Criticando Kardec

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Re: Criticando Kardec

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 27, 2013 8:51 pm

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- Há a reencarnação.

- Há a alternância entre a vida como espírito encarnado e como espírito desencarnado
(ou "errante").
Isso até que o espírito atinja o grau de espírito puro, a partir do qual pode nunca mais reencarnar.
Aparentemente, espíritos puros podem reencarnar se assim o desejarem, mas esse parece ser um ponto um pouco obscuro na teoria kardecista.

- As encarnações procedem também de mundos (planetas) "inferiores" (planetas com civilizações menos desenvolvidas em conhecimento e em moralidade), seguindo posteriormente para mundos "superiores".

- Há a "redenção inexorável", ou seja, nenhum espírito permanece para sempre em uma condição inferior.

- Há o livre arbítrio e a responsabilidade pelos aptos praticados, implicando em necessidade de se "pagar" pelas faltas cometidas, o que por vezes inclui a reparação dos erros junto àqueles a quem se ofendeu.


Isso é por vezes chamado de Lei Moral de Causa e Efeito, e posteriormente a Kardec passou-se a se utilizar o termo indiano "Karma" (ou "Carma") para se referir a este aspecto da teoria-doutrina kardecista.

- Há a preponderância do espírito sobre a matéria, e não há arrastamento irresistível para a prática do "mal"
(o espírito sempre pode vencer, resistir, aos arrastamentos da matéria).

- Há uma hierarquia do bem sobre o mal.

- Há Deus. Um só! É ele o criador do Universo.


Ele possui uma individualidade diferente da dos espíritos, ou seja, os espíritos provavelmente não são fragmentos de Deus, e também não são manifestações, ou emanações dele
(ao contrário do que ocorre, por exemplo, com Brahman no hinduísmo.
No hinduísmo, todos nós em nosso âmago mais profundo, "atma", somos o próprio Brahman
).

Deus é omni-potente, omni-ciente, omni-benevolente, omni-justo.
O Deus kardecista é basicamente o Deus típico do que é definido como "teísmo".

- Há a mediunidade, e amplas maneiras e graus de comunicação entre os "vivos" e os "mortos".

- A mediunidade é mediada
(perdoem a redundância), em grande parte pelo menos, pelo perispírito do médium (incluindo emanações do perispírito mais ou menos abundantes).

O Método de Kardec:

Para chegar a esse conjunto de afirmações, Kardec se utilizou de um método investigativo.
Muitas vezes se pergunta como os cientistas chegaram às afirmações actuais a respeito das células, das estrelas, etc.

A resposta é:
seguiram um método investigativo.

O chamado "método científico" costuma transitar entre a observação e a experimentação (partindo muitas vezes de alguma ideia prévia, necessidade, intenção), conduzindo então a conclusões, afirmações e teorias.

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Re: Criticando Kardec

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 27, 2013 8:51 pm

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Tais afirmações e teorias são a seguir testadas por novas observações e experimentações, podendo-se validar ou refutar a teoria.

Uma característica que distingue a ciência da religião é uma certa abertura da ciência para alterações ou mesmo refutações de suas teorias.

Contudo, é importante ressaltar que a ciência é na verdade muito mais "conservadora" (ou seja, dogmática) do que normalmente se pensa.

Isso não é necessariamente um defeito (aliás, nem na ciência, nem na religião).

Além dessas "regras de procedimento" (observação/experimentação -> teorização -> validação/refutação da teoria), os cientistas utilizam-se também de instrumentos para investigar a natureza (por exemplo, seus olhos), e de alguns critérios para aceitação de seus achados (como por exemplo, repetição de experimentos por vários pesquisadores independentes;
realização de experimentos em condições rigorosas, onde se exclua a possibilidade de "contaminações", de fraudes, e de quaisquer outras interferências indesejadas
).

Curiosamente (para desgraça dos opositores desinformados do espiritismo), é forçoso reconhecer que Kardec se utilizava de vários procedimentos e posturas marcantemente científicas em suas investigações dos fenómenos espíritas.

Um exemplo seria sua abertura para ideias diferentes das suas (e consequente abertura para eventuais alterações de suas teorias), que aparentemente situava seu "modo" e "grau" de dogmatismo muito mais dentro do "espectro dogmático científico" do que dentro do "espectro dogmático religioso".

Isso inclusive levou a uma dificuldade de classificação do espiritismo na França em meados do século XIX.

Seria o espiritismo uma religião ou uma ciência?
Observam-se afirmações aparentemente contraditórias quanto a isso vindo do próprio Kardec.

Em uma ocasião provavelmente mais amadurecida, Kardec define melhor em que sentido ele considera o espiritismo uma religião e em que sentido ele não considera o espiritismo uma religião.

Naqueles tempos, pessoas de várias religiões se dedicavam à prática e ao estudo do espiritismo junto a Kardec: católicos, protestantes, muçulmanos...

Certa vez, em uma acta de reunião da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, se fez menção expressa à necessidade de que não fossem tratados temas que pudessem conflituar com dogmas religiosos, pois que havia em tal sociedade membros praticantes de vários credos religiosos!

Isso é pouco conhecido mesmo de alguns bons estudiosos do espiritismo na actualidade, além de sem dúvida ser algo que parece bem estranho aos nossos olhos actualmente.

E causava, na época, muito mais estranheza ainda!

Um outro aspecto "científico" no procedimento de Kardec era a importância que ele dava à "replicação" de uma determinada observação por vários "pesquisadores independentes".

Vou resumir abaixo o que conheço a respeito, e como vejo, os métodos e procedimentos investigativos de Kardec, e a seguir discorrerei sobre possíveis fraquezas de tal método.

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Re: Criticando Kardec

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 27, 2013 8:52 pm

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Discorrerei também sobre estranhas falhas de Kardec ao aplicar tal método: ou utilizando-se dele de modo falho;
ou aparentemente deixando de utilizá-lo pura e simplesmente, por motivos obscuros, mesmo em algumas situações de grande importância para o estabelecimento da "Doutrina Espírita" (kardecista).

1- Fontes fenoménicas observadas e estudadas por Kardec:

Psicografia indirecta
(através principalmente do uso da "cesta pião", e da "cesta de bico", que descreverei mais abaixo).
Psicografia directa (médium escrevendo com a própria mão a mensagem do suposto espírito).
Outras fontes (médiuns videntes, sonâmbulos, etc.).

2- Método experimental:

Observação.
Perguntas-questionamentos aos "espíritos".
Cuidado com os excessos de credulidade.

Cuidado com possíveis fraudes.
Respeito ao seu objecto de estudo
(ou seja, aos "espíritos").

3- Postura epistemológico-filosófica:

Nunca partir de ideias pré-concebidas.
Uso da "indução", ou seja, prosseguir no sentido das observações para as teorizações

(em determinada ocasião, Kardec se referiu a este procedimento como "dedução").

4- Conteúdo das observações-comunicações-revelações:

Factos do mundo objectivo
(Material ou espiritual. Por exemplo, há vida em Marte; ou, há espíritos puros).
Factos do mundo moral (certo e errado).
Factos do mundo filosófico (reflexões sobre os dois acima).

5- Critérios para aceitação das mensagens:

Concordância entre as mensagens:
recebidas por vários "espíritos" diferentes;
recebidas por vários médiuns diferentes;
recebidas de vários locais diferentes;
recebidas em várias épocas diferentes.

Fundo lógico, e não conflituante com o conhecimento cientificamente estabelecido.
Revelado por "espíritos superiores"

(ou que sejam, pelo menos, competentes para se pronunciarem sobre o conteúdo da mensagem específica).

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Re: Criticando Kardec

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 28, 2013 9:56 pm

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6- Critérios para classificação dos espíritos superiores:

Uso de linguagem digna
(educada, respeitosa, benévola, não coercitiva).
Ausência de contradição.
Ausência de maldade.
Conteúdo lógico, sem falhas de lógica.

Demonstração por parte do "espírito" de possuir elevado conhecimento científico

(ou de não desconhecer o conhecimento científico estabelecido), e de possuir elevada moral (ou seja, ser um mestre do bem).

É interessante, nesse contexto, olharmos um resumo da cronologia dos acontecimentos desde os contactos iniciais de Kardec com os fenómenos espíritas até a confecção da primeira edição do Livro dos Espíritos e, posteriormente, da segunda edição.

Bem como citar algumas das pessoas mais importantes (médiuns, principalmente) envolvidas nesse período.

Breve Cronologia da "Codificação da Doutrina Espírita":

- Fins de 1854, Kardec ouve falar do fenómeno das "mesas girantes".
- Início de 1855, Kardec ouve pela primeira vez alguém dizer que "espíritos" dão origem a este fenómeno.
- Maio de 1855, primeiro contacto de Kardec com o fenómeno das "mesas girantes".

- Agosto de 1855, Kardec inicia seu estudo sistemático das comunicações espíritas, na casa do Sr. Baudin, através principalmente da médium Srta. Caroline Baudin (com 16 anos de idade), e bem menos por sua irmã, Julie Baudin (14 anos de idade).

Caroline Baudin teria primeiro se utilizado da psicografia indirecta, através da "cesta pião" (corbeille-toupie), e posteriormente através da psicografia directa.

Kardec teria tido também como insumos para estes estudos cinquenta cadernos contendo comunicações mediúnicas psicografadas, recolhidos por alguns homens eruditos de suas relações e repassados para ele.

- Abril de 1857, após dezoito (18) meses de trabalhos, é publicada a primeira edição do Livro dos Espíritos.
Fruto principalmente da mediunidade de Caroline Baudin, com extensa revisão realizada principalmente pela médium Srta. Japhet (que era "sonâmbula", e utilizava-se também da psicografia indirecta através da "cesta de bico" - corbeille à bec), e com consultas também a mais de dez outros médiuns diversos.

- Janeiro de 1858, Kardec lança a Revista Espírita (Revue Spirite).
- Março de 1860, Kardec lança a segunda edição do Livro dos Espíritos, com algumas modificações curiosas com relação à primeira edição.

Comentários Importantes:

Em meados do século XIX, algo de realmente estranho parece ter acontecido pelo menos em alguns locais do mundo, notadamente em alguns países da Europa, Estados Unidos, e possivelmente em mais alguns outros países em diversos continentes.

É o período do "nascimento" do "Moderno Espiritualismo", o período do fenómeno mundial das "Mesas Girantes", que frequentemente é relatado como tendo seu momento de início mais marcante com os acontecimentos envolvendo as pequenas irmãs Fox nos Estados Unidos (1848).

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Re: Criticando Kardec

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 28, 2013 9:56 pm

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Esses eventos históricos são descritos em boa profundidade e de modo bem interessante tanto na extensa pesquisa biográfica sobre Kardec realizada por Zeus Wantuil e Francisco Thiesen (o volume 1 que possuo tem o nome[bi] Allan Kardec - Meticulosa Pesquisa Bibliográfica[/b]. FEB, 1979; e os volumes 2 e 3 têm o nome Allan Kardec - Pesquisa Bibliográfica e Ensaios de Interpretação. FEB, 1980), como também no livro As Mesas Girantes e o Espiritismo, de Zeus Wantuil (FEB. 3.ª edição, 1994).

Parece muito difícil que tais fenómenos possam ser explicados em sua totalidade como fruto de histeria colectiva mundial, ou fraude, ou outras explicações "naturalistas" (ou seja, explicações que não conflituem com os conhecimentos científicos estabelecidos, ou talvez melhor dizendo: "com as interpretações materialistas" de tais conhecimentos científicos).

A mim, parece que de fato ocorreu algo de singular no mundo então, e algo bem possivelmente de uma natureza "sobrenatural"
(ou usando termos alternativos: paranormal, anómala, espírita, etc.).

Acho, contudo, difícil que se possa chegar a uma posição científica minimamente segura sobre o que mais provavelmente ocorreu nesse período.

Kardec frisa (estranhamente...) por diversas vezes que ninguém imaginou a explicação "espíritos" para tais fenómenos, e que foi o próprio fenómeno que se revelou como tal.

Uma leitura atenta dos livros de Zeus Wantuil (As Mesas Girantes e o Espiritismo) e de Wantuil e Thiesen (Allan Kardec - Meticulosa Pesquisa Bibliográfica vols. 1, 2, e 3) parece indicar que Kardec estava bastante errado nesse ponto, ou que pelo menos ele exagerou esse ponto consideravelmente.

Já na introdução do Livro dos Espíritos, primeira edição de abril de 1857, Kardec se expressa nesses termos (repetidos na introdução da segunda edição, a "definitiva", de março de 1860):

"O primeiro fenómeno observado (Na França, a partir de primeiro de Abril de 1853) foi o de vários objectos em movimento;
ficou designado em definitivo pelo nome popular de Mesas Rolantes ou Dança das Mesas.


Este fenómeno, que parece ter sido observado primeiro na América (Em Rochester, desde Agosto de 1848.) ou, antes, que foi renovado nesse país — visto como a História prova que ele remonta à mais alta Antiguidade — se produziu acompanhado, em circunstâncias estranhas, de ruídos insólitos, tais como percussões sem ostensiva causa.

Do Novo Hemisfério o facto se propagou rapidamente na Europa e em outras partes do Mundo.

Sublevou a princípio grande onda de incredulidade, mas a superabundância de provas em pouco tempo não permitiu duvidar mais da realidade."
(retirado do livro O Primeiro Livro dos Espíritos de Allan Kardec, 1857. Tradução de Canuto Abreu, Companhia Editora Ismael. São Paulo. 1957; página 4 - grifos meus)

"Se os fenómenos de que nos ocupamos se houvessem cingido ao movimento de objectos, teriam ficado, como o dissemos há pouco, em pleno domínio das Ciências Físicas.

Mas com eles não aconteceu assim. Estavam destinados a nos pôr na pista de factos duma natureza estranha.

Percebeu-se de repente, não sabemos por qual iniciativa, que aquela impulsão dada aos objectos não era somente produto de uma força mecânica inconsciente mas, ao contrário, havia nesse movimento a intervenção de uma causa inteligente.

Esta vereda uma vez aberta, descobriu-se um campo de observações totalmente novo; ficou o véu levantado de sobre muitos mistérios.

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Re: Criticando Kardec

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Dez 28, 2013 9:57 pm

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Há ou não uma força inteligente?
Tal é a questão. Se esta força existe, que é ela?
Qual será a sua natureza? Sua origem? Está acima da Humanidade?


Tais são as consequentes perguntas que defluem da questão."
(O Primeiro Livro dos Espíritos de Allan Kardec, 1857; página 7 - grifos meus)

Kardec mesmo reconhece (e afirma diversas vezes em suas obras) que o "fenómeno" "remonta à mais alta Antiguidade".

Parece, em vista disso, muito difícil estabelecer-se com uma segurança mínima se foram as pessoas vivas que imaginaram haver em tais fenómenos causas ligadas a "espíritos de pessoas mortas", ou se, ao invés disto, foram os próprios fenómenos que "disseram isso" de alguma maneira.

Isso é ainda reforçado pelo seguinte trecho da fala de Kardec acima:
"Percebeu-se de repente, não sabemos por qual iniciativa".

Ora, vejamos.
Kardec (e muitos outros historiadores de tais fenómenos) atribuem seu início, ou reinício mais marcante, como tendo ocorrido nos Estados Unidos.
Nos Estados Unidos, o fenómeno tem seu início reconhecidamente entre as irmãs Fox (então crianças com prováveis 9 e 12 anos).

Wantuil e Thiesen (Allan Kardec - Pesquisa Bibliográfica e Ensaios de Interpretação, vol. 2, pág. 50-53) situam a data inicial das pancadas na casa da família Fox em 28 de março de 1848.

Logo após, a filha mais nova (Katherine, com prováveis 9 anos) resolve fazer uma experiência para ver se o "fenómeno" repetiria o número de batidas que ela realizasse.

Ela teria dito "Vamos, Old Splitfoot, faça o que eu faço.".

Daí, suas batidas foram repetidas em igual número pelo "fenómeno";
e não muito depois (já em 31 de março de 1848, ou seja, 3 dias após o início dos estranhos acontecimentos) o "fenómeno" havia contado toda sua história, e se identificado como o espírito de um vendedor ambulante que havia sido assassinado ali alguns anos antes, etc.

Observem que a menina, segundo os relatos, teria utilizado o termo "Old Splitfoot".
"Velho Pé-rachado".
Pé-rachado é o demónio, numa alusão aos pés de cabra, com os quais os demónios são frequentemente retratados.

Então, de um lado temos Kardec, que assevera que "ninguém imaginou a explicação espíritos", e de outro lado temos uma menina de 9 anos que, já de saída, imaginou algo de sobrenatural e inteligente no fenómeno.

Porquê então Kardec insiste e enfatiza tanto esse ponto de que ninguém teria pré-concebido a explicação "espíritos" para o fenómeno das mesas girantes, das pancadas, e etc?
Penso eu que, possivelmente, devido a dois motivos.

Primeiro, os fenómenos do electromagnetismo estavam nesta época passando a ser muito mais bem conhecidos, o que deve ter levado muitos a acharem que esses fenómenos bizarros das "mesas girantes" (assumindo obviamente que não fossem fraude ou histeria colectiva) pudessem talvez ter uma explicação dentro dos novos conhecimentos das ciências físicas.

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Re: Criticando Kardec

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 29, 2013 10:07 pm

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Tivessem eles ocorrido na Idade Média, ninguém teria a menor dúvida em atribuir tais fenómenos exclusivamente a interferências demoníacas!

O segundo motivo, penso eu, seria talvez uma intenção de Kardec de dar aos seus estudos uma maior respeitabilidade ante os olhos dos cientistas, já que, creio, havia nessa época uma valorização do que é conhecido actualmente como o "método indutivista", segundo o qual o pesquisador não deve partir em seus estudos de ideias pré-concebidas, e sim observar única e simplesmente os fenómenos (e realizar experiências com eles também), e a partir daí sim chegar a conclusões, e teorizações.

Um outro ponto que gostaria de comentar é a informação segundo a qual Kardec teria recebido de alguns ilustres homens franceses de suas relações cinquenta cadernos contendo comunicações mediúnicas psicografadas, que teriam sido utilizadas como insumos na criação do Livro dos Espíritos.

Tanto quanto pude identificar, somente Henri Sausse menciona isso, em sua Biografia de Allan Kardec, apresentada aos espíritas da cidade de Lion, na França, em 1896
(essa biografia foi incluída nas edições da FEB do livro O Que é O Espiritismo).

Wantuil e Thiesen contestam dois pontos importantes comentados nesta biografia.
Primeiro, o facto de Kardec ter sido "doutor em medicina"
(Sausse chega a dizer que Kardec havia "defendido brilhantemente sua tese").

Segundo, a afirmação de que "Muitíssimas vezes, quando Pestalozzi era chamado pelos governos, um pouco de todos os lados, para fundar institutos semelhantes ao de Yverdun, confiava a Denizard Rivail (nome verdadeiro de Allan Kardec) o encargo de o substituir na direcção da sua escola.".

Wantuil e Thiesen acham muito pouco provável que isso tenha ocorrido em qualquer ocasião.
Se Sausse exagerou no que tange aos cinquenta cadernos ou não, é difícil dizer.

Sausse se refere a tais cadernos nesses termos:

"...(os) Srs. Carlotti, René Taillandier, membro da Academia das Ciências, Tiedeman-Manthèse, Sardou, pai e filho, e Diddier, editor, que acompanhavam havia cinco anos o estudo desses fenómenos e tinham reunido cinquenta cadernos de comunicações diversas, que não conseguiam pôr em ordem.

Conhecendo as vastas e raras aptidões de síntese do Sr. Rivail, esses senhores lhe enviaram os cadernos, pedindo-lhe que deles tomasse conhecimento e os pusesse em termos –, os arranjasse.

Este trabalho era árduo e exigia muito tempo, em virtude das lacunas e obscuridades dessas comunicações;

e o sábio enciclopedista recusava-se a essa tarefa enfadonha e absorvente, em razão de outros trabalhos."

Sem dúvida, não se trata de nada de extraordinário, e é bem possível que tais cadernos de facto tenham existido e desempenhado papel importante na elaboração da primeira edição do Livro dos Espíritos.

Um dado adicional curioso é comentado por Wantuil e Thiesen (Allan Kardec - Pesquisa Bibliográfica e Ensaios de Interpretação, vol. 2, pág. 71).

Eles afirmam que o conteúdo de tais cadernos teria sido obtido principalmente através do trabalho da sonâmbula e médium Srta. Japhet.

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Re: Criticando Kardec

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 29, 2013 10:07 pm

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Se assim de facto foi, então os cinquenta cadernos, obtidos pela Srta. Japhet, foram usados como insumos para os trabalhos junto com a Srta. Caroline Baudin, tendo o resultado de tais trabalhos sido posteriormente revisto pela Srta. Japhet, e daí levando à elaboração da primeira edição do Livro dos Espíritos.

Ou seja: Japhet – > Baudin -> Japhet-> Livro dos Espíritos.
Um percurso um tanto quanto circular e restrito.

A informação de que (além dos trabalhos junto à Srta. Caroline Baudin e das revisões junto à Srta. Japhet) "Kardec teria consultado mais de dez outros médiuns" durante a elaboração da primeira edição do Livro dos Espíritosaparece apenas (que eu saiba) no livro Obras Póstumas.

Que eu tenha conseguido identificar, durante sua vida, a principal informação que Kardec forneceu sobre o modo como foi feito o Livro dos Espíritos consta do primeiro fascículo da Revista Espírita, de janeiro de 1858, página 36:

"Frequentemente, se nos dirigem perguntas sobre a maneira pela qual obtivemos as comunicações que são objecto de O Livro dos Espíritos.

Resumimos, aqui, tanto mais voluntariamente, as respostas que nos fizeram, a esse respeito, pois isso nos dará ocasião de cumprir um dever de gratidão, para com as pessoas que quiseram nos prestar seu concurso."

"Como explicamos, as comunicações por pancadas, dito de outro modo, pela tiptologia, são muito lentas e muito incompletas, para um trabalho de longo fôlego, também não empregamos, jamais, esse meio;
tudo foi obtido pela escrita e por intermédio de vários médiuns psicógrafos.

Nós mesmos preparamos as perguntas e coordenamos o conjunto da obra;
as respostas são, textualmente, as que nos foram dadas pelos Espíritos;

a maioria, foi escrita sob nossos olhos, algumas foram tomadas de comunicações que nos foram dirigidas por correspondentes, ou que recolhemos, por toda parte onde estivemos, para estudá-las:
os Espíritos parecem, para esse efeito, multiplicar, aos nossos olhos, os sujeitos de observação."


"Os primeiros médiuns que concorreram para o nosso trabalho, foram a senhorita B***, cuja complacência nunca nos faltou;
o livro foi escrito, quase por inteiro, por seu intermédio e na presença de um numeroso auditório, que assistia às sessões, e nelas tomavam o mais vivo interesse.

Mais tarde, os Espíritos prescreveram-lhe a revisão completa em conversas particulares, para fazerem todas as adições e correcções que julgaram necessárias.

Essa parte essencial do trabalho foi feita com o concurso da senhorita Japhet (1), que se prestou, com a maior complacência e o mais completo desinteresse, a todas as exigências dos Espíritos, porque eram eles que determinavam os dias e as horas de suas lições.

O desinteresse não seria, aqui, um mérito particular, uma vez que os Espíritos reprovam todo o tráfico que se possa fazer com sua presença;
a senhorita Japhet, que é, igualmente, sonâmbula muito notável, tinha seu tempo utilmente empregado;
mas compreendeu que era, igualmente, dele fazer um emprego aproveitável, consagrando-o à propagação da Doutrina.


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Re: Criticando Kardec

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 29, 2013 10:08 pm

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Quanto a nós, declaramos, desde o princípio, e nos apraz confirmar aqui, que jamais entendemos fazer, de O Livro dos Espíritos, objecto de uma especulação, devendo os produtos serem aplicados em coisas de utilidade geral;
é, por isso, que seremos, sempre, reconhecidos para com aqueles que se associaram, de coração, e por amor ao bem, à obra à qual nos consagramos."

Allan Kardec
(1) RuaTiquetonne, 14.

Kardec fala claramente de "vários médiuns psicógrafos".
Mas ele também fala claramente que "o livro foi escrito, quase por inteiro, por seu intermédio" (da Srta. Caroline Baudin).

O contacto e a consulta a "mais de dez médiuns" (interpreto isso como de 11 a 20 médiuns, senão teria sido provavelmente dito "mais de vinte médiuns", ou "mais de trinta médiuns", etc.), conforme exposto em Obras Póstumas, parece compatível com o estilo e o modo de proceder de Kardec.

Contudo, a mim pelo menos, parece claro que o trabalho e as comunicações (ou revelações) centraram-se fortemente no binómio Baudin-Japhet.

Caroline Baudin se utilizava da psicografia indirecta através da "cesta pião", e posteriormente passou a se utilizar da psicografia directa.

Conforme dito por Kardec na edição de novembro de 1858 da Revista Espírita, página 316:

"O médium que lhe servia de intérprete (ao espírito Soulié) era a senhorita Caroline B..., uma das filhas do senhor da casa, médium do género exclusivamente passivo, não tendo jamais a menor consciência daquilo que escrevia, e podendo rir e conversar à direita ou à esquerda, o que fazia de bom grado, enquanto a sua mão caminhava.

O meio mecânico empregado foi, durante muito tempo, a cesta pião, descrita em nossa instrução prática.
Mais tarde, o médium serviu-se da psicografia directa."

Com relação à Srta. Japhet, Henri Sausse diz em sua Biografia de Allan Kardec que ela se utilizava da "cesta de bico".

O mesmo é dito em Obras Póstumas, página 270 na edição da FEB:

"No ano seguinte, em 1856, frequentei ao mesmo tempo as reuniões espíritas que se celebravam à rua Tiquetone, em casa do Sr. Roustan e Srta. Japhet, sonâmbula.
Eram sérias essas reuniões e se realizavam com ordem.
As comunicações eram transmitidas por intermédio da Srta. Japhet, médium, com auxílio da cesta de bico."


É interessante observar as descrições a respeito da "cesta-pião" e da "cesta de bico", constantes no Livro dos Médiuns, páginas 199 e 200, questões 153, 154, e 155.

Cesta Pião:

"153. Já dissemos que uma pessoa, dotada de aptidão especial, pode imprimir movimento de rotação a uma mesa, ou a outro objecto qualquer.

Tomemos, em vez de uma mesa, uma cestinha de quinze a vinte centímetros de diâmetro (de madeira ou de vime, a substância pouco importa).

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Re: Criticando Kardec

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 30, 2013 9:30 pm

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Se fizermos passar pelo fundo dessa cesta um lápis e o prendermos bem, com a ponta de fora e para baixo;
se mantivermos o aparelho assim formado em equilíbrio sobre a ponta do lápis, apoiado este sobre uma folha de papel, e apoiarmos os dedos nas bordas da cesta, ela se porá em movimento;
mas, em vez de girar, fará que o lápis percorra, em diversos sentidos, o papel, traçando ou riscos sem significação, ou letras.


Se se evocar um Espírito que queira comunicar-se, ele responderá não mais por meio de pancadas, como na tiptologia, porém, escrevendo palavras.

O movimento da cesta já não é automático, como no caso das mesas girantes;
torna-se inteligente.

Com esse dispositivo, o lápis, ao chegar à extremidade da linha, não volta ao ponto de partida para começar outra;
continua a mover-se circularmente, de sorte que a linha escrita forma uma espiral, tornando necessário voltear muitas vezes o papel para se ler o que está grafado.

Nem sempre é muito legível a escrita assim feita, por não ficarem separadas as palavras.
Entretanto, o médium, por uma espécie de intuição, facilmente a decifra.

Por economia, o papel e o lápis comum podem ser substituídos por uma lousa com o respectivo lápis.
Designaremos este género de cesta pelo nome de cesta-pião.

As vezes, em lugar da cesta, emprega-se um papelão muito semelhante às caixas de pastilhas, formando-lhe o lápis o eixo, como no brinquedo chamado carrapeta." (grifos meus)

Cesta de Bico:

"154. Muitos outros dispositivos se têm imaginado para a obtenção do mesmo resultado.

O mais cómodo é o a que chamaremos cesta de bico e que consiste em adaptar-se à cesta uma haste inclinada, de madeira, prolongando-se dez a quinze centímetros para o lado de fora, na posição do mastro de gurupés, numa embarcação.

Por um buraco aberto na extremidade dessa haste, ou bico, passa-se um lápis bastante comprido para que sua ponta assente no papel.

Pondo o médium os dedos na borda da cesta, o aparelho todo se agita e o lápis escreve, como no caso anterior, com a diferença, porém, de que, em geral, a escrita é mais legível, com as palavras separadas e as linhas sucedendo-se paralelas, como na escrita comum, por poder o médium levar facilmente o lápis de uma linha a outra.

Obtêm-se assim dissertações de muitas páginas, tão rapidamente como se se escrevesse com a mão."

"155. Ainda por outros sinais inequívocos se manifesta amiúde a inteligência que actua.

Chegando ao fim da página, o lápis faz espontaneamente um movimento para virar o papel.

Se ele se quer reportar a uma passagem já escrita, na mesma página, ou noutra, procura-a com a ponta do lápis, como qualquer pessoa o faria com a ponta do dedo, e sublinha-a.

Se, enfim, o Espírito quer dirigir-se a alguém, a extremidade da haste de madeira se dirige para esse alguém.
Por abreviar, exprimem-se frequentemente as palavras sim e não, pelos sinais de afirmação e negação que fazemos com a cabeça.

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Re: Criticando Kardec

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 30, 2013 9:31 pm

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Se o Espírito quer exprimir cólera, ou impaciência, bate repetidas pancadas com a ponta do lápis e não raro a quebra." (grifos meus)

Pelas descrições acima, parece que a "cesta-pião" é bem menos passível de sofrer interferência intencional (consciente ou inconsciente) do médium.

Caroline Baudin se utilizava de tal mecanismo.

Posteriormente, porém, ela passou a se utilizar justamente do mecanismo psicográfico mais susceptível da influência intencional (consciente ou inconsciente) do médium: a psicografia directa.

Aparentemente, a "cesta de bico" é bem mais susceptível de sofrer interferência intencional (consciente ou inconsciente) do médium do que a "cesta-pião".

A Srta. Japhet se utilizava, no exercício de sua mediunidade, da "cesta de bico", e, sendo também sonâmbula, nada impede que as revisões que Kardec efectuou junto a ela se dessem, também, durante os momentos em que ela estivesse em estado de sonambulismo, talvez mesmo manifestando verbalmente o que os "espíritos" achavam de tal ou tal item colhido junto à Srta. Baudin.

O sonambulismo é, possivelmente, tão passível de sofrer influência intencional (consciente ou inconsciente) do médium quanto a psicografia directa.

O resultado final do trabalho realizado por Kardec nas condições acima descritas (em virtudes e fraquezas) se reflecte no frontispício da primeira edição do Livro dos Espíritos:

- O Livro dos Espíritos

contendo

Os Princípios da Doutrina Espírita

sobre a natureza dos espíritos, suas manifestações e suas relações com os homens;
as leis morais, a vida presente, a vida futura, e o porvir da humanidade;
escrito conforme ditado e publicado pela ordem de espíritos superiores

Por Allan Kardec.

Pontos Fracos na Metodologia Usada Por Kardec:

Na secção acima, intitulada "O Método de Kardec", arrolei seis itens que me parecem fundamentais para se entender os procedimentos, os achados, e as teorizações de Kardec.

Podemos considerá-los como os "Materiais e Métodos" de Kardec.

O item 1 fala dos fenómenos estudados.

Como eu disse mais acima, a psicografia directa (médium escrevendo directamente com a própria mão) é, em tese, altamente sujeita a interferências do médium, consciente ou inconscientemente.

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Re: Criticando Kardec

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 30, 2013 9:31 pm

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Mesmo na fase inicial das "pesquisas" de Kardec, com Caroline Baudin, a médium acabou utilizando-se da psicografia directa, apesar de não sabermos o quanto do Livro dos Espíritos foi obtido desta forma.

O método anterior utilizado por Caroline Baudin, "cesta-pião", apesar de ser descrito por Kardec como imune da interferência do médium, possuía, contudo, um ponto especialmente fraco a meu ver, pelo que se pode compreender de sua descrição.

Kardec diz:
"Nem sempre é muito legível a escrita assim feita, por não ficarem separadas as palavras.
Entretanto, o médium, por uma espécie de intuição, facilmente a decifra.".


Com relação aos trabalhos com Caroline Baudin, não sabemos o quanto do trabalho foi obtido por psicografia directa, e não sabemos também, do que foi obtido através da "cesta-pião", o quanto constituía-se de textos cuja identificação podia ser feita apenas por ela.

Já com relação à Srta. Japhet, a utilização de um mecanismo aparentemente mais susceptível de interferência do médium ("cesta de bico") somada à possibilidade de auxílio através do sonambulismo, são factores que "enfraquecem" o fenómeno objecto de estudo.

Gostaria de deixar claro que eu não estou dizendo que através da psicografia directa não é possível se obter comunicações de "Espíritos Superiores".

Do mesmo modo, não estou dizendo que um lápis que flutue sozinho e escreva mensagens espirituais diante dos olhos dos mais bem preparados cépticos do mundo actual seja, necessariamente, um infalível "Arauto dos Deuses".

O que estou, neste momento e neste ponto específico, tentando identificar é o quanto de possivelmente "extraordinário" existia nas fontes fenoménicas que Kardec estudou e das quais ele se utilizou para chegar às "revelações" do Livro dos Espíritos.

Dos relatos que pude ter contacto, e do que parece ter sobrevivido dos tempos de Kardec até os nossos dias, não parece poder ser dito de modo seguro que Kardec dirigiu perguntas que foram respondidas através de algum meio claramente "extraordinário" ou "sobrenatural" (ou "paranormal", "anómalo", etc.).

Além disso, por mais que de facto Kardec possuísse cuidado com relação a fraudes, muitas vezes só pessoas com vasta experiência em técnicas de ilusionismo conseguem detectar possíveis pontos fracos em mecanismos como, por exemplo, os utilizados pelas médiuns em questão ("cesta-pião" e "cesta de bico").

E o mesmo pode ser dito com relação ao uso específico destes instrumentos, feito por estas duas médiuns específicas, nas várias sessões específicas acompanhadas por Kardec.

No item 2, cito o que conheço serem os "Métodos Experimentais" de Kardec.

Com relação a este item, considero o facto de Kardec não possuir uma "vastíssima experiência em técnicas ilusionistas" como um ponto fraco em potencial.

Mas um ponto especialmente favorável neste item é o "respeito que Kardec possuía pelo seu objecto de estudo", ou seja, pelos espíritos:
Se você não for capaz de detectar fraudes ilusionistas, você pode obter falsas mensagens espíritas.

Mas se você não possuir um verdadeiro respeito pelos espíritos (independente deles existirem ou não), dificilmente obterá mensagens espíritas verdadeiras (na hipótese dos espíritos de facto existirem).

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Re: Criticando Kardec

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 01, 2014 11:29 pm

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No item 3 ("Postura epistemológico-filosófica"), considero altamente criticáveis as afirmações frequentes de Kardec de que ele "não partia de ideias pré-concebidas" e de que "ninguém pensou na hipótese 'espíritos'; foi o fenómeno que se nomeou como tal".

Tais afirmações parecem ter como objectivo principal, senão exclusivo, construir uma respeitabilidade para as proposições de Kardec (ou para as proposições dos "espíritos" que foram através dele divulgados) perante a visão científica da época;
e são, a meu ver, afirmações na verdade com uma base muito fraca.

O item 4, ou seja, o "Conteúdo das observações-comunicações-revelações", está em estreita dependência dos itens 5 e 6.

Na verdade, são estes dois últimos itens que formam a base de "respeitabilidade científica potencial" da "Teoria Espírita Kardecista" (conforme pesquisada por Kardec).

Todos os pontos constantes destes itens (ou seja, dos itens 5 e 6) estão destacados em vermelho.
Isso porque, na verdade, eu considero todos eles gravemente falhos.

Analisarei primeiro o item 6, e por fim o item 5.

Com relação ao item 6 ("Critérios para classificação dos espíritos superiores"), Kardec parece mesmo adoptar uma postura ingénua e/ou arrogante.

Mesmo na primeira edição do Livro dos Espíritos, Kardec já afirmava (O Primeiro Livro dos Espíritos de Allan Kardec, página 12):

"A distinção entre Espíritos bons e impuros é extremamente fácil:
A linguagem dos Espíritos Superiores é constantemente digna, nobre, impregnada da mais alta moralidade, imune de qualquer paixão inferior;
seus conselhos transpiram a mais pura sabedoria e têm sempre por escopo nossa melhoria e o bem da Humanidade.


A linguagem dos Espíritos inferiores, ao contrário, é inconsequente, quase sempre trivial e até grosseira;
se dizem por vezes coisas boas e verdadeiras, dizem-nas mais frequentemente falsas e absurdas por malícia ou por ignorância;
tiram todo proveito da credulidade e se divertem à custa dos que os interrogam, ora insuflando-lhes a vaidade, ora embalando-lhes os desejos com falsas esperanças.


Em suma, as comunicações sérias, na verdadeira acepção da frase, só serão transmitidas nos centros sérios, naqueles em que os companheiros se acharem unidos por íntima comunhão de pensamentos visando ao Bem." (grifos meus)

A mim, parece altamente subjectivo e perigosamente ingénuo (ou mesmo arrogante) dizer-se que "A distinção entre Espíritos bons e impuros é extremamente fácil.".

Não acredito que haja muitas pessoas no mundo, se é que há alguma, que consiga distinguir o "homem bom" do "homem mal" com essa facilidade apregoada por Kardec.

De modo similar ao dito acima, ao apresentar a "Escala Espírita" (escala hierárquica dos espíritos), Kardec faz o seguinte comentário (O Livro dos Espíritos, página 89, parágrafo logo antes da pergunta 101):

"Com o auxílio desse quadro, fácil será determinar-se a ordem, assim como o grau de superioridade ou de inferioridade dos que possam entrar em relações connosco e, por conseguinte, o grau de confiança ou de estima que mereçam.

É, de certo modo, a chave da ciência espírita, porquanto só ele pode explicar as anomalias que as comunicações apresentam, esclarecendo-nos acerca das desigualdades intelectuais e morais dos Espíritos."


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Re: Criticando Kardec

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 01, 2014 11:29 pm

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Se formos, por exemplo, condenar as "contradições" como sinais reveladores de inferioridade, correríamos o risco de, por volta do ano de 1880, considerar como originária de um espírito inferior uma mensagem que dissesse que os fótons são ao mesmo tempo ondas e partículas.

Ou seja, aquilo que pode parecer uma contradição pode na verdade não ser exactamente isso, e sim parecer como tal aos nossos olhos devido a falhas de nossos conhecimentos.

O mesmo se dá com relação à exigência de que o espírito conheça a ciência (na verdade, querendo dizer menos que ele "revele factos científicos", e sim que ele "não demonstre desconhecer a ciência estabelecida") e a moral.

A exigência de "coerência lógica" me parece um critério relativamente europocêntrico.

Ou seja, pelo menos em um grau minimamente significativo, sou da opinião de que diferentes povos possuem "lógicas" diferentes e modos diferentes de olhar e entender o mundo.

Isso é exposto de modo interessante no livro de Fritjof Capra O Tao da Física, onde ele mostra que reflexões e procedimentos aparentemente inúteis (e "ilógicos") de alguns povos orientais possuem na verdade uma coerência e uma consequência profundas e impressionantes.

Kardec comenta ainda um importante quesito: "Ausência de maldade".

Por mais objectivo que esse quesito possa parecer, o facto é que há grandes diferenças entre o que pessoas diferentes consideram como maldade ou não.

Kardec diz (O Livro dos Espíritos, página 90, pergunta 101):
"Todo espírito que, em suas comunicações, trai um mau pensamento, pode ser classificado na terceira ordem."
(ou seja, Espíritos imperfeitos. A terceira ordem é a mais baixa das três.).

Eu, por exemplo, tomando como orientação esta frase, incluiria sem pestanejar no grupo dos espíritos da terceira ordem "São Luís", que era, nos tempos de Kardec, nada menos que o "Espírito Protector" da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas!

O item 5, "Critérios para aceitação das mensagens", possui uma certa redundância com o item 6, em especial com relação à exigência de que revelações venham por "Espíritos Superiores", e à exigência de fundo lógico nas mensagens e não conflituante com o conhecimento cientificamente estabelecido.

O ponto aparentemente mais objectivo seria "Concordância entre as mensagens:
recebidas por vários espíritos diferentes;
recebidas por vários médiuns diferentes;
recebidas de vários locais diferentes;
recebidas em várias épocas diferentes".


Esse item (ou melhor, sub-item) da "concordância entre vários espíritos, entre vários médiuns, em diversos tempos e lugares" é de facto bem interessante.

Ele, contudo, possui alguns pontos fracos.
Talvez o ponto mais fraco seja a semelhança de pontos de vista sobre determinadas questões entre diversos povos, em diversos locais, ao longo de diversas épocas.

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Re: Criticando Kardec

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 01, 2014 11:30 pm

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Por exemplo, ao examinarmos a questão de se Deus é uma entidade "independente" dos espíritos (conforme o "teísmo" ocidental clássico), ou se, ao invés, os espíritos são emanações não rompidas ("tentáculos") da Divindade (conforme o brahmanismo), pouco vale obter-se comunicações de 500 médiuns da Itália, Inglaterra, Espanha, Brasil, Austrália e Etiópia.

Mas valeria bastante confrontar comunicações de 20 médiuns da Índia, Nepal, Japão, Inglaterra, Alemanha e França.
Há um segundo ponto fraco nesse sub-item.

Muitas das cartas dirigidas a Kardec de centros espíritas de outros países e de outros continentes provinham de pessoas que haviam tido contacto com o Livro dos Espíritos.

"Centros Espíritas", ou instituições similares, que, por exemplo, não endossassem as ideias da hierarquia do bem e da supremacia do bem sobre o mal (como creio que ocorre com o Candomblé mais primitivo, que ao que sei parece possuir uma postura mais "amoral") talvez nem se interessassem em enviar qualquer comunicado a Kardec, mesmo se alguns de seus membros tivessem lido o Livro dos Espíritos.

Há um aspecto, porém, ainda mais problemático neste sub-item da "concordância".
Não se trata exactamente de uma falha deste sub-item em si, mas sim uma contrapartida que surge do uso dele.

Usar o critério da "concordância" exige, como contrapartida, uma demonstração de que a "concordância" de facto ocorreu.

E nesse ponto em particular, apesar de Kardec ter de facto fornecido uma demonstração muitíssimo maior e mais sólida do que possivelmente qualquer religião de seu tempo (e talvez mesmo maior e mais sólida do que algumas "ciências" de seu tempo ou do nosso), a "demonstração da concordância" fornecida por Kardec situou-se muitíssimo abaixo do requerido para que se possa considerar os itens da "Teoria Espírita Kardecista" como factos, ou mesmo para que se possa considerá-los como uma teoria científica estabelecida com um mínimo de solidez.

Nota sobre a "maldade" dos espíritos guias de Kardec:

Kardec afirma que "Todo espírito que, em suas comunicações, trai um mau pensamento, pode ser classificado na terceira ordem.".

Julgar o que é o "bem" e o que é o "mal" é uma tarefa muito difícil, bastante subjectiva, e também fortemente sujeita aos nossos condicionamentos culturais e históricos.

Por exemplo, o espírito "São Luís" (que era tido mais ou menos como um "presidente espiritual" da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas ao tempo de Kardec) em algumas ocasiões emitiu opiniões que para mim parecem claramente oriundas não de um "Espírito Superior", como ele era considerado por Kardec e demais membros da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, mas na verdade procedentes de um espírito da terceira e mais inferior das ordens espíritas: a ordem dos espíritos imperfeitos.

No livro O Céu e o Inferno, de Allan Kardec, existem supostas descrições das condições de vida pós-morte de diversos tipos de espíritos, narradas inclusive pelos "próprios espíritos" que estariam experimentando tais vivências:
pessoas que foram boas durante a vida;
pessoas que foram mais ou menos neutras;
e pessoas que foram más.


Há também descrições das condições pós-morte de acordo com o tipo de morte, e especialmente interessante é o relato dos suicidas.
Todos temos um horror quase irracional pelo suicídio.

Inúmeras religiões condenam tal acto, e há mesmo legislações variadas em alguns países posicionando-se fortemente contra o suicídio.

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Re: Criticando Kardec

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 02, 2014 9:53 pm

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Kardec e o kardecismo, de um modo natural, se posicionam ferozmente contra o suicídio também.
Mas há, nesta secção do livro O Céu e o Inferno, alguns pontos particularmente curiosos.

Na página 298, há a descrição do seguinte caso:

"No começo da guerra da Itália, em l859, um negociante de Paris, pai de família, gozando de estima geral por parte dos seus vizinhos, tinha um filho que fora sorteado para o serviço militar.

Impossibilitado de o eximir de tal serviço, ocorreu-lhe a ideia de suicidar-se a fim de o isentar do mesmo, como filho único de mulher viúva.

Um ano mais tarde, foi evocado na Sociedade de Paris a pedido de pessoa que o conhecera, desejosa de certificar-se da sua sorte no mundo espiritual."


São Luís afirmou que "Este espírito sofre justamente, pois lhe faltou a confiança em Deus, falta que é sempre punível.".

Tanto São Luís como Kardec comentam o facto atenuante da intenção do Pai de livrar o filho da possibilidade de morrer na guerra.

Kardec ainda acrescenta os seguintes comentários na página 300:

"À primeira vista, como acto de abnegação, este suicídio poder-se-ia considerar desculpável.

Efectivamente assim é, mas não de modo absoluto.
A esse homem faltou a confiança em Deus, como disse o Espírito S. Luís.

A sua acção talvez impediu a realização dos destinos do filho;
ao demais, ele não tinha a certeza de que aquele sucumbiria na guerra e a carreira militar talvez lhe fornecesse ocasião de adiantar-se.

A intenção era boa, e isso lhe atenua o mal provocado e merece indulgência;
mas o mal é sempre o mal, e se o não fora, poder-se-ia, escudado no raciocínio, desculpar todos os crimes e até matar a pretexto de prestar serviços."

"(...) O suicídio mais severamente punido é o resultante do desespero que visa a redenção das misérias terrenas, misérias que são ao mesmo tempo expiações e provações.
Furtar-se a elas é recuar ante a tarefa aceita e, às vezes, ante a missão que se devera cumprir."


Curioso que ninguém viu o mérito de se impedir que o filho cometesse homicídios e diversos outros tipos de destruições na guerra.

Kardec enxerga a possibilidade de que a "a carreira militar talvez lhe fornecesse ocasião de adiantar-se.", mas não assinala que isso se daria às custas possivelmente da morte de outros.

E ele incorre em inacreditável incoerência ao dizer "mas o mal é sempre o mal, e se o não fora, poder-se-ia, escudado no raciocínio, desculpar todos os crimes e até matar a pretexto de prestar serviços.".

Ele considera o suicídio do pai um mal que não deixou de ser mal apesar das nobres intenções;
por um lado, "condena o ato de matar a pretexto de prestar serviços";
e acaba, em franca contradição, apoiando o acto de matar a pretexto de prestar serviços
(na guerra).

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Re: Criticando Kardec

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 02, 2014 9:53 pm

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De facto, para mim, neste ponto (e de acordo com os meus "condicionamentos culturais e históricos"), São Luís manifestou uma opinião má.
Mas Kardec foi ainda pior.

Em outro trecho, intitulado "Luís e a Prespontadeira de Botinas" (página 309), a qualidade do julgamento moral de "São Luís" e de Kardec deixa ainda muito mais a desejar.

Nesse trecho, uma jovem chamada Victorine R. namorava há oito meses um sapateiro de nome Luís, e estava para com ele se casar (já eram noivos, tendo mesmo corrido os proclamas para o casamento).

O rapaz (ou homem) almoçava e jantava na casa dela quase sempre, e após uma briga por "motivos fúteis" (segundo relato do jornal), Luís saiu da mesa (do almoço na casa da noiva) dizendo que não ia mais voltar (e nem se casar, obviamente).

No dia seguinte, se arrependeu, voltou, e foi rejeitado.

Insistiu por alguns dias, e após irredutível recusa de sua ex-noiva em reatar a relação (e recusa também de abrir a porta para ele), Luís grita lá de fora:
"Adeus, pois, cruel! adeus para sempre.
Trata de procurar um marido que te estime tanto como eu.".


Enfiou, então, uma faca no coração, morreu, e a ex-noiva e família só perceberam o ocorrido uns quinze minutos depois.

Kardec e colaboradores, então, evocaram "São Luís" e depois o espírito suicida para "investigar" o caso.
O "espírito" do suicida afirmou que a moça não era má.

Diante da pergunta de se o amor dele por ela era sincero, o espírito respondeu:
"Paixão somente, creia; pois se o amor fosse puro eu me teria poupado de lhe causar um desgosto.".

"São Luís", contudo, fez algumas afirmações curiosas.

Kardec perguntou:
"E o suicídio de Luís tem desculpa pelo desvario que lhe acarretou a obstinação de Victorine?", "São Luís" responde:
"Sim, pois o suicídio oriundo do amor é menos criminoso aos olhos de Deus, do que o suicídio de quem procura libertar-se da vida por motivos de covardia.". (grifos meus)

Observem que: no suicídio do pai que queria evitar que o filho fosse para a guerra, Kardec comenta abertamente que "O suicídio mais severamente punido é o resultante do desespero que visa a redenção das misérias terrenas".

Já no caso do apaixonado suicida, "São Luís" fala do atenuante do "amor"!
Ou seja, segundo "Kardec-São Luís" é menos punível quem se mata porque a noiva desistiu do casamento do que quem se mata devido a anos de dores lancinantes com alguma doença terminal, como o câncer.

O comentário de Kardec ao fim do relato desse caso é ainda mais condenável do que o que já está exposto acima (página 312):

"Por isso se vê ainda uma nova confirmação da justiça que preside à distribuição das penas, conforme o grau de responsabilidade dos culpados É a moça, neste caso, que cabe a maior responsabilidade, por haver entretido em Luís, por brincadeira, um amor que não sentia.

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Re: Criticando Kardec

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 02, 2014 9:53 pm

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Quanto ao moço, este já é de sobejo punido pelo sofrimento que lhe perdura, mas a sua pena é leve, porquanto apenas cedeu a um movimento irreflectido em momento de exaltação, que não à fria premeditação dos suicidas que buscam subtrair-se às provações da vida." (grifos meus)

Então, segundo o juízo de Kardec, é à moça que cabe a maior pena??!!

O rapaz abandona a mesa do almoço durante a discussão, sai da casa da sogra dizendo que não vai mais se casar, volta somente no dia seguinte arrependido, e tem que ser recebido com braços abertos?

Passa alguns dias até tentar uma última vez ser aceito, decide se matar sem revelar isso à moça (sabe Deus se ele já não matutava isso há dias), se mata, e a culpa maior é da moça?

De onde Kardec tirou a informação de que "a moça não amava o rapaz, que estava apenas levando avante uma brincadeira"?

O jornal de onde este facto foi colhido (Siècle, 7 de abril de 1858, segundo consta na Revista Espírita, de novembro de 1858, página 262, em artigo que Kardec colocou com o título: Problemas Morais: Suicídio por Amor) não dá subsídios para tal conclusão.

O "espírito suicida" disse de facto que ela não o amava, mas que ela se iludia, e que foi a briga que lhe abriu os olhos.

Nem mesmo "São Luís" diz que ela havia mantido a relação com o moço "por brincadeira", como coloca Kardec.
De onde Kardec tirou essa informação e esse julgamento?

Novamente, "São Luís" parece ter emitido pensamentos incompatíveis com os de um Espírito Superior.
Mas Kardec foi ainda pior.

Em outra ocasião (Revista Espírita, junho de 1859, página 162), Kardec indagou a "São Luís":
"A raça negra é verdadeiramente uma raça inferior?".
"São Luís" respondeu:
"A raça negra desaparecerá da Terra.
Ela foi feita para uma latitude diferente da vossa.".


É compreensível que Kardec possuísse ideias relativamente racistas com relação às raças negras, e igualmente que tivesse informações de validade científica altamente duvidosas.

Mas o mesmo não pode ser dito de "São Luís", supostamente um Espírito Superior.

Há também, na Revista Espírita de agosto de 1864, página 241, uma carta muito interessante enviada para Kardec de um leitor da cidade de Bourdeaux (França).

Esse leitor comenta que teria lido no Civilisateur (do autor Lamartine, pelo que pude entender) as cartas de Cristóvão Colombo sobre a situação do México no momento de sua descoberta.

É descrita então a situação paradisíaca das tribos indígenas locais de então, seres humanos vivendo aparentemente em verdadeira "Idade de Ouro", quase um Céu na Terra.

E daí, vieram as invasões europeias, os extermínios, torturas, violências diversas, etc.
O leitor então pergunta a Kardec onde está a justiça nisso?

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Re: Criticando Kardec

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 03, 2014 9:55 pm

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Kardec expõe então a resposta dada pelos espíritos após submeter-lhes tal questão, e a comunicação espírita recebida (em 8 de julho de 1864, através do médium Sr. D'Ambel) esclarece porque tal genocídio na verdade era algo justo.

O "espírito" comunicante começa, na mensagem, falando dos Incas, que nada tinham a ver com a história
(pois os Incas habitaram regiões a milhares de quilómetros do México).

Fala depois sobre os Aztecas (mas bem menos), que de facto habitavam o México, mas que nada tinham a ver com os povos descritos pelo missivista.

Enfim, acreditando saber do que falava, o suposto espírito fez diversas afirmações incorrectas do ponto de vista histórico, não respondeu à questão, justificou o genocídio dizendo que os Incas estavam indolentemente estagnados ("Sob as aparências de uma certa bondade natural e com os costumes antes doces do que virtuosos, os Incas viviam negligentemente, sem progredir nem se elevar."), e terminou dizendo que as matanças não haviam sido tão intensas quanto se pensava:
"De tanto sangue derramado que resta, pergunta-se de Bordeaux?

Primeiro, o sangue derramado não foi tão considerável quanto se poderia crê-lo.
Diante das armas de fogo e diante de alguns soldados de Pizarro, todo o continente invadido se submeteu como diante dos semi-deuses saídos das águas.".

Na verdade, os Incas, que distavam milhares de quilómetros do objecto real da discussão, não tinham nada de bonzinhos.
Eram um império conquistador, assim como os Aztecas.

E com relação ao "sangue que não foi derramado":
se não o foi, isso se deu, em boa parte, devido à uma dizimação prévia das populações nativas por doenças vindas junto com os conquistadores europeus, sendo que tais doenças conseguiram chegar no Império Inca antes dos próprios conquistadores (através de hospedeiros humanos indígenas), conforme relatado nos artigos Death by Disease (Archaeology. March/April 1992, Vol. 45, No. 2, pp. 47-49) e The Great Disease Migration (Newsweek. Special Issue, Fall/Winter 1991, pp. 54-56) nos seguintes endereços da internet: http://muweb.millersville.edu/~columbus/data/art/RAMENOF1.ART e http://muweb.millersville.edu/~columbus/data/art/COWLEY01.ART.

Os contactos de Colombo com "sociedades nativas paradisíacas" se deu principalmente em suas primeiras viagens ao continente americano, notadamente em ilhas do Caribe.

Eram sociedades tribais habitantes das primeiras ilhas nas quais Colombo aportou.
Tais populações estavam longe de ser tão "divinas" como os relatos iniciais de Colombo podem ter feito crer.

Mas elas de facto eram muitíssimo "melhores" do que os brutais Aztecas e Incas.
E sem dúvida elas eram ainda muito melhores do que os genocidias espanhóis.

Kardec acrescenta comentários bem comprometedores ao que já havia sido dito pelo espírito:
"A esta judiciosa explicação, acrescentaremos algumas reflexões." (grifos meus), seguidas então de algumas visões incorrectas a respeito das raças humanas, pelo menos à luz do que admite actualmente a ciência.

No exemplar que eu tenho, a comunicação do espírito não aparece assinada.
Mas Kardec comenta no corpo do texto (em seu comentário após as "judiciosas explicações" do espírito) que "Quanto aos indígenas do México, diremos, como Erasto, que havia neles costumes antes dóceis do que virtuosos,...".

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Re: Criticando Kardec

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 03, 2014 9:55 pm

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Erasto era um dos "guias" da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas.
Um "Espírito Superior"; pelo menos para Kardec e seus colaboradores.
Eu, de minha parte, tenho sinceramente algumas dúvidas se ele de facto era um "Espírito Superior".

Na verdade, sou da opinião de que, se formos tomar muito ao pé da letra a máxima segundo a qual "Todo espírito que, em suas comunicações, trai um mau pensamento, pode ser classificado na terceira ordem", é capaz de não sobrar muitos de nós (encarnados ou desencarnados, em todo o Universo) para contar a história...

Talvez seja mais prudente adoptarmos uma máxima um pouquinho mais comedida e, "antiquada":
"Que atire a primeira pedra, aquele que não tiver pecados."

Erros de Kardec na Aplicação da sua Metodologia:

Conforme já afirmei mais acima, um grande problema (ou erro) ao se utilizar o critério da "concordância das comunicações mediúnicas" está em não se mostrar tais comunicações, em não se realizar análises quantitativas e qualitativas com tais comunicações, e em não se divulgar os resultados de tais análises.

É muito raro ver Kardec atender sequer minimamente a tais demandas.
E quando ele atende, ele faz isso de modo muito questionável.

Na Revista Espírita de maio de 1863, página 156, há um artigo interessante com o título "Exame das Comunicações Medianímicas que Nos São Dirigidas".

Este artigo, infelizmente, é muito mais um conjunto de justificativas para que Kardec não publique na Revista Espírita tudo quanto lhe é enviado (devido à falta de espaço, qualidade duvidosa ou fraca de muitos dos materiais, etc.) do que um "exame das comunicações" propriamente dito.

Kardec diz que contam já mais de 3.600 comunicações que lhe foram enviadas (que, se publicadas, absorveriam cinco anos inteiros da Revista Espírita), e mais de 30 manuscritos mais ou menos longos.

Afirma que, das comunicações, uma pequena minoria se constituem de materiais bem ruins, aparentando serem de espíritos inferiores, e que todas nessa condição eram originárias de médiuns isolados, e não de grupos.

A maioria das demais comunicações eram boas, mais de 3.000 de uma moralidade irrepreensível e excelentes como fundo.
Dos mais de 30 manuscritos extensos, apenas uns 5 ou 6, segundo Kardec, possuíam um valor real.

Observe-se que, diante desse relato de Kardec, não temos a menor ideia sobre o conteúdo de tais comunicações, ou sobre quantas delas referendavam ou rejeitavam ideias presentes no Livro dos Espíritos, ou sobre que ideias específicas do Livros dos Espíritos poderiam estar sendo referendadas ou não.

Na Revista Espírita de novembro de 1858, página 296 (artigo "Da Pluralidade das Existências Corpóreas"), Kardec fala sobre a reencarnação, dizendo que é um tema ainda polémico.

Diz ainda que ele foi levado a acreditar na reencarnação devido às comunicações dos espíritos sobre esse assunto, e devido à lógica desse sistema explicativo.

Afirma ele que desde que iniciou seus estudos espíritas, teve oportunidade de consultar "mais de cinquenta médiuns" a respeito dessa questão da reencarnação, "e que, em nenhum caso, os Espíritos foram desmentidos sobre essa questão;" (grifos meus).

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Ave sem Ninho

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Re: Criticando Kardec

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 03, 2014 9:56 pm

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Essa afirmação não pareceu muito clara para mim.

É mais ou menos como se desse margem à seguinte pergunta:
"Sim. Cinquenta não desmentiram a reencarnação.
Mas quantos afirmaram que há reencarnação, e quantos afirmaram que a reencarnação é compulsória e necessária?".


Ou seja, nas raras vezes em que Kardec fornece números, ele o faz de modo precário e/ou ambíguo.

Na Revista Espírita de março de 1858, página 70 (artigo "Júpiter e Alguns Outros Mundos"), Kardec fala sobre as revelações a respeito da vida de seres corpóreos nos diversos planetas do nosso Sistema Solar.

Ele apresenta tais informações do seguinte modo:

"Para nós, que fomos cem vezes testemunhas destas comunicações, que pudemos apreciá-las em seus menores detalhes, que nelas escutamos o forte e o fraco, observamos as semelhanças e as contradições, encontramos todos os caracteres da probabilidade;
todavia, não lhes damos senão sob o benefício de inventário, a título de notícias, aos quais cada um está livre para ligar a importância que julga adequada."
(grifos meus)

Aqui temos "cem vezes" o testemunho e a análise minuciosa de comunicações levando a uma identificação de "todos os caracteres da probabilidade".

Mas acontece que esta "revelação" específica está em profundo desacordo com o que é admitido pela ciência actualmente
(vida relativamente semelhante à humana em Marte, Vénus, Júpiter, etc.).

Se compararmos isso com os "cinquenta não desmentidos" quanto à reencarnação, seríamos talvez levados actualmente à conclusão de que há "aí" (ou seja, na questão da reencarnação) "todos os caracteres da improbabilidade".

Finalmente, na Revista Espírita de janeiro de 1862, página 16, Kardec dirige (publica em artigo) seis perguntas "polémicas", e solicita que grupos espíritas do mundo (dentre os que lêem a Revista Espírita, ou que dela tomem conhecimento, obviamente) respondam às questões.

Em abril de 1862, página 114, Kardec afirma que recebeu respostas "de todos os lados" para todas as perguntas.

Mostra algumas relativas à sexta pergunta apenas, alegando falta de espaço, e dando a entender que mostraria as outras depois
(creio que ele nunca chegou a mostrar).

O que ele de facto mostrou foram seis comunicações que endossavam o que era expresso na pergunta 6
(uma das respostas era da Holanda; uma outra aparentemente da Alemanha; e as quatro restantes da França mesmo).

O curioso é que a pergunta 6 se referia à ideia dos "Espíritos Decaídos", ou seja, à possibilidade dos espíritos retrogradarem na escala espírita.

Tal ponto já vinha sendo divulgado por Kardec como estabelecido desde a primeira edição do Livro dos Espíritos, em abril de 1857 (e posteriormente referendado na segunda edição, de março de 1860), constando do resumo da "Doutrina Espírita" incluído na introdução do Livro dos Espíritos:
"As diferentes existências corporais do Espírito são sempre progressivas e nunca retrógradas;
todavia, a velocidade do progresso depende dos esforços de cada um para alcançar a perfeição."

(O Primeiro Livro dos Espíritos de Allan Kardec, página 11).

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Re: Criticando Kardec

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 04, 2014 8:55 pm

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Ou seja, seis respostas, maioritariamente francesas, sobre um assunto que já vinha sendo martelado há cinco anos.

O critério da "concordância entre comunicações", a despeito de suas falhas intrínsecas, parece ter sido uma tentativa sincera e até certo ponto diligente.

Contudo, diante do que pude observar, não há para mim dúvida de que o embaçamento que ele efectivamente dá ao que Kardec publicou nos livros kardecistas é um embaçamento extremamente fraco e ilusório.

Um último ponto interessante a ser comentado com relação a falhas de Kardec ao usar seu método se refere à capacidade de Kardec de entender (ou sua "disponibilidade em aceitar"...) o que os "espíritos" diziam.

Há um trecho interessante no Livro dos Médiuns onde Kardec estuda o fenómeno do transporte de objectos (em geral de pequeno tamanho, como flores, cinzeiros, etc.), mesmo atravessando portas fechadas, etc.

No item 99, página 124, Kardec introduz a série de perguntas nos seguintes termos:

"As perguntas que se seguem foram dirigidas ao Espírito que os operara, mas as respostas se ressentem por vezes da deficiência dos seus conhecimentos.

Submetemo-las ao Espírito Erasto, muito mais instruído do ponto de vista teórico, e ele as completou, aditando-lhes notas muito judiciosas.

Um é o artista, o outro o sábio, constituindo a própria comparação dessas inteligências um estudo instrutivo, porquanto prova que não basta ser Espírito para tudo saber."

(grifos meus - Erasto é o mesmo das explicações judiciosas a respeito dos Incas...)

Seguem-se várias perguntas e comentários sobre o fenómeno dos transportes.

E, em especial, uma sequência "pergunta/resposta/comentários" curiosa:

17ª P.: Entre os objectos que os Espíritos costumam trazer, não haverá alguns que eles próprios possam fabricar, isto é, produzidos espontaneamente pelas modificações que os Espíritos possam operar no fluido, ou no elemento universal?

R.: Por mim, não, que não tenho permissão para isso.
Só um Espírito elevado o pode fazer.

18ª P.: Como conseguiste outro dia introduzir aqueles objectos, estando fechado o aposento?

R.: Fi-los entrar comigo, envoltos, por assim dizer, na minha substância.
Nada mais posso dizer, por não ser explicável o facto.

20ª P.: (A Erasto) Pode um objecto ser trazido a um lugar inteiramente fechado?
Numa palavra: pode o Espírito espiritualizar um objecto material, de maneira que se torne capaz de penetrar a matéria?


R.: É complexa esta questão.
O Espírito pode tornar invisíveis, porém, não penetráveis, os objectos que ele transporte;
não pode quebrar a agregação da matéria, porque seria a destruição do objecto.

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Re: Criticando Kardec

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 04, 2014 8:56 pm

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Tornando este invisível, o Espírito o pode transportar quando queira e não o libertar senão no momento oportuno, para fazê-lo aparecer.
De modo diverso se passam as coisas, com relação aos que compomos.

Como nestes só introduzimos os elementos da matéria, como esses elementos são essencialmente penetráveis e, ainda, como nós mesmos penetramos e atravessamos os corpos mais condensados, com a mesma facilidade com que os raios solares atravessam uma placa de vidro, podemos perfeitamente dizer que introduzimos o objecto num lugar que esteja hermeticamente fechado, mas isso somente neste caso.

(Grifos Meus)

Kardec não pareceu atentar devidamente para a diferença de opiniões entre esses dois espíritos.

Pareceu ("pareceu", pelo menos) aceitar a explicação de Erasto (que era o seu "consultor" para assuntos técnico-científico espirituais nesse momento), que defende a ideia de que os espíritos não podem tornar os objectos interpenetráveis, apesar do outro espírito ter afirmado que penetrava com os objectos envolvidos em si.

Isso era uma questão para ter sido esmiuçada mais a fundo durante o questionamento a ambos os espíritos, e, estranhamente, não foi.

Note que Kardec disse que Erasto era o "sábio", e o outro espírito o "artista".
Mas em nenhum momento Kardec disse que o outro espírita era incompetente para perceber o que ele próprio fazia e como o fazia.

Factos como este, e como os demais descritos mais acima, me levam a ter sérias dúvidas sobre a propriedade das interpretações de Kardec a respeito do que diziam os "espíritos".

Situações Onde Kardec Pareceu Não Usar Sua Própria Metodologia:

Em três situações importantes, pelo menos, Kardec pareceu tomar graves decisões sem consultar seus colaboradores.

Primeiro, quando, segundo Wantuil e Thiesen (Allan Kardec - Pesquisa Bibliográfica e Ensaios de Interpretação. Volume 3, pág. 22), Kardec "redigiu o primeiro número da Revista Espírita, sem nada ter informado a seus amigos."(em 1858).

Segundo, quando realizou a segunda edição do Livro dos Espíritos (em 1860), que segundo descrição de Canuto Abreu se deu "atendendo somente ao seu critérium, confiando apenas em seu discernimento."
(O Primeiro Livro dos Espíritos de Allan Kardec, página XV).

Há algumas diferenças curiosas entre a primeira e a segunda edição do Livro dos Espíritos, que discutirei em detalhes mais abaixo.

[Nota importante em agosto de 2005: O estudioso do kardecismo Sílvio Chibeni refuta essa visão de Canuto de Abreu.
Neste link, Chibeni demonstra que Kardec de facto incluiu na segunda edição do Livro dos Espíritos uma nota anexa aos "Prolegómenos" afirmando que os espíritos revisaram também tal segunda edição minuciosamente.

Essa nota foi retirada a partir das edições posteriores a 1863, contudo é pertinente para tais edições também].

O terceiro momento no qual Kardec agiu, estranhamente, sozinho, foi quando da publicação do livro O Evangelho Segundo o Espiritismo (em 1864), que, até o momento em que ele entregou o material para impressão, ninguém sabia de que assunto tal livro tratava.

É um pouco difícil na verdade identificar se, nos pontos que vou analisar agora, o que teria ocorrido seria um "não uso do método" ou um "mal uso do método".

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Re: Criticando Kardec

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 04, 2014 8:56 pm

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Eu tendo a considerar que houve, sim, uma desconsideração (ou seja, "não uso") do método.

Os dois pontos que vou analisar são, primeiro:
algumas diferenças entre a primeira e a segunda edição do Livro dos Espíritos.

E segundo:
as estranhas diferenças, ou melhor, alterações, no texto assinado como "Jesus de Nazaré" que aparece originalmente no Livro dos Médiuns (de 1861. Capítulo 31, página 458 e 459), e que, posteriormente, em O Evangelho Segundo o Espiritismo (de 1864), aparece com a assinatura "Espírito de Verdade" (página 129).

Para os estudiosos do espiritismo kardecista que queiram tentar obter uma cópia da antiga edição brasileira do Livro dos Espíritos[i] primeira edição (em alguma livraria de livros antigos), inclui abaixo uma foto de frente e lado do mesmo.

A identificação do livro é: O Primeiro Livro dos Espíritos de Allan Kardec, 1857 - Texto em Fac-Simile Versão em Face, Primeiro Centenário, 1957. Tradução de Canuto Abreu. 1a edição. Companhia Editora Ismael. São Paulo. 1957.

Este livro tem as seguintes dimensões: 23 cm de altura, 16 cm de largura, e quase 4 cm de espessura.
Canuto Abreu realizou essa obra (a tradução do livro) em três meses!
Eu não trabalho com tradução, mas me pareceu bem pouco tempo.

Ele terminou suas notas introdutórias com o seguinte, e altamente intrigante, comentário:

"No espaço de tempo entre o pedido oficial de alguns Confrades ([i]O pedido oficial do Conselho Federativo Nacional, do Rio de Janeiro, é datado de 9 de Outubro de 1956, e o da União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo, de 18 do mesmo mês e ano
), este modesto trabalho foi tudo quanto o Tradutor pode preparar para a comemoração do primeiro centenário do Livro dos Espíritos.

Ele espera, entretanto, se Deus o permitir, publicar um segundo volume, relatando a tradição histórica e esotérica do Primeiro Livro dos Espíritos." (grifos meus)

Foto Frente e Lado do Primeiro Livro dos Espíritos
http://www.criticandokardec.com.br/liv_esp_1_ld.jpg http://www.criticandokardec.com.br/liv_esp_1_fr.jpg

De uma forma bem resumida, Canuto Abreu define assim as diferenças do trabalho de Kardec no Livro dos Espíritos primeira edição e no Livro dos Espíritos segunda edição
(O Primeiro Livro dos Espíritos de Allan Kardec, página xxii - Notem que Canuto Abreu nesta secção do livro, intitulada "Notas do Tradutor", faz uma ampla comparação entre a primeira e a segunda edição.

O que eu reproduzo abaixo é um ponto onde ele apresenta um resumo de um modo especial e bem informativo):

"A edição original continha 501 questões principais e várias acessórias.
As edições sucessivas contem 1018 perguntas numeradas e múltiplas aditivas, além de comentários e notas privativas do Mestre."


"Finalmente, a edição de 1857 foi totalmente revista, corrigida e homologada por Espíritos incumbidos por Deus de instituir "a verdadeira religião, a Religião Natural, aquela que emana do coração e sobe directamente a Deus"
(Obras Póstumas, página 332).

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Re: Criticando Kardec

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 05, 2014 9:35 pm

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As demais, a partir de 1860, em mais da metade de seu texto, aprovadas tão somente pelo Missionário que fundou a Filosofia Espírita."
(grifos meus)

Kardec anuncia a segunda edição do Livro dos Espíritos nos seguintes termos (Revista Espírita, março de 1860, página 96):
-O LIVRO DOS ESPÍRITOS.

Segunda edição

INTEIRAMENTE REFUNDIDA E CONSIDERAVELMENTE AUMENTADA.

Aviso sobre esta nova edição.


Na primeira edição desta obra, anunciamos uma parte suplementar.
Ela deveria se compor de todas as perguntas que não encontraram ali lugar, onde as circunstâncias ulteriores e novos estudos deveriam dar nascimento;
mas como são todas elas relativas, há algumas das partes já tratadas e das quais são o desenvolvimento, sua publicação isolada não apresentaria nenhuma continuidade.

Preferimos esperar a reimpressão do livro para fundir todo o conjunto, e nisto aproveitamos para dar, na distribuição das matérias, uma ordem muito mais metódica, ao mesmo tempo que podamos tudo o que tinha duplo emprego.

Esta reimpressão pode, pois, ser considerada como uma obra nova, embora os princípios não hajam sofrido nenhuma mudança, com um número muito pequeno de excepções, que são antes complementos e esclarecimentos que verdadeiras modificações.

Esta conformidade nos princípios emitidos, apesar da diversidade das fontes onde os haurimos, é um facto importante para o estabelecimento da ciência espírita.

Nossa correspondência nos prova mesmo que comunicações em todos os pontos idênticas, se não pela forma ao menos pelo fundo, foram obtidas em diferentes localidades, e isso bem antes da publicação do nosso livro, que veio confirmá-las e dar-lhes um corpo regular.

A história, de seu lado, atesta que a maioria destes princípios foram professados por homens eminentes de tempos antigos e modernos, e vem trazer-lhe sua sanção. (grifos meus)

Alguns pontos, pelo menos, não parecem se enquadrar nessa descrição de Kardec segundo a qual "os princípios não hajam sofrido nenhuma mudança, com um número muito pequeno de excepções, que são antes complementos e esclarecimentos que verdadeiras modificações.".

Apesar de eu não ter realizado um exame exaustivo das diferenças entre a primeira e a segunda edição do Livro dos Espíritos, pude identificar pelo menos três pontos de grande importância doutrinária (pelo menos a meu ver) que sofreram alteração.

Primeiro, na primeira edição do Livro dos Espíritos era dito que (com minhas palavras):
a alma do homem, em suas encarnações anteriores e cada vez menos evoluídas, nunca encarnou em animais;
ou seja, nossa alma não provem da evolução da alma de "seres inferiores" da criação
(animais, vegetais, etc.).

As diversas espécies animais possuem algo que pode ser chamado de alma, e que de facto progride, mas sempre dentro de suas próprias espécies, e progredindo somente até um determinado ponto, nunca chegando ao nível do homem (moral ou intelectual).

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Re: Criticando Kardec

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