Criticando Kardec

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Re: Criticando Kardec

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 05, 2014 9:35 pm

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Na segunda edição, as coisas já são bem diferentes:
o princípio espiritual passa pelas encarnações nos seres inferiores da criação progressivamente até atingir a humanidade.

Não há mais a ideia das várias "estirpes" de alma, mas sim uma unidade em toda a natureza.

Pode-se perceber pelas perguntas da primeira edição do Livro dos Espíritos, de 1857, que Kardec já parecia "forçar a barra" para que a alma dos animais fosse a precursora da alma do homem.

Um dado curioso é que a "Hipótese da Evolução Espiritual Ascendendo pelos Diversos Filos dos Organismos Vivos" de Kardec corre de certo modo em paralelo com a visão evolutiva material (ou materialista) de Darwin.

Dentre as diversas doutrinas reencarnacionistas, a doutrina kardecista parece ser a única que postula isso, ou pelo menos ter sido talvez uma dos primeiras a postular isso, ou talvez ter sido "a origem" de tal versão do reencarnacionismo.

Pelo menos se aceitarmos as informações do filósofo inglês Paul Edwards, conforme expresso em seu livro "Reincarnation: a Critical Examination" (de 1996).

Segundo Edwards (página 225):
"Reencarnacionistas que defendem essa versão do reencarnacionismo não dizem que a sequência de corpos nos quais a alma encarna é em qualquer modo paralelo à sequência postulada pelos evolucionistas.

Um ser humano, como vimos, pode se transformar em um cachorro ou em um mosquito, e, por outro lado, a alma pode ter recentemente estado em um corpo de um pássaro ou de um castor."


É necessário dizer, contudo, que Edwards é um pseudo-céptico cujos trabalhos apresentam uma qualidade duvidosa.

Curiosamente, um pouco mais à frente nesse mesmo livro de Edwards (página 234), ele menciona o livro de Léon Denis, O Problema do Ser, do Destino e da Dor (de 1922).

Nesse livro, Léon Denis de facto fala (naturalmente, haja vista que ele é um dos continuadores da obra de Kardec) justamente dessa versão do reencarnacionismo que o "filósofo" Edwards alega não existir (página 166 do livro de Denis):

"Estas são as almas jovens, emanadas há menos tempo do Foco Eterno, foco inextinguível que despende sem cessar feixes de Inteligências que descem aos mundos da matéria para animarem as formas rudimentares da vida.

Chegadas à humanidade, tomarão lugar entre os povos selvagens e as raças bárbaras que povoam os continentes atrasados, as regiões deserdadas do Globo.

E, quando, afinal, penetrarem em nossas civilizações, ainda facilmente se deixam reconhecer pela falta de desembaraço, de jeito, pela sua incapacidade para todas as coisas e, principalmente, pelas suas paixões violentas, pelos seus gostos sanguinários, às vezes até pela sua ferocidade;
mas, essas almas ainda não desenvolvidas subirão por sua vez a escala das graduações infinitas por meio de reencarnações inúmeras."


De qualquer maneira, a opinião de Edwards parece indicar que há muito poucas versões do reencarnacionismo que postulam que as reencarnações seguem em paralelo à linha de desenvolvimento da espécie humana através dos filos vivos.

Talvez a versão kardecista tenha sido a primeira, ou mesmo a única.

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Re: Criticando Kardec

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 05, 2014 9:35 pm

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Então, em sessões espíritas provavelmente ao longo do ano de 1856 (já que o Livro dos Espíritos tem sua primeira edição em abril de 1857), Kardec aparentemente (e possivelmente) "força a barra" para que a alma dos animais evolua para a do homem, publicando em 1857 um livro onde isso não é aceite (aliás, categoricamente!), mas que já consagra a não possibilidade da "retrogradação".

Em 1858, Wallace faz contacto com Darwin, e Darwin resolve apressar o lançamento do seu clássico livro A Origem das Espécies, agora com co-autoria de Wallace.

Em 1859, é lançada a Origem das Espécies na Inglaterra.
Em 1860, Kardec lança a segunda edição do Livro dos Espíritos, com uma visão "espiritual" paralela à visão "material" de Darwin e Wallace.

Wallace era espírita, ou passou a ser mais tarde, mas não creio que Kardec tenha sido influenciado por esses eventos na Inglaterra, e Darwin foi mesmo rejeitado em suas ideias por algum tempo.

Isso tudo parece ou uma curiosa coincidência, ou um facto muito estranho de difícil explicação (eu não descartaria a possibilidade de haver algo de "sobrenatural" aí...).

De qualquer maneira, é importante lembrar que a ideia da origem das espécies através da "evolução" de espécies "inferiores" (ou melhor dizendo, "anteriores") já rondava as sociedades europeias há algumas décadas, ainda que de modo bem precário
(conforme relatado pelo evolucionista Douglas J. Futuyma em seu livro Biologia Evolutiva, capítulo um: A Origem e Impacto do Pensamento Evolutivo).

O mais estranho, contudo, nessa questão da evolução anímica dos animais é que na Revista Espírita nos anos de 1864 e 1865 Kardec incluiu artigos dizendo claramente que a questão não estava ainda resolvida!

Na edição de março de 1864 (artigo: Da Perfeição dos Seres Criados, páginas 65 a 72), Kardec afirma:

"A questão dos animais pede alguns desenvolvimentos.
Eles têm um princípio inteligente, isto é incontestável.

De que natureza é esse princípio?
Que relações tem com o do homem?
É estacionário em cada espécie, ou progressivo passando de uma espécie à outra?

Qual é para ele o limite do progresso?
Caminha paralelamente ao homem, ou bem é o mesmo princípio que se elabora e ensaia a vida nas espécies inferiores, para receber mais tarde novas faculdades e sofrer a transformação humana?

São tantas questões que ficaram insolúveis até este dia, e se o véu que cobre esse mistério não foi ainda levantado pelos Espíritos, é que isso teria sido prematuro:
o homem não está ainda maduro para receber tanta luz.

Vários Espíritos deram, isto é verdade, teorias a esse respeito, mas nenhuma tem um carácter bastante autêntico para ser aceita como verdade definitiva;
não se podem, pois, considerá-las, até nova ordem, senão como sistemas individuais.

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Re: Criticando Kardec

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 06, 2014 10:04 pm

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Só a concordância pode dar-lhes uma consagração, porque aí está o único e verdadeiro controlo do ensino dos Espíritos."
(grifos meus)

E com relação ao ano seguinte, em 1865, é interessante reproduzir um trecho do artigo "Manifestação do Espírito dos Animais", da secção "Perguntas e Problemas" (maio de 1865, páginas 129 a 134):

"Até o presente, a ciência não fez senão constatar as relações fisiológicas entre o homem e os animais;
ela nos mostra, no físico, todos os animais da cadeia dos seres sem solução de continuidade; mas entre o princípio espiritual dos dois Espíritos existia um abismo;
se os factos psicológicos, melhor observados, vêm lançar um ponto sobre esse abismo, isso será um novo passo de facto para a unidade da escala dos seres e da criação.

Não é pelos sistemas que se pode resolver esta grave questão, é pelos factos;
se ela deverá sê-lo um dia, o Espiritismo, criando a psicologia experimental, só ele poderá fornecer-lhe os meios.

Em todos os casos, se existem pontos de contacto entre a alma animal e a alma humana, isso não pode ser, do lado da primeira, senão da parte dos animais mais avançados.

Um facto importante a constatar é que, entre os seres do mundo espiritual, jamais foi feita menção de que existam Espíritos de animais.

Pareceria disso resultar que estes não conservam a sua individualidade depois da morte, e, de um outro lado, essa cadelinha que teria se manifestado, pareceria provar o contrário."

"Vê-se, segundo isto, que a questão está ainda pouco avançada, e não é preciso se apressar em resolvê-la.
Tendo sido lida a carta acima à Sociedade de Paris, a comunicação seguinte foi dada a este respeito."

(Segue-se abaixo, a mensagem mediúnica recebida em Paris, 21 de abril de 1865. - Médium, Sr. E. Vézy.)

"Vou tocar uma grave questão esta noite, falando-vos das relações que podem existir entre a animalidade e a humanidade.

Mas neste recinto, quando, pela primeira vez, minhas instruções vos ensinaram a solidariedade de todas as existências e as afinidades que existem entre elas, um murmúrio se elevou numa parte desta assembleia, e eu me calei.

Deveria fazer o mesmo hoje, apesar de vossas perguntas?
Não, uma vez que vais entrar no caminho que eu vos indiquei."

"Mas tudo não se detém em crer somente no progresso incessante do Espírito, embrião na matéria e se desenvolvendo ao passar pelo exame severo do mineral, do vegetal, do animal, para chegar à humanimalidade, onde somente começa a se ensaiar a alma que se encarnará, orgulhosa de sua tarefa, na humanidade.

Existem entre essas diferentes fases laços importantes que é necessário conhecer e que eu chamarei períodos intermediários ou latentes;
porque é aí que se operam as transformações sucessivas.

Falar-vos-ei mais tarde dos laços que ligam o mineral ao vegetal, o vegetal ao animal;
uma vez que um fenómeno que vos espanta nos leva aos laços que ligam o animal ao homem, vou vos entreter com estes últimos."
(grifos meus)

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Re: Criticando Kardec

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 06, 2014 10:06 pm

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É bastante estranho, à luz de todos esses factos, que já em 1860 na segunda edição do Livro dos Espíritos exista uma indicação tão clara e tão resolvida no sentido da alma humana ter sua origem na evolução das almas de seres "inferiores" da criação.

Isso definitivamente não parece compatível com o método da "sanção universal através de comunicações obtidas por diversos 'espíritos', diversos médiuns, em diversos locais, e em diferentes épocas".

Parece mais uma "forçação de barra" de Kardec, primeiro divulgando e ensinando fartamente uma "doutrina", para só depois indagar a uma comunidade relativamente restrita e relacionada entre si (e leitora dos trabalhos de Kardec) a respeito de tal questão doutrinária.

Correcção importante: na verdade, Kardec comenta na segunda e definitiva edição do Livro dos Espíritos, de 1860, que há divergências entre a opinião dos espíritos com relação a se a alma humana provém da dos animais ou não
Capítulo XI, Dos Três Reinos. Perguntas de 585 a 613, seguidas de comentário de 6 parágrafos).

Contudo, ele faz isso apenas nos comentários após a sequência de perguntas-respostas sobre o assunto.
Nas perguntas-respostas, Kardec parece claramente conduzir a lógica do diálogo para a opinião de que a alma humana procede da dos animais.

E é apresentada apenas essa visão.
Nos comentários, ele expõe em detalhes a divergência;
mas com relação à ideia dos animais possuírem uma separação anímica completa dos humanos, ele diz que tal ideia "...é mais conforme à dignidade do homem...".

Ou seja, ele me parece assinalar, indirectamente, que a ideia da alma humana provir da dos animais é mais lógica e justa, ao passo que a ideia concorrente atende quase que meramente aos caprichos egocêntricos do ser humano.

Kardec frisa ainda o aspecto secundário de toda essa questão.

Minha impressão actual é que nessa questão da origem da alma humana, ou do destino da alma animal, Kardec posicionou-se de modo bem mais cientificamente claro e coerente do que eu havia anteriormente escrito nesse meu texto.

De qualquer maneira, continuo achando que os comentários que fiz e trechos que incluí sobre isso aqui são relevantes para a discussão do quanto Kardec mostrava ou não da sua aplicação do método da sanção universal.

Não sabemos, por exemplo, quantos e quais espíritos em 1860 (segunda e definitiva edição do Livro dos Espíritos) endossavam a ideia de que a alma humana provém da dos animais.

E, ao mesmo tempo, sabemos que mesmo em 1857 (primeira edição do Livro dos Espíritos) Kardec já parecia claramente "forçar a barra" para que os "espíritos" assumissem tal ideia, apesar de nenhum a endossar nessa época.

A meu ver, o saldo final disso continua sendo um enfraquecimento da validade do procedimento investigativo de Kardec.

Corrigindo a "Correcção Importante" acima...:
surpreendentemente, Kardec na verdade só incluiu os comentários sobre os espíritos que advogavam que a linhagem espiritual humana não seria proveniente da linhagem espiritual dos animais na quarta edição do Livro dos Espíritos! (ainda em 1860).

Ou seja, tanto na segunda edição, de 1860, quando na terceira edição, também de 1860, o trecho pertinente que fala sobre a origem da alma humana saiu totalmente sem comentários a respeito da visão que havia sido anteriormente divulgada na primeira edição de 1857, segundo a qual a alma humana não seria proveniente da alma dos animais.

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Re: Criticando Kardec

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 06, 2014 10:06 pm

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Vide comentários de Kardec após a questão 613.
Até a terceira edição do Livro dos Espíritos, os comentários após a questão 613 continham apenas um parágrafo.

Somente a partir da quarta edição é que apareceram os parágrafos 2, 3, 4, e 5, iniciando o parágrafo 2 por "O ponto de partida do Espírito é uma dessas questões que se ligam ao princípio das coisas"...

Ou seja, Kardec, na segunda e terceira edição do Livro dos Espíritos, divulgou versão totalmente diferente do que constava (sobre um tema bem importante) na primeira edição do Livro dos Espíritos, sem esclarecer como e porque tal mudança se deu!

Além de tal alteração, é também interessante que a partir da décima edição do Livro dos Espíritos (1863), Kardec não mais incluiu a nota em Prolegómenos que dizia que a obra sofrera revisão minuciosa dos Espíritos.

Igualmente, na quinta edição (1861), ele retirou da resposta da questão 586 a parte onde os Espíritos diziam que as plantas têm vida intuitiva também (até então era mantida a resposta dos Espíritos segundo a qual as plantas não pensam, só tendo a vida orgânica e intuitiva).

- Vide versão comemorativa dos 150 anos do Livro dos Espíritos editada pela FEB em 2006, tradução de Evandro Noleto Bezerra, contendo todas as alterações efectuadas por Kardec nas diversas edições do Livro dos Espíritos ao longo de sua vida.

[i]Um segundo ponto alterado foi o que definia em que momento se dá a união da alma ao corpo.
Na primeira edição, tal união se dava no nascimento!
Na segunda, ela se dava na concepção, e ia se fortalecendo até o ponto máximo no momento do nascimento.


Esse pode parecer, à primeira vista, um ponto não muito importante, mas se levarmos em consideração o impacto social dessas diferentes visões para questões como "aborto" e "uso de embriões humanos para pesquisas biológicas", percebe-se que na verdade se trata de uma questão de altíssima importância humana.

O terceiro ponto onde percebi alteração foi na afirmação, na primeira edição, de que há, pelo menos às vezes, "predisposição física (cerebral, presumivelmente) para o assassinato" e (consequentemente) para as demais inclinações cruéis do ser humano.

Na segunda edição, tal predisposição física já não existe mais, havendo apenas as predisposições do espírito...

Isso possui gravíssimas consequências para a milenar discussão sobre a dualidade mente-corpo, sobre os limites e potencialidades do "livre-arbítrio", e também, consequentemente, sobre a importantíssima questão ético-teológica da "culpabilidade ou mérito pelos aptos praticados".

Não há simplesmente meios de saber "como" e "por quê" tais alterações foram efectuadas na segunda edição do Livro dos Espíritos (em 1860).

Do mesmo modo que em uma eleição onde os votos não tenham sido mostrados (e talvez nem mesmo devidamente contabilizados), temos apenas o resultado final, nem mais lógico, nem menos lógico do que o que havia anteriormente.

Apenas, diferente, e mais de acordo com algumas das correntes de pensamento que sopravam naquela época, naquelas sociedades europeias de então.

Na melhor das hipóteses, se existirem de fato espíritos (e eu espero, sinceramente, que existam), e se Kardec tiver sido de facto inspirado "pelo Alto", então talvez as mudanças sejam uma descrição mais correcta do Universo (tanto material como espiritual) do que as descrições constantes da primeira edição do Livro dos Espíritos.

Mas, em termos científicos, aparentemente não temos muitas condições, pelo menos no momento, de saber se isso é deste modo ou não.

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Re: Criticando Kardec

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 07, 2014 9:44 pm

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Antes de passar a uma análise das estranhas alterações efectuadas no texto que havia sido assinado como "Jesus de Nazaré", incluo nos três quadros abaixo os textos que exemplificam o que expus acima.

Incluí também os originais em francês com relação ao Livro dos Espíritos primeira edição.

Todos os trechos destes quadros abaixo relativos à primeira edição do Livro dos Espíritos foram extraídos do Primeiro Livro dos Espíritos de Allan Kardec, tradução de Canuto Abreu, 1957.

Os trechos relativos à segunda edição foram retirados da versão actual do Livro dos Espíritos (FEB), e checados junto à versão francesa original do Livro dos Espíritos segunda edição (segunda impressão da segunda edição, 1860), disponível na internet no endereço: http://perso.wanadoo.fr/charles.kempf/le.htm, e também em arquivo pdf no endereço: http://perso.wanadoo.fr/charles.kempf/Livres/LE6.pdf

Origem Evolutiva do Espírito do Homem

Textos que constam do Resumo da Doutrina na Introdução do Livro dos Espíritos:

Livro dos Espíritos, primeira edição (1857).
Introdução: Fundamentos da Doutrina Espírita
- Espírito do Homem NÃO Procedendo dos espíritos dos animais.

"Em meio às diferentes espécies de seres corporais, Deus escolheu a humana para encarnação dos Espíritos;
é o que dá à espécie humana superioridade moral e intelectual sobre todas as outras."
(pág. 10)

"Parmi les différentes espèces d'êtres corporels, Dieu a choisi l'espèce humaine pour l'incarnation des esprits, c'est ce qui lui donne la supériorité morale et intellectuelle sur toutes les autres. (pág. 10)

"A encarnação dos Espíritos dá-se invariavelmente na espécie humana;
seria grave erro supor que a alma humana ou Espírito se possa encarnar no corpo duma alimária."
(pág. 11)

"L'incarnation des esprits a toujours lieu dans l'espèce humaine; ce serait une erreur de croire que l'âme ou esprit peut s'incarner dans le corps d'un animal." (pág. 11)

Livro dos Espíritos, segunda edição (1860).
Introdução: Fundamentos da Doutrina Espírita.
- Espírito do Homem Procedendo dos espíritos dos animais.

"Entre as diferentes espécies de seres corpóreo, Deus escolheu a espécie humana "para a encarnação dos Espíritos que chegaram a certo grau de desenvolvimento, dando-lhe superioridade moral e intelectual sobre as outras."(Ag 23)

"A encarnação dos Espíritos se dá sempre na espécie humana;
seria erro acreditar-se que a alma ou Espírito possa encarnar no corpo de um animal."
(Ag 25)
________________________________________________

Textos que constam do corpo do Livro dos Espíritos, aparecendo nas respostas às diversas questões ao longo do livro:

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Re: Criticando Kardec

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 07, 2014 9:46 pm

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Livro dos Espíritos primeira edição (1857), página 65, questão 127
(alma do homem Não se Originando da alma dos animais):

- A alma do Homem não teria sido primitivamente o Princípio Vital de ínfimos seres vivos da Biocriação, que chegou, ex-vi de lei progressiva, até o ser humano, percorrendo os diversos graus da escala orgânica?

- Não! Não! Os Espíritos, homens somos desde natos.
Cada ser vivo só progride na sua espécie e em sua essência.
O Homem não foi jamais outro ser senão homo.

Comentário de Kardec:
Seja qual for a diversidade das existências por que passe o nosso espírito ou nossa alma, elas pertencem todas à espécie humana;
seria um erro supor que, ex-vi duma lei progressiva, o Homem haja passado pelos diferentes graus da escala orgânica para chegar a seu estado actual.

Assim, sua alma não foi inicialmente o Principio Vital de ínfimos seres vivos da Biocriação que chegou sucessivamente ao grau superior: Ao Homem.

- L'âme de l'homme n'aurait-elle point été d'abord le principe de vie des derniers êtres vivants de la création pour arriver, par une loi progressive, jusqu'à l'homme en parcourant les divers degrés de l'échelle organique?

- Non! non! hommes nous sommes nés. Chaque chose progressé dans son espèce et dans son essence: l'homme n'a jamais été autre chose qu'un homme.


Comentário de Kardec:
Quelle que soit la diversité des existences par lesquelles passe notre esprit ou notre âme, elles appartiennent toutes à l'humanité; ce serait une erreur de croire que, par une loi progressive, l'homme a passé par les différents degrés de l'échelle organique pour arriver à son état actuel. Ainsi son âme n'a point été d'abord le principe de vie des derniers êtres animés de la création pour arriver successivement au degré supérieur : à l'homme.

Livro dos Espíritos primeira edição (1857), página 140, questão 437
(alma do homem Não se Originando da alma dos animais):

- Uma vez que os animais têm a inteligência que lhes proporciona certa liberdade de acção, existirá neles um princípio independente do corpo?
- Sim, e que sobrevive ao corpo.

- Esse princípio conserva sua individualidade?
- Sim.

- Esse princípio é uma alma semelhante à do Homem?
- Não; a alma humana é um Espírito encarnado;
ele será para os animais também uma alma, se quiserdes, isso depende do sentido que se der ao termo;
mas será sempre uma alma inferior à do Homem.
Existe entre a alma dos animais e a do Homem tão grande distância quanto entre a alma do Homem e Deus

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Re: Criticando Kardec

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 07, 2014 9:47 pm

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- Os animais seguem também uma lei progressiva como os homens?
- Sim, razão pela qual em os Mundos superiores onde os homens estão mais aperfeiçoados, os animais o são também, mas sempre inferiores e submissos a o Homem.

- Nos Mundos superiores também os animais conhecem a deus?
- Não, o Homem é uma Divindade para eles.

- Os animais seriam, acaso, encarnação duma ordem inferior de Espíritos que constitui no Mundo Espírita categoria à parte?
- Sim, e eles não podem exceder a um certo grau de perfeição.

- Os animais também progridem, assim como o Homem, pela virtude da própria vontade, ou pela força das coisas?
- Pela força das coisas; eis por que não há absolutamente para eles expiação.

- Puisque les animaux ont une intelligence qui leur donne une certaine liberté d'action, y a-t il en eux un principe indépendant de la matière?
- Oui, et qui survit au corps.

- Ce principe conserve-t-il son individualilé?
- Oui.

- Ce principe est-il une âme semblable à celle de l'homme?
- Non; l'âme de l'homme est un esprit incarné; pour les animaux c'est aussi une âme, si vous voulez, cela dépend du sens que l'on attache à ce mot; mais elle est toujours inférieure à celle de l'homme. Il y a entre l'âme des animaux et celle de l'homme autant de distance qu'entre l'âme de l'homme et Dieu.

- Les animaux suivent-ils une loi progressive comme les hommes?
- Oui, c'est pourquoi dans les mondes supérieurs où les hommes sont plus perfectionnés, les animaux le sont aussi, mais toujours inférieurs et soumis a l'homme.

- Dans les mondes supérieurs les animaux connaissent-ils Dieu?
- Non, l'homme est un Dieu pour eux.

- Les animaux seraient-ils l'incarnation d'un ordre d'esprits inférieurs formant dans le monde spirite une catégorie à part?
- Oui, et qui ne peuvent dépasser un certain degré de perfection.

- Les animaux progressent-ils comme l'homme, par le fait de leur volonté, ou par la force des choses?
- Par la force des choses; c'est pourquoi il n'y a point pour eux d'expiation.


Livro dos Espíritos segunda edição (1860), página 299, questão 607
(alma do homem Se Originando da alma dos animais):

Dissestes (190) que o estado da alma do homem, na sua origem, corresponde ao estado da infância na vida corporal, que sua inteligência apenas desabrocha e se ensaia para a vida.
Onde passa o Espírito essa primeira fase do seu desenvolvimento?


"Numa série de existências que precedem o período a que chamais Humanidade."

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Re: Criticando Kardec

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 08, 2014 10:56 pm

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a) - Parece que, assim, se pode considerar a alma como tendo sido o princípio inteligente dos seres inferiores da criação, não?

"Já não dissemos que todo em a Natureza se encadeia e tende para a unidade?
Nesses seres, cuja totalidade estais longe de conhecer, é que o princípio inteligente se elabora, se individualiza pouco a pouco e se ensaia para a vida, conforme acabamos de dizer.

É, de certo modo, um trabalho preparatório, como o da germinação, por efeito do qual o princípio inteligente sofre uma transformação e se torna Espírito.

Entra então no período da humanização, começando a ter consciência do seu futuro, capacidade de distinguir o bem do mal e a responsabilidade dos seus aptos.

Assim, à fase da infância se segue a da adolescência, vindo depois a da juventude e da madureza.
Nessa origem, coisa alguma há de humilhante para o homem.

Sentir-se-ão humilhados os grandes génios por terem sido fetos informes nas entranhas que os geraram?
Se alguma coisa há que lhe seja humilhante, é a sua inferioridade perante Deus e sua impotência para lhe sondar a profundeza dos desígnios e para apreciar a sabedoria das leis que regem a harmonia do Universo.

Reconhecei a grandeza de Deus nessa admirável harmonia, mediante a qual tudo é solidário na Natureza.

Acreditar que Deus haja feito, seja o que for, sem um fim, e criado seres inteligentes sem futuro, fora blasfemar da Sua bondade, que se estende por sobre todas as suas criaturas."

Momento da União da Alma ao Corpo

Livro dos Espíritos
primeira edição (1857), página 55, questão 86:

- Em que momento a alma se une ao corpo?
- Ao nascimento.

- Antes do nascimento a criança tem uma alma?
- Não.

- Como vive então?
- Como as plantas.

Comentário de Kardec:
A alma ou espírito se une ao corpo no momento em que a criança vê a luz e respira.
Antes do nascimento a criança só tem vida orgânica sem alma.
Ela vive como as plantas, tendo apenas o instinto cego de conservação, comum em todos os seres vivos.

- A quelle époque l'âme s'unit-elle au corps?
- A la naissance.

- Avant sa naissance l'enfant a-t-il une âme?
- Non.

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Re: Criticando Kardec

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 08, 2014 10:57 pm

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- Comment vit-il?
- Comme les plantes.

Comentário de Kardec:
L'âme, ou l'esprit, s'unit au corps au moment où l'enfant voit le jour et respire. Avant sa naissance l'enfant n'a que la vie organique sans âme. Il vit comme les plantes, n'ayant que l'instinct aveugle de conservation commun à tous les êtres vivants.


Livro dos Espíritos primeira edição (1857), página 59, questão 104:

- A alma é um ser independente do Princípio Vital?
- Sim, o corpo vivo é apenas envoltório; repetimo-lo sem cansar.

- O corpo vivo pode viver sem alma?
- Sim; e, não obstante, desde que o corpo cessa de viver, a alma o deixa.

Antes de nascer o corpo, a alma não está nele;
não há ainda união de alma e corpo;
no entanto, depois que a união é formada, a morte do corpo rompe os liames que o prendiam à alma e o Espírito o abandona.


Comentário de Kardec:
A alma é ser independente do Princípio Vital.

Antes de nascer, o corpo pode viver sem alma, pela razão de não ter ainda havido união entre a alma e o corpo;
mas depois que esta união fica formada, a alma deixa o corpo desde que este cesse de viver, visto como então os liames que existiam entre alma e corpo ficam rompidos.

A vida orgânica pode mover um corpo sem alma, todavia a alma não pode habitar um corpo sem vida orgânica.

- L'âme est-elle indépendante du principe vital?
- Oui, le corps n'est que l'enveloppe; nous le répétons sans cesse.

- Le corps peut-il exister sans l'âme?
- Oui ; et pourtant dès que le corps cesse de vivre, l'âme le quitte. Avant la naissance, l'âme n'y est pas encore ; il n'y a pas union entre l'âme et le corps ; tandis qu'après que cette union a été établie, la mort du corps rompt les liens qui l'unissent à l'âme, et l'âme le quitte.

Comentário de Kardec:
L'âme est indépendante du principe vital. Avant la naissance, le corps peut vivre sans âme, parce qu'il n'y a point encore eu d'union entre l'âme et le corps ; mais après que cette union s'est établie, l'âme quitte le corps dès que celui-ci cesse de vivre, parce qu'alors les liens qui existaient entre l'âme et le corps sont rompus. La vie organique peut animer un corps sons âme, mais l'âme ne peut habiter un corps privé de la vie organique.


Livro dos Espíritos segunda edição (1860), páginas 199 e 201, questões 344, 353, e 354:

344. Em que momento a alma se une ao corpo?
"A união começa na concepção, mas só é completa por ocasião do nascimento.

Desde o instante da concepção, o Espírito designado para habitar certo corpo a este se liga por um laço fluídico, que cada vez mais se vai apertando até ao instante em que a criança vê a luz.

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Re: Criticando Kardec

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 08, 2014 10:59 pm

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O grito, que o recém-nascido solta, anuncia que ela se conta no número dos vivos e dos servos de Deus."

353. Não sendo completa a união do Espírito ao corpo, não estando definitivamente consumada, senão depois do nascimento, poder-se-á considerar o feto como dotado de alma?
"O Espírito que o vai animar existe, de certo modo, fora dele.

O feto não tem pois, propriamente falando, uma alma, visto que a encarnação está apenas em via de operar-se.
Acha-se, entretanto, ligado à alma que virá a possuir."

354. Como se explica a vida intra-uterina?
"É a da planta que vegeta.
A criança vive vida animal.

O homem tem a vida vegetal e a vida animal que, pelo seu nascimento, se completam com a vida espiritual."

Predisposição Orgânica Para o Mal e Para o Assassinato.

Livro dos Espíritos
primeira edição (1857), página 140, questão 433:

- O Homem traz consigo ao nascer, por sua organização física, a predisposição para tais ou quais aptos?
- Sim.

- A predisposição natural que traz o Homem para certos aptos lhe tira seu livre arbítrio?
- Não, pois foi ele mesmo quem pediu para ter esta ou aquela predisposição. Se pediste para ter as disposições do assassínio, foi para teres que lutar contra esta propensão.

- Pode o Homem sobrepujar todas as suas tendências, por mais fortes que sejam?
- Sim, querer é poder.

Comentário de Kardec:
A organização física do ser humano o predispõe a tais ou quais aptos aos quais é impelido por uma força por assim dizer instintiva.

Este pendor natural, se o conduzir ao Mal, poderá tornar-lhe o Bem mais difícil, não porém lhe tira a liberdade de fazer ou deixar de fazer.

Com uma firme vontade e a Ajuda de Deus, se ele rezar com fervor e sinceridade, não haverá propensão que ele não possa sobrepujar, por mais veemente que ela seja.

O Homem não poderia pois buscar uma excusa em sua organização sem abdicar a sua razão e a condição de ente humano, para se assemelhar à Alimária.

- L'homme apporte-t-il en naissant, par son organisation, une prédisposition à tels ou tels actes?
- Oui.

- La prédisposition nalurelle qui porte l'homme à certains actes lui ôle-t-elle son libre arbitre?
- Non, puisque c'est lui qui a demandé à avoir telle ou telle prédisposition. Si tu as demandé à avoir les dispositions du meurtre, c'est afin d'avoir a combattre contre celle propension.

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Re: Criticando Kardec

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 09, 2014 9:32 pm

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- L'homme peut-il surmonter tous ses penchants, quelque véhéments qu'ils soient?
- Oui, vouloir c'est pouvoir.

Comentário de Kardec:
L'organisation physique de l'homme le prédispose à tels ou tels actes auxquels il est poussé par une force pour ainsi dire instinctive. Cette propension naturelle, si elle le porte au mal, peut lui rendre le bien plus difficile, mais ne lui ôte pas la liberté de faire ou de ne pas faire. Avec une ferme volonté et l'aide de Dieu, s'il le prie avec ferveur et sincérité, il n'est point de penchant qu'il ne puisse surmonter, quelque véhéments qu'ils soient. L'homme ne saurait donc chercher une excuse dans son organisation sans abdiquer sa raison et sa condition d'être humain, pour s'assimiler à la brute.


Livro dos Espíritos segunda edição (1860), página 388, questão 845:

- Não constituem obstáculos ao exercício do livre-arbítrio as predisposições instintivas que o homem já traz consigo ao nascer?
"As predisposições instintivas são as do Espírito antes de encarnar.

Conforme seja este mais ou menos adiantado, elas podem arrastá-las à prática de aptos repreensíveis, no que será secundado pelos Espíritos que simpatizam com essas disposições.

Não há, porém, arrastamento irresistível, uma vez que se tenha a vontade de resistir.
Lembrai-vos de que querer é poder."

Livro dos Espíritos segunda edição, página 203, questão 361:

- Qual a origem das qualidades morais, boas ou más, do homem?
"São as do Espírito nele encarnado. Quanto mais puro é esse Espírito, tanto mais propenso ao bem é o homem."

a) - Seguir-se-á daí que o homem de bem é a encarnação de um bom Espírito e o homem vicioso a de um Espírito mau?
"Sim, mas, diz antes que o homem vicioso é a encarnação de um Espírito imperfeito, pois, do contrário, poderias fazer crer na existência de Espíritos sempre maus, a que chamais demónios."

Como resultado de todas as alterações efectuadas, o frontispício do Livro dos Espíritos também mudou na segunda edição:
- FILOSOFIA ESPIRITUALISTA

O Livro dos Espíritos contendo Os Princípios da Doutrina Espírita sobre a imortalidade da alma, a natureza dos espíritos, e suas relações com os homens;
as leis morais, a vida presente, a vida futura, e o porvir da humanidade;
segundo o ensinamento dado pelos Espíritos superiores com ajuda de diversos médiuns, recolhidos e coordenados

Por Allan Kardec.

A "Verdade" sobre o "Espírito de Verdade":

Há no Livro dos Médiuns, no capítulo XXXI (Dissertações Espíritas), uma mensagem provavelmente obtida por psicografia directa (na secção Dissertações Acerca do Espiritismo) que foi publicada sem assinatura, mas que teria sido, segundo Kardec, originalmente assinada com o nome "Jesus de Nazaré"
(comunicação número IX, página 458).

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Re: Criticando Kardec

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 09, 2014 9:32 pm

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Kardec acrescenta uma nota logo após essa comunicação, dizendo:

"Esta comunicação, obtida por um dos melhores médiuns da Sociedade Espírita de Paris, foi assinada com um nome que o respeito nos não permite reproduzir, senão sob todas as reservas, tão grande seria o insigne favor da sua autenticidade e porque dele se há muitas vezes abusado demais, em comunicações evidentemente apócrifas.
Esse nome é o de Jesus de Nazaré."
(grifos meus)

Kardec discorre ainda, com boa profundidade, sobre a cautela que é necessária em situações como essas envolvendo nomes de espíritos de altíssima elevação, etc.

Na edição do Livro dos Médiuns publicada pela Livraria Allan Kardec Editora (LAKE), logo após a nota de Kardec aparece um comentário do tradutor, José Herculano Pires, um espírita brasileiro de grande renome.

O comentário dele, na íntegra, é o seguinte (página 408):

"Esta comunicação aparece, um pouco modificada, no cap. VI de O Evangelho Segundo o Espiritismo com a assinatura de Espírito da Verdade, datada de Paris, 1861.

Sabendo-se que Kardec não tomava decisões dessa importância por seu próprio arbítrio, e que poderia ter deixado de incluir ali essa comunicação, é evidente que a assinatura primitiva deve ter sido corrigida pelo próprio Espírito comunicante, como sempre acontece quando a imaginação do médium interfere nos ditados.

No caso, o conteúdo da mensagem é realmente de valor.
Note-se o cuidado seguido por Kardec e por ele recomendado, mas até hoje pouco seguido, no tocante às comunicações assinadas por nomes venerados.
É conveniente ler e reler as suas comunicações acima.

(Nota do Tradutor)". (grifos meus)

Esse evento é um episódio muito curioso, que percebi pela primeira vez em fins de 1998 (foi justamente o comentário acima de Herculano Pires que me despertou para esse facto).

Eu diria mesmo que é o episódio mais intrigante que já encontrei em toda minha leitura de obras kardecistas, e, com toda a sinceridade, até agora (ano de 2003) não consegui realmente entender o que tal episódio pode significar para a credibilidade da obra e dos procedimentos de Kardec.

Herculano Pires diz:
"...um pouco modificada...".

Tal afirmação trata-se na verdade de um enorme eufemismo.
As modificações foram numerosas, bastante significativas, e muito estranhas, para não dizer suspeitas.

Herculano comenta ainda que, no Evangelho Segundo o Espiritismo, tal comunicação está datada como Paris, 1861 (aliás, ano da publicação da primeira edição do Livro dos Médiuns).

Mas nas edições a que tive acesso, a data que consta é de 1860, tanto na terceira e "definitiva" edição do Evangelho Segundo o Espiritismo, de 1866, como na primeira edição do Evangelho Segundo o Espiritismo, de 1864, (página 86 da cópia do original em francês publicado pela FEB.

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Re: Criticando Kardec

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 09, 2014 9:33 pm

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Esta primeira edição tinha o nome de Imitation de L'Évangile Selon le Spiritisme, cuja tradução correcta parece ser "Prática do Evangelho Segundo o Espiritismo").

Como uma alteração dessa monta, envolvendo uma entidade tão importante (assumindo que havia pelo menos a "possibilidade" que de facto se tratasse de Jesus de Nazaré) pode se dar?

Isso é uma questão de gravíssima importância para sabermos como Kardec (ou colaboradores, "encarnados" ou não) manuseava as comunicações espíritas com as quais ele tinha contacto, e como ele informava ou não sobre os motivos e critérios para tais manuseamentos.

E, consequentemente, para que possamos construir um conhecimento crítico a respeito da confiabilidade de tais manuseamentos de Kardec.

Herculano Pires afirma:
"é evidente que a assinatura primitiva deve ter sido corrigida pelo próprio Espírito comunicante, como sempre acontece quando a imaginação do médium interfere nos ditados.".

Discordo de Herculano com relação a essa frase em alguns pontos.

Primeiro, acho um pouco exagerado dizer que sempre que a imaginação do médium interfere indevidamente, o espírito posteriormente corrige a assinatura (e talvez o conteúdo também?).

Depois, a assinatura pode até ter sido de facto corrigida "pelo espírito comunicante";
mas por quê a "correcção" teria mais validade do que a assinatura original?

Se tivesse havido, por exemplo, cinco comunicações refutando tal assinatura, de preferência por médiuns diferentes, poderia-se até dar maior credibilidade para tal alteração.

Mas de facto houve a alteração (na assinatura e no texto), a alteração é de gravidade, e ninguém foi informado a respeito de "como" e "por quê" isso se deu.

Um outro ponto importante em que eu discordo de Herculano Pires é quando ele parece achar que "Jesus" e "Espírito de Verdade" são entidades diferentes.

Da leitura das obras de Kardec, a mim parece claro que ambos são a mesma coisa, pelo menos para todos os efeitos práticos.

Por exemplo, a primeira edição do Evangelho Segundo o Espiritismo foi anunciada por uma comunicação assinada pelo "Espírito de Verdade", em dezembro de 1864 na Revista Espírita, página 399.

Observem o conteúdo de tal mensagem, seguida de uma nota cautelosa de Kardec:

COMUNICAÇÃO ESPÍRITA.

A propósito de A Imitação do Evangelho.
(Bordeaux, maio de 1864; grupo de Saint-Jean. - Médium, Sr. Rul.)

Um novo livro acaba de aparecer;
é uma luz mais brilhante que vem clarear o vosso caminho.
Há dezoito séculos eu vim, por ordem de meu Pai, trazer a palavra de Deus aos homens de vontade.

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Re: Criticando Kardec

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 10, 2014 10:23 pm

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Esta palavra foi esquecida pela maioria, e a incredulidade, o materialismo, vieram abafar o bom grão que eu tinha depositado sobre vossa Terra.

Hoje, por ordem do Eterno, os bons Espíritos, seus mensageiros, vêm sobre todos os pontos do globo fazer ouvir a trombeta retumbante.

Escutai suas vozes;
são aquelas destinadas a vos mostrar o caminho que conduz aos pés do Pai celeste.

Sede dóceis aos seus ensinos;
os tempos preditos são chegados;
todos as profecias serão cumpridas.


Pelos frutos se reconhece a árvore.
Vede quais são os frutos do Espiritismo:
casais, onde a discórdia havia substituído a harmonia, viu-se retornar à paz e à felicidade;

os homens que sucumbiam sob o peso de suas aflições, despertados aos assentos melodiosos das vozes de além-túmulo, compreenderam que caminhavam em falso caminho, e, ruborizados de suas fraquezas, arrependeram-se, e pediram ao Senhor a força de suportar suas provas.


Provas e expiações, eis a condição do homem sobre a Terra.

Expiação do passado, provas para fortalecê-los contra a tentação, para desenvolver o Espírito pela actividade da luta, habituá-lo a dominar a matéria, e prepará-lo para os gozos puros que o esperam no mundo dos Espíritos.

Há várias moradas na casa de meu Pai, eu lhes disse há dezoito séculos.
Estas palavras, o Espiritismo veio fazer compreendê-las.

E vós, meus bem-amados, trabalhadores que suportais o ardor do dia, que credes ter a vos lamentar da injustiça da sorte, bendizei vossos sofrimentos;
agradecei a Deus que vos dá os meios de quitar as dívidas do passado;

orai, não dos lábios, mas do vosso coração melhorado, para vir tomar, na casa de meu Pai, a melhor morada;
porque os grandes serão rebaixados;
mas, vós o sabeis, os pequenos nos e os humildes serão elevados.


O ESPÍRITO DE VERDADE.

Nota. - Sabe-se que tomamos tanto menos a responsabilidade dos nomes quanto pertençam a seres mais elevados.

Nós não garantimos mais essa assinatura do que muitas outras, nos limitando a entregar esta comunicação à apreciação de todo Espírita esclarecido.

Diremos, no entanto, que não se pode nela desconhecer a elevação do pensamento, a nobreza e a simplicidade das expressões, a sobriedade da linguagem, a ausência de todo supérfluo.

Se se a compara àquelas que estão reportadas em A Imitação do Evangelho (prefácio, e cap. III: O Cristo consolador), e que levam a mesma assinatura, embora obtidas por médiuns diferentes e em diferentes épocas, nota-se entre elas uma analogia evidente de tom, de estilo e de pensamentos que acusa uma fonte única.

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Re: Criticando Kardec

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 10, 2014 10:23 pm

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Por nós, dizemos que ela pode ser de O Espírito de Verdade, porque ela é digna dele;
ao passo que delas vimos massas assinadas com este nome venerado, ou o de Jesus, cuja prolixidade, verborragia, vulgaridade, às vezes mesmo a trivialidade das ideias, traem a origem apócrifa aos olhos dos menos clarividentes.

Somente uma fascinação completa pode explicar a cegueira daqueles que nisso se deixam prender, se não for também o orgulho de se crer infalível e o intérprete privilegiado dos puros Espíritos, orgulho sempre punido, cedo ou tarde, por decepções, mistificações ridículas e por infelicidades reais nesta vida.

À vista desses nomes venerados, o primeiro sentimento do médium modesto é o da dúvida, porque não se crê digno de um tal favor.

Herculano afirma ainda:
"...Kardec não tomava decisões dessa importância por seu próprio arbítrio...".

Essa parece uma afirmação bem plausível (ou melhor, não seria nada além do normalmente esperado), mas confesso que tenho algumas dúvidas com relação a isso.

Não acredito que Kardec fizesse conscientemente manipulações que pudessem ser rotuladas de "fraudulentas".

Inclusive, é importante frisar que, tanto quanto pude averiguar, as duas versões desse texto (a "alterada", e a "não alterada") conviveram lado a lado nas sucessivas publicações de ambos os livros (O Livro dos Médiuns e o Evangelho Segundo o Espiritismo).

Para que tivesse havido uma intenção de manipulação fraudulenta, seria esperado que as edições do Livro dos Médiuns após 1864 tivessem incorporado tais modificações, e isso aparentemente não se deu, o que parece indicar ausência de intenções fraudulentas.

Tive acesso à décima primeira edição do Livro dos Médiuns em francês, publicada no ano de 1869 (Kardec morreu em fins de março deste ano).

Mesmo que essa décima primeira edição tenha sido publicada depois do falecimento de Kardec (ou seja, após março de 1869), acho difícil que tão rapidamente revertessem uma eventual alteração que tivesse ocorrido neste texto específico sobre o qual estou falando.

De qualquer maneira, seria interessante poder observar edições do Livro dos Médiuns entre 1865 e 1868, para confirmar de modo inequívoco a convivência das duas versões do texto nos dois livros diferentes.

As duas situações mais normais esperadas seriam, primeiro, que não tivesse havido nenhuma alteração.

Ou, como segunda alternativa, que tivesse havido alteração com intenções fraudulentas, e aí ocorrendo tanto no Evangelho Segundo o Espiritismo como no Livro dos Médiuns.

Mas tudo leva a crer que o que ocorreu não foi nenhuma dessas duas situações.

Por que motivo, então, e através de que processos ocorreu essa alteração no texto atribuído (com cautela, mas também com certa confiança) a Jesus de Nazaré?

A alteração na assinatura me parece ser o facto de menor importância.
As alterações no texto é que de facto possuem um possível significado maior.

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Re: Criticando Kardec

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 10, 2014 10:24 pm

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Eu disse acima que há, segundo penso, duas situações que teriam sido as mais naturalmente esperadas ("não alteração", ou "alteração com intenções fraudulentas"), e que na verdade o que penso ter ocorrido não foi nenhuma das duas.

A situação menos esperada é, penso eu, justamente a que deve ter ocorrido, e que me parece bastante compatível com o modo como percebo Kardec em seus procedimentos e em suas relações com o movimento espírita francês de então.

Dizendo de modo bem directo:
a alteração foi feita por Kardec (ou "dirigida" por ele), julgando (conscientemente, pelo menos) que não havia problema algum nisso, mas no fundo (inconscientemente, quero crer) querendo "melhorar" o texto e expurgá-lo de "prováveis interferências indevidas do médium", não tanto na assinatura, mas sim em palavras, frases, e ideias.

É necessário frisar que isso que eu disse acima é uma especulação minha. Uma especulação de grande gravidade, sem dúvida.

Mas é forçoso que eu diga que tal especulação é por mim feita tentando achar uma explicação coerente com as informações às quais tive acesso, e coerente também com o que consigo observar e perceber de Kardec através de seus escritos (tanto em suas virtudes, como em suas falhas).

Uma maneira de olhar toda essa questão é vê-la sob a perspectiva da seguinte pergunta:
Diante de tal situação, ou seja, no lugar de Kardec, o que faria cada um de nós?

A impressão que eu tenho é que a maioria de "nós" (mesmo se as alterações no texto e na assinatura tivessem sido ractificadas por "mais de dez médiuns diversos", e mesmo se o texto alterado e o não alterado fossem conviver nas subsequentes edições do Evangelho Segundo o Espiritismo e do Livro dos Médiuns) teria uma grande preocupação em relatar o "como" e o "porquê" de tais alterações.

O facto de Kardec não ter mostrado tal preocupação é, no mínimo, estranho.

Incluo no quadro abaixo o texto que consta do Livro dos Médiuns (o texto original não alterado).

Os trechos em vermelho são os que foram retirados pura e simplesmente.
Os em cor marrom são os que foram alterados.
Em parênteses e em itálico (com quaisquer das cores utilizadas), estão comentários meus.

Em seguida, incluí o texto "alterado" conforme consta do Evangelho Segundo o Espiritismo.
Os textos são os que constam das edições actuais da FEB.

Comparei tais textos com os originais franceses, e eles parecem quase que perfeitamente traduzidos, o que torna possível a exposição das alterações utilizando-se das versões em português.

Precisei, contudo, incluir três palavras (uma no texto não alterado, e duas no texto alterado) para tornar praticamente perfeito o paralelismo entre as versões em português e em francês, e essas três inclusões estão em azul.

De qualquer maneira, as versões originais em francês são mostradas também, logo após, com as mesmas cores indicativas.

Gostaria de chamar a atenção dos leitores para uma frase em especial.
Não que ela contenha alterações mais importantes que as demais, mas pelo facto da análise dela ser mais difícil, daí eu usar outras duas cores.

Nesta frase, coloquei a cor verde como representando o "assunto principal da frase";
e a cor lilás escuro como representando pequenos trechos que podem ser interpretados como "desvios do assunto principal" por parte do "Espírito de Verdade/Jesus de Nazaré".

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Re: Criticando Kardec

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 11, 2014 10:11 pm

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Esta frase em especial é apresentada em separado após as quatro tabelas abaixo, em uma quinta tabela própria, para mais fácil visualização e comparação.

Ao fim de todas as cinco tabelas seguintes, faço ainda alguns comentários analíticos sobre tais alterações.

O Livro dos Médiuns (1861)

Venho, eu, vosso Salvador e vosso juiz; venho, como outrora, aos filhos transviados de Israel; venho trazer a verdade e dissipar as trevas.
Escutai-me.


O Espiritismo, como outrora a minha palavra, tem que lembrar aos materialistas (alterado para "incrédulos") que acima deles reina a imutável verdade: o Deus bom, o Deus grande, que faz germinar a planta e que levanta as ondas.

Revelei a Doutrina Divina; como o ceifeiro, atei em feixes o bem esparso na Humanidade e disse: Vinde a mim, vós todos que sofreis!

Mas, ingratos, os homens se desviaram do caminho recto e largo que conduz ao reino de meu Pai e se perderam nas ásperas veredas da impiedade.

Meu Pai não quer aniquilar a raça humana; quer, não mais por meio de profetas, não mais por meio de apóstolos, quer que, ajudando-vos uns aos outros, mortos e vivos, isto é, mortos segundo a carne, porquanto a morte não existe, vos socorrais e que a voz dos que já não existem ainda se faça ouvir, clamando-vos:

Orai e crede! por isso que a morte é a ressurreição, e a vida - a prova escolhida, durante a qual, cultivadas, as vossas virtudes têm que crescer e desenvolver-se como o cedro.

Crede nas vozes que vos respondem: são as próprias almas dos que evocais.
Só muito raramente me comunico.
Meus amigos, os que hão assistido à minha vida e à minha morte são os intérpretes divinos das vontades de meu Pai.

Homens fracos, que acreditais no erro das vossas inteligências obscuras, não apagueis (alterado para "que compreendeis as trevas de vossas inteligências, não afasteis") o facho que a clemência divina vos coloca nas mãos, para vos clarear a estrada e reconduzir-vos, filhos perdidos, ao regaço de vosso Pai.

Em verdade vos digo: crede na diversidade, na multiplicidade dos Espíritos que vos cercam.

Estou infinitamente tocado de compaixão pelas vossas misérias, pela vossa imensa fraqueza, para deixar de estender mão protectora aos infelizes transviados que, vendo o céu, caem no abismo do erro.

Crede, amai, compreendei as verdades (alterado para ]"meditei sobre as coisas") que vos são reveladas, não mistureis o joio com o bom grão, os sistemas (alterado para "utopias") com as verdades.

Espíritas! amai-vos, eis o primeiro ensino; instruí-vos, eis o segundo.
Todas as verdades se encontram no Cristianismo; são de origem humana os erros que nele se enraizaram.

Eis que do além-túmulo, que julgais o nada, vos clamam vozes: Irmãos! nada perece, Jesus-Cristo é o vencedor do mal, sede os vencedores da impiedade.

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Re: Criticando Kardec

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 11, 2014 10:11 pm

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Jesus de Nazaré (alterado para "Espírito de Verdade. Paris, 1860")

O Evangelho Segundo o Espiritismo (1864)

Venho, como outrora aos transviados filhos de Israel, trazer-vos a verdade e dissipar as trevas.
Escutai-me.

O Espiritismo, como o fez antigamente a minha palavra, tem de lembrar aos incrédulos que acima deles reina a imutável verdade: o Deus bom, o Deus grande, que faz germinem as plantas e se levantem as ondas.

Revelei a doutrina divinal.
Como um ceifeiro, reuni em feixes o bem esparso no seio da Humanidade e disse:
"Vinde a mim, todos vós que sofreis."

Mas, ingratos, os homens afastaram-se do caminho recto e largo que conduz ao reino de meu Pai e enveredaram pelas ásperas sendas da impiedade.

Meu Pai não quer aniquilar a raça humana; quer que, ajudando-vos uns aos outros, mortos e vivos, isto é, mortos segundo a carne, porquanto não existe a morte, vos socorrais mutuamente, e que se faça ouvir não mais a voz dos profetas e dos apóstolos, mas a voz dos que já não vivem na Terra, a clamar:

Orai e crede! pois que a morte é a ressurreição, sendo a vida é a prova buscada e durante a qual as virtudes que houverdes cultivado crescerão e se desenvolverão como o cedro.

Homens fracos, que compreendeis as trevas das vossas inteligências, não afasteis o facho que a clemência divina vos coloca nas mãos para vos clarear o caminho e reconduzir-vos, filhos perdidos, ao regaço de vosso Pai.

Sinto-me por demais tomado de compaixão pelas vossas misérias, pela vossa fraqueza imensa, para deixar de estender mão socorredora aos infelizes transviados que, vendo o céu, caem nos abismos do erro.

Crede, amai, meditai sobre as coisas que vos são reveladas; não mistureis o joio com a boa semente, as utopias com as verdades.

Espíritas!
amai-vos, este o primeiro ensinamento; instruí-vos, este o segundo.
No Cristianismo encontram-se todas as verdades; são de origem humana os erros que nele se enraizaram.

Eis que do além-túmulo, que julgáveis o nada, vozes vos clamam: "Irmãos! nada perece. Jesus-Cristo é o vencedor do mal, sede os vencedores da impiedade."

O Espírito de Verdade.

O Livro dos Médiuns em Francês (1861)

Je viens, moi, ton Sauveur et ton juge; je viens, comme autrefois, parmi les fils égarés d'Israël ; je viens apporter la vérité et dissiper les ténèbres. Ecoutez-moi. Le spiritisme, comme autrefois ma parole, doit rappeler aux matérialistes (alterado para "incrédules") qu'au-dessus d'eux règne l'immuable vérité : Dieu bon, le Dieu grand qui fait germer la plante et qui soulève les flots.
J'ai révélé la doctrine divine ; j'ai comme un moissonneur, lié en gerbes le bien épars dans l'humanité, et j'ai dit : Venez à moi, vous tous qui souffrez!

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Re: Criticando Kardec

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 11, 2014 10:15 pm

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Mais les hommes ingrats se sont détournés de la voie droite et large qui conduit au royaume de mon Père, et ils se sont égarés dans les âpres sentiers de l'impiété. Mon Père ne veut pas anéantir la race humaine ; il veut, non plus par des prophètes, non plus par des apôtres, il veut que vous aidant les uns les autres, morts et vivants, c'est-à-dire morts selon la chair, car la mort n'existe pas, vous vous secouriez, et que la voix de ceux qui ne sont plus se fasse entendre pour vous crier : Priez et croyez ! car la mort est la résurrection, et la vie, l'épreuve choisie pendant laquelle vos vertus cultivées doivent grandir et se développer comme le cèdre.

Croyez aux voix qui vous répondent : ce sont les âmes elles-mêmes de ceux que vous évoquez. Je ne me communique que rarement ; mes amis, ceux qui ont assisté à ma vie et à ma mort sont les interprètes divins des volontés de mon Père.

Hommes faibles qui croyez à l'erreur de vos obscures intelligences, n'éteignez (
alterado para "qui comprenez les ténèbres de vos intelligences, n'éloignez") pas le flambeau que la clémence divine place entre vos mains pour éclairer votre route et vous ramener, enfants perdus, dans le giron de votre Père.

Je vous le dis, en vérité, croyez à la diversité, à la multiplicité des Esprits qui vous entourent. Je suis trop touché de compassion pour vos misères, pour votre immense faiblesse, pour ne pas tendre une main secourable aux malheureux égarés qui, voyant le ciel, tombent dans l'abîme de l'erreur. Croyez, aimez, comprenez les vérités (
alterado para "méditez les choses") qui vous sont révélées ; ne mêlez pas l'ivraie au bon grain, les systèmes (alterado para "utopies") aux vérités.

Spirites! aimez-vous, voilà le premier enseignement ; instruisez-vous, voilà le second. Toutes vérités se trouvent dans le christianisme ; les erreurs qui y ont pris racine sont d'origine humaine ; et voilà qu'au-delà du tombeau que vous croyiez le néant, des voix vous crient : Frères ! rien ne périt ; Jésus-Christ est le vainqueur du mal, soyez les vainqueurs de l'impiété.

Jésus de Nazareth. (
alterado para L'Esprit de Vérité. Paris, 1860)

O Evangelho Segundo o Espiritismo em Francês (1864)

Je viens, comme autrefois, parmi les fils égarés d'Israël, apporter la vérité et dissiper les ténèbres. Écoutez-moi. Le spiritisme, comme autrefois ma parole, doit rappeler aux incrédules qu'au-dessus d'eux règne l'immuable vérité: le Dieu bon, le Dieu grand qui fait germer la plante et soulève les flots. J'ai révélé la doctrine divine; j'ai, comme un moissonneur, lié en gerbes le bien épars dans l'humanité, et j'ai dit: Venez à moi, vous tous qui souffrez!

Mais les hommes ingrats se sont détournés de la voie droite et large qui conduit au royaume de mon Père, et ils se sont égarés dans les âpres sentiers de l'impiété. Mon Père ne veut pas anéantir la race humaine; il veut que, vous aidant les uns les autres, morts et vivants, c'est-à-dire morts selon la chair, car la mort n'existe pas, vous vous secouriez, et que, non plus la voix des prophètes et des apôtres, mais la voix de ceux qui ne sont plus se fasse entendre pour vous crier: Priez et croyez! car la mort, c'est la résurrection, et la vie, c'est l'épreuve choisie pendant laquelle vos vertus cultivées doivent grandir et se développer comme le cèdre.

Hommes faibles, qui comprenez les ténèbres de vos intelligences, n'éloignez pas le flambeau que la clémence divine place entre vos mains pour éclairer votre route et vous ramener, enfants perdus, dans le giron de votre Père.

Je suis trop touché de compassion pour vos misères, pour votre immense faiblesse, pour ne pas tendre une main secourable aux malheureux égarés qui, voyant le ciel, tombent dans l'abîme de l'erreur. Croyez, aimez, méditez les choses qui vous sont révélées; ne mêlez pas l'ivraie au bon grain, les utopies aux vérités.

Spirites! aimez-vous, voilà le premier enseignement; instruisez-vous, voilà le second. Toutes vérités se trouvent dans le Christianisme; les erreurs qui y ont pris racine sont d'origine humaine; et voilà qu'au delà du tombeau que vous croyiez le néant, des voix vous crient: Frères! rien ne périt; Jésus-Christ est le vainqueur du mal, soyez les vainqueurs de l'impiété.


(L'ESPRIT DE VÉRITÉ. Paris, 1860.)

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Re: Criticando Kardec

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 12, 2014 9:19 pm

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Frase especialmente analisada à parte:

O Livro dos Médiuns em português

Meu Pai não quer aniquilar a raça humana;
quer, não mais por meio de profetas, não mais por meio de apóstolos, quer que, ajudando-vos uns aos outros, mortos e vivos, isto é, mortos segundo a carne, porquanto a morte não existe, vos socorrais e que a voz dos que já não existem ainda se faça ouvir, clamando-vos: Orai e crede!

O Evangelho Segundo o Espiritismo em português

Meu Pai não quer aniquilar a raça humana;
quer que, ajudando-vos uns aos outros, mortos e vivos, isto é, mortos segundo a carne, porquanto não existe a morte, vos socorrais mutuamente, e que se faça ouvir não mais a voz dos profetas e dos apóstolos, mas a voz dos que já não vivem na Terra, a clamar: Orai e crede!

__________________________________________________

O Livro dos Médiuns em francês

Mon Père ne veut pas anéantir la race humaine ; il veut, non plus par des prophètes, non plus par des apôtres, il veut que vous aidant les uns les autres, morts et vivants, c'est-à-dire morts selon la chair, car la mort n'existe pas, vous vous secouriez, et que la voix de ceux qui ne sont plus se fasse entendre pour vous crier : Priez et croyez !

O Evangelho Segundo o Espiritismo em francês

Mon Père ne veut pas anéantir la race humaine; il veut que, vous aidant les uns les autres, morts et vivants, c'est-à-dire morts selon la chair, car la mort n'existe pas, vous vous secouriez, et que, non plus la voix des prophètes et des apôtres, mais la voix de ceux qui ne sont plus se fasse entendre pour vous crier: Priez et croyez!

Comentários Sobre as Alterações:

Quem quer que tenha realizado as alterações acima, quer fosse ele um (ou mais) ente "encarnado" ou um ente "desencarnado", sabia muito bem o que estava fazendo.

E o fez com grande competência!

O resultado final é, primeiro, uma "melhoria" do texto quanto à forma de organização e exposição das ideias, aos olhos principalmente das regras de escrita preconizadas pelas culturas anglo-saxónicas e germânicas (que têm sido já de há muito tempo absorvidas pelas culturas latinas, de modo relativamente não crítico).

Um segundo e talvez mais importante resultado das alterações é expurgar do texto trechos aparentemente incompatíveis com uma mensagem procedente de um "Espírito Superior".

Expondo a questão "estilística" de um modo bem simplificado, é considerado "um bom texto" um texto que tenha uma organização que siga os nossos padrões culturalmente esperados de "começo", "meio" e "fim";

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Re: Criticando Kardec

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 12, 2014 9:21 pm

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um texto que fale de um assunto especificamente (isso é por vezes chamado de "unidade" do texto), ao invés de permitir que assuntos paralelos de relevância duvidosa se imiscuam no corpo do texto;

um texto que, mesmo já atendendo à exigência de boa definição das secções começo/meio/fim, e mesmo já atendendo ao critério de falar apenas de um "assunto"
(ou falar sobre mais de um "assunto", mas todos pertinentemente relacionados entre si, o que resulta igualmente na manutenção da "unidade" do texto), atenda também adicionalmente à exigência de não se ficar alternando os "assuntos" de modo caótico, tentando ao máximo passar para outro "assunto" somente após esgotar o anterior.

Esse modo de exposição de ideias, o "modo escrito", conflitua brutalmente com o "modo falado", ou seja, com nosso modo de usar a língua em conversas informais.

São quase duas lógicas diferentes;
e uma delas não é, pelo menos segundo meu modo de ver, melhor do que a outra.
Elas possuem "forças" e "fraquezas" diferentes, e se aplicam a situações diferentes.

Acontece que a lógica do "modo escrito" é a que predomina nos meios "intelectuais" e "cultos" de nossas sociedades ocidentais, ao ponto de não ter se restringido à língua escrita propriamente dita, mas de moldar a língua falada das pessoas em situações académicas, formais, e "intelectuais" (apesar de mesmo os "intelectuais", quando em conversas informais, poderem ser tão ou mais caóticos em suas ideias e organização de frases do que o mais inculto dos incultos...).

Isso faz com que seja esperado, por alguém imerso na cultura europeia do século XIX (como eram praticamente todos os europeus de então, Kardec aí obviamente incluído também), que o discurso (escrito ou falado) de um "Espírito Superior" obedeça a tais regras da "língua escrita ocidental".

Os primeiros termos expurgados do texto original, "Venho, eu, vosso Salvador e vosso juiz;
venho, como outrora, aos filhos transviados de Israel;
venho trazer",
parecem satisfazer aos critérios de evitar a redundância (o "supérfluo"), melhorando o estilo do texto, e também satisfazendo ao critério de evitar termos com tom coercitivo (vosso juiz), característica incompatível com o "Modelo Kardecista de Espírito Superior".

A alteração de materialistas para incrédulos torna o termo mais abrangente, passando a incluir (potencialmente, pelo menos) todos os não-espíritas de qualquer religião, e não apenas os materialistas.

Todo o trecho "Crede nas vozes que vos respondem: são as próprias almas dos que evocais.
Só muito raramente me comunico.
Meus amigos, os que hão assistido à minha vida e à minha morte são os intérpretes divinos das vontades de meu Pai"
foi retirado.

Ele incita muito fortemente à crença ("fé irreflectida"), e não ao raciocínio ("Fé Raciocinada"), além de inserir "assuntos" aparentemente "irrelevantes", como "Só muito raramente me comunico"] e também "Meus amigos, os que hão assistido à minha vida e à minha morte são os intérpretes divinos das vontades de meu Pai".

O trecho "Homens fracos, que acreditais no erro das vossas inteligências obscuras" parece um pouco depreciativo para connosco, nos colocando bastante "para-baixo".

Foi alterado para o trecho "Homens fracos, que compreendeis as trevas de vossas inteligências", que nos coloca num patamar um pouco menos, digamos, "burros", e consequentemente torna o trecho menos ofensivo, como seria de se esperar de um "Espírito Superior".

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Re: Criticando Kardec

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 12, 2014 9:22 pm

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O trecho "Em verdade vos digo: crede na diversidade, na multiplicidade dos Espíritos que vos cercam" foi retirado por completo, possivelmente por se tratar de um "assunto paralelo".

Talvez a alteração mais interessante tenha sido "compreendei as verdades que vos são reveladas", alterado para "meditei sobre as coisas que vos são reveladas".

Trata-se claramente de uma correcção do desvio de rumo, expurgando a "fé irreflectida" e substituindo-a pela "Fé Raciocinada".

Além dos expurgos, o texto alterado recebeu também duas "inclusões".
Elas também parecem tudo menos inocentes.

A introdução da palavra "voz" ("não mais a voz dos profetas") é muito inteligente em termos de engenharia de texto, e será comentada mais abaixo no contexto daquela frase como um todo.

A inclusão da palavra "é" adiciona paralelismo à estrutura da frase, além de colocar em mais forte evidência os elementos que se seguem.
É interessante comparar essa "inclusão" e seus possíveis objectivos com uma outra situação mais ou menos similar, mas onde houve, contudo, um "expurgo".

Trata-se do trecho "O Deus... que faz germinar a planta e que levanta as ondas".

Aqui não parece muito interessante ressaltar os dois termos seguidos à palavra "que" ("faz germinar a planta" e "levanta as ondas").

Ao expurgar a palavra "que", O resultado final é:
não ressaltar os dois termos, e evitar a redundância.

No caso anterior, a palavra "é" acrescenta paralelismo e ressalta os dois elementos (é melhor usar o trecho em francês para visualizar isso:[i] "car la mort, c'est la résurrection, et la vie, c'est l'épreuve choisie").

Ao incluir a palavra "é" (ou no original em francês, a dupla inclusão "c'" e "c'est"), O resultado final é: ressaltar os dois termos, e acrescentar paralelismo.

O que vai determinar se em uma dada situação está ocorrendo "paralelismo" ou se, ao invés, está ocorrendo "redundância" é, em grande parte, o contexto; e, além do contexto, também o... freguês!

O trecho original era:

"Meu Pai não quer aniquilar a raça humana; quer, não mais por meio de profetas, não mais por meio de apóstolos, quer que, ajudando-vos uns aos outros, mortos e vivos, isto é, mortos segundo a carne, porquanto a morte não existe, vos socorrais e que a voz dos que já não existem ainda se faça ouvir, clamando-vos: Orai e crede!"

O trecho original acima sofreu uma mexida de profundidade significativa, passando a ser:

"Meu Pai não quer aniquilar a raça humana;
quer que, ajudando-vos uns aos outros, mortos e vivos, isto é, mortos segundo a carne, porquanto não existe a morte, vos socorrais mutuamente, e que se faça ouvir não mais a voz dos profetas e dos apóstolos, mas a voz dos que já não vivem na Terra, a clamar: Orai e crede!".


Observem a alternância de "assuntos" no texto original: verde lilás verde lilás verde.

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Re: Criticando Kardec

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 13, 2014 9:36 pm

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Agora observem como o texto alterado ficou bem menos "caótico": verde lilás verde.

A inclusão da palavra "voz", de que falei mais acima, tornou possível encaixar de modo não caótico dois trechos que anteriormente estavam em "descompasso organizativo" no texto original (e que, inclusive, nem estavam adjacentes no texto original):
"não mais por meio de profetas, não mais por meio de apóstolos"-"vos socorrais e que a voz dos que já não existem ainda se faça ouvir, clamando-vos" (texto original não alterado).

Isso foi alterado para:
vos socorrais mutuamente, e que se faça ouvir não mais a voz dos profetas e dos apóstolos, mas a voz dos que já não vivem na Terra, a clamar (texto alterado).

Um trabalho formidável! Só resta saber se "Jesus de Nazaré" aprovou (ou mesmo se ele aprovaria)...

Kardec, ao apresentar a primeira edição do Evangelho Segundo o Espiritismo (em texto que eu apresentei um pouco mais acima, intitulado:
"Comunicação Espírita:
A propósito de
A Imitação do Evangelho.
Bordeaux, maio de 1864; grupo de Saint-Jean. - Médium, Sr. Rul.
- seguido de Nota Explicativa de Kardec"), disse a respeito daquela outra mensagem assinada pelo "Espírito de Verdade" (a que consta naquele quadro):

"Diremos, no entanto, que não se pode nela desconhecer a elevação do pensamento, a nobreza e a simplicidade das expressões, a sobriedade da linguagem, a ausência de todo supérfluo.

Se se a compara àquelas que estão reportadas em
A Imitação do Evangelho (prefácio, e cap. III: O Cristo consolador), e que levam a mesma assinatura, embora obtidas por médiuns diferentes e em diferentes épocas, nota-se entre elas uma analogia evidente de tom, de estilo e de pensamentos que acusa uma fonte única." (grifos meus)

Kardec nos aconselha a compararmos a mensagem de que ele fala com aquelas igualmente assinadas pelo "Espírito de Verdade" que aparecem no Evangelho Segundo o Espiritismo (A Imitação do Evangelho, como era intitulada a primeira edição), e ao fazermos isso iremos constatar uma "analogia evidente de tom", de "estilo", e de "pensamentos", além da "ausência de todo supérfluo", o que, segundo ele, acusaria uma "fonte única".

Mas como podemos fazer tais comparações com um grau mínimo de confiança e concordarmos com Kardec quanto à "fonte única" se, pelo menos com relação a uma dessas mensagens assinada pelo "Espírito de Verdade" (e aparentemente uma de grande importância, pois que parece ter sido uma das únicas que ele assinou como "Jesus de Nazaré"), houve justamente "expurgos dos supérfluos", "expurgos de alguns pensamentos", "reestruturação do estilo", e "alteração do tom"?!

E isso tudo sem que se informasse "como", ou "por quê".

Kardecismo: Verdade, ou Mentira?

Conforme tento, então, demonstrar neste texto, minha leitura das obras de Kardec e de outras obras acessórias me leva a avaliar que o método do qual Kardec se utilizava para estudar o "mundo espiritual", apesar de possuir virtudes bastante notáveis, possuía também fraquezas altamente danosas;
além disso, tal método foi utilizado por Kardec de modo, por vezes, falho;
e, aparentemente, o método deixou mesmo de ser utilizado por Kardec em algumas situações importantes.


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Re: Criticando Kardec

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 13, 2014 9:37 pm

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Kardec, já na página 2 do primeiro fascículo da Revista Espírita (janeiro de 1858), define os objectivos desse seu periódico de modo muito bem equilibrado e científico, dizendo:
"Não se poderia, pois, contestar a utilidade de um órgão especial, que mantenha o público ao corrente dos progressos desta ciência nova, e o premuna dos exageros da credulidade, tão bem quanto contra o cepticismo."

Contudo, a mim parece que Kardec manteve, ao longo de seus quase quinze anos de dedicação ao espiritismo, um equilíbrio extremamente precário entre a cautela e a credulidade.

Apesar disso, penso ser um grande erro desconsiderar tanto o trabalho de Kardec (e suas conclusões) como todo o trabalho realizado pelos espíritas kardecistas desde então.

Como religião, o espiritismo kardecista constitui-se de um corpo doutrinário interessante e mesmo revolucionário em vários aspectos com relação às religiões ocidentais de meados do século XIX.

Um dos exemplos talvez mais tocantes disso é a postura kardecista com relação aos "espíritos obsessores".
Na Igreja Católica (no século XIX, e talvez ainda actualmente), tais entidades eram vistas como demónios a serem execrados.

No kardecismo, esses seres eram (e são) vistos como criaturas irmãs necessitadas de compreensão e apoio (nada mais, nada menos, do que espíritos de pessoas que já viveram).

Um exemplo típico de "não varrer o problema para baixo do tapete", mas sim "enfrentá-lo cara a cara, e resolvê-lo".

Como filosofia, o kardecismo oferece insumos também interessantes para discussões a respeito de questões existenciais e ontológicas sobre o homem e o Universo.

Como ciência, o kardecismo pode estar de facto, como penso, muito distante do minimamente satisfatório;
contudo, ele definitivamente não se constitui em um paradigma nulo.

Ou seja, eu considero que há, de facto, fertilidade científica potencial no corpo teórico-fenomenológico do espiritismo kardecista.

E em alguns casos (não muito numerosos, pelo menos ao que sei), essa fertilidade transcende mesmo o "potencial" e atinge, pelo menos preliminarmente, o "realizado".

Um exemplo disso é, creio, o trabalho realizado pelo Núcleo Espírita Universitário da Universidade Estadual de Londrina, Paraná (NEU-LD), e dentro deste grupo em especial, o trabalho do Professor Carlos Augusto Perandréa, utilizando-se da grafoscopia no estudo da psicografia.

Alguma coisa de muito estranha parece ter, de facto, ocorrido no mundo em meados do século XIX.

Curiosamente, vem dessa época um dos casos "paranormais" mais sólidos talvez já registados: o caso Daniel Dunglas Home.

Até mesmo os "cépticos" mais bem gabaritados da actualidade em metodologia de pesquisas parapsicológicas (como por exemplo, Ray Hyman) afirmam inequivocamente que não há como explicar o que se passava com Home.

Igualmente, meus contactos ao longo dos últimos 15 meses com cépticos e pseudo-cépticos, pesquisadores psi e espíritas (por emails e por leitura de artigos científicos), me pôs em contacto com uma parapsicologia inimaginavelmente mais robusta do que eu poderia imaginar.

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Re: Criticando Kardec

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