Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

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Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 24, 2015 8:36 pm

- Não digas isso!
São infundadas mentiras lançadas levianamente por um desconhecido rapaz.
Temos que ouvir a versão de teu pai antes de julgá-lo.
- Espero que sim!
Quando papai melhorar iremos indagar-lhe a respeito, embora eu, pessoalmente, não tenha dúvidas de sua perfídia.
A condessa, preocupada, resolve conversar com o capitão Von Bilher, mas não o encontra no castelo.
Indagando a Gorot a respeito de seu paradeiro, obtém vaga explicação de que ele foi encaminhado, para detalhada confissão, aos monges beneditinos.
Incrédula, outra vez Constance percebe que jamais é ouvida dentro de sua própria casa para qualquer decisão importante que deva ser tomada.
As ordens de um mordomo tem mais força que as suas.
Revoltada, retorna ao quarto de sua filha.
- Caroline, acho que tens razão!
Minha vida tem sido uma desgraça ao lado de teu pai.
Ele não me respeita e nunca o fez.
Gorot, dentro desta casa, tem mais autoridade que eu.
Tudo isso acontece sob o beneplácito de Giscard.
Além de ser agredida moralmente, sou vítima de risos e chacotas de toda Corte.
Estou farta!
- Deixemos o castelo, minha mãe.
Vamos para a Itália, onde podemos procurar por teus parentes.
Abandonemos o passado!
- Teu pai jamais nos perdoará!
Teremos que viver escondidas para o resto de nossas vidas.
Temo pela ira do conde ao descobrir que partimos sem ao menos avisá-lo antecipadamente.
- A mim, pouco importa!
Busquemos uma vida honrada, longe do desrespeito e do desprezo de papai.
Ambas, cúmplices em suas decisões, deixam a residência dos Antoine na mesma noite.
Rumando para a Itália, acompanhadas apenas de fiéis serviçais, Constance e Caroline despedem-se para sempre do solo francês.
Longe dali, escondida entre penhascos e fortemente sacudida por furiosos ventos montanhosos, ergue-se a abadia dos beneditinos.
- Mais compressa e um pouco daquele medicamento azul, que esta na segunda prateleira a direita. Rápido!
- Imediatamente, monge Eugenius.
- Enquanto termino este curativo no conde, verifica se o nosso prisioneiro está bem guardado.
Descendo escadarias imensas, volteando-se em seu próprio eixo tal qual um volumoso caracol, o monge Gutus percorre as trilhas sombrias da abadia, dirigindo-se a "Sola dos Pecados", local assim baptizado, ironicamente, pelos próprios monges em face das torturas ali praticadas.
- Como passa o jovem capitão? - indaga a um dos guardas.
- Diverte-se, agora, na "roda dos prazeres"15, até que penitencie-se do mal que praticou.
Após dois dias na abadia, o prior recebe o convalescente conde D'Antoine.
- Fiquei profundamente consternado pelo episódio!
Vendo-vos reabilitado renovo minha fé em Deus, acreditando que justiça será feita.
Não vos preocupeis, senhor conde, pois o vosso agressor está purificando a sua alma e arrepender-se-á, por certo, do mal que vos fez.
- Agradeço-vos a preocupação, meu caro prior Meliandes.
Recupero-me lentamente e gostaria de voltar para casa.
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Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 24, 2015 8:36 pm

Sei que o capitão terá o fim que merece.
Minha esposa e filha devem estar preocupadas com minha ausência.
- Então não sabeis, ainda?
- Saber o que?
- Vossas esposa e filha abandonaram o castelo e partiram para rumo ignorado.
Irado e transfigurando a placidez de seu semblante, o conde controla-se e pede para ser levado imediatamente a presença de Ricardo.
- És um atrevido pestilento!
Ousaste vir aos meus domínios afrontar-me a integridade em minha própria casa.
Jamais sairás com vida de França.
Amargarás o dia em que atravessaste o meu caminho.
Bastante fraco e abatido, o jovem responde, entre palavras e pigarros de sangue:
- Acredito, senhor conde, que mereço de facto morrer...
Não pelo mal que vos fiz, mas justamente porque não consegui matá-lo, como merecíeis.
Falais em atrevimento?
Vossa deslealdade jamais será esquecida por minha família.
Se eu não cumpri a minha jura de vingança certamente outro Von Bilher o fará.
- Continuas insolente, rapaz!
A traição da qual falas inexistiu, pois a leviana de tua jovem esposa caiu em meus braços espontaneamente.
Acredito até que tenha sido por ela seduzido...
- Ela tinha somente quinze anos...
Como podeis desse modo grotesco a ela referir-vos?
- Não tens experiência de vida, jovem!
No futuro, poderias compreender melhor a minha posição.
O relacionamento sexual não quer dizer nada.
Nem mesmo me recordo da moça...
Nome de família, honra e tradição são apenas conceitos.
Será válido morrer por eles?
- Não sois um verdadeiro fidalgo e não compreendeis as virtudes de uma família digna.
Morreria mil vezes se fosse possível para sustentar esses valores.
- Pois estás em condições de morrer, ao menos uma vez...
Adeus, bravo capitão!
Ver-nos-emos, um dia, quem sabe, no inferno... (gargalhadas)
Ao retirar-se da masmorra, voltando aos seus aposentos, encontra-se com seu fiel mordomo, que o espera ansioso.
- Que queres, Gorot?
Não vês que ainda estou enfermo?
- Senhor conde, a condessa Constance e vossa filha...-.
- Já sei! Fugiram. Não te preocupes!
O destino lhes reservara uma boa vindicta.
- Que pretendeis fazer agora, meu amo?
Toda a Corte esta rindo de vossa desgraça.
- Não tenho outra opção, Gorot!
Devo radicar-me aqui na abadia, já que fui desonrado e abandonado pela família.
Um gesto de desprendimento, adoptando a vida sacerdotal, poderá reabilitar-me aos olhos da sociedade.
Continuarei comandando os meus negócios normalmente e tu serás o meu procurador.
Além disso, a família do capitão von Bilher fatalmente enviará outro mensageiro da morte, trazendo consigo a bandeira da vingança.
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Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 24, 2015 8:37 pm

Devo proteger-me e não há melhor local que as muralhas beneditinas.
Conversei com o prudente abade Meliandes.
Sua boa vontade em receber-me e seu encanto em ter-me como monge fizeram-me conceder a ordem vultosa doação.
Convicto do plano traçado por Giscard, o mordomo deixa satisfeito a abadia, retornando ao castelo e aos negócios do conde.
Após a solenidade de sagração do nobre Antoine como monge beneditino, o prior Meliandes recebe o novo integrante da ordem para um acerto de contas.
- Estou ciente de tuas intenções, monge Victorius!16
De onde tiraste a ideia de que devo passar-te o meu cargo?
- Ora, meu caro Meliandes, a fortuna que destinei aos beneditinos justificam, por si só, essa pacífica transição.
Com meu prestigio e minhas posses, bem como com tua colaboração conquistaremos novas fronteiras e aumentaremos consideravelmente o nosso tesouro, agora comum.
Obviamente, podes não concordar com o meu plano e, se assim for, darei outro destino ao meu ouro...
- Não, não!
Jamais permitirei que isso aconteça.
Temos todo o interesse em comungar do mesmo ideal.
Necessito apenas de algum tempo para tratar da transferência do posto.
- Pois bem, meu caro abade, não tenho tanta pressa.
Continuarás no cargo até o fim de teus dias, embora acatando as minhas determinações desde logo.
Depois, tornar-me-ei o prior.
- Certamente, caríssimo conde.
Assim será feito!
Selado o acordo que iria modificar inteiramente o rumo da vida de Giscard e da abadia dos beneditinos, inicia-se a saga da ascensão de Victorius, permeada de uma série incalculável de crimes e desvios de toda ordem.
Sua vida, dali em diante, rege-se em função de tramas e artimanhas, buscando aumentar a sua riqueza material, tal como fora idealizado por Eustáquio, ainda no plano espiritual.
Sua ligação com o passado destrutivo renova-se e, sob sua integral responsabilidade, constrói-se, a partir de então, todo o seu futuro.

15 - Nota do autor espiritual: a "roda dos prazeres" e uma máquina destinada a prisioneiros que são esticados lentamente, amarrados pelos membros superiores e inferiores, até que tenham morte agonizante pelo rompimento de seus músculos e vertebras.
16 - Nota do autor material: nome utilizado por Giscard após tornar-se monge beneditino.
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Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 24, 2015 8:37 pm

CAPÍTULO XIII - A ABADIA DOS BENEDITINOS

Após semanas de intenso sofrimento, provocado por contínuas sessões de tortura, desencarna o jovem aristocrata Ricardo Igor von Bilher.
Imediatamente recepcionado por Mensageiros do Alto, afasta-se da fúria de entidades inferiores - aliadas de Giscard do outro plano da vida - que insistiam em obsidiá-lo.
Suas dívidas serão resgatadas em outra oportunidade, a critério da Sabedoria Divina, embora tenha sido, desde logo, liberto da obcecada sede de vingança de seus algozes do plano imaterial.
Realizado ao saber da notícia da morte de seu declarado inimigo, o monge Victorius celebra a data histórica.
***
Na região de Strasbourg, nasce Klaus Augusto von Bilher, filho de Ricardo e Gabrielle, cercado pelo carinho e pela atenção de seus avós paternos.
Apesar de receber o nome da família von Bilher, o menino, na realidade, é filho de Giscard e vítima da traição que desonrou o casamento de seus pais.
Indignado com a covarde morte imposta ao seu filho primogénito, nos domínios beneditinos, o duque von Bilher, fidalgo germânico, retira dos cuidados maternos, ainda em tenra idade, seu neto Klaus, visando educá-lo e criá-lo sob sua directa orientação.
Apesar de sofrer enorme desgosto, Gabrielle, consciente dos erros que cometeu, não opõe nenhum obstáculo as pretensões do avô.
Decorre tranquilo o período da infância de Klaus, embora sempre educado a odiar os franceses e, em especial, os beneditinos que tiraram brutal e covardemente a vida de seu pai.
Cruelmente conduzido pelas rígidas mãos do duque, o menino forma-se militar e, desde cedo, frequenta as fileiras do exército germânico.
O avô planeia, detalhadamente, a vingança que irá impor a Giscard, no futuro, através da espada bem treinada de seu neto Klaus, que atinge a maioridade enrijecido espiritualmente e sem qualquer ternura em seu coração.
O único objectivo de sua vida e satisfazer a ânsia de desforra do duque von Bilher.
Recebe do avô, um dos nobres mais ricos da região, o título tão aguardado de comandante das tropas do ducado do Ruhr.
Ao seu lado, encontra apoio do jovem oficial Günther, que lhe tributa servil dedicação e exemplar admiração, em uma relação por demais íntima, que, por vezes, chega a consternar a sociedade da época.
Informado pelo avô do destino de Giscard, agora prior dos beneditinos, sediado em Lyon, o rapaz da início ao plano traçado há muitos anos e começa a investir contra as abadias francesas que fazem fronteira com suas terras, de modo a enfraquecer a ordem e, aos poucos, causar temor no seu inimigo figadal.
Saqueando e queimando as fortalezas beneditinas, Klaus começa a entresilhar a poderosa malha de influências criada por Victorius em toda a França a fim de sustentar a sua ilimitada ambição.
Entronizado em seu posto, o conde D'Antoine ignora por completo os primeiros ataques contra sua organização.
Recuperando o seu prestigio, Giscard, no ano de 816, após tantas vidas destruídas e glórias conquistadas ao sabor de torpes manipulações políticas, torna-se bispo de Lyon, ampliando consideravelmente seu poder de mando e deixando em seu lugar, na liderança dos beneditinos, o fiel servidor Gorot, que adopta o nome de Paulus.
****
Em um magnífico templo, cujas paredes são adornadas com ricas obras de arte e seus móveis ostentam finas e valiosas peças de ouro e prata, incrustadas com reluzentes pedras preciosas, encontra-se a sede do bispado da cidade de Lyon, residência oficial de Victorius.
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Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 24, 2015 8:37 pm

Seus aposentos privativos situam-se entre os mais luxuosos de toda a aristocracia francesa, pois unem a arte sacra ao refinado gosto pessoal de Giscard.
Do alto de um tablado, cuidadosamente disposto para abrigar a mesa sumptuosa do bispo, está Victorius, impassível e mecânico ao despachar suas ordens para todos os serviçais.
- Encontro-me hoje particularmente feliz, meu caro Sinvral.
- E poderíamos saber o motivo de tão singular e augusto momento de descontracção de vossa Reverência?
- Chegam-me notícias da Itália!
Soube que minha vingança saciou-se.
Duas traidoras do passado terminaram suas existências e devem ser acolhidas pela misericórdia divina.
Morreram, Sinvral, Caroline e Constance.
A primeira, pobrezinha, vítima de tuberculose.
A outra, vítima de sua própria incúria! (risos)
Estático e apenas apreciando o regozijo do bispo, o serviçal abaixa a cabeça condescendente.
Subitamente mudando de assunto, Victorius exige que lhe sejam trazidas as contas do bispado.
Enquanto faz a habitual conferência de seus ganhos, recebe a visita de um dos guardas, que lhe anuncia a presença de uma senhora idosa, dizendo-se ser sua mãe, madame Debussons.
Intranquilo, Victorius manda-a entrar.
- O que quereis aqui, senhora?
Já não vos alertei que não desejo contacto algum e que não sois bem-vinda neste bispado?
- Continuas cruel, Giscard.
Apesar de não suportares a ideia continue sendo tua verdadeira mãe.
Já esqueceste que foste adoptado quando pequeno pelo duque d'Antoine?
Não és um autêntico nobre, do mesmo modo que finges ser sacerdote.
- Viestes aqui para humilhar-me?
Se e isso que desejais, eu vos expulsarei daqui sem pestanejar.
- És mesmo capaz de fazê-lo!
O meu erro do passado, vendendo-te ao duque d'Antoine, cuja esposa parecia não poder ter filhos, será por mim suportado pelo resto de meus dias.
Entretanto, venho à tua presença para exigir-te que cesses a contenda com teu irmão, o bispo de Orleans.
Não posso vê-los disputando o amor de uma mundana e que os levará a morte.
- Esse meu embusteiro irmão nada significa para mim.
Considero-me filho legítimo do duque d'Antoine.
Pouco me importa o que achais a nosso respeito.
O bispo de Orleans é vosso filho, madame Debussons, portanto, vossa responsabilidade.
Enquanto ele atravessar o meu caminho, estarei disposto a destruí-lo.
Nada será capaz de impedir-me, nem mesmo os vossos pedidos.
Sugiro-vos que saias e não mais torneis a minha frente.
Não vos considero minha mãe, nem nunca o farei.
Desconsolada, ela deixa o bispado e, por alguns momentos, relembra o seu passado comprometedor.
Madame Debussons teve dois filhos, Giscard e Marcel.
O primogénito, ainda em tenra idade, foi vendido ao duque d'Antoine, que perdera o seu primeiro filho logo após o parto da esposa.
Advertido pelos médicos a respeito do risco de outra gravidez da duquesa, resolveu substituir a criança pelo pequeno Giscard.
A ambiciosa senhora Debussons, governanta da casa dos Antoine, concordou em vender por vultosa quantia o seu primeiro filho, também recém-nascido e cujo pai era ignorado.
Após a transacção, a mulher desapareceu, conforme havia combinado, nunca mais surgindo na vida do poderoso duque.
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Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 24, 2015 8:37 pm

Em Orleans, para onde dirigiu-se, teve outro filho, Marcel, que jamais se conformou, quando soube do que acontecera no passado.
Não admitia ser pobre e plebeu, enquanto seu irmão Giscard deleitava-se sob a protecção do duque.
Os irmãos Debussons cresceram separados e, com a morte do duque d'Antoine, lendo uma carta por ele deixada, Giscard tomou conhecimento de sua real condição.
Sem abalar-se pela revelação, continuou cuidando com mãos de ferro dos negócios da família e herdou, como o duque desejou, a maior parte da fortuna dos Antoine.
Em Orleans, sentindo-se desprezado pelo irmão rico e poderoso, Marcel jurou-lhe vingança e ascendeu na carreira eclesiástica, única possível a sua miserável condição social.
Após muitos anos de disputa, enquanto Marcel tornava-se bispo de Orleans, Giscard ocupava o bispado de Lyon.
Iniciava-se uma guerra surda entre ambos, mormente porque interessaram-se pela mesma ferina mulher, Franchise, filha do duque de Orleans.
A mãe, senhora Debussons, inconformada com a disputa entre ambos, sentindo-se culpada, vez ou outra procurava os filhos pedindo-lhes uma trégua.
Não lhes facilita a vida o ambicioso e obstinado Duprat, que permitia o contacto de sua filha Françoise com os dois prelados, visto que polpudas quantias conseguia com isso amealhar.
Fomentando dia após dia as forças do ódio que movem a guerra sentimental travada entre os dois adversários, enriquece-se ainda mais o degenerado duque de Orleans.
Sua filha, não menos leviana, diverte-se e divide-se entre os irmãos Giscard e Marcel, cultivando intrigas e aumentando a disputa entre os bispados.
Almejando o cardinalato em Roma, Giscard exige uma definição de Françoise.
- Não há mais possibilidade de jogo duplo, minha querida.
Até hoje suportei a tua inconstância, mas acredito ser hora de decidires de qual lado pretendes ficar.
Mesmo que eu sofra com a nossa separação, não pretendo mais admitir a tua divisão...
Deverás escolher entre mim e o bispo de Orleans.
- Oh, amado Giscard!
Eu não poderia fazer essa escolha.
Amo-vos com igual intensidade.
Sabes que para mim seria a morte separar-me de qualquer um...
- Chega desse palavreado inútil!
Tens uma semana para fazer a tua escolha.
Não só o bispo de Lyon demanda uma solução ao conflito amoroso, pois Marcel esta igualmente interessado em tornar-se cardeal.
Ambos sabem que, nesse delicado momento de ascensão, qualquer deslize poderá ser fatal.
Nenhuma pendência poderá permanecer entre os bispados, nem mesmo Franchise.
Pressionada a uma decisão, a moça, indecisa, consulta o pai.
O duque de Orleans, sabendo da investida de Klaus von Bilher contra as abadias controladas por Giscard, opta pelo bispo de Orleans, acreditando que, em breve, o bispo de Lyon estará derrotado.
Instalado o pacto em Orleans entre o bispo e o duque, o golpe e duramente sentido por Giscard.
A moça afasta-se de Lyon e consigo leva importantes documentos do bispado, entre eles mapas e roteiros de acesso a muitas abadias controladas por Antoine.
Inconformado e pretendendo uma revanche imediata, o prelado determina que Françoise seja assassinada.
Suas ordens são seguidas a risca e dois dias depois o corpo da jovem e encontrado boiando as margens do Sena, próximo a Paris.
Seu pai ensandece e uma tríplice aliança forma-se contra Giscard.
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Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 24, 2015 8:37 pm

Klaus investe pelo leste e Orleans pressiona Lyon pelo oeste.
Insistente, madame Debussons procura, agora, seu filho Marcel.
- Meu filho, pretendes com essa guerra contra o teu irmão conduzir-me ao desespero?
- Sabeis, minha mãe, que ele não é digno de pena.
Traiu-nos a confiança quando poderia nos ter ajudado.
Experimentei a miséria e o sofrimento por conta do seu egoísmo obstinado.
- Bem sabes que ele não teve escolha.
Foi minha própria ganância que o levou aquela situação.
Não é preciso que eu te relembre o passado, Marcel...
Sabes que fui eu a causadora da nossa separação.
- Não me importam vossas explicações!
Ele soube que éramos irmãos e jamais estendeu-me a mão...
Nunca o fez!
A vida toda invejei-lhe a sorte.
Queria eu ter sido o vendido ao duque...
- Que bobagem proferes agora!
Tu não és o majestoso bispo de Orleans?
Não conseguiste tudo o que querias?
Por que sustentar agora uma contenda contra teu irmão?
- Lamento, minha mãe, que meu ódio por Giscard tenha um fundo mais complexo e arraigado do que uma simples disputa por postos na Igreja.
Levarei até o fim minha ânsia de destruí-lo, mesmo que, para tanto, tenha que aborrecer-vos.
- Desprezas o que tua mãe diz!
Ambos são idênticos no pensar e no agir.
Frios e calculistas, ambiciosos e cruéis.
Amargarei todos os dias de minha vida por ter criado dois verdadeiros demónios, hoje travestidos em sacerdotes.
A partir de hoje, não tenho mais filhos, nem sou mais a vossa mãe.
- Como quereis, madame...
Encerrada abruptamente a conversa, a senhora Debussons parte a Paris e, inconformada, chama a si toda a responsabilidade da situação criada entre seus filhos.
Enclausurada no remorso, a mulher desaparece por completo da vida dos prelados de Lyon e Orleans e não acompanha o final mórbido daquela contenda.
Na Itália, algum tempo antes...
Uma grande festa realiza-se no pátio interno de um convento da cidade de Veneza.
As freiras agitam-se de um lado para o outro para bem recepcionar os membros da sociedade local que destinam polpudas contribuições para as obras da Igreja.
Durante a realização do evento, animado por um conjunto florentino de música sacra, uma noviça passeia calmamente dentre a multidão, enquanto aprecia os cânticos e reflecte sobre sua própria existência. Constance, aquela altura conhecida somente por irmã Melina, mistura-se cada vez mais entre os presentes, quase deixando de lado a seriedade do hábito.
O passeio é descompromissado e até certo ponto descuidado, pois não percebe estar sendo seguida pelo monge Peter, enviado de Lyon para tirar-lhe a vida.
Tão logo descobriu o paradeiro da ex-esposa, Giscard mandou um assecla cumprir a sua promessa de muitos anos antes.
Em fatal proximidade, subitamente um punhal ergue-se no ar e, brandindo o ódio mandatário de seu senhor, fecha para sempre os olhos da bela Constance.
A notícia corre a Europa e, em poucas horas, chega ao conhecimento do bispo de Lyon que, feliz, celebra a ocasião com seu auxiliar Sinvral.
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Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 24, 2015 8:38 pm

CAPÍTULO XIV - O FIM DE GISCARD

Caminha por extensa pradaria, escoimada pelo gélido vento do rigoroso inverno europeu, o general Klaus Augusto von Bilher, acompanhado de perto por seu amigo inseparável, barão Günther von Bavanhaun.
Conversam a respeito da investida final contra o bispo de Lyon e traçam juntos o plano de ataque que pretendem desferir contra Giscard.
De outra parte, recebem instruções para agir o bispo de Orleans e o duque Duprat, ambos associados a Klaus.
- Estou enviando as cartas a sua Santidade o Papa e também a Sua Majestade o rei, narrando todas as atrocidades cometidas pelo bispado de Lyon e pela famigerada abadia dos beneditinos que lhe dá suporte.
- Sem dúvida, meu caro bispo, é o fim de Giscard!
Nada poderá nos tornar mais realizados do que soterrar definitivamente a empáfia do conde - confirma o duque.
Ferozes cavaleiros muito bem armados invadem densa floresta, na região de Lyon, procurando a abadia.
À frente, comandando a expedição, encontra-se o general von Bilher.
Céleres como um raio mortal, o grupo não se deixa notar e mesmo o forte e compassado trote dos cavalos passa despercebido aos sentinelas das muralhas beneditinas.
Quando o ataque tem início, os monges, incrédulos, correm por todos os lados no subterrâneo da abadia e enviam de imediato mensageiro ao bispado de Lyon.
Em poucos minutos, no entanto, os soldados destroem e incendeiam o local, procurando não deixar sobreviventes.
Dominada a situação, ingressa no recinto monástico o general Klaus, fortemente escoltado.
Percorrendo o interior da fortaleza, ele detém a frente de uma gigantesca porta, sentindo algo despertar em seu âmago.
Determina o arrombamento da imensa guarnição de ferro que o separa do cómodo visado.
Cerca de vinte homens, com uma estaca de carvalho, colocam-na abaixo.
Corpos espalhados por toda a câmara de tortura, a "Sala dos Pecados", são encontrados.
O cheiro pútrido do local faz o general tontear por alguns instantes.
Persistente, ele caminha alguns passos para dentro do recinto.
A repulsa torna-se geral quando cadáveres em decomposição são avistados, ainda presos a grilhões e Ferros pontiagudos.
Uma minúscula saleta, acomodada num dos cantos daquela câmara, desperta a atenção de Klaus, que se aproxima cauteloso.
Ingressando no abafado ambiente, outra vez cambaleia ante o fétido cheiro que emana das paredes.
Pressentindo o perigo, roedores de toda espécie fogem desesperados, enquanto soldados agitam suas tochas tentando abrir o caminho para o general.
Subitamente, Klaus percebe a existência de uma redoma de vidro, colocada em cima de um amontoado de ossos humanos.
Aproxima-se e percebendo brilhar no chão um pequeno, mas bem torneado, anel de ouro abaixa-se e toma nas mãos a jóia.
Silentes, os guardas observam as atitudes do comandante.
Trémulo, o general volta-se para os soldados e pede que aproximem as tochas.
Iluminado, o anel imediatamente faz ressurgir após tantos anos o símbolo da família von Bilher que estava enterrado nos fundos mais escuros da abadia dos beneditinos.
Reconhecendo a jóia que pertenceu a seu pai, Klaus emociona-se e pede para ficar alguns minutos sozinho.
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Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 24, 2015 8:38 pm

- Meu pai, não tive a honra de conhecer-te, pois foste assassinado covardemente por sinistras forças.
Hoje, entretanto, cumpro o desejo de meu avô, teu querido pai, retornando a este cruento local para resgatar tua memória.
O bispo de Lyon, responsável por tua morte, não verá nascer o sol mais uma vez... Juro-te!
Com lágrimas nos olhos e peito ardendo em brasa, parte Klaus rumo a Lyon, intencionando colocar um fim a sua sede de vingança, por tantos anos sufocada.
***
Nos aposentos de Giscard, reina, nessa noite, uma vibração diferente e angustiante.
Inquieto, o conde chama o seu chefe da guarda e determina-lhe redobrada atenção.
Espíritos inferiores já rondam o local e transmitem intuitivamente ao bispo o perigo iminente que cerca o seu palácio.
Gualberto, o camareiro, previamente instruído por Marcel, coloca sonífero no cálice de vinho que é entregue a Giscard.
Adormecido e cansado, o bispo deita-se.
Traiçoeiramente, a guarda é trocada e os soldados fiéis ao prelado de Lyon são dominados e amordaçados.
O caminho está preparado e Klaus adentra o quarto de seu inimigo mortal.
Somente o ruflar de alguns morcegos abala o silêncio nocturno.
- Encontramo-nos, finalmente, senhor conde Giscard D'Antoine, assassino de meu pai!
Levanta-te, pois temos contas a acertar! - brada energicamente o general, já com a espada em punho.
Levado ao despertamento por um encanto maligno, o bispo abre os olhos e fita, detidamente, o altivo Klaus.
Aceitando o desafio e extraindo forças do fundo de sua alma, parte para o duelo fatal.
O tilintar das espadas são os únicos sons ouvidos no palácio episcopal, enquanto os combatentes, sem proferir uma palavra, concentram-se no confronto que levara um deles a morte.
Em verdade, pai e filho disputam nesse momento o direito a vida, em nome de uma vingança que os levará a acumular muitos débitos no seu percurso regenerativo.
Entidades inferiores acompanham o desfecho do embate e despejam no ambiente uma densa vibração negativa.
Exímio no maneio com a afiada espada, o bispo não torna fácil para Klaus o duelo e, num descuido do general, chega a rasgar-lhe o braço esquerdo na altura do ombro.
Cego de ira e dor, o jovem germânico redobra suas forças e investe furiosamente contra Giscard, a essa altura cansado e abatido pela força do sedativo que lhe fora ministrado.
Em uma fracção de segundo, um violento golpe de espada crava no coração do conde a última esperança de sobreviver ao desafio.
Ele sente o golpe, arregala os olhos e estremece.
Klaus retira bruscamente a espada do corpo do bispo, que cai inerte no chão.
Giscard desencarna e, entorpecido, é imediatamente levado pelos Espíritos malignos que aguardavam ansiosos o desfecho da luta.
Klaus senta numa das poltronas do quarto episcopal e chora convulsivamente.
Consuma-se sua vingança e o vazio preenche-lhe o coração.
Após cumprir a promessa que fez ao avô de exterminar o bispo de Lyon, Klaus von Bilher perde a razão de sua vida e angustia-se profundamente.
Percebe, naturalmente, que a revanche não lhe traz a aguardada paz de espírito e, ao contrário, torna-o um ser amargo e soturno.
O ódio tem o condão de esvaziar todo o conteúdo positivo do coração de um homem.
Sem rumo definido, ele enclausura-se nas memórias do seu desastrado passado e termina os seus dias na mais completa solidão.
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Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 24, 2015 8:38 pm

O sabor da desforra não aplaca também o conturbado espírito do bispo de Orleans.
Acreditando fazer um bem à Igreja, envia um dossiê contra o bispo de Lyon ao papa e aguarda, esperançoso, um chamamento do Sumo Pontífice para tornar-se cardeal em Roma.
Ao invés disso, apura-se no Vaticano a sua participação na morte de Giscard e Marcel recebe como castigo a determinação papal de isolar-se em uma abadia de Ruão para expiar seus erros e confessar sua culpa. Nesse local, confinado em remorso, desencarna arrematado pela insatisfação.
Nem sempre o castigo pelas más atitudes vem com tanta celeridade como aconteceu com o duque de Orleans.
Após a morte de Giscard, Duprat enriquece ainda mais, pois saqueia todo o ouro que encontra no bispado de Lyon, tão logo o prelado é assassinado.
Seu contentamento dura pouco tempo, pois uma inoportuna tuberculose o faz definhar gradativa e lentamente rumo ao desenlace com a vida material.
A lei de acção e reacção é imutável é impossível de ser evitada.
Pode fazer-se sentir no plano material ou no mundo dos Espíritos.
Em verdade, porém, todos aqueles que praticam actos negativos receberão, um dia, igual proporção do mal que causaram.
Com isso, terão oportunidade de aprender com seus erros e garantir a evolução de seus espíritos.
Giscard e seus inimigos serviram-se dela ainda no plano físico, embora muito tenham a resgatar na Jornada espiritual que os aguarda.
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Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 25, 2015 7:52 pm

CAPITULO XV - O PASSADO BENEDITINO

Perece, recôndito, o conde Giscard D'Antoine, que ascendeu social, política e economicamente a custa de poderosa malha de corrupção e interesses mesquinhos de toda ordem.
Como bispo de Lyon, dominava militares ligados ao rei, nobres e ricos comerciantes, garantindo-lhe o controle de várias rotas mercantis que rendiam muito ouro aos cofres beneditinos.
Em sua escalada criminosa, foi auxiliado por um fidalgo falido nas mesas de jogo, Charles Bidet, ambicioso e sem escrúpulos, que lhe forne-
cia dados sigilosos a respeito das fontes de renda do bispado de Orleans - seu arqui-inimigo.
Outro ponto de apoio para suas negociatas estava na abadia dos beneditinos da região de Lyon, dirigida pelo prior Paulus, de integral confiança de Giscard. Internamente, no entanto, a ordem religiosa vivia uma metamorfose em sua estrutura, ante a presença de um jovem noviço que revolucionava o modo de pensar e agir dos monges.
- Giuseppe! Giuseppe! Onde está esse pobre infeliz? - bradava o abade com toda a força de seus pulmões.
- Não o encontro em nenhum lugar, senhor. Que devemos fazer? - retornava Eugenius, um dos monges de sua assessoria.
- Um momento... Sei onde ele está! Mande Gutus procurá-lo as margens do lago interno. Deve estar, novamente, pregando aos seus companheiros de noviciado.
Instantes depois, concretizada sua previsão, Giuseppe estava na presença do prior.
- Meu jovem, não podes permanecer alheio aos hábitos desta Casa.
Lembra-te de cumprir as regras da abadia e que Deus deseja a união de seus cordeiros para que o rebanho todo prospere em conjunto. Não foi assim que aprendeste nos teus cursos com o monge Verbasiano?
- De fato, bondoso líder, atrevo-me a pregar aos meus companheiros alguns ensinamentos do Cristo. Mas jamais pensei em perturbar a rotina da ordem...
- Ora, Giuseppe, deixes a pregação para o momento próprio, que são as aulas em grupo. Não tires o lugar do esforçado Verbasiano.
- Oh, não! Nunca tive a intenção de prejudicá-lo! Apenas achei que os ensinamentos de Jesus não estão sendo abordados nas aulas...
- Não e possível! Verbasiano esta esquecendo?! - profere, irónico, o prior. Vou adverti-lo para ser mais atencioso. Enquanto isso, deixes de lado a tua pregação pessoal, esta bem?
Há algum tempo, vinha o rapaz incomodando a direcção da abadia através de suas mensagens de desprendimento dos bens materiais e do seu apego a doutrina do Cristo, em verdade pouco utilizada pelos monges beneditinos aquela época.
O noviço atendeu ao pedido de Paulus e durante algum tempo silenciou em suas palestras, porem sem convencer-se do acerto de sua atitude.
Afinal, percebia com o passar dos dias que nada se alterava no cotidiano dos monges, ou seja, nenhum gesto de caridade ostensiva era colocado em prática, enquanto os cofres da abadia continuavam sendo abarrotados de riquezas de toda ordem.
Durante o período em que esteve resguardado, Giuseppe foi observado cautelosamente pelo prior e também pelo bispo de Lyon. Ambos conheciam a força do jovem idealista, convicto e cristão, que buscava transformar o modo de pensar e agir de seus companheiros de noviciado.
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Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 25, 2015 7:52 pm

CAPÍTULO XVI - A VIDA DE GIUSEPPE

Don Genaro, rico e próspero comerciante de Veneza, dos seus onze filhos dedicava especial atenção ao mais novo de todos, Giuseppe.
Sempre prestativo aos reclames da igreja local, costumava fazer abonadas doações ao sacerdote, em especial porque seu caçula tornou-se coroinha.
Orgulho da família e mimado pela bondosa mãe, Bernarda, o rapaz crescia manifestando a intenção de seguir carreira eclesiástica.
Conhecedor do anelo dos monges beneditinos, em especial de sua fascinação por ouro e outros metais preciosos, o comerciante ofereceu-lhes vultosa quantia para receberem, como aprendiz, seu filho Giuseppe.
Aceite a oferta, a condição imposta pela ordem era mandar o moço a Lyon, pois os templos Italianos não tinham interesse em recebê-lo.
Não por acaso, ali começaram os difíceis passes do dedicado iniciante para afirmar-se no cristianismo, consolidando a sua fé.
Ainda na adolescência, Giuseppe costumava, espontaneamente, dedicar-se a caridade e gostava de auxiliar os pobres e visitar os enfermos.
Mantinha um namoro com Lítia, uma moça de boa família, com quem Don Genaro mantinha excelente relacionamento.
Apaixonado, o casal trocava juras de amor e promessas de futuro casamento.
Partiu para Lyon, na companhia do progenitor, tão logo alcançou os 17 anos e ingressou no mosteiro da ordem beneditina, como havia sido planeado.
Deixou para trás, desconsolada, a namorada que não aceitava o determinismo de Giuseppe em abraçar a carreira clerical.
O tempo passou e o rapaz, a cada ano, tornava-se mais arguto e erudito, estudando várias horas de seu dia e começando a questionar os valores espirituais que lhe eram apresentados pelos monges instrutores.
Interpretava diferentemente a mensagem de Jesus e acreditava que o cristianismo estava sendo manipulado por alguns sectores da Igreja para o fim de enriquecimento ilícito através da caridade e da boa-fé alheias.
Inconformado, começou a pregar aos seus companheiros de noviciado as suas ideias a esse respeito, despertando a ira dos dirigentes beneditinos.
Organizou, por sua conta, grupos de estudo e reunia-se com os outros noviços as margens do lago interno que banhava a abadia, para expor os valores desprendidos das mensagens cristãs.
Giuseppe, no entanto, seguia solitário o seu caminho idealista, pois muitos iniciantes, temendo represálias por parte da direcção da abadia, abandonavam os grupos antes de concluírem suas lições.
Destemido, o rapaz persistia na sua actividade paralela de discussão do Evangelho, deixando de comparecer as aulas ministradas pelo monge Verbasiano, condutor doutrinário dos noviços.
Cautelosamente, o prior tentava dissuadir o rapaz de sua postura obstinada e buscava evidenciar-lhe as vantagens da riqueza material.
Utilizando a seu modo várias passagens bíblicas, tinha por fim convencer Giuseppe de que Cristo não pregou o voto de pobreza e que jamais condenou os ricos.
Apesar de entender que a riqueza por si só não era um mal, o noviço contra-argumentava no sentido de que o ócio provocado por ela jamais poderia ser aceite.
Paulus sempre terminava essas conversas perdendo a paciência e acreditando que o moço era um caso perdido.
Deveria ser expulso da ordem, antes que causasse estragos significativos entre os outros monges.
Entretanto, Giscard, bispo de Lyon, desejava manter o rapaz no aprendizado, pois isso rendia muito ouro aos seus cofres, largados anualmente por Don Genaro para custear os estudos do filho.
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Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 25, 2015 7:52 pm

Visando desestimulá-lo, a direcção da abadia transmitia a Giuseppe tarefas cada vez mais árduas e passou a proibir o seu ingresso na biblioteca.
Resignado, o noviço não esmorecia e continuava sua peregrinação de fé.
Agressões de toda ordem passaram também a persegui-lo constantemente, mas ele as suportava com paciência inabalável.
Pouco a pouco, sentia aflorar a sua mediunidade, que lhe permitia uma comunicação constante com seus Mentores Espirituais.
Fortalecido, Giuseppe obtinha ensinamentos por via intuitiva ou através de inspiração, continuando, pois, a progredir em suas palestras.
Após longo percurso, alguns noviços passaram a adoptar na íntegra os novos ensinamentos que lhes eram transmitidos e começaram a recusar qualquer meio de ostentação, inclusive refutando fartas refeições que eram servidas aos monges.
O desespero tomou conta dos mais velhos e transferiu ao prior a responsabilidade de deter aquele foco de revolta e indisciplina.
- Não é possível!
Eu já conversei com esse insubmisso, narrei-lhe os interesses que estão em jogo com seu pai, invoquei todas os mandamentos bíblicos, pedi auxílio aos nossos mais preparados alquimistas, determinei o seu claustro, proibi suas pregações, dissipei seus seguidores, acabei com seu grupo de estudos, ameacei-o várias vezes, submeti o rapaz a todas as privações possíveis e o que consegui?
NADA, absolutamente nada!
Mal posso acreditar em sua persistência!
Observador, o bispo de Lyon adverte:
- Calma, Paulus!
O moço é mesmo determinado, porém já lidamos com alguns casos semelhantes e não fomos derrotados.
Um pouco de malícia e tacto com Giuseppe e poderemos silenciá-lo definitivamente.
- Mas, Reverência, os outros monges estão rebeldes e exigem providências imediatas...
- Cuidarei pessoalmente do caso. Por ora, é minha última palavra.
Enquanto a direcção da abadia movimentava-se para calar o novel, os amigos de Giuseppe preocupavam-se com sua segurança e alertavam-no para deixar o mosteiro.
Orando em meditação, o rapaz apenas discordava dos companheiros balançando a cabeça e, vez ou outra, proferia algumas palavras demonstrando ter fé e dizendo que nada de mal iria lhe acontecer.
Em Veneza, preocupado com a quietude do filho, Don Genaro resolveu partir para Lyon a fim de saber notícias do caçula.
Na abadia, recebido pelo prior, ele foi levado a uma entrevista com o noviço e buscam convencê-lo a voltar para casa, pois há muitos anos estava enclausurado e até aquela data ainda não se sagrara monge. Negando com veemência a proposta paterna, Giuseppe argumentou ter uma missão a cumprir naquele local e jamais o deixaria antes de cumpri-la.
Continuaria sua trajectória de pregação até que a filosofia do mosteiro fosse alterada.
Revoltado, Don Genaro cobrou do abade a imediata sagração de seu filho, pois do contrário deixaria de enviar contribuições para custear sua educação.
Pressionado, o prior levou ao conhecimento de Giscard, no bispado, a posição veemente do pai de Giuseppe.
Algum tempo depois, em uma noite escura, sem estrelas a iluminar o céu, somente a lareira do salão principal da abadia crepitava isolada.
Nenhum som além desse era ouvido no interior do mosteiro.
No subterrâneo, porem, os monges organizavam-se para a sua festa mensal.
Pelas estradas tortuosas que conduziam as muralhas beneditinas notava-se o tráfego de algumas mulas, trazendo visitantes ao local.
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Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 25, 2015 7:52 pm

Os monges mais novos e os novéis foram trancados em seus aposentos.
Após a meia-noite iniciou-se o evento e os beneditinos entregaram-se aos prazeres da bebida farta e das orgias sexuais com prostitutas trazidas das vilas próximas.
Enquanto isso, no quarto de Giuseppe, um grupo de noviços orava ardentemente.
Subitamente, uma luz dourada pairou acima de suas cabeças e, fortalecendo-se cada vez mais, começou a invadir os corredores da abadia até chegar ao subterrâneo.
Atravessando paredes e cegando aqueles que a encaravam directamente a poderosa luz invadiu todos os ambientes beneditinos e assustou as convidadas dos monges.
Cessando a festa, cada um buscava uma explicação lógica para o surgimento daquele brilhante foco luminoso.
Em poucos minutos, entretanto, todas as desconfianças voltaram-se a Giuseppe.
O jovem, no entender dos mais velhos, tinha ligações demoníacas e, usando dos livros de magia negra, havia estragado o encontro mensal que alegrava as noites solitárias do mosteiro.
Reclamações contundentes foram dirigidas ao priorato.
Pressionado ainda mais, o bispo de Lyon autorizou o extermínio do noviço que estava causando tanto dissabor dentro da abadia.
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Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 25, 2015 7:53 pm

CAPÍTULO XVII - O TÉRMINO DA JORNADA

Antes de eliminar Giuseppe, o prior enviou o rapaz a Lyon para que o bispo pudesse conhecê-lo melhor, sanando, portanto, a sua curiosidade a respeito de personalidade tão marcante na vida beneditina.
Durante sua passagem pelo bispado, o noviço também desejou aproximar-se de Antoine para entender qual era a razão de seu comportamento autoritário e materialista.
Tinha, ainda, a esperança de implantar no endurecido coração do prelado alguma mensagem de amor cristão.
Ambos médiuns e com personalidade forte vivenciaram inúmeros confrontos e cada um deles buscava penetrar no âmago do antagonista a fim de convencê-lo do acerto de suas posições pessoais.
Sem efeito.
O bispo permaneceu jungido a seus desmandos e Giuseppe inabalável em sua trilha redentora.
Céptico, Giscard aceitou a volta do moço a abadia, mas determinou que Gerard - seu auxiliar directo - o acompanhasse.
Na mesma noite do regresso, o assessor do bispo ingressou no quarto do novel e envenenou-lhe a água.
Escondeu-se, depois, atrás da porta para ter certeza de sua morte.
Enquanto aguardava, viu surgir a sua frente uma figura brilhante, que tomou a forma de um homem.
Percebendo tratar-se de um Espírito, Gerard estremeceu e tentou gritar, mas suas cordas vocais estavam petrificadas de medo.
Quis lançar-se contra aquele ser sobrenatural que poderia estragar seus planos, mas a única coisa que fez foi quebrar a jarra onde havia colocado o veneno.
O barulho provocado despertou Giuseppe.
- Quem esta aí?
Ah, és tu Gerard!
O que queres em meus aposentos a esta hora?
Lívido e transtornado pela aparição daquele Espírito, o assessor do bispo mal conseguiu articular as palavras.
- NNNada, nnão quero nada! - balbuciou.
Deixa-me em paz, seu bruxo desgraçado!
Fugindo desesperado, deixou confuso o próprio Giuseppe que não soube, afinal, o que havia acontecido.
Aquela materialização de seu protector, por alguns segundos, no entanto, conseguiu evitar o cruel fim do novel.
No dia seguinte, alertado por seus companheiros, o rapaz descobriu as reais intenções do bispo, que eram eliminá-lo.
Cedendo às pressões dos amigos, ele deixou a abadia e buscou esconder-se por algum tempo.
Furiosamente perseguido por mercenários contratados pelo bispado durante vários dias, o jovem terminou aprisionado e novamente retornou ao antro beneditino.
Conduzido a "Sola dos Pecados" foi torturado sem cessar até a morte.
Corajosamente, resistiu até o último segundo e jamais confessou estar errado em suas posições francamente idealistas e próximos dos verdadeiros ensinamentos do Cristo.
Entristecidos pela morte de Giuseppe, os monges faziam uma de suas refeições do dia em completo silêncio quando a presença espiritual do rapaz foi percebida na sala.
Um misto de medo e alegria dominou os presentes.
Lentamente, o perfil do moço desenhou-se num dos cantos do refeitório.
Uma suave luz dourada compunha-lhe o perfil e o verde brilhante servia-lhe de vestimenta.
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Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 25, 2015 7:53 pm

Materializado, ele agradeceu a todos a confiança que lhe foi depositada ao longo de tantos anos e não culpou nenhum dos monges pelo seu prematuro desenlace da vida física.
Enalteceu a figura de Jesus e reafirmou a sua confiança na construção de um mundo melhor, dizendo aos beneditinos que isso dependeria do esforço de cada um.
Conclamou-os, portanto, a união e a luta, abandonando posturas inflexíveis e materialistas.
Perdoou aqueles que o prejudicaram e desapareceu completamente, deixando na sala um suave perfume de rosas.
Alguns dias depois da morte de Giuseppe, a abadia foi invadida por Klaus Augusto Von Bilher, o general germânico que impôs ao bispo de Lyon a fragorosa derrota, custando-lhe a própria vida.
Os monges ligados ao jovem novel salvaram os bons escritos da biblioteca beneditina e deixaram o restante dos pérfidos instrumentos lá existentes queimar até as cinzas.
A tragédia imposta a abadia pela ânsia vingativa de Klaus fez renascer em Lyon, meses depois, um novo mosteiro conduzido pelos herdeiros das ideias de Giuseppe.
Integrados a prática da caridade e seguindo fielmente os ensinamentos cristãos, uma nova ordem instalou-se no coração de França e contou, naturalmente, com a protecção espiritual do seu mentor, o corajoso e idealista novel.
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Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 25, 2015 7:53 pm

CAPITULO XVIII - O RETORNO À ESPIRITUALIDADE

- Está preparado para começarmos a regressão, Eustáquio? -indaga Hilário, dirigente da Coordenadoria de Triagem17 de Alvorada Nova.
- Sim, na verdade estou ansioso!
Podemos iniciar - responde o paciente, após ter estagiado por vinte anos no Posto de Socorro ligado a Cidade Espiritual.
Recuperou-se, nesse período, em câmaras de sono profundo e utilizou-se depois de todos os tratamentos disponíveis na Casa de Repouso.
Um imenso painel a sua frente acende-se e da início ao processo de rememorização.
Vários quadros são reflectidos com luminosidade intensa, mas Eustáquio consegue absorvê-los um a um.
Lenta, mas progressivamente, a memória do paciente restaura-se quase de modo integral.
Revê todo o seu último percurso na crosta terrestre, desde os seus mínimos acertos até a maioria dos seus graves erros.
A sessão é suspensa para um descanso, enquanto Eustáquio segue para o Departamento de Reencarnação.
Recebido por Josemar - encarregado da selecção de fichas - ele toma conhecimento de alguns dados complementares referentes a sua reencarnação como conde D'Antoine a fim de integrar a sua rememorização.
Normalmente, a actividade de retomada da memória é estafante e alguns detalhes perdidos na observação das imagens são complementados pela leitura de alguns dados arquivados no computador da unidade competente.
Retornando ao salão principal da Coordenadoria de Triagem, os trabalhos são reiniciados.
Ao longo do processo, verte amargas lágrimas quando revê o momento do seu assassinato no duelo com Klaus.
- Acalme-se, Eustáquio!
São apenas recordações.
O seu momento presente é outro, lembre-se disso - adverte Hilário.
- Esta bem, tentarei ficar tranquilo daqui em diante.
Podemos continuar...
Finalizada a sessão, o orientador dos trabalhos propõe uma avaliação conjunta daquilo que foi visto.
- O que posso dizer-lhe senão que me encontro confuso?
Já não tenho a clara noção do certo e do errado.
Não creio que serei capaz de retornar ao plano material.
Cometerei muitos outros erros.
Gostaria de ficar aqui.
- Você sabe que isso e impossível, Eustáquio.
A reencarnação é meio indispensável de reparação de suas dívidas.
Muitos foram prejudicados pelos seus actos e aguardam ansiosamente uma oportunidade para reencontrá-lo.
A Justiça Divina torna isso viável.
Deverá retornar a Crosta, mas antes de voltar a França fará um estágio em outros locais bem distantes do palco de seus maiores e mais graves desvios.
- Não, recuso-me a aceitar a ideia de um dia tornar a França, mesmo que seja no futuro distante...
- Eustáquio, você acaba de incidir num de seus maiores desvios:
a prepotência.
Neste momento, você não está em posição de escolher os caminhos que deseja seguir.
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Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 25, 2015 7:53 pm

Seria melhor que concordasse connosco, acatando a trajectória que lhe foi traçada pela Unidade da Divina Elevação.
- Mas para onde devo seguir?
Em que circunstâncias vou reencarnar?
Eu preciso saber...
- Você deverá partir para um longínquo continente, bem afastado da Europa e ingressará em uma vida rude e selvagem.
Viverá sem qualquer conforto material, mas terá oportunidade ímpar de compreender o valor da verdadeira simplicidade, reencontrando-se com a Natureza.
Será um local livre do acesso de seus maiores inimigos, especialmente aqueles que estão no plano espiritual.
Você concorda?
- Lamento, Hilário, são poucas informações.
Não posso confiar-lhes assim o meu destino.
Prefiro aqui permanecer.
Uma luz suave e brilhante emana do centro da tela a sua frente, atingindo-lhe o coração.
Um poderoso calmante lhe é ministrado e faz cessar suas angustias e ansiedades.
Eustáquio adormece para somente despertar no Brasil18, no ano de 900, na figura de um índio.
A Natureza lhe será testemunha.

17 - Nota do autor material: ver no livro "Alvorada Nova" o capítulo "A descrição de nossa arvore - IV - Coordenadorias Especializadas" e no livro "Conversando sobre Mediunidade - Retratos de Alvorada Nova" no seu capítulo II, "Recepção do Espírito em Alvorada Nova".
18 - Nota do autor espiritual: o Brasil, como se sabe, nessa ocasião, não tinha esse nome e era apenas um continente selvagem, habitado por índios.
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Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 25, 2015 7:53 pm

CAPÍTULO XIX - DESVENDANDO UM CONTINENTE SELVAGEM

Criaturas aladas cortam o céu azul e límpido para pousar, logo após, em uma imensa e frondosa arvore, de galhos extensos e caídos, que cedem ao peso de seus muitos anos de existência.
Uma chuva abundante convive amistosamente com o esplendor do sol.
Os animais esbaldam-se nas poças d'água, lavando-se no seu banho diário, enquanto as calmas águas de um largo rio espelham a tranquilidade maçante da região.
Em uma clareira inóspita, ergue-se uma taba com modestas tendas.
Do alto de uma íngreme rocha, um velho índio, todo ornamentado de penduricalhos, discursa entusiasmado a uma plateia de cinquenta espectadores.
Pregando a necessidade de mudar a liderança da tribo, o pajé TatuíPiaba conclama os índios a uma revolta contra o velho cacique Petinguara.
Ao longe, dois observadores espirituais de Alvorada Nova acompanham a cena e fazem comentários entre si.
- Ah, Eustáquio!
Os anos passam e ele persevera em sua sede de conquista do poder onde quer que esteja.
É impressionante como desvios arraigados no âmago do ser demoram a ser corrigidos.
- É verdade!
Não é a toa que Agamémnon preocupou-se em nos designar observadores de sua trajectória.
Devemos apenas interferir caso haja o concurso indevido de entidades inferiores provenientes de zonas umbralinas.
- Se Eustáquio continuar nessa trilha, poderá atrair antigos adversários que o perderam de vista há algum tempo.
Sua vibração servirá de isca a aproximação desses espíritos.
- Para isso estamos aqui!
Alvorada Nova busca garantir-lhe um território neutro para seus acertos ou insucessos.
Sua capacidade de comover multidões com palavras bem escolhidas e inteligentemente colocadas e inegável.
Em poucos dias, Petinguara e obrigado pelo conselho da tribo a ceder o seu lugar a um cacique mais jovem, indicado pela sabedoria do pajé.
Assume o posto o índio ArariTutoia.
Enquanto o novo dirigente dos silvícolas cede aos caprichos e ordens do pajé Tatuí-Piaba, na realidade Eustáquio reencarnado e repetindo os seus erros do passado, a paz reina tranquila na aldeia.
A partir do instante em que o jovem cacique contesta o líder espiritual começam as disputas e as mortes.
Assassinatos e violentos confrontos tem início entre ambas as facções.
A par de sua ambição incontrolada, o pajé orienta com bondade os índios que o procuram buscando conforto espiritual.
Preparando remédios extraídos de plantas e raízes, ele consegue salvar muitas vidas e, de alguma forma, praticar a caridade.
Envelhecendo no combate surdo com Arari-Tutóia, termina vencido pelo cacique, muito mais jovem e poderoso.
Condenado ao ostracismo, Tatuí-Piaba e substituído por outro índio na pajelança e, desgostoso, morre esquecido em total solidão.
Em posição de vítima, Eustáquio deixa o plano material e é resgatado por Emissários da colónia espiritual à qual está ligado, reiniciando, de imediato, um processo lento, mas necessário, de planeamento para sua próxima reencarnação, que será preparatória.
Computados seus acertos e desvios, resta ainda imenso saldo a ser resgatado no futuro.
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Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 25, 2015 7:54 pm

CAPÍTULO XX - "NA CASA DE REPOUSO"

Com o auxílio de Nívea, Eustáquio e conduzido novamente a Alvorada Nova, onde passa a estagiar na Casa de Repouso e, mediante tratamento, transforma o seu perispírito, inicialmente na forma de índio até retornar a sua anterior aparência.
A reencarnação, por ser lei universal de progresso dos seres, possibilita que os Espíritos evoluam gradativamente através de inúmeras passagens pelo plano físico.
Ora por determinismo do Plano Superior, ora por livre-arbítrio, o processo de retorno a matéria nunca se detém e jamais a depuração alcançada pela entidade retrocede, involuindo.
No máximo, pode ocorrer a estagnação, o que não deixa de constituir-se um prejuízo ao Espírito.
Após um extenso percurso pelas instâncias da colónia, estudando, aprimorando-se e aprendendo, Eustáquio está preparado a retornar a carne, reiniciando sua trajectória em outro local distante de França, cenário de seus maiores débitos.
Há três formas básicas de progressão espiritual no tocante as reencarnações pelas quais passa o Espírito.
Reencarnação-chave:
destina-se aos maiores e mais importantes resgates que se tenha a enfrentar.
As grandes dívidas acumuladas pelo Espírito geralmente concentram-se numa determinada região do globo terrestre e relacionam-se com personalidades específicas.
O reencarnante, no palco de seus mais graves desmandos, sofre uma trajectória de provas e expiações.
Triunfando no percurso, conseguirá elevada depuração espiritual.
Fracassando, continuará no mesmo estágio evolutivo e deverá prosseguir, no futuro, na trilha expiatória e regenerativa.
Para que essa viagem de retorno tenha um mínimo de probabilidades de sucesso, o Espírito devera passar, antes, por reencarnações alternativas e preparatórias.
Reencarnação- altemativa:
constitui um apoio ao Espírito para que ele desvincule-se de sua anterior passagem pela materialidade.
Uma reencarnação-chave que não trouxe progresso a criatura não será facilmente esquecida.
Assim, a reencarnação-altemativa, em local distante do palco de seus arraigados desvios e com outros seres, possibilita a entidade em progresso desligar-se dos seus laços do passado, abrindo o seu campo de actuação para o futuro.
Foi o caso de Eustáquio ao reencarnar no Brasil.
Nem sempre uma única reencarnação-altemativa e suficiente para deixar preparado um Espírito a voltar a Crosta, em reencarnação-chave.
Dependendo, pois, do livre-arbítrio de cada um e de sua força de vontade em ultrapassar obstáculos resignadamente, poderá ou não haver varias reencarnações-alternativas.
Reencarnação-preparatória (ou estratégica):
realizado o estagio da criatura em uma ou mais reencarnações-alternativas, o retorno a crosta terrestre que devera preceder a uma reencarnação-chave denomina-se preparatório.
Logicamente, o Espírito, mal utilizando o seu livre-arbítrio poderá acumular tantos débitos em uma reencarnação-preparatória, que não poderá voltar, logo após, em reencarnação-chave.
Entretanto, de regra, quando a entidade atinge a reencarnação-preparatória significa ter alcançado um patamar razoável de evolui, ao que o credencia a um retorno decisivo.
Não existe, portanto, uma regra absoluta nesse encadeamento, pois a designação de cada reencarnação do Espírito depende da concentração de determinados tipos de provas e expiações que serão enfrentados na materialidade.
Reencarnações-chave tem elevado numero de provas e menor numero de expiações.
Nas reencarnações-alternativas dá-se o inverso (maior numero de expiações e menor numero de provas).
As reencarnações-preparatórias são equilibradas com semelhante numero de provas e expiações, embora com predominância dessas últimas.
Eustáquio recebe do Departamento de Reencarnação a sua próxima programação e, resignado, mas ainda não convencido, retorna a carne para cumprir, na identidade de Samuel, uma reencarnação-preparatória.
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Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 25, 2015 7:55 pm

CAPITULO XXI - EXPIAÇÃO NA ESLOVENIA

Assumindo o corpo de Samuel, Eustáquio nasce em família pobre na Eslovénia do ano de 970. Seus pais são judeus itinerantes, David e Rachel, muito apegados aos filhos e ao trabalho no campo, mas que não conseguem fixar residência e passam a vida viajando pelo mundo.
Nessa ocasião, estabelecidos em região fronteiriça entre o Ducado de Carintia e o Reino da Croácia, passam por dificuldades materiais de toda ordem.
Samuel tem deficiência física e retardamento mental, o que não lhe impede o raciocínio, mas torna-o mais lento.
Amparado pela irmã mais velha, Sara, o menino cresce sem maiores problemas, embora sempre entristecido e carregando no peito um coração irresignado.
Somente quando está em desprendimento do corpo físico, ante a Jornada proporcionada pelo sono, ele alegra-se em contacto com entidades espirituais que o cercam, sejam elas boas ou más.
Sente-se liberto de seu limitado invólucro carnal e, inúmeras vezes, deseja não retornar ao seu estagio na Crosta, pretendendo jamais despertar do sono que o envolve.
Suas melhores sensações, no entanto, são vividas quando, em desprendimento, encontra-se com sua amada Nívea.
Nessas oportunidades, relembram juntos alguns aspectos do seu passado em Dijon, ressalvando-se a necessidade de seu retorno a França para resgatar suas dívidas.
Longos anos de reflexão e sofrimento causados pela clausura de seu débil corpo material, repletos de amor familiar, credenciam-no a pleitear uma reencarnação-chave, buscando a tão esperada evolução espiritual.
Desencarna aos 60 anos de idade e cruza os portais dourados de Alvorada Nova, aguardando o seu mais ambicioso projecto:
reviver a França e reconstruir o seu passado através de uma conduta verdadeiramente cristã.

FIM DA PRIMEIRA FASE
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Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 25, 2015 7:55 pm

CAPITULO XXII - CALAIS

- Ah, o mar...
Respires fundo, Melânio, e sintas a força que emana de suas águas fogosas a combater com ferocidade a inércia das rochas.
Vês o que te digo?
Indiferente a esse surdo monologo, coloca-se fiel ao lado de seu dono Patrick o retriever Melânio, um formoso cão de origem britânica.
A tarde e sombria e nebulosa. Calais e suas cercanias debruçam-se sobre o mar e sua comunidade vive sob influência directa dos costumes ingleses, apesar de sua localização no continente.
Patrick, jovem cavalariço, com vinte anos de idealismos e sonhos, admira o mar e seus mistérios como se ali estivesse projectado o seu próprio passado escondido sob a fúria das águas.
- Sabes, Mel19 (18), se me fosse possível, iria viver em Londres.
Não suporto mais esta vida miserável que levo.
Tu irias comigo?
Latidos estridentes ecoam pelo penhasco concordando com o dono.
O jovem cavalariço da região de Flandres trabalha para o duque de Talantois e participa de inúmeros torneios conduzindo os belos cavalos do fidalgo.
A epilepsia - mal que o acomete - torna seus dias mais amargos e derruba suas esperanças de progresso e ascensão social.
Em um dos certames organizados pelo ducado de Talantois, contando com a participação de inúmeros nobres da região, Patrick conhece Clemence, dama de companhia da Condessa du Carmier e por ela apaixona-se perdidamente.
Apesar de franzino, o rapaz possui nos olhos um brilho cativante, esboçando ares ingénuos e frágeis, mas escandecidos.
A moça sente-se profundamente ligada a esse homem que acaba de conhecer e horas depois ambos trocam as mais solidas juras de amor.
Algumas semanas depois, unem-se em matrimónio e passam a viver nas cercanias do castelo de Talantois.
Durante dois anos, parecem viver na mais absoluta felicidade, embora Patrick sempre manifeste o seu inconformismo com sua precária situação social.
Clemence recebe, então, à luz Patrice, uma menina de olhos verdes como aquelas águas do mar que acompanhava os sonhos e as reflexões de seu pai.
Certa vez, surge em Calais, Merkon, barão de York e amigo pessoal do duque, para uma visita.
Irónico e mordaz, o nobre inglês logo implica com o jovem pajem.
- Meu caro duque, observo que continuas a dar abrigo a esse rapazote...
Como e mesmo o seu nome?
- Patrick...
- Pois bem...
Soube que ele é um elogiado palafreneiro!
O duque aquiesce, balançando a cabeça.
- Difícil acreditar nisso!
O rapazinho é franzino e tem um ar um tanto boçal.
Não te pareces?
- Não digas isso, Merkon!
O rapaz está por perto.
Presunçoso, mas sagaz, o nobre inglês tem um plano ao provocar dessa maneira o despreparado Patrick e também o ingénuo duque.
- Pobrezinho, ele é tão doente...
A fagulha final e lançada e Patrick, sem nada desconfiar, sente-se ferido em seus brios e invade a conversa.
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Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 25, 2015 7:55 pm

- Perdão, senhores!
Não deveria eu, um simples pajem, que cuida dos cavalos, interferir em vossa conversa.
Entretanto, fui agredido em minha honra pelo senhor barão de York.
Quero dizer-vos que, apesar de minha doença, posso perfeitamente cuidar de meu serviço...
O rapaz conta com a bondade e paciência infinitas do duque ao permitir que um serviçal dirija-se a fidalgos, mormente visitantes, dessa forma.
- Ninguém questiona o teu valor, Patrick - diz o patrão.
- Sim, eu questiono!
Desafio-te a provar-me o que falas com tanta arrogância neste momento - devolve o nobre inglês.
- Assim farei, senhor barão, desde que meu amo o permita.
- O que pretendes com isso, Merkon? - indaga o duque.
- Levá-lo comigo para a Inglaterra e fazer com que ele treine os meus animais para o próximo torneio de York.
Atónito, o duque de Talantois consulta o jovem cavalariço.
- Aceitas ir para as terras do barão, Patrick?
- Sem dúvida, senhor!
Lança-se a sua sorte e o fidalgo visitante consegue o seu intento, ferindo o orgulho do rapaz, consegue retirá-lo de Talantois a fim de levá-lo aos seus domínios para treinar animais de puro-sangue.
Clemence, inconformada, chora a partida do marido, mas aceita as linhas que o destino acabara de trazer.

19 - Nota do autor espiritual: apelido carinhoso de Melânio.
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Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 25, 2015 7:56 pm

CAPÍTULO XXIII - PATRICK NA INGLATERRA

A noite anda lenta e ao longo de horas sofre violenta tempestade, enquanto um barco cruza, sôfrego, o canal da Mancha.
A tripulação esboça enorme fadiga, enquanto o capitão da nau busca encontrar soluções para as avarias de monta sofridas.
Um imenso fog ergue-se à frente do navio simbolizando a chegada a Inglaterra.
Sensações de angustia e arrependimento começam a brotar, cedo, no espírito de Patrick.
- Nada poderá derrotar-me - pensa conformado.
Irado, o barão determina que todos os serviçais preparem-se para desembarcar.
Horas após, a expedição segue em direcção ao castelo de York.
A lua esconde-se atrás das nuvens, deixando os viajantes tensos e receosos ante a escuridão profunda da noite.
Empantanados, eles acendem varias tochas a fim de encontrar o caminho.
Minutos tornam-se horas e estas parecem estender-se como se dias fossem.
Adentram a uma floresta densa e húmida, onde pequeninas criaturas nocturnas rondam os peregrinos insistentemente.
De súbito, uma vertigem descontrola Patrick, que cai prostrado ao solo.
O barão, não admitindo atrasos, começa a gritar:
- Estúpida criatura!
Levanta-te imediatamente!
As rudes palavras de Merkon calam fundo no âmago de Patrick e ele retorna, por alguns minutos, ao passado longínquo, identificando o mesmo tom de voz que um dia já ouvira de Don António, em Cosenza.
Sem dúvida, descortina-se em seu inconsciente o nexo existente entre ambas as figuras, pois o barão é, de facto, reencarnação do pérfido Don António do Monte Nebrini.
Delirando, o rapaz começa a gritar:
- Não, pelo amor de Deus, poupa-me Don António!
Tende piedade...
Confuso e sem entender o que se passa, o fidalgo inglês determina aos lacaios que carreguem nas costas o cavalariço.
- Eu disse ao duque que esse moço e imprestável...- resmunga Merkon.
As ordens são cumpridas a risca e o grupo prossegue a viagem rumo ao castelo de York, levando inerte o corpo do pajem.
Na manhã seguinte, Patrick abre os olhos e a sua frente depara-se com uma mulher gorda e feiosa, com as mãos amparadas nos quadris, que o encara fixamente.
- Quem és tu?
Onde estou, senhora?
- Vejam só!
Um autentico boçal com refinados hábitos... (risos).
Estamos nas terras de York e tu estás confinado aos teus aposentos: o estábulo.
Sou Crisméia, a governanta!
Aconselho-te a logo despertar e imediatamente começar o teu trabalho ou do contrario ficarás sem comer.
Antes que Patrick possa esboçar qualquer reacção, a mulher vira-lhe as costas e sai.
Angustiado, volta seus pensamentos para o ducado de Talantois e relembra-se da doce imagem de Clemence.
Ao seu lado, acalmando-lhe o espírito, encontra-se Nívea, sua mentora.
Após um mês de estafantes actividades, o rapaz percebe que o barão não tem intenção alguma de devolvê-lo a Flandres.
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Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 25, 2015 7:56 pm

Seu isolamento e quase completo.
Nenhuma carta recebe da esposa ou do amo.
Desespera-se.
Indagando a Crisméia, toma conhecimento dos actos de Merkon.
Ele havia escrito ao ducado, dizendo que Patrick recusava-se a voltar e que iria fixar definitivamente sua residência na Inglaterra.
Sentindo-se prisioneiro, sabe que sua família iria acreditar nessa versão, pois ele sempre teve o desejo de residir em terras britânicas.
Revoltado, resolve vingar-se daqueles que o mantém praticamente encarcerado em York.
Inteligente, aproveita-se da ignorância de Crisméia e de outros serviçais, passando a intrigá-los uns contra os outros.
Em pouco tempo, a governanta indispôs-se com a cozinheira Margot e com o condutor da carruagem, Malcom.
Estes, por sua vez, acreditando na cilada preparada pelo cavalariço, começam, também, a brigar entre si.
Malicioso e utilizando toda a sua argúcia, Patrick percebe que Crisméia nutre um amor platónico pelo barão.
Aproveitando-se disso, chama-a para uma conversa ferina.
- (...) Soubeste do comentário que corre o palácio?
- Que comentário?
- Oh, lamento!
Pensei que tivesses tomado ciência das interludes do barão...
Sinto ser eu o autor dessa noticia terrível.
- De que falas, Patrick?
Deixas-me nervosa desse jeito.
- A baronesa está impondo a tua substituição...
Acho que descobriu a traição.
- Como? Traição?
Que absurdo!
- Todos sabem que és apaixonada pelo amo, não negues...
Patrick apenas joga a isca, sem ter certeza do que fala, mas Crisméia engole o chamariz e entra em pânico.
Sem terminar a conversa, a governanta principia um choro convulsivo e enclausura-se em seus aposentos.
O sol caminha trôpego para seu recanto.
Após longo e cansativo dia, acobertando-se atrás da lua que surge altaneira no céu da Inglaterra, quando um grito gutural ecoa pela pradaria.
Assustados, os serviçais do castelo constatam vir da biblioteca o berro de pavor.
Entrando na sala, encontram, dentre finas porcelanas inglesas estilhaçadas ao chão, o corpo inerte de Crisméia.
Na sua mão ainda esta o cabo de uma adaga, cuja afiada lamina encontra-se cravada no seu próprio coração.
A governanta suicidara-se e, à sua frente, o barão permanece lívido e estático.
- Esta mulher enlouqueceu!
Entrou na biblioteca aos prantos e, dizendo que se mataria se eu não a perdoasse, tentou agarrar-me a força...
Empurrei-a, com vigor, naturalmente.
Sem que pudesse evitar, ela sacou de um punhal e violentamente enterrou-o no próprio peito.
Jamais vi uma cena como essa em toda minha vida!
Incrédulo com os factos que presenciou, o barão explica-se aos serviçais.
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Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

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