Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

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Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 27, 2015 8:38 pm

- Eunice, pelo amor de Deus, deixa de lado as tarefas que andas abraçando!
Estas definhando a olhos vistos!
Além de cuidares de nossa casa, agora resolveste investir na caridade a estranhos.
Tua saúde esta precária.
- Ora, Delinha24, deixa disso!
Estou acostumada.
Deus nos manda praticar a caridade e eu me sinto muito bem cumprindo-Lhe os desígnios.
Nada de mal sucedera, podes acreditar!
Em meados de 1357, em sufocante tarde de verão, quando o sol brilha escorchante nos límpidos céus de Palermo, um aviso chega a família de Mirandela, reunida em torno da mesa do almoço.
- Padre António, que surpresa agradável!
Viestes para uma visita?
- Lamento, Mirandela, mas venho por causa de Eunice.
Ela desmaiou na paróquia hoje cedo e esta enferma sob nossos cuidados.
Enquanto delira, pede para ver-te.
Os pais, bastante doentes, permanecem em casa e os irmãos partem a igreja para verem Eunice.
- Minha querida irmã, sou eu, Mirandela...(choro).
Eu sabia que isso iria acontecer.
Há meses estas adoentada e não te cuidas.
Ouvindo a suave voz da irmã caçula, Eunice abre os olhos.
- Que bom ver-vos unidos a minha volta, meus irmãos.
Estou um pouco fraca, mas vou melhorar.
Gostaria de pedir-vos que cuidem bem de nossos pais, caso me aconteça alguma coisa.
- Não fales assim!
Vais melhorar e logo estarás em casa connosco.
- Talvez! Entretanto, se não conseguir vencer mais este obstáculo, quero que cuides, pessoalmente, de todos em nossa família.
Prometes, Delinha?
- Sim, é lógico que prometo!
Mas descanses agora.
Em breve estaremos juntos outra vez.
Sob o emocionado pranto da família, entregue a Divina Providencia, Eunice deixa o corpo físico para uma viagem, sem retorno, a pátria espiritual.
Os anos são severos com Mirandela e seus pais envelhecem dia a dia com a lentidão inversa a sua ânsia de libertação.
Por vezes, ela acredita que suas forças vão terminar e a promessa feita a Eunice, no leito de morte, será esquecida.
Num arroubo de pensamentos elevados, resigna-se e torna a razão, cuidando com dedicação de seu ebrifestivo pai e de sua magriça e enferma mãe, já corroída pela peste, mas ainda afeita as maledicências do cotidiano, mantendo-se sempre apegada a matéria.
Aos trinta e um anos desliga-se da família, pois enterra seus progenitores, última das cruzes que julgava carregar, deixando encaminhados os irmãos já casados e com ofícios próprios.
Julga acalmar-se em sua intranquila trajectória, quando conhece Malamud, um caixeiro-viajante, proveniente do distante Oriente, cativante e galanteador, que conquista o combalido coração da ingénua Italiana. Casam-se e a felicidade parece ter chegado a sua vida finalmente.
Nasce-lhe o primeiro filho, que recebe o nome de Eugénio.
Seguem-se os meses e Mirandela, feliz, continua frequentando a missa do padre António, como costumava fazer com Eunice.
Em pouco tempo, preenchem-lhe o lar os filhos gémeos Enrico e Giacomo.
A sua alegria poderia ser completa não fossem os problemas que começam a provar-lhe a capacidade de resistência.
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Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 27, 2015 8:38 pm

Descobre a vida dupla de Malamud, que possui outra mulher e filhos, além de um número considerável de amantes.
Os meninos são rebeldes e agressivos, mas a razão do destino é invariável.
Reencarnaram sob o manto protector de Mirandela os seus três perversos algozes do passado, Chakar - o filho mais velho Eugénio -, Abdul e Nabul - os gémeos Enrico e Giacomo.
Agredida pelo marido e pelos filhos, Mirandela é obrigada a relembrar as sábias lições de Eunice e termina socorrendo-se das boas orientações do velho pároco António, ainda em actividade na igreja.
Percebe, então, como fora feliz com seus pais e irmãos e sente que jamais deveria ter criticado o seu lar e a sua família.
Resignada, cede aos apelos que o combalido coração lhe faz e distribui amor aos seus, ultrapassando a sua limitação racional e buscando forças nos bons fluidos que recebe de Alvorada Nova.

24 - Nota do autor espiritual: apelido carinhoso de Mirandela
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Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 27, 2015 8:38 pm

CAPÍTULO XXXVI - O DESENCARNE EM PALERMO

A vida decorre pesarosa em Palermo, especialmente depois que Malamud abandonou o lar.
Mirandela desdobra-se em cuidados, mas nunca consegue agradar aos filhos.
O mais velho, Eugénio, é mais atencioso com a progenitora, enquanto os gémeos aterrorizam-lhe os dias, enchendo-os de preocupação.
As dificuldades tem seus pontos positivos e acaba unindo a família em torno da luta pela sobrevivência.
Remindo profundas magoas do passado, Mirandela aprende a amar seus filhos e, com isso, perdoa os actos cruéis que a vitimaram na última existência.
No dia do décimo aniversario de Eugénio, Malamud volta ao lar.
Recebido com alegria pelos gémeos e com frieza pela mãe e pelo filho mais velho, ele resolve instalar-se novamente em Palermo.
Retomando o controlo da casa, alcoolizando-se com frequência, o turco começa uma Jornada cotidiana de agressões físicas e morais contra Mirandela e os filhos.
O inconformismo torna-se generalizado e os meninos começam a questionar as razões que levaram a mãe a aceitar Malamud de volta.
Sem poder agir contra o marido, já que vive em arraigada sociedade patriarcal Italiana, conforma-se e continua enredando-se nas orações para sustentar a sua tristeza.
Em seus momentos de profunda reflexão, sente a mão suave e amiga de seu mentor Genevaldo pousar-lhe no ombro.
Atribuindo a sensação de bem-estar a presença espiritual de sua Irma Eunice, deixa-se envolver pelos reconfortantes passes que recebe.
Aos quarenta e cinco anos, forçada pelo marido, engravida outra vez.
Sente o peso de uma gestação de elevado risco, mormente pelo estado intranquilo e conturbado de sua vida.
Rogando a Deus protecção para os meses em que carrega em seu ventre um ser divino - como sua irmã Eunice denominava as crianças em formação no útero materno - e acompanhada por Righetto, um médico de Alvorada Nova, destacado para atendê-la.
O carinho que a envolve é vital para o desenvolvimento de sua filha caçula que, em verdade, representa a volta daquele menino que Adila abandonou em São João D'Acre logo após o nascimento.
Terá a oportunidade de refazer os seus laços familiares, destruídos pela irresponsabilidade pretérita.
Assessorada no momento do parto, recebe a luz Saphira, uma bela e saudável menina.
Decorridos cinco anos, a família começa a perceber na adorável garotinha uma inteligência incomum, bem como uma alegria que a todos encanta.
Sempre com bons exemplos a transmitir, torna-se querida e admirada pelos irmãos mais velhos.
Saphira cresce rapidamente e aprecia ajudar a família no árduo dia-a-dia, especialmente a mãe, já cansada e doente.
É a última da casa a fazer as refeições e somente esta feliz quando percebe que não há ninguém insatisfeito dentro do lar.
Aos oito anos, convence a mãe a adoptar algumas crianças do povoado, totalmente abandonadas pelos pais e que não apresentam qualquer esperança de sobrevivência se sozinhas permanecerem.
Dentre elas, encontra-se um inválido, totalmente rejeitado por todos no vilarejo e que desperta um precoce sentimento maternal na menina.
O pai novamente abandona a família e jamais retorna, desencarnando na distante ilha de Chipre, para onde foi em busca de aventuras.
Mirandela, ao completar cinquenta e três anos de idade, cega de uma das vistas e bastante cansada, sentindo vergar sobre seus ombros o peso do sofrimento continuo ao qual sempre esteve exposta, encontra na filha caçula a única alegria para continuar viva.
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Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 27, 2015 8:39 pm

Os descendentes varões melhoram o seu modo de encarar a vida, em face dos exemplos dados pela irmã menor, mas não a ponto de mudarem o comportamento.
Eugénio deixa o lar e casa-se, abandonando a mãe e os irmãos a própria sorte.
Giacomo parte para Roma em busca de riqueza e fama, mas não consegue outro fim que não o esquecimento.
Enrico despede-se de todos partindo para Cosenza e, por ser o mais rebelde dos filhos, parecia não retornar jamais.
Entretanto, galgou-lhe no coração o desabrochar de sentimentos nobres ao longo da infância e adolescência.
Termina voltando a família para acompanhar - com os irmãos adoptivos e com Saphira - o desencarne da progenitora.
A mesma peste que lhe retirou os pais abate-se sobre Mirandela.
Sempre sob os cuidados de sua filha mais nova, volteada pelo amor sincero das crianças que adoptou, ela consegue definhar feliz ao lado de seus familiares.
Grande alegria bate-lhe no peito com a volta de Enrico, pronto a auxiliar Saphira no comando da casa.
Ora a Deus em agradecimento pela linda família que Dele recebeu um dia para criar e educar.
Nenhum sofrimento e capaz de retirar-lhe, agora, a fé e a resignação.
Ao seu lado, como uma sentinela, Genevaldo ora e vibra esperançoso.
- Senhor, confiante na Vossa força e misericórdia infinitas, rogo-Vos que ilumineis a querida Mirandela nesses últimos momentos de sua existência material.
Mantenho-me inabalável ao seu lado e agradeço a Vos esta oportunidade maravilhosa de ter estado por tantos anos acompanhando Eustáquio nessa peregrinação de amor.
Seja feita a Vossa vontade, Senhor.
Assim seja.
Ténue luz prateada, brilhante e solitária em escura noite de inverno, surge a frente de Mirandela para levá-la ao mundo espiritual.
Sentindo a aproximação do final de sua trajectória, tranquiliza-se e profere em silêncio uma prece.
Ouve, ao longe, o cântico maravilhoso de um coral de vozes límpidas e suaves, tendo a frente o timbre de Eunice, feliz, Mirandela adormece para sempre e Eustáquio renasce, outra vez, para o plano da verdadeira vida.
Cessa-lhe a Jornada em 1393.
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Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 27, 2015 8:39 pm

CAPITULO XXXVII - NA CASA DA SUBLIME JUSTIÇA

Terminada uma etapa determinante na sua recuperação.
Após sucessivos tratamentos na Casa de Repouso, Mirandela recupera a consciência e reverte seu perispírito para a forma de Eustáquio, que lhe marca o percurso de regeneração.
- É bom vê-lo reabilitado, Eustáquio.
Está preparado para apresentar-se a Agamémnon?
O coordenador deseja vê-lo.
- Certamente, Anita!
Quando iremos?
- Imediatamente!
Estou aguardando a liberação de um veículo para nos levar ao Prédio Central.
Minutos após, ambos partem no flap 54, um dos veículos pequenos de Alvorada Nova, destinado a pequenos deslocamentos.
Possui quatro lugares, e totalmente aberto e desliza sobre um colchão de ar que se forma sob ondas magnéticas25.
Maravilhado com a condução, Eustáquio questiona a enfermeira Anita a esse respeito.
Ela explica que muitos dos equipamentos utilizados em Alvorada Nova ainda serão, um dia, "inventados" pelos encarnados.
O avanço da tecnologia no mundo material acontece por orientação e apoio das diversas colónias espirituais que volteiam o Globo.
- Permita fazer-lhe outra pergunta, Anita...
Você voltara algum dia ao plano físico?
- Por que essa indagação, Eustáquio?
- Em face de tantos conhecimentos que tem a respeito do funcionamento desta cidade, parece-me que já está evoluída o suficiente para não retornar mais à Crosta como eu.
- Não é verdade!
Eu apenas passei mais tempo que você aqui na Colónia e aprendi a utilizar seus recursos.
Isso não significa que não retornarei a materialidade.
Ao contrário, devo partir em breve, pois necessito continuar minha jornada evolutiva como você.
- Mas você é enfermeira aqui?!
- Não fazemos nenhuma distinção entre as actividades que exercemos neste plano da vida, meu amigo.
Escolhi essa função porque gosto de tratar com enfermos e sinto-me bem na Casa de Repouso.
Poderia estar em qualquer outra actividade e o resultado seria o mesmo.
Ingressam na Coordenadoria Geral os dois companheiros.
Bem-humorado, Eustáquio e levado a presença do líder da Cidade Espiritual.
- Paz em Jesus, Eustáquio! Seja bem-vindo!
Acompanho o seu progresso, meu filho.
Sei que já se encontra preparado a voltar a Crosta.
Desta vez, você sabe que pode ter pela frente uma reencarnação-chave, determinante em sua trajectória evolutiva...
Esta consciente dos riscos envolvidos?
- Estou, Agamémnon!
Pode confiar que farei todo o esforço possível para evitar desgastes sérios em minha caminhada.
Acredito que todo o sofrimento obtido na Itália por muitos anos fizeram-me ver um lado positivo na pobreza material.
Não desejo, pois, tornar em berço nobiliárquico.
É possível tal escolha?
- Sim. Consultamos a Unidade da Divina Elevação e você poderá participar da escolha de sua futura programação.
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Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 28, 2015 9:00 pm

Antes, porém, deverá passar por uma avaliação na Casa da Sublime Justiça26.
Eustáquio possui mérito suficiente para submeter-se a essa análise.
Somente os Espíritos preparados a compreender o trabalho de amor que se realiza nessa Casa para aí são encaminhados.
Os reticentes e os recalcitrantes, de regra, recebem programações compulsórias a seguir.
A auto-analise, em conjunto com os juízes dessa Unidade de Alvorada Nova, faz crescer na criatura um sentimento de justiça e de autocrítica bastante positivo.
Um imenso salão, envolto em suave luz azulada e contornado por matizes prateados e brancos, serve de cenário para o encontro de Eustáquio com os juízes da Casa da Sublime Justiça.
Todos trajando túnicas alvas, cercados pelos eflúvios positivos do Plano Superior, conversam fraternalmente sobre o destino de mais um irmão em vias de reencarnar.
- Meus queridos amigos!
Após tocante vibração de abertura de nossos trabalhos, conduzida pelo coração sensível de nosso irmão Humberto, estamos prontos a ouvir as palavras de nosso expositor, Mateus.
- Confrades, paz em Jesus!
Que Deus ilumine nosso trabalho de hoje!
Recebi instruções da Coordenadoria Geral para fazer a análise dos passos de nosso irmão Eustáquio nas suas últimas reencarnações no plano material.
Após consulta a Coordenadoria de Avaliação e a Coordenadoria de Programas, verifiquei as fichas do Departamento de Reencarnação e do Arquivo Geral, apresentando-lhes agora o meu relatório.
Em que pesem os erros e desvios cometidos por Adila e Mirandela, parece-me que os acertos superaram as expectativas, mormente a resignada postura de Adila, após a violência sexual que sofreu, sem clamar por vingança ou executar tal intento.
Foi verdade que o ódio guarneceu seu coração até o desencarne, porém em face de seu estágio evolutivo outra não poderia ser sua atitude.
Note-se que ela recebeu como filhos, na reencarnação seguinte, os três causadores de sua mais profunda dor.
Soube desempenhar bem o seu papel de mãe, aproximando-se dos mandamentos do Evangelho, atendendo aos conselhos de Espíritos mais preparados.
- Permita-me irmão Mateus, uma pergunta...
- Sim, confrade Antonino.
- Verifico pelo seu relatório que Adila deu o filho tão logo ocorreu o seu nascimento.
Qual a consequência advinda desse acto?
- Ante sua programação conturbada, esse desvio não foi dos mais relevantes, mesmo porque ela teve oportunidade de reparar o seu débito, recebendo na reencarnação seguinte, como filho, o mesmo Espírito que antes abandonara.
Antes rejeitado pela mãe, ele terminou conquistando, no futuro, o seu coração.
Além disso, esse seu ato impensado soou-lhe como retrocesso e o arrependimento custou-lhe momentos de profunda tristeza já no final de seus dias como Adila.
- Houve outras falhas adiante?
- Sim, Antonino!
Nenhuma mãe poderia dispor de seu filho dessa maneira e mesmo com o perdão obtido do Espírito que foi abandonado, ela arcou na reencarnação seguinte com a sua própria rejeição pelos seus filhos Eugénio, Enrico e Giacomo.
Não houve uma reparação completa e há outras dívidas ainda pendentes.
Justamente por isso, acredito que Eustáquio está em condições de seleccionar o melhor percurso a seguir.
- Que tem a dizer o nosso debatedor, irmão Paulo?
- Meus confrades!
Saliento que Eustáquio, após minuciosa verificação de seu mérito, desligou-se de seus antigos aliados, ainda persistentes na senda do mal.
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Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 28, 2015 9:01 pm

Apesar de não ligado definitivamente no caminho de Luz, livrou-se de muitos assédios de entidades inferiores quando esteve em Palermo no invólucro carnal de Mirandela.
Ademais, outro aspecto relevante foi a sua distribuição de amor a crianças carentes, que acabou adoptando.
Os sentimentos positivos predominaram sobre os negativos na exteriorização de suas vontades, embora no âmago ainda tenham permanecido os menos dignos, embasando-lhe a crença e a mentalização.
Sou favorável à ampla liberdade de escolha, nos moldes propostos pelo confrade Mateus.
Enquanto o expositor salienta os aspectos positivos e negativos da trajectória, com algumas nuances pessoais, em confronto com a programação espiritual idealizada pelo Plano Superior, o debatedor avalia unicamente as vibrações e os sentimentos que acompanharam o Espírito nas reencarnações em análise, traçando um quadro relativo a sua depuração e ao seu mérito pessoal sobretudo.
Ambos emitem suas opiniões a respeito do caso em estudo.
Essas avaliações podem ou não coincidir, ou seja, expositor e debatedor podem ter a mesma analise sobre o facto ou não.
Transmitem suas impressões, que adquiriram com o estudo do caso, aguardando o pronunciamento dos julgadores.
- Irmão Mateus, concorda com a avaliação do debatedor Paulo?
- Sim, confrade Gaspar!
Acompanho integralmente sua analise.
- Pois bem, meus amados companheiros, todos possuem cópias dos trabalhos do expositor e do debatedor.
Ouviremos agora Eustáquio, antes de decidirmos, sob Inspiração Superior, a programação a ser traçada.
Aqui estamos para ouvi-lo, meu querido irmão!
- Queridos confrades da Casa da Sublime Justiça, agradeço esta oportunidade de estar presente para expor o meu desejo a respeito da Jornada que devo seguir.
Tenho muita dificuldade ainda para expressar-me dentro das Leis Divinas.
Minha fé na força do Senhor ainda é trémula e vacilante.
Apesar de muitos anos vividos, com alguns avanços e inúmeras estagnações, observe que tenho muitos males a reparar na crosta terrestre.
Meu senso de direcção e meu discernimento abalam-se demais sempre que visto o envoltório carnal.
Entretanto, ante minha programação para retornar em breve tempo, gostaria de solicitar-lhes um outro estágio na mais completa pobreza material, pois tenho verdadeiro pavor de enfrentar a opulência e a abundancia de riquezas materiais.
Estou confuso no tocante ao meu destino.
Tenho amigos queridos neste plano, mas os tenho também no plano inferior.
Não sei se é errado, mas acabo nutrindo sentimentos fortes por companheiros que deixei nas trevas.
For outro lado, amigos, por não ter ainda uma fé solida em meu coração, acabo cedendo aos fáceis apelos da vingança e do ódio quando provocado durante o estágio no plano, físico.
Meu desejo, então, é caminhar enfrentando a prova da pobreza que, certamente, cerceando os meus passos nessa direcção e eu poderei progredir, quem sabe, como almejado.
- Admiramos sua sinceridade, Eustáquio.
A luz azul se fez mais forte no ambiente demonstrando a sua franqueza e a sua confiança em nosso amor e amizade.
Faremos o possível para traçar o melhor programa possível para sua próxima reencarnação.
- Grato, irmão Gaspar, por suas palavras comoventes e amistosas.
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Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 28, 2015 9:01 pm

Estarei aguardando confiante!
Enquanto espera a decisão no tocante ao seu futuro rumo a materialidade, Eustáquio vivencia aprazíveis dias na Colónia.
No Recanto da Paz27, incentivado por Anita e Rosana, ingressa no estudo e na meditação a respeito de relevantes temas do Evangelho, participando activamente dos grupos da casa.
Sente ainda brotar amargura em seu peito quando reconhece os seus erros pretéritos, por vezes, sente-se incapaz de vencer as barreiras de seus mais graves desvios.
Serenado por suas pacientes acompanhantes, conscientiza-se da relevância de sua Jornada na Crosta e volta a manter acesas suas esperanças.
Quando ingressa em processo de profunda depressão, volta a Casa de Repouso para um tratamento emergencial.
Nessas ocasiões, submete-se a uma rápida rememorização do seu passado e também, através de viagens imaginárias no tempo, consegue voltar a época de Cristo, acompanhando a vida e obra do Missionário Maior, acalmando-se e adquirindo esperanças para prosseguir.28
Recuperado de suas crises, frequenta o Centro de Aprendizado da Luz Divina29, onde assiste a palestras de mentores, que comentam, através de casos concretos, a Justiça de Deus nas reencarnações.
Angustiado e ansioso pelo seu percurso do futuro, jamais esteve tão lúcido para avaliar seus erros e seus débitos.
Sente-se fortalecido para enfrentar a decisão sobre seu reencarne.
Nesse estágio de esclarecimento, torna a Casa de Sublime Justiça.
- Querido irmão Eustáquio, nós chegamos a uma conclusão a respeito de seu programa.
Aprovado pela Superioridade Divina, após consulta que realizamos, acreditamos que parte de sua reivindicação pode ser atendida.
Você partira de imediato, mas não viverá uma situação de pobreza material absoluta como desejava.
Uma trajectória equilibrada, em família de posses medianas, será o mais adequado.
Utilize a sua grande capacidade de liderança para construir um positivo projecto de vida.
Durante o seu percurso, está programada a sua convivência com um Espírito de Luz, que estará em missão na Crosta.
Aproveite bem essa oportunidade, para extrair um bom aprendizado através dos exemplos que ira presenciar.
Outros detalhes você poderá obter junto ao Departamento de Reencarnação, que cuidara do seu regresso.
Deus o ilumine, meu irmão.
Assim seja!
Aceitando, conformado, a decisão dos seus mais experientes companheiros, Eustáquio prepara-se para a viagem de volta.
Antes, porém, acompanhado de Anita, trilha seus últimos contactos com Alvorada Nova.
Caminha pela Praça Central30, sente os eflúvios elevados do Bosque da Natureza Divina31e sensibiliza-se com a exuberância da bela cachoeira que espraia águas cristalinas e prateadas, agradecendo ao Criador esse contacto revigorante.
Anita e Rosana fornecem-lhe as últimas orientações e ele se interessa em saber qual a razão de não se lembrar, quando encarnado, de seu estagio na Colónia.
Elas, fraternalmente, explicam que a perda da memória e apenas temporária, enquanto perdurar o estagio no plano físico.
Além de ser necessária para preservar a liberdade de acção e os encontros e reencontros com antigos inimigos do passado.
For vezes, o mais ferrenho adversário reencarna na mesma família - como pai, filho ou irmão - exigindo uma trajectória neutra e isenta.
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Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 28, 2015 9:01 pm

Dessa forma, os Espíritos, ao retornarem a Crosta, perdem a consciência dos seus actos pretéritos e de sua verdadeira identidade.
Terminam os dias tranquilos em Alvorada Nova e, antes da partida, Eustáquio ainda tem a oportunidade de visitar e conhecer as Moradas do Sol e da Estrela32.
Rejuvenescido espiritualmente, retorna a crosta terrestre, embalado na esperança de seus amigos que o aguardam no plano da verdadeira vida.

25 - Nota do autor material: para maiores informações sobre os veículos utilizados por Alvorada Nova, ver no livro do mesmo nome o capitulo "A descrição de nossa arvore - III" - "Núcleos de Desenvolvimento" (Núcleo de Desenvolvimento dos Serviços Gerais).
26 - Nota do autor material: ver no livro "Alvorada Nova" o capitulo "A descrição de nossa arvore - XII" e no livro "Conversando sobre Mediunidade - Retratos de Alvorada Nova" o capitulo XIII ("A Justiça na Espiritualidade").
27 - Nota do autor material: ver no livro "Alvorada Nova" o capitulo "A descrição de nossa arvore - Parte X".
28 - Nota do autor material: ver no livro "Alvorada Nova" o capitulo "A descrição de nossa arvore - I" ("Sola de Recuperação Mental", localizada no último andar da Casa de Repouso), pág. 98.
29 - Nota do autor material: ver no livro "Alvorada Nova" o capitulo "A descrição de nossa arvore - XII" e no livro "Conversando sobre Mediunidade - Retratos de Alvorada Nova" o capitulo II, item "Estudo".
30 - Nota do autor material: ver no livro "Alvorada Nova" o capitulo "A descrição de nossa arvore - III".
31 - Nota do autor material: idem, capitulo "A descrição de nossa arvore - IX".
32 - Nota do autor material: idem, capítulos "A descrição de nossa arvore - IX e X", páginas 158 e 164.
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Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 28, 2015 9:01 pm

CAPÍTULO XXXVIII - EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO

Lufam os ventos ribeirinhos, envolvendo atraente riacho que corta sinuoso uma pradaria vistosa nas cercanias de Orleans.
Um menino de seus oito anos, franzino e irrequieto, caminha pelas margens com uma vara de pesca, imprecando a todo instante ante a falta de sorte e desejoso de colocar suas mãos no primeiro peixe sonolento e atarantado que emergisse das profundezas.
Seu lúdico divertimento consiste no vagar pelos campos a espera do anoitecer.
Lucilante, o sol finalmente esconde-se no horizonte, obrigando Jean Paul a voltar para casa.
O garoto põe-se a correr prestemente sonhando em saciar a fome com o apetitoso caldo de ervas que sua mãe prepara.
- Finalmente chegaste, Jean!
Estava preocupada.
Depois que teu pai nos abandonou eu vivo atemorizada que algum filho meu irá deixar-me.
- Jamais isso acontecera, mamãe!
Não vamos repetir o erro de papai.
- Deus te ouça, meu pequeno!
Chama teus irmãos, pois eu estou servindo o jantar.
A pacata Adele começou a cuidar sozinha do lar, tão logo seu esposo - o capitão Millier -, a pretexto de viajar em missão militar, deixou a família e passou a viver em Paris.
Boémio e largado, jamais retornou para saber notícias de casa.
A vida tornou-se áspera para os três filhos do casal, que deixaram de contar com a protecção e o apoio material paternos, obrigando-os a reduzir os gastos e controlar as despesas.
O mais velho, Jean Paul, nunca aceitou o facto de estar preso em Orleans e gostaria de morar com o pai em Paris, não o fazendo para não ferir a bondosa progenitora.
Arnaud e Claude, os mais jovens, acompanham as opiniões de Jean e também desejam, um dia, ausentar-se definitivamente da cidade, o que provoca pavor em Adele, prevendo para si uma vida isolada e solitária.
Após o jantar, quando a mãe vai deitar, os três conversam animadamente sobre o futuro.
- Façamos um pacto, meus irmãos - incita o mais velho.
- Que tipo de pacto?
- Muito simples, Arnaud!
Quando tivermos condições, iremos para Paris a fim de encontrar papai.
Lá ficaremos muito ricos e voltaremos para buscar nossa mãe. Que tal?
- E como ficaremos ricos? - indaga o pequeno Claude.
- Ora, basta que encontremos algum comércio ou, quem sabe, papai poderá ajudar-nos a ingressar no exército.
- E quem te disse que o exército dá dinheiro, Jean?
- Ninguém me disse, eu apenas sei.
- Se isso fosse verdade, nosso pai não nos deixaria na miséria e partiria para outra cidade - contra-argumenta o caçula.
Enquanto discutem, Arnaud está pensando.
- Para ganhar dinheiro, basta dar-mos um golpe.
- O que é golpe
- Ora, Claude, todos nós sabemos o que é!
Trata-se de uma forma rápida de ganhar dinheiro sem muito esforço.
Papai sempre disse que se não fosse militar, daria um golpe, ficaria rico e nos levaria com ele para Paris.
- Eu não gostaria de enriquecer roubando... - interfere Jean.
- E quem falou em roubar?
Eu disse golpe... Escutaste bem?
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Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 28, 2015 9:01 pm

- Mas, Arnaud, ficar rico sem esforço implica em roubar de alguém e isso não e certo.
- Bobagem! Eu farei qualquer coisa para melhorar de vida.
Tu me acompanhas, Claude?
- Sem dúvida!
- Então deixaremos Jean Paul com seu orgulho e partiremos para Paris sozinhos.
A singela conversa entre os três já espelha a mudança de comportamento de Jean, que se inconforma por ter sido de algum modo convidado a prática de um acto não cristão.
O pacto de Arnaud e Claude mais tarde concretiza-se e ambos abandonam, logo na adolescência, a casa materna, partindo para Paris em busca do pai.
Jean, entristecido, permanece um pouco mais, embora acabe ingressando nas fileiras do exército e seja obrigado a deixar Orleans.
A previsão de Adele termina consumando-se e ela finda a trajectória solitária e infeliz.
Quando viaja pela França acompanhando as tropas, Jean Paul torna-se o alvo predilecto do regimento, por ser tímido e fechado.
Os soldados passam o tempo a atormentá-lo e costumam fazer apostas para ver quem conseguira extrair do jovem alguma reacção - seja positiva ou negativa.
Ele parece sempre estar inerte e não ter emoções.
Transcorrem céleres os meses, atropelando os anos e Jean percebe que a sua desagregação familiar é a maior fonte de desgosto em sua vida.
Mal conheceu o pai, deixou a mãe sozinha e jamais tornou a ver os irmãos.
O seu âmago, porém, anuncia-lhe a chegada de uma personagem em sua existência, que poderá alterar os rumos de seu caminho.
Resta-lhe confiar em Deus.

33 - Nota do autor material: a Guerra dos Cem Anos, entre a França e a Inglaterra, de 1337 a 1453, começou pela rivalidade entre Filipe de Valois, proclamado rei da França depois da morte de Carlos IV, último Capeto directo, e Eduardo III, da Inglaterra, que pretendia ter direito a coroa por sua mãe.
Prolongou-se até o reinado de Carlos VII.
Os ingleses foram vencedores em Crecy (1346) e em Poitiers (1356).
No reinado de Carlos V, gramas a Du Guesclin, a fortuna das armas favoreceu a França, mas, no reinado de Carlos VI, batalha de Azincourt (1415) e uma nova vitoria inglesa.
Quando Carlos VII sobe ao trono, os ingleses ocupam quase toda a França.
Surge, porem, Joana D'Arc, que desperta o patriotismo Francês, faz levantar o cerco a Orleans e sagrar o rei em Remos.
Cai, no entanto, prisioneira em Compienha e é queimada em Rudo (1431).
O impulso, todavia, está dado; os ingleses, batidos em Formigny (1450) e em Castillon (1453) são expulsos da França, excepto de Calais, que só lhes e arrebatada em 1558.
(Dicionário Prático Ilustrado Lello - pdg. 1508/1509).
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Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 28, 2015 9:02 pm

CAPITULO XXXIX - O ENCONTRO COM JOANA D'ARC

Um orgulhoso destacamento do exército francês marcha em direcção a Orleans para libertar a cidade do jugo inglês, comandado pela jovem e bela guerreira, Joana D'Arc.
A tropa foi enviada pelo rei Carlos VII numa tentativa de reverter o quadro da Guerra dos Cem Anos33 em favor de França.
Quando se aproximam da urbe sitiada, são recebidos por uma enorme saraivada de flamejantes flechas disparadas pelo inimigo, que faz tombar vários homens.
Destemida, Joana da ordens para um recuo estratégico a fim de traçar o seu plano de invasão.
Refeitos, os franceses investem novamente contra o cerco inglês e inicia-se o ferrenho combate.
Mortalmente feridos, muitos soldados caem e jamais retornam ao palco das lutas.
Após exaustivos três dias de confronto, Joana lidera o ataque final.
Novos embates travam-se e horas depois a vitória francesa estampa-se na fisionomia de cada um dos lutadores.
Explode a alegria em Orleans e a comandante da missão é enaltecida pelos brados agradecidos dos habitantes.
- Vive Jeanne!
Vive la France!34
Aprisionado durante o combate, o general britânico Talbot é apresentado a Joana D'Arc
- Não admitirei jamais ter sido vencido por um exército comandado por uma mulher.
- Vossa prepotência, general, não vos poupou da derrota e quero dizer-vos que ainda sereis julgado pelos vossos actos de guerra.
Estamos conscientes do nosso papel de libertação de nosso povo do jugo estrangeiro.
Ingleses devem viver na Inglaterra.
A França é para os franceses.
- Sois, de facto, corajosa!
A batalha que vencestes não faz findar a guerra.
- Veremos, general!
Enquanto isso, vamos comemorar a nossa liberdade.
Os soldados desejam eliminar o general aprisionado e são vigorosamente obstados por Joana, que preserva a dignidade do confronto, respeitando a integridade física dos vencidos.
A superioridade moral da Virgem de Domremy aquieta os militares e seus belos exemplos continuam fascinando os franceses.
Jean Paul, encarregado de cuidar da segurança da comandante, inicia a sua convivência com essa missionária que somente lhe transmite uma autentica lição de vida.
Assistido de perto por sua mentora Nívea, a trajectória de Jean torna-se promissora, especialmente porque ele sente crescer a admiração por Joana D'Arc.
O exército deixa Orleans e segue para Troyes.
Acampado as margens de um largo rio, próximo a um desfiladeiro, Jean começa a notar uma inquietação crescente entre os soldados, famintos e com muito frio.
Aproxima-se de Joana, pressentindo que algum mal possa lhe acontecer.
Disputa, a essa altura, com o oficial Gualberto, a primazia dos cuidados com a líder.
Ambos não se entendem e parecem ter uma antipatia natural.
Durante uma das noites que passam no acampamento, um dos soldados tenta agredir a comandante, assediando-a sexualmente.
Prontamente atendida por Jean, o insubmisso militar é aprisionado e nenhum mal consegue fazer.
Agradecida, a Virgem de Domremy encontra em seu protector um amigo sincero e soldado dedicado.
Desesperado e enciumado, Gualberto rompe relações com Jean Paul e durante suas noites de sono tende a delirar e relembrar o passado:
- Covarde, miserável, Franchise é minha!
Nada me afastara de minha amada.
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Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 28, 2015 9:02 pm

Afasta-te Giscard, pois nos domínios de Orleans eu sou a voz da Igreja.
Deixa em paz a minha Franchise...
Várias vezes é acordado com um balde d'água, pois os outros soldados não suportam suas manifestações durante a noite.
Em verdade, seus delírios tem razão de ser, pois reencarnado ao lado de Eustáquio - no mesmo batalhão - encontra-se Marcel, o bispo de Orleans.
Buscando pacificar os dois adversários, inconscientemente, porém inspirada, Joana empreende todos os esforços para que ambos sejam amigos e caminhem juntos ao seu lado, fiéis e devotados.
A partir da interferência pessoal da líder das tropas, Gualberto e Jean Paul forçam uma convivência harmónica.
Cessa a hostilidade gratuita existente entre os dois.
Enquanto a França tudo exige dos seus soldados, inimigos do passado unem-se no presente para o inicio de uma reconciliação regeneradora.

34 - Nota do autor espiritual: "Viva Joana! Viva a França!"
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Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 28, 2015 9:02 pm

CAPÍTULO XL - O JULGAMENTO DE RUÃO

Capitaneando o seu exército, Joana D'Arc desperta o sentimento patriótico dos franceses e por onde passa atrai a atenção de todos, provocando arraigada ira nos inimigos ingleses.
Ao seu lado, inabalável, renovando o seu espírito, encontra-se Jean Paul.
Ao longo de seu percurso, a fervorosa Pucela comete deslizes e termina aprisionada pelos britânicos.
Conduzida a um julgamento parcial, na cidade de Ruão, deixa perplexos os seus seguidores e incondicionais admiradores.
Nessa ocasião, nenhum compatriota consegue defender em público aquela que liderou grande parte da unificação do reino de França.
Incrédulo, Jean acompanha o farsesco cenário montado para decidir o destino de Joana, onde os protagonistas sequer atingem um arremedo de justiça.
Indefesa a frente de sessenta algozes, intitulados juízes e tendo por acusador o temerário e altivo João d'Estivet, ouve silente a peça acusatória.
Acompanhando a distância o julgamento, irmanados no mesmo sofrimento, Gualberto e Jean permanecem servis à grande líder.
O temível tribunal da Inquisição composto pelos doutores em teologia é pago pelos ingleses para condenar uma valorosa defensora da unidade da França, dos ideais de um povo e da lealdade a Deus.
Nenhum dos presentes a esse acto sórdido levanta-se em favor de Joana e nem mesmo Jean demonstra coragem para fazê-lo.
Submetida a interrogatórios intermináveis em busca de uma capitulação humilhante frente a Igreja, entregue a torturas venais até que perdesse as forças, Joana D'Arc enfrenta o seu mefistofélico processo de condenação pré-ordenada.
O bispo de Beauvais, inconformado, pressiona sem trégua a jovem prisioneira para que ela confesse sua traição.
Inútil. Permanece integra a Virgem de Domremy.
Sua sentença vem a seguir, impondo-lhe a morte pelo fogo.
Em 30 de maio de 1431 desencarna Joana D'Arc e com ela seguem as esperanças de seus leais soldados, tendo por solaz as promessas feitas por Jean Paul, que deseja cumprir o juramento feito a Pucela de levar adiante, ao lado dos franceses, até o último de seus homens, a Guerra dos Cem Anos.
A fífia dos pássaros mais atrevidos termina por molestar a meditação penhorada de Jean Paul as margens serenas de um lago de águas azuis e cristalinas, que, feliz, envolve toda a beleza da planície de Orleans.
A perpetuidade de sua placidez enobrece os pensamentos daqueles que ali dedicam-se a reflexões, sob o calor ameno do sol do inverno.
Plangendo silente, Jean rememora os seus momentos cruciais ao lado da família, relembrando, ainda, os seus melhores anseios, acompanhados, por vezes, de insensatos desmandos.
Revê a ambição dos irmãos que abandonaram a progenitora, alardeando apoio ao irresponsável pai e sente-se culpado por não ter dado suporte a Adele até o seu último dia de vida.
As belas lições de Joana enchem sua memória de alegria e todo caminho percorrido volta-lhe a mente.
Observa o seu passado espelhar-se na superfície do lago.
- Vejo nessas límpidas águas o reflexo de minha vida.
Revejo meus sucessos e meus deslizes durante os quarenta e cinco anos de minha existência e talvez conclua pelo meu fracasso.
Termino a Jornada solitário e já não sinto forças para suportar o dia seguinte.
Estou enfermo e não acredito que verei novamente o verão em minha querida Orleans.
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Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 28, 2015 9:02 pm

Ah, Deus!
Perdoa-me tanta magoa e pouca esperança.
Agradeço-Te a oportunidade que tive de conviver com Joana, aprendendo tão belos exemplos.
Como havia prometido, acompanhei o deslinde da guerra e, hoje, pacificadas as nações, resta-me um conflito interior a resolver...
Jean Paul atinge o ápice de sua Jornada e pressente que o fim está próximo.
Avaliando os passos pretéritos e acostumado a ser rigoroso em suas conclusões, extrai precipitados fechos amargos para sua vida.
- Deus, ó Deus!
Ao Vosso lado esteve minha santa mãe e também a doce e meiga Joana.
Busco encontrar-Te também, mas não consigo.
Não posso prescindir do Vosso apoio e da Vossa misericórdia.
Ouça-me, Senhor!
Adormece na relva macia e deixa-se envolver pelo cair da tarde.
A noite chega trazendo consigo uma enfurecida tempestade de neve, representando o símbolo da chegada do inverno europeu que escolhe momento especial para fazer-se notar em França.
Os flocos brancos e amistosos, mas frios por natureza, ensarilham Jean Paul que, no berço da pradaria de Orleans, jamais torna a acordar.
Os cristais de gelo enamoram-se daquelas águas belas e azuis do garboso lago e congelam sua superfície.
Terminam os colóquios e as meditações de Jean com suas águas, mas tal como o inverno representa uma nova veste para Orleans, trazendo-lhe a neve e o frio.
Após alguns meses voltara a brilhar no céu o sol do verão que transformara a paisagem e aquecera a vegetação.
Do mesmo modo acontece com o mecanismo da reencarnação.
O Espírito passa por varias etapas e conhece inúmeras sensações, depurando-se rumo a perfeição.
Eustáquio renasce esperançoso e, despedindo-se das vestes de Jean Paul, acompanhado por Genevaldo e Nívea, parte rumo aos portais dourados de Alvorada Nova.

FIM DA SEGUNDA FASE
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Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 28, 2015 9:02 pm

CAPÍTULO XLI - A ABADIA DE FLORENÇA

- Meus queridos irmãos!
Os homens trilham muitas vezes caminhos já percorridos.
E um homem que se considere prudente deve ter a cautela de seguir os passos dados pelos grandes homens, imitando-os.
Não lhe sendo possível fazê-lo, deve ao menos imitá-los em suas virtudes, pois muita coisa é aproveitada.
Se querem atingir um ponto distante que o façam como os seteiros, conhecedores da capacidade do área e que fazem a pontaria em local superior ao que realmente visam.
Mediante tal artifício conseguem alcançar o alvo com precisão.
Confrades, percebam a desvitrificação de nossos rumos e estudos através das criativas e perfectíveis ideias de Niccoló Machiavelli... (aplausos entusiasmados)
Um momento, um momento, permitam-me continuar!
Muitos seres medíocres e desprezíveis perpetuam-se no poder, não por qualidades invulgares e próprias, mas porque seguiram o ideário de grandes líderes do passado ou mesmo da actualidade.
Há príncipes35, entretanto, que o são por seus próprios valores, sem que tivessem fortuna.
Permito-me citar Moisés, Giro, Teseu e Rómulo.
Note-se, como bem ressaltou Machiavelli, que Moisés foi mero executor das ordens de Deus, entretanto, merece ser admirado porque tornou-se digno de conversar com o Criador.
E, valendo-se da escravidão do oprimido povo de Israel no Egipto, logrou que houvesse disposição em segui-lo.
Destarte, caros irmãos, buscar a virtude de um líder deve ser a meta desta ordem; tornar-se príncipe, quem sabe, de um vasto reino de consciências e aplicar os mandamentos divinos para nortear a esses povos o seu rumo na senda do rejuvenescimento das ideias.
Nossa congregação não pode forquilhar; deve permanecer unida e firme no propósito de partilhar com o príncipe a oportunidade rara de unificar e dirigir um povo. (aplausos delirantes).
- Senhores - continua o monge beneditino Maximiliano - fraldoso não pretendo ser, porém faz-se mister coleccionar outros aspectos de nosso ideário.
Notem, que aprender a ser mau é um dos objectivos de qualquer príncipe a fim de se conservar no poder.
Alguns são muito liberais, outros miseráveis - abstendo-se de usar suas posses -, outros ainda são pródigos, ou rapaces, ou cruéis, ou piedosos.
Alguns outros são perjuros ou leais, podem ser efeminados e até pusilânimes; truculentos ou animosos; humanitários ou soberbos.
Há os que sejam casos ou lascivos; estúpidos ou astuciosos; tíbios ou mesmo enérgicos; graves ou levianos; religiosos ou ateus.
A princípio deveria o príncipe ter somente as boas qualidades, mas a natureza humana e tal que não lhe permite a completa posse delas.
O mais importante e saber ser prudente para evitar os defeitos que lhe poderiam tirar o governo.
Defeitos e virtudes precisam ser manipulados com arguta perspicácia para servir ao poder e podem até mesmo trazer bem-estar e tranquilidade ao príncipe.36 - 37
Enfim, estimados confrades, quem não tem defeitos?
Vícios? Todos os temos!
Dentro das fronteiras de nossa ordem podemos admiti-los, mas nunca essa confissão dolorosa devera atingir o mundo exterior.
Ordenemos nossas ideias de acordo com a realidade, pois que a ficção serve apenas para instruir os incautos.
Podemos ser considerados, interna corporis, por vezes cruéis, truculentos, soberbos, astuciosos, enérgicos e até lascivos.
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Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 28, 2015 9:03 pm

Aos fiéis, no entanto, seremos sempre castos, religiosos, liberais, piedosos, leais e, porventura, pródigos.
Somos os amigos do povo!
Somos seus irmãos!
Os verdadeiros mandatários de Deus!
Conforme a necessidade do momento, podemos até assumir alguns de nossos defeitos até colocá-los em prática.
Mas uma imagem de integridade deve ser a base de nossa ordem religiosa, como uma autêntica liderança entre os florentinos.
Antes que terminasse seu discurso, em face da relevância do tema apresentado, Maximiliano é interrompido pelo prior.
- E qual seria o momento apropriado para admitirmos os nossos... erros?
- Sempre que o interesse o determinar.
Explico melhor.
Quando houver necessidade de ser mau - lembremos de Machiavelli e seus sábios ensinamentos - haveremos de sê-lo.
Os defeitos, preclaro irmão, trazem-nos muitos resultados satisfatórios e positivos.
Não se pode agir somente dentro da virtude, pois perderíamos parcela considerável de poder.
Poderia ser a ruína de nossos domínios.
Ser mau, entretanto, exige cautela.
Nós saberemos, em última instância, quando assim estivermos agindo e qual ganho estaremos obtendo.
Outros, alheios a nossa congregação, certamente não tem essa noção prática de lucrar com os próprios desmandos.
Partilhemos dos nossos próprios defeitos!
Se os temos, devemos bem utilizá-los, afinal, não somos todo virtude.
Logo, necessitamos construir nosso ideário dentro dos padrões reais.
Conhecer os escritos de Machiavelli nos será extremamente positivo.
Precisamos saber lidar com nossos defeitos, camuflá-los até - se essencial -, prosseguindo com nossos ideais cristãos de modo virtuoso e por uma boa finalidade, que e atingir a perfeição do espírito e conquistar um lugar ao lado do Criador.
Que importam os meios a serem utilizados se os fins -certamente nobres - os justificarão?
Alguns desvios, frutos da realidade do homem, vivenciados até mesmo pelo príncipe, são inerentes aos nossos espíritos.
Compreendendo essa verdade e manipulando-a em prol do bem comum, ofertaremos tranquilidade e quietez aos nossos fieis.
Novamente entrecortado, Maximiliano enfrenta questionamento de Vidal, um dos monges presentes.
- Não me parece uma postura correta!
Estaríamos enfatizando e incentivando os nossos defeitos em nome de um ideal questionável como esse apresentado pelo confrade em sua palestra...
Antes que continuasse, o prior interfere e dita:
- Em verdade, estimado companheiro Vidal, não há nenhum contraste entre as ideias expostas por nosso estudioso Maximiliano e os postulados desta ordem, unificados por são Bento há tantos anos.
Devemos entender que o estudo do ideário de Niccold Machiavelli representa um descortinar aos nossos surrados e arcaicos métodos de penetração na comunidade e na organização política.
Hoje, certamente, esse manuscrito do diplomata não tem a repercussão merecida.
Mas a Igreja necessita - veja o exemplo do Sumo Pontífice - penetrar os corações de todos os seus fiéis, conquistando espaços e impondo-se a príncipes e reis, antes que outros aventureiros o façam.
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Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 28, 2015 9:03 pm

Estes sim, podem fazê-lo sem a aquiescência divina, o que não e o nosso caso.
Parece-me interessante a tese exposta pelo nosso palestrante:
os fins justificam os meios...
Continue, Maximiliano!
- Pois certo, meus estimados companheiros, o sofrimento do povo, por vezes, faz parte da sua futura redenção.
Lembremos do exemplo de Moisés e os escravos no Egipto.
Uma liderança se constrói num momento de agrura para determinado povo e consolida-se mais tarde, quando ocorre a fase de renascimento das esperanças.
Da mesma forma que o príncipe deve buscar ser querido por sua gente, a nossa ordem necessita, a qualquer custo, manter a sua posição de prestígio na sociedade florentina.
Continuemos unidos, conscientes dos nossos passos e acatemos as nossas fraquezas quando for conveniente - mas jamais expondo-as ao mundo.
Acertemos o nosso trilhar rumo a consolidação de nossa força política e fixemos as bases para o futuro, associados aos grandes lideres e buscando a unificação do Estado Florentino38.
Encabecemos a aspiração do príncipe:
quod nihil illi deerat ad regnandum praeter regnum.39
A conquista, irmãos!
Vibrante ovação coroa de êxito o discurso de Maximiliano, um dos mais jovens e estudiosos monges da abadia, que se encanta com a obra-prima de Machiavel.
O prior admira o seu trabalho e decide enviá-lo a Roma para continuar o aprendizado e transmitir os seus conhecimentos a respeito de política e filosofia.
A sombra do seu longínquo passado, quando esteve a frente de uma abadia do século VIII, desenha-se em seu perfil ambicioso e sectário.

35 - Nota do autor espiritual: a referenda aos príncipes e o modo utilizado par Maximiliano para fazer chegar aos beneditinos as ideias de Machiavelli, a fim de justificar e demonstrar que o poder, por si só, não e um, mal e pode ser bem exercido, inclusive sob o ponto de vista religioso.
Naquela época, em que a unificação Italiana estava iniciando contornos mais vigorosos, era importante a ordem beneditina participar do processo político que se desenhava, sem perder o seu espaço político e social até ali conquistado e adequando-se a nova ordem em vias de se instalar.
A proximidade com o Vaticano obrigava-os a uma reciclagem constante de rumos e ideais, a fim de jamais entrar em conflito com o Papa e visando atenuar eventuais crises de consciência que alguns religiosos tinham ante tanta disparidade dos ensinamentos cristãos mais puros com a realidade por eles vivenciada. O príncipe era o símbolo do poder na ocasião e Maximiliano, estudioso do assunto, utilizava-se dessa imagem para retractar aos beneditinos a simbologia de dominação e articulações que a Igreja de um modo geral detinha em suas mãos.
Assim, fazia comparações entre o príncipe e o Papa, bem como entre aquele e a sua ordem religiosa.
Quando ele menciona afigura do "príncipe" em suas palestras tem em vista retractar ora o Papa, ora a ordem dos beneditinos, ora o próprio Príncipe.
Machiavelli foi Secretário da Chancelaria em Florença e dedicou sua obra-prima ao Magnífico Lorenzo, filho de Piero de Medici.
Maximiliano teve acesso a obra, ainda não oficialmente publicada e divulgada, através dos inúmeros contactos que a ordem possuía na sociedade e na classe dirigente florentina.
O próprio Lorenzo deixou o mundo material sem ao menos conhecer, em profundidade, a obra-prima que Lhe foi dedicada.
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Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 28, 2015 9:03 pm

36 - Nota do autor espiritual: pode-se bem notar, ante o discurso exposto por Machiavelli em 1513, com sua obra "O Príncipe", de onde surgiram os termos "maquiavélico" e "maquiavelismo", relativos a má-fé, perfídia, bem como ao principio político de que as finalidades e os objectivos devem sempre justificar os meios empregados para atingi-los.
Nessa ocasião, estudioso de obras políticas de um modo geral, Eustáquio adquire maior consciência dos valores do espírito, em contraste com a filosofia dos homens.
Aprende a discernir com maior acuidade entre o bem e o mal.
Equilibra-se em ténue e subtil linha divisória dos lados antagónicos que se circunscreviam a sua frente:
a prática dos ensinamentos cristãos na sua essência ou o exercício maquiavélico desses ensinamentos.
Ainda com 23 anos, jovem, inexperiente, apresenta tendência a seguir com as ideias do seu então ídolo Niccold Machiavelli.
Evidencia-se, a partir dessa reencarnação na crosta terrestre, uma continua evolução de seus conhecimentos.
Cresce-lhe a cultura e o desenvolvimento intelectual, acompanhando-o, ainda tímido, mas seguro, o progresso no campo moral.
37 - Os trechos do livro "O Príncipe" ("De Principatibus") de Nicolau Maquiavel constantes nesta obra podem ser localizados pelo leitor nos seus capítulos VI ("Dos Principados Novos que são conquistados pelas Armas e com Nobreza") e XV ("Das Razões pelas quais os homens, e sobretudo os príncipes, são louvados e vituperados").
38 - Nota do autor espiritual: Era essencial, naquela época, defender um Estado cujo centra seria Florença, em face da acirrada disputa existente entre as cidades Italianas, como Milão, Nápoles, Veneza e Roma.
39 - Nota do autor espiritual: "Não lhe faltava para ser rei sendo um reino".
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Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 28, 2015 9:03 pm

CAPÍTULO XLII - A CULTURA HUMANISTA

Retorna-se a Florença de 1502.
Eustáquio reencarnou sob o manto protector de uma família modesta e simples, recebendo o nome de Maximiliano.
Desenvolve-se cercado de amor e cheio de compreensão e apoio.
O núcleo familiar, apesar da singeleza de vida, permite-lhe um crescimento saudável, com possibilidades de estudo.
Desde cedo, Maximiliano acompanha seu progenitor nas actividades do campo, colhendo e plantando, cíclica e rotineiramente, perquirindo em seu íntimo quando lhe surgiria uma oportunidade de progresso social e económico.
Buscando atingir o seu objectivo de melhorar o nível de vida, todos os dias frequenta o pequeno comercio de "mestre" Jacob, como carinhosamente chama o ancião que vende livros e quinquilharias de um modo geral no centro da cidade.
O rabino o auxilia no seu aprendizado, fornecendo-lhe todo o material necessário a compor o amplo conhecimento exigido pela intelectualizada sociedade da época, imersa no Humanismo40 e no Renascimento41.
Apaixonado pela agudeza de espírito e inteligência invulgar do rapaz, Jacob, solteiro e solitário, dedica-se a ele como se fosse um filho, exigindo-lhe postura e dedicação.
Não decepcionando o velho livreiro, Maximiliano alça dia após dia aos degraus da intelectualidade e ambos tornam-se cada vez mais amigos.
Grande centro do Humanismo, Florença proporciona ao jovem uma fonte inesgotável de obras literárias de alto nível, permitindo a mestre Jacob seleccionar os melhores textos para suas aulas. O ancião - sacerdote do judaísmo - desenvolvera sua infância em constantes estudos, na propriedade ripícola que o pai possuía na região francesa de Troyers, de onde emigrou.
Unidos por um ideal comum, abeberam-se das grandes obras do seu tempo, dedicando-se a discussões profundas e estafantes sobre a obra de Francesco Petrarca, com especial relevo para o Canzoniere e, por particular sugestão de Maximiliano, os poemas I trionfi.
Não lhes passam despercebidas as obras de Boccaccio - Decameron e a biografia comentada de Dante Alighieri.
Impossível conter o debate acirrado entre ambos, quando comentam, entusiasmados e inebriados a obra Comédia42de Dante.
Desperta curioso interesse em Maximiliano o trecho descrito pelo autor florentino - nos
cantos que cuidam do Paraíso - que trata do desabafo de São Bento questionando os desvios enfrentados pela Ordem que idealizou - os beneditinos43.
Logicamente, ante os contrastes teológicos existentes entre o mestre e o aprendiz, ambos afinam-se mais na discussão dos cantos relativos ao Inferno e ao Purgatório, mas divergem no tocante ao Paraíso.
A parte relativa aos beneditinos suscita curiosidade excessiva por parte de Maximiliano que, a partir dessa ocasião, demonstra interesse peculiar por essa ordem religiosa, vislumbrando integrá-la no futuro.
Seu orientador nos estudos passa a verificar que o rapaz, ao cientificar-se de qualquer assunto, em pouco tempo domina a linguagem do autor e desvenda a sua intenção ao escrever a obra, demonstrando ágil acesso a interpretação do texto.
Aprecia, ainda, as pinturas e a arte do desenho de um modo geral, aperfeiçoando sua sensibilidade no campo cultural e artístico.
Em determinada oportunidade, quando comenta, em latim clássico, um dos poemas que acabara de ler, tem por ouvinte um atento monge beneditino, frequentador da loja do mestre Jacob, que se interessa pela capacidade intelectual do jovem e busca conhecê-lo melhor.
Aos dezasseis anos, prodigioso e culto, tece importantes considerações quanto as obras góticas que passa a conhecer e dedica-se ao estudo do desenho geométrico, utilizando cálculos matemáticos como apoio.
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Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 29, 2015 9:21 pm

Certa vez, elabora um quadro desenhando um local que nunca tinha visto antes.
Trata-se, em verdade, de uma abadia da ordem beneditina fielmente retratada.
Possivelmente inspirado por ligações do pretérito na construção da imagem, termina obtendo permissão para transferir-se para o mosteiro dos beneditinos, situado em Florença, a fim de concluir e aperfeiçoar os seus estudos.
Seu coração enche-se de encanto pelo convite formulado pessoalmente pelo prior a seus pais e, crédulo num futuro promissor, desenlaça-se da família e do professor, partindo rumo ao seu novo horizonte.
Despede-se do mestre querido vertendo lagrimas saudosas, porém necessárias.
Desfaz-se de seu apego a terra, ao campo e a simplicidade e devota-se, a partir dai, a uma vida austera, mas confortável, no interior da abadia.
Jacob, entristecido, assiste a partida de seu aluno dilecto e amigo fiel.
Pelas vias tortuosas de Florença, seguem lado a lado Maximiliano e o monge que lhe serve de guia.
Distanciando-se do centro e caminhando pelas trilhas de um penhasco, a última imagem que se vê do jovem são as linhas sombrias de seu capuz monástico.
A noite cai serena e o rabino ora fervorosamente por seu estimado companheiro, enviando-lhe vibrações afectuosas, mas frágeis para penetrar as portentosas entranhas das muralhas beneditinas.

40 - Nota do autor material: O Humanismo era a doutrina e movimento dos humanistas da Renascença que ressuscitaram o culto das línguas e literaturas greco-latinas (Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa).
41 - Nota do autor material: dá-se o nome de Renascença a renovação literária, artística e cientifica, que se operou na Europa nos séculos XV e XVI, especialmente sob a influência da cultura antiga, então em voga (Dicionário Prático Ilustrado Lello, pdg.1844).
42 - Nota do autor espiritual: Inicialmente a obra-prima de Dante Alighieri chamou-se Comedia.
Somente após 1560 passou a ser conhecida como "Divina Comédia".
43 - Nota do autor espiritual: Dante Alighieri retracta em um dos cantos de sua obra máxima um encontro que teria enfrentado com são Bento, no Paraíso, ocasião em que ouviu lamentações do fundador da Ordem beneditina a respeito dos rumos trilhados por seus adeptos, diferentes daqueles por ele preconizados.
Há passagens, atribuídas a manifestação de são Bento nesse trabalho literário, mencionando que as abadias ter-se-iam transformado em "espeluncas" e o capuz monástico estaria fazendo sacos para "farinha ruim".
Combate, ainda, o amor desmedido as riquezas que "ensandeceu o coração dos monges".
Estaria, nessa ocasião, havendo por parte do fundador da Ordem uma critica ao materialismo que dominava muitas abadias beneditinas daquela época.
Decerto, trata-se de uma ficção criada por Dante, embora o seu sentimento pessoal esteja esboçado no livro, confirmando a imagem que muitos florentinos faziam dos beneditinos.
Nota do autor material: O trecho acima mencionado pode ser encontrado na obra "A Divina Comedia", de Dante Alighieri, Canto XXII, item 61.
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Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 29, 2015 9:21 pm

CAPITULO XLIII – OS RECONDITOS CAMINHOS DA ABADIA RUMO AO VATICANO

Recoveiros soturnos seguem trilhas enegrecidas, acompanhados apenas pelo ténue luar da meia-noite, rumo aos porões beneditinos.
Carregam o abastecimento mensal da Ordem e trazem correntes, ferramentas e outros equipamentos estranhos, destinados as câmaras localizadas no calabouço.
O ano e 1523 e Maximiliano já se sagrou monge.
Alheio aos desatinos e aos desmandos cometidos pelo priorato na condução dos destinos beneditinos, ele continua seus estudos e aguarda uma oportunidade para mudar-se do mosteiro, pois sente que não pertence ao sombrio lugar.
Trata-se de uma conscientização adquirida com o passar dos anos, associada a renovação interior por ele vivenciada ante tantos estágios em zonas umbralinas.
Seu coração clama por mudanças, enquanto a razão ainda aceita caminhos tortuosos e menos dignos para atingir objectivos materialistas, embora sem excessos.
Quando toma conhecimento directo e pessoal de alguma tortura realizada nas salas do subterrâneo - para onde são levadas as pessoas consideradas infiéis.
Maximiliano sempre procura o abade para obter justificativas.
- Meu querido Max, não vos impressioneis com a situação de nossos reclusos.
Eles são muito bem tratados e suas famílias confiam em nossa ordem para recuperá-los e torná-los cristãos exemplares.
- Lamento discordar, irmão, mas não considero a tortura um método correto e indicado para converter infiéis.
- Tortura?! Que palavra dura e de significado dúbio!
Para alguns, esse método que estais rejeitando e um bálsamo aos seus espíritos.
A oposição dos dirigentes da abadia e veemente quando se pretende qualquer mudança na estrutura secular da ordem religiosa e, em especial, em algumas de suas formas singulares de obter a confissão espontânea e o arrependimento dos seus hóspedes.
Qualquer comentário de Maximiliano nesse instante seria inútil.
Percebendo a necessidade inadiável de abandonar a vida monástica, ele continua pressionando os monges a mandá-lo a Roma para estudar no Vaticano.
Enquanto estuda, ele descobre através de amigos bem informados os manuscritos de Machiavelli, datados de 1513, tecendo longa e peculiar narrativa a respeito da política e do poder.
Interessado, dedica-se ao conhecimento da obra e torna-se um especialista na matéria.
Eloquente na defesa de seus pontos de vista e conhecedor dos meandros da filosofia e das demais ciências humanas, termina conquistando a confiança do prior, que decide enviá-lo ao papa.
Preparando-se para partir, toma conhecimento da morte de seu ídolo Machiavelli, ocorrida em 1527.
Entristecido, pois desejava conhecê-lo, parte no ano seguinte para uma nova vida na imensa urbe romana.
No Vaticano, desenvolve ainda mais o seu gosto apurado pela arte e, em especial, pela pintura.
Possui livre-trânsito na sede do poder político católico e consegue tecer importantes laços de amizade com cardeais e bispos.
Acompanha de perto o trabalho de decoração do palácio papal, deslumbrando-se com as obras do pintor Leonardo da Vinci.
Relembra-se de sua infância no berço do Renascimento - Florença - e adentra o Cinquecento, etapa derradeira desse movimento artístico Italiano, conhecendo Michelangelo.
Através de gestões junto a cardeais, que levam suas reivindicações ao papa Clemente VI, finalmente obtém autorização da Igreja para ver publicada a obra "O Príncipe", de Niccold Machiavelli.
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Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 29, 2015 9:21 pm

Estaria trilhando brilhante carreira, não fosse a inimizade gratuita que lhe dedica o cardeal Ubaldo, um conceituado líder dos católicos de Roma.
Reticente quanto ao desempenho e as boas intenções do monge beneditino, o prelado costuma criar muitos empecilhos a Maximiliano em todas as suas áreas de actuação.
Habitualmente, ocorrem diálogos ásperos entre ambos.
- Chamais-me, Eminência?
- Certamente que sim!
Continuas o teu insignificante trabalho, meu jovem?
- Dedico-me a obra decorativa deste augusto palácio e estou ao vosso dispor sempre que necessitardes...
- Deixemos de lado as tuas posturas de bom moço e cristão exemplar.
Quero saber se continuas a pregar as ideias inúteis daquele escritor florentino, Machiavelli.
- Sem duvida!
Admiro a sua obra e as suas ideias, com o devido respeito a Vossa Eminência.
- Pois quero que saibas, Maximiliano, de minha insatisfação com tua conduta.
Não aprecio essa obra "O Príncipe" e, em especial, não gosto de tua presença, vagando pelos corredores do Vaticano.
Por que não voltas a Florença?
- Prometi ao prior que iria continuar meus estudos em Roma...
- Aconselho-te a voltar!
De minha parte, se possível, quero ver-te bem longe daqui.
- Aprecio, Eminência, a vossa sinceridade!
Hoje em dia, temos poucos inimigos honestos e francos, que assumem diante de nós a sua posição.
Lamento ter-vos despertado tanta ira.
Conservar-me-ei afastado de Vossa Eminência a fim de não vos perturbar o sossego.
- E o mínimo que espero, até que chegue a tua hora de partir definitivamente.
Não te esqueças jamais dessa minha advertência. Pode sair!
Sem compreender a razão do ódio gratuito que desperta em Ubaldo, Maximiliano jamais poderia supor que o cardeal é o seu inimigo secular, capitão Tergot, finalmente reencarnado.
Aos poucos, o prelado consegue agir nos bastidores da sede papalina, tecendo as piores intrigas e a situação do monge beneditino torna-se cada vez mais complicada.
Isolado e vivenciando um ostracismo camuflado, ele sente vontade de partir, retornando a Florença.
Antes de tomar qualquer decisão, resolve sair pelas ruas, durante a madrugada de um dos dias mais conturbados que viveu no Vaticano, para reflectir.
Perambula pela cidade enquanto seus pensamentos vagam sem rumo.
Mentores de Alvorada Nova o acompanham e, solícitos, buscam inspirá-lo a aproximar-se da residência de Epifânio, um ancião que segue as ideias protestantes e é bastante ligado a Colónia Espiritual.
Em poucas horas, Maximiliano esta diante da modesta casa de seu futuro aliado na senda protestante.
- Como vai, rapaz?
Está perdido?
- Não... Talvez!
Perdido em minhas reflexões.
- Gostarias de conversar?
Sou um bom ouvinte.
- Por que não?
Como vos chamais?
- Epifânio.
- Aceito o vosso convite.
Afinal, nada tenho a perder.
Durante bons momentos, ambos trocam ideias e discutem, com entusiasmo, teologia e alguns pontos básicos de filosofia.
O dono da casa procura mostrar ao beneditino os postulados protestantes e ouve compenetrado as suas queixas a respeito da prepotente estrutura católica.
Fascinado pela doutrina exposta por Epifânio, Maximiliano promete voltar para continuar o debate e, nos meses seguintes, animado pela nova caminhada, esquece as amarguras sofridas no seu cotidiano na igreja católica, abraçando cada vez mais o protestantismo.
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Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 29, 2015 9:22 pm

CAPÍTULO XLIV - A SEMENTE PROTESTANTE GERMINA

Durante a Idade Media, a Igreja Católica alcançou a supremacia religiosa entre os crentes de toda a Europa.
Ante a construção de vários templos sumptuosos, distribuição de sacramentos a nobreza de um modo geral, realização das Cruzadas, publicações continuas da Bíblia e conchavos e acordos secretos com o poder político dos vários reinos, ducados e condados, tornou-se poderosa instituição de mando.
Nem todos da instituição concordavam com essa postura e aplaudiam a hegemonia conquistada.
O baixo clero, em grande parte, inconformava-se com o desapego aos valores espirituais e queixava-se da ênfase inconveniente ao culto exterior e as aparências.
A oposição ao papado dos Estados nacionais que se firmavam na Europa, o movimento humanista desencadeado pelo Renascimento e um progresso científico cada vez maior colaboraram para o crescimento de alguns sectores de oposição dentro do próprio catolicismo romano.
A partir desses sintomas, as ideias esboçadas pelo teólogo Alemão Martinho Lutero, extremamente arguto e inteligente em todas as suas colocações, desencadeiam o principio de uma nova corrente religiosa que se consolidaria anos mais tarde em todos os cantos do Velho Continente.
Suas teses afixadas na Catedral de Wittemberg surtem efeito e questionam os dogmas eclesiásticos.
Monge que é, jamais pretendeu afrontar a Igreja ou seus princípios básicos. Sua intenção e adaptar o culto e o sacerdócio a verdade que possui em seu coração, simplificando o acesso do povo aos membros do clero e incentivando a fé como valor essencial do ser, sobrepondo-se as riquezas materiais e aos títulos.
Essas ideias logo chegam a Roma e invadem vigorosamente a mente de Maximiliano, através das notícias transmitidas por Epifânio.
Agredido em seu íntimo pelos desmandos que vislumbra no interior do Vaticano, em especial, inconformado e magoado com as injustas agressões de Ubaldo a sua pessoa; colocado no ostracismo e reduzido a mero serviçal do palácio papal, ele termina convertendo-se ao protestantismo.
Todas as noites, Maximiliano larga mais cedo as suas tarefas na cúria romana e segue a casa do amigo Epifânio para dedicar-se com um grupo de estudiosos a nova doutrina que esta abraçando.
Não se corresponde mais com a abadia de Florença e acaba levantando suspeitas no tocante a sua conduta.
O inimigo figadal, Ubaldo, determina a alguns serviçais que sigam os passes do rapaz por toda Roma.
Não demora muito para que o pérfido cardeal descubra, finalmente, a traição que tanto aguardava para investir contra Maximiliano.
Alheio a perseguição do prelado, ele estabelece uma nova amizade com um jovem monge alemão, convidado de Epifânio para as reuniões, que lhe desvenda as lições ministradas por outro teólogo protestante.
Chegam-lhe ao conhecimento os postulados de Calvino, despertando-lhe um interesse incontrolável de conhecê-lo pessoalmente.
Entretanto, tão logo retorna ao Vaticano, é conduzido a presença do cardeal Ubaldo.
Inquirido a respeito de sua participação no movimento protestante, ele nega veementemente e continua afirmando-se católico.
Insistente, o prelado força-o a uma confissão, mormente quando chama a conversa os seus auxiliares que seguiram Maximiliano por vários dias.
Desmascarado, o florentino desespera-se e recebe ordens de não deixar os aposentos até que seja autorizado a fazê-lo.
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Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 29, 2015 9:22 pm

Pressentindo a aflição e o castigo que iria receber, foge do palácio papal e refugia-se na casa de Epifânio por algumas horas, mais tarde partindo rumo a Genebra, onde pretende encontrar-se, finalmente, com João Calvino.
Colérico ante a fuga do inimigo, Ubaldo faz publicar uma recompensa por sua captura.
Temerosa em face do avanço protestante, a Igreja Católica faz renascer a cruel Companhia de Jesus, que significa o retorno da Inquisição.
O Santo Oficio é restaurado e Ubaldo passa a fazer parte do Tribunal.
A violência de seus actos espalha-se brevemente pelos recantos europeus e o movimento protestante fraqueja, perdendo espaço.
Longe dali, Maximiliano percorre a França durante o ano de 1545, em busca das raízes do movimento religiões de contestação ao catolicismo romano e acaba cruzando as fronteiras genebresas na trilha de seu novo líder.
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