DE FRENTE COM A VERDADE - Leonel / Mónica de Castro

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DE FRENTE COM A VERDADE - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 09, 2015 10:01 am

DE FRENTE COM A VERDADE
Mónica de Castro

Espírito Leonel

Quando Luciana se foi, Marcela pensou que seria o fim de sua vida.
O desequilíbrio a fez adoptar medidas extremas.
Depois de um suicídio frustrado, encontrou no médico que a salvou uma nova razão para viver.
Temendo o preconceito, Marcela esconde do jovem namorado a avassaladora paixão do passado.
A partir daí, intrinca-se numa rede de omissões e subterfúgios para tentar conter a verdade, vendo em Luciana a arma com que o inimigo tramará sua derrota.
O passado, contudo, não pode ser apagado, e as experiências nele vividas remanescem no repositório indelével da alma.
Mais cedo ou mais tarde, o universo desvenda segredos e ilusões, porque a verdade é o estado natural de todas as coisas.
Presa ainda aos desenganos do mundo, Marcela não compreende a obra da natureza, que incessantemente trabalha para restabelecer o seu curso.
Por mais que tente fugir ou se esconder, os rumos que a vida percorre chegam sempre ao mesmo ponto, onde ela estará, inevitavelmente, de frente com a verdade.
Meu amor pela literatura existe desde os meus tempos de menina.
Sempre gostei de ler e escrever, em verso e prosa, e foi nos poemas de Manuel Bandeira que lapidei ainda mais a sensibilidade da minha alma.
Gostava de escrever poemas, contos, textos diversos, e cheguei a ganhar um concurso de poesia aos treze anos, aqui na cidade do Rio de Janeiro, onde nasci em 1962.
Ao mesmo tempo, minha mediunidade despertou, e adoptei o espiritismo como bálsamo do meu coração.
Meu desejo sempre foi o de ser escritora.
Mas a vida nos leva por caminhos diferentes, sempre em nosso benefício, e acabei me formando em Direito e passando num concurso para o Ministério Público do Trabalho.
Anos depois, após o nascimento do meu filho, senti a primeira inspiração.
Foi uma coisa estranha.
Uma voz ficava na minha cabeça, repetindo esse nome:
Rosali, e a ideia de fazer um romance brotou na mesma hora.
Rejeitei a ideia e pensei:
"Quem sou eu para escrever um romance?".
Por outro lado, a mesma voz também me dizia:
"Não custa nada tentar.
O máximo que pode acontecer é não dar em nada".
Aceitei a sugestão do invisível, acreditando ser o meu pensamento, e fui sentar-me ao computador.
Na mesma hora, a inspiração para Uma História de Ontem surgiu espontânea, e fui escrevendo, cada dia um pouquinho.
Até então, eu não sabia que estava psicografando.
Foi só quando terminei o romance que recebi a psicografia do Leonel, que abre o meu primeiro livro, e nele se apresenta, dando o seu nome.
Mas foi preciso uma boa dose de desprendimento para escrever, sem questionar e aceitar a interferência do espírito.
Hoje, posso dizer, Leonel é parte fundamental da minha vida.
Não escrevo para viver.
Escrevo porque gosto e porque acredito estar levando algum bem para as pessoas.
E é esse sentimento que me faz querer escrever cada vez mais.
É pelas pessoas que vale a pena escrever.
Pelos leitores, que estão em busca de algo, além do aqui e agora, e que acreditam no poder da fé, do auto-conhecimento e do amor, como caminhos seguros para a transformação do Ser.
Acredito que nós todos podemos trabalhar pelo aperfeiçoamento moral da humanidade para construir um mundo melhor.
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Ave sem Ninho

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Re: DE FRENTE COM A VERDADE - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 09, 2015 10:01 am

LEONEL
Leonel é um espírito muito querido do meu coração.
Já em nosso primeiro romance, ele me deu uma ideia do que teria sido em sua vida passada: escritor.
Sei que nasceu e viveu na Inglaterra, em sua última encarnação, assim como nas anteriores.
Em Segredos da Alma, ele narra um pouquinho da sua história, juntamente com a da mulher que foi o grande amor da sua vida.
Não foi um escritor dos mais famosos.
Era um boémio, mas alguém com tanta dignidade que logo despertou para os verdadeiros valores do espírito, e hoje está em condições de transmitir mensagens de optimismo e amorosidade.
Eu mesma percebi isso no contacto quase diário com ele e nas comunicações que transmite, sempre de forma mental.
Há algum tempo, ele me permitiu conhecer sua aparência.
Leonel mostrou-se para mim na casa espírita, em um momento de profundo recolhimento e reflexão.
Fisicamente, é um rapaz bonito.
Cabelos negros, cheios, com feições delicadas e olhos azuis.
Estatura mediana, magro, veio vestido com calça e bata brancas, descalço e com ar tranquilo.
Tinha um rosto tão sereno, que me contagiou.
Ali, ele me disse coisas que modificaram para sempre o meu modo de encarar certos aspectos da vida.
Sua proposta é a do crescimento e da disseminação do amor.
É para isso que trabalha, é nisso que acredita e me faz também acreditar.
Sem a esperança e a certeza na consolidação do amor, a vida não tem razão de ser.
E o instrumento que ele encontrou para a realização desse propósito, no momento, foi a psicografia.
Assim como eu, Leonel escreve por amor a si mesmo e ao próximo.
Considero Leonel mais um batalhador do invisível.
Um espírito com enorme sabedoria e inigualável capacidade de amar.
Um ser em evolução que conhece o caminho para o crescimento e sabe onde está a fonte do discernimento e da moral.
Uma alma que cresce por meio do esforço próprio, do reconhecimento de suas imperfeições e da busca incessante do domínio sobre si mesmo.
E é nisso, acima de tudo, que reside o seu valor.

******************************************
O livro que Marcela acabara de ler jazia inerte a um canto, a página final aberta e manchada pela humidade de suas lágrimas.
Era um livro de poesias, de João Cabral de Mello Neto, em que a personagem central questionava se não seria melhor saltar a ponte e desistir da vida.
Aquela ideia lhe pareceu romântica, e ela pegou invejando a criatura que, de forma tão corajosa, decide abandonar as decepções da vida.
Por que não podia ela fazer a mesma coisa?
A passos vagarosos, aproximou-se do armário do banheiro e abriu a porta de espelho oxidado, fitando o seu interior com angústia.
Remexeu nas prateleiras até que encontrou o que procurava:
um vidro de comprimidos para dormir.
Revirou-o na mão e fechou a porta, apertando o frasquinho contra o peito.
Duas grossas lágrimas escorreram de seu rosto, e ela suspirou amargurada.
De que adiantaria viver?
Sua vida havia perdido o sentido naquela noite, no exacto momento em que Luciana dissera que tudo estava terminado.
E ela simplesmente acha que não podia viver sem Luciana.
Ainda se lembrava do dia em que abandonara a família e a cidade de Campos para segui-la.
Luciana sempre fora uma menina esperta, travessa e extrovertida, muito segura de si e de suas escolhas.
Quando, finalmente, descobriu sua verdadeira orientação sexual, entregou-se a ela sem muitos questionamentos, nem dando importância aos comentários maldosos a seu respeito.
Em 1966, numa cidade pequena feito Campos de Goytacazes, foi um escândalo sem precedentes.
Quando o facto caiu no domínio público, a família se revoltou, os amigos se afastaram, os professores a recriminaram, e ela acabou sendo convidada a se retirar da escola normal que frequentava.
Foi por essa época que elas se conheceram.
Os pais de Luciana a puseram de castigo, aos quase dezassete anos, proibindo-a de sair de casa e matriculando-a em outro colégio, do outro lado da cidade, onde os rumores ainda não haviam chegado.
Apesar da revolta, Luciana concordou com as imposições dos pais.
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Re: DE FRENTE COM A VERDADE - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 09, 2015 10:02 am

Era menor de idade e não tinha muitas escolhas.
Queria sair de Campos, mas não pretendia fugir de casa para se tornar prostituta em uma cidade grande.
Tinha ambições maiores.
Pretendia terminar o curso normal para poder ingressar numa faculdade no Rio de Janeiro, onde poderia se misturar às multidões e fazer passar despercebida a sua vida sexual.
Quando Luciana entrou na sala de aula no meio do ano, chamou a atenção de muita gente.
Era o tipo de garota cujo comportamento fugia aos padrões.
Entrou calada, porém, sorridente, e foi sentar-se no único lugar vago na sala, ao lado de Marcela.
Como era nova na escola e não conhecia ninguém, logo travou conversa com Marcela que, por sua timidez, não tinha muitos amigos.
Da conversa, passaram aos encontros e daí a um relacionamento mais íntimo não demorou muito.
Em breve, as duas estavam namorando, sem que a família de Marcela sequer desconfiasse, e a de Luciana preferisse não saber.
Terminado o ano lectivo, já agora com dezoito anos completos e formada professora, Luciana decidiu partir.
Chamou os pais e comunicou-lhes sua decisão.
Os pais demonstraram alívio e não se opuseram.
Era mesmo melhor para eles verem-se livres daquela filha ingrata, a ovelha negra da família, que só lhes trazia problemas e manchara a sua reputação de gente honesta e direita.
O pai ainda lhe deu dinheiro para as primeiras despesas, com a condição de que ela se arranjasse no Rio de Janeiro e não retornasse mais a Campos, a não ser que se emendasse e voltasse a ser uma moça decente.
Luciana não questionou.
Apanhou o dinheiro, arrumou a mala e partiu sem maiores complicações.
Para Marcela, as coisas não foram assim tão fáceis.
Os pais nada sabiam sobre seu romance com Luciana e não queriam permitir que ela partisse com a amiga para uma cidade grande e cheia de tentações como o Rio.
Não lhe deram nenhum apoio e chegaram mesmo a proibi-la de ir.
Frágil demais para enfrentá-los, Marcela não insistiu, mesmo porque Luciana prometera escrever-lhe sempre.
As cartas de Luciana chegavam regularmente, até que, um dia a moça lhe escreveu dizendo que havia passado num concurso público e agora dava aulas numa escola do município.
Alugara um pequeno apartamento de quarto e sala no subúrbio e convidava Marcela para ir viver com ela.
A felicidade foi tanta que Marcela pensou que o peito fosse explodir.
Mas o que poderia fazer?
Contar aos pais seria loucura porque eles jamais a deixariam partir.
Aos dezanove anos, decidiu que o melhor seria fugir.
Como não podia contar com a ajuda financeira do pai, escreveu a Luciana, que lhe enviou dinheiro suficiente para a viagem.
Às escondidas, Marcela comprou a passagem e, no dia e na hora marcados, subiu no ónibus e foi embora, ao encontro de Luciana, talvez para nunca mais retornar à terra natal.
Foi assim que seu relacionamento começou.
Luciana estava indo bem na profissão e passou no vestibular para odontologia.
Com sua ajuda, Marcela ingressou na faculdade de letras e conseguiu um emprego de auxiliar numa escola particular.
Mais tarde mudaram-se para um apartamento melhor, num bairro de classe média, e levavam a vida em paz e tranquilidade, sem ninguém para se intrometer em suas vidas.
Os vizinhos nada sabiam sobre seu relacionamento e, para todos os efeitos, elas eram apenas estudantes vindas de outra cidade que dividiam um apartamento.
Essas lembranças fizeram estremecer o coração de Marcela.
Haviam sido felizes por quase oito anos, e agora Luciana lhe dizia que tudo estava terminado.
O que faria da vida dali para frente?
Na verdade, não tinha mais vida.
A vida de Marcela havia acabado na hora em que Luciana cruzara a porta do apartamento dizendo que não pretendia mais voltar.
Ela ainda não entendia o que havia feito de errado.
"Nada", dissera Luciana, mas Marcela não acreditava.
Alguma coisa havia acontecido.
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Re: DE FRENTE COM A VERDADE - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 09, 2015 10:02 am

Chegou a pensar que Luciana havia conhecido outra pessoa, mas ela lhe assegurou que não.
Simplesmente o amor que as unira no passado havia terminado, e Luciana achava que já era hora de cada uma seguir o seu próprio caminho.
Mas os caminhos de Marcela estavam entrelaçados aos de Luciana, ou assim ela pensava.
Não podia e não queria viver sem ela.
Quando ela se foi, Marcela ficou desesperada e se atirou num choro profundo, até que apanhou um livro de poesias, que era a única coisa que a acalmava.
Começou a ler Morte e Vida Severina, até que aquela passagem lhe chamou a atenção.
Assim como a personagem, ela também duvidava se ainda valia a pena viver.
A miséria também havia invadido a sua vida, pela carência de amor.
Saltar da ponte lhe parecia a única solução, e aquelas pílulas seriam sua ponte para a outra vida, para o nada, para uma existência em que o vazio não lhe faria sentir a falta da presença de Luciana.
Marcela sentou-se na cama e ficou olhando o vidro de remédios, ainda hesitando entre tomá-los ou não.
De vez em quando, olhava para o livro no chão e para o retrato de Luciana na mesinha de cabeceira, e seus olhos voltavam a derramar lágrimas sentidas.
- Ah! Luciana, não posso viver sem você!
Por que fez isso comigo, por quê?
Ao pensar na amada, Marcela sentia que não havia outra saída para a sua dor.
Ou era a morte, ou a vida vazia. Preferia morrer.
Decidida, levantou-se e foi apanhar água na cozinha.
Voltou para o quarto e derramou o conteúdo do vidro de remédio nas mãos, enfiando todos os comprimidos na boca e sorvendo a água em goles largos.
Repetiu esse movimento até não restar mais nenhum comprimido no frasco.
Chorando cada vez mais, deitou-se na cama, acomodando-se sobre os travesseiros.
Apanhou o retrato de Luciana, agarrou-se a ele e fechou os olhos.
Agora era só esperar a chegada da morte.
Ao sair do apartamento que dividia com Marcela, Luciana sentia a garganta estrangular.
Afinal, foram muitos anos de convivência e, por mais que não quisesse continuar a viver com Marcela, a situação não lhe era indiferente.
Haviam sido amigas, amantes e confidentes por muito tempo.
Dividiram alegrias, tristezas e dificuldades.
Venceram na vida sozinhas, lutando contra tudo e contra todos, firmando-se no mundo como mulheres e pessoas de bem.
Aquilo não era um nada.
Ao contrário, era algo de que se lembrar e se orgulhar por toda a vida.
Naquele último ano, as coisas entre as duas não iam nada bem.
Luciana sentia vontade de conhecer outras pessoas, viajar, frequentar seminários e congressos relacionados à sua profissão.
Mas Marcela, embora não se opusesse, ficava insegura com a sua ausência, telefonando a toda hora para os hotéis em que ela se hospedava, cobrando as ligações não retornadas, temendo que ela se interessasse por mais alguém.
Mas o que Luciana queria era viver com liberdade.
Embora gostasse de conhecer pessoas interessantes, não era sexualmente que procurava se envolver com elas.
Apreciava as conversas intelectuais, principalmente aquelas relacionadas a sua profissão.
Pena que Marcela fosse tão insegura e assustada.
A muito custo conseguira passar num concurso também, para dar aulas de português numa escola científica.
Ela, Luciana, deixara o magistério para se dedicar à odontologia, para se entregar exclusivamente ao pequeno consultório que, com muito sacrifício, conseguia montar no Méier, juntamente com Maísa, uma amiga de faculdade.
Afinal, fora para isso que juntara dinheiro por tantos anos para poder realizar o sonho de ter um consultório que fosse seu.
A insegurança e os medos de Marcela foram, talvez, os maiores responsáveis pelo fim de seu relacionamento.
Luciana era muito decidida e segura, independente e confiante, tudo o que Marcela não era. Isso a decepcionava, porque Marcela era o seu oposto e não lhe causava admiração.
Nunca fazia o que Luciana esperava, encolhia-se diante de tudo e de todos, sempre com medo de que descobrissem o seu relacionamento.
Tal atitude foi cansando Luciana cada vez mais, até que, saturada e sem ver perspectivas de mudança em Marcela, decidiu que o melhor mesmo, dali em diante, seria se separarem.
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Re: DE FRENTE COM A VERDADE - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 09, 2015 10:02 am

Durante muito tempo, Luciana sentiu-se responsável por Marcela, por tê-la convencido a deixar Campos e a segurança dos pais.
Fora Maísa quem lhe mostrara que Marcela era dona de sua vida e capaz de decidir o seu próprio caminho.
- Sei como se sente - dissera Maísa.
Marcela veio de Campos atrás de você.
Mas veja o que fez por ela.
Não fosse por você, ela não estaria formada nem teria o emprego que tem.
Se for professora de letras, é graças a você.
- Não é bem assim, Maísa - contestou Luciana.
Marcela sempre foi muito inteligente.
- Mas não é nada decidida.
É medrosa e insegura.
Foi você quem lhe deu forças, quem a encorajou a ser alguém.
Agora está na hora de ela caminhar com as próprias pernas.
Não é justo que você se mantenha presa a quem não ama só por sentimento de culpa ou gratidão.
Maísa tanto falou, que Luciana resolveu tomar aquela decisão.
Gostava muito de Marcela, mas não podia mais viver com ela.
Queria liberdade para desfrutar da independência recém-conquistada.
E depois, não era justo abrir mão de seus planos para satisfazer as carências de Marcela.
Ela agora era uma mulher mais madura e capaz de gerir a própria vida.
Por isso, tomou aquela atitude.
Foi difícil terminar uma relação de mais de sete anos, mas estava decidida.
Procurou ser o mais amável possível, sem deixar de ser sincera.
Expôs a Marcela os seus sentimentos, seus anseios e afirmou que a decisão era irrevogável.
Não a amava mais, embora lhe tivesse muito afecto.
Queria o melhor para ela, mas queria o melhor para si também.
Podiam continuar sendo amigas, mas sem envolvimento emocional ou sexual.
Quando Marcela desatou a chorar e atirou-se em seus braços, implorando-lhe que não partisse, Luciana quase desistiu, mas algo dentro dela lhe dizia que seria pior.
Estaria alimentando uma mentira e passaria a viver insatisfeita para que Marcela não sofresse.
Não era justo nem com ela, nem com Marcela.
O melhor, para ambas, era a separação, por mais que Marcela não conseguisse enxergar dessa forma.
Com firmeza, Luciana desenvencilhou-se da companheira, apanhou a mala e partiu apressada, esquecendo-se até de deixar suas chaves.
Sabia que Marcela não a seguiria, com medo de que os vizinhos percebessem que ela estava desesperada por ter sido abandonada por outra mulher.
Luciana partiu, e Marcela ficou chorando atrás da porta, até que resolveu tomar aquela atitude extrema e desesperada.
Embora Luciana não soubesse de suas intenções, uma inquietação começou a se alastrar por seu peito, e um medo indizível se apossou de seu coração.
E se Marcela fizesse alguma besteira?
Luciana foi caminhando com aquela sensação horrível, tomou um táxi e se dirigiu para o apartamento de Maísa, com quem iria morar dali em diante.
Maísa não era homossexual, mas era pessoa de cabeça aberta e sem preconceitos, cujos pais a enviaram cedo para estudar no Rio de Janeiro.
Ao chegar à casa de Maísa, a amiga estava terminando de lavar a louça do jantar, Luciana pousou a mala na saleta e foi a seu encontro na cozinha.
- Sinto se não a esperei para jantar - disse Maísa - mas você demorou muito e eu estava morrendo de fome.
Ainda tem arroz e feijão na panela.
É só fritar um bife.
Ah! E tem salada na geladeira.
- Não quero nada, Maísa, obrigada.
Maísa enxugou as mãos no pano de prato e aproximou-se de Luciana, que se sentou à mesa.
- E aí? Como é que foi?
Correu tudo bem?
- Pior do que eu imaginava.
Marcela não quis aceitar e ficou desesperada.
Tive que largá-la chorando e sair meio na marra.
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Re: DE FRENTE COM A VERDADE - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 09, 2015 10:02 am

- Que coisa chata.
- Sim, foi muito chato.
E triste também.
- Mas o importante é que você conseguiu.
- Consegui... é, consegui.
Mas estou preocupada.
Sinto que Marcela é capaz de alguma besteira.
- Será?
- Não sei. Meu coração está pequenininho.
- Você quer que eu dê um pulo lá e veja se está tudo bem?
- Você faria isso?
- É claro. Não me custa nada.
E depois, também não quer que Marcela faça nenhuma besteira.
De posse das chaves que Luciana se esquecera de entregar Maísa chegou ao apartamento de Marcela.
Tocou a campainha uma, duas, três vezes e nada de Marcela abrir.
Encostou o ouvido na porta, mas não escutou nada.
Ou ela havia saído, ou não queria atender; ou, o que era pior, alguma coisa havia acontecido.
Maísa não podia esperar mais.
Apanhou a chave na bolsa e meteu-a na fechadura, abrindo-a com mãos trémulas.
- Marcela! - chamou.
Oi! Você está aí?
O apartamento estava escuro e em total silêncio, Maísa foi acendendo as luzes por onde passava.
Acendeu a sala, o corredor e deu uma espiada na cozinha, do outro lado.
Parecia deserta, e Maísa seguiu para o quarto.
A porta estava fechada, e ela bateu de leve.
Ninguém respondeu, e ela bateu novamente.
Silêncio. Experimentou a maçaneta, que cedeu de imediato.
Maísa empurrou a porta, que foi abrindo lentamente, e acendeu a luz.
Rapidamente, passou os olhos pelo quarto e viu...
Num átimo, compreendeu tudo.
Marcela deitada na cama, o retrato de Luciana em seus braços, o frasco de remédio no chão.
Maísa soltou um grito de pavor e correu para a outra, tentando escutar seu coração.
As batidas pareciam fracas, a respiração, quase inexistente.
Mais que depressa, correu para o telefone e ligou para o pronto-socorro.
Deu o endereço ao atendente, explicou mais ou menos a situação, largou o fone no gancho e arrancou o retrato de Luciana das mãos de Marcela, saindo às pressas logo em seguida.
Coração aos pulos, Maísa desceu as escadas correndo e foi ocultar-se do outro lado da rua, sob a sombra de um poste cuja lâmpada estava queimada.
Pouco depois, uma ambulância apareceu, e homens vestidos de branco entraram apressados no edifício.
Mais atrás, uma patrulhinha estacionou, e dois guardas desceram.
Alguns vizinhos apareceram nas janelas, mas ninguém sabia de nada, ninguém a havia visto.
Maísa tinha medo de qualquer coisa que se relacionasse à polícia, por causa de seu envolvimento com o movimento estudantil na faculdade.
Fizera parte da UNE e chegara a ser fichada na polícia, mas o pai do namorado, que era desembargador no Tribunal de Justiça, conseguira soltá-la.
De lá para cá, jurara a si mesma que não se envolveria mais com política ou a ditadura e evitava qualquer contacto com a polícia.
Instantes depois, os enfermeiros apareceram carregando uma maca, com o corpo de Marcela estendido e Maísa apertou os dentes na mão cerrada.
Estaria ela morta?
Não saberia dizer.
Esperou até que os guardas saíssem também e voltou para casa.
- E então? - indagou Luciana, logo que ela abriu a porta.
Como é que ela está?
Maísa estava lívida feito uma folha de papel.
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Re: DE FRENTE COM A VERDADE - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 09, 2015 10:03 am

Apanhou um copo de água e bebeu com avidez, jogando-se pesadamente no sofá.
- Você nem queira imaginar - começou ela a dizer.
Quando cheguei lá, encontrei Marcela deitada na cama, agarrada ao seu retrato, com um vidro de pílulas para dormir caído no chão.
- Meu Deus! Ela está morta?
- Não sei.
Quando saí, ela estava respirando.
- Você a deixou lá?
- É claro que não.
Liguei para a emergência e me mandei.
Ah! E tirei a foto das mãos dela.
Maísa apanhou na bolsa o retrato de Luciana, estendendo-o a ela.
- Por que fez isso? - quis saber Luciana.
- Você sabe que não posso ter complicações com a polícia.
Pensei que você também não quisesse.
Imagine o que a polícia não vai dizer quando descobrir que ela tentou se matar por sua causa.
- Mas o que aconteceu a ela?
Para onde a levaram?
- Para o hospital, é claro.
- Que hospital?
Como é que vamos saber para onde ela foi?
- Quer um conselho, Luciana?
Sei que é difícil, mas é melhor esquecer o que houve.
Não há nada que você possa fazer.
Marcela está sendo cuidada, não é mais problema seu.
- Como pode ser tão fria, Maísa?
E se ela morrer?
- Não quero que ela morra, mas não podemos fazer mais nada.
Agora, é com os médicos.
- Você está é com medo de que a polícia venha bater aqui não é?
- Já disse que não posso me envolver...
- Eu sei, eu sei!
Mas eu também não posso ficar aqui sentada sem saber o que aconteceu a Marcela.
Tenho que fazer alguma coisa.
- Acho melhor você não fazer nada.
A polícia vai querer saber quem foi que telefonou.
- Posso dizer que fui eu.
- Ah! É? E por que se mandou?
Só foge quem é culpado.
Pelo amor de Deus, Luciana, não me crie problemas.
Mais tarde, posso pedir ao Breno para ver se o pai dele descobre alguma coisa.
Embora contrariada, Luciana acabou aquiescendo.
Tinha medo de comprometer Maísa, que tudo fizera para ajudar.
Em consideração a ela, esperaria até o dia seguinte, quando Breno, seu namorado, poderia obter algum tipo de informação através do pai.
Se ele não conseguisse nada, ela mesma procuraria Marcela, nem que tivesse que telefonar para todos os hospitais da cidade.
Quando Marcela abriu os olhos, a primeira coisa que viu foi um moço louro, olhos azuis, todo vestido de branco, sorrindo para ela.
- Eu morri? - divagou ela, ainda meio zonza.
- Isto aqui não é o céu, nem eu sou o seu anjo da guarda - respondeu o rapaz, endereçando-lhe um sorriso compreensivo.
Você está no hospital do Andaraí, e eu sou o médico de plantão.
- Médico? Hospital?
Mas o quê...?
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Re: DE FRENTE COM A VERDADE - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 09, 2015 10:03 am

Só então Marcela se lembrou do que havia acontecido:
de Luciana, do desespero, dos remédios.
Sentiu-se profundamente constrangida com a situação.
Tinha medo de que descobrissem que ela havia tentado se matar por causa de outra mulher.
- Está tudo bem - confortou o médico.
Conseguimos chegar a tempo.
- Obrigada - falou ela timidamente.
Em seguida, fechou os olhos e adormeceu.
Certificando-se de que ela voltara a dormir, o médico auscultou-a ainda uma vez e foi cuidar de outros doentes.
Não conseguiu, contudo, desviar os pensamentos daquela moça.
Havia algo nela que lhe chamara a atenção.
O que levaria uma jovem tão linda àquele ato extremo?
Na certa, fora abandonada pelo namorado e não conseguira suportar a separação.
E onde estariam seus pais?
Por que ninguém aparecera para cuidar dela?
Mais tarde, quando ele retornou à enfermaria, Marcela já estava acordada, tomando a sopa que a enfermeira deixara em sua cabeceira.
- Olá - cumprimentou ele gentilmente.
Que bom que já está melhor!
- Obrigada... - murmurou ela, enfiando a colher de sopa na boca para não precisar dizer mais nada.
- Você se chama Marcela, não é?
- Como é que soube?
- A polícia me informou.
- Polícia? Mas eu não fiz nada de errado!
- Bem, você tentou se matar, e isso é caso de polícia.
Sabe como é, eles têm que saber se foi tentativa de suicídio mesmo.
- Isso foi... uma loucura.
Eu estava fora de mim.
- Não precisa falar nada.
Sei o quanto deve ser doloroso para você.
Procure não se lembrar de coisas tristes agora.
- Obrigada, doutor...
- Flávio. Mas não precisa me chamar de doutor, não.
Marcela achou encantador o sorriso de Flávio e abaixou os olhos, envergonhada.
Nunca, em toda a sua vida, tivera tal pensamento com relação a um homem.
- Quando vou ter alta?
- Amanhã. Você está muito bem, e não vejo motivos para mantê-la aqui - notando o seu ar de tristeza, Flávio considerou.
O que há? Não está contente por poder sair?
- Estou... Mas é que...
A frase morreu em seus lábios.
Em lugar de palavras, o que saiu de sua boca foram soluços angustiados e sentidos, e ela afundou o rosto no travesseiro, chorando copiosamente.
Penalizado, Flávio alisou os seus cabelos, sentindo estranha comoção a dominá-lo e retrucou com ternura:
- Chorar faz bem à alma e ao coração.
Deixe que as lágrimas lavem o seu peito de toda a dor.
Ouvindo tão ternas palavras, Marcela redobrou o pranto, agarrando a mão que a acariciava.
Só depois de muitos minutos foi que ela parou e, durante todo aquele tempo, Flávio permitiu que ela segurasse a sua mão, apertando a dela como a lhe transmitir força.
Quando ela finalmente se acalmou, enxugou os olhos e evitando encará-lo, disse em tom de desculpas:
- Sinto muito, doutor Flávio...
É que é tudo tão difícil...!
- Eu sei, compreendo.
Você passou por momentos realmente difíceis.
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Re: DE FRENTE COM A VERDADE - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 09, 2015 10:03 am

Esteve entre a vida e a morte e, embora eu não saiba nem queira saber que motivos a levaram a tão desesperado ato, sei que deve ter sido algo também muito difícil.
Mas você está viva, e é isso o que importa.
- Estou sozinha no mundo.
Nada mais me resta...
- Não diga isso.
Você é jovem, tem a vida toda pela frente.
- Sinto que minha vida acabou...
Flávio estava certo de que Marcela havia passado por grave decepção amorosa, mas não queria constrangê-la nem reavivar lembranças dolorosas.
- Sua vida mal começou - tornou ele, animador.
Pessoas e coisas vêm e vão de nossas vidas, deixam marcas em nossos corações, mas não têm o poder de levar nossa alegria com elas.
Você só precisa se recuperar e descobrir quantas coisas boas pode fazer por você.
- Não posso fazer nada por mim.
- Não é verdade.
Pode dar o melhor de si.
E a sua contribuição para o mundo?
- Não tenho nada para dar ao mundo.
- Não acredito.
O que você faz?
- Sou professora de literatura.
- É mesmo?
Viu só como você é útil e importante?
Quantos alunos dependem de você, neste momento, para se educar e crescer?
- Há muitos professores de literatura no mundo.
- Mas, se você sumir, o mundo vai ter um a menos.
Não será uma pena?
Marcela não pôde deixar de sorrir.
O doutor Flávio estava se esmerando para animá-la, e ela ficava contradizendo tudo o que ele dizia, com um pessimismo que já começava a ser desagradável.
- O senhor tem razão, doutor.
O que fiz foi uma tolice, mas eu estava desesperada.
- Desespero também vem e vai.
Se tivermos paciência e confiança, ele desaparece como veio.
- O senhor é sempre assim tão optimista?
- Muito mais quando deixam de me chamar de senhor - ela riu com mais desenvoltura, e ele sentiu que estava preso àquele sorriso ingénuo e até mesmo infantil.
Sabia que tem um lindo sorriso? - prosseguiu ele, fazendo-a corar.
- Está sendo gentil - retrucou-a, ao mesmo tempo feliz e embaraçada com aquele elogio.
- Quantos anos você tem?
- Vinte e seis, quase vinte e sete.
- Tudo isso?
Parece mais jovem.
- Obrigada.
E você, quantos anos tem?
- Vinte e nove - e, baixando a voz, acrescentou em tom jovial:
E ainda estou solteiro.
Ela tornou a rir e, quando deu por si, estava em animada conversa com aquele médico desconhecido.
Ficaram conversando amenidades por quase uma hora, até que a enfermeira veio chamá-lo para atender outro paciente.
- Virá me ver antes de eu ir embora? - indagou ela, só então se dando conta do quanto a companhia dele lhe fazia bem.
- É claro!
Ou pensa que vou deixá-la me abandonar assim?
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Re: DE FRENTE COM A VERDADE - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 09, 2015 10:03 am

Ele sorriu e lhe atirou um beijo com as mãos, que ela fingiu apanhar no ar.
Por uns momentos, desligara-se da realidade, presa ao encantamento daquele médico.
O que seria aquilo?
Por que sentira tanta simpatia por um estranho?
Marcela nunca tivera um namorado.
A única pessoa com quem se relacionara fora Luciana.
O que estaria acontecendo agora que a fazia interessar-se por um homem?
Será que estaria mesmo interessada?
Ou se deixara levar pela gentileza com que ele a tratava em um momento tão difícil?
De qualquer forma, era muito bom sentir-se admirada e desejada, ainda mais por um rapaz bem-apessoado como o doutor Flávio.
Enquanto isso, Luciana se retorcia de preocupação, colada a Breno, namorado de Maísa, que tentava descobrir o paradeiro de Marcela.
Alguns telefonemas depois, finalmente descobriu-a no hospital do Andaraí, onde dera entrada dois dias antes e fora imediatamente socorrida, submetendo-se a uma lavagem estomacal para retirada dos muitos remédios para dormir que havia ingerido.
Naquele momento, encontrava-se bem e fora de perigo.
- Graças a Deus! - exclamou Luciana, bastante aliviada.
Por instantes, temi pelo pior.
- Viu? - tornou Maísa.
Ela está bem. Está satisfeita?
- Gostaria de visitá-la.
- Não sei se seria boa ideia - rebateu Breno.
A polícia pode fazer perguntas.
- Mas que medo da polícia, vocês dois, hein?
- Sabe que Maísa não pode envolver-se.
- Sei, sei. Mas e eu?
Não tenho nada com isso.
- Por favor, Luciana - pediu Maísa -, não vá.
Ela está bem. Você pode visitá-la depois.
- Mas ela vai achar que eu não estou me importando!
- Ou pode pensar que você se arrependeu e quer voltar.
- Ora, Maísa, francamente, isso não é hora de pensar nisso.
- Mande-lhe algumas flores - sugeriu Breno.
- Isso também pode não ser uma boa ideia - contrapôs Maísa.
A polícia pode querer saber quem foi que mandou as flores.
- Querem saber de uma coisa, vocês dois? - redarguiu Luciana, irritada.
Vou mandar-lhe flores, sim.
E, se a polícia fizer perguntas, azar.
Direi que fui eu que chamei a emergência e fugi apavorada.
Sem dar atenção aos protestos de Maísa, Luciana comprou um lindo buquê de rosas amarelas e o enviou a Marcela, no hospital.
Queria ir pessoalmente, mas ainda não estava certa se seria mesmo uma boa ideia.
Maísa dissera tantas coisas sobre polícia, que ela, no fundo, tinha medo de comprometer a amiga.
Mas flores, ela pensava, não fariam nenhum mal.
Para a polícia, o caso estava encerrado antes mesmo de começar.
Assim que viram a moça estirada na cama, com o vidro de remédios ao lado, os policiais concluíram que se tratava mesmo de uma tentativa de suicídio.
Não havia dúvidas.
Os vizinhos disseram que ela morava com uma amiga, e eles deduziram que a tal amiga havia-lhe roubado o namorado, o que a levara ao gesto extremo.
Não havia mais o que questionar.
Ao despertar na manhã seguinte, Marcela sentiu o perfume suave das flores invadindo suas narinas e surpreendeu-se vendo que elas haviam sido enviadas por Luciana.
- Enfermeira! - chamou ela, com o cartãozinho nas mãos.
Quem trouxe estas flores?
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Re: DE FRENTE COM A VERDADE - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 09, 2015 10:03 am

- O rapazinho da floricultura.
Não são lindas?
- E a pessoa que as enviou?
Não veio também?
- Ninguém veio visitá-la, sinto muito.
- Não tem importância.
- Não fique triste.
Você vai sair hoje.
O doutor Flávio, em pessoa, disse que virá para assinar a alta.
Ele não é bonitão?
Marcela assentiu, sem graça.
- E parece que gostou de você.
- Acho que não é bem assim.
Ele estava apenas sendo educado.
- Muito educado!
Ora, vamos, menina, não ligue para esse antigo namorado.
Foi por causa de um rapaz, não foi?
Que você tentou se matar?
Esqueça-o. Ele não a merece.
Marcela sorriu meio sem jeito e ocultou o cartão entre as mãos.
Não queria que ninguém soubesse que ela tentara se matar por causa de uma mulher.
- Vou esquecer - afirmou, achando que seria melhor que todos pensassem que a tentativa de suicídio fora devido a um namorado.
- Ah! Veja, o doutor Flávio já chegou.
Adeus, menina, e boa sorte.
- Bom dia - cumprimentou ele, tomando-lhe o pulso nas mãos.
Sente-se bem?
- Sim.
- Óptimo - em seguida, auscultou-a novamente, examinou seus olhos e apertou sua barriga.
Sente alguma dor?
- Não.
- Muito bem. Você já pode ir.
Tem alguém para buscá-la?
Instintivamente, Marcela olhou para as flores ao lado da cama e respondeu com tristeza:
- Não.
Foi então que Flávio notou as rosas amarelas e retrucou com certo desapontamento:
- Vejo que você tem um admirador.
- Não. São... de uma amiga.
- Uma amiga? Tem certeza?
- Tenho.
Ela exibiu o envelope onde Luciana depositara o cartãozinho e, ao ler o nome da moça, Flávio suspirou mais animado.
- Menos mal.
Pensei que mais alguém estivesse interessado em roubar o seu coração.
- Mais alguém?
- Não diga nada, mas eu sou o outro alguém.
Ela corou violentamente e não respondeu.
- Desde ontem, não consigo parar de pensar em você.
Será que não podemos nos encontrar fora daqui?
- Nos encontrarmos fora daqui?
- Sei que o momento não é o mais apropriado, mas gostaria de, ao menos, ser seu amigo.
- Meu amigo?
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Re: DE FRENTE COM A VERDADE - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 09, 2015 10:04 am

- Será que você vai ficar repetindo tudo o que eu digo?
Por que não me dá uma resposta directa?
Se você não quiser se encontrar comigo, tudo bem, eu vou embora e nós nunca mais nos veremos.
Mas, se você me der uma chance, prometo que não vai se arrepender.
Pelo jeito como falava, Flávio parecia muito interessado nela.
E, pelo visto, nada sabia sobre seu envolvimento com Luciana.
Marcela ficou se perguntando o que todos teriam pensado ao encontrá-la inconsciente, agarrada ao retrato da outra, mas não teve coragem de perguntar.
Talvez Flávio não soubesse desse detalhe, e não seria ela quem iria lhe dizer.
Ainda mais porque se sentia imensamente atraída por ele.
Não compreendia de onde vinha tanta atracção, mas, naquele momento, não tencionava questionar.
Podia ser que Flávio representasse apenas um amigo, alguém em quem pudesse se apoiar naquele momento tão difícil, e depois ela se desinteressasse dele com a mesma velocidade com que se interessara.
Fosse como fosse, precisava ocultar-lhe a verdade a qualquer custo.
- Gostaria muito de encontrá-lo fora daqui - sussurrou ela, finalmente.
- Sério?
- Sério. Você me parece uma boa pessoa, e estou precisando de um amigo.
- Excelente! Onde é que você mora?
- Dê-me um pedaço de papel, que escreverei meu telefone e o endereço.
Ele catou no bolso um pedacinho de papel, uma caneta e estendeu-os a ela, que os apanhou e anotou tudo.
Devolveu-os, e ele a fitou com interesse.
- Quando poderei vê-la?
- Quando quiser.
- Saio do plantão às sete.
Posso passar na sua casa às oito?
Apanhá-la para jantar?
- Às oito horas está bom.
Estarei esperando.
Marcela abaixou novamente os olhos, engoliu em seco e prosseguiu constrangida:
- Flávio... Não sei como lhe dizer isso, mas... estou sem dinheiro.
Quando me trouxeram para cá, vim sem a carteira.
Será que você podia me emprestar dinheiro para o táxi?
Lhe pago quando você chegar lá em casa.
Ele retirou algumas notas do bolso e depositou-as na mão de Marcela, acrescentando com carinho:
- Vá com calma, menina.
Não deixe que nada mais lhe aconteça.
De hoje em diante, você tem um amigo que se interessa por você.
Marcela podia sentir a sinceridade na sua voz, e uma calma inigualável foi tomando conta dela.
Ele teve que sair para atender outros doentes, e ela se levantou, indo aprontar-se para sair.
Meteu o cartãozinho de Luciana no bolso, apanhou as flores do vaso e se foi.
O apartamento parecia vazio sem os vestígios de Luciana.
O armário sem roupas, um buraco na estante onde ficavam seus livros.
Marcela estava sozinha, e uma profunda tristeza a foi dominando por inteiro.
De repente, a lembrança de Luciana lhe trouxe lágrimas aos olhos, e ela se atirou na cama, chorando sem parar.
Ficou deitada por quase uma hora, acariciando o lugar que ainda guardava o cheiro da outra.
Tudo parecia um sonho; ou melhor, um pesadelo.
s flores que Marcela colocara no vaso, em cima da escrivaninha, davam-lhe a certeza de que Luciana se fora de vez.
Ela era sempre muito segura e não costumava voltar atrás em suas decisões.
Nunca se arrependia de nada, porque pesava muito os prós e os contras antes de agir. Luciana não tinha medo de viver.
Fazia o que bem entendia e enfrentava as dificuldades com coragem e persistência, sem depender de ninguém.
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Re: DE FRENTE COM A VERDADE - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 09, 2015 10:04 am

Não era feito ela, medrosa e insegura, dependente do amor e da presença de mais alguém.
Desde que saíra de Campos, nunca ficara sozinha.
As duas, até então, estavam sempre juntas, saíam juntas, viajavam juntas.
Luciana não se importava com o que as pessoas pensassem dela e, embora não assumisse publicamente que vivia com outra mulher, não se escondia do mundo nem inventava mentiras para manter as aparências.
Na faculdade, Marcela sempre se esquivara das outras moças, com medo de que lhe fizessem perguntas e acabassem descobrindo sua relação com Luciana.
Para todos os efeitos, elas eram apenas duas amigas que vieram de Campos e dividiam agora um apartamento.
Se alguém desconfiou, não disse nada, e Marcela também não pediu a opinião de ninguém.
Os rapazes, no começo, ainda tentaram umas investidas, mas ela era tão fria, tão distante e fechada, que eles logo desistiram.
Só vivia para Luciana.
Por que ter outros amigos se Luciana lhe bastava?
Embora a companheira lhe dissesse que era bom ter novas amizades, Marcela não conseguia.
O medo e a insegurança a afastavam de todos, e ela pensava que, enquanto tivesse Luciana, não precisaria de mais ninguém.
Achava que a outra também agiria assim e ficou um tanto decepcionada quando ela voltou para casa, um dia, em companhia de Maísa.
Marcela ficou ofendida e magoada, com ciúmes e insegura.
Mas Maísa mostrou-se desligada de tudo aquilo e apareceu depois com o namorado, deixando claro que não estava interessada em Luciana.
O ciúme foi passando, até que ela teve certeza de que as duas eram apenas amigas, e Luciana havia se aproximado de Maísa porque ela era uma moça livre, que também saíra de casa, no interior, para vir estudar no Rio, e não se importava se elas eram lésbicas ou não.
Bem diferente das outras garotas, que viviam com os pais e estavam acostumadas a fazer tudo certinho.
Foram tempos maravilhosos ao lado de Luciana, mas aquilo agora havia acabado.
Por causa dela, Marcela quase cometera uma loucura.
Nem sabia por que não tinha morrido.
Alguém a socorrera, mas ela não sabia quem fora.
E o retrato de Luciana, ao qual se agarrara antes de perder a consciência?
Onde teria ido parar?
Procurou-o rapidamente, mas não o encontrou por ali.
Talvez Luciana tivesse voltado e a encontrado desmaiada, chamando então os médicos e levando consigo o retrato.
Só podia ser isso.
A campainha do telefone soou estridente, e Marcela levou um susto, correndo para ele com ansiedade.
Talvez fosse Luciana.
Só podia ser Luciana!
- Alô? - atendeu com excitação.
- Marcela, é você?
A voz de homem a assustou, e ela respondeu decepcionada:
- Eu mesma. Quem é?
- Flávio. Já se esqueceu de mim?
Ela se lembrou do médico novamente, e seu coração se desanuviou.
De repente, a imagem de Luciana desapareceu de seus pensamentos, e uma alegria incontida tomou conta de sua alma.
- Doutor Flávio!
É claro que não me esqueci do senhor.
- Pensei que já tivéssemos superado a fase das formalidades.
Ela riu gostosamente e retrucou de bom humor:
- Desculpe-me, Flávio.
É que minha mãe me ensinou a ser uma moça educada.
- Você é. Educada e maravilhosa.
Ela não respondeu, intimamente sorrindo ante aquelas palavras.
- Ei! Você ainda está aí?
- Estou aqui.
- Que bom.
Pensei que já tivesse me abandonado antes mesmo de começar a sair comigo.
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Re: DE FRENTE COM A VERDADE - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 09, 2015 10:04 am

- É claro que não.
- Óptimo.
E agora deixemos as brincadeiras de lado.
Liguei para saber como você está passando.
- Estou bem.
- Nenhuma depressão?
Sabe como é, a volta para casa costuma trazer lembranças que reavivam o desejo de morrer.
Ele foi tão directo que ela se chocou e respondeu com hesitação:
- Não quero morrer... Não mais.
- Fico feliz. Então, descanse por hoje, ou melhor, até a noite, e arrume-se bem bonita.
Vou levá-la a um lugar especial.
- Que lugar?
- Você vai ver. Um beijo e até mais.
- Outro...
Flávio desligou o telefone, e ela pousou o fone no gancho.
O que seria aquilo que estava sentindo?
Nunca se interessara por nenhuma outra pessoa além de Luciana, mas agora se pegava pensando naquele médico.
Era bonito, charmoso e muito espirituoso.
E estava interessado nela.
Será que ela estaria se interessando por ele também?
Ou estaria apenas sensibilizada com tanta atenção?
Pensando nisso, Marcela desejou que aquele sentimento que começava a brotar pelo médico não se extinguisse com o passar do tempo.
Estava sendo muito bom sentir-se desejada por ele, e mais, desejá-lo também.
De repente, ficou imaginando como seria fazer amor com um homem, e seu corpo encheu-se de desejo.
Que novas sensações seriam aquelas que estava experimentando?
Subitamente, percebeu que queria estar bonita para quando ele chegasse.
Deixando de lado a saudade de Luciana, abriu a porta do armário e começou a revirar suas roupas.
Não tinha nada deslumbrante.
Não costumava ser feminina, vestia-se com simplicidade, geralmente de calça jeans e camiseta de malha.
Mesmo quando ia trabalhar, colocava uma saia recta e sem graça, sapatos rasteiros e quase não usava maquilhagem.
Só um pouco de blush e batom bem clarinho.
Naquela noite, contudo, usaria algo especial.
Queria impressionar Flávio.
Antes, queria impressionar a si mesma.
Uma vontade de se fazer bonita para ele a foi dominando, e ela amaldiçoou o armário.
Precisava sair e comprar roupas novas.
Começaria uma nova vida dali em diante, e a mudança no guarda-roupa seria a primeira que empreenderia.
Tomou um banho rápido, vestiu-se apressada e foi às compras.
Ainda bem que era período de férias escolares, e ela podia fazer de seu tempo o que bem entendesse.
Passou a manhã toda fazendo compras, o que a ajudou a não pensar em Luciana.
Comprou coisas bonitas, que nunca havia usado antes, e voltou para casa satisfeita, carregada de embrulhos.
Fez uma arrumação no armário, separando as peças que já não queria mais, e usou o lado de Luciana para guardar as roupas e os sapatos novos.
A tarde passou, e ela nem percebeu.
Ao terminar a arrumação, estava cansada e com fome, mas valera a pena.
Juntara duas sacolas de roupas usadas, que entregaria num asilo, e o armário estava limpo e arrumado, cheio de roupas bonitas penduradas e sapatos brilhantes enfeitando a sapateira.
Terminara tudo bem a tempo.
O relógio da sala batera seis horas.
Era hora de começar a se aprontar.
Marcela tomou um banho demorado, lavou os cabelos e escolheu o vestido branco que comprara especialmente para aquela noite.
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Re: DE FRENTE COM A VERDADE - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 09, 2015 10:05 am

Calçou sandálias de salto alto, que não estava acostumada a usar, e passou a maquilhagem desajeitadamente.
Atrapalhou-se um pouco com a sombra e o lápis de olho, mas insistiu até conseguir um bom resultado.
O cabelo precisava de um corte, mas não estava ruim, e ela o penteou vigorosamente, deixando-o solto por cima dos ombros.
As unhas estavam pintadas com um esmalte quase branco, e ela decidiu que, da próxima vez, usaria um tom mais vivo, como um rosa ou um vermelho.
Ao final, olhou-se no espelho, deu uma, duas voltas, apreciando o efeito que a roda do vestido fazia, e sorriu satisfeita, muito satisfeita.
Nunca se achara tão bonita como naquele dia.
Às oito horas em ponto, Flávio tocou a campainha, e seu coração deu um salto.
Será que ele a acharia bonita?
Queria, desesperadamente, que ele a achasse bonita.
E Luciana? Se a visse daquele jeito, será que aprovaria?
Não, não queria pensar em Luciana.
Balançou a cabeça de um lado a outro, apanhou a bolsa nova e saiu cambaleante, tentando se equilibrar no imenso salto a que não estava acostumada.
- Você está linda - elogiou Flávio assim que ela apareceu, beijando-a de leve no rosto.
Realmente deslumbrante.
- Obrigada - falou ela, abaixando os olhos e corando levemente.
Foram a um restaurante elegante, onde Flávio já era conhecido e havia reservado uma mesa.
Escolheram os pratos, e ele pediu champanhe.
Esperou até que o garção os servisse e levantou a taça, dizendo com animação:
- Ao futuro e à vida - e, olhando fixamente em seus olhos, concluiu: E a nós dois.
Ela apenas sorriu e brindou com ele.
Estava feliz e satisfeita, nem pensava em Luciana.
- Como foi o seu dia? - indagou ele, para puxar assunto.
- Foi bom.
Fiz umas compras e arrumei o armário.
- Muito bem!
Nada como jogar fora o velho para começar vida nova.
- É verdade.
Flávio evitava tocar no assunto do quase suicídio, e ela também não queria falar sobre aquilo.
Não havia pensado em nada para lhe dizer.
Só o que sabia era que não poderia lhe contar a verdade.
O que ele pensaria se descobrisse que ela fora amante de outra mulher e tentara se matar por causa dela?
E, mais ainda, que estava apaixonada por ela e queria muito que ela voltasse?
Ah! Se Luciana voltasse, largaria tudo e correria para ela.
Nem pensaria mais em Flávio.
- Você mora sozinha? - perguntou ele, de forma casual.
- Moro.
- E os seus pais, onde estão?
- Em Campos, onde nasci.
- Tem contacto com eles?
- Não. Faz tempo que não os vejo.
- Não sente falta deles?
Fazia muito tempo que Marcela não pensava nos pais.
Depois que fugira de Campos, telefonara para tranquilizá-los, mas o pai a recebera mal, dizendo que não tinha mais filha.
Ficara sabendo do seu envolvimento com Luciana e se chocara.
Não queria vê-la nunca mais.
Dois anos depois, ligou para eles novamente, no Natal, e descobriu que agora tinha um irmãozinho, e o pai fora bem claro ao afirmar que não precisava mais dela.
Tinha um filho que lhe traria orgulho e alegrias, e jamais o decepcionaria como Marcela o fizera.
Ela ficou contente com o nascimento do bebé e demonstrou o desejo de conhecê-lo, mas o pai foi categórico:
não queria que ela se envolvesse com o pequeno e não pretendia deixar que ele soubesse que, um dia, tivera uma irmã.
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Re: DE FRENTE COM A VERDADE - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 10, 2015 11:35 am

Marcela ainda tentou apelar para a mãe, mas ela, encantada com o caçula temporão, endossou as palavras do pai e pediu para que ela nunca mais os procurasse.
Flávio, contudo, jamais poderia conhecer essa parte da sua vida, e ela respondeu com receio:
- Saí de Campos há oito anos, e acabamos perdendo contacto.
Hoje somos quase estranhos.
- Mas por quê? Vocês brigaram?
- Não é que tenhamos brigado.
Fugi de casa aos dezoito anos.
Queria estudar, viver numa cidade grande, e meus pais não concordavam.
Sabe como é: gente de cidade pequena, eles tinham medo de que eu me perdesse aqui no Rio.
- Entendo. Mas por que você não os procurou depois de formada?
Já maior de idade, dona do seu nariz, com emprego.
- No começo, foi difícil.
Mas eu consegui me formar e passar num concurso.
- Seus pais não sentem orgulho de você?
- Devem sentir... Não sei bem.
Eles não aprovam mulheres que trabalham fora.
- Você é uma moça muito corajosa e determinada.
Poucas, no seu lugar, teriam ido tão longe.
A maioria vem para cá e, ante as dificuldades, acaba se perdendo e caindo na vida, ou então consegue um emprego de doméstica ou balconista.
Não que eu tenha algum tipo de preconceito contra essas profissões, em absoluto.
Acho que todas são necessárias e valorizo muito quem trabalha assim.
Mas esse não é o sonho de quem se muda para a cidade grande, não é mesmo?
- Acho que não.
Marcela respondeu com temor, embora ele nada percebesse.
Então ele a achava corajosa e determinada?
Mas como, se ela era insegura e amedrontada?
Era o que parecia, porque ele não a conhecia, não conhecia Luciana, não sabia que fora ela a responsável por todo o sucesso na sua vida.
E agora, sem ela, sentia-se perdida e abandonada, sem ninguém para cuidar dela.
Talvez Flávio cuidasse dela.
Era um homem bom e, ele sim, determinado e muito seguro de si mesmo.
- Você está me ouvindo? - tornou ele, percebendo que ela não lhe prestava mais atenção.
A comida chegou.
- O quê? - ela se assustou, vendo o prato que o garção colocara diante dela.
Oh! Desculpe-me, Flávio, de repente, me desliguei.
- Percebi.
São lembranças ou fantasmas?
- Acho que um pouco dos dois.
Estava pensando na minha família.
- Só nisso?
- Sim. Por quê?
- Por nada.
É claro que Flávio achava que ela pensava no suposto ex-namorado, causa de todo o seu infortúnio, mas ela nada fez para diluir essa impressão.
Evitaria ao máximo tocar naquele assunto com Flávio ou com qualquer outra pessoa.
Ele, por sua vez, julgando que ela ainda não estava pronta para falar, e não querendo invadir a sua privacidade, silenciou e não fez mais perguntas a respeito.
- O que fazem seus pais? - o retrucou, como se de nada desconfiasse.
- Minha mãe é dona de casa, e meu pai tem uma padaria.
- Você tem irmãos?
- Tenho. Deve estar com uns seis anos agora.
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Re: DE FRENTE COM A VERDADE - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 10, 2015 11:35 am

- Deve ser bom ter um irmão pequeno.
- Você é filho único?
- Sou.
- Na verdade, é como se eu também fosse.
Quando ele nasceu, eu já tinha ido embora de Campos.
Fui criada sozinha.
- Você não o conhece?
- Não.
Era a primeira vez que Marcela falava sobre a família com alguém, além de Luciana, o que a deixou confusa.
Mas Flávio, notando o seu desconforto e não conseguindo mais conter a admiração, perguntou sem rodeios:
- Você quer me namorar?
- O que foi que disse? - tornou ela, perplexa.
- Sei que a hora não é a mais oportuna.
Você passou por momentos difíceis e talvez ainda não se sinta pronta para iniciar uma nova relação.
Mas, desde que a vi hoje pela manhã, não consigo parar de pensar em você.
Estou sendo sincero, foi amor à primeira vista.
Ela riu em dúvida e objectou:
- Amor à primeira vista...
Não sei se acredito nisso.
- Eu também não acreditava, até conhecer você.
Quando a vi, meu coração deu uma cambalhota e quase foi parar no estômago.
Parecia até que já a conhecia antes.
- Você está sendo romântico.
- Pode até ser.
Mas uma coisa é certa:
você me impressionou como nenhuma outra jamais o fez.
Em um dia, cativou mais o meu coração do que tantas outras já tentaram fazer em anos.
- Convencido. Só para me dizer que já teve muitas mulheres apaixonadas por você.
- Não é nada disso.
Tive muitas namoradas, não nego, e algumas se apaixonaram mesmo por mim.
Mas eu jamais me interessei por nenhuma delas.
Não como estou interessado em você.
- E quem me garante que esse interesse não vai passar um dia?
Talvez você descubra que eu sou como todas as outras e se desinteresse de mim também.
- Você não é como as outras.
Aquela conversa estava deixando-a confusa e transtornada.
Como será que ele reagiria se soubesse de Luciana?
Ele tinha razão:
ela não era como as outras.
Seria certo enganá-lo, deixando-o pensar que ela só se relacionara com homens?
Esse pensamento a assustou, e ela contrapôs acabrunhada:
- Você não se incomoda com o facto de eu... ter feito o que fiz?
- O que você fez?
Nada. Foi um acto de desespero.
Sei que não faria isso de novo.
- Como pode ter tanta certeza?
- Eu estarei aqui para ajudá-la.
Não sei o que se passou entre você e seu namorado, nem me interessa saber.
- Não interessa?
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Re: DE FRENTE COM A VERDADE - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 10, 2015 11:35 am

- Não. Se você quiser me contar, muito bem.
Antes de tudo, quero ser seu amigo, e você pode confiar em mim.
Mas, se não quiser falar, não faz mal.
O que você fez da sua vida antes de me conhecer não é problema meu.
- Tem certeza?
- Tenho.
- Qualquer coisa?
- Se está tentando me dizer que se entregou ao seu namorado, não precisa se preocupar.
Não sou do tipo conservador e não me importo com isso.
Não me importaria nem se você já tivesse dormido com a torcida do Flamengo inteira.
Como ele era inocente!
Achava que ela dormira com outro homem e não era mais virgem.
É claro que ela não era mais virgem, mas perdera a virgindade em suas loucuras com Luciana.
O que ele diria se soubesse que ela foi desflorada por outra mulher?
Teria a mesma compreensão que demonstrava agora?
Pensou em lhe contar a verdade para ver como ele reagiria.
Se não a aceitasse, não tinha problema.
Era praticamente um desconhecido, e ela não sentia nada por ele.
Ia se preparar para lhe contar tudo sobre Luciana quando algo surpreendente aconteceu.
Eles estavam sentados, de frente um para o outro, e Flávio, inesperadamente, puxou a sua cabeça, aproximando-a de si, e pousou-lhe delicado beijo nos lábios, que ela correspondeu com medo e prazer.
- Isso é para você ver como não faz diferença o que você fez com seu namorado - falou ele, os lábios ainda se roçando.
- Posso amá-la e respeitá-la ainda assim, tenha você dormido ou não com outros homens.
Aquele beijo encheu-a de desejo, e ela se pegou pensando novamente em como seria fazer sexo com ele.
Quanto mais pensava, mais o desejo aumentava, e seu coração começou a bater mais forte, a respiração foi-se acelerando, e um suor frio desceu de sua testa.
Ele a beijou novamente e sussurrou em seu ouvido:
- Vamos sair daqui.
A decisão de lhe contar sobre Luciana se esvaiu naquele beijo, e ela nada disse.
Ele pagou a conta, e saíram para a noite.
Entraram no carro, e ele dirigiu até um motel.
Marcela estava assustada, nunca antes havia entrado em um motel, nunca antes se vira numa situação daquelas com alguém além de Luciana.
Era a primeira vez que se relacionaria com um homem.
Um pânico a invadiu, e ela pensou em desistir, mas a mão direita de Flávio, deslizando entre suas coxas, fez com que ela reconsiderasse e só pensasse nele.
Ao levá-la para o quarto, Flávio agiu gentilmente, despertando-lhe sensações que ela nunca antes havia experimentado com Luciana.
Ela não entendia.
Como podia ser que ela, que sempre fora apaixonada por Luciana, se pegava agora ardendo de desejo por um homem, suspirando e gemendo sob seu corpo e em seus braços?
Em dado momento, não conseguiu pensar em mais nada, entregando-se à paixão daquele homem com um ardor incontrolável.
Amaram-se por quase toda a noite e, ao final, ela estava feliz e extasiada, certa de que nunca sentira tanto prazer em sua vida.
Olhando para ele, Marcela teve certeza de que agora mesmo é que não conseguiria lhe contar nada.
Os momentos que vivera com ele naquela noite haviam sido maravilhosos e inigualáveis, e ela começava a sentir que não suportaria perder alguém novamente.
Se Flávio desistisse dela, a frustração seria muito grande.
Por outro lado, se ele tivesse que partir, seria preferível que o fizesse logo no começo, enquanto ela ainda não o amava.
Marcela, no entanto, sabia que já não poderia mais lhe contar a verdade.
Envolvera-se com ele, em apenas uma noite, de tal forma, que não poderia mais prescindir da sua presença.
Não lhe contaria nada sobre Luciana.
Ele nada sabia a respeito e não precisava saber.
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Re: DE FRENTE COM A VERDADE - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 10, 2015 11:35 am

Não fora ele mesmo que lhe dissera que seu passado não lhe interessava?
Que ela não tinha que lhe contar nada, se não quisesse?
Então, ela podia se sentir desobrigada de lhe contar a verdade.
A dúvida ainda era muito grande, porém, e ela não conseguia se decidir realmente, até que ele a beijou de novo e recomeçou a acariciá-la, sussurrando com paixão:
- Você é a mulher mais maravilhosa que já conheci.
Estou apaixonado...
Beijou-a com ardor, e ela se entregou a ele outra vez, finalmente sepultando, no mais profundo de seu ser, a vontade de lhe contar sobre Luciana.
Fazia muito calor, Luciana caminhava esbaforida, pulando de sombra em sombra para escapar do sol escaldante.
Como gostaria de estar de férias!
Mas trabalhava em seu próprio consultório particular, e profissionais liberais não podiam se dar ao luxo de ter férias enquanto ainda não se firmassem e fizessem nome.
E era para isso que se esforçava.
Mais alguns minutos e alcançou o edifício comercial em que ficava o consultório.
Subiu de elevador e entrou encalorada em seu consultório, indo directo beber água.
Na outra sala, o barulho do motor se fazia ouvir, e ela se sentou para refrescar-se.
Ainda bem que a sala tinha ar condicionado.
Fora o único luxo que ela e Maísa puderam pagar.
Mais alguns minutos, a porta da sala foi aberta, e o paciente de Maísa saiu.
- Precisamos contratar uma secretária - disse ela, fechando a porta depois que o rapaz se foi.
Está ficando difícil atender os clientes e ainda ter que atender telefone, marcar consultas e cuidar da parte bancária.
- Você tem razão.
Providenciaremos isso mais tarde.
- Mais tarde, não.
Tem que ser para já.
- Podemos pôr um anúncio no jornal.
- Não seria melhor pedirmos numa agência?
E se aparecer aqui alguma louca, espiã do governo...?
- Deixe de bobagens, Maísa.
Você agora não se envolve mais com essas coisas.
Vou colocar um anúncio no jornal e marcar entrevistas para depois do expediente.
O que você acha?
- Se você garante que não tem perigo, para mim, está bom.
- Não tem perigo. Pode crer.
- Então está bem. Você cuida disso?
- Cuido, pode deixar.
- Ah! Já ia me esquecendo.
Sabe quem eu vi hoje de manhã, quando vinha para cá?
- Quem?
- A Marcela. E adivinhe só!
- O quê?
- Estava de mãos dadas com um rapaz.
- Com um rapaz?
Está brincando!
- Não estou, não.
E parecia bem feliz.
- Será que ela virou hetero (1) agora?
- Vai ver que depois que você a deixou, ela ficou tão decepcionada que resolveu experimentar outras coisas.
E pela cara dela, acho que gostou.
Se bem que não posso culpá-la.
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Re: DE FRENTE COM A VERDADE - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 10, 2015 11:36 am

Os homens são realmente muito bons...
Luciana riu bem-humorada.
Já estava acostumada àquelas brincadeiras de Maísa e não se importava.
- Ela viu você? - retrucou interessada.
- Acho que não.
Se viu, fingiu que não viu.
Não posso culpá-la.
- Por quê? Ela não tem motivos para fingir que não a viu.
Ou será que tem?
- Você sabe como as pessoas são preconceituosas.
E se o namorado não aceitar que ela já tenha tido um caso com outra mulher?
- Então não deve gostar dela de verdade, não é mesmo?
Quem ama não se importa com essas coisas.
- Você não conhece os homens.
São muito legais e bonzinhos, mas machistas que só vendo.
- Isso não é motivo para viver na mentira.
- Ei! Calma aí.
Você nem sabe se ela mentiu para ele.
- Isso também não me interessa.
Marcela é página virada na minha vida.
- Será que você não está com ciúme?
- Não é isso.
Nós convivemos por oito anos, e a gente se apega, de uma maneira ou de outra.
Gosto de Marcela e quero-lhe muito bem, mas o que ela faz da sua vida não é problema meu.
- Tem certeza de que não é ciúme?
- Se fosse para sentir ciúme, não a teria deixado.
- Bom, isso é verdade, mas você sabe como são essas coisas do coração:
a gente não quer mais o outro, mas, quando o vê com mais alguém, bate um sentimento de posse, o orgulho cutuca a vaidade, e lá vamos nós, enveredando pelo caminho do ciúme.
- Eu não.
Não sou ciumenta nem possessiva, e não quero mais nada com Marcela.
Se ela encontrou alguém que a faça feliz, ainda que seja um homem, é muito bom para ela.
Fico feliz com isso também.
- Você é muito engraçada, Luciana.
Se fosse comigo, estaria me roendo de despeito.
- Ainda bem que eu não sou como você.
O som da campainha interrompeu a conversa, e o primeiro cliente de Luciana chegou.
Maísa se foi, e ela se concentrou no trabalho, afastando Marcela de seus pensamentos e só voltando a pensar nela no final da tarde.
Fazia tempo que não a via.
Desde que a deixara.
Soube que ela melhorou e teve alta do hospital, mas não a procurou depois disso.
Como será que estaria?
Pelo que Maísa lhe contara, parecia feliz.
Encontrara um homem e devia estar namorando.
Luciana não entendia bem como aquilo fora acontecer.
Tinha certeza de que Marcela não gostava de homens, mas podia estar enganada.

(1) Hetero: prefixo de heterossexual, utilizado na linguagem coloquial (N.A.)
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Re: DE FRENTE COM A VERDADE - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 10, 2015 11:36 am

Só se ela realmente estivesse tentando modificar sua conduta para se adaptar aos padrões sociais e deixar de sofrer.
Ou, então, talvez estivesse tentando algo novo para ver se a esquecia.
Nenhuma das duas hipóteses seria boa, porque Marcela estaria levando uma mentira para sua vida.
Mas ela podia ainda estar apaixonada pelo rapaz.
Seria isso possível?
Receber notícias de Marcela fez com que Luciana sentisse vontade de vê-la novamente, de saber como estava, de conversar com ela.
Não estava com ciúme nem queria voltar, mas ainda se sentia um pouco responsável por ela.
Tinha-lhe afeição, gostaria mesmo de ser sua amiga.
Preocupava-se com o seu futuro e não queria que ela sofresse.
Se ela estivesse mesmo apaixonada pelo rapaz, não teria com o que se preocupar.
Mas se o estivesse namorando só para fugir do sofrimento e da desilusão, estaria cometendo um erro muito grande, pois acabaria sofrendo ainda mais e fazendo outra pessoa sofrer também.
No dia seguinte, foi colocar o anúncio no jornal, que sairia no domingo, e elas tencionavam marcar as entrevistas para o dia seguinte, se possível.
Ocupada com seus afazeres, Luciana deixou de se preocupar com Marcela e concentrou a atenção no trabalho.
O número de clientes aumentava a cada dia, porque ela e Maísa eram realmente muito boas no que faziam, e eles, satisfeitos, as recomendavam a amigos e parentes.
Precisavam mesmo de uma secretária, e com urgência.
Na segunda-feira, logo pela manhã, o telefone do consultório começou a tocar.
Como Maísa atendia de manhã, e ela, à tarde, resolveram se revezar ao telefone, marcando as entrevistas para depois das seis horas.
Muitas moças apareceram.
O desemprego era grande na época, e as oportunidades de trabalho eram poucas, principalmente para quem não tinha experiência.
Sensíveis a esse problema, Luciana e Maísa não fizeram tal exigência, aceitando moças inexperientes, que nunca haviam trabalhado, desde que demonstrassem garra e vontade de aprender.
Entrevistaram muitas candidatas, deixando algumas para o dia seguinte.
No primeiro dia, nenhuma delas lhes pareceu adequada.
A maioria queria ganhar muito além do que elas podiam pagar e preferiam ficar sem o emprego a aceitar trabalhar por menos do que desejavam.
Na terça-feira, as entrevistas continuaram, e uma moça, em especial, chamou a atenção de Luciana.
Era bonita, de boa aparência, muito viva e inteligente.
Não tinha experiência, mas demonstrou ser paciente e não se queixou das condições.
Precisava trabalhar para ajudar no sustento da família e queria crescer na vida.
Chamava-se Cecília e acabara de concluir o curso científico, aos dezanove anos.
- E então, o que você achou? - perguntou Maísa, depois que as entrevistas se encerraram.
- Gostei dessa aqui - respondeu Luciana, exibindo a ficha de Cecília.
Não tem experiência, mas não é muito exigente e tem boa vontade.
- Hum... Não sei, não.
Achei-a um pouco ambiciosa.
- E daí?
Um pouco de ambição não faz mal a ninguém.
Ajuda a crescer e progredir.
- Não sei.
Algo nela não me agradou.
- Você está de implicância só porque ela é bonitinha.
- Ah! É por isso que quer contratá-la?
Porque ela é bonitinha?
- Não seja boba.
Quero contratá-la porque acho que ela serve para o cargo.
Como não tem experiência, podemos treiná-la do nosso modo.
Aposto como ela vai aprender tudo com facilidade e rapidez, e não demonstrou repulsa a sangue e injecções.
Você sabe que teremos que ensinar a auxiliar a preparar massas, anestesias e radiografias, não sabe?
Maísa assentiu.
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Re: DE FRENTE COM A VERDADE - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 10, 2015 11:36 am

Então? Cecília me parece perfeita para isso.
Maísa suspirou profundamente e deu de ombros:
- Está bem.
Não sei o que você viu nessa Cecília, mas se gostou dela... seja feita a sua vontade.
- Óptimo! Vou telefonar para ela amanhã, dizendo que a vaga é dela, e ela pode começar na quinta-feira mesmo, se não tiver problemas.
Na quinta-feira, logo pela manhã, Cecília se apresentou no consultório, pronta para trabalhar.
Como Luciana previra, aprendeu tudo rapidamente, demonstrando eficiência e cordialidade com elas e com os clientes.
Até Maísa ficou satisfeita.
- É - falou ela -, tenho que reconhecer que estava errada.
Cecília está se saindo muito bem.
- Eu não disse?
Depois que tudo retomou a normalidade, Luciana voltou a pensar em Marcela.
Como estaria se saindo?
Estava em casa lendo uma revista odontológica, quando lhe ocorreu telefonar.
O telefone tocou várias vezes até que alguém atendesse, e Luciana desligou assustada, ao ouvir a voz de um homem do outro lado.
- Está tudo bem? - quis saber Maísa, vendo que ela bateu o telefone apressada.
- Liguei para Marcela...
Um homem atendeu...
- Você não devia estar surpresa.
Não sabe que ela está namorando um rapaz?
- Luciana está com ciúme - afirmou Breno, namorado de Maísa.
- Não estou, não.
E parem de me amolar, vocês dois.
Maísa e Breno trocaram olhares maliciosos, e a moça continuou:
- Estou pensando em convidar Marcela para o nosso casamento.
O que você acha?
- O casamento é seu.
Faça como quiser.
- Não precisa ser mal-educada - rebateu Maísa.
- Tem razão, desculpe-me.
Mas é que você agora deu para cismar que estou com ciúme de Marcela, quando não estou.
- Tudo bem, Luciana, eu é que devo pedir desculpas.
Não soube a hora de parar com a brincadeira.
- Eu também, Lu - acrescentou Breno.
Não queremos que fique aborrecida connosco.
- Ah! Deixem para lá - arrematou Luciana.
- Mas você ainda não respondeu a minha pergunta - prosseguiu Maísa.
Acha que eu devo convidar a Marcela?
- Quer mesmo saber a minha opinião?
- Se não quisesse, não perguntava.
- Você gosta dela?
- Gosto. Conheço-a a tanto tempo quanto conheço você.
- Então convide.
Acho mesmo que ela se sentiria magoada se soubesse que você se casou e não a convidou.
Afinal de contas, nós terminamos, mas não é por isso que nos tornamos inimigas nem que os amigos têm que se afastar dela.
- Luciana tem razão - concordou Breno.
Marcela sempre foi nossa amiga e seria uma falta de consideração não a convidarmos.
- Está combinado, então - assentiu Maísa, colocando o nome de Marcela na lista que estavam fazendo.
Marcela será convidada.
Com o namorado?
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Re: DE FRENTE COM A VERDADE - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 10, 2015 11:36 am

- Naturalmente.
- Mande dois convites individuais para a festa - sugeriu Breno.
Assim, ela pode levar quem quiser.
- Boa ideia.
Dois convites para Marcela.
E Cecília? Devo convidá-la também?
- Quem é Cecília? - quis saber Breno.
- Nossa nova secretária.
- Seria uma descortesia não a convidar - ponderou Luciana.
Ela trabalha para nós.
- Tem razão.
Mas vou mandar apenas um convite individual para ela.
- O certo seria mandar dois.
Você não sabe se ela tem namorado.
- Ai, ai, ai. Vá lá: dois convites para Cecília também.
Assim desse jeito, essa lista vai ficar imensa.
- Não foi você quem quis fazer festa? - perguntou Luciana.
- Meu pai não abre mão - esclareceu Breno.
Sabe como é, casamento do filho advogado, muitos parentes, amigos desembargadores...
- Sei, sei.
Enquanto os dois continuavam discutindo sobre a lista de convidados, Luciana se afastou e foi para o quarto, pensando se Marcela levaria o namorado.
E Cecília? Será que levaria também o seu?
Será que tinha um namorado?
De repente, Luciana se deu conta de que pensava em Cecília com uma insistência maior do que desejava.
Achava a moça bonita e inteligente, admirava-a mesmo.
Era esperta e ambiciosa, e não tardaria muito para deixar aquele emprego e partir para uma colocação melhor em uma grande empresa.
Tinha tudo para isso.
Desde que rompera com Marcela, Luciana decidira não se envolver com mais ninguém durante um bom tempo.
Precisava pensar na carreira, alugar um apartamento só para ela.
Depois que Maísa se casasse, teria que entregar aquele.
O proprietário já dissera que não queria mais alugar, e ela precisaria sair.
Queria alugar outro, maior e próximo da praia.
Quem sabe até não poderia comprar um?
Talvez fizesse um financiamento na Caixa Económica, realizando o sonho de ter uma casa própria.
Com tudo isso, não estava em seus planos se envolver com ninguém.
Gostava de ser independente e não queria outra pessoa dependendo dela.
Contudo, havia certas coisas de que não conseguia abrir mão.
Gostava de sexo e pensava se não poderia encontrar alguém com quem passar horas agradáveis, sem envolvimento nem cobranças.
Mas onde encontraria uma pessoa assim?
Se quisesse um homem, seria mais fácil.
Mas uma mulher que procurava outra mulher era complicadíssimo.
Ser homossexual era algo seriamente reprovado pela sociedade, e quem era lésbica esforçava-se para não parecer que era.
Mesmo ela, que não tinha vergonha de ser como era, não saía por aí falando que gostava de mulheres nem adoptava nenhum comportamento escandaloso que pudesse chocar alguém.
Agora, porém, seu corpo reclamava o contacto de outro corpo, e ela se pegou pensando em Cecília.
Nem sabia se a moça era homossexual.
De vez em quando a surpreendia olhando-a com certa admiração, mas aquilo não queria dizer nada.
Admiração era um sentimento que estava além do sexo e podia ter vários motivos.
E Marcela? Não, decididamente, não queria mais contacto com Marcela.
Pensar nela causava-lhe preocupação, despertava-lhe ternura, mas não desejo.
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Re: DE FRENTE COM A VERDADE - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 10, 2015 11:37 am

Pensava em Marcela como uma irmã, não como amante.
O mesmo não acontecia com Cecília.
Pensar na moça enchia-a de desejo, e ela se esforçou ao máximo para tirá-la da cabeça.
Cecília devia ter namorado e comportar-se como qualquer moça normal de sua idade.
Resolveu não pensar em mais ninguém e foi para o chuveiro.
Talvez uma duche fria acalmasse seus sentimentos.
Depois do banho, foi para a cama e apagou a luz, adormecendo logo em seguida, sem sonhos ou fantasias a lhe povoar a mente.
Os trovões ao longe prenunciavam a tempestade de verão que estava prestes a cair, enquanto uma lufada de vento quente entrava pelas janelas da casa de Flávio, agitando as cortinas e fazendo com que algumas portas batessem em seu interior.
Na correria, os criados, tentando conter a ventania, não ouviam a campainha da porta da frente, que tocava sem parar.
- Vocês estão surdos? - zangou-se Dolores, surgindo no alto da escada.
A campainha quase estourando de tanto tocar, e ninguém abre?
- Desculpe, dona Dolores - falou uma das criadas.
Estávamos tão ocupados com a ventania que nem ouvimos a campainha.
Mais que depressa, correu a abrir a porta da frente, e Ariane entrou no exacto momento em que uma chuva grossa começou a cair.
- O que foi que houve com todo mundo? - reclamou ela.
Estou a quase uma hora tocando!
- Perdão, dona Ariane, é que estávamos tentando fechar as janelas e...
- Deixe para lá. Dona Dolores está?
- Estou aqui mesmo - falou Dolores, dando beijinhos no ar, perto das bochechas de Ariane.
Como você está?
- Mais ou menos... Flávio sumiu.
- Sumiu? Pensei que ele estivesse saindo com você.
- Comigo? Não.
- Mas ele sai todas as noites...
- Ele tem saído com alguém?
Dolores a encarou em dúvida.
Nos últimos dias, Flávio só voltava tarde da noite, e ela podia jurar que era em companhia de Ariane que ele estava.
- Estranho - divagou ela.
Com quem será que ele anda?
Se não é com você, então, com quem é?
- Era isso que eu gostaria de saber.
Pensei que você tivesse dito que ele seria meu.
- E vai ser.
Só não entendo o que está acontecendo, mas, assim que descobrir, dou um jeito nisso.
- Está demorando muito!
Já estou ficando impaciente.
- Vá com calma, Ariane.
Você sabe que faço muito gosto no seu casamento com Flávio, não sabe?
Ela assentiu.
Por isso, não ponha tudo a perder.
Sua ansiedade pode acabar afastando-o de você.
Flávio não gosta de ser pressionado.
Ariane sentou-se no sofá da sala e ficou olhando a chuva pela porta envidraçada que dava para a piscina.
- Precisamos descobrir se ele está saindo com alguém.
- Cuidarei disso.
E foi muito bom você vir me procurar antes de tomar qualquer atitude.
Tem que deixar essas coisas por minha conta.
- Quero me casar com ele, Dolores.
Você sabe o quanto gosto dele.
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Re: DE FRENTE COM A VERDADE - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 10, 2015 11:37 am

- Sei, sim.
E é por isso que você é a moça ideal para ele.
Bonita, culta.
É a mulher perfeita para me dar netos.
- Ele não pode me usar assim desse jeito.
Fez o que fez comigo para depois cair fora.
- Ele não vai cair fora.
Vai casar-se com você, e ambos serão muito felizes aqui.
Como eu não fui - acrescentou em voz baixa, para que Ariane não pudesse ouvir.
O casamento de Dolores terminara no dia em que o marido descobrira que ela o traía com Nélson, seu sócio e pai de Ariane.
Justino não fez nenhum escândalo.
Simplesmente apanhou as suas coisas e saiu de casa, entrando com o pedido de desquite na semana seguinte.
Tudo correu de forma amigável, para evitar escândalos, e Justino rompeu a sociedade com Nélson, montando sua própria clínica depois disso.
Apesar do desquite, continuava amigo do filho, a quem sempre via, e lhe ofereceu um emprego em sua clínica, logo que ele se formou.
Flávio aceitou prontamente.
Era uma clínica ortopédica, e ambos gostavam muito do que faziam.
Apesar de não precisar trabalhar em hospital, Flávio quis auxiliar numa emergência e fazia plantão, uma vez por semana, no hospital do Andaraí, onde conhecera Marcela.
Justino jamais contou ao filho que a mãe o traíra.
Para todos os efeitos, seu casamento terminara porque os dois já não se amavam mais.
Flávio aceitou tudo com naturalidade.
Já havia completado 21 anos e era maduro o bastante para compreender.
Dolores, por sua vez, não terminou o relacionamento com Nélson.
A esposa dele, Anita, nunca desconfiou de que houvesse algo entre os dois.
Era uma mulher feia e apagada, e engordara excessivamente depois do nascimento do último de seus quatro filhos, não conseguindo mais retornar ao peso antigo.
Essa mudança na aparência da mulher acabou direccionando os olhares de Nélson para Dolores.
Apesar de madura, era uma mulher muito bonita, jovem ainda, esbelta e quase sem rugas.
Casara-se aos dezasseis anos, grávida de Flávio, pelo que se sabia, e mantinha ainda a aparência da juventude.
Um casamento entre Flávio e Ariane interessava muito a Dolores.
Ela era uma mulher possessiva e autoritária, e não queria correr o risco de ter que se deparar com uma nora que a enfrentasse.
Por isso, era preciso escolher bem a mulher com quem Flávio se casaria e Ariane era perfeita.
Apesar de dotada de rara beleza, não dava valor à inteligência, além de não se interessar por assuntos financeiros ou domésticos.
Era fútil e facilmente manipulável.
Desde que houvesse muitas lojas para fazer compras e festas onde pudesse se exibir, estava satisfeita.
E depois de casados, ela e Flávio viveriam em casa de Dolores, sob suas ordens, onde ela poderia controlá-los e aos netos que chegariam.
No princípio, Flávio até se interessou por Ariane, atraído por sua beleza e elegância.
Mas depois, com o tempo, acabou se cansando dela, achando-a fútil e vazia, sem objectivos ou ideais.
Ariane só se interessava por festas, jóias e roupas, além de ser arrogante e maltratar os criados e as pessoas humildes.
Esse comportamento desagradava Flávio ao extremo.
Acostumado à gentileza e cordialidade do pai, que demonstrava respeito por qualquer ser humano, a atitude soberba de Ariane foi desgastando-o.
Aprendera com o pai a dar valor às pessoas e aos sentimentos, e não a coisas ou dinheiro, e o jeito de Ariane acabou convencendo-o de que ela não era a mulher ideal para ele.
Só que Ariane não queria aceitar que Flávio não estava mais interessado nela.
Estimulada por Dolores, continuou a frequentar a sua casa, convidando-o muitas vezes para sair.
De vez em quando, ele aceitava e a levava ao cinema ou para jantar, sem qualquer tipo de envolvimento, sem nem mesmo a beijar.
Apenas como amigos.
Mas, depois que Flávio conheceu Marcela, deixou de aceitar os convites de Ariane e passou a evitá-la, dando sempre uma desculpa para não ir mais a sua casa.
- Há tempos que Flávio está distante - queixou-se Ariane.
Nem me telefona mais.
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