Criticando Kardec

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Re: Criticando Kardec

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 10, 2013 10:14 pm

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Logo nenhum sofrimento é injusto, pois nada escapa ao olho do criador ou acontece sem seu consentimento.
Ele é que deve ser inocentado de nossa iniquidade e imperfeição.

E se retirássemos o atributo de omnipotência de Deus?
Isto permitiria a existência de sofrimentos imerecidos, ocorridos por contingência, e ainda inocentaria Deus.

“Blasfémia!” dirão alguns ou arrogância minha em dizer como Deus deve ser ou não.
Mas quando lhe damos os atributos supra-citados não estamos querendo dizer como ele deve ser?

Quando Kardec escreve de próprio punho um comentário após a questão 13 do LE:
“É omnipotente. Ele o é porque é único.
Se não dispusesse do soberano poder, algo haveria de mais poderoso ou tão poderoso quanto ele, que então teria feito todas as coisa.
As que não tivesse feito seriam obra de outro Deus.”


Mas o que é omnipotência?
É “poder fazer tudo” ou “fazer tudo o que é possível ser feito”?


Uma charada lógica há muito usada nos questionamentos quanto ao atributo da omnipotência é:
“Seria Deus capaz de criar uma pedra tão grande que ele mesmo pudesse mover?”

Não importa se a resposta é “sim” ou “não”, a omnipotência está em xeque – presa num paradoxo de auto-referência.

A saída é constatar que a pergunta não faz sentido pois ela está é do mesmo quilate que:
“O que acontece quando um objecto irremovível topa com uma força irresistível?”

Nada acontece, pois se há um objecto irremovível, não existe força irresistível e vice-versa.
Idem para as propriedades da pedra da primeira questão, as duas não são viáveis ao mesmo tempo.

Outra indagação é “se Deus poderia criar um triângulo de quatro lados?”
A resposta é não, pois não é uma questão de possibilidade de construção, mas de definição do que é um triângulo ou não.

Interpretando assim, Deus não seria capaz de realizar objectos e aptos paradoxais e ninguém mais seria.
Portanto não é verdadeiro a afirmar que se Deus pudesse fazer algo alguém poderia e teria necessariamente de ser mais poderoso.

Desculpe, mas... isto não é invenção minha como você gostaria de usar para refutar.

Outros filósofos muito mais sofisticados e competentes que Kardec – mas nem por isso inquestionáveis - já expuseram isto:

“Eu respondo que:
Todos admitem ser Deus omnipotente, mas parece ser difícil explicar exactamente em que Sua omnipotência consiste:
pois pode haver dúvidas sobre o que significado preciso da palavra “todas” quando dizemos que Deus pode fazer todas as coisas.

Se, contudo, abordarmos o problema apropriadamente, visto que diz-se de poder em relação a coisas possíveis, esta frase, “Deus pode fazer todas as coisas,” é correctamente entendida significando que Deus pode fazer tudo que é possível; e por esta razão diz-se que Ele é omnipotente. (...)

Eu respondo que:
Como disse acima (q. 7, art. 2), não cai sob o escopo da omnipotência de Deus qualquer coisa que implique em contradição.(...)”

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Re: Criticando Kardec

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 10, 2013 10:15 pm

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Tomás de Aquino, Summa Theologica, Parte I, questão, 25, art. 3 e 4.

“Ô perái, argumento de um santo católico?”

Sim, apesar de ser religião dogmática como gostam de lembrar, duas palavras deixam o espiritismo no chinelo em relação a ela no campo filosófico:
Escolástica e Tomística.

Essencialmente, nenhum dos argumentos expostos por Kardec é original dele e ditado por espíritos superiores, mas dívidas que ele tem com uma copiosa filosofia medieval, que talvez levasse muitos de seus continuadores a se envergonhar de reconhecê-la.

Aquino reconhecia o predecessor de seu aristotelismo chamando-o de “O Filósofo”.

Outros pensadores cristãos, como C.S. Lewis (popularizado recentemente pela filmagem de uma de suas “Crónicas de Nárnia”), citaram Aquino (e o identificaram) e não tinham frescuras em impor restrições à omnipotência.

Da mesma forma que é enganoso que Deus precise fazer tudo, não é verdadeiro que se Deus não conseguisse fazer “todas as coisas possíveis”, necessariamente haveria outro mais poderoso.

Poder-se-ia conceber um grupo de entidades de poderes complementares trabalhando juntas.

Esta hipótese remete a outra assertiva de Kardec, anterior à já citada:
“É único. Se muitos deuses houvesse, não haveria unidade de vistas, nem unidade de poder na ordenação do universo.”

O curioso é que, pela própria lógica kardecista, conforme espíritos progridem, uma unidade de vistas surge: o bem universal.

Junto com isso também vêm mundos mais harmónicos onde espíritos avançados habitam.
Então, porque um grupo de seres extremamente poderosos, bons e justos não poderiam coexistir em união?

De certa forma, para “provar” que Deus é único, Kardec antropomorfizou-o com nossas limitações.

Um deus que não é omnipotente não é uma presunção de alguém que deseja imputar a ele uma pequenez humana.

É uma hipótese realmente séria para explicar a existência do sofrimento e que já foi sinceramente utilizada por religiosos de credo e cultura relativamente próximos aos do leitor deste texto:

“Os versos mais importantes de todo o livro [de Jó] talvez sejam aqueles colocados na boca de Deus na segunda metade do discurso do redemoinho, capítulo 40, versículos 9-14:

Ou tens braço como Deus?
Ou podes trovejar com a voz como Ele o faz?


Derrama as torrentes de tua ira,
E atenta para todo soberbo, e abate-o...

Então também eu confessarei a teu respeito
Que a tua mão direita te dá a vitória.

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Re: Criticando Kardec

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 11, 2013 9:47 pm

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Penso que estes versos significam:
'Se você pensa que é fácil manter o mundo em ordem e arrumado, evitar que coisas injustas aconteçam às pessoas, tente você fazê-lo'.

Deus deseja que os justos vivam vidas tranquilas e felizes, porém às vezes nem Ele mesmo consegue que isto se realize.
É difícil até para Deus evitar que a crueldade e o caos recaiam sobre vítimas inocentes.

Conseguiria o homem, sem Deus, melhores resultados?

O discurso continua, no capítulo 41, descrevendo a batalha de Deus com Leviatã, a serpente do mar. Com grande esforço, Deus a prende em uma rede e a fisga com anzóis, porém não é fácil.

Se a serpente do mar é o símbolo do caos e do mal, de todas as coisas incontroláveis no mundo (como tradicionalmente o é na mitologia antiga), o autor pode estar dizendo aí que até mesmo Deus tem dificuldade em manter o caos sob controle e limitar os danos que o mal pode fazer.

Os inocentes sofrem desgraças nesta vida.
Acontecem-lhes coisas muito piores do que merecem – perdem seus empregos, adoecem, seus filhos sofrem ou fazem-nos sofrer.

Todavia, quando isto ocorre, não significa que Deus os esteja punindo por algo errado que fizeram.
As desgraças não provêm, absolutamente, de Deus.

Talvez se tenha uma sensação de perda ao chegar a semelhante conclusão.

De certa forma, é confortador crer em um Deus omnisciente e omnipotente que nos assegura tratamento justo e um final feliz, que nos garante que tudo acontece por alguma razão, embora a vida fosse mais fácil se pudéssemos acreditar que nossos pais, suficientemente sábios, sabem o que fazem e são fortes o bastante para fazer tudo voltar ao normal.

Isto seria reconfortante, porém da maneira como o era a religião dos amigos de Jó:
só funcionaria enquanto não levássemos a sério o problema das vítimas inocentes.

Depois de encontrarmos Jó, de vermos Jó, não daria mais para acreditar neste tipo de Deus sem abdicar do nosso direito de sentir raiva, de sentir que fomos maltratados pela vida.

Observando-se sob este ângulo, ficamos um tanto aliviados ao chegar à conclusão de que Deus não está nos maltratando.

Se Deus é um Deus de justiça e não de força, então Ele pode permanecer ainda ao nosso lado quando coisas ruins nos acontecem.

Ele sabe que somos bons e honestos e que merecemos algo melhor.
Nossas desgraças não são obra Sua, e podemos voltar-nos a Ele em busca de ajuda.

Nossa interpelação não será a de Jó
'Deus, por que fazes isto comigo?'
- mas:
'Deus, vê o que está acontecendo comigo, podes ajudar-me?'

Recorreremos a Deus não em busca de julgamento ou perdão, não à procura de recompensa ou punição, mas para sermos fortalecidos e confortados.

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Re: Criticando Kardec

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 11, 2013 9:48 pm

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Se tivermos crescido, como o foram Jó e seus amigos, acreditando em um Deus omnividente, omnisciente, será difícil para nós, como para eles também foi, mudar nossa maneira de pensar sobre Ele (da mesma forma que não foi fácil, quando éramos crianças, constatar que nossos pais não eram omnipotentes, que um brinquedo quebrado tinha de ser jogado fora porque não podiam consertá-lo, embora quisessem fazê-lo).

Porém, ser pudermos nos persuadir de que há situações que fogem ao controle de Deus, muitas coisas boas se tornarão possíveis.

Seremos capazes de recorrer Deus e pedir-lhe a ajuda que está ao seu alcance nos proporcionar, em vez de alimentarmos expectativas irrealísticas que Ele jamais transformará em realidade.

A Bíblia, afinal, fala repetidamente de Deus como o protector de pobre, da viúva, do órfão, sem discutir as razões pelas quais eles se tornaram pobre, viúva ou órfão.

É possível conservar nosso auto-respeito e nosso sentimento de bondade sem ter que pensar que Deus nos julgou e nos condenou.

A raiva que sentimos pelo que nos aconteceu não implica em sentir raiva de Deus.

Mais que isto, podemos reconhecer nossa raiva pela injustiça da vida, nossa compaixão instintiva pelo sofrimento humano, como provenientes de Deus que nos ensina a odiar a injustiça e a sentir compaixão pelo aflito.

Em vez de nos sentirmos do contrário ao de Deus, sabemos que nossa indignação é a ira de Deus pela injustiça de que somos vítimas e que, quando choramos, continuamos junto a Deus e Ele continua junto a nós.

Kushner, Harold, S.; Quando Coisas Ruins Acontecem às Pessoas Boas, Ed. Nobel, cap. II

Muitos dos que leram o extracto acima, podem questionar usando as fórmulas costumazes de “nenhum sofrimento é imerecido”, “a assistência também ocorre nas expiações”, “o esquecimento é necessário para que antigos inimigos se reconciliem”, etc.

A estes, recomendo a leitura de toda a obra de Kushner.
É um livro fino, de fácil leitura e que põe bem o dedo na ferida nesses remendos de que “há males que vêm para bem, ainda que não saibamos porquê”.

A quem tiver o livro “Analisando as Traduções Bíblicas”, recomendo, também, a comparação entre as visões da história de Jó de Severino Celestino da Silva e a de Kushner.

Parece que leram livros distintos.
“Ah, mas peraí: houve um rabino que disse ser holocausto um resgate colectivo!”.
É, disse. E daí, mané?

Ao contrário do que autores como S. C. da Silva alegam, reencarnação não é consenso no judaísmo.
Kushner – que é rabino – passa ao largo disto.

Num facto ainda recente, o rabino Henry Sobel deu uma interessante resposta ao Papa Bento XVI sobre “onde estava Deus durante o holocausto”.
Em nenhum instante ele diz que as vítimas o mereceram.

Sobel, por sinal, assim termina o prefácio da edição brasileira do livro de Kushner:
“A afirmação de fé do Rabino Kushner diante do seu trauma pessoal [ele teve um filho com uma doença rara, que o levou ao envelhecimento precoce e morte na adolescência] é um exemplo admirável e inspirador.

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Re: Criticando Kardec

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 11, 2013 9:48 pm

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Alguns, indubitavelmente, discordarão de suas ideias.

Mas para muitos de nós que fomos esmagados pela tragédia, que buscamos desesperadamente um ponto de apoio quando um acontecimento cruel e absurdo fez desmoronar o nosso mundo, as palavras de Kushner são uma fonte de consolo e esperança

Sem pretender nada mais do que compartilhar connosco a sabedoria de um homem 'machucado pelo destino', este livro nos traz uma das mais belas, sensatas e humanas lições de vida de todos os tempos”.

Existem, claro, outras explicações satisfatórias e mais simples para o “problema do mal” no mundo:
deus não existe (como dizem os ateus), deus é um filho-da-puta (segundo os malteístas) ou deus não está nem aí connosco.

Ninguém é obrigado a gostar delas, mas os que se apegam ao quarteto bondade - omnisciência - omnipotência - omnipresença têm uma tarefa das mais espinhosas.

Como relataram as palavras de Divaldo Franco expostas em A Revista da Religiões, edição 19, p. 51, Ed. Abril, março 2005:

“Segundo a doutrina espírita, a jornada terrestre é um campo para a experiências evolutivas e os flagelos seriam meios de apressar o progresso moral dos espíritos.

'Deus sempre emprega meios salutares para promover o progresso dos seres humanos, revelando-lhes a consciência do bem e do mal, que nem sempre é aproveitada'
, afirma o médium baiano Divaldo Franco.

'Choques como esse [Tsunami na Ásia] castigam o orgulho e os maus sentimentos que ainda vicejam na humanidade'. Então Deus castiga?”

Talvez Divaldo dissesse que não castiga – apenas fez alusão indirectas às questões 737 e 738 do LE, mas como conciliar isto com a tese da evolução espiritual na “base da chibata”?

Nem sempre o sofrimento torna as pessoas melhores e se “deus não põe fardos pesados sobre ombros frágeis”, então se tornar um “fraco moral” seria uma solução para evitar a dor?

Bem, estou me adiantando.
Leiam o livro recomendado.

Outros atributos divinos também não seriam tão intocáveis assim:
“É imutável. Se estivesse sujeito a mudanças, as leis que regem o Universo nenhuma estabilidade teriam.”

O curioso é que é perfeitamente mudar segundo leis imutáveis, se isto for parte de seu planeamento.
Submeter-se ao impacto de transformações ser uma estratégia para acompanhar sua própria criação.

Exponho dois conceitos-deus que usam esta estratégia:
“Para concluir este capítulo, arrisco-me um pouco mais do que Thomas Wright na direcção da especulação teológica.

Para mim, o facto mais assombroso do universo, ainda mais assombro do que o voo da borboleta monarca, é o poder da mente que impele meus dedos enquanto escrevo estas palavras.

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Re: Criticando Kardec

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 12, 2013 10:51 pm

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De algum modo, por processos naturais ainda totalmente misteriosos, um milhão de cérebros de borboleta trabalhando juntos num crânio humano têm o poder de sonhar, ver e ouvir, falar e escutar, traduzir pensamentos e sentimentos em marcas no papel que outros cérebros podem interpretar.

A mente, no decorrer do longo curso da evolução biológica, estabeleceu-se como uma força propulsora em nosso caminho do universo.
Aqui, neste pequenino planeta, a mente infiltrou-se na matéria e assumiu o controle.

Parece-me que a tendência da mente para infiltrar-se na matéria e controlá-la é uma lei da natureza.
Mentes individuais morrem e planetas individuais podem ser destruídos.

Porém, como afirmou Thomas Wright, “a catástrofe de um mundo, como o nosso, ou mesmo a dissolução total de um sistema de mundos, talvez possa ser para o grande Autor da Natureza não mais do que o mais comum acidente da vida para nós”.

A infiltração da mente no universo não será permanentemente detida por nenhuma catástrofe nem por uma barreira que eu possa imaginar.

Se nossa espécie não escolher se extinguir, outras serão mais sábias ou mais afortunadas.
A mente é paciente.
A mente esperou 3 bilhões de anos neste planeta antes de compor seu primeiro quarteto de cordas.

Pode ter de esperar outros 3 bilhões antes de se disseminar por toda a galáxia.
Não acho que terá de esperar tanto.
Mas, se preciso, ela esperará.

O universo é como um solo fértil espalhado à nossa volta, pronto para que as sementes da mente germinem e cresçam.
No final, cedo ou tarde, a mente tomará posse de sua herança.

O que a mente escolherá fazer quando moldar e controlar o universo?
Essa é uma pergunta que não podemos ter esperança de responder.

Quando a mente houver expandido seu alcance físico e sua organização biológica numa escala dezenas e dezenas de vezes maior do que a humana, não podemos esperar seus pensamentos e sonhos mais do que uma borboleta monarca pode esperar compreender os nossos.

A mente pode responder nossas questões apenas como Deus respondeu a Jó meio do redemoinho:
“Quem é este que escurece os meus desígnios com palavras sem conhecimento?”.

Ao contemplar o futuro da mente no universo, esgotamos os recursos de nossa insignificante ciência humana.
É nesse ponto que termina a ciência e começa a teologia.

Assim como a maioria dos cientistas neste século (XX), não me ocupei seriamente da teologia.
A teologia é uma língua estrangeira que não nos preocupamos em aprender.

Minha teologia pessoal é uma teologia de amador.
Mas, uma ocasião, contei com alguma ajuda de um teólogo profissional para formular minhas ideias de maneira intelectualmente coerente.

Conheci Charles Hartshorne num encontro em Minnesota, e tivemos uma conversa profunda.

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Re: Criticando Kardec

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 12, 2013 10:51 pm

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Depois de algum tempo dialogando, ele me informou que meu ponto de vista teológico é sociniano
(Socino foi um herege italiano que viveu no século XVI).

Se me recordo correctamente do que Hartshorne disse, a principal doutrina da heresia sociniana é que Deus não é omnisciente nem omnipotente.

Ele aprende e cresce à medida que o universo se desenvolve.
Não tenho a pretensão de entender as subtilezas teológicas a que essa doutrina conduz se for analisada em detalhes.

Eu meramente a considero atractiva e condizente com o senso comum científico.

Não falo uma distinção clara entre mente e Deus.
Deus é o que a mente se torna quando ultrapassa a escala de nossa compreensão.

Deus pode ser uma alma ou uma colecção de almas do mundo.
Somos as principais entradas Dele neste planeta no presente estágio de seu desenvolvimento.

Podemos mais tarde crescer com ele à medida que for se desenvolvendo, ou podemos ser deixados para trás.

Como disse Bernal:
'Esse pode ser um fim ou um começo, mas está ainda fora de nossas vistas'.

Se ficarmos para trás, é um fim.
Se continuarmos a crescer, é um começo.

A grande virtude de minha versão da teologia sociniana é deixar lugar no topo para a diversidade.
Assim como a grandeza da criação reside na diversidade, o mesmo se pode dizer da grandeza do Criador.

Muitas almas do mundo são melhores do que uma.
Quando a mente cresce para preencher o universo, é igualmente como diversificadora e unificadora.”

Freeman Dyson, Infinito em Todas as Direcções, Companhia das Letras, cap. VI

Outra opinião, agora de um teólogo

“A afirmação cristã distintiva é que esse homem que morreu na cruz ergueu-se dos mortos e é o Messias (Cristo) prometido e Filho de Deus.

Na sua morte e ressurreição, devemos enxergar a mais plena revelação do carácter de Deus e o acto pelo qual Deus restitui o mundo a sua relação adequada com o criador.

Aqui quero descrever brevemente como essa visão religiosa pode responder às questões suscitadas pela ciência e pela tecnologia.

Essas questões devem ser compreendidas em função daquilo que o teólogo do século XVI Martinho Lutero chamou “teologia da Cruz”.

Ele acreditava que, para conhecermos Deus verdadeiramente, devemos olhar primeiro para Cristo na cruz.

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Re: Criticando Kardec

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 12, 2013 10:52 pm

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(...)

A teologia da cruz diz que Deus, de maneira paradoxal, está oculto, mesmo quando se revela.
Isso porque um homem que pende na cruz, um aparente fracasso, não se parece em nada com o que esperamos que um Deus seja.

Naturalmente, queremos um Deus que sempre tenha controle completo, que não possa ser derrotado e que forneça indícios inequívocos de sua divindade, como alguém que renuncia a exibições avassaladoras de poder e mostra seu amor assumindo a forma de um servo.

Se Deus está oculto mesmo quando em sua revelação suprema, devemos talvez, esperar que Deus esteja oculto nas ocorrências quotidianas do mundo?

Os cristãos, como muitos outros crentes religiosos, pensaram que Deus é activo no mundo mantendo o universo em seu desenvolvimento e fornecendo o necessário à vida.

Podemos pensar em Deus fazendo isso utilizando as coisas do mundo como ferramentas ou instrumentos.

Naturalmente, essas ferramentas, que, por fim, são partículas elementares e interacções que obedecem às leis da relatividade e da teoria quântica, são muito mais delicadas e subtis do que martelos e serrotes.

Se Deus sempre usa esses instrumentos em conformidade com leis racionais, seremos capazes de descrever o que ocorre no mundo inteiramente em função das coisas do mundo e das leis a que elas obedecem.

Como vimos, a ciência teve bastante sucesso ao oferecer tal descrição do mundo.

Segundo essa abordagem, as coisas que observamos no mundo são os instrumentos que Deus usa e as 'máscaras' (como diz Lutero) que ocultam Deus de nossa observação directa.

A crença de que Deus é activo no mundo é uma expressão de fé no Deus revelado na Cruz, não uma dedução científica.

Esse argumento depende crucialmente da ideia de que Deus limita sua acção no mundo ao que pode ser descrito por leis racionais da natureza.

Tal autolimitação, porém, é exactamente o que vemos na cruz, onde Deus não usa o poder divino para libertar-se do sofrimento e da morte.

Além disso, a limitação de Deus de sua própria acção no mundo é uma dádiva aos seres inteligentes, que os capacita a compreender o mundo em que vivemos.

A dádiva de ser capaz de compreender o mundo ajuda-nos a compreender por que Deus poderia trabalhar dessa maneira:
Deus confere ao mundo certa integridade própria.
Contudo, a maneira como Deus aparentemente actuou para desenvolver a vida ainda é perturbadora.
Como a evolução pode ser vista à luz da cruz?


Tão logo pormos essa questão, perceberemos que nossa abordagem nos dá uma maneira de responder ao desafio da selecção natural que discutimos em nossa primeira secção.

Aqui, Deus não é compreendido como uma divindade que obriga milhões de gerações ao sofrimento e à extinção sem ser ele mesmo afectado pelo processo, mas, antes, como um Deus que participa do processo e compartilha o sofrimento e a morte do mundo.

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Re: Criticando Kardec

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 13, 2013 10:15 pm

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O preço pelo desenvolvimento da vida é pago não apenas pelas criaturas de Deus, mas pelo próprio Deus.

A proeminência do sofrimento e da morte no mundo natural é perturbadora, e a cruz não a torna menos perturbadora, nem prova que o uso dela por Deus na evolução seja justificado.

O que a teologia da cruz faz realmente é dizer que Deus coloca-se com o mundo no sofrimento e na morte e, com isso, oferece esperança para a vida.

Também a 'sobrevivência do mais apto' não deve ser afirmada como um princípio universal de que os fortes sempre terão a vitória diante dos fracos.

A ressurreição do Cristo crucificado é, afinal, uma vindicação daquele que foi morto.(...)”

Murphy, George L.; Cosmologia, Evolução e Biotecnologia, publicado em Construindo Pontes entre a Ciência e a Religião, colectânea de Tom Peters & Gaymon Bennett, Unesp.

Um deus representado à maneira do velho barbudo e marombado sentado no trono é uma forma de torná-lo imutável.
Não que ele precise ser tão antropomorfizado assim, mas apenas estanque de sua criação.

Mal comparando, seria como um general abrigado em um bunker junto a seu Estado-maior, ordenando a seus soldados rastejar na lama sob fogo cruzado, pois suas ordens são inquestionáveis.

Por outro lado, existiram reis-generais como Alexandre e Ricardo Coração de Leão que iam para o corpo-a-corpo e se expunham com suas tropas.

Suas ordens eram soberanas e também sofriam o efeito delas.

E mais:
mesmo os árabes, a quem Ricardo combateu numa cruzada, achavam sua atitude guerreira uma imprudência.

Tanto Dyson como Murphy separam deus da criação;
o do primeiro a usa para seu próprio desenvolvimento, ao passo que o do segundo acompanha seus filhos a cada adversidade da trajectória.

Um não é omnipotente porque está em fase de crescimento, outro é omnipotente, mas abriu mão voluntariamente deste poder para auxiliar outros a crescer.

Ambos utilizam ferramentas e leis que eles mesmos criaram (e não mudam) para participar e evoluir com seu próprio projecto.

A teleologia de Dyson é melhor desenvolvida ao fim do referido livro, que recomendo.
Murphy fornece elegante conciliação entre teologia protestante e teoria da evolução.

Ao contrário de outros artigos da colectânea de Peters e de muitos dos meus leitores, ele não tenta espremer a ciência dentro de sua teologia apelando para artifícios, como por exemplo, do desígnio inteligente.

Murphy aceita a ciência tal como ela é, ainda que provisória (sabe-se que a mecânica quântica e a Relatividade ainda são teorias inacabadas), e se pergunta “que ensinamento teológico posso tirar disso?”

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Re: Criticando Kardec

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 13, 2013 10:16 pm

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Por uma ironia, digamos, divina, Murphy segue o conselho kardecista de acompanhar a ciência e sua fé a encara face-a-face.

Não se esconde em subterfúgios como as teorias falaciosas de Behe de “complexidade irredutível” para levar o debate de volta ao empate e poder questionar o que a corrente científica principal diz, defendendo um desejo de intervenção ostensiva de Deus.

Quem diria, um protestante é menos dogmático e possui uma fé muito mais racionada que um monte de espíritas por aí!
Hora de rever meus conceitos.

Ainda pode-se ir além nesta questão da (i)mutabilidade das leis e, portanto, de deus.
São as principais forças físicas do universo:
nuclear fraca, nuclear forte, electromagnética e gravitacional.

A física do século XX conseguiu unir a todas num único arcabouço teórico, à excepção da última: a gravidade.

Há um certo número de sistemas disputando uma verificação experimental para serem aprovados no concurso de “Teoria de Tudo”, possuidor de uma explicação unificada para todas as forças.

Um deles – a Teoria das super cordas – propõe que originalmente nosso universo possuía dez dimensões (outros cogitam 11 ou até 26):
uma temporal e nove espaciais.

Neste estado, a unificação estaria mais evidentemente que para nós.

Acontece que, em seus instantes iniciais, houve uma cisão das dimensões:
a temporal e três espaciais constituíram o universo tal como o conhecemos em nossa experiência usual – com cada força separada - e as demais enroscaram sobre si mesma em um tamanho diminutíssimo, mas ainda estão presentes em “simetrias” encontradas em partículas sub-atómicas.

Caso este modelo se revele correcto, ele pode suscitar uma questão interessante:
a leis naturais nem sempre foram as mesmas, ao menos durante os primeiros infinitésimos de segundo do universo-bebé.

Não seria nem necessário apelar para as abstracções física moderna para questionar o atributo de imutabilidade.

A própria questão 37 gera um nó lógico:

“37. O Universo foi criado, ou existe de toda a eternidade, como Deus?
'É fora de dúvida que ele não pode ter-se feito a si mesmo.
Se existisse, como Deus, de toda a eternidade, não seria obra de Deus.'”

Se deus é imutável, não deve precisar de nada, é auto-suficiente, pleno em si mesmo.
Então, qual o papel da Criação para deus?

Caso fosse realmente imutável, não precisaria dela.
Foi por capricho?
Se houve um propósito, então alguma coisa nele não podia continuar do jeito que estava.

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Re: Criticando Kardec

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 13, 2013 10:16 pm

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O Barbeiro dos Barbeiros

É necessário dizer que o verdadeiro “Barbeiro de Deus” que dá título a esta secção não é o da historiazinha introdutória, mas sim o do enunciado de uma charada lógica que infernizou a muitos no começo do século XX:

“Em uma cidadezinha, um barbeiro faz a barba de todo aqueles que não barbeiam a si mesmo.
Quem fará a barba do barbeiro?”


Partindo do princípio que todos devam se barbear, se alguém fizer a barba do barbeiro, ele é quem deveria se barbear.

Por outro lado, ele não pode se barbear, pois só faz isso àqueles que podem fazer a si mesmos.
É um paradoxo de auto-referência da teoria dos conjuntos, que pode ser enunciado de maneira mais formal assim: seja a assertiva

“O conjunto de todos os conjuntos é um conjunto”

Logo, baptizando este mega conjunto por S, tempos que S pertence a S.
Mas existem conjuntos que não apresentam auto pertinência, logo o conjunto T de todos os conjuntos que não contém a si mesmo é não vazio.

T pertence a si mesmo?
Se T pertence a T, então T não pertence a T por definição.
Se T não pertence a T, então T pertence a T por definição.

Aí que entra a questão da prova cosmológica de deus.
Iniciada por Aristóteles e seu “primeiro motor” e desenvolvida ao gosto cristão por Tomás de Aquino nos três primeiros itens da resposta dele à segunda questão da primeira parte de sua Summa Theologica.

E ela quem Kardec traz nas questões 4, 5, 7, 8 e 9.

Em síntese esta prova consiste:

1. As coisas estão em movimento, portanto há um primeiro motor
2. As coisas são causadas, portanto há uma causa primeira
3. As coisas existem, portanto há um criador

Que os “Livro dos Espíritos” editados, de agora em diante, venham com notas reconhecendo o mérito da filosofia católica...

Voltando assunto, é aqui que a prova teológica se assemelha ao paradoxo do barbeiro quando escrito deste jeito:
“Deus é a causa primária de todas as coisas. Qual a causa de Deus?”

Na lógica clássica, o paradoxo foi resolvido no melhor estilo “gambiarra” ao adicionar-se um novo conceito:
o conjunto de todos os conjuntos (e alguns outros mais) seria denominado classe, dando origem a uma espécie de “conjunto especial”.

Com isso, “contornou-se“ o paradoxo, não propriamente o resolvendo.
Independentemente, desde a antiguidade a questão da causa primária também recebeu uma solução “Mandrake” criando-se um ser especial que não foi criado/accionado por ninguém.

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Re: Criticando Kardec

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 14, 2013 10:10 pm

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Alguns chamaram-no de “primeiro motor”, outros de “deus”.
Portanto, senhores, deus não foi deduzido do princípio da causalidade como advogam os defensores do argumento cosmológico.

Ele é um axioma também deste sistema teológico, utilizado para evitar paradoxos de auto-referência.
Não está se provando nada, mas assumindo-se axiomaticamente uma classe de excepção.

A prova cosmológica

Mesmo que tenhamos este par de axiomas (ser incausado, causalidade) nas mãos, teremos efectivamente um sistema que corresponde ao funcionamento da realidade?

Não necessariamente. Apesar de um sistema ter coerência interna (i.e., não se pode deduzir uma sentença e sua negação a partir de um mesmo conjunto de axiomas), isto não significa que ele tenha uma contrapartida no mundo real ou parte dele.

Dando um exemplo de lógica clássica:
supondo que a declaração “o rei da França é careca” seja falsa, seria sua negação verdadeira? Não!

Tudo por um simples motivo: não existem reis em França!
Lógica desprovida de factos é apenas abstracção formal.

Há de se perguntar, pois, se há factos que tornem imperiosa a necessidade de um motor inicial.

Boa parte da durabilidade do argumento cosmológico foi devida ao desconhecimento nosso das leis físicas.

A conservação da massa e da energia são suficientes para explicar o movimento sem apelo a um Primeiro Motor.

Por exemplo, moléculas de um gás podem ricochetear contra as paredes de um recipiente sem requerem alguém ou qualquer coisa para pô-las em movimento.
Em princípios, essas moléculas podem se mover para sempre, sem exigir princípio nem fim.

Portanto não há necessidade de um Primeiro (ou Último) Motor.
Alguém poderá questionar, então, de onde vem a quantidade inicial de massa e energia que nos movimenta.

“Do nada” (ex-nihilo) é uma resposta possível.
Pela equivalência matéria-energia, toda matéria poderia ser convertida em alguma forma de energia.

As energias cinética, térmica, electromagnética e nucleares possuem sinal positivo, ao passo que a potencial gravitacional é negativa.

Somando tudo isto e levando em conta que a energia potencial gravitacional, apesar de fraca, é abundante, pode ser que o resultado final seja zero – viemos do nada.

A primeira proposta deste tipo veio pelo físico Edward Tryon [Morris, p. 195-6], em 1969, que cogitou nosso universo ser “simplesmente uma dessas coisas que acontecem de vez em quando”.

Tá, então promoveu a separação entre os diversos tipos de energia?
Bem, ao contrário do que muitos pensam nem tudo precisa necessariamente ter uma causa.

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Re: Criticando Kardec

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 14, 2013 10:11 pm

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O crucial é que, se há uma causa, que ela preceda o efeito.
Exemplos ilustrativos disto seriam as “partículas virtuais”.

Vamos supor que, em um ambiente isolado, eu comece a remover toda a quantidade de matéria e de energia, buscando obter o vácuo total.

Apesar de à primeira vista isto ser teoricamente possível, jamais obterei sucesso em meu intento.

Após remover todas as partículas materiais e continuar a diminuir a intensidade dos campos eléctrico (E) e magnético (B) a fim de eliminar os fótons (partículas de energia), os campos nunca atingem um valor que seja constantemente zero.

Em vez disto, Todos os campos eléctricos e magnéticos se mostram oscilando constantemente em torno dos E e B que seriam esperados em níveis puramente clássicos.

Estas flutuações ocorrem mesmo quando ondas electromagnéticas estão ausentes e quando, classicamente, E = B = 0.

São estas flutuações (frequentemente chamadas de "flutuações do vácuo" e análogas as vibrações de ponto-zero de um oscilador harmónico) que induzem a aparentemente espontânea emissão de fótons pelos átomos em estados excitados.

As flutuações do vácuo podem ser consideradas como um mar de fótons "virtuais" de vida tão curta que eles não violam a conservação da energia por causa do princípio da incerteza expresso na forma DE Dt >= h/4p.

Entendamos esta equação:
o produto da incerteza na medida da energia (DE) vezes determinado intervalo de tempo (Dt) sempre será maior ou igual a quantidade (h/4p), onde h (=6,626x10-34J.s) é um valor conhecido como “constante de Plank” e p é o conhecidíssimo 3,14159265... da matemática.

Assim, tais flutuações sempre ocorrerão, sendo que aquelas que tiverem um tempo de vida Dt extremamente curto deverão ter uma flutuação na DE maior para manter a desigualdade.

Podem ter até DE suficiente para a criação de pares partícula/anti-partícula materiais.

Apesar de sua fugacidade, estes fótons, entre outras coisas, dão origem a fenómenos macroscópicos mensuráveis, como o Efeito Casimir.

Pois bem, Alexander Vilenkin, físico da Universidade de Tufts, alega que a criação do universo poderia ter sido semelhante à de partículas virtuais.

Flutuações quânticas poderiam provocar o surgimento de bolhas de espaço-tempo.

Muitas delas desapareceriam imediatamente após serem formadas, mas algumas bolhas em expansão seriam absorvidas por expansões inflacionárias.

Se isso acontecesse, um universo plenamente desenvolvido surgiria.

Isto leva a consequência muito mais radical que a de Tryon, pois neste caso novos universos estariam sendo criado o tempo todo.

Universos, porém, que estariam inacessíveis uns aos outros por pertencerem a espaços-tempos diferentes, sendo que cada um deles possuiria um conjunto de constantes físicas diferentes que resultariam em leis físicas distintas.

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Re: Criticando Kardec

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 14, 2013 10:11 pm

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Em alguns universos a gravidade pode ser fraca demais para formas estrelas e, com estas, átomos mais pesados que hélio;
seriam universos essencialmente gasosos.

Em outros ela poderia ser tão mais forte que a maioria da matéria seria sugada por buracos-negros antes que a vida tal com conhecemos tivesse chance de surgir.

Por que não alguns com a electricidade muita fraca, ao ponto de as moléculas não conseguirem formar estruturas cristalinas.

Ou com uma electricidade forte demais, o que poderia aumentar a instabilidade dos núcleos atómicos.
O oxigénio seria radioactivo; o ferro, físsil; não seria um lugar agradável para viver.

Nesta infinitude de universos, algum pode permitir a existência de estrelas de vida longa, átomos pesados estáveis e uma gama de propriedades químicas.

Um lugar compatível com o surgimento de seres complexos e egocêntricos, que começam a indagar se aquele lugar teria sido especialmente feito para eles.

Tal como uma poça d'água “inteligente” imagina que o buraco onde se formou foi especialmente projectado a ela (uma paródia cruel do “princípio antrópico”).

Nesta lotaria infinita, mesmo o acaso cego poderia produzir um universo como o nosso, colocando em xeque as respostas às questões 7 e 8 do LE.

Aliás, antes que alguém reclame, as partículas virtuais do vácuo quântico já foram usadas como uma forma de ressurreição do éter, que é sugerido na questão 36.
Ironia, né?

Por enquanto, muito disto ainda é objecto de física teórica.
É apenas um exercício mental sobre a necessidade de uma causa primária.

Admitindo-se mais hipóteses da física moderna, outros questionamentos poderiam ser impostos:
o universo como uma sucessão infinita e cíclica de Big Bangs e Big Crushes, o que dispensaria um começo.

“Tá, então o que existiu antes?”
Ninguém sabe (ainda).

Sábios da humanidade (Buda, por exemplo) se recusaram a responder a questão por não terem dados suficientes para isto.

Bem, o tempo passou de lá para cá, o conhecimento progrediu exponencialmente, e, se tiver tempo, você pode estudar noções físicas avançadas como e de “falso-vácuo” ou “orbifold”, que são o mais próximo nos aproximamos do “antes da criação”.

O Ministério da Ciência e Tecnologia, porém, adverte que uma persistência exagerada nesse tema pode gerar repostas engraçadinhas do tipo:
“o universo nunca foi criado, pois estamos dentro da Matrix”, “você é um borboleta que sonha que é uma pessoa", “são as rosquinhas voadoras de Saturno que nos fazem ter tais divagações, para dominarem o mundo”, etc.

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Re: Criticando Kardec

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 15, 2013 10:33 pm

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Resta ainda questões quanto à omnibenevolência divina:
“É soberanamente justo e bom.
A sabedoria providencial das leis divinas se revela, assim nas mais pequeninas coisas, como nas maiores, e essa sabedoria não permite se duvide nem da justiça nem da bondade de Deus.”


Isto é mais uma afirmação do que prova, sendo muito mais fraca que o argumento cosmológico.
Antes de mais, muito aquilo que temos por “lei moral” é tudo menos algo irresistível.

Seja uma das máximas morais “tradicionais”:
“Faz aos outros o que queres que façam a ti mesmo”

Isto seria algo universalmente aplicável?
Digo, pelas palavras, deveria alguém fugir com o cônjuge do melhor amigo(a) e ainda roubar-lhe a fortuna da família?
A maioria sem dúvida diria não.

Mas se teu(ua) melhor amigo(a) estiver maltratando o cônjuge e já lhe surripiou parte da fortuna?

Neste caso uma “má” acção punirá um(a) criminoso(a) e melhorará o estado da vítima e do executor(a) da acção, aumentando a felicidade geral como um todo. Continuará “óbvio” que estamos diante de alguma acção imoral?

Da mesma forma diríamos mentir é um ato repugnante e deve ser evitado sempre, mesmo quando um grupo neonazista lhe interroga onde mora determinado imigrante ilegal reside.

Acobertar um ilegal, não é “legal”, vai fazê-lo?
Bem, não precisamos chegar a extremos assim.

Então por que ensinamos aos pequenos para não comentar que a vovó tem o peito caído (ou qualquer imperfeição estética) ou a sempre agradecer pelos presentes que receberam (ainda que os detestem)?

De certa forma, dois tipos de “faltas com a verdade” precisam ser praticadas, do contrário não conseguiríamos conviver:
(1) escondemos nossos pensamentos inoportunos dos demais e

(2) emitimos “mentirinhas” para não ferir o sentimento dos outros (o que os anglófonos chamam de “white lies”).

Desses dois exemplos, vemos que o que chamamos de “aptos bons, morais” dependem de algo crucial: contexto.

Podem estar atrelados a coisas circunstanciais como nos exemplos acima ou serem fenómenos culturais de um local e época.

Muitos dos antigos “caçadores de feiticeiras” estavam convictos da rectidão de seus métodos.

Ainda que torturassem até a morte uma infeliz acusado por um desafecto, a paz comunitária estaria assegurada.

Por outro lado, dizer que culturas “não são nem melhores, apenas diferentes”, pode levar a um relativismo capaz de chocar.

Existiria, então, algum “núcleo duro” de moralidade, imune à acção do tempo?
Deixo no ar esta pergunta e espero que não seja respondida com “chavões”.

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Re: Criticando Kardec

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 15, 2013 10:33 pm

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Estaria a perfeição da bondade divina expressa em tudo que se manifesta na natureza?

Muitas vezes a ideia de “projectista inteligente” em evolução biológica é facilmente posta em xeque diante de tantas estruturas “imperfeitas, mas funcionais” encontradas na natureza e inclusive em nós mesmos:
boa parte das dores do parto que as mulheres sofrem se deve a uma adaptação incompleta do corpo humano à bipedação.

De forma parecida, não é difícil encontrar dúvidas à bondade divina na criação, em especial na questão do “problema do Mal” presente no mundo.

Todos os credos que pregam um conceito amplo de omnipotência têm um problema sério a resolver: se deus a tudo criou, também criou o Mal.

Inúmeras respostas - nenhuma plenamente satisfatória caso se retenha o atributo de perfeição – têm sido propostas a este problema.

Poderiam alegar que se não fossem os sinistros da vida não teríamos estímulo para progredir.

Ficaríamos enjoados de tanta bonança ou indolentes com a falta absoluta de desafios.
Se já tivéssemos sido criados perfeitos, não teríamos mérito algum em nossas qualidades (q. 115 e 119 do LE).

Nenhum desses argumentos é suficiente para selar a questão.

Orígenes, pai da Igreja crente na pré-existência da alma, tinha uma concepção bem diferente de como deus criara seus seres:
"Quando no começo Ele criou aqueles seres que desejava criar, i.e, de natureza racional, Ele não tinha motivo algum para criá-las de maneira diferente que a em nome de Si mesmo, i.e., Sua divindade.

Como então Ele foi a causa das criaturas que viriam a ser criadas, nas quais não havia nenhuma variação, nem mudança, nem ânsia por poder, Ele criou todas das quais fez iguais e similares, porque não havia n'Ele nenhuma razão para produzir variedade ou diversidade.

Mas como essas criaturas racionais por si só (...) estavam dotadas de livre-arbítrio, esta liberdade de escolha incitou cada uma a progredir a Deus por imitação, ou reduzir-se ao erro pela negligência"

(De Principiis, livro II, cap IX, VI).

Repare o contraste entre isto e o comentário kardecista à questão 119:

“Pois que, na vida social, todos os homens podem chegar às mais altas funções, seria o caso de perguntar-se por que o soberano de um país não faz de cada um de seus soldados um general;
por que todos os empregados subalternos não são funcionários superiores;
por que todos os colegiais não são mestres.

Ora, entre a vida social e a espiritual há esta diferença:
enquanto que a primeira é limitada e nem sempre permite que o homem suba todos os seus degraus, a segunda é indefinida e a todos oferece a possibilidade de se elevarem ao grau supremo.”


Fica patente que o teólogo alexandrino, ao estipular já termos sido criados racionais, captou algo que o professor lionês deixou escapar:
quem precisa de mérito somos nós, não um deus “perfeito”.

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Re: Criticando Kardec

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 15, 2013 10:34 pm

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E olha que, segundo ele, o nível de menor queda para os que optasse pelo erro seria o dos anjos.
Apesar de didáctica, a explanação de Kardec antropomorfiza deus ao dar-lhe uma lógica bem humana na escolha de seus auxiliares.

E tal como no argumento cosmológico, surge a necessidade de abrir-se uma excepção para deus:
ele não teve mérito algum na aquisição de seus atributos.

Ou foi capaz de evoluir?


Mesmo que fôssemos criados “simples e ignorantes” porque, a medida que nos desenvolvemos, a maioria chega ao racional com predominância da má índole?

Se fomos criados como “tábua rasa”, as primeiras qualidades do espírito deveriam ser adquiridas pelas contingências por que passasse, sendo de se esperar um equilíbrio estatístico entre o bem e o mal.

Então, de novo, porque o mal predomina no “mundo de provas e expiações”?
Não poderíamos criados totalmente “em branco”, algum recurso de aprendizado de ser para que progrida.

Teria, pois, tal “dispositivo de aprendizado” original filtrado melhor as más lições do que as boas?
Poderíamos ter sido feitos melhores aprendizes, para que não batêssemos tanto a cabeça.

Bastaria, apenas, que tivéssemos um maior sentimento de empatia para que machucássemos menos e ajudássemos mais uns aos outros.

Psicopatas não sentem remorso não porque lhes falte ciência do mal que fizeram, mas porque lhes falta a emoção (*) disto.

Poderíamos ser mais resistentes à dor, pois nossos primos Neandertais provavelmente o eram.
Assim como animais são capazes de pressentir terramotos e tsunamis, poderíamos não ter perdido tal capacidade.

Nada disto é tão absurdo assim, nem violaria o atributo de livre-arbítrio, nem nossa necessidade de luta e aprendizado.

***

(*) Nota: A resposta de Divaldo Franco à tragédia do tsunami pode até ser lógica pelos parâmetros espíritas, mas duvido que muitos não fiquem com uma nó na garganta ao se colocar no lugar das vítimas.

Talvez aqui não falte ao espiritismo “razão”, mas “emoção” para dizer se algo é correcto ou errado.

Talvez as palavras do filósofo inglês David Hume:

“Vemos, portanto, que o princípio que se opõe a nossa paixão não pode ser o mesmo que a razão, sendo assim denominado apenas um sentido impróprio.
Quando nos referimos ao combate entre paixão e razão, não estamos falando de uma maneira filosófica e rigorosa.

A razão é, e deve ser, apenas a escrava das paixões, e não pode aspirar a outra função além de servir e obedecer a elas.
Como esta opinião pode parecer uma tanto extraordinária, talvez seja apropriado confirmá-la por meio de outras considerações.(...)”


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Re: Criticando Kardec

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 16, 2013 10:10 pm

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Tratado da Natureza Humana, Livro II, parte III, secção III

Dando um exemplo mais próximo aos espíritas:
afinal a negação das penas eternas partiu mais da razão ou de uma paixão?
Ela se iniciou de um sentimento de repulsa a uma injustiça aparente e daí se buscou refutá-la por argumentos, ou uma lógica fria que gerou esta emoção?


Fica de ver de casa.

***

Até agora foi comentado este modelo de deus judaico-cristão importado, alguns modelos alternativos foram apresentados.

Mas como o LE encararia seus rivais nesta área “divina”?

“14. Deus é um ser distinto, ou será, como opinam alguns, a resultante de todas as forças e de todas as inteligências do Universo reunidas?

'Se fosse assim, Deus não existiria, porquanto seria efeito e não causa.
Ele não pode ser ao mesmo tempo uma e outra coisa.

'Deus existe;
disso não podeis duvidar e é o essencial.
Crede-me, não vades além.

Não vos percais num labirinto donde não lograríeis sair.
Isso não vos tornaria melhores, antes um pouco mais orgulhosos, pois que acreditaríeis saber, quando na realidade nada saberíeis.

Deixai, conseguintemente, de lado todos esses sistemas;
tendes bastantes coisas que vos tocam mais de perto, a começar por vós mesmos.
Estudai as vossas próprias imperfeições, a fim de vos libertardes delas, o que será mais útil do que pretenderdes penetrar no que é impenetrável.'


15. Que se deve pensar da opinião segundo a qual todos os corpos da Natureza, todos os seres, todos os globos do Universo seriam partes da Divindade e constituiriam, em conjunto, a própria Divindade, ou, por outra, que se deve pensar da doutrina panteísta?

'Não podendo fazer-se Deus, o homem quer ao menos ser uma parte de Deus.' “

“16. Pretendem os que professam esta doutrina achar nela a demonstração de alguns dos atributos de Deus:
Sendo infinitos os mundos, Deus é, por isso mesmo, infinito; não havendo o vazio, ou o nada em parte alguma, Deus está por toda parte;
estando Deus em toda parte, pois que tudo é parte integrante de Deus, ele dá a todos os fenómenos da Natureza uma razão de ser inteligente.
Que se pode opor a este raciocínio?


'A razão. Reflecti maduramente e não vos será difícil reconhecer-lhe o absurdo.'

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Re: Criticando Kardec

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 16, 2013 10:10 pm

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(Comentário de Kardec)

Esta doutrina faz de Deus um ser material que, embora dotado de suprema inteligência, seria em ponto grande o que somos em ponto pequeno.

Ora, transformando-se a matéria incessantemente, Deus, se fosse assim, nenhuma estabilidade teria;
achar-se-ia sujeito a todas as vicissitudes, mesmo a todas as necessidades da Humanidade;
faltar-lhe-ia um dos atributos essenciais da Divindade:
a imutabilidade.


Não se podem aliar as propriedades da matéria à ideia de Deus, sem que ele fique rebaixado ante a nossa compreensão e não haverá subtilezas de sofismas que cheguem a resolver o problema da sua natureza íntima.

Não sabemos tudo o que ele é, mas sabemos o que ele não pode deixar de ser e o sistema de que tratamos está em contradição com as suas mais essenciais propriedades.

Ele confunde o Criador com a criatura, exactamente como o faria quem pretendesse que engenhosa máquina fosse parte integrante do mecânico que a imaginou.

A inteligência de Deus se revela em suas obras como a de um pintor no seu quadro;
mas, as obras de Deus não são o próprio Deus, como o quadro não é o pintor que o concebeu e executou.”

Basicamente, o LE se restringe a atacar o modelo de divindade panteísta.

Em um artigo que viria a ser publicado em “Obras póstumas” (“As Cinco Alternativas da Humanidade”), Kardec faz um ataque xexelento ao panteísmo e outros sistemas rivais, como o deísmo e o materialismo.

Fiquemos apenas com o panteísmo neste tópico.

A ele, três objecções são feitas:
1. O adepto do panteísmo é um pretensioso que deseja ser ao menos parte de deus;
2. O panteísmo fere o atributo de “imutabilidade”, o que poderia levar à instabilidade nas leis do universo;
3. O panteísmo é ilógico, pois nele causa e efeito são os mesmos entes.

A primeira objecção eu nem chamaria de argumento, não passa de um simples ataque ao adepto do que ao sistema em si.

A segunda já foi tratada aqui quando se discutiu o atributo de imutabilidade:
é logicamente possível um deus mutável e leis imutáveis, sendo necessário apenas que ele se submeta ao dinamismo das própria leis que criou;
como no modelo sociniano ou na teologia “evolucionista” de George Murphy.


A terceira objecção, porém, fornece desdobramentos novos e interessantes.

Primeiramente, os adeptos do teísmo judaico-cristão tradicional devem olhar para onde deixam o próprio rabo antes de chamar os outros de ilógico.

Dizer que tudo tem uma coisa e criar uma excepção para esta máxima, não deixa de ser uma metodologia “gambiárrica”.

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Re: Criticando Kardec

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 16, 2013 10:11 pm

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Certo que, mesmo que vocês cometam a mesma impostura, isto não livra a cara dos panteístas.

Então, vejamos:
o panteísmo é ilógico ao unir causa e efeito?

A melhor resposta até agora é:
“Não necessariamente.”

Será apenas ilógico se você se restringir aos domínios da lógica clássica.

Assim como por muito tempo pensou-se que a geometria euclidiana seria a única possível, até se jogar fora o postulado das paralelas e se criar novas geometrias, o mundo até o começo do século XX teve por único o modelo de lógica usado no LE.

Que outra alternativa seria possível então?
Bem, voltemos ao paradoxo do barbeiro.

Seja a assertiva:
“O conjunto de todos os conjuntos é um conjunto”
Logo, baptizando este mega conjunto por S, tempos que S pertence a S.

Mas existem conjuntos que não apresentam auto pertinência, logo o conjunto T de todos os conjuntos que não contém a si mesmo é não vazio.

T pertence a si mesmo?
Se T pertence a T, então T não pertence a T por definição.
Se T não pertence a T, então T pertence a T por definição.

A lógica clássica resolve este problema, como já visto, adicionando um novo axioma que contorne o dilema.

Uma outra alternativa seria, em vez de atribuir valores absolutos de “verdadeiro” ou “falso”, “zero” ou “um”, admitir que fosse possível valores intermediários cuja a soma fosse a unidade (verdade absoluta).

Como o paradoxo nos força a considerar ao mesmo tempo a considerar “T pertence a T “ e “T não pertence a T“ como igualmente válidos, cada sentença teria o valor 1/2 como “conteúdo de verdade”.

Suponhamos que você seja colocado diante de três copos.
O da esquerda está sem água nenhuma, o da direita com água até a borda e o do meio até a metade.

Poderás dizer claramente que o “copo da esquerda está vazio” e que “o da direita está cheio”, mas e quanto ao do meio?
Está “meio cheio” ou “meio vazio”?

A modelagem em lógica clássica nos obriga a tomada de decisões abruptas (crisp no linguarar difuso), eliminando diversas gradações de cinza e, por que não, cores;
eliminando a possibilidade de convivência de valores antagónicos.

Ao contrário da lógica clássica em que um conjunto de afirmações é mapeado para outro conjunto de apenas dois elementos – zero (falso) e um (verdadeiro) – {0, 1}, a lógica difusa admite um conjunto contínuo de valores – [0, 1] – para o qual as afirmações podem ser mapeadas.

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Re: Criticando Kardec

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 17, 2013 10:37 pm

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É importante ressaltar que, apesar do nome, ela não viola os princípios dedutivos da lógica matemática, nem é uma nova teoria do conjunto.

Tal como as geometrias euclidiana e não-eclidianas, ela parte de um novo conjunto para abordar situações em que sua irmã tradicional não é a mais adequada.

O modelo euclidiano é o mais adequado para a maior parte da nossa experiência corriqueira num espaço plano, mas falha para os espaços curvos da Relatividade Geral.

Da mesma forma, a lógica clássica cai bem para a modelagem de sistemas em que se identifiquem claramente duas possibilidades (como saber se um empreendimento é legal ou ilegal), mas falha quando existirem valores intermediários, incertezas (modelos estocáticos) ou conceitos intuitivos como graus de conforto e adequação.

Se você escapou de uma de uma derrapagem automobilística graças a um freio ABS, agradece à lógica difusa por ter modelado seu sistema de controlo.

Se teve um câncer detectado ainda no estágio inicial por uma ultrassonografia, também agradeça a ela.

Será que existem mais formas de divindade que podem ser melhor compreendidas por modelos difusos?

Certamente. Não só a divindade panteísta, como já mostrado, e também deuses cuja criação é imanente (pampsiquismo bramanista) e/ou sua criação lhe altera (socinianismo de Dyson).

Daí vem nova questão:
será que ao criticar formas alternativas de deus nos moldes clássicos, Kardec não teria usado uma ferramenta inadequada?

Apesar de a lógica difusa solucionar os paradoxos da teoria dos conjuntos de uma forma “mais elegante” do que a clássica, ela também não está isenta deles.

Na primeira metade do século XX o matemático austro-americano Kurt Gödel deu um verdadeiro duche de água fria em uma escola matemática que pretendia sistematizar todo o processo dedutivo ao enunciar o seguinte teorema:

“Para qualquer sistema formal consistente (i.e. dele não são dedutíveis afirmações opostas ao mesmo tempo), F, que pretenda determinar a veracidade, i.e., provar ou negar todas as proposições da aritmética, existe uma proposição aritmética que não pode ser provada ou negada neste sistema.

Portanto, o sistema formal F é incompleto.”


A aritmética foi a “cobaia” de Gödel, mas o resultado pode se estender a qualquer sistema formal.

Traduzindo isso para uma linguagem mais leiga:
“não importa o quão grande seja nosso conjunto de axiomas, sempre existirão verdades que não serão acessíveis”.

Tivemos uma pequena amostra dessa limitação quando fomos apresentados ao paradoxo do barbeiro.

Os axiomas que a teoria dos conjuntos já possuía somados ao ferramental da lógica clássica eram incapazes de resolvê-lo.

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Re: Criticando Kardec

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 17, 2013 10:38 pm

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Foi preciso o acréscimo de um outro axioma na teoria dos conjuntos ou a mudança do ferramental, adoptando-se modelos difusos.

Estas duas soluções são apenas “temporárias”, pois cedo ou tarde cada uma há de topar como uma nova questão “indecidível” para ela.

A única maneira de evitar paradoxos seria ter uma infinita de axiomas, mas uma teoria que seja tão complexa quanto seu objecto de estudo possui pouca serventia...

10. Pode o homem compreender a natureza íntima de Deus?
'Não; falta-lhe para isso o sentido.'

11. Será dado um dia ao homem compreender o mistério da Divindade?
'Quando não mais tiver o espírito obscurecido pela matéria.
Quando, pela sua perfeição, se houver aproximado de Deus, ele o verá e compreenderá.'

(Comentário de Kardec)

A inferioridade das faculdades do homem não lhe permite compreender a natureza íntima de Deus.

Na infância da Humanidade, o homem o confunde muitas vezes com a criatura, cujas imperfeições lhe atribui;
mas, à medida que nele se desenvolve o senso moral, seu pensamento penetra melhor no âmago das coisas;
então, faz ideia mais justa da Divindade e, ainda que sempre incompleta, mais conforme à sã razão.”


Aí surge um desafio a estas proposições:
a incapacidade da mente humana em adentrar a fundo no divino está em nós mesmos ou na própria limitação de sistemas formais, expressa nos teoremas de Gödel?

Kardec, no comentário da questão 16, disse:
“Não sabemos tudo o que ele é, mas sabemos o que ele não pode deixar de ser e o sistema [panteísmo] de que tratamos está em contradição com as suas mais essenciais propriedades.”

Muita pretensão.
Um pequeno aumento no horizonte de nosso conhecimento basta para mostrar que o modelo teísta que ele adopta não é tão inatacável assim e outros modelos não lhe são absolutamente inferiores.

E vale lembrar que tanto a prova da existência da “causa primária” (se é que isso é realmente necessário) e suas propriedades são dadas por lógica humana e minha refutação também.

Estaríamos de posse do instrumento inadequado mais uma vez?

Em 1989, o físico Roger Penrose publicou A Mente Nova do Imperador onde defende que pelo menos alguns processos do pensamento humano não seguem qualquer tipo de regra de inferência dedutiva, podendo, assim, contornar as limitações de Gödel.

Outras formas de aquisição de conhecimento (a intuição, por exemplo) são então possíveis.
Para isto, Penrose apela a processos quânticos do cérebro humano como base para consciência e a inteligência.

Vale lembrar que, apesar de bem defendidas, as teses de Penrose ainda são muito especulativas.

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Re: Criticando Kardec

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 17, 2013 10:38 pm

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Então chegamos ao fim deste blá-blá-blá numa encruzilhada:
tudo isto não terá mera bizantinice, discussões ao melhor estilo do “sexo do anjos” que gastam saliva, papel e a nada levam?

A razão não é um instrumento pleno (mesmo que a lógica seja obra divina) e a mente humana tem “razões que a própria razão desconhece”, segundo Penrose.

Que se dirá de um ser ininteligível?
Não é tão exagerado encarar a resposta à questão 10 como uma reedição do famoso enunciado quase-bíblico “a sabedoria de Deus é loucura para os homens e a sabedoria dos homens é loucura para Deus”
(uma combinação de I Cor 1:25 e 3:19).

Isto seria uma forma de impedir que qualquer argumento da razão rejeitasse a ideia de deus em absoluto.
Deus é tão fodão que deve ter atributos e motivos além de nossa compreensão finita.

Isto é a fé.

Por outro lado, usar-se da razão para aceitar (1) a existência do divino segundo algum modelo e (2) traduzir algumas migalhas dos atributos divinos ao entendimento humano abre um porta para que se possa duvidar da existência dele, ao menos nos moldes apresentados.

Não seria no mínimo justo apelar para uma conformidade com a razão para dizer que deus existe e é assim e “assado” em determinada circunstância e negar que um argumento racional contra a crença tenha qualquer valor.

Quem age assim tem no mínimo uma psique compartimentada e toca sua vida de forma dividida.

Contando dois casos pessoais destas “mentes divididas”:
nos tempos de faculdade, quando ainda era espírita, discutia com colegas evangélicos “teologia de botequim”, ou de alojamento se preferirem.

A certa altura questionei as ordens escabrosas de Iahweh contidas na Bíblia, como o massacre dos cananeus contido no livro de Josué.

Para o meu espanto, eles não ficaram nem um pouco embaraçados com a questão.
“Se Deus ordenar que assassinatos sejam feitos, que assim seja”, foram mais ou menos estas as palavras.

Eles eram (e são) gente finíssima com quem mantenho contacto até hoje, racionais excelentes alunos e dotados de grande senso prático em muitos aspectos do dia-a-dia.

Entretanto, quando o assunto era religião, davam adeus a toda a racionalidade e defendiam com unhas e dentes as teses mais estapafúrdias.

De forma parecida, já debati com espíritas sobre os espinhosos ditos racistas contidos na “teoria da beleza” de obras póstumas ou em A Génese.

A maioria, felizmente, coloca este texto em seu devido lugar no tempo e no espaço, aponta que outras religiões e ciência também cometeram equívocos cruéis e dizem com a cara lavada:
“é, isto é errado e não mais o cremos. E aí?”.

Por outro lado uma minoria bate o pé e clama que aquilo não era racismo nem no século XIX, nem hoje!
Parece o que botão “razão” pode ser facilmente desligado.

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Re: Criticando Kardec

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 19, 2013 12:24 pm

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Talvez a crença em deus (ou em uma doutrina) não seja realmente algo racional, mas uma programação instintiva produzida ao longo da evolução.

O biólogo Edward O. Wilson, de Harvard, propôs uma hipótese interessante [citado por Kaku, p. 356].

Ele observou que animais que caçam em bandos obedecem cegamente ao líder porque uma hierarquia baseada na força dominação.

Porém quando os hominídeos forma se tornando cada vez mais inteligentes, a autoridade começou a correr sério risco de ser cada vez mais questionada.

A mesma inteligência que ajudava no preparo de ferramentas mais sofisticadas e novas estratégias de caça se tornava uma faca de dois gumes quando se tornava uma força desagregadora do grupo e, com isso, diminuindo as chances de sobrevivência colectiva.

Portanto, segundo Wilson, deve ter havido uma pressão selectiva favorecendo aqueles que pudessem “compartimentalizar” o uso da inteligência.

Teriam mais chance de sobreviver os grupos cujos indivíduos fossem inteligentes o bastante para adquirir alimentos e se defenderem e que fossem capazes de deixar essa inteligência de lado na hora de obedecer a seus líderes e mitos.

Conforme o tempo foi passando, o papel da mitologia grupal cresce a medida que nossos ancestrais ficaram mais e mais inteligentes actuando não só como uma cola que os mantinha unidos, mas também estabelecendo uma fronteira nítida entre “nós e eles”.

Olhando por este ângulo, estaria aí uma boa explicação de porque os seres humanos defendem ferozmente algo que os identifica como membro, movendo até guerras por isso.

A frase de Jesus “Não vim trazer a paz, mas a espada” (Mt 10:34) é bem verdadeira.

Outra hipótese para uma razão biológica da espiritualidade, segundo alguns pesquisadores seria outra: o medo da morte.

Esta é a teses, por exemplo, do neuro-cientista Michael Persinger, Universidade Laurenciana de Ontário.

Em seus estudos, ele tem se empenhado em provocar, em um grupo de voluntários, experiências místicas – como a sensação de uma presença imaterial mediante estímulos nos lobos temporais.

“Somos a única espécie, até onde sabemos, capaz de contemplar a ideia da própria morte.

É o preço que pagamos por termos áreas cerebrais particularmente desenvolvidas, capazes de suportar a memória de longo prazo e de planejar a vida.

No processo evolutivo, a fé em Deus teria uma função de suavizar a angústia da morte.
Uma forma brilhante de adaptação, com a função de nos dar um pouco de paz”.

Bem, já temos duas alternativas à resposta da questão 6:
“O sentimento íntimo que temos da existência de Deus não poderia ser fruto da educação, resultado de ideias adquiridas?
'Se assim fosse, por que existiria nos vossos selvagens esse sentimento?'”


Pode ser que o dito ateísta “após 15 biliões de anos da criação, o homem disse 'haja deus!'” tenha um certo quê de verdade.

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Re: Criticando Kardec

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 19, 2013 12:25 pm

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Mitos são as primeiras formas do homem tentar explicar a natureza.
Quanto mais o homem descobre cientificamente, de menos mitos ele precisa.

Já não adoramos o Sol?
A medida que o conhecimento progride, lendas vão sendo derrubadas, por isso o ateísmo se tornou mais comum após a desmitificação de boa parte da natureza.

Há um texto interessante de Mike Jay chamado O Último Culto à Carga, onde narra o episódio população simples criando um ritual mágico a partir de uma falsa relação causa e efeito.

Seria, agora de se perguntar: seriam os ateus defeituosos genéticos que iriam contra a programação padrão da maioria da humanidade?
Nem tanto. O ateísmo, por si só, é apenas uma descrença em deuses.

Não fornece nenhuma cartilha, sentido da vida ou algo mais a tudo que há.

Tirando o niilismo extremado de alguns, ateus buscam alternativas para um mundo melhor no longo prazo em ideologias, conforto em filosofias estóicas e não seria exagerado dizer que muito da ficção e divulgação científica (Asimov, Clerk, Sagan, etc.) lhes dão algum senso de espiritualidade.

Inclusive o comunismo, que tinha o ateísmo como ingrediente e pegava a “cartilha” de outros lugares, tornou-se uma espécie de religião laica capaz dos mesmos horrores de suas irmãs temporais.

Por fim, se você negar que uma tentativa crítica às primeiras respostas do LE (como a minha) não é válida, corre o risco de estar agindo mais por fé cega do que pelas duas contraditórias palavras “fé racionada”.

Podem me acusar de querer saber mais sobre deus do que me é permitido. Será?
Apenas reabri questões dadas como fechadas.
Mesmo como limites, a humanidade os empurra para mais e mais longe.

Em física, por exemplo, monte de teorias se ergue e cai:
Kaluza-Klein, super gravidade, super-cordas, etc.
A busca de uma teoria final, que explique todas as forças da natureza, continua.

Mesmo sabendo do desafio, os físicos ainda buscam ver “a face de Deus”.
Mesmo que não consigam, as mais belas páginas da ciência do século XX foram escritas por causa dessa persistência.

“Talvez falte o sentido para o entendimento de um “princípio divino”, mas não vontade de romper esses limites.
Encaro mais como se os teístas judaico-cristãos criassem um deus tão paradoxal para ninguém o refutar e chamaram a isto de “limitação dos sentidos”.

Não estarão os que me acusam querendo saber mais que a razão?
Qual das duas acusações deste parágrafo é a pior?


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