Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

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Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 22, 2015 7:36 pm

Quando deixa o plano físico, ante tantas atrocidades que cometeu ao longo de sua existência, outra não pode ser a companhia que aguardava Eustáquio senão a dos seus obsessores, aliados de sua insânia e cúmplices de seus crimes.
Apesar de valente, destemido e orgulhoso quando encarnado, ao deixar a protecção proporcionada pelo corpo físico, o seu espírito e alvo fácil para os grilhões das entidades umbralinas.
Aprisionado, humilhado, sem forças para reagir e sem qualquer apoio de Mentores de Luz - em razão de sua própria postura materialista - termina reduzido a condição de instrumento daqueles que, ao longo de anos, assistiram - maquiavélicos - o transcorrer da sua desgraça.
Recupera a sua consciência, após a morte, testemunhando a traição da esposa com seu venerável rei e o ódio do filho a figura do pai.
Os mesmos Espíritos que, anteriormente, o aconselhavam a prática do mal, hoje zombam de seu infortúnio e gargalham as suas custas.
Parte para zonas trevosas e abandona, atrás de si, a trajectória gloriosa de um dos mais temidos generais que já horrorizaram o reino dos francos.
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Ave sem Ninho

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Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 22, 2015 7:36 pm

CAPÍTULO VI - A CISÃO NAS ZONAS TREVOSAS

Eustáquio delira e sente-se agonizando.
Um turbilhão de imagens compõem os quadros que lhe desenham, passo a passo, a sua penosa rememorização do passado.
Enquanto isso, conduzido por entidades monstruosas de faces rostriformes, garras afiadas e agressividade natural, imagina-se aprisionado num clássico conto de horror.
Trilhas escuras e tortuosas conduzem-no a um castelo soturno que se ergue as margens de um pântano.
O calor e imenso, proporcionando-lhe desagradável sensação.
Praticamente sem nada enxergar, ante a funesta escuridão, não consegue vislumbrar um fim para os momentos de tortura que está vivenciando.
Lentamente, luzes sem qualquer brilho podem ser avistadas e Eustáquio começa a ouvir urros estrondosos por todos os lados. O seu pesadelo apenas tem início.
A caravana diminui o passo e detém-se diante de uma porta estreita, que se abre, na lateral de uma muralha, para receber os recém-chegados.
Ingressam na fortaleza, erguida nos mesmos moldes daquelas que existem no plano material.
Sem qualquer noção do tempo, instantes depois de chegarem ao seu destino, ele é aprisionado em uma masmorra.
Perde a consciência e assim passa dias seguidos.
Quando desperta, percebe estar numa cela mal iluminada e fétida, repleta de incómoda humidade e forrada de escombros.
Prepara-se para gritar desesperadamente quando uma criatura disforme abre a porta e profere um grunhido, fazendo gestos para que o acompanhe.
Apesar de temeroso, sente que sair desse local e prioritário e não opõe qualquer objecção.
Percorrem estreitíssimos corredores, todos parcamente iluminados e param diante de uma sala, cujo portal já se encontra aberto.
Segundos depois, Eustáquio é recebido por um Espírito vestido de negro da cabeça aos pés, possuindo um capuz tal qual um monge e carregando no peito um grande crucifixo oxidado.
- Sejas bem-vindo, meu caro amigo!
Espero que depois de tanto tempo possamos reatar os nossos laços de união e solidariedade.
Imagina, por instantes, que tudo não passara de um sonho e agora estaria acordando para a realidade.
- Quem és tu, padre?
- Chamo-me Gedião.
Gosto de trajar-me como monge para enaltecer o meu passado.
Lembra-se de mim, Eustáquio?
- Certamente que não!
Acho que estive sonhando até este momento.
Gostaria de ser encaminhado ao castelo do rei.
Seria possível?
- Lamento decepcioná-lo, meu caro, mas você está morto para o mundo que almeja alcançar.
Retornou ao seu lugar de origem e, como todos nós, é uma criatura das trevas, que se arrasta pelos umbrais desgraçados.
Sua última expectativa de acordar de um pesadelo cessa e o general tomba, desmaiando.
Recobra-se logo após e diante dele surge a figura de um militar, trajando armadura surrada e cinzenta, bem distante do brilho das vestes do exército franco.
- É um prazer tê-lo de volta, meu amigo!
Iniciarei, desde logo, os esclarecimentos que anseia receber.
Sempre fomos aliados.
Criávamos uma nova ordem espiritual poderosa e imbatível.
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Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 22, 2015 7:37 pm

Nossos companheiros, sob nosso comando, iriam conquistar um espaço jamais atingido em todo globo terrestre, dominando nações, fomentando a guerra e destruindo aqueles que se opusessem as nossas determinações. Tudo corria muito bem e já havíamos conseguido influenciar grandes governantes na Crosta, até que construímos esta fortaleza para servir-nos de abrigo.
Quando estávamos em vias de alcançar os nossos objectivos, alguns seres invasores, donos de uma luz de brilho odioso, invadiram nosso templo, escravizaram nosso povo e levaram nosso grande líder,5. Você, Eustáquio!
Estupefacto, ele segue atento a narrativa que lhe descortina o passado.
- Estávamos quase sem esperanças de reencontrá-lo e certamente não conseguiríamos fazê-lo, não fossem vibrações que nos enviou de onde estava reencarnado na Terra.
Foi um dia glorioso para todos nós.
Fomos de imediato ao seu encontro e, para nossa imensa satisfação, terminamos por encontrá-lo numa das batalhas que você enfrentou.
Estava massacrando os seus inimigos, sem dó nem piedade, atitude digna de um líder e de um exemplo para nossa causa.
Emocionados, jamais o abandonamos desde então e, quando você" desencarnou, fomos recepcioná-lo.
Ainda confuso, Eustáquio argumenta:
- Não me recordo de ter chamado ninguém...
- Não era preciso chamar-nos explicitamente.
Nós o encontramos quando você passou a ter os mesmos pensamentos que nos uniam neste plano imaterial.
A sua vibração era inconfundível.
- Não consigo compreender...
- Foi muito simples, meu amigo!
Quando você estava connosco, no plano espiritual, pensava em conquistar maiores domínios e, para tanto, utilizava qualquer instrumento.
Reencarnado, você usou os mesmos métodos e, portanto, em face da sangrenta guerra de conquista que você idealizou e executou pudemos novamente nos unir aos seus pensamentos e acompanhá-lo.
Foi Óbvio que uma mudança em seu comportamento, abandonando os seus anteriores princípios poderia nos ter afastado, felizmente isso não ocorreu e, agora, juntos estamos outra vez!
Após longas horas de conversa e de troca de informações, Eustáquio termina aquiescendo a essas explanações e reintegra-se ao seu antigo estilo de vida, associando-se, novamente, aos seres inferiores que acompanharam seus passos por tantos anos.
- Lembro-me agora...
Tu és o meu fiel aliado, Capitão Tergot?!
- As suas ordens, meu comandante.
No ano de 529, um monge chamado Bento, impulsionado, por boas intenções, criou a Ordem dos Beneditinos.
Esse seu trabalho, aos poucos, deteriorou-se, especialmente com o surgimento da ordem dos monastérios, encabeçada por monges que desejavam viver em clausura, deturpando, pois, os princípios básicos da organização criada.
Para tanto, foram erguidas abadias, locais utilizados para o isolamento desses monges, repletas de cómodos e cortadas por inúmeros labirintos, de onde os internos só poderiam sair com o auxílio daqueles que conheciam toda a estrutura interna das muralhas.
Levando vidas reclusas, sem convívio externo e sem a prática da caridade, os religiosos dessa ordem acabaram gerando a saga das abadias, locais muitas vezes utilizados para práticas desviadas dos ensinamentos cristãos e que serviram de base a actividade de muitos Espíritos obsessores ao longo de séculos.
Trinta e quatro anos após o seu desencarne, Eustáquio e reconhecidamente um líder nas zonas espirituais trevosas.
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Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 22, 2015 7:37 pm

De seu posto, comanda a actividade de muitas equipes de seres inferiores que buscam encontrar, na materialidade, encarnados para obsedar, subjugar e conduzir os passos.
A filosofia que impulsiona essas entidades tem por fim estabelecer o maior número possível de adeptos de suas práticas anticristãs, como se pudessem, algum dia, derrogar a mensagem virtuosa, única e verdadeira de Jesus.
Vivem na ilusão de que são poderosos e tentam manter, no plano espiritual inferior, a mesma vida que levavam quando encarnados, repleta de desvios de conduta e vícios de toda ordem.
São Espíritos doentes, cujo tratamento e a regeneração é a reforma íntima.
Somente a reencarnação, após resgate nas zonas trevosas, poderá reconduzi-los a caminhos menos tortuosos.
Nessa esteira, Eustáquio organiza uma assembleia visando a formação de um novo organismo que iria actuar no plano material.
Convida todas as lideranças de seu conhecimento para o evento.
Numa imensa arena, cercada por todos os lados de Espíritos errantes, gritando impropérios e incitando brigas de uns contra os outros, adentra o condutor do conclave, vestido com um manto sacerdotal negro e roto, portando na cabeça imenso capuz, puído nas extremidades.
Soturno e determinado, caminha até o centro do anfiteatro.
Urros de saudação ecoam por todos os cantos.
Subitamente, quando a mão do líder se levanta, inicia-se um mórbido silêncio.
- Meus companheiros!
Convoquei-os à minha presença neste dia histórico para dar-lhes os parâmetros de uma nova ordem que pretendo formar.
Abandonaremos os tradicionais métodos de influenciação aos encarnados e adoptaremos outros, infalíveis e inteligentes, que nos trarão um aumento considerável de adeptos por todo o mundo.
Nossa actuação concentrar-se-á na organização religiosa dos monges beneditinos.
Muitos desses sacerdotes vivem em constante desvio de conduta, facilitando-nos, portanto, o assédio e a dominação.
Estabelecidos os laços de subjugação, conseguiremos trazer outros seres para o nosso antro, através do convencimento e da ardilosa promessa de salvação de suas almas.
Deixaremos de lado as guerras de conquista e não necessitaremos investir em batalhas sangrentas para conseguirmos atingir patamares dignos da desgraça da Humanidade.
Os presentes entreolham-se com curiosidade.
- Esta e a nova ordem, meus irmãos!
Na aparência da simplicidade, na ausência das armas e sob o manto sacerdotal estará uma organização poderosa, capaz de dominar reis e governantes, influenciar nobres e membros do clero, enfim, deter o poderio económico e religioso do planeta.
Assediar militares, cultivando as guerras, já se tornou cansativo e não tão eficiente.
A conquista de novos espaços reclama uma ordem mais eficaz e menos trabalhosa.
Onde estiver o fingimento, a perfídia, o orgulho, a riqueza, a traição, a ambição sem limites, lá estaremos erguendo nossas bases.
Descobri, agora, uma abadia dos beneditinos, onde poderemos iniciar nossas actividades.
Nesse local, alguns de seus integrantes praticam a "magia negra", chamando-nos das zonas trevosas para dar-lhes assistência.
Não nos furtaremos a ajudá-los.
Estabelecendo fiéis discípulos no plano material, ampliaremos rapidamente a nossa influência por outras abadias e, quem sabe, por outros centros religiosos e políticos.
Ignorantes e pervertidas, as entidades presentes, incapazes de raciocinar sobre o assunto que lhes fala Eustáquio, limitam-se a aplaudi-lo, urrando sem cessar.
Instala-se a balburdia e, subitamente, uma voz se faz escutar na assembleia.
- Calem-se todos e ouçam o que eu tenho a dizer!
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Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 22, 2015 7:37 pm

Não me oponho a criação de uma nova ordem, mas não vejo com simpatia a extinção dos métodos militares de conquista.
Sem armas e sem guerras, não haverá sangue suficiente a jorrar da corja dos encarnados que relutarem contra nossos comandos.
Exijo que se formem ordens religiosas militares.
O inconformismo parte do capitão Tergot e surpreende Eustáquio.
- Ora, Tergot, não é este o momento de dividirmos as nossas forças.
Além do mais, não admito ser questionado em minhas ordens.
Entendo não ser esta a ocasião para discutirmos a sua proposição.
- Não fui consultado previamente a respeito de sua brilhante ideia, meu caro general.
Nego-me, portanto, ao silêncio e insisto na minha inicial colocação.
Ou continuamos envolvidos com as ordens militares, mesmo que sejam elas também religiosas, ou não poderemos permanecer unidos.
Há interesses do grupo que represento em jogo nesta decisão!
- Assim seja, capitão.
Vamos à votação.
Que vença o melhor.
A maioria absoluta das entidades, seguindo o comando de Eustáquio, aceita suas ideias de renovação e vota a seu favor.
Liderada pelo capitão Tergot, a minoria vencida não se dobra ao pleito realizado e retira-se, rompida, da assembleia.
Em poucos minutos, desfaz-se uma união secular entre dois Espíritos que formavam uma só organização.
A partir dessa ruptura, o grupo de Eustáquio passa a assediar a Ordem dos Beneditinos, em especial nas abadias onde encontra receptividade as suas nefastas intenções.
Os aliados de Tergot influenciam outros encarnados que, futuramente, formarão a Ordem dos Templários na crosta terrestre.
Além da divergência de organizações, o primeiro grupo fixa seu centro de actividades na França e o segundo na Alemanha.
Não por acaso, a disputa da Alsácia-Lorena contou com o envolvimento direito de dois cruéis inimigos do plano espiritual, fomentando divergências e incentivando por anos a fio a beligerância nessa região.6
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Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 23, 2015 8:07 pm

5 Nota do autor material:
Processos de resgate como esse sofrido por Eustáquio ocorrem com o apoio de sessões de desobsessão do plano material e são realizados pelos Mensageiros do Alto, os quais invadem regiões do mal para compelir seus ocupantes a um estágio em câmaras de rectificação ou a reencarnes compulsórios de acordo com a programação da Superioridade Divina.
Ver no livro "Conversando sobre Mediunidade - Retratos de Alvorada Nova", no capítulo II, os itens "Desobsessão e encaminhamento" e "Equipe Científica Externa de Alvorada Nova", para maiores esclarecimentos.
6 Nota do autor material:
a questão da disputa da região da Alsácia-Lorena é antiga entre franceses e germânicos.
Os conflitos entre a Alemanha e a França relativas às províncias fronteiriças conhecidas como Alsácia e Lorena tem a sua origem no século IX.
Habitada por povos germânicos, essa região pertencia ao império de Carlos Magno, rei dos francos (768 a 814) e imperador do Ocidente (800 a 814).
Após a sua morte, o Império Carolingio foi dividido por seu filho Luís I, o Piedoso, imperador do Ocidente, imperador da Alemanha e rei de França (814 a 840) entre os filhos deste.
A Lotário I (795-855), o primogénito, imperador do Ocidente, coube a Itália setentrional e uma faixa de terras que abrangia dos Alpes aos países baixos, compreendendo a Alta e a Baixa Lorena; a Luís II, o Germânico, o segundo filho, rei dos francos orientais (817 a 843) e da Germânia (843 a 876), couberam as regiões a leste do rio Reno e a Carlos II, o Calvo, o caçula, rei de França (840 a 877), as terras do centro e do oeste da França (vide mapa ne 3) - Tratado de Verdun, 843. Com a morte de Lotário I (855, seus irmãos passaram a disputar o sen quinhão.
Carlos II, o Calvo, tomou a Lorena de Luís II, o Germânico, seu irmão, em 858. Luís III, o Saxão, rei da Alemanha (876-882), filho de Luís II, o Germânico, finalmente venceu a disputa e o território em questão foi incorporado ao seu património.
Tomou a Baviera a seu irmão Carlomano, rei da Baviera e da Itália (828 a 880) e a Lorena ocidental (880) de seu primo Luís III, rei de França (879 a 882), filho de Luís II, o Gago, rei de França (877 a 879) e neto de Carlos II, o Calvo (vide mapa ne 8).
Assim permaneceram tedescas essas plagas ate o século XVII, quando Luís XIV, rei de França, tomou-as do Império Alemão devido a derrota Alemã na Guerra dos Trinta Anos e a imposição, pelos vitoriosos, do Tratado de Westfália (vide mapa ne 11).
Ao término da Guerra Franco-Prussiana em 1871, o vitorioso Otto von Bismark, chanceler da Prússia e artífice da unificação Alemã, recupera de Luís Napoleão, segundo imperador francês e sobrinho do famoso general corso, as terras da Alsácia e da Lorena, através do Tratado de Frankfurt (vide mapa ne 13).
A situação permanece estável até 1919, quando, ao final da Primeira Grande Guerra Mundial, a Entente vitoriosa, composta dos Estados-Unidos, Grã-Bretanha e França, por uma das cláusulas do Tratado de Versailles, arrebatam-nas novamente do Império Alemão (vide mapa ne 14).
Em 1940, durante a Segunda Grande Guerra Mundial, a derrotada República Francesa e o Terceiro Reich assinam, na mesma floresta de Compiegne, onde vinte e dois anos antes havia sido firmado o armistício que resultou posteriormente no referido Tratado de Versailles, a rendição daquela que, entre outras, devolvia os domínios disputados a nação germânica.
Esse status manteve-se até o ano de 1944, quando americanos e ingleses, após desembarque maciço de tropas nas costas da Normandia, arrebatam as mencionadas províncias (Alsácia-Lorena) para a França, situação que permanece até os dias de hoje.
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Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 23, 2015 8:08 pm

CAPITULO VII - O RESGATE

Após a tumultuada assembleia que se realizara, Eustáquio, sentindo-se vitorioso, revive em seu âmago a cruel alegria proporcionada pelo orgulho e pela vaidade, relembrando os seus momentos de glória no plano material.
Ao seu lado, seus fiéis seguidores, Gedião e Razuk.
- Mais uma vez esmagamos o inimigo.
É incontestável a sua liderança, meu amigo.
- Não diga isso, Gedião!
Não considerava um adversário o meu amigo Tergot.
Sentirei a sua falta ao meu lado e não nos esqueçamos, jamais, que ele e pérfido e perigoso...
Agora, por sermos inimigos declarados, ele tudo fará para nos atacar das formas mais terríveis que encontrar.
- Particularmente, Eustáquio, eu acredito nos métodos militaristas expostos pelo capitão...
- Cale-se, estúpida criatura!
Como se atreve a contestar o nosso líder?
O ríspido diálogo entre Razuk e Gedião logo é interrompido por Eustáquio.
- Gedião, não fale assim com seu companheiro.
Razuk tem o direito de expor sua opinião a respeito dos acontecimentos que nos colheram de surpresa.
Lembremos que a nossa união jamais deve ser afectada.
Buscando contemporizar, Razuk arremata a conversa:
- Certamente, general, continuarei ao seu lado, em que pese a minha simpatia a ideia de Tergot.
Os Espíritos que habitam as regiões umbralinas, por serem ignorantes, levianos e desviados da prática cristã tendem a imitar a vida que levavam quando estavam encarnados, desde as habitações até o seu modo de pensar.
Arrastam-se anos a fio pela escuridão do ambiente em que vivem, mas também enfrentam o breu no campo das ideias.
Permanecem jungidos ao atraso e somente encontram algum alento quando são resgatados por Entidades Superiores, provenientes das colónias espirituais que volteiam o planeta, para serem encaminhados a um estágio regenerativo ou a uma reencarnação compulsória.
Em determinado momento, Eustáquio começa a folhear um imenso livro de capa preta, exibindo-o aos seus companheiros.
-Aqui estão, meus amigos, os nossos registos!
Este livro assinala todas as nossas actividades nos últimos tempos.
Vocês poderão acompanhar a nossa trajectória gloriosa e todas as nossas conquistas.
Temos, ainda, uma relação de todos os encarnados que connosco colaboram na crosta terrestre.
Ambos concordam, exultantes.
- Permita-me uma indagação, general.
Por que existem folhas soltas e que possuem a borda queimada?
- Trata-se de um dilema secular que temos enfrentado.
Quando alguns daqueles "invasores de luz" adentraram o nosso castelo da última vez, levaram consigo varias folhas deste livro e conseguiram destacá-las com a força de suas armas.
Não pudemos opor qualquer resistência e, com isso, perdemos importantes registos de nossas actividades e, sobretudo, alguns arquivos de colaboradores nossos7.
Agora, como pode ver, há muitas folhas soltas e com as bordas queimadas por aquela luz...
- Existe alguma forma de impedirmos tais "invasões"?
- Não há nada que possamos fazer, Razuk!
Já tentamos todas as possibilidades e somos presas fáceis a essas equipes.
Não sabemos de onde elas vem e para onde seguem, levando consigo companheiros nossos.8
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Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 23, 2015 8:08 pm

Razuk resolve nada mais perguntar para não aumentar a ira de seu chefe e Gedião solidariza-se com Eustáquio ante sua impotência para rechaçar esses ataques.
- Não tratemos mais deste aborrecido assunto!
Vamos analisar os mapas que vocês trouxeram.
Estudam o mapa da Europa, em especial o da França, para bem conhecer o território onde pretendiam actuar.
Eustáquio lembra-se bem dessa região, pois promoveu inúmeras guerras de conquista quando era o general dos francos.
Após muitas horas de reunião, os companheiros despedem-se e somente Eustáquio permanece na sala, meditando.
Recorda-se, por alguns instantes, de sua feliz infância ao lado de seus pais Claudine e Filipe.
Começam a surgir-lhe indagações a mente.
Em algum lugar do universo, existiria a felicidade plena, como sua mãe afirmava?
Estaria correto o seu caminho, permanecendo na liderança de um grupo de degenerados ignóbeis e leigos?
O que lhe teria acontecido se tivesse recusado aquela proposta do capitão Tergot de reintegrar-se ao bando?
Por que as equipes de resgate de criaturas tem tanto brilho e tanta força?
Nesse processo de autocrítica e de íntima reflexão, adormece, entorpecido.
Mantém-se ligado, no entanto, a imagem de sua bondosa mãe e recorda-se dos seus últimos instantes a beira do leito de morte de Claudine.
Produz as primeiras boas vibrações em seu coração ao longo de anos no ostracismo do ódio e do rancor.
Longe dali, em avançado centro de comunicação da colónia espiritual Alvorada Nova, localizado no Posto de Socorro nº. 5, uma equipe plantonista recebe um alerta.9
- Irmão Vinícius, o meu painel esta acusando o código 500-EAR.
Devemos enviar um grupo de resgate imediatamente.
Em poucos minutos, partem para o castelo de Eustáquio vários mensageiros do Posto de Socorro, prontos a recolher o filho pródigo.10
Enquanto isso, Amâncio - assessor directo da Coordenadoria Geral na cidade espiritual - informa-se dessa missão, determinando que o Arquivo Geral11 inicie o seu trabalho de verificação.
Flechas magnéticas de alto brilho, multicoloridas, invadem as zonas escurecidas.
As entidades inferiores escondem-se, assustadas.
A luz poderosa da equipe de resgate do Posto de Socorro invade a sala de reuniões, onde Eustáquio está adormecido.
Soa o alarme em todo o castelo com a aproximação da intensa luminosidade do grupo de busca.
Gedião e Razuk, temerosos, dirigem-se ao seu líder.
Impossibilitados de ingressar no recinto, cegos pela intensidade da luz, são obrigados a aguardar a sequência dos acontecimentos.
Subitamente, uma voz suave quebra o silêncio que acabara de instalar-se.
- Eustáquio, meu filho!
Sou eu, Claudine12.
Atendi ao seu chamado e aqui estou para levá-lo comigo.
Inebriado pelas exortações de amor que lhe penetram o ser, Eustáquio fragiliza-se e torna-se receptivo ao resgate que se encaminha.
- Filho, a hora da regeneração aproxima-se quando há preparo do espírito para recebê-la.
O amor triunfa sempre que o livre-arbítrio o incentiva a fazê-lo.
A desesperança cede terreno a palavra do Senhor.
É chegado o seu momento e, por isso, vim para buscá-lo.
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Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 23, 2015 8:08 pm

Vamos orar a Jesus, rogando-lhe complacência com o seu estado de miserabilidade espiritual.
Os irreplicáveis argumentos de Claudine acalentam o espírito de Eustáquio, que, apesar da fidelidade aos amigos, concorda em partir para uma nova vida, seja ela onde for.
Um dos componentes da equipe de resgate injecta-lhe uma dose de medicamento para evitar um choque magnético entre aquele ambiente que o envolveu durante muitos anos e o purificado cenário que iria encontrar no Posto de Socorro.
Ele adormece, desta vez profundamente.
Inconformados e inertes, Razuk e Gedião lançam-se contra aquele redemoinho de luz sem nem mesmo saber o que lhes poderia acontecer, tamanho era o seu desespero pela captura do líder.
Em alguns minutos, são também recolhidos e partem com Eustáquio para o Posto onde irão recomeçar suas vidas e reencontrar a paz e o sossego de seus sofridos espíritos.
Nota do autor material: quando um Espírito do mal é resgatado pelo Alto (ver nota de rodapé ne 5), seus vínculos com o mundo das trevas e cortado para que tenha um seguimento normal em sua vida sem o assédio de entidades ignorantes.
Por tal razão, ao ser levado para Alvorada Nova - ou um de seus Postos de Socorro - junto com ele vão esses arquivos dos quais Eustáquio fala com orgulho.

8 - Nota do autor material: Eustáquio e seus aliados, por serem muito ignorantes nessa ocasião, não sabiam quem eram os tais "invasores" e nem para onde eles iam.
Outros Espíritos que habitam o Umbral, contudo, por serem muito inteligentes - e alguns esclarecidos -, sabem quem são os membros dessas equipes e conhecem suas cidades espirituais.
Tanto assim que os integrantes da equipe de resgate tem equipamento para a sua protecção e Colónias e Postos já sofreram ataques de entidades inferiores em zonas umbralinas.
9 - Nota do autor material: ver no livro "Alvorada Nova" o capítulo "A descrição de nossa árvore -I - Casa de Repouso", actualmente também conhecida com o nome de "Hospital de Scheilla".
10 - Nota do autor material: toda vez que um Espírito, acompanhado por determinada colónia, sensibiliza-se em sua peregrinação pelas zonas trevosas - tal como ocorreu com André Luiz, após muitos anos no Umbral - Equipes Superiores recebem autorizado para resgatá-lo.
Esse foi o processo com Eustáquio e usado, naquela ocasião, em Alvorada Nova.
O código recebido - "500-EAR" - significa: 500 (ano do desencarne)+EAR
(Eustáquio Alexandre Rouanet).
11 - Nota do autor material: ver no livro "Alvorada Nova" o capítulo "A descrição de nossa árvore - II - O Prédio Central".
12 - Nota do autor material: Claudine, em Alvorada Nova (na Espiritualidade), tem o nome de Nívea.
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Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 23, 2015 8:08 pm

CAPITULO VIII - ALVORADA NOVA

Um painel luminoso acende-se na entrada principal da Unidade Avançada Hospitalar, demonstrando a chegada de novos pacientes.
As enfermeiras apressam-se em providenciar todos os detalhes faltantes para receber com muito amor mais alguns companheiros de vidas passadas que retornam a sua Casa, adormecidos por sono reparador provocado pelo resgate que acabam de vivenciar.
O ambiente espelha paz e tranquilidade e há uma luz prateada com tons azulados por todos os cómodos.
Pouco depois, macas se aproximam dentro de um veículo que estaciona a porta da Unidade.
- Enfermeira Rosana, para onde devemos encaminhar os irmãos que acabam de chegar?
- De acordo com a orientação das fichas que acabo de receber neste momento, provenientes do Arquivo Geral e da Assessoria, Eustáquio deve seguir para o Pavilhão "S" e seus dois amigos, Razuk e Gedião, para o Pavilhão "T", todos do Prédio III.
As equipes desses locais irão recepcioná-los.
Minutos depois, ingressam na Unidade de Rectificação do Prédio III, os três pacientes adormecidos.
Ali deverão passar boa parte de seu futuro, reflectindo sobre seus actos da vida passada, bem como a respeito de seus erros e desvios, sem que recebam, por ora, qualquer tipo de orientação.
Farão um completo retrospecto dos seus últimos 500 anos de existência, enquanto permanecem em câmaras de sono profundo.
Cinco anos decorrem.
Em uma manhã ensolarada, Dr. Euclides - médico responsável pelo sector de Câmaras de Sono Profundo da Unidade de Rectificação - solicita audiência com o dirigente da colónia.
Imediatamente, e recebido por Agamémnon Duarte, à época Coordenador Geral de Alvorada Nova.
- Entre, meu jovem! Tenho acompanhado a sua imensa dedicação com os nossos pacientes Eustáquio, Razuk e Gedião.
Até poderia imaginar uma ligação forte proveniente de outras épocas entre vocês, não conhecesse eu, com muita satisfação, a sua pessoal dedicação por cada um de seus doentes. Diga o que deseja e verei o que posso fazer.
- Meu bom Agamémnon!
Fico sempre feliz em poder auxiliar um irmão enfermo.
Entretanto, noto que, salvo melhor juízo de nossos Dirigentes Maiores, já é hora de retirarmos nossos amigos das câmaras de sono profundo passando-os para as câmaras de rectificação do primeiro estágio.
- Faremos uma consulta a Unidade da Divina Elevação13 e aguardaremos a resposta.
Por mim, você tem autorização para proceder como achar melhor ao caso concreto.
- Perdoe-me certa ansiedade, mas creio ser o momento ideal para despertarmos esses pacientes.
Sinto uma considerável recuperação após esses anos de sono profundo.
No mesmo dia, Agamémnon faz a consulta pleiteada e recebe autorização para dar prosseguimento ao tratamento de Eustáquio e seus dois companheiros, da forma requerida pelo médico.
Transmitida a mensagem ao Dr. Euclides, de pronto e activado o processo de retirada dos três pacientes de suas câmaras de sono profundo, passando-os para câmaras de rectificação de primeiro estágio, onde devem estagiar mais algum tempo.
Nessas câmaras cessa o processo de recordação de seus erros e desvios e eles passam a relembrar as mensagens positivas que receberam ao longo de suas últimas existências materiais.
Trata-se de um período onde somente orientações positivas e Cristãs invade-lhes o âmago.
Decorridos três anos nesse processo, os amigos são conduzidos a presença de Euclides.
- Espero, sinceramente, meus caros, que todo esse auxílio que pudemos passar-lhes tenha servido para sintonizá-los com o ambiente elevado deste posto, totalmente diverso daquele que vivenciavam em zonas umbralinas.
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Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 23, 2015 8:08 pm

- Sinto que estamos em um hospital.
Encontramo-nos doentes?
- De certa forma sim, Gedião.
Vocês estão perturbados ainda, em razão de tantos desatinos cometidos ao longo de uma existência passada voltada ao desregramento e ao crime.
Estiveram em tratamento, embora ainda necessitem de cuidados.
Vamos encaminhá-los para a Casa de Repouso.
Que Jesus os ilumine!
Partem todos para o Hospital de Alvorada Nova, deixando o Posto de Socorro nº. 5.
No interior do veículo que os transporta, acompanhados por enfermeiros, o silêncio é total.
Apesar de tantos anos isolados, nenhum dos três atreve-se a iniciar uma conversa, tamanha é a confusão mental de todos.
Ingressam na Unidade de Recepção e são imediatamente encaminhados ao Centro de Triagem.
Seguem, depois, aos seus quartos.
Durante vários dias, recebem a visita de médicos e enfermeiros que buscam proporcionar a melhor desimantação possível dos fluídos negativos que ainda os acompanham.
Apesar de todos os esforços realizados pela equipe médica, somente a verdadeira reforma intima será capaz de impulsioná-los a uma melhora efectiva.
Lúcido e consciente, Eustáquio é levado à presença de Agamémnon.
- Meu caro Eustáquio! Paz em Jesus.
Sentimo-nos felizes em recebê-lo de volta a nossa cidade espiritual.
Estamos acompanhando o seu progresso, em especial pela interferência de sua mãe Claudine - a nossa querida Nívea.
A esta altura, você já sabe que a sua última vivência na Crosta trouxe-lhe profundos débitos, que precisam ser reparados.
Você acredita, meu filho, estar preparado a um novo estágio no plano material?
- Confesso-lhe, senhor, que não me encontro em condições de responder-lhe, com segurança, a questão que me é colocada.
Apesar desses anos de reflexão compulsória a que fui submetido, não acredito ter-me tornado capaz de tomar uma decisão como essa.
Não me sinto apto a fazer nada.
Gostaria de encontrar-me com minha mãe, se for possível.
Talvez, ela possa ajudar-me...
- No tempo certo, providenciaremos esse encontro.
Agora, precisamos saber se, por livre-arbítrio seu, você esta preparado a reconhecer os seus graves erros do passado e entender que o melhor caminho para resgatá-los e o imediato retorno a Crosta.
- E se eu aceitar, em que condições voltarei?
- Enfrentara uma vida simples, com alguma privação material para que possa redimir-se de tantos desvios praticados na sua anterior opulência.
- Como? Então eu haverei de retornar pobre e miserável?
- Não há motivo para tanto asco, meu filho!
A pobreza material muitas vezes significa a chave para a riqueza do espírito.
Lembre-se que a maioria de seus erros provêm da sua privilegiada casta social, quando esteve reencarnado em França.
Se você voltasse na mesma condição, a trajectória estaria prematuramente perdida.
O seu programa indica que uma alteração no local de seu nascimento e na sua situação financeira será providencial.
- Não posso concordar, lamento!
Creio que ainda não estou preparado a aceitar as suas condições.
Eu tenho alguma outra opção?
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Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 23, 2015 8:09 pm

- Por ora, não!
No futuro, quem sabe...
- E se eu me recusar a aceitar a sua sugestão?
- Lamentaríamos muito o seu posicionamento.
Entretanto, antes que decida, vou atender ao seu reclame.
Poderá ver a sua mãe.
Entra na sala a doce Nívea, toda vestida de branco, com um belo laço azul nos cabelos e tendo nas mãos um quadro com a sua própria imagem segurando nos braços o pequeno Eustáquio, simbolizando o melhor período que vivenciaram juntos.
- Filho, aqui estou novamente a falar-lhe!
Não tenho outro objectivo imediato senão ajudá-lo.
E a força de nosso amor que deverá sempre prevalecer.
Não coloque em risco a sua felicidade futura e aceite o convite que lhe é formulado por Agamémnon.
Se com naturalidade você aceitar essa oportunidade de renascimento, eu estarei ao seu lado para auxiliá-lo sempre que precisar.
- Mas, minha mãe, como poderei suportar a pobreza?
Jamais conseguiria viver um só dia na miséria.
- Eustáquio, lembre-se que as posses materiais de um encarnado nada significam neste mundo que agora lhe serve de morada.
Não percebeu ainda, meu filho, que neste plano da verdadeira vida prescindimos de ouro e jóias, títulos e propriedades?
Não somos gananciosos, nem arrogantes, porque somos absolutamente iguais dentro das Leis Divinas e do amor cristão.
Inexiste entre nós qualquer forma de ambição, a não ser aquela que nos impulsiona a valorização do carácter e dos postulados morais.
Almejamos progredir espiritualmente e sabemos que a passagem pela crosta terrestre e efémera e transitória.
Para que riqueza material, Eustáquio, se ela sempre representou-lhe desgraça e sofrimento?
Confie em mim!
Aceite essa proposta.
- Como posso negar-lhe algo, mamãe?
Apenas não compreendo porque devo retornar...
- A ideia de seu retorno ao plano material não é nossa, meu filho!
Faz parte das Leis de Deus e consagra a universal lei de acção e reacção.
Você deve retornar a fim de reparar tantos erros que anteriormente cometeu.
- Não posso ficar um pouco mais?
Quem sabe, então, se eu fosse para a França outra vez?
- Realmente, você necessita voltar a Dijon e aquela região, mas não agora.
Fortaleça-se primeiro e depois terá a oportunidade de reparar suas dívidas nesse local.
Você deve aprender a viver de modo simples e humilde bem longe do lugar onde desfrutou de toda a glória permitida a um ser humano.
Conto com seu progresso!
- Mas, querida Claudine, como irei resistir a qualquer tentação longe de seus sábios conselhos?
- Seguindo as orientações de sua mãe.
Por tal razão, estarei de volta a carne para acompanhá-lo de perto.
Novamente renasceremos mãe e filho e, juntos, haveremos de progredir.
Você me acompanha?
- Sim, eu irei. Gostaria, se possível, de saber qual o destino de meus amigos Razuk e Gedião...
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Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 23, 2015 8:09 pm

- Por ora, Eustáquio, preocupe-se com a sua trajectória.
Eles estarão bem e terão a mesma oportunidade de retorno que você.
Um abraço emocionado aproxima Nívea de Eustáquio, enquanto Agamémnon fornece as últimas orientações.
- Lembre-se, Eustáquio, que sua mãe somente está voltando a Crosta para apoiá-lo em sua Jornada, pois ela não necessitaria mais retornar a materialidade.
Espero que você reconheça esse gesto nobre, deixando-se levar pelos prudentes conselhos de sua futura progenitora Giovanna, na distante Cosenza do sul da Itália.
Ela partirá imediatamente e você aguardará o momento propício.
Deus os ilumine.
Assim seja.

A digitalizadora atreve-se a incluir aqui o mapa da Colónia – Alvorada Nova.
13 - Nota do autor material: ver no livro "Alvorada Nova" o capítulo "A descrição de nossa arvore - V - Unidade da Divina Elevação".
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Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 23, 2015 8:09 pm

CAPITULO IX - O REINÍCIO EM COSENZA

Uma esquálida vegetação entreza-se com uma minúscula estrada de terra que volteia a miserável região da periferia de Cosenza, na Itália do início do século VII14.
Ao lado dessa vereda da desesperança erguem-se choupanas humildes, onde famílias numerosas dividem a entrita (s.f. papas feitas de migas de pão; entrida.F.lat.Intrita.) que lhes aplaca a fome e a angústia da pobreza.
Dos escombros de um celeiro, surge a figura escrófula de um jovem carregando nas mãos um pequeno monte de palha para dar início a fogueira que pretende afugentar o frio intenso das noites gélidas do inverno europeu.
O mirrado Carlo da Vila di Rondi, quase arqueando em suas magérrimas pernas, entra em casa espelhando contentamento no rosto pela missão cumprida.
- Já de volta, meu filho?
Está muito frio hoje?
Não consegui, ainda, levantar desta cama...
- Acalme-se, mamãe!
A vida neste inferno não mudou desde ontem.
Portanto, a senhora não perdeu nada.
- Não fale assim, Carlo! Deus castiga!
- Deus? Que Deus é esse que nos coloca neste estado de miserabilidade?
Ora, minha mãe, não me fale mais de religião que só serve para encher o bucho daquele padre madrileno.
Já não bastasse a desgraça da Itália e eles ainda importaram um sacerdote de fora...
- Chega! Não quero ouvir nenhuma outra palavra sua por hoje!
Estou decepcionada!
Faço tudo o que posso para ajudar no seu aprimoramento e nenhum gesto de gratidão recebo de volta.
Eustáquio havia reencarnado em Cosenza no ano de 600, num pequeno vilarejo rural, praticamente abandonado e esquecido no tempo.
Sua mãe, Giovanna, ainda é jovem, mas esta doente ante a debilidade física, fruto de parca alimentação.
Foi abandonada pelo esposo logo após o nascimento do pequeno Carlo.
Luta com imensa dificuldade para, sozinha, cuidar do sustento e da sobrevivência de ambos.
Carlo torna-se um adolescente rebelde e magano, extremamente revoltado com sua situação social.
Debalde sua mãe procura bem orientá-lo, fornecendo-lhe um exemplo de resignação e fé.
Todos os dias ele jura para si mesmo que irá progredir a qualquer custo, deixando para trás toda aquela desgraceira.
Em pouco tempo, o rapaz torna-se conhecido na sua região por ser um contumaz gatuno.
A mãe, a essa altura da vida, atinge o ápice do seu suplício.
- Ó, meu Deus, sei que não é a toa que falo com Carlo todas as manhãs, mas ele parece surdo aos meus reclamos.
Sinto-me desesperada.
Que mais posso fazer?
Sem qualquer perspectiva de progresso honesto, Carlo casa-se com Ana, uma camponesa pobre como ele, porém mais rude e bastante agressiva.
Dona de uma beleza sedutora, facilmente conquistou o coração do marido e passou a atormentá-lo sem cessar, exigindo melhoria em sua vida a qualquer preço.
Adúltera desde o início do matrimónio, Ana recebe com extrema amabilidade os viajantes que passam por suas terras esquecidas num dos cantos da Itália sulista.
Em uma dessas ocasiões, surge-lhe a frente Filipo, um rapaz alto e forte, dorso nu e bronzeado, olhos claros e penetrantes que sensibilizam o fundo de sua alma.
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Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 23, 2015 8:09 pm

A paixão os une abruptamente e o viajante instala-se na cabana de Carlo, que, farto da mulher, finge não perceber o seu mais recente relacionamento extraconjugal.
Aos poucos, porém, Filipo conquista a amizade de seu anfitrião e passa a servi-lo em suas negociatas desonestas pelo interior da província.
A mulher, exultante, continua fomentando a ira do esposo, exigindo-lhe enriquecimento rápido, ao mesmo tempo em que se sacia sexualmente com o amante.
Suas jogadas de larápio levam-no a dever vultosa quantia a um poderoso fazendeiro da região - Don António do Monte Nebrini.
Nada conseguindo com a produção de sua tacanha lavoura, Carlo é obrigado a trabalhar para o seu credor, sob pena de sofrer drásticas consequências.
Enredado nas malhas de sua própria perfídia, ele praticamente é escravizado pelo sagaz fidalgo calabrês.
Cega e imobilizada no leito, Giovanna continua isolada e abandonada, definhando dia após dia.
Uma vez ou outra, recebe, feliz, a visita de seu filho único e jamais esquece de dar-lhe bons conselhos.
Pressionado pelo patrão e pela infiel esposa, inconformado com sua miséria e sentindo o desencarne de sua progenitora, Carlo entrega-se ao vício da bebida e passa seus dias alcoolizado, caindo pelos barrancos enlameados da vila.
Calaceiro por natureza, nada parece servir-lhe de incentivo ao trabalho.
Em determinada ocasião, embriagado, ouve proposta arguta de Filipo, solicitando-lhe os préstimos para ganhar muito dinheiro sem qualquer esforço.
Ainda que confuso pelo alto teor alcoólico que gira em suas veias, desperta para o conchavo.
O plano envolve a eliminação de Don António, mediante o pagamento de polpuda recompensa.
Sem pestanejar, mormente porque odeia o patrão, Carlo aquiesce e propõe-se a cuidar do assunto.
Os planos são traçados em algumas horas e tudo deveria ser executado dentro de dois dias.
Exultante, volta para casa intencionando deslumbrar a ambiciosa mulher com seu mais recente negócio, mas sequer a encontra na cabana.
Do outro lado da vila, Ana conversa com Filipo.
- Por que você envolveu Carlo em nosso plano?
Teremos que dividir com ele o que conseguirmos tomar do velho rico?
- Não, jamais!
Ele nos será útil apenas como instrumento para o nosso roubo.
Enquanto estiverem acusando Carlo de ter eliminado Don António, nós estaremos em Roma para desfrutarmos de todo ouro que pudermos levar.
- E como isso acontecerá?
- Carlo ficou encarregado de cuidar de Don António, enquanto nos subtraímos o que encontrarmos.
Entretanto, quando o patético do seu marido assassinar o velho, ao invés de protegê-lo, nós o denunciaremos as autoridades.
Ficaremos com a riqueza e, ao mesmo tempo, estaremos livres de um peso em nossas vidas.
- Ele não irá desconfiar?
- Ora, Carlo é ganancioso o suficiente para não questionar o plano que lhe propus.
Não se preocupe, pois em dois dias estaremos ricos!
Anteriormente a concretização do ajuste, os mercenários de Don António descobrem o que Filipo havia idealizado e o conduzem a presença do fidalgo.
Traidor e covarde, antes mesmo de ser pressionado a contar o que sabia, ele narra todo o plano, naturalmente responsabilizando na íntegra Carlo.
Expulso da propriedade de Don António, Filipo é obrigado a desaparecer de Rondi, levando consigo Ana, a fim de escapar da fúria do comerciante.
Ao invés de dar igual destino ao seu empregado, chama-o a sua casa e revela-se inconformado com suas atitudes aviltantes.
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Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 23, 2015 8:10 pm

Ignorando o real intento de Don António, Carlo prontifica-se a reparar o seu erro e coloca-se à disposição do patrão para o que for necessário.
Contando justamente com essa postura, o fidalgo faz uma proposta nefasta de pagar-lhe elevada quantia em dinheiro para que Carlo elimine sua esposa.
Sem saída, ele concorda e promete retornar mais tarde, durante a noite, para cumprir o acordo.
No mesmo dia, após o jantar, o mercenário volta a morada do patrão e, invadindo o quarto de sua vítima, mancha suas mãos vis de sangue, selando a sua sorte e descolmando suas chances de progresso moral.
Quando prepara-se para a fuga, vê-se abordado por Don António e seus capangas.
- Então, pobre lacaio, pensa que vai conseguir fugir após assassinar cruelmente minha idolatrada esposa?
Prendam esse homem!
Sente-se frontalmente atraiçoado pelo mandante de seu crime e não consegue pensar senão em fugir dali, pois se for detido será morto sem qualquer piedade.
Acelera o passo e, desviando-se dos serviçais de Don António, adentra o matagal na noite escura, impossibilitando qualquer tentativa de perseguição.
Sentindo-se um autêntico descerebrado, jura a si mesmo jamais retornar a Cosenza até o final de sua existência.
O uivo solitário dos cães selvagens que habitam o Monte Nebrini são os únicos que se atrevem a acompanhá-lo em sua desesperada fuga até perdê-lo totalmente de vista.

14 - Nota do autor material: na época, Ducado de Benevento
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Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 23, 2015 8:10 pm

CAPITULO X - A FUGA

Atraiçoado pela esposa infiel e pelo amigo mais próximo, vítima da aleivosia de seu patrão e agente de bárbaro crime, Carlo empreende fuga sem destino pelo sul da Itália.
Rancoroso e vingativo, odiando a humilhante perseguição a qual foi exposto e desejoso de construir uma nova vida longe do local de suas desgraças, ele encontra paradeiro numa estalagem modesta e instala-se para passar a noite.
Falseando a sua real identidade, Carlo busca passar despercebido pela hospedaria, embora os viajantes já tenham notado o seu nervosismo aparente e a sua ansiedade invulgar.
Atendido por Mirtes, e levado aos seus aposentos, após fartar-se em uma refeição preparada em poucos minutos.
Algumas horas haviam passado quando alguém bate a porta de seu quarto.
- Que deseja, moça?
- Gostaria de conversar...
É possível?
- O que você quer?
- Já fomos apresentados.
Sou Mirtes, a filha do taberneiro e não desejo incomodá-lo muito.
Por isso, vou directo ao assunto.
Sei que você é fugitivo de Cosenza.
Há poucos minutos, mercenários estiveram aqui a sua procura.
- A senhorita deve estar enganada...
- Não, tenho certeza do que estou falando.
Poderia entregá-lo imediatamente aos capangas de Don António, mas talvez possamos entrar num acordo.
Sem possibilidade de negar a obviedade da revelação, Carlo prontifica-se a negociar.
- Qual a sua proposta?
- Quero dinheiro... muito dinheiro!
Podemos conversar?
A ambição da jovem cega o seu discernimento e coloca-a, exposta e indefesa, frente ao assassino mais procurado da região.
Carlo, por sua vez, sabe que não pode arcar com uma chantagem, pois nada recebera pelo serviço sujo que havia praticado.
Irado e dominado pela cólera, agarra violentamente a moça, colocando ambas as mãos em torno de seu pescoço, sem possibilitar-lhe a emissão de um só gemido.
Em poucos segundos, ante a fúria do agressor, cai inerte a viperina Mirtes.
Antes que descobrissem outro de seus crimes, ele parte em fuga novamente, desaparecendo com o corpo da jovem.
Rumando para Bari, Carlo reinicia os seus pequenos furtos, subtraindo pertences de pessoas desatentas que circulam pelas feiras locais.
Acostumado a essa desregrada vida, certa vez, depara-se com um larápio surripiando a bolsa de moedas de um comerciante.
Perseguido por uma pequena multidão, o gatuno esconde-se num beco.
Dirigindo-se para lá, apresenta-se ao rapaz, intencionando com ele dividir o produto do roubo.
- Posso auxiliar a sua fuga, pois estou vendo que e novo por aqui.
Em troca, naturalmente, exijo saber o seu nome e receber parte do produto de seu arrojado furto.
- Chamo-me Pirnílio e não sou ladrão como afirma.
Apenas estava cobrando uma dívida em atraso...
Por isso, não vou dividir nada consigo.
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Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 23, 2015 8:10 pm

- Posso entregá-lo a qualquer momento e acredito que a sua vítima não pensa como você.
Vamos negociar ou não?
- Não tenho outra opção... Como é o seu nome, sócio?
- Carlo, da Vila di Rondi, em Cosenza.
Saqueando lojas, furtando em feiras, promovendo desordens em tabernas e vivendo na marginalidade, os dois amigos travam íntimo contacto e, em pouco tempo, fortalecem-se os laços de amizade.
Ciente de toda a trajectória de fuga empreendida por Carlo, Pirnílio sugere um retorno a Cosenza para vingar-se daqueles que buscaram destruí-lo.
Incentivado pelo comparsa, resolvem ambos regressar a Vila di Rondi.
No percurso de volta, Carlo não poupa esforços para evidenciar ao amigo a sorte de tê-lo encontrado.
Sente que já o conhece há muito tempo.
Ao longo da viagem, são abordados por assaltantes mascarados.
- Passem-nos todos os seus pertences.
Sem reacção... Estou avisando!
Um dos ladrões logo é identificado por Carlo.
- Um cigano que se preza não é covarde.
Está disposto a lutar para conseguir o que quer?
Provocado, o líder do grupo responde:
- Sem dúvida!
Não fujo a um confronto.
Ambos com punhais, cercados pela turma de mercenários e sob o atento olhar de Pirnílio, atracam-se furiosamente.
- Lutas bem para um andarilho vagabundo.
- O mesmo posso dizer de um ladrão vulgar que peleja como uma dama e bravateia como um fidalgo.
A contenda prossegue equilibrada, até que, exaustos, ambos caem inertes um para cada lado.
- Chega - grita o cigano.
Estou satisfeito!
Você merece ficar com teus bens, pois é valente e destemido. Amigos?
A mão estendida logo é aceita por Carlo e ambos trocam cumprimentos.
- Apresento-me! Sou Neil, chefe deste bando de estólidos.
Há tempos procuro alguém com a sua coragem.
Poderíamos nos associar e formaríamos um grupo intrépido.
- Carlo da Vila di Rondi ao seu dispor.
Esse e o meu amigo Pirnílio.
- Sejam bem-vindos!
Esta noite ambos são meus convidados para o banquete dos ciganos. Vamos ao acampamento.
Um histórico reencontro marca a celebração da noite.
Eustáquio associa-se outra vez a Razuk - o cigano Neil - e Gedião - o larápio Pirnílio.
Os três animadamente conversam como se fossem velhos conhecidos e contam suas façanhas pessoais na trilha dos delitos que praticaram desde a infância.
*****
Partem juntos para Cosenza.
A cidade havia crescido e tornara-se centro de comércio da região.
Dois forasteiros acompanhados de um grupo de ciganos logo são percebidos em todos os locais por onde passam.
Buscando reencontrar a esposa Ana, Carlo avizinha-se de Rondi.
Antes mesmo que pudessem aproximar-se do vilarejo, são abordados por Don António e seus mercenários.
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Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 23, 2015 8:10 pm

- Seja bem-vindo, Carlo!
O bom filho sempre volta ao lar.
- Don António?!
Como o senhor me encontrou?
- Engano seu, meu caro!
Você retornou, sozinho, para cá.
Eu apenas estava aguardando o momento em que isso iria acontecer.
Seres broncos da sua laia sempre cometem erros graves e o seu foi retornar para esta vila.
Daqui, tenha certeza, não sairá jamais!
Aos gritos, Carlo e seus amigos são levados as masmorras da cidade, onde são encarcerados separadamente.
Sem julgamento, Don António determina que o prisioneiro termine seus dias na pior cela que pudesse ser encontrada.
Ele jamais torna a ver a luz do dia e passa o tempo envolto em reflexões a respeito do seu passado e da desesperança que cerca o seu futuro.
Nunca mais revê seus amigos.
Continua mantendo em seu coração um desejo surdo de vingança e um ódio latente que lhe consome as forças.
Uma lepra oportunista domina-lhe o corpo físico, tornando-o uma figura burlesca e digna de pena.
Definhando a cada dia, Carlo jamais consegue entender, de facto, que esta colhendo os frutos da arvore maligna que plantou com suas próprias mãos.
Desencarna em 635, cercado de sofrimentos atrozes e de um inconformismo sem igual.
Acompanha, irresignado, a decomposição de seu corpo físico, jogado numa vala comum de indigentes.
Enquanto enzimas microbianas saciam-se com os restos de Carlo, Eustáquio derruba lágrimas amargas e desesperadas.
Desprende-se com dificuldade de sua putrefacta carne e arrasta-se pela crosta terrestre como um zumbi, até que e encontrado por entidades inferiores que se aproximam.
- Vejam, é aquele miserável general!
- É verdade!
Acho que podemos abordá-lo, levando-o connosco aprisionado.
Criaturas monstruosas cercam Eustáquio e ele passa a agonizar ante tantas e terríveis vibrações que lhe são dirigidas.
O seu sofrimento dura dias seguidos e ele perde a consciência de seus actos, permanecendo em poder das entidades inferiores.
Desligado da realidade por longo período, acaba recolhido por uma equipe de resgate de Alvorada Nova.
Após estágio compulsório em câmaras de rectificação e submetido a processos de rememorização do seu passado, Eustáquio recebe instruções do Departamento de Reencarnação da colónia espiritual no sentido de que devera retornar à materialidade, desta vez por determinismo, a fim de expiar seus graves erros pretéritos e regenerar-se espiritualmente.
O seu livre-arbítrio não conseguiu evitar o imenso fracasso de sua última Jornada na Crosta, conduzindo-o, portanto, a refazer os seus passos na mesma região onde carreou suas maiores dívidas.
Cosenza, mais uma vez, deverá recebê-lo como filho.
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Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 23, 2015 8:10 pm

CAPÍTULO XI - O REENCARNE COMO PIETRO

Pietro é um rapaz esperto, inteligente e fabulador.
Imagina viver em um palácio, cercado de serviçais, assessorado por belas moças e recheado de doces e quitutes dos mais finos.
Consegue passar horas a fio nesses pensamentos que divagam entre historietas de ficção, até mesmo alegóricas, e a crueldade de sua realidade miserável.
Vez ou outra é despertado por Adélia, sua mãe adoptiva.
- Pietro, seu imprestável, venha imediatamente aqui...
Seus afazeres do dia estão atrasados e vou arrancar-lhe o couro!
- Já vou, mamãe, já estou indo!
- E não me chame de mamãe, pois eu apenas cuido de sua sobrevivência depois que o vagabundo do seu pai desapareceu...
Sentido pelas observações agressivas de Adélia, Pietro invariavelmente dedica parte de seu dia a lacrimejar pelos cantos da humilde cabana que abriga sua família adoptiva.
O garoto, não obstante a carência afectiva, vive doente, além de possuir uma bronquite crónica.
Sempre maltratado e menosprezado pelos familiares que o destino lhe apontou, aos oito anos, quando recebe violenta surra de Adélia, foge de casa e parte para a vida mendicante no centro de Cosenza.
Ninguém se atreve a procurá-lo, pois a sua ausência espontânea do lar desobriga a família postiça a dar-lhe abrigo.
Errante e indefeso, passa a dormir embaixo de pontes, atrás de barracas de feiras e exerce a única actividade que já sabia fazer: esmolar.
Torna-se um adolescente fraco e mirrado, já que nunca se alimentou bem.
Apesar da inteligência demonstrada na infância, a desnutrição provoca-lhe um retardamento mental, que o incapacita a raciocínios complexos.
Em suas reflexões isoladas, busca sentir a razão de sua existência e a justiça de ter sido, desde cedo, colocado na rua, privado de cuidados básicos e do carinho materno ou paterno.
Sem resposta, termina esquecendo o assunto e peregrina, servilmente, entre as feiras e comércios.
Quando atinge os doze anos, farto de dormir ao relento, encontra um pequeno e abandonado cubículo, esquecido nos fundos sujos de uma taberna e ali estabelece o seu ponto de referência.
Da rua e da caridade alheia continua extraindo o seu sustento.
Certa vez, ao final de um trabalho, acompanha entusiasmado as histórias contadas pelo feirante mais velho do local, um brodista calabrês que encanta a todos com suas façanhas bizarras.
Gargalhando de uma forma que a vida nunca lhe proporcionou, ele chama a atenção de uma menina simpática, que se aproxima para conversar.
- Ei, rapaz! Qual e o seu nome?
Você vem sempre aqui?
- Chamo-me Pietro, tenho dezasseis anos e moro na taberna do Culichio.
- Prazer em conhecê-lo!
Eu sou Mirian e tenho oito anos.
As suas gargalhadas deram-me vontade de rir também...
Você é sempre tão feliz assim?
A pergunta surpreende Pietro, pois, na realidade, a amargura e a introspecção jamais o abandonam no seu cotidiano.
- E apenas uma alegria casual, são essas pândegas histórias...
Na verdade, eu não teria motivo algum para sorrir.
- Por que não?
Todos sorriem e expressam a sua alegria quando bem querem.
Seria diferente no seu caso?
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Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 24, 2015 8:35 pm

- Eu sou pobre, menina, você não entende mesmo...
- E por ser pobre não pode sorrir?
Quem disse isso?
É alguma lei?
- Para uma garota de oito anos você e bem intrometida e informada...
Quem lhe ensina essas coisas?
- Meu tio Plínio.
A propósito, posso visitá-lo?
Eu nunca conheci a casa de alguém pobre como você.
Cativante e vivaz, Mirian impõe-se perante Pietro e ele não consegue negar-lhe o pedido.
- Quando você quiser.
No dia seguinte, a menina está na porta dos fundos da taberna, esperando Pietro acordar.
- Você não me convida a entrar?
- Eu achei que você não viria...
- Uma dama jamais aguarda do lado de fora da casa...
- Esta certo. Você venceu.
Esta convidada a entrar, mas lembre-se, somente hoje!
Após alguns meses de relacionamento amistoso, a amizade entre os dois cresce, a tal ponto que Pietro descobre não poder fazer nada em sua vida sem antes consultar Mirian.
Sentimentalmente, sente-se ligado à menina, pois recebe dela carinho e atenção.
Entretanto, trata-se de um sentimento familiar que os envolve e Pietro, respeitoso, jamais abusa da confiança que a ela lhe confere.
Em algumas oportunidades, ela exige-lhe mudança de comportamento.
- Ora, Pietro, então você acha que só a riqueza material poderá trazer-lhe a felicidade?
Besteira! Minha família não tem muito dinheiro, mas vivemos confortavelmente e satisfeitos com o que meu pai ganha.
Tio Plínio nos diz que não devemos almejar aquilo que não podemos ter, mesmo porque a felicidade não e deste mundo.
- E se não é daqui, de onde é?
- Isso eu não sei direito...
Mas o meu tio diz que seremos eternamente felizes, um dia, se soubermos agora viver resignados em não ter tudo aquilo de que gostaríamos.
- Belas palavras para quem nunca passou fome e frio como eu.
Você acha que a vida é fácil para mim, especialmente tendo que esmolar algum prato de comida ou alguns trocados?
- Por que você não trabalha?
- Eu não arranjo emprego...
- Mentira! Você se acostumou com a vida fácil de mendigar restos de comida e viver preguiçosamente.
- Cale-se!
O que você entende da vida?
Os dois amigos brigam incessantemente, mas com isso Pietro vai enriquecendo os seus conhecimentos e tudo aquilo que Mirian aprende em sua casa corre a contar-lhe, entusiasmada.
- Você é a única pessoa do mundo que me compreende um pouco.
Se não fosse tão teimosa e insistente seria uma amiga perfeita.
Às vezes eu fico pensando...
Por que eu fui abandonado pelos meus pais?
Por que não tenho família, como você?
Que mal eu fiz a Deus?
Mirian, já com dez anos, bem formada em sua educação, consegue facilmente responder a essas indagações.
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Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 24, 2015 8:35 pm

- Pietro, você tem que compreender...
Tudo isso faz parte da vontade de Deus.
Nós temos que aceitar se somos ricos ou pobres.
Se formos resignados, no futuro, iremos para o céu e seremos muito felizes.
- Bobagem! O céu não existe e eu jamais conseguirei ser feliz.
- Ora, então eu não consigo dar-lhe alguma alegria?
- Não me refiro a você.
Quero dizer que nunca conseguiria ser feliz como as outras pessoas, que tem casa e família.
- Você é impaciente e inconformado.
Desse jeito, de facto, nunca vai ter nada...
Quando atinge os vinte anos de idade, Pietro, amargurado e desiludido, tenta o suicídio.
Encontrado quase inconsciente por Mirian após ter ingerido veneno, e socorrido e medicado.
Sua vida atinge o ápice de suas mazelas espirituais e ele, mendaz e vadio, resolve comercializar pelo bairro alguns remédios fortes que usou quando estava convalescendo.
Certa noite, Mirian resolve visitá-lo.
Consegue sair de sua casa, a pretexto de levar solidariedade a uma tia doente.
Seus pais, que desconheciam sua ligação com Pietro, conferem autorização, pois ela já tem quinze anos de idade e conhece todos os vizinhos do seu bairro.
Chegando de surpresa na casa do amigo, acompanha, perplexa, a venda daquelas drogas a moradores do lugar.
Descoberto, Pietro silencia ante o olhar censório de Mirian.
Inicia-se um ríspido diálogo entre ambos.
- É assim que você está vivendo hoje?
Se você não é médico, não pode vender remédios.
Por que isso, Pietro?
- Você não é minha mãe, nem tem autoridade para exigir explicações.
Eu faço o que bem quero de minha vida. Entendeu?
- É verdade!
Eu devo estar há anos perdendo o meu tempo.
Você é incorrigível.
A sua pobreza não é só material, mas também moral.
Pietro, você é vagabundo porque gosta e reclama da vida porque quer.
Portanto, eu já estou farta.
De hoje em diante não voltarei a vê-lo!
A advertência da moça soa-lhe como um forte golpe no fundo da alma e ele principia um choro compulsivo.
- Por favor, não me abandone!
Eu agi errado e você tem razão quando diz que eu sou vadio.
Não posso ficar sozinho outra vez.
O que farei da vida sem os seus conselhos?
- Chega de desculpas!
Você não ouve o que eu digo.
Para que precisa de mim então?
- Esta certo!
Não pretendo que me desculpe.
Apenas não me deixe, pois eu morreria de desgosto.
Dê-me uma outra chance...
- Muito bem, Pietro, você tem direito a uma última oportunidade.
Mas se não arranjar um trabalho honesto dentro de uma semana, eu jamais voltarei aqui.
- Esta prometido! Uma semana!
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Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 24, 2015 8:36 pm

Empregado como carregador em uma das feiras centrais da cidade, ele conhece, pela primeira vez, a satisfação de ganhar a vida honestamente.
Mirian, orgulhosa, vai visitá-lo sempre que pode e aprecia elogiá-lo ao seu patrão enquanto faz as suas compras.
Um ano transcorre pacifico desde a última briga que os amigos tiveram.
Pietro parece estar transformado e jamais voltou a reclamar de sua vida.
Entusiasmado, ele sonha em abrir o seu próprio negócio, aconselhando-se com o patrão a esse respeito.
Tudo parece estar bem até que os pais de Mirian decidem mudar de cidade, partindo para Roma.
A decisão e irrevogável e a partida acontece em poucos dias.
Quase desesperado, Pietro, colhido de surpresa, vê partir sua única família, a menina que desde os oito anos vem encantando os seus dias.
Fraquejando, novamente, entrega-se ao vício da bebida e abandona o emprego.
Perambula errante pela cidade, revoltado e pessimista ao longo de muitos anos.
Embriagado durante a maior parte do tempo, passa a ter muitas alucinações e sente-se perseguido implacavelmente por inimigos do Além.
Pragueja a cada minuto de sua existência reclamando de sua pobreza e, inconformado, isola-se de qualquer bom pensamento.
Volta a mendigar e sobreviver da caridade alheia.
Desgastado, desencarna no ano de 750 e, imediatamente resgatado por mensageiros de Alvorada Nova, por interferência de Nívea, e levado a colónia espiritual para um tratamento de emergência, a fim de reencarnar, novamente, por determinismo.
Incompleta sua trajectória de expiação e provas, ele deve retornar a carne para dar sequência a sua trilha regenerativa.
O seu sofrimento em Cosenza, ao longo de 58 anos, serviu para auxiliar na relativa purificação do seu espírito tão ligado ao materialismo, mas obviamente não acarretou progressos determinantes em sua jornada.
Estagia na colónia por um algum tempo, criando condições emocionais e equilíbrio espiritual mínimos para reviver a saga da França e das dívidas que lá deixou.
Em 770, retorna ao plano físico, assumindo a identidade do conde Giscard D'Antoine.
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Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 24, 2015 8:36 pm

CAPITULO XII - CONDE GISCARD D'ANTOINE

Opulência, uma personagem marcante do século VIII, presente em todos os garbosos encontros sociais organizados pela Corte francesa, gira pelos salões com esplendor inigualável, corrompendo corações, fomentando o ócio e buscando o insaciável prazer do deguste fútil da pompa e do brilho da vida em sociedade, para deleite Felício dos nobres da época.
No seio dessa maravilhosa cortesã, cresce o pequeno Giscard, filho mais velho do duque D'Antoine, palaciano de primeira linha e integrante do íntimo círculo de relacionamento de sua majestade o rei de França.
Ao redor de farta mesa, em ampla sala iluminada por candelabros de prata e enaltecida por quadros de arte, que adornam paredes emolduradas em afrescos antigos, retractando toda a tradição da nobreza áulica, reúne-se a família do velho fidalgo e patriarca dos Antoine.
Giscard, ferino e arguto, compromete a tranquilidade da refeição desferindo a todo instante piadas infames e agressivas, que provocam desconforto e repulsa nos familiares, mas não abalando o duque, sempre disposto a apoiar o primogénito em qualquer circunstância.
Enquanto o jovem cresce sem a imposição de qualquer limite, prepara-se para assumir os negócios do pai, já enfermo.
O duque morre, deixando vasto património à família e a administração de todos os bens nas mãos de Giscard.
Recebendo o título de conde, pois proclamava em toda Corte que duque só poderia haver um, que era o seu adorado pai, o rapaz conquista a simpatia dos fidalgos e torna-se bem visto na sociedade.
Sob o reinado de Carlos Magno, o conde D'Antoine faz crescer consideravelmente o seu património pessoal ao unir-se em matrimónio com Constance, moça rica e filha única do duque de Soissons.
Em uma tarde ensolarada, ao som da célebre música florentina, os Antoine recebem convidados nos jardins de seu castelo.
Belas jovens dedilham suaves notas musicais nas harpas, enquanto violinos encantam a todos os fidalgos presentes a comemoração do aniversário do conde.
Divinos figurinos, compostos de finos e delicados tecidos, desfilam pelos salões soberbos do palácio residencial de Giscard, ricamente decorado e preparado para o grande acontecimento.
Pavões e outras aves raras compõem o cenário bucólico dos jardins e tornam-se a alegria das crianças presentes.
O sol ilumina a pérgula principal, quando surge, imponente, o mordomo Gorot anunciando a entrada triunfal do aniversariante.
Enquanto isso, o barão Villembert prepara-se para homenagear o anfitrião.
Reunidos os convidados no salão principal, faz-se presente o silêncio quase total, somente quebrado por risos anónimos trocados em pequenas rodas das damas da sociedade e dirigidos a condessa que todos sabiam ser sistematicamente traída pelo marido.
Impassível, Constance mantém-se altiva e equilibrada, embora consciente de ser o alvo das chacotas.
- Meus amigos, tenho a imensa honra de saudar o homenageado deste evento, conde Giscard D'Antoine, a quem peço dediquemos uma vibrante salva de palmas.
Entre a obrigatória ovação e os olhares pusilânimes dos invejosos, ingressa no recinto o ilustre anfitrião, acompanhado de sua esposa e de sua filha única, Caroline, que se encontra no auge de sua juventude, dona de belas tranças douradas que a todos encantam.
Minutos depois, quando o barão principia seu discurso, gritos são ouvidos no hall principal do castelo.
- Larguem-me! Soltem-me imediatamente!
Minha espada não descansará enquanto não se manchar com o sangue da justiça.
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Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 24, 2015 8:36 pm

Os guardas correm por todos os lados, enquanto um rapaz, aparentando vinte e poucos anos, pele alva e olhos azuis profundos, trajando vestes militares, que clama por vingança, escapa e esconde-se no meio dos convidados.
O mordomo intervém.
- Senhores, não vos preocupeis!
A situação está sob absoluto controlo.
Trata-se de um pequeno incidente que não se repetirá.
Tenham a bondade de prosseguir na homenagem.
Enaltecido novamente com uma salva de palmas, o conde D'Antoine, orgulhosamente, curva-se para agradecer, quando sente uma lâmina aguda penetrando em suas costas.
Como se surgisse do nada, o punhal e arremessado a distância pelo golpe preciso do jovem intruso.
Sente sua visão turvar e seu corpo estremecer.
Incapaz de gritar de dor, tamanho e o ódio que sente, cai prostrado ao solo.
O silêncio sepulcral invade o ambiente.
Dominado, finalmente, pelos guardas, o atacante identifica-se:
- Sou o capitão Ricardo Igor von Bilher, herdeiro do duque de Strasbourg.
Vingo-me, agora, do senhor conde Giscard D'Antoine, inescrupuloso sedutor de minha esposa Gabrielle e fidalgo que desonrou o nome de minha família, quando esteve em visita as nossas terras.
Atendido com hospitalidade, traiu-nos a confiança.
Desprezível ser!
Espero que morras agonizando em tua perfídia.
- Segurem-no e façam-no calar-se! - grita Gorot.
Em segundos, após a ordem do mordomo, os soldados do castelo desaparecem com o rapaz das vistas de todos os presentes.
Enquanto os familiares do conde providenciam-lhe socorro, os convidados deixam o palácio um a um.
Embora chocados com a agressão sofrida pelo anfitrião, a unanimidade das opiniões acata as razões do atacante e compreende o seu orgulho ferido, mormente porque o nobre Giscard é reconhecidamente um conquistador.
O capitão Ricardo, filho de nobres Alemães da região de Strasbourg, casou-se com a herdeira de uma das mais ricas casas francesas da região da Lorena.
Durante as celebrações do matrimónio, o conde D'Antoine esteve hospedado no castelo da família Von Bilher e, sem qualquer escrúpulo, seduziu a inexperiente Gabrielle, a época com quinze anos, com quem manteve relacionamento sexual, abandonando-a em seguida.
Ao tomar conhecimento do facto, em sua noite de núpcias, o rapaz quase enlouqueceu e jurou vingança ao pérfido conde.
Giscard, apesar de atendido pelos melhores médicos da Corte, piora o seu estado de saúde a cada minuto, razão pela qual, sobrepondo-se a própria condessa, o mordomo Gorot determina a remoção do patrão â Abadia dos Beneditinos, onde julga ter melhores condições de curá-lo.
Ao mesmo local, é arrastado, prisioneiro, o jovem Ricardo.
Abalada, mas mantendo a compostura, Constance busca acalmar sua filha.
- Caroline, minha querida, não te entregues dessa maneira ao sofrimento.
Tu bem sabes que o ataque ao teu pai pode ser fruto da insanidade de algum invejoso.
Não creias em tudo o que ouves.
- Mas, minha mãe, então não queres ver a realidade?
Papai é mesmo capaz de agir da forma como disse o capitão e se o fez merece o final que está tendo.
Traiu-nos a confiança e não é digno de pena.
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Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

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