Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Página 6 de 8 Anterior  1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Ir em baixo

Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 29, 2015 9:22 pm

CAPÍTULO XLV - O ENCONTRO COM CALVINO

Caminhara a noite inteira, sob o brilho especular da lua companheira, encontrando-se agora fatigado e desesperançoso.
Alguns passos mais, poucos que sejam, conduzem Maximiliano a uma clareira, formada de belas arvores e alegres pássaros que cantarolam pelo céu, onde repousa merecidamente.
A hégira que empreende traz-lhe um amargo sentimento de estar perdido e vazio.
Horas mais tarde, desperta açodado, imaginando estar perdendo precioso tempo na sua incessante busca.
Imagina-se ainda em França, porém já pisa solo genebrês. Levanta-se e coloca-se em marcha, deixando para trás o amistoso espaço sem arvores que o embalou em providencial descanso.
Depara-se com montanhas íngremes, compondo um cenário belo, diferente dos arredores florentinos onde passou a maior parte de sua existência e cujo fastígio apresenta-se convidativo a ser alcançado.
Mira-se no encalmado embalo do sol, radiante a essa hora do dia.
Sente-se um autentico heliólatra. (que adora o Sol).
Quando se sente abandonado pela Orientação Divina, termina encontrando, ao final de uma estreita trilha, uma torre erguida sobre escombros.
No alto, vê uma janela, com cortinas dançando ao sabor dos ventos e nota uma presença humana no seu interior.
Resolve bater as portas do castelo em ruínas.
Atendido com presteza invulgar por um heiduque, apresentando-se como viajante originário de Roma, e conduzido a uma sala vazia, onde recebe instruções para aguardar.
Minutos depois, ingressa no recinto um homem magro, vestido de negro, com um pequeno capuz na cabeça, barba cerrada e sisuda, com um livro as mãos.
Aparenta ter cerca de quarenta anos.
- Quem sois?
Achei que fosse meu bom amigo Guillaume... - indaga decepcionado aquele que lhe parece ser o senhorio.
- Meu nome é Maximiliano, sou monge beneditino... quero dizer, fui monge beneditino e agora encontro-me em peregrinação pela Europa, buscando localizar Genebra e conhecer uma personalidade do movimento protestante.
Se puderdes dar-me abrigo por uma só noite, continuarei minha viagem amanhã, sem falta.
- O que faz um monge perdido nestas terras?
Onde situa-se a vossa abadia, meu caro?
- Como pude dizer-vos, já não pertenço a Ordem beneditina...
Retirei-me!
Iniciei, entretanto, meu ingresso na vida monástica em Florença.
Passando por Roma, decidi abandonar o catolicismo.
- Interessante!
Pode um religioso deixar de sê-lo?
Teria ele motives fortes e justificáveis para tal blasfémia?
- Não abandonei a religião!
Quero juntar-me aos protestantes.
Senhor, peço-vos um abrigo temporário...
Apenas esta noite.
- A propósito, quem estais procurando?
Talvez possa ajudar-vos...
Conheço muita gente!
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75742
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 29, 2015 9:22 pm

- Procuro Jean Calvin, famoso teólogo Francês e protestante, que se encontra em Genebra, segundo soube.
Conheceis?
- De nome.
Mas por que quereis encontrá-lo?
- Trata-se de um autêntico reformista, alguém que me impulsionou, com suas ideias, a deixar a Igreja Católica.
- Acredito que viestes ao local certo.
Poderei, em breve, apresentar-vos a quem desejais.
Faz-se tarde.
Apressai-vos para o jantar, que gosto de apreciar pontualmente as sete.
Evilásio vos indicará o vosso aposento.
Deixa a sala o anfitrião de Maximiliano e ingressa, em seguida, o criado.
- Posso conduzir-vos, senhor?
Onde esta vossa bagagem?
- Não a tenho.
Possuo somente a roupa de meu corpo.
- Acredito não ser problema.
Algumas peças poderão ser arranjadas, se vos desejais.
Espero não vos causar transtorno, pois as acomodações não são dignas de um viajante.
O patrão não costuma receber hóspedes aqui.
Trata-se de um retiro temporário para suas reflexões, quando então somente eu o acompanho.
- Para mim, apenas um leito e uma boa refeição são suficientes.
Não vos esqueçais que já fui monge, acostumado, pois, com locais simples e desguarnecidos de conforto.
As sete horas, jantam na mesma sala onde pela primeira vez se viram, o anfitrião e seu único hospede.
- Costumo ter minhas refeições servidas na câmara de trabalho.
Espero que não estranheis o ambiente precariamente instalado para receber-vos...
- De forma alguma!
Não costumo ligar para a aparência.
O que conta é a intenção e o calor humano no relacionamento em geral.
Vossa amabilidade regista-se em toda a vossa atenção.
- Fico satisfeito!
Degustemos a refeição e, após, poderemos conversar a respeito de vossa missão.
A autoridade moral com que fala o anfitrião faz calar Maximiliano e, durante alguns minutos, o silêncio impera no castelo, apenas interrompido momentaneamente pelos passos de Evilásio, trazendo e levando os pratos servidos a mesa.
Finda a refeição, iniciam afável conversa.
- Ouvi há pouco vossas palavras acerca da conversão ao protestantismo.
Gostaria de ouvir mais sobre isso.
- Tornei-me monge ainda jovem.
Acreditava poder galgar posições sociais invejáveis na vida eclesiástica.
Estudei muitos autores e várias obras.
Especializei-me nos escritos de Niccold Machiavelli.
Segui de Florença a Roma para continuar minhas palestras e aprimorar meu aprendizado.
Na sede do Vaticano, infelizmente, descobri um mundo novo, repleto de artimanhas e estratégias, com as quais não concordava.
Alguns inimigos gratuitos na cúria romana conseguiram fustigar-me durante todo o tempo e a lazeira tomou conta do meu ser.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75742
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 29, 2015 9:23 pm

Decidi, então, aproximar-me de um grupo de religiosos, distantes dos católicos, que estudavam as teses luteranas.
Construí boas amizades e solidifiquei conhecimentos, mas fui atraiçoado pelo cardeal Ubaldo.
Coloquei-me em fuga pela Europa, sem rumo e somente possuindo o objectivo de encontrar-me com Calvino, pensador emérito, cujas ideias afinam-se com aquelas expostas por Lutero há algum tempo.
Essa a minha história.
Posso, quem sabe, conhecer-vos melhor?
- Conheceis a obra Instituições da religião cristã44?
- Por certo dela ouvi falar, mas, lamentavelmente, não a tive nunca em minhas mãos.
- Por acaso, consegui um exemplar.
Posso fornecer-vos... gostaríeis?
- Certamente!
- Evilásio vos entregará o livro dentro de alguns minutos.
Devo retirar-me, pois a fadiga a esta hora não me poupa.
Amanhã conversaremos.
- Mas... a vosso respeito, senhor?!
- Boa noite.
A figura austera do dono da casa retira-se sem vacilar e Maximiliano conforma-se em encerrar a conversa sem os esclarecimentos que intentava receber.
A noite foi curta para o empenho com que se dedicou ao livro que lhe chegou as mãos.
Entusiasmado, conheceu as principais ideias de Calvino estampadas com precisão nas Instituições.
Adormeceu somente quando o sol tomou-lhe o quarto e aqueceu-lhe, mais uma vez, o coração.
- O patrão vos aguarda no bosque ao lado do castelo, senhor.
- Obrigado, Evilásio.
Irei agora mesmo.
Dentre altivas arvores, quase solitárias nesse posto gélido das montanhas, fazendo sombra a um pequeno lago, lazulito e cristalino como poucos, encontra-se Maximiliano com aquele que lhe da hospedagem.
- Evilásio disse-me ter acompanhado, durante toda a noite, movimentação no vosso quarto.
Não conseguistes dormir?
- É verdade!
Não fechei os olhos durante a madrugada, pois enfronhei-me com o livro que me destes...
Tenho o estranho hábito de ler e andar ao mesmo tempo.
For isso, a movimentação...
- Entendo.
E o que achastes da obra?
- Profunda e esclarecedora, tratando de temas importantíssimos como a família, a fé, a lei, a Igreja, os sacramentos, entre outros.
Particularmente, chamou-me a atenção a parte relativa as relações entre o cristão e a política.
- De facto, a Igreja aproximou-se demais do Estado, tornando-se instituição política e não religiosa, como demandariam as suas origens.
Cristo foi esquecido e o homem afastou-se, com isso, dos seus exemplos, dilapidando seu carácter e afundando-se em pecados.
Por outro lado, como conhecer a Deus sem ler, realmente, as Escrituras?
- Mas os católicos lêem e entendem as sagradas Escrituras.
- Não. Entendem apenas aquilo que lhes é passado pelo sacerdote.
Poucos lêem, de facto, os escritos que retractam a Verdade e a Vida.
O autor da obra que tivestes a oportunidade de ler indica-nos que o Governo pode e deve coexistir com a Igreja, mesmo porque pode ter autoridade divina.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75742
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 29, 2015 9:23 pm

Entretanto, cuidara a autoridade política de proteger a Igreja e não por ela ser protegida.
- Mas como a Igreja, sem armas ou exércitos, pode proteger o Governo?
- Com sua palavra em nome de Deus.
É mais poderosa a instituição que manipula o conteúdo das Escrituras do que mil exércitos poderiam conseguir.
Mentiras e falsidades não podem ser a face da Igreja.
O papa tem imenso poder perante reis e imperadores.
Não poderia mal utilizá-lo como vem fazendo ou permitindo que seus subalternos o façam.
Por que falar latim com o povo?
Por que não lhes transmitir o culto de forma simplificada em sua língua natal?
Parece-nos que não se deseja o esclarecimento dos fieis, mas a sua subjugação ante o princípio da verdade absoluta nas mãos de poucos que podem ler e entender, a sua maneira, o conteúdo dos Escritos Sagrados.
Dogmas e leis ditados pelo papado não constituem a realidade da religião.
- São ideias suas ou de Calvino?
- Parece que ambos pensamos da mesma forma.
E chegado o momento de dar um basta nesse desvio de finalidade abraçado pela Igreja católica.
Creio que Calvino diverge em alguns pontos das teses luteranas, mas na essência certamente ambos concordam.
O maior trabalho, no entanto, parece-me não ser lançar a ideia, em que pese ser ela essencial ao movimento, mas a sua divulgação e imprescindível.
E vós, pretendeis ajudar Calvino de algum modo?
- Sem nenhuma duvida!
Para isso estou aqui...
Onde mesmo estamos?
- Em Genebra, nas montanhas da Suíça, próximo aos domínios dos Habsburgo.
- Como conheceis tanto de Calvino?
Sois amigo ou aluno do mestre Francês?
- Ambos, meu caro!
Somos amigos e sou também seu aluno.
Vamos entrar, o frio montanhês deve ser sorvido aos poucos.
Novamente, nessa noite, fazem juntos a refeição e aprofundam as discussões sobre teologia, política e direito.
Maximiliano segue, confortado, ao seu aposento.
Há algum tempo não tinha a oportunidade de vivenciar momentos de tão prósperos debates.
No dia seguinte, Evilásio encontra-se com Maximiliano, fornecendo-lhe um recado do patrão.
- Como? Ele partiu?
Deixou-me alguma nota ou orientação de como encontrarei quem procuro?
- Calma, senhor!
Tenho aqui uma carta, com especificas instruções.
Passo-vos as mãos.
Maximiliano, trémulo, toma a missiva de Evilásio e coloca-se a ler apressado.
Torna-se pálido a medida que progride na leitura e senta-se na cadeira mais próxima para não cair de vez no chão.
- São, de facto, instruções.
Pede-me para divulgar as Instituições e outras obras semelhantes que me forem entregues, a seu tempo, por todos os cantões europeus, em especial em Paris.
Fornece-me condições materiais para seguir viagem, sem preocupações financeiras e confia na minha lealdade pela causa que ora estou abraçando.
Diz que entrara em contacto comigo quando achar oportuno em breve tempo.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75742
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 29, 2015 9:23 pm

Assina... "Jean Calvin, seu amigo e agora admirador"?
- Realmente, senhor!
Passastes alguns dias com nosso querido líder.
Ele teve que retornar a Genebra para cuidar dos interesses da Academia45 que está organizando.
Precisa de voluntários, como o senhor, para divulgar seus trabalhos, especialmente pela França.
Viu na vossa pessoa alguém confiável e idealista.
Se concordardes com a proposta feita, deveis partir imediatamente.
Passo-vos os fundos para a vossa peregrinação.
Sem qualquer comentário, Maximiliano parte a Paris, confiante e enlevado.
As montanhas lhe dão um adeus silencioso, fazendo a brisa gélida acompanhá-lo na descida em direcção a planície e remexendo as folhas da vegetação das redondezas tal como um glissando suave, que lhe concede tranquilidade e esperança.
No céu límpido e azulado, uma esbelta ave branca como a neve do fastígio, voa soberana, gizando a paisagem e emitindo um canto distante e imperceptível.
Maximiliano lacrimeja e agradece a Deus momentos tão esplendorosos e futuro tão promissor.

44 - Nota do autor material: trata-se de livro celebre de Calvino, escrito em latim, em 1535, que expõe as doutrinas dos protestantes franceses.
Na ideia do reformador, o protestantismo nem e uma filosofia, nem uma religião, mas simplesmente a Escritura interpretada pela consciência de cada qual.
(Dicionário Prático Ilustrado Lello, pág. 1671)
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75742
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 29, 2015 9:23 pm

CAPÍTULO XLVI - DE VOLTA A ROMA

De Genebra, Maximiliano volta a Roma, antes de seguir a Paris.
Visando despedir-se de seus amigos, em especial de Epifânio, coloca-se em frágil posição, ao caminhar despreocupado pelas ruas próximas ao Vaticano.
Em pouco tempo, é descoberto pelo cardeal Ubaldo, que manda prendê-lo.
Nessa ocasião, encerram-se as actividades do Concílio de Trento, o mais longo encontro eclesiástico da história da Igreja, amplamente conhecido como Contra-Reforma, fortalecendo a repulsa ao protestantismo.
Detido para julgamento por traição, encaminha-se ao Tribunal da cúria romana.
Uma escadaria marmórea conduz os cardeais a uma porta gigantesca no alto da escada. Inteiriço, um dos guardas anuncia o início da sessão do Concilio.
Os juízes ingressam no recinto austero e soturno, construído especialmente para sediar a assembleia.
Reposteiros sumptuosos espelham a riqueza do ambiente, guarnecido de espelhos com molduras douradas, cuidadosamente distribuídos pela sala.
A frente de todos, entra, soberano, o cardeal Ubaldo, conduzindo o séquito de julgadores ornamentados com mantos vermelhos e capuzes brancos, todos apressados e cabisbaixos.
Conduz-se ao plenário Maximiliano.
- Em nome de Deus e do Santo Papa, instalo a sessão de julgamento.
Vamos apreciar a alta traição sofrida pela Igreja católica em face dos actos praticados pelo monge beneditino Maximiliano, aqui presente.
Infiltrado no Vaticano, contando com a confiança da cúria romana e participando deslealmente do movimento reformista, o acusado usou a boa-fé dos católicos que o acolheram em Roma, proveniente de Florença, para ferir o seu juramento de fidelidade ao manto sacerdotal que veste.
Tem o libelado algo a dizer antes da manifestação dos cardeais? - profere solene o cardeal Ubaldo.
- Não, senhor cardeal-presidente.
Nada posso acrescentar ao que vos disse anos atrás e que certamente Vossa Eminência fez constar no processo.
Não compreendo tanta ira dedicada a minha pessoa, porém devo confessar-vos que não reconheço a legitimidade dessa egrégia assembleia para julgar-me.
- És um insolente e maniqueísta!
Queres considerar este Concilio como arbitrário e ilegítimo a fim de furtar-se de tuas atitudes levianas e traiçoeiras contra a Santa Igreja.
Não há pior mal do que o teu, ao preencher o coração com a cólera satânica dos opositores do catolicismo.
Abrimos os braços, no passado, para acolher-te em nossas entranhas, para agora ver-te apunhalando nossos ideias mais puros pelas costas.
- Não sou traidor!
Apenas abracei uma nova causa religiosa, na qual acredito e tenho fé.
Submeti-me a um exame de consciência e considerei a mudança o melhor caminho, longe de pretender atacar a Igreja católica.
- Desejas a confissão, renegando o protestantismo e voltando as tuas raízes beneditinas?
- Não, senhores!
Sou agora protestante e assim permanecerei até a minha morte.
A altivez de Maximiliano choca os cardeais e alguns minutos de silencio são necessários para a recomposição de todos.
- Está bem, seja feita a tua vontade.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75742
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 29, 2015 9:23 pm

O Concilio reúne-se agora para decidir o teu destino.
Retirado da sala e levado ao cárcere, Maximiliano espera, resignado, a sua sentença.
Meses depois, em cruel estado de isolamento, e informado de sua condenação a prisão até que resolva renegar a Reforma, publicando a sua confissão de culpa.
Adoece na masmorra e passa a ter visões constantes do mundo espiritual.
A febre o faz delirar e, quando em desprendimento do corpo físico, reencontra-se com antigos inimigos agora no plano invisível.
Certa noite, desperta interrompendo o sono e volta-se, afobado, para um dos cantos da cela, vislumbrando a figura de um militar germânico, com postura empertigada, que lhe dirige inúmeras ofensas.
O Espírito que o ameaça e Günther, fiel servidor de Klaus Von Bilher, adversário que o matou pela força da espada, séculos antes, quando Giscard D'Antoine, bispo de Lyon.
Enquanto Maximiliano esta preso e convertido ao protestantismo, no plano espiritual ocorre um rompimento entre os seus seguidores.
Razuk, totalmente refractário a mudança de comportamento de seu líder, volta-se contra ele e forma um grupo adversário, abandonando Gedião e todos os antigos aliados.
A evolução dos Espíritos não transcorre em igual prazo para todos.
Cada um evolui conforme o seu livre-arbítrio e de acordo com a sua capacidade individual e pessoal de assimilar e praticar os postulados cristãos.
Enquanto Eustáquio progride ao longo de seus anos de expiação, Razuk e Gedião permanecem estacionados.
Nessa época, portanto, Maximiliano tem a enfrentar vários inimigos, alguns reencarnados e outros no plano espiritual.
Anos se passam e o ex-monge beneditino perde as esperanças de sair da prisão.
Entretanto, em determinada madrugada, e retirado da cela e levado dai, quase inconsciente.
Desperta dias depois em uma cabana na floresta vizinha a cidade de La Rochelle, na França.
Seus libertadores são protestantes ligados a Epifânio que, de Roma, buscava a todo custo salvar o amigo das mãos do cardeal Ubaldo.
- Onde estou? - indaga confuso Maximiliano.
- Estás seguro agora!
Chamo-me Landoaldo e encontro-me a serviço de nosso companheiro Epifânio.
- Eu sabia que poderia contar com meus amigos...
Desejo saber como anda a Reforma.
Podes informar-me?
- Continuamos enfrentando a oposição de Catarina de Médicis e, após inúmeros combates entre católicos e huguenotes, restam-nos os redutos de Cognac, Montauban, La Charité e também La Rochelle, onde estamos.
- E Calvino?
Continua pregando em Genebra?
- Ele morreu, Max!
Do mesmo modo, Epifânio também se foi.
Perdeste a noção do tempo, pois foram muitos anos que ficaste encarcerado.
Entristecido pela notícia da morte de dois grandes ídolos, ele lacrimeja, indagando:
- Em que ano estamos, afinal?
- 1570.
- Ainda temos alguma chance de consolidar o movimento protestante?
- Não podemos perder a fé!
Estamos em luta constante.
Um de nossos mais combativos líderes, o almirante Coligny, assinou recentemente um tratado de paz com a Corte, o que nos permitiu manter alguns redutos livres ao nosso culto e ao nosso trabalho.
Ele também aproximou-se do jovem rei Carlos IX.
Sua atitude, no entanto, despertou a ira e a inimizade de Catarina de Médicis.
Estamos, portanto, em situação delicada, mas consolidando as ideias de Calvino.
- Fico mais tranquilo! Gostaria de começar a trabalhar imediatamente.
Seria possível avistar-me com o almirante?
- Amanhã, sem falta, iremos procurar Coligny.

45 - Nota do autor material: Calvino instalou-se em Genebra em 1541 e transformou-a em Roma do protestantismo.
A Academia, fundada em 1559, conferiu a Genebra grande prestigio intelectual.
(Grande Enciclopédia Delta Larousse, pdg. 3034)
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75742
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 29, 2015 9:24 pm

CAPITULO XLVII - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU

- Um breve retrospecto histórico - Consolidou-se na França, lenta mas solidamente, o poder absoluto dos reis.
A partir de 1520, os protestantes fizeram-se ouvir no cenário nacional e iniciaram uma ofensiva religiosa, aumentando o número de adeptos e buscando consolidar alianças na Corte, em especial dentre os tradicionais e conservadores nobres que viviam a sombra de Francisco I.
A progressiva participação do protestantismo na vida dos franceses irritava o clero e os fervorosos adeptos do catolicismo.
Consagrou-se o ódio aos huguenotes por parte da família dos Guise, tradicional e católica.
Organizou-se uma escalada de planos para exterminar o movimento reformista na sua raiz, culminando no massacre de Wassy, em 1562.
Os católicos, nessa oportunidade, fizeram eclodir uma verdadeira guerra contra os protestantes, tornando delicadas as relações dos membros da Corte.
Adeptos da família Guise esgueiravam-se pelos corredores do castelo real conquistando aliados e promovendo intrigas.
Dentre fieis seguidores do duque de Guise encontrava-se o conde Revergy, inimigo contundente do movimento reformista e antipático as ideias de Calvino.
Desfilava seus cerebrinos argumentos a todos que encontrava e, através de festas regadas a excelentes vinhos e finas iguarias, fazia crescer a posição dos católicos que liderava com esperteza invulgar.
Demonstrando possuir habilidade incomum e despertando temor nos adversários, espalhava sua fama por todos os cantos da Europa, apesar de pouco registro constar, na História, a respeito de sua participação no movimento contra a Reforma.
O conde era um dos maiores aliados dos Guise, servindo também o fraco rei Francisco II e, posteriormente, Catarina de Médicis.
Esta última, praticamente assumiu o trono Francês quando tornou-se regente do rei Carlos IX, ainda menor de idade.
Paralelamente, ao lado dos protestantes, crescia o prestígio do almirante Gaspar de Coligny que, apesar de educado na doutrina católica, em berço nobre, converteu-se as ideias reformistas e agia habilmente em defesa dos huguenotes.
A França tinha oficialmente, como monarca, o rei Carlos IX, que inclusive foi prematuramente emancipado para assumir o governo, mas na realidade comandava com mãos de feriu os destinos franceses a sagaz Catarina de Médicis.
Os anos seguiram seu curso de 1563 a 1570, quando Maximiliano foi libertado das masmorras romanas e retornou à França, a fim de engajar-se no movimento protestante.
Prosseguem as ofensivas católicas contra os huguenotes e muitos embates isolados, espalhados pelo pais, causam varias mortes. Registra a história, entretanto, o fatídico mês de agosto de 1572, que culmina na noite de São Bartolomeu.
Enquanto Coligny aproxima-se do rei e enfraquece Catarina de Médicis, multiplicam-se as conspirações contra a Reforma por toda a Corte.
Os preparativos para o casamento de Margarida de Valois e Henrique de Beam46 estão em fase de consolidação e pelos pútridos bastidores da traição desenvolve-se com pleno vigor uma das maiores tramas já vividas na França.
Os Guise, a essa altura ligados a Catarina de Médicis, organizam um massacre em grandes proporções contra seus inimigos protestantes.
O conde Revergy aumenta suas articulações nos corredores palacianos e participa de inúmeras reuniões com a nobreza católica.
O clero ligado ao Vaticano finge não saber dos acontecimentos, embora a realidade indique o contrário.
Até mesmo o cardeal Ubaldo, juntamente com dezenas de bispos romanos, chega a Paris, a pretexto de participar do casamento que iria unir protestantes e católicos.
Na data marcada para o matrimónio, entidades do plano espiritual inferior aproximam-se de Paris aos milhares, tais como exércitos do mal, visando participar da chacina que esta sendo articulada no palácio real.
Razuk, antigo aliado de Eustáquio, lidera uma das frentes de apoio aos planos diabolicamente tragados por Catarina de Médicis e pela família dos Guise.
No plano material, contra os interesses de Maximiliano e seu grupo calvinista age, aberta e vigorosamente, o cardeal Ubaldo, também eterno rival de Eustáquio, desde a assembleia ocorrida nas profundezas do umbral, quando houve um rompimento irreparável nas hordas inferiores.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75742
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 29, 2015 9:26 pm

46 - Nota do autor material - a consequência mais flagrante da Reforma foi a divisão da cristandade ocidental (...)
As guerras religiosas foram também. consequência do movimento reformista (...)
Na França, os calvinistas ou "huguenotes", como eram chamados, formavam um verdadeiro partido político, no qual figuravam três chefes de grande prestigio: o príncipe de Conde, António de Bourbon (rei de Navarra) e o almirante Coligny.
Quando morreu Henrique H, em 1559, sucedeu-lhe seu filho Francisco II, que tinha então 16 anos.
Os negócios do rei ficaram praticamente nas mãos de António de Guise, tio do pequeno e franzino monarca, com prejuízo dos Bourbons, príncipes de sangue que se viram afastados.
Os reformadores organizaram então a conspiração de Amboise, com o intuito de sequestrar o rei e libertá-lo da tutela dos Guises.
Descobertos, foram duramente castigados e os Guises tornaram-se então senhores do poder.
Muito cedo morreu Francisco II.
Ascendeu ao trono seu irmão Carlos IX, ainda menor, ficando como regente sua mãe, Catarina de Médicis, a qual, nos moldes da política Italiana e da Renascença, enganou frequentemente a ambas as facções, procurando manter um relativo equilíbrio.
Porem, quando o duque Francisco de Guise consentiu no Massacre de Wassy, onde morreram 60 huguenotes, avivaram-se os ódios políticos e religiosos na França, que se prolongaram até 1593 (...)
A paz de Saint-Germain (1570) estabelecera uma amnistia geral e a liberdade de culto dos reformistas, com excepção em Paris e em mais quatro "cidades de segurança".
(Historia Geral, A.Souto Maior, 14s edição, 1971, páginas 302/307).
A rainha-mãe, Catarina de Médicis, ciumenta da ascendência do almirante Coligny sobre seu filho Carlos IX e, Além disso, opondo-se ao projecto, apoiado pelo almirante, de declarar guerra ao rei da Espanha, Filipe II, conseguiu convencer o filho da existência de uma trama dos dirigentes huguenotes que permaneceram em Paris após o casamento de Margarida de Valois, irmã do rei, com Henrique de Navarra (18 de agosto).
Atemorizado, Carlos IX consentiu no massacre dos reformadores.
O morticínio começou na madrugada de 24 de agosto com o repique dos sinos de Saint-Germain I'Auxenois.
Os principais dirigentes protestantes, entre os quais Coligny, foram mortos, bem como mais de três mil outros reformadores.
Somente Henrique de Navarra e o príncipe de Conde conseguiram escapar da morte, por rápida abjuração.
O massacre prosseguiu nas províncias nos dias seguintes.
(Grande Enciclopédia Delta Larrouse, 1972, páginas 6122/6123)
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75742
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 30, 2015 8:27 pm

CAPÍTULO XLVIII - DO MUNDO DAS ARTES A ESCRAVIDÃO

Deixando a França, assassinado na Noite de São Bartolomeu, Eustáquio estagia por algum tempo em Alvorada Nova, consciente de que deve reencarnar mais uma vez, em especial para reencontrar antigos adversários.
Parte, então, para a África, onde nasce na tribo Ioruba, cuja aldeia situa-se no Golfo de Benin, na costa ocidental.
O seu povo dedica-se a fundição do bronze e a construção de belas peças de arte, que são vendidas aos estrangeiros.
Sob a identidade de Luvi, Eustáquio carrega consigo enorme bagagem de conhecimentos.
Além de ter aprendido a cultivar sentimentos mais nobres.
Desagregado na relação familiar, desde cedo perde a mãe e é abandonado pelo pai.
Tem apenas a irmã menor Vana para cuidar e orientar.
Olhando as linhas do horizonte sobre o mar, ele deseja um dia partir para terras distantes, disposto a conquistar novas culturas.
O seu único obstáculo as aventuras, é a irmã, que é deficiente física.
A pequena e rebelde e jamais entende porque Luvi lhe dedica tanto carinho e atenção.
Os sábios caminhos tragados pelo Plano Superior, no entanto, colocam numa estreita relação familiar os inimigos seculares Eustáquio (Luvi) e Tergot (Vana).
- Maldito sejas, Luvi! Deixa-me em paz! Não preciso de tua ajuda e passo muito bem sozinha.
- Vana, por que tanta aspereza? Quero o teu bem e preocupo-me contigo. Seria demais deixar que teu irmão cuide de ti?
- Seria! És um intrometido e queres comandar a minha vida.
Quanto mais longe estiveres, sinto-me melhor.
Ao atingir doze anos de idade, Vana liberta-se do jugo de Luvi e começa uma vida desregrada e leviana, recebendo para encontros amorosos muitos homens de sua tribo.
A provocação ao irmão lhe agrada muito mais do que esses seus relacionamentos.
Quanto mais entristecido e revoltado Luvi se torna, assistindo o desenrolar dos factos, mais incentivo tem a irmã para prosseguir com seus desmandos.
Mesmo deficiente, continuava contraindo débitos imensuráveis ao longo de seu estágio na materialidade, totalmente refractária aos conselhos do irmão.
Luvi não se considera vencido e persiste em sua trajectória de auxílio e amparo à garota.
Sente-se constantemente rejeitado, embora jamais deixe de amar a irmã.
Sua tribo é pacífica e não afeita as guerras e as armas.
Certa ocasião, é invadida por mercenários ingleses que desejam aprisionar escravos.
Luvi é capturado e, em razão disso, separa-se definitivamente da irmã Vana, que permanece em terras africanas.
Detido, termina aprisionado no navio de um rico comerciante de Londres, cujo filho, conhecido por Big Joe, comanda a aventura pirata para o trafico de trabalhadores negros.
Conduzido à presença do líder da expedição, Luvi permanece impassível.
- Esse escravo está cabisbaixo e não se move!
Está doente?
- Em absoluto, senhor!
Acredito que ele apenas sente falta de sua tribo.
- Tens certeza, Pepper Boy?
Não quero arriscar, carregando comigo inválidos...
- Assume a responsabilidade integralmente, Big Joe.
Em pouco tempo, ele estará entrosado com os demais e começará a trabalhar.
O navio inglês segue para a costa brasileira, onde os africanos deverão
ser vendidos.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75742
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 30, 2015 8:27 pm

Ao longo do percurso, Big Joe diverte-se irritando Luvi, o mais calado dos escravos.
- Tragam-me aquele negro mudo!
Quero analisá-lo melhor.
Segundos depois, ambos se entreolham.
- Então, zopeiro, que tens a dizer-me agora? Resolveste falar alguma coisa? (risos)
Ah, já sei!
Gostarias de ser surrado todos os dias para adquirir coragem de gritar, não é?
Chicoteiem esse imprestável!
Conformado, Luvi começa a apanhar diariamente, mas continua sem proferir uma só palavra.
Revoltado com sua situação, ele somente conversa com alguns companheiros escravos.
Essa reencarnação que está vivenciando tem uma finalidade específica de fazer Eustáquio reencontrar-se com inúmeros algozes do passado.
O comerciante inglês, Big Joe, em verdade, e Günther Von Bavanhaum, que no século VIII auxiliou várias forças a derrotar Giscard D'Antoine.
A longa viagem conduz muitos prisioneiros à morte, já que são submetidos a péssimas condições de higiene e alimentação.
Um dos escravos inconformados, Cauim, começa a tramar uma rebelião.
Percebendo que seriam massacrados se tentassem reagir de algum modo contra os ingleses, Luvi lidera um grupo contra o movimento rebelde.
A rivalidade cresce entre os dois.
Cauim, reencarnação de Marcel, bispo de Orleans, defronta-se outra vez com seu antigo inimigo.
- Sinto que desejas desafiar-me, Luvi...
- Não é verdade, Cauim!
Apenas insisto em evitar o confronto que tanto queres, pois sei que nosso povo seria cruelmente esmagado.
Além disso, já não te parece suficiente a miserável situação a que fomos submetidos?
- Não sejas covarde!
Dependemos uns dos outros para sobreviver neste lamaçal onde fomos atirados.
Não se pode combater o inimigo com flores...
Devemos surpreendê-los enquanto nos resta alguma força.
- Bobagem! Um único gesto agressivo de nossa parte e os mercenários promovem uma chacina.
Após muita discussão, a posição de Luvi prevalece, irritando o adversário Cauim, mas evitando, de fato, uma tragédia.
Os meses sojugam implacavelmente as esperanças dos africanos e solapam-lhes o orgulho e a altivez.
Muitos desencarnam e outros cedem por completo as ordens dos ingleses.
Dominados e submissos, chegam a Guiana Inglesa, onde desembarca o primeiro grupo de escravos.
Big Joe quase deixa Luvi nesse local, mas desiste quando ouve os conselhos de seu auxiliar, Pepper Boy, que deseja vendê-lo por alto preço em terras brasileiras.
Após a segunda parada, agora no litoral baiano, um segundo grupo de escravos desembarca.
A viagem prossegue rumo ao Rio de Janeiro.
Tornam a surgir desavenças a bordo entre Luvi e Cauim.
As noites parecem não ter fim e os dias destroem, minuto a minuto, as resistências de todos, submetidos que são a trabalhos esgotantes.
Aportam ao Rio e o último grupo de africanos desembarca, para ser levado, de imediato, a leilão.
Orgulhoso de sua mercadoria, Big Joe alardeia as qualidades de seus prisioneiros.
Um dos compradores interessa-se por Luvi e Cauim, pagando excelente soma ao comandante inglês.
Desligando-se dos piratas, os dois seguem viagem ao interior da Capitânia e são entregues a um sacerdote lusitano, como presente de abastado comerciante da Corte portuguesa, desejoso de cair nas graças da Igreja.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75742
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 30, 2015 8:27 pm

Inescrupulosamente, o religioso aceita os préstimos dos escravos e determina-lhes que auxiliem o seu pessoal na construção de um templo que está erguendo.
Os castigos imoderados e as precárias condições de vida a que são submetidos terminam aproximando Cauim e Luvi.
Uma amizade solidária e fruto da miséria surge entre os antigos adversários.
Apesar do imenso sofrimento, eles conseguem reparar grande parte dos débitos pretéritos, exercitando o perdão mútuo e fazendo surgir um sentimento fraterno de amparo mútuo.
Nem todos os inimigos reconciliam-se, afinal, com Luvi.
Minerva, que fora vítima de Eustáquio por duas vezes, ao reencontrá-lo e recebendo a chance de perdoá-lo, sob o invólucro do sacerdote português Elicio, investe contra ele, escravizando-o e submetendo-o a constantes humilhações.
- Irmão Elicio, o que fazemos hoje com Luvi?
Ele trabalhou somente meio período e, dizendo-se doente, foi dormir.
-Acorrentem-no ao tronco e chicoteiem esse negro insolente! -profere, colérico, o padre.
Após muitas semanas de chibatadas diárias, ele é conduzido a uma clareira da floresta e deixado inerte e enfermo, acorrentado, aguardando o final de sua existência.
Resignado, parte para o mundo espiritual tão logo suas forças esgotam-se.
Recepcionado por Nivea, segue adormecido para a Colónia.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75742
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 30, 2015 8:28 pm

CAPÍTULO XLIX - A EMOÇÃO DO REGRESSO

Resgatado logo após o desencarne, deixando a forma de Luvi, Eustáquio descansa no Posto de Socorro de Alvorada Nova.
- Onde estou?
Que faço neste quarto?
Irmão Elicio quer os meus préstimos, devo partir...
- Calma, Eustáquio, você já não está vivendo no plano dos encarnados.
Tranquilize-se!
Estou aqui para auxiliá-lo.
Sabemos que, desta vez, as suas dores física e moral foram desgastantes e o seu retorno a consciência não seria imediato.
- Quem é você?
- Não se lembra de mim? Sou Rosana.
Cuidei de você por outras vezes e acompanhei o seu tratamento.
Estive, ainda, ao lado de Anita.
- Anita? De quem está falando?
Ouça, se eu não retornar imediatamente serei punido a chicotadas...
Por favor!
- Chamarei o Dr. Euclides.
Nosso médico, que também o acompanha há muito tempo.
Reconfortante passe é transmitido a Eustáquio por Rosana e Euclides, enquanto ele adormece calmamente em seu quarto.
A dura passagem pela crosta terrestre trouxe-lhe um distanciamento da realidade que haveria de ser corrigido pela força do amor e da orientação.
Muitos Espíritos, ao deixarem os seus invólucros físicos, mesmo com relativo preparo para a compreensão da nova situação que deverão vivenciar, mantém resquícios de seus sofrimentos na materialidade e bloqueiam o acesso imediato a rememorização e recuperação da consciência quando regressam a pátria espiritual.
Algum tempo de terapia, acompanhado de perto pela dedicada Rosana, termina provocando a sua recuperação.
- Rosana? É você que está ao meu lado?
- Sem dúvida, Eustáquio!
Como se sente?
Sei que ainda não está completamente recuperado, mas não se apresse.
Há tempo para seu descanso.
- Fico feliz por haver regressado.
Há quantos dias estou aqui?
- Já faz dois anos, meu querido amigo.
Seu sono foi profundo e energizante.
Você precisava de plena recuperação.
- Não é possível!
Julgava-me preparado para tornar ao mundo espiritual com plena consciência.
- Nem sempre é assim.
Quando as provas que atravessamos na materialidade são árduas e nos esgotam, o nosso espírito pode precisar de algum tempo para recuperar a consciência e relembrar o que passou.
- Mas...
- Calma, Eustáquio!
Não se preocupe, pois em breve você estará plenamente recuperado.
- E Anita, onde esta ela?
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75742
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 30, 2015 8:28 pm

- Terminando seu estágio no plano material.
Não se encontrarão por ora.
O semblante de Eustáquio espelha com facilidade a sua decepção.
Resignado, despede-se de Rosana e passa a reflectir sobre o que viveu, dentro das possibilidades de suas recordações.
Preparado novamente, ele revê Hilário já na cidade espiritual e, juntos, conversam sobre sua programação.
O seu retorno esta previsto para 1631, em reencarnação-preparatória.
Entusiasmado, ele imediatamente concorda.
- Ora, então devo seguir a sugestão e partirei o mais breve possível.
- Não é assim tão fácil.
Queremos explicar-lhe melhor.
O seu retorno será decisivo.
Se houver triunfo, poderá enfrentar uma reencarnação-chave.
Caso contrário, falhando outra vez, estará sujeito ao demorado processo de recuperação e talvez volte a reencarnações-alternativas.
- Não entendo...
- Sua programação indica que o regresso a Crosta lhe é conveniente dentro de alguns anos.
Reencarnando em 1631, você terá vivenciado um ciclo inteiro de aprendizado aqui connosco.
Esse seria o ideal.
Entretanto, antecipando a data de sua volta ao plano material, haverá condições de cumprir determinadas provas que lhe seriam úteis, vale dizer, você poderá encontrar-se com antigos adversários, a essa altura reencarnados também.
Em outras palavras, o mais seguro para sua trajectória seria retornar em 1631, pois o aprendizado aqui seria completo.
Mas, caso você concorde, anteciparemos o seu regresso para que vivencie determinadas provas importantes, que só serão viáveis antes de 1631.
- Começo a perceber a relevância do meu passo.
E, se entendi bem, fica a meu critério optar...
- Exactamente! Lembre-se, ainda, que eventual fracasso seu não poderá ser imputado ao seu reencarne prematuro, caso você decida partir antes de 1631.
Por outro lado, meu amigo, se você triunfar, o seu mérito será muito maior.
- Agradeço a sua clareza e não me nego a assumir a marcante decisão que deverei tomar.
Enquanto você expunha as vantagens e desvantagens de meu retorno imediato a Crosta, pensava eu como é justa a Mão Divina.
Nada por acaso acontecerá, nem aconteceu até hoje em minha Jornada.
Os riscos que tenho e terei pela frente são frutos dos meus próprios débitos.
Logo, devo - sinto que devo - assumir tal responsabilidade.
É verdade que partindo agora estarei menos preparado a enfrentar determinadas situações, mas creio firmemente na minha força interior e jamais senti-me tão amado por Deus como agora.
Minha resposta é afirmativa.
Seguirei antecipadamente de volta a carne.
Haverei de lutar e buscar as melhores decisões.
- Não escondo a minha satisfação, Eustáquio.
Sinto que está mudado, mais consciente e, quem sabe, com preparo suficiente para inverter em seu favor as perspectivas de sucesso.
Transmitirei a sua decisão a Coordenadoria Geral e aguardarei instruções.
Autorizada a Jornada antecipada, ele retorna, confiante, em 1621.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75742
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 30, 2015 8:28 pm

CAPÍTULO L - A GUERRA DOS TRINTA ANOS

- Um pouco de história -
O jovem Armand Jean du Plessis partiu de Paris para receber em Roma sua ordenação ao atingir os seus vinte anos de idade.
Levava consigo um exemplar do livro de Machiavelli, "O Príncipe".
Interessado nas lições do chanceler florentino, entusiasmava-se com a ideia de aplicar a estrutura hierárquica da Igreja alguns dos princípios basilares da doutrina exposta com maestria nessa obra que acabara de conhecer.
A Reforma protestante continuava invadindo os lares franceses e quando Armand retornou a Paris sentia-se compelido a participar da luta teológica no seu país, contando, para tanto, com o apoio da nobreza e, em especial, não por acaso, da família de Médicis.
Nomeado bispo, galgou triunfante os altos postos eclesiásticos da França e terminou influenciando sobremaneira a política interna e externa de sua nação.
Enquanto era nomeado cardeal de Richelieu, do outro lado da Europa nascia um garoto franzino, germânico de berço, que recebeu o nome de Frediano, cujos pais, católicos fervorosos, estavam inconformados com a situação de insurreição recém-criada na Boémia, quando príncipes protestantes recusaram aceitar o imperador eleito Fernando II de Habsburgo e impuseram o reinado de Frederico V.
O ano de 1622 decorria conturbado para todo o Império Germânico, que acabara de mergulhar num dos conflitos mais ruinosos para a sua unidade e que lhe causou prejuízos por várias décadas.
Os católicos não admitiam a ofensiva protestante e, a pretexto de fomentar um combate religiões, fizeram com que inúmeros países começassem a interferir no conflito armado que tomava conta do Império.
A França, por interferência do cardeal e duque de Richelieu, iniciou uma ofensiva contra os huguenotes em toda a Europa.
Prosseguia a Guerra dos Trinta Anos.47
Por volta de 1533, com a morte do rei Frederico I, na Dinamarca, os protestantes iniciam uma ofensiva visando chegar ao poder.
Instala-se no pais a guerra civil e, quando os huguenotes obtém triunfo, muitas famílias católicas deixam Copenhaga.
Entre elas, estão os Schleswig, que seguem a Lech, no Império Alemão48, buscando refúgio.
Harold Schleswig, pai de Frediano, mantém fidelidade estreita aos postulados católicos e decide participar da Guerra dos Trinta Anos, ao lado do imperador germânico, que luta contra o protestantismo. Desencarnando em plena batalha, deixa os familiares mergulhados em imensurável tristeza.
Buscando uma rígida educação, a mãe envia Frediano ao norte da Alemanha para ser educado pelo tio Erik, instalado em Bremerhaven.
O início do convívio entre ambos e áspero, pois o adolescente descobre que o tio é protestante, justamente, no seu entender, o inimigo que matou seu pai.
Muitas lições, entretanto, somam-se em seu espírito e, aos poucos, Frediano descobre a pureza do sentimento religioso que brotou um dia de Lutero, as portas da catedral de Wittenberg, desmistificando o horror que tinha a posição de Erik.
Ao ganhar intimidade com o tio, fica sabendo que Harold, na realidade, era seu pai adoptivo, pois o verdadeiro o tinha abandonado ainda pequeno.
Apesar de sofrer por algum tempo com a revelação, termina confortado pelo facto de só ter recebido amor de seus progenitores adoptivos, nada tendo a reclamar. Deseja, então, saber maiores detalhes a respeito de seus verdadeiros pais, em especial do genitor Christen.
Quando atinge razoável idade, ingressa na batalha religiosa do Império Germânico, em 1639, agora ao lado dos protestantes, agindo com convicção e aliando-se aos franceses que acabam de declarar guerra a Alemanha.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75742
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 30, 2015 8:28 pm

Reinicia suas incursões pelo território germânico e visitando, outra vez, o sul do pais, na região alpina de Munique, seguindo as orientações dadas pelo tio Erik, encontra o seu pai Christen, que está refugiado em uma cabana as margens do rio Losaich.
Avesso as contendas e ateu convicto, ele já não tem onde esconder-se, fazendo o que pode para furtar-se a guerra.
Inicia uma terceira fase na vida de Frediano.
Após conviver com o progenitor adoptivo Harold e depois com o tio Erik, passa a conhecer melhor opai Christen, um amistoso e alegre dinamarquês.
Sempre cercado de carinho e atenção por parte das famílias com as quais teve oportunidade de conviver, Frediano cresce feliz e sentimentalmente realizado.
Sua maior diversão e acompanhar Christen em suas aventuras de exploração, escalando as montanhas dos Alpes.
A única divergência entre os dois dá-se no campo religioso, pois Frediano tornara-se protestante - ao conviver com Erik - e o pai biológico é ateu.
Mensalmente, o rapaz segue para Lech e revê a mãe, os irmãos e os avós, parte de sua herança adoptiva que jamais esqueceu.
Quando possível, volta a Bremerhavem para trocar ideias com o tio Erik a respeito do protestantismo.
Muito tempo passa e aproxima-se o momento de ocorrer uma separação entre Frediano e Christen.
- Filho, quero que saibas, antes de partires para outra batalha, que sou muito orgulhoso de ser teu pai.
Arrependo-me de não ter convivido contigo durante tua infância e parte da adolescência.
Sinto-me culpado pela nossa separação.
- Papai, jamais penses que eu te condeno por tua atitude!
Todos nós podemos errar e somente Deus nos é capaz de perdoar.
Fui muito feliz com meus pais adoptivos e com tio Erik.
Talvez, se não fosse o nosso distanciamento precoce e eu jamais os teria conhecido e amado.
- E bom ouvir-te dizer isso!
Tua mãe, tão moça e bela, iria te amar com certeza, pudesse ela ter conhecido o filho.
Morreu, como sabes, prematuramente.
- Deixemos o passado para as linhas da história, meu pai!
Falemos do presente!
Vou partir para cumprir minha tarefa, defendendo a causa protestante, que agora abraço.
Quando retornar, faremos uma bela viagem juntos.
- Não, antes disso quero levar-te a conhecer alguns amigos meus, com quem passei dias muito agradáveis nas montanhas alpinas.
- Outra aventura?
- Desta vez, prometo-te, trata-se de uma visita da qual guardaras sempre boas lembranças.
- Esta bem! Ainda tenho alguns dias.
Pai e filho partem, entusiasmados, para reencontrar em Garmish-Partenkirchen a família Bergvolk.
- Como conheceste teus amigos?
- Viajando, sem duvida!
Lembra-te que sou um pacífico aventureiro, com muitos amigos por todo o Império.
Visitaremos a família Bergvolk, cujo patriarca deu-me abrigo certa vez, quando por lá estive excursionando.
Lindas filhas ele possui...
Duas delas, gémeas, encantaram-me...
- Mas, papai, não acredito que tenhas tido um envolvimento com as filhas de teu hospedeiro?
- Não, em absoluto!
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75742
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 30, 2015 8:28 pm

Elas eram muito crianças... mas graciosas e espertas.
Acharam-me diferente.
Nunca tinham visto um dinamarquês antes.
A família é numerosa, são doze filhos.
Humildes, mas muito hospitaleiros e alegres.
A Baviera do século XVII envolve-se integralmente na Guerra dos Trinta Anos, embora suas regiões montanhosas fiquem alheias as batalhas.
Em um desses recantos, situa-se a vila Partenkirchen, de onde saia o acesso a escalada tormentosa rumo a íngreme montanha que a separava de Garmisch, outra aldeia vizinha.
Durante duas semanas, Christen e seu filho ficam hospedados com os Bergvolk, estabelecendo um convívio agradável e muito amistoso.
Desvinculados da vida social e política do Império Germânico, a família passa os dias cultivando a simplicidade e o amor a Natureza.
Aproxima-se o momento da despedida e os filhos do casal cantam um hino, composto pelo varão-primogénito, para saudá-los no adeus que deveria marcar o sofrimento da separação, mas também a imensurável alegria do convívio que tiveram e da amizade que se fortaleceu.
Christen e Frediano acenam as mãos e distanciam-se da cabana, enquanto ouvem, emocionados, a cantiga entoada pelos anfitriões.
De volta a Munique, Frediano decide partir rumo a Viena, onde os protestantes preparam-se para cercar a cidade por volta de 1647.
O pai esta inconformado e não aceita a participação do único filho na guerra.
Em verdade, não se trata de uma simples separação, pois as posições, nas linhas do destino, estão invertidas.
Christen, reencarnação de Klaus von Bilher, já foi filho de Giscard, actualmente reencarnado Frediano.
No passado, o conde D'Antoine separou-se desde o nascimento do filho bastardo Klaus.
O presente fez com que este último, na posição de pai, abandonasse igualmente o filho desde que veio a luz.
Portanto, o instante que antecede a separação de ambos torna-se difícil e os sentimentos afloram-se do fundo de seus espíritos.
Um amor conturbado e secular os une e os separa com a mesma facilidade.
Distanciam-se Frediano e Christen, embora, desta vez, irmanados num amor sólido e construtivo.
Em 1648, finda a Guerra dos Trinta Anos, a paz aparentemente volta a reinar no destroçado Império Germânico.
Algumas regiões ainda disputam, isoladamente, a hegemonia de suas convicções religiosas, prorrogando pequenas lutas e conflitos entre protestantes e católicos.
Frediano, associado a um grupo que acampou nas proximidades de Viena, repassa os documentos que conseguira subtrair de um alto oficial da milícia ligada ao clero católico contendo informações sigilosas do Vaticano.
Disposto a fazer uso dessa documentação, parte para Munique.
Alcançando um mosteiro na região de Salzburgo, toma conhecimento da assinatura do Tratado de Westfalia49, que teria colocado fim ao conflito religiões.
Continuando a viagem de regresso, termina aprisionado em emboscada preparada por recalcitrantes inimigos católicos.
Colocado em uma masmorra nos arredores de um vilarejo, no sul da Alemanha, termina desencarnando vitimado pela fome e pela fraqueza do corpo físico, causadas pela perversidade de seus opressores.
A luz de Alvorada Nova o recepciona em seu momento de libertação.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75742
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 30, 2015 8:29 pm

47 - Nota do autor material: a Guerra dos Trinta Anos foi uma guerra religiosa e política, que começou em 1618 e acabou em 1648, pelo tratado de Vestefdlia.
Teve par causas essenciais o antagonismo dos protestantes e dos católicos e o receio que ocasionava a ambição da casa da Áustria.
A luta iniciou-se na Boémia pela defenestração de Praga (nome dado aos actos de violência cometidos em Praga, em 1618, contra os governadores imperiais que, segundo diz uma tradição nacional, foram atirados pelas janelas do palácio pelos protestantes da Boémia, de quem o imperador Matias violara os direitos religiosos.
Foi o sinal da Guerra dos Trinta Anos).
A referida guerra divide-se em quatro períodos:
1B) o período palatino (1618-1624), durante o qual Frederico, eleitor palatino e eleito rei da Boémia, foi vencido na Montanha Branca (1620) e despojado dos seus estados; 29) o período dinamarquês (1624-1629), durante o qual Cristiano V da Dinamarca se pôs a frente dos luteranos; 3°) o período sueco (1630-1635), no decurso do qual Gustavo Adolfo, vencedor em Breitenfeld e no Lech, foi morto em Lucena; 4°) o período Francês (1635-1648), sendo assim chamado porque Richelieu, depois de ter apoiado secretamente os adversários da casa de Áustria, interveio directamente contra ela.
As vitorias francesas de Frigurgo e de Norlinga decidiram a Áustria a assinar a paz de Vestefdlia.
A Alemanha ficou arruinada e devastada por estes trinta anos de guerra.
(Dicionário Prático Ilustrado, pág. 1915).
48 - Nota do autor espiritual: actualmente a cidade de Lech situa-se na Áustria.
49 - Nota do autor material: concluído em 1648 em Monastério (Miinster) e Osnabruque entre o imperador germânico, a França e a Suécia, para por fim a Guerra dos Trinta Anos.
Deram aos príncipes Alemães o Norte, cujos territórios eram acrescidos, a liberdade de religião, o direito de aliança com o estrangeiro e marcaram o fracasso dos Habsburgo na sua tentativa de unificação da Alemanha.
A França ganhou a Alsácia e viu confirmar os Três Bispados. (ibidem, pág. 1934)
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75742
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 30, 2015 8:29 pm

CAPITULO LI - A SABEDORIA DIVINA

Os belos e dourados portais de Alvorada Nova recepcionam Eustáquio, conduzido pelo mentor Genevaldo.
Ingressa, de imediato - consciente e feliz -, na Casa de Repouso para um tratamento de recuperação das energias.
Após cinco anos de actividades na Colónia, Agamémnon convoca-o a sua presença.
- Caro Eustáquio, devemos avaliar em conjunto a sua última Jornada na crosta terrestre.
Depois de sua recuperação e reintegração em nossa cidade, gostaria de ouvi-lo.
- Confesso-lhe, meu bom amigo, que hoje tenho melhores condições de fazer uma autocrítica.
Tive excelentes oportunidades de resgate no estagio físico.
Algumas eu aproveitei e outras, lamentavelmente, desperdicei.
Gostaria de novamente poder regressar. É possível?
- Sem dúvida!
O seu progresso torna-se particularmente evidente a partir do instante em que você mesmo deseja voltar a carne para terminar a sua programação, ainda não concluída.
Lembra-se do passado não muito distante quando você acabava regressando compulsoriamente?
- Como poderia esquecer?
Não fossem o seu carinho e a sua atenção e, acredito, não teria conseguido...
- Não diga isso!
Sua evolução e fruto exclusivo de seu mérito pessoal na condução do livre-arbítrio que Deus me deu.
O mais importante de sua última vivencia na Crosta foi o encontro e o perdão mútuo ocorrido entre Christen e Frediano.
Pai e filho, duas vezes, ao longo de alternadas reencarnações puderam resgatar seus débitos e consolidar o amor universal e fraterno.
- Fico igualmente feliz!
- Você conseguiu, meu querido amigo, seguir a risca o mandamento de Jesus:
"Reconciliai-vos, o mais depressa possível com o vosso adversária, enquanto todos estais a caminho, para que ele não vos entregue ao juiz, o juiz não vos entregue ao ministro da justiça e não sejais metido em prisão.
Digo-vos em verdade, que dai não saireis, enquanto não houverdes pago o último ceitil"50.
Essa reconciliação provocou em outro Espírito uma alegria imensa, terminando longa peregrinação em busca de vingança.
Ricardo Igor von Bilher51, que foi assassinado a mando de Giscard D'Antoine, encontra-se hoje, sob outro invólucro e identidade naturalmente, muito satisfeito face sua reaproximação com Klaus ou Christen.
- Qual o meu destino, agora, Agamémnon?
- É hora de vivenciar a sua tão aguardada reencarnação-chave.
Voltara a França e, lá, reencontrando a opulência - sua mais ferrenha inimiga - bem como revendo antigos adversários poderá construir, através do exercício do amor e do perdão, o seu futuro promissor na senda evolutiva.
- Sinto-me inseguro ante tanta responsabilidade.
E se eu falhar?
- Note, Eustáquio, que o trabalho não estará exclusivamente em suas mãos.
Alias, nenhum grande empreendimento conta com uma só pessoa para realizá-lo, pois todos estão sujeitos - em face da má utilização do livre-arbítrio - aos desvios do bom caminho.
Assim, inúmeros Espíritos saem do plano espiritual para missões fundamentais na Crosta e somente o conjunto de suas atitudes poderá definir ou não uma mudança de rumo nos passes trilhados pela Humanidade.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75742
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 30, 2015 8:29 pm

Isso quer dizer que você deve dar a sua contribuição para a sua própria recuperação e para auxiliar a regeneração de seus semelhantes, mas não deve preocupar-se, de antemão, com o sucesso ou insucesso dessa trajectória.
Somente a Deus compete julgarmos.
- Você tem plena razão!
Não tornarei a demonstrar ansiedade desnecessária.
Há algum cuidado especial que deverei ter?
- Sim, existe! Seu retorno acontecerá em uma época delicada na história francesa.
A inquisição oficialmente terminou, mas os inescrupulosos representantes de alguns sectores reaccionários do clero continuam praticando essa forma de cruel violência contra muitos fiéis.
Além disso, politicamente, a França viverá um período de intensas mudanças, do qual você deverá participar colaborando pelo aprimoramento dos valores cristãos.
- Assim seja, Agamémnon! Estou disposto a partir e enfrentar os obstáculos que me aguardam.
Em 1737, Eustáquio segue para Paris, tornando a carne sob o nome de Lisandro, um participante activo dos caminhos que levaram a França a sua maior Revolução e constituindo-se defensor emérito de ideias iluministas que combatem a pena de morte e outros processes violentos de extermínio dos homens.

50 - Nota do autor espiritual: trata-se do trecho mencionado por são Mateus, cap.V, v. 25 e 26, demonstrando que, tendo em vista a tranquilidade futura - como explicou Kardec em sua codificação - importa reparar o mais cedo possível os males praticados contra o próximo, perdoando os inimigos, para que, no plano material, possam extinguir-se as animosidades.
Se assim não ocorrer, não será a morte que irá colocar fim as aversões mutuas, pois elas certamente irão perdurar no plano espiritual
(ver "O Evangelho Segundo o Espiritismo", Cap.X, itens 5 e 6).
51 - Nota do autor material: e oportuno lembrar a esta altura que o capitão Ricardo Igor von Bilher, filho do duque de Strasbourg, foi traído pelo conde Giscard D'Antoine e por sua esposa Gabriele.
O conde, como resultado desse acto, teve como filho bastardo Klaus Augusta von Bilher.
Além de ter feito Ricardo perecer em suas mãos. (Capitulo XII)
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75742
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 30, 2015 8:30 pm

CAPITULO LII - A REVOLUÇÃO FRANCESA

As desigualdades sociais no Estado Francês acentuam-se e a monarquia absoluta, consolidada com mãos de ferro pelo cardeal Richelieu, sobrevive pujante e dispendiosa.
A divisão na sociedade agrava a tensão pouco a pouco e os dois primeiros grupos de poder - o clero e a nobreza - denominados de primeiro e segundo Estados, distanciam-se cada vez mais do resto da população, concentrada no terceiro Estado.
Uma classe de comerciantes, empresários e profissionais liberais começa a deter parcela considerável das riquezas e busca implantar uma nova ideologia na França.
Surge a filosofia iluminista, que prega, antes de tudo, ser a Igreja instituição dispensável ao homem.
Para encontrar a Deus - dizem os iluministas - não há necessidade da participação obrigatória do clero como intermediário, ideias que desagradam a Igreja católica.
No ano de 1737, nasce Lisandro, filho de burgueses ricos, porém sem qualquer participação na estrutura política da época.
Recebendo primorosa e refinada educação, por conta dos relacionamentos sociais dos pais, acaba convivendo com personalidades do movimento iluminista Francês.
Aprende diversos idiomas e lança-se, desde cedo, ao estudo erudito.
A família e formada pelos pais Renan e Aline e os filhos Lisandro, Guido, Haydee e Gilbert.
Enquanto o caçula apoia o mais velho no seu desenvolvimento intelectual, os outros dois preocupam-se somente em divertir-se nas festas da Corte.
Sofrem, entretanto, a discriminação dos jovens nobres que não têm consideração com os filhos de comerciantes sem títulos.
Em alguns encontros sociais, Haydee e Guido apreciam exibir aos seus amigos fidalgos os conhecimentos do irmão primogénito, que a todos encanta com sua prodigiosa memória para os versos poéticos.
- Por favor, Lisandro, repita-nos a cena do balcão, nas doces palavras de Romeu - pede a Irma Haydee,
- Vou tentar...
Brilha a luz através da janela!
Trata-se do Oriente e Julieta e o Sol!
Eis que surge o Sol matando de inveja a Lua, que está pedida e doente.
Julieta, és mais linda que a Lua!...
Entre suspiros e ligeiros aplausos, ele termina:
- És minha dama!
Oh! ela é o meu amor! (...).
Não sei se mais me recordo.
Emocionadas, as moças presentes insistem para que ele continue.
- Não cesses!
Queremos ouvir-te - uma delas suplica.
- Os olhos de Julieta brilham tais como estrelas do céu.
Que poderia ocorrer se os olhos dela estivessem no firmamento e as estrelas na sua cabeça?
Certamente o fulgor das suas faces iria envergonhar as estrelas como a luz do dia o faz com a lâmpada (...)52.
Os rapazes, esquecidos num canto, revoltam-se com a presença marcante de Lisandro, mas são obstados em seus reclames pelas damas encantadas:
- Fala dos olhos... - suplica uma delas.
E o moço continua.
- Seus olhos seriam capazes de lançar do céu raios tão claros que as aves cantariam acreditando ter chegado a aurora.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75742
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 30, 2015 8:30 pm

Olhai como apoia o rosto na mão!
Queria ser uma luva sobre aquela mão para que pudesse tocar-lhe o rosto!
Tal como Julieta o faria, as moças suspiram em conjunto, numa só voz:
- Ai de mim!
Inconformados, alguns fidalgos apreciadores do poeta inglês pedem a Lisandro que repita os trechos de Julieta.
- Ai de nós, Lisandro!
Onde estão as súplicas de nossa Julieta?
- Preciso retornar a Paris.
Fico-vos devendo para o nosso próximo encontro.
Até breve, amigos!
Satisfeitos, os irmãos Guido e Haydee afirmam-se diante de todos, suprindo a falta de títulos nobiliárquicos que lhes corrói o orgulho.
A juventude intelectual de Lisandro o conduz ao centro das atenções em sua casa, despertando o respeito dos irmãos e a satisfação dos pais.
Tão logo são lançadas, ele procura ler as famosas obras "O Espírito das Leis", de Montesquieu, e "O Contrato Social", de Rousseau.
Quanto a este último livro, o trecho que mais o impressiona é o que trata da figura do legislador - a pessoa que tem por missão fazer as leis do Estado e da sociedade.
Seus olhos brilham ao sugarem com afinco linha por linha desse capítulo, enquanto seu coração clama por tal posicionamento na política francesa e a sua razão termina por indicar-lhe o seu caminho:
haveria de ser legislador no seu pais.
As palavras do autor Rousseau permanecem flamejantes em sua mente, repetindo-se seguidamente até levá-lo a exaustão em suas reflexões.
- O que o faz, hoje, tão preocupado, Lisandro?
- Nada em especial, Gilbert.
Estou apenas pensativo e questiono meus próximos passos.
Estamos num ano difícil para toda a estrutura social de nossa pátria e devo posicionar-me ao lado daqueles que defendem o Estado livre e igualitário, desvinculado do personalismo do rei e do clero.
Não posso esquecer as palavras de Rousseau...
- Já sei, cantaste por todos os lados e até nos sonhos falastes sozinho...
- Não exageres, meu irmão!
- Posso repetir, se desejares...
Ouças: o legislador é um homem extraordinário em qualquer ponto de vista.
Não se trata de magistratura ou de soberania.
Legislar é uma função superior e particular que não é comum ao império humano...
Quem impõe a lei não deve conduzir os destinos do homem e quem comanda os homens não deve fazer a lei...53
Estou certo até aqui?
Envaidecido com a atenção que o jovem irmão dedica as suas colocações insistentes quanto ao melhor sistema de governo que sente ser o ideal para a França, Lisandro aquiesce.
- Quase integralmente certo, porém não menos brilhante.
Estou orgulhoso de ti, meu irmão!
Aprendeste, de facto, importantes passagens dos escritos de Rousseau.
Não achas soberba a sua afirmação naquilo que se refere ao legislador?
Percebes que a pessoa que faz as leis não pode governar com isenção?
Da mesma forma, aquele que governa deve ficar alheio à elaboração legislativa...
Trata-se de uma visão óbvia do universo político que muitos não perceberam até agora.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75742
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 30, 2015 8:30 pm

Ah! Por certo devo retornar a obra do barão, O Espírito das Leis, onde encontrarei subsídios para escrever o próximo cahier.
Desde o inicio de 1789, os Cahiers de Doleances54 colhiam a opinião do povo - componente do terceiro Estado - a respeito das cargas tributárias, dos actos de governo, dos privilégios da nobreza e, apesar de contidos no questionamento a monarquia, terminam por tocar no assunto crucial para o povo Francês a essa época:
a elaboração de uma constituição.
Lisandro, em franca ascensão político-social, e seus amigos mais próximos elaboram um desses cahiers no interior da biblioteca de sua residência para remetê-lo ao rei, acompanhados de perto por Gilbert, um interessado eterno nas ideias do irmão mais velho.
- Caro Junet, percebeste o alcance das colocações de Rousseau?
Podemos criticar a organização política de nosso Estado a semelhança do que fez Calvino em Genebra.
Que achas?
- És um admirador de Calvino, por certo!
- Evidente!
Sua actividade não se limitou à teologia.
Foi um político honesto e inteligente que revolucionou Genebra.
Já tivestes a oportunidade de ler as suas Instituições?
- Não, ainda! Ele o fez.
Que achastes? - indaga Junet ao outro companheiro, Ernest.
- Preciosa e indispensável!
Ofereço-te o meu exemplar.
Deves conhecer de imediato.
Mas, Lisandro, o que vamos especificar nesse cahier no tocante à Igreja?
Vamos questionar a Deus como fonte absoluta de todas as leis?
- Não é bem isso!
Deus e fonte máxima de inspiração da lei dos homens, entretanto, a Igreja não e a única que pode interpretar a Vontade Divina.
Eis o mal do nosso século!
Eis a chaga de França!
Entregamos a uma instituição desgastada e em ruínas a primazia da palavra de Deus.
Com isso jamais concordarei!
- És um protestante?
- Não se trata disso!
Sigo a filosofia de meu querido e saudoso pai.
Considero-me um espiritualista.
Acredito na Sagrada Escritura, nos ensinamentos de Jesus Cristo, na Mão de Deus conduzindo o nosso destino, porém não delego a Igreja - a qualquer religião - a tarefa de pensar e agir por mim.
Eu sou o senhor dos meus actos e responsável por minhas atitudes.
Responderei directamente ao Criador quando deste mundo partir.
Estupefacto, o amigo Junet indaga:
- Acreditas, de facto, na vida após a morte?
- Sem dúvida!
Mas não percamos mais tempo.
Não estamos aqui reunidos para discutir filosofia ou teologia.
Continuemos no nosso manual de queixas.
Vamos colocar a visão universal dos pensadores afinados com a verdadeira política.
Não se deve desvincular a presença de Deus das leis...
Lembra-te que desde a época de Machiavelli assim já fora escrito.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75742
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 30, 2015 8:30 pm

- É verdade!
Diz-nos o florentino em sua obra que nunca houve um só legislador que não tivesse recorrido a Deus para legislar.
Somente assim suas leis seriam aceitas55.
- Essa é a nossa filosofia!
Ao trabalho!
Ernest, um dos companheiros de Lisandro, apesar de se fazer passar por amigo e leal, na realidade inveja-o e assimila as suas ideias para depois transmiti-las na Corte como se suas fossem, de modo a mostrar conhecimento e erudição.
A sua ignorância provoca-lhe um repúdio social e a única possibilidade que vislumbra e subtrair do amigo ilustrado as suas ponderadas colocações e ouvir as discussões entre os elaboradores dos cahiers, a fim de acumular cultura, mesmo que artificialmente.
Encontra, no entanto, em seu caminho, a desconfiança de Gilbert, que o contesta diutumamente em defesa do irmão.
- Não sei o que fazes aqui connosco, Ernest.
Meu irmão deve estar cego por não perceber a tua infidelidade e a tua incapacidade intelectual.
- Não sejas agressivo, Gilbert.
Compreendo a tua dedicação a teu irmão, mas não faças um juízo precipitado de minha pessoa.
Realmente não possuo os brilhantes conhecimentos de teu irmão, mas não posso ser considerado tão ignorante quanto tentas insinuar.
- Percas a dissimulação!
Eu não me chamo Lisandro e nem sou crédulo como ele.
A mim não conseguiras jamais enganar.
Sei que és um interesseiro e somente acompanhas os passos de meu irmão porque não tens para onde ir.
És um tacanho que não tem penetração na nobreza, nem no clero.
Os intelectuais te reprovam os conhecimentos e todos devem reconhecer a tua insignificância.
- Acho que deves cessar teus insultos.
Posso zangar-me, de verdade.
- Faças o que quiseres, pois de ti não tenho medo.
Enquanto me for possível, buscarei afastar-te de minha casa e de meu irmão.
Reencarnado, Razuk - antes um aliado e agora um inimigo -, sob o invólucro de Ernest, não esconde a sua antipatia por Lisandro e a sua intenção em prejudicá-lo.
Entretanto, equilibrando a situação, o jovem Gilbert e o velho amigo Gedião, também reencarnado ao lado de Eustáquio.
******
Aproxima-se uma das datas fatais para o universo absolutista francês.
O 9 de julho de 1789, quando os deputados reúnem-se em Assembleia Nacional Constituinte, traz o avanço considerável daquela que seria a celebre revolução das revoluções da historia da França.
Ao demitir o ministro Necker, Luís XVI faz eclodir o movimento revolucionário e, no dia 14 de julho seguinte, a tomada da Bastilha simboliza um marco nessa luta armada que passa a ocupar as ruas parisienses.
A guarda nacional, nas cores emblemáticas da bandeira francesa - azul, vermelho e branco -, busca manter a ordem.
Uma comissão de notáveis é chamada a participar da administração.
Lisandro inicia sua trajectória no governo intelectual.
Somente no inicio de agosto os ânimos revolucionários são contidos, ante o acordo celebrado entre o clero, a nobreza e o terceiro Estado, abolindo privilégios e contendo os impostos.
Desse acordo, participam activamente Lisandro, Junet e Ernest, embora este último poucas contribuições tenha dado ao evento.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75742
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 30, 2015 8:30 pm

Ao final do mesmo mês, surge o documento histórico denominado Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, quando, outra vez mais, Lisandro contribui com seus pensamentos.
A negativa de Luís XVI em aceitar tal declaração e as bases do acordo que selava o fim de muitos privilégios, fez eclodir novamente a ira dos franceses e o movimento tomou conta das ruas.
Como acontece em todos os grandes acontecimentos históricos dos homens, inúmeros Espíritos, de todos os níveis evolutivos, aproximam-se de Paris e nuvens negras e gigantescas, por vários dias, ocupam os céus de França.
Emissários de Alvorada Nova buscam apoiar os encarnados ligados a colónia, compreendendo a importância do momento vivenciado por todos e tendo por finalidade conter, ao Máximo, os exageros e a violência que pudessem surgir a qualquer instante.
Uma equipe de mentores, liderada por Genevaldo, aproxima-se de Lisandro e busca garantir a sua tranquilidade em ocasião tão conturbada.
Instruções de colónias superiores tinham chegado a Alvorada Nova, solicitando a partida imediata de seus enviados ao cenário Francês, de modo a garantir um curso saudável para a historia, na medida do possível.
O confronto é inevitável e Mentores Iluminados cercam Paris.
Hordas de Espíritos inferiores fogem assustadas para zonas cavernosas nos arredores da cidade, ante o brilho que os cega proveniente das equipes socorristas.
Alguns líderes nefastos e persistentes do mundo espiritual inferior tomam a cidade e, sustentados por correntes negativas de vibrações de vários encarnados, continuam influenciando parcela considerável dos parisienses.
Lisandro, nessa oportunidade de sua Jornada pela Crosta, goza de considerável isenção em seu espírito, visto que os seus mais cruéis opositores e obsessores do passado encontram-se reencarnados, como ele. Marcel, Tergot, Giinther e Razuk estão vivenciando experiências na crosta terrestre e, a excepção deste último, distanciados de Paris.
É certo que seguidores desses líderes e ainda inimigos de Eustáquio o perseguem, embora com menor furor e esperteza.
Assim, Lisandro consegue evoluir em seus posicionamentos de forma racional e acentuada.
Preocupado com a situação política de seu país, não se casa e vive solitário, possuindo por companhia somente o leal irmão Gilbert.
Haydee e Guido tomaram rumo ignorado tão logo desencarnaram seus pais Renan e Aline.
A família se desfaz parcialmente e o interesse nacional fala mais alto em seu coração.
A revolução e sua feição sangrenta torna-se irreversível.
O convento dos Jacobinos56 reúne uma facção radical - liderada por Robespierre - que deseja implantar uma ditadura e tem por fim eliminar toda a nobreza e membros da Corte.
Nesse movimento, muitos inimigos contumazes de Eustáquio, ao longo de séculos, estão infiltrados, sob novas identidades proporcionadas pela reencarnação.
Enquanto os jacobinos fazem seus planos, Lisandro assessora um dos mais inteligentes e capazes dos deputados que participam da Assembleia Nacional Constituinte.
De suas mãos partem escritos brilhantes, integralmente aproveitados na Constituição que esta nascendo.
Em 1791, termina a elaboração dessa carta de direitos e deveres, que deixa ao monarca muitos de seus privilégios e busca conciliar interesses dos mais variados.
Permite, no entanto, o acesso ao poder por parte da burguesia e assegura liberdade religiosa, apesar de proclamar o catolicismo a religião oficial de França.
Uma etapa estaria vencida na história se todos, pacificamente, aceitassem na íntegra esse documento, nascido das bases iluministas e, até certo ponto, revolucionarias.
De Roma, insurge-se a primeira voz contra a Constituição.
O papa alega que os sacerdotes não irão submeter-se as novas regras da França.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75742
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Conteúdo patrocinado


Conteúdo patrocinado


Voltar ao Topo Ir em baixo

Página 6 de 8 Anterior  1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Voltar ao Topo

- Tópicos similares

 
Permissão deste fórum:
Você não pode responder aos tópicos neste fórum