aquilo que não possa ser justificado;

“iii) Controle dos Espíritos comunicantes, através da coerência de suas comunicações e do teor de sua linguagem;

“iv) Consenso universal, ou seja, concordância de várias comunicações, dadas por médiuns diferentes, ao mesmo tempo e em vários lugares, sobre o mesmo assunto”.

Muito dos chamados pesquisadores espíritas envidam esforços para a comprovação da existência dos Espíritos e da imortalidade da alma, mas frequentemente empregando os métodos da Química, da Física, da Biologia, etc., que são adequados à matéria, mas não ao Espírito.

O máximo que poderão conseguir é um melhor entendimento dos fenómenos de efeito físico e do perispírito, que é a parte material do Espírito, o seu corpo de manifestação, mas jamais do princípio inteligente, que é imaterial e foge a todas as técnicas de investigação da matéria.

Continua...
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Re: O que é a Doutrina

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 15, 2012 9:57 am

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Enquanto isso, a Ciência Espírita, baseada no método kardecista, foi praticamente abandonada pelos espíritas...

Voltando ao confronto Ciência e Espírito, embora à primeira vista há conceitos espíritas que parecem ser desmentidos ou postos em dúvida pela Ciência, o desenvolvimento da ciência no século passado muitas vezes apontou na direcção da confirmação dos princípios espíritas.

A desintegração da matéria em partículas cada vez mais elementares e a interconversão matéria/energia, como estabelecido pelas Mecânicas Quântica e Relativística, respectivamente, apontam a possibilidade de existência uma “matéria elementar”– o que é coerente com o princípio espírita da existência de um fluido universal (ou cósmico), proposto pelos Espíritos Codificadores.

A medicina psicossomática, a escrita automática, o corpo bioplásmico, a terapia de vidas passadas (TVP), a psicologia transpessoal, cada uma em sua própria área de actuação, gradativamente vêm fazendo avanços que confirmam a teoria espírita, mas não provam por “a mais b” a existência do Espírito e sua sobrevivência ao corpo, permanecendo muitas vezes injustamente marginalizadas do ponto de vista académico.

Entretanto, consideramos precipitado substituir a terminologia espírita pela terminologia científica, pois poderemos incorrer em graves erros, que podem levar à descaracterização da Doutrina Espírita.

Alguns confrades espíritas, afoitos em respeitar a natureza evolutiva do Espiritismo, como estabelecido por Kardec em “A Génese” 1, substituíram em seus escritos a palavra fluido por energia, chamam o perispírito de corpo electromagnético do Espírito e alguns chegaram a afirmar que o princípio vital nada mais seria que o DNA...

Lembremos o ensinamento do codificador: “Melhor é recusar nove verdades, a aceitar uma única mentira”.

O Espiritismo é uma ciência sim!
Mas é preciso respeitar-lhe objecto e método.

Lúcido foi Kardec, ao enunciar que “o Espiritismo e a Ciência se completam um pelo outro;
[i]a ciência, sem o Espiritismo, se acha impossibilitada de explicar certos fenómenos, unicamente pelas leis da matéria;
o Espiritismo, sem a ciência, ficaria sem apoio e exame”
1.

O autor é bacharel e mestre em Química pela UFBA, doutorando em Química pela UNICAMP.
Iniciou seus estudos espíritas no CEHC em 1989, é sócio fundador da Sociedade de Educação Espírita da Bahia – SEEB e criador e moderador da lista electrónica “Evangelho-na-Net”, através da qual distribui diariamente mensagens espíritas de carácter moral (Evangelho-na-Net-subscribe@yahoogroups.com).

[1] Kardec, A., A Génese, LAKE.
[1] Kardec, A., O que é o Espiritismo, FEB.

[1] Dicionário Aurélio Electrónico.
[1] Pires, H., Ciência Espírita, FEESP.

[1] Pires, H., in “Introdução ao Livro dos Espíritos”, O Livro dos Espíritos, LAKE.
[1] Kardec, A., O Livro dos Médiuns, LAKE.

Artur Mascarenhas

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O Guia Real

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 15, 2012 9:59 am

José Argemiro da Silveira

"Que dizem os homens que sou?
Disseram os discípulos:
Uns dizem João Baptista, outros Elias, outros Jeremias ou um dos profetas.
E vós, quem dizeis que sou?
Pedro respondeu:
Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo"
(Mateus, 16: 13 a 16).

Sem desprezar outras apreciações que o texto acima faculta, observamos que Jesus procurou esclarecer os discípulos sobre quem é Ele.

Primeiro indaga quanto a opinião das pessoas a seu respeito, depois pergunta aos próprios discípulos, quem era Ele.
E Pedro afirma:
"Tu és o Cristo, filho de Deus vivo", e recebe total aprovação do Mestre, dizendo:
"Bem-aventurados és, Simão, filho de Jonas, porque não foi a carne e o sangue quem to revelou, mas sim meu Pai que está nos céus".
Não foi Pedro (o homem de carne e sangue) o autor da revelação, mas o Pai que está nos céus, isto é, Pedro foi um instrumento de Deus ao dar a resposta precisa.

Quem é Jesus?
Se essa pergunta nos for feita hoje, o que responderemos?

Para alguns Jesus é apenas um homem sábio, um filósofo, ou um profeta.

Os Judeus continuam esperando a vinda do Messias.
Há quem considera Jesus um revolucionário, um anarquista.

Há um livro com este título:
"Jesus, o maior dos anarquistas".

Para grande parte dos cristãos Jesus seria o próprio Deus, o Criador de tudo que existe.

E para o espírita, quem é Jesus?

Emmanuel, pela psicografia de Francisco Cândido Xavier, no livro "A Caminho da Luz", afirma:
"Rezam as tradições do mundo espiritual que na direcção de todos os fenómenos, do nosso sistema, existe uma Comunidade de Espíritos Puros e Eleitos pelo Senhor Supremo do Universo, em cujas mãos se conservam as rédeas directoras da vida de todos as colectividades planetárias.

Essa comunidade de seres angélicos e perfeitos, da qual é Jesus um dos membros divinos, ao que nos foi dado saber, apenas já se reuniu, nas proximidades da Terra, para a solução de problemas decisivos da organização e da direcção do nosso planeta, por duas vezes no curso dos milénios conhecidos.

A primeira, verificou-se quando o orbe terrestre se desprendia da nebulosa solar, a fim de que se lançassem, no Tempo e no Espaço, as balizas do nosso sistema cosmogónico e os pródromos da vida na matéria em ignição, do planeta, e a segunda, quando se decidia a vinda do Senhor à face da Terra, trazendo à família humana a lição imortal do seu Evangelho de amor e redenção".

Assim, Jesus é um Espírito, filho de Deus, como nós, com a diferença de que, ao ser formado o nosso planeta.
Ele já era um Ser da mais alta evolução.

Não há possibilidade de comparação entre Jesus e qualquer outro Espírito que já tenha passado pela Terra, por mais sábio e bom que este seja.

Jesus teria realizado o seu processo evolutivo em outros mundos, e já fazia parte da "Comunidade de Espíritos Puros" antes da formação do nosso orbe.

No Livro dos Espíritos, questão 625, pergunta Allan Kardec:
"Qual o tipo mais perfeito que Deus ofereceu ao homem, para lhe servir de guia e modelo?"
Resposta:
"Vede Jesus".

E Kardec comenta:
"Jesus é para o homem o tipo de perfeição moral a que pode aspirar a Humanidade na Terra.
Deus no-lo oferece como o mais perfeito modelo e a doutrina que ele ensinou é a mais pura expressão de sua lei, porque ele estava animado do Espírito divino e foi o ser mais puro que já apareceu na Terra...".


Jesus nos propõe um programa de trabalho ao nos convidar:
"Se alguém me quiser seguir, negue-se a si mesmo, e tome a sua cruz, e siga-me".

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Re: O que é a Doutrina

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 15, 2012 9:59 am

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Muitas vezes procuramos seguir os cristãos, e não o Cristo.

Quem segue Jesus está sempre em boa Companhia, não sofre decepções.
Tem sempre um roteiro de aprendizado e de trabalho, para realizar sua evolução espiritual.

No estudo e compreensão dos ensinos do Mestre, e, ao mesmo tempo, empenhado em vivenciá-los no quotidiano, vai compreendendo cada vez melhor as leis divinas, e desenvolvendo as potencialidades do Espírito.

Seguir os cristãos é algo bem diferente.
Estes podem ser bem intencionados, imbuídos dos melhores ideais, mas como criaturas ainda imperfeitas estão sujeitas a erros e fracassos.

Seja o sacerdote católico, o pastor evangélico, o médium espírita ou o orador, administrador de instituições podem ser pessoas bem intencionadas, que prestam bons serviços ao ideal, mas não reúnem condições para serem guias, ou modelos.

No nosso caso, no movimento espírita, podemos observar que, às vezes, irmãos valorosos, ao longo do tempo, sofrem desvios de conduta em suas actividades, enveredando por caminhos equivocados.

Isto é natural, pois é próprio da fraqueza do Espírito em evolução, num mundo como o nosso.

Alerta-nos Emmanuel:
"Na procura de orientação para a conquista da felicidade suprema, com base na alegria santificante, lembra-te de que não podes encontrar a directriz integral entre aqueles que te comungam a experiência terrestre.

Nem na tribuna, nem nos pioneiros da evolução, nem no trabalho dos pesquisadores, nem na cátedra dos professores, nem na veste dos sacerdotes, nem no bastão dos pastores, nem na pena dos escritores, nem na frase incisiva dos pregadores ardentes, nem na mensagem reconfortante dos benfeitores desencarnados.

Em todos, surpreenderás, em maior ou menor porção, defeito e virtude, fealdade e beleza, acertos e desacertos, sombras e luzes.

Cada um deles algo te ensina, beneficiando-te de algum modo;
contudo, igualmente caminham, vencendo com dificuldade a si mesmos...

Cada um é credor de nossa gratidão e de nosso respeito pelo amor e pela cultura que espalha, mas no campo da Humanidade só existe um orientador completo e irrepreensível.

Tendo nascido na palha, para doar-nos a glória da vida simples, expirou numa cruz pelo bem de todos, a fim de mostrar-nos o trilho da eterna ressurreição" 1

1 - Emmanuel - [bi]Religião dos Espíritos[/b], psicografia de Francisco C. Xavier.

(Jornal Verdade e Luz Nº 179 de Dezembro de 2000)

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O balde no pescoço

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 16, 2012 10:15 pm

Nilza Teresa Rotter Pelá

Há muitos anos moramos em um mesmo bairro, para lá mudamos com uma filha pequena e alguns anos depois nasceu o segundo filho.
Como nossa família muitas outras foram chegando ao bairro e as famílias foram crescendo e as crianças também.

Formaram um grupo que passamos a chamar "os meninos da rua" (da rua e não de rua).
A esse activo grupo de crianças, aos poucos, foi juntando novos elementos:
os cachorros das famílias.

Pequenos no começo foram se diferenciando, assim como seus donos.
Os meninos tornaram-se adultos jovens com opções diversificadas, uns foram para a faculdade, outros buscaram empregos ao término do colegial e alguns poucos enveredaram por caminhos inadequados.

Os cachorros tornaram-se velhos e muitos foram acometidos por doenças e tiveram que serem operados.

Hoje é difícil ver os "meninos" andando pelo bairro, entretanto é frequente ver os cachorros caminhando com um balde, com o fundo cortado, preso ao pescoço.

Na primeira vez que vimos esta imagem surrealista ficamos surpreendidos, depois viemos saber que isto era um mecanismo de protecção para o animal, pois operado ficava a lamber a ferida cirúrgica e isto podia ser prejudicial à cicatrização.

Com a aproximação do "ano novo", quando nos propomos a reflexões mais profundas, a imagem do cão com o balde no pescoço tem estado muito presente sobretudo porque temos analisado que em algumas circunstâncias nós os humanos necessitamos de "baldes" que nos ajudem a evitar males maiores.

Quando não conseguimos modificar hábitos nocivos, por livre e espontânea vontade vem o médico e precisa colocar o balde simbólico em nosso pescoço, proibindo isso ou aquilo.

Como nem sempre é suficiente começamos a sentir a consequência e então por medo começamos a mudar.

Muda-se não porque está convencido que isto é o melhor, mas pelo medo da consequência.
Neste estado de coisas é o balde simbólico que nos contém e não nossa modificação de atitude.

É o glutão que faz o regime esperando o dia da alta para comer tudo que lhe foi proibido, o fumante que fuma escondido como se assim enganasse o médico e familiares quando na verdade está a enganar a si mesmo.

Muitas vezes há necessidade de nascer para nova experiência terrena com o balde amarrado ao pescoço para que mal maior não sobrevenha.

Na questão 852 de O Livro dos Espíritos, Kardec pergunta:
"Há pessoas que parecem perseguidas por uma fatalidade, independente da maneira que procedem.
Não lhes estará no destino o infortúnio?"


R: "São, talvez, provas que lhes caiba sofrer e que elas escolheram.
Porém, ainda aqui lançais à conta do destino o que mais das vezes é apenas consequência da vossas faltas.
Trata de ter pura a consciência em meio dos males que te afligem e já bastante consolado te sentirás."


As limitações educativas, ainda necessárias em nosso actual estágio evolutivo funcionam com baldes a evitar males maiores.

Rebelar-se com estas situações limitantes que visam conter nossos impulsos inferiores podem nos ferir inutilmente nada acrescentando ao nosso património espiritual.

O balde simbólico, leia-se as limitações, tem como objectivo uma reformulação de nossos valores de vida acelerando nossa romagem evolutiva.

Um rei da Inglaterra, a cada noite pedia à Deus "ensina-me a não chorar pela luta, nem pelo leite derramado" e os alcoólicos anónimos oram pedindo forças para mudar o que pode ser mudado e para aceitar o que não pode.

Quando o "balde" aparecer, antes de lutar com ele valeria a pena perguntar-se qual o ensinamento que nos trás.

(Jornal Verdade e Luz Nº 179 de Dezembro de 2000)

§.§.§- O-canto-da-ave
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No sustento da paz

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 16, 2012 10:16 pm

José Argemiro da Silveira

"Vivei em paz uns com os outros"
Paulo (I Tessalonicenses, 5:13)

O dicionário define paz como sendo:
"Relações tranquilas de um estado ou de uma nação.
Tranquilidade pública.
Tranquilidade, sossego, descanso.
Silêncio".


Neste ano temos ouvido falar muito em "Paz", porque a Assembleia Geral das Nações Unidas proclamou o ano 2000 o Ano Internacional da Cultura da Paz, sob a denominação geral da UNESCO.

"A cultura de paz está intrinsecamente relacionada à prevenção e à resolução não-violenta de conflitos.

É uma cultura baseada na tolerância, solidariedade e compartilhamento em base quotidiana, uma cultura que respeita todos os direitos individuais - o princípio do pluralismo, que assegura e sustenta a liberdade de opinião - e que se empenha em prevenir conflitos resolvendo-os em suas fontes, que englobam novas ameaças não-militares para a paz e para a segurança como exclusão, pobreza extrema e degradação ambiental.

A cultura da paz procura resolver os problemas por meio do diálogo, da negociação e da mediação, de forma a tornar a guerra e a violência inviáveis"

(de uma apostila distribuída pelo "Ribeirão Preto pela Paz").

Quando ouvimos falar em "paz", geralmente pensamos que o assunto não nos diz respeito.
Achamos que já fazemos a nossa parte: cumprimos nossos deveres, evitamos conflitos, logo estamos quites com a questão da paz.

Será que é realmente assim?

Outra definição de paz é:
"Defender a paz significa cuidar de nós mesmos, dos outros e do mundo à nossa volta".

Emmanuel, analisando a frase de Paulo, citada de início (Livro "Palavras de Vida Eterna", cap. 45), nos diz que todos somos intimados pela vida ao sustento da paz.

Todos influenciamos e somos influenciados uns pelos outros "e, ainda que a nossa influência pessoal se nos figure insignificante, ela não é menos viva na preservação da harmonia geral".

Cuidar de nós implica no empenho por melhorar-nos e educar-nos, de vez que paz não é inércia e sim esforço, devotamento, trabalho e vigilância incessantes a serviço do bem.

Cuidar dos outros não parece fácil nesse mundo onde o egoísmo parece estender suas raízes por todos os lados.

Mas se procurarmos evitar a crítica destrutiva;
se buscamos compreender as pessoas, tolerá-las, relevar-lhes as faltas, perdoá-las, limpando o coração de mágoas e ressentimentos, estaremos nos exercitando na cultura da paz.

O Espírito Meimei, no livro Ideal Espírita, cap. 5, psicografia de Francisco C. Xavier, afirma:
"Rogas a paz do Senhor, mas o Senhor igualmente espera por teu concurso na paz dos outros.

Reflecte nas necessidades de teu irmão, antes de lhe apreciares o gesto impensado.

Em muitas ocasiões, a agressividade com que te fere é apenas angústia e a palavra ríspida com que te retribui o carinho é tão somente a chaga do coração envenenando-lhe a boca.
Auxilia mil vezes, antes de reprovar uma só".


Continua...
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