Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Página 4 de 8 Anterior  1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Ir em baixo

Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 26, 2015 7:59 pm

O sentimento de culpa expande-se entre todos os presentes, cada qual achando ter, a sua forma, contribuído para esse resultado fatal.
Tantas foram as intrigas cultivadas no castelo nos últimos dias que outra não poderia ser a consequência.
Após uma semana da morte de Crisméia, vários empregados demitem-se e deixam as terras de York.
Patrick, regozijando-se, sente dominar a situação.
Em breve, é chamado a presença de Merkon.
- Não sei que desgraça abateu meu baronato...
De repente, vários empregados que há anos prestavam-me serviços largaram seus postos e desapareceram.
Pareço viver algum tipo de maldição.
Necessito que tu assumas a direcção do palácio, contratando novos serviçais.
- Senhor barão, sinto-me honrado com vossa confiança, porém...
- O que queres dizer?
Estas reticente?
- Devo retornar a Calais a fim de rever minha família.
Poderia, com a devida licença e submetendo-me a vossa esclarecida compreensão, propor-vos um trato...
- Um trato?
Queres chantagear-me quando estou precisando de teus préstimos!?
- Em absoluto!
Gostaria apenas de voltar a casa e poderia, de bom grado, auxiliar-vos neste difícil momento, contando com vossa colaboração para depois...
- Está muito bem!
Reconheço quando não tenho opção.
Tu poderás partir tão logo a situação esteja normalizada neste castelo.
Agora, saia!
Não quero ver-te mais a minha frente.
Patrick trabalha arduamente ao longo de um mês e consegue repor no baronato todos os empregados que largaram seus postos.
Reorganizada a vida no palácio, retorna a presença do barão.
- Senhor, humildemente, solicito-vos permissão para deixar York, retornando a Flandres.
- Permissão negada!
Continuaras dando-me assistência até os futuros jogos de Evesham.
- Houve um trato, senhor!
Insisto, com o devido respeito, que seja cumprido.
- Eu fixo as regras em minhas terras, meu jovem.
Conforma-te com isso ou serás detido outra vez no estábulo, por tempo indeterminado.
Irado e sentindo-se traído de modo vil, o cavalariço saca de um punhal e, sem vacilar, arremessa-o contra o barão, que se desvia instintivamente.
A arma branca termina atingindo Sofia, baronesa de York, que acaba de entrar, casualmente, na biblioteca.
Mortalmente ferida, a esposa de Merkon sucumbe diante de dois atónitos expectadores.
Não por acaso, repete-se idêntica situação do passado distante.
Carlo matara a esposa de Don António.
Agora, outra vez, assassina-lhe a consorte.
Colocados em uma situação de risco, ao invés de resgatarem débitos mútuos do pretérito, acabam aumentando suas dívidas e, segundo a lei de acção e reacção, haverão de reparar o mal que erguem em seu caminho.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70274
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 26, 2015 7:59 pm

CAPITULO XXIV - DE VOLTA A FRANÇA

Após percorrer, em fuga, os sinuosos e estreitos caminhos da imensa floresta que cerca o castelo de York, Patrick tem em seu encalço cães bravios, seguidos por bravos mercenários contratados pelo barão para exterminá-lo.
Consegue, entretanto, chegar a Oxford e daí, associando-se a um bando de contrabandistas de produtos orientais, atravessa o canal da Mancha, atingindo Calais.
Finalmente, ingressa no ducado de Talantois e não tarda a reencontrar-se com a esposa e a filha.
Recebido ternamente por Clemence, Patrick desdobra-se em explicações a todos, inclusive ao próprio duque.
Perdoado por todos, logo reintegra-se ao seu antigo trabalho.
O amargor acumulado nos domínios de York, no entanto, faz nascer no rapaz sentimentos desequilibrados, ora de vingança, ora de maledicência.
Após tantas intrigas que promoveu, não consegue mais viver sem interferir na vida alheia, causando profundo desgosto em sua paciente esposa.
Em pouco tempo, desestrutura-se em sua relação conjugal e entrega-se as farras e a embriaguez habitual.
Envolve-se amorosamente com várias mundanas das estalagens de Calais e nem mesmo os alertas do duque de Talantois ele digna-se ouvir.
O seu desregrado percurso condena-o ao ostracismo, abandonado pelos amigos, condenado pelos vizinhos e repreendido pelo patrão.
A família continua a ampará-lo, jamais deixando-o sentir-se preterido.
Embora obtenha no lar o amor que tanto necessita, Patrick deixa-se levar pelo desequilibrado modo de vida que adopta.
Ao atingir trinta e cinco anos, acomete-se de aziago remorso, embora não sinta ter forças para alterar o quadro de flagelo emocional em que se envolveu.
A partir dai, sem esperança de renovação interior, até o final de sua trajectória, não consegue desenlaçar-se do triste meandro que tragou para sua própria existência.
Desencarna em 1137, nos domínios de Talantois, em Calais, retornando a Espiritualidade com muito trabalho a cumprir.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70274
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 26, 2015 8:00 pm

CAPITULO XXV - DESENCARNE EM CALAIS

A mesma nevoa densa da floresta de York, soturna, fria e impassível, recepciona Patrick no mundo espiritual.
Cego e confuso, permanece algumas horas em estado de inconsciência.
O medo domina-lhe o ser.
Após semanas nesse estado letárgico, uma voz metálica provoca-lhe a atenção.
- Patrick! Assassino!
Que te fiz para merecer tanto ódio?
Que males te posso retribuir para compensar meu sofrimento?
- Quem és tu que não reconheço?
Onde estou?
- Sou Minerva!20
Aquela que ao longo de séculos vem sendo atormentada e agredida por ti, levianamente.
Duas vezes, Patrick, tiraste-me a vida material.
Agora, sou obrigada a vagar por esses pântanos sufocantes unicamente por tua causa.
- Trata-se de um engano, senhora, eu nunca a vi antes...
- Talvez não tenha visto da forma como hoje me apresento!
Mas já fui bela e rica.
Sim, poderosa e idolatrada!
Lembras certamente da baronesa de York que assassinaste sem qualquer razão?
Lembras, ainda, de Cosenza, quando outra vez tiraste-me a vida no Monte Nebrini?
- Não é possível!
Sinto revolver minhas lembranças...
- No tempo certo você devera recordar-se.
Até lá, seguira comigo.
Será meu prisioneiro e farei com que se arrependa dos bárbaros actos que praticou.
Voltando-se aos seus aliados, Minerva determina que correntes21 sejam colocadas no pescoço de Patrick, incapaz de apresentar qualquer reacção.
A Sabedoria Divina permite tais expiações, já que algozes e prisioneiros são vítimas de suas próprias acções passadas.
Enquanto apresentam densificados perispíritos não tem condições de habitar mundo superiores.
Arrastam-se por zonas umbralinas, entrechocando-se entre si, até estarem aptos a um resgate por mensageiros de alguma colónia espiritual.
Anos de assédio contínuo esgotam a ânsia vingativa de Minerva, que afrouxa os seus laços obsessivos, libertando Patrick.
Resgatado, então, por Alvorada Nova, retorna a tratamento.
- E bom tê-lo novamente aqui, Eustáquio.
Lembra-se de tudo o que vivenciou? - pergunta-lhe Hilário, encarregado de sua orientação na colónia.
- Certamente!
Começo a perceber a gravidade de meus erros.
Quanto tempo ainda sofrerei dessa forma?
- Não posso responder-lhe essa indagação, pois tudo depende exclusivamente de seu livre-arbítrio.
Você deve promover uma verdadeira reforma íntima para sentir-se renovado espiritualmente.
- E terei outra oportunidade para isso?
- Sempre, meu amigo!
A lei da reencarnação nos permite retornar a carne, para expiar erros do passado e submeter-nos a novas provas, inúmeras vezes.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70274
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 26, 2015 8:00 pm

- Deverei encontrar-me com Minerva?
- Sim. Há dívidas entre ambos que merecem reparo.
Não foi por acaso que você a agrediu duas vezes no passado.
Anteriormente, já tinha sido por ela atacado.
Ao invés de perdoá-la, mesmo inconscientemente, você terminou vingando-se.
Em Cosenza, matou-a porque quis.
Em York, por acidente, mas assumindo o risco22 de ferir seu semelhante, terminou assassinando-a uma vez mais.
Uma regressão mais ampla do passado permitira rever o que lhe digo.
- Ela sofrerá o mesmo processo?
- Quando for possível, irá relembrar também os seus actos pretéritos.
Lembre-se que o melhor para ambos e o perdão mútuo.
Acatando as palavras de Hilário e dirigindo-se à sessão de rememorização, Eustáquio absorve, inequivocamente, a lição que acaba de ouvir.
Durante quatro anos, Eustáquio estagia num Posto de Socorro de Alvorada Nova, trabalhando arduamente e preparando-se a novo retorno a Crosta.
Próximo ao momento do reencarne, e advertido por Hilário.
- Você sabe que vivera uma reencarnação-chave.
Aproveite essa oportunidade ímpar de resgatar seus erros.
Uma vez mais, a sua programação será um berço nobre e confortável, mas seus inimigos do passado lá estarão para cobrar-lhe dívidas.
Saiba ter a lucidez para perdoar e não se deixar levar por influências negativas.
Eventual fracasso poderá causar-lhe imenso atraso em sua trajectória evolutiva.
- Ouvindo-o, agora, tudo me parece claro e inquestionável.
Quando reencarnado, entretanto, sempre deixei-me levar por interesses materialistas.
Acabo transformando a minha vida num desatino total.
Como poderei evitar esse desequilíbrio?
- Com muito esforço e fé, Eustáquio! O progresso espiritual é conquistado gradualmente e por acção de seu próprio livre-arbítrio.
Sustente-se no amor e na caridade e conseguirá obter sucesso.
A despedida carinhosa de Hilário dá-lhe forças renovadas e, no ano de 1147, em Dijon, nasce o menino Charles, filho do respeitado e temido duque de Bogondier, iniciando nova trajectória pelos percalços da vida terrena.

20 - Nota do autor material: e comum Espíritos mudarem de nome na Espiritualidade, como já, se viu no caso de Claudine/Giovanna, cujo na me no mundo espiritual e Nívea. Minerva foi a esposa de Don António e Sofia, a baronesa de York, duos vezes portanto assassinada por Eustáquio. Dai a origem de seu ódio por Patrick.
21 - Nota do autor material: não trata-se de correntes materiais, mas sim de formas-pensamento as quais são construções mentais, ideoplásticas.
22 - Nota do autor material: maiores detalhes podem ser encontrados no livro "Conversando sobre Mediunidade - Retratos de Alvorada Nova", capitulo XIV (Teoria do Risco).
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70274
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 26, 2015 8:00 pm

CAPITULO XXVI - CHARLES DE BOGONDIER

Imponentes torres do majestoso castelo do ducado de Bogondier rasgam a limpidez do céu azul e deslumbram os viajantes que por ali passam.
Dijon não seria a mesma não fossem os domínios do duque, que marcam sobremaneira a vida dos habitantes da região.
Em uma das salas do palácio, vários nobres convidados divertem-se, escarnecendo o pequeno Charles, um garoto mimado com sete anos de idade.
O austero duque, ao invés de apoiá-lo, participa do menosprezo colectivo contra seu filho.
- Não sejas fraco, Charles!
Deves responder as provocações como um homem!
- Mas, meu pai, eu sou pequeno.
Eles são mais fortes... não há como afrontá-los.
- Que bobagem! Já tens sete anos.
Nessa idade, eu acompanhava meu pai em duelos e dava-lhe total apoio.
Não posso permitir que sejas considerado um maricas.
Incapaz de responder a altivez do pai, o menino investe contra os presentes, num gesto desesperador.
Dominado, acaba ferido e parte, choroso e humilhado, para o seu quarto.
Não há carinho no lar, nem mesmo atenção por parte dos pais e Charles cresce infeliz e consolado apenas pela imensa riqueza material de sua família.
Educado no próprio ducado pelo professor parisiense Paul de Sarcotian, o garoto demonstra, precocemente, inteligência invulgar e extrema dedicação aos estudos.
Elege o seu mestre como uma figura exemplar, a quem tributa as qualidades de educador e pai.
Dedica-se as artes e a literatura erudita tão logo chega a adolescência.
Indiferente ao progresso educacional do filho, o duque, sofrendo pressões da fidalguia, resolve interromper as aulas e mandar o rapaz a Paris para que assuma carreira militar.
Charles recusa terminantemente a determinação paterna e o afronta pela primeira vez ao longo de sua vida.
O duque surpreende-se com a contundente posição do jovem.
Em pouco tempo, rumores na Corte contestam a virilidade do filho único do nobre mais rico de Dijon.
Consola-o seu professor.
- Não desanimes, Charles!
Teus pais preocupam-se com teu futuro e o duque não quer o teu mal.
- Não sinto dessa forma, meu caro Paul.
Trocaria toda a fortuna que tenho para receber um pouco de atenção de meus pais.
- Tens razão relativa.
O amor é essencial a vida dos seres, porém e importante que te lembres de nossa Jornada efémera pela materialidade.
O momento da libertação chegará para ti e para todos nós, quando então poderemos buscar, na sua inteireza, o verdadeiro sentimento, que é o espiritual.
O corpo que possuímos, nesta vida, obstaculiza nossas sensações reais e, por vezes, nos falta espaço para agir como gostaríamos.
Uma vez libertos da matéria, no entanto, viveremos amplamente o amor.
- Que meu pai não te ouça jamais com essas ideias sobrenaturais!
Tu sabes que bruxaria é punida com a morte?
- Não se trata de bruxaria.
Tenho fé e acredito nesses postulados.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70274
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 26, 2015 8:00 pm

Por enquanto, os cientistas da Corte não podem comprovar a existência da vida após a morte, mas Jesus nos ensinou que o seu Reino não e deste mundo.
Confio, portanto, que um dia a Humanidade terá essa prova.
Até lá, mantenho minha íntima convicção.
- Lamento, professor.
Aprecio tuas aulas e louvo teus conhecimentos, mas não creio em vida após a morte e pouco ligo para religião.
Acho que as guerras, especialmente as Cruzadas, são fruto do fanatismo cristão.
- Não, absolutamente!
Não confundas o verdadeiro cristianismo com aqueles que desprezam as palavras de Cristo e fomentam a guerra.
Não acredito, também, na necessidade de existir qualquer tipo de "guerra religiosa".
Um acto de morte, violência e sofrimento não pode ser imputado a Deus.
- Pode ser, Paul, mas continue desacreditando nesse belo mundo de que tanto falas após a morte.
- Não te preocupes com isso!
Mantenhas, isso sim, os elevados valores morais e uma vida honrada.
Nesses postulados ainda crês?
- Certamente! Jamais os esquecerei.
Ao atingir os dezasseis anos, Charles torna-se vítima das maledicências perjurosas dos pérfidos amigos de seu pai, que lhe lançam acusações levianas, questionando o seu íntimo relacionamento com o professor Sarcotian.
Por ter recusado a carreira militar, o rapaz é desconsiderado pelos fidalgos e vilipendiado em sua honra e sexualidade.
Ante vários e insistentes rumores o duque fica transtornado, determinando o imediato afastamento de Paul dos seus domínios.
Inconformado com a brusca ruptura de sua amizade com o mestre Sarcotian, Charles sucumbe a uma depressão profunda, que o remete enfermo ao leito.
Ninguém consegue ter acesso ao rapaz, trancado em seu quarto por dias e noites seguidos, sem alimentar-se e revoltado, tornado de incontrolável ira.
Fragilizado, começa a ser assediado por inúmeras entidades inferiores que tentam obsedá-lo, transformando-o em um marionete de suas sensações animalescas.
Sem fé e desacreditado dos valores cristãos que aprendera ao longo de seu processo educacional com Paul, torna-se presa fácil de sentimentos malignos e envereda pelo caminho tortuoso da cólera e da rebeldia.
Não satisfeito com a simples expulsão do professor Sarcotian de suas terras, o duque resolve exterminá-lo, acreditando ser a única forma de conter os rumores maldosos da fidalguia imprudente.
Envia seu filho a Londres, retirando-o as pressas de Dijon e determina a seus empregados que encontrem e aprisionem o antigo educador de Charles.
Capturado, Paul é apresentado ao duque.
- Sois vós o professor que desviou meu filho da carreira militar, granjeando-lhe maldosos comentários na Corte!
Sois vós o causador da actual enfermidade de Charles, quase irrecuperável após ter-se desligado de vossas garras!
Que fim mereceis, senhor, senão a morte?
- Senhor duque, rogo-vos!
Não acrediteis nas maledicências alheias.
Vosso filho é inteligente e sensato e jamais quis afrontar-vos ao recusar a vida militar.
Tinha o intuito de estudar em Paris, aprimorando-se na cultura dos livros, em que pese respeitar profundamente as vossas convicções e o vosso desejo.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70274
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 26, 2015 8:01 pm

Dei-lhe o melhor de meus valores ao longo de nosso convívio e jamais iria supor que tantas mentiras a nosso respeito pudessem ser levantadas.
- Sois covarde em não admitir os vossos erros.
Achais que escaparíeis da vossa pena com tais justificativas?
- Sei qual será o meu destino, não importa o que eu diga.
Nada peço para mim, senhor duque.
Rogo-vos pelo rapaz!
Ele não tem culpa e jamais pretendeu ofender-vos.
Deixai-o seguir o seu caminho e, posso assegurar-vos, não vos arrependereis.
- Além de tudo, sois prepotente!
Quereis, senhor professor, ensinar-me a cuidar dos interesses de Charles?
A mim, o duque de Bogondier?
- Longe de mim afrontar-vos.
Clamo pelo vosso bom senso e por vosso amor a Deus.
Perdoai se falhei em alguma oportunidade.
Minhas intenções foram as melhores possíveis.
Sempre considerei Charles como se meu filho fosse.
- Chega! Não quero mais ouvir-vos.
Levem-no daqui!
Retirado do castelo, o professor é levado pelos guardas a uma floresta vizinha, onde rigorosamente é cumprida a pena imposta pelo duque.
Horas mais tarde torna a pátria espiritual o mentor Genevaldo, que deixa o seu invólucro carnal de Paul de Sarcotian, recepcionado com alegria por seus companheiros de Alvorada Nova e lembrando-se de sua missão secular na orientação e amparo ao pertinaz Eustáquio.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70274
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 26, 2015 8:01 pm

CAPITULO XXVII - REVIVENDO A GRÃ-BRETANHA

Desponta altanado no horizonte da vida o ano de 1171, fazendo vicejar os céus ingleses e fomentando a braveza dos cavaleiros e nobres da região de Canterbury.
Soturnas previsões incomodam Charles, herdeiro único do duque de Bogondier, ao aproximar-se a data de seu retorno a França.
Vivendo no próspero condado de seu tio Heber Roithman, recupera-se plenamente de seus traumas do passado.
Homem feito, destemido cavaleiro treinado pela combatividade dos torneios britânicos, sente-se incomodado pela necessidade de deixar a Inglaterra, voltando a Dijon.
O velho duque, já no leito de morte, chama o filho para assumir seus negócios.
- Teu pai convoca o futuro duque a assumir o posto.
Estás disposto a fazê-lo, Charles?
- Certamente, meu tio!
Sinto apenas deixar-te sozinho após todos esses anos de convivência e de amizade.
Sentados ao redor de farta mesa, talhada com madeira das mais nobres, servidos por polida criadagem, continuam conversando os dois amigos.
- A propósito, o rei Henrique está insatisfeito com a posição da Igreja na Inglaterra ao opor-se a nova Constituição.
Que achas de fixarmos posição ao lado de sua majestade?
- Como poderemos ficar contra a Santa Igreja?
Falas serio?
- Trata-se apenas de um recuo estratégico.
O rei esta sensível às mudanças.
Poderemos ficar ao seu lado agora e depois voltaremos a cortejar o bispo.
Conseguiremos duplicidade de apoio.
- O que nos traria de positivo e de rentável uma arriscada postura como esta?
- O domínio da Irlanda!
A Inglaterra expande suas fronteiras.
Poderás, meu tio, ser beneficiado com a aquisição de novas terras.
- És um brilhante articulador!
Teu pai ficaria orgulhoso de teus feitos.
- Não me fales do duque.
Bem sabes que não o considero como pai.
- Esquece o passado, Charles!
Tenho certeza de que ele queria o melhor para ti.
- Prefiro mudar de assunto.
Como ficarás com a minha partida?
- Muito sentido.
Apeguei-me a tua companhia e entristeço-me, embora continue defendendo que assumas o teu posto em Dijon.
Emocionado, o conde Heber abraça fortemente o sobrinho, que não deixa de corresponder ao carinho recebido e, um mês depois, o último abraço e trocado entre ambos já com a partida de Charles.
Durante sete anos eles sentiram-se felizes e trocaram novas experiências.
Enquanto o rapaz conhecia, pela primeira vez, um familiar que o respeitava e demonstrava-lhe amor, o solitário conde encontrou no jovem o filho que nunca teve e quem lhe dava esperanças para continuar vivo, nomeando-o seu herdeiro único.
A experiência vivida por Charles no condado de Canterbury serve-lhe de amparo sentimental, fragilizando um pouco o seu endurecido espírito, embora o tenha desvirtuado do caminho das artes e do aprimoramento intelectual, impulsionando-o de volta as armas e aos torneios, o que, certamente, torna mais obscuro o seu caminho.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70274
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 26, 2015 8:01 pm

CAPITULO XXVIII - NA CORTE DO REI FILIPE AUGUSTO

Portentoso séquito acompanha o duque de Bogondier e sua família rumo ao palácio real.
Nadine, uma jovem de pele alva, rosto traspassado pelo sofrimento e olhos fundos, entristecidos, vislumbra a paisagem calma e inerte das pradarias.
Um ar pesado asfixia o interior da carruagem e Charles sente-se cada vez mais impulsionado a terminar o casamento interesseiro que o uniu a essa moça, filha primogénita do rico conde de Blois.
Os filhos, Charles II e Rubião, conservam-se cabisbaixos durante toda a viagem, certos de que o pai não toleraria uma só brincadeira sob sua vista.
Subitamente, trombetas soam altaneiras nos portais do castelo, anunciando a chegada gloriosa do duque, esposa e filhos e preparando o espírito do rei que iria receber um dos mais ricos fidalgos de todo o reino.
No gabinete real, Filipe Augusto convoca o amigo Charles a integrar a próxima Cruzada que partiria ao Oriente para converter infiéis.
- Saudações, meu caro amigo!
Chegastes a tempo de compartilhar comigo a nossa futura conquista de Constantinopla.
Estais pronto a partir?
- A vosso inteiro dispor, Majestade!
Estou envaidecido pelo vosso convite a bem de França e dos cristãos do Ocidente.
O rei organiza outra aventura militar, a época denominada Cruzada, rumo a Terra Santa.
Enquanto aguarda a partida, Charles desfruta das benesses oferecidas pela Corte francesa.
Indiferente à família - esquecendo-se do sofrimento que vivenciou ante o desprezo de seu próprio pai - impõe aos filhos o mesmo tratamento distante que tanto o abalou na infância e adolescência.
Segue o caminho amargo do desamor.
Seu casamento foi fruto exclusivo da ganância - representando a união de duas fortunas de família - e a esposa Nadine vive distante e solitária.
Entrega-se a momentos de prazer e comete excessos de toda ordem, sem observar qualquer respeito à sua posição social ou as advertências de seus assessores.
Deixa-se influenciar pelo assédio constante de criaturas desencarnadas que desejam subjugá-lo.
Perde-se em si mesmo.
Cansada de sofrer o desprezo do marido e sentindo-se publicamente traída, Nadine resolve colocar um fim à sua situação conjugal.
- Senhor duque, acredito que necessitamos conversar.
- A vosso dispor, senhora!
- Há anos arrastamos um casamento falido na sua essência e cujo inicio foi um lamentável equivoco de nossa parte.
O senhor vai partir na próxima Cruzada do reino e, quando isso acontecer, retornarei, com nossos filhos, ao condado de meu pai.
- O senhor conde de Blois esta ciente e de acordo com vossa decisão?
- Não o consultei ainda, mas minha decisão é imutável.
Basta de sofrimento e de humilhações!
Vosso comportamento ofende a nossa honra e mancha o bom nome de meus filhos.
- Que amargor mefítico sinto em vossas palavras!
Não estais sendo um pouco radical, senhora?
- Sinto apenas não me ter separado antes.
Teria evitado muita dor a todos nós, especialmente o vexame ao qual fomos expostos na Corte.
- São apenas falsos rumores...
Entretanto, não colocarei obstáculo algum as vossas pretensões.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70274
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 26, 2015 8:01 pm

Quando retornar da viagem, acertaremos e formalizaremos o acto de separação.
- De algum modo sinto-me ligada ao senhor...
Noto em vossos olhos um brilho secular que me encantou no passado, como se já tivéssemos vivido idênticas situações...
Não importam minhas impressões!
Espero, sinceramente, que sejais feliz, senhor duque de Bogondier.
Quanto a nós, peço-vos, esquecei-nos!
Nadine reascendia em seu coração uma impressão verdadeira.
De facto, na distante França do Século VIII, como Caroline, esteve bem próxima a Charles, naquela ocasião seu pai, o conde Giscard D'Antoine.
As linhas do destino sobrepõem-se umas as outras para que haja a oportunidade de reparo entre seres endividados.
Nem sempre, porém, são aproveitadas as chances de regeneração.
Encerrando a desagradável conversa, o duque conclui altivo:
- Seja do vosso gosto, senhora duquesa!
Nunca mais voltaram a reencontrar-se nessa existência e postergaram ao futuro a recuperação dos desvios do passado.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70274
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 26, 2015 8:01 pm

CAPITULO XXIX - A CRUZADA DE 1189

Constelados em imensa planície verdejante, sob um sol orgulhoso cujo douramento reluz em cada uma das milhares de armaduras perfiladas lado a lado, estão os cavaleiros franceses que partem para os memoráveis confrontos proporcionados pelos embates religiosos, travados na Cruzada de 1189.
Galardões perfulgentes fixam suas presenças nos peitos de seus gloriosos fidalgos a espera da confirmação do triunfo a ser alcançado em Jerusalém e São João D'Acre.
Inicia-se a marcha dos vigorosos cavalos, cujas patas esmiúçam cada palmo do terreno e fornecem trajecto seguro aos cruzados, briosos que estão pelos aplausos recebidos dos concidadãos que ficam.
O destino começa a traçar uma página negra da historia da Humanidade, pois os violentos combates travados entre cristãos e povos do Oriente jamais podem ser considerados "guerras santas".
A Justiça Divina não aprova qualquer tipo de luta armada entre nações e as Cruzadas são fruto da ignorância dos homens dessa época, que tentam impor pela força das armas uma religião.
Atingindo Génova, após exaustiva viagem, os cavaleiros acampam aos pés de serpiginosa montanha.
Refazem as forças e renovam suas energias.
Enquanto isso, Charles e alguns companheiros visitam a cidade.
Subitamente, percebem a presença de um menino franzino correndo atrás dos cavalos.
- Que queres, garoto maltrapilho? - indaga o duque de Bogondier.
- Senhor, trago-vos um aviso!
- Então me conheces?!
- Sigo-vos há algum tempo.
Prometi ao meu avô que iria encontrar-vos.
- Que queres, afinal?
- Vais dar atenção a um desconhecido, Charles?
- Quero saber o que esse menino tem a dizer, Alan.
Como é o teu nome, garoto?
- Chamo-me Max. Sou de Dijon.
Gostaria de transmitir-vos um alerta para que não continueis viagem ao Oriente, senhor duque.
Deveis retornar a França e abandonar a carreira militar, a qual nunca apreciastes.
- Como sabes disso?
És, por acaso, um pequeno vidente?
Inconformado com a atenção dispensada ao menino, o duque de Valmon e Chapelle interfere novamente:
- Pelo amor de Deus, Charles!
Não vês que estas sendo objecto de gracejos de algum plebeu?
Afasta-te daqui, menino atrevido ou mando cortar-te o pescoço!
Os demais fidalgos apoiam a decisão de Alan e retiram Charles do local, deixando sozinho o rapazote.
De volta ao acampamento, o duque de Bogondier percebe que Alan, o duque de Valmon e Chapelle, não os acompanhou no regresso.
- Onde esta Alan?
Não o vejo nas redondezas...
- Ora, Charles, então não sabes que ele não deixa tarefas inacabadas para trás? - conclui um dos fidalgos, gargalhando.
- O que queres dizer com isso?
- Alan deve ter cuidado do garoto como julgou cabível ao seu atrevimento.
Desesperado, Charles parte em desabalada carreira ao centro de Génova, onde havia deixado o menino.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70274
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 26, 2015 8:02 pm

Chegando ao local, indaga aos habitantes a respeito de Max.
- Estais a procurar o garoto que há pouco falava com cavaleiros da Cruzada? - pergunta uma genovesa observadora.
- Sim, sim!
Sabeis onde posso encontrá-lo?
- Certamente!
O rapaz foi levado para aquela casa, a direita do poço existente na praça.
Sem nem mesmo agradecer, o duque dirige-se ao casebre indicado e ingressa no recinto.
Depara-se com o menino estendido em uma cama, delirando e ferido mortalmente.
- O que aconteceu?
O que fizeram com esse garoto?
- Ele foi alvejado pela espada assassina de um cavaleiro estrangeiro... - explica o dono da casa.
- Alan... - pensa Charles.
Aproximando-se do rapaz, indaga-lhe:
- Quem és afinal?
Por que me seguias?
- Senhor duque, é bom ver-vos de novo.
Como já disse, meu nome e Max.
Max de Sarcotian.
O duque estremece ao ouvir o conhecido nome de família do menino.
- Tenho muito a (tosse) contar-vos.
Meu avo era grande admirador de vossa coragem, inteligência e sensibilidade.
Orientou-vos no passado e sentia-se responsável pelo vosso sofrimento.
Sempre desejou explicar-se e não teve tempo.
Foi assassinado.
Minha mãe jurou que, um dia, iríamos, em seu nome, dar-vos essas explicações.
- Qual o nome de teu avô?
- Paul de Sarcotian...
- O velho mestre Paul!?
- Ele sempre vos apoiou em vossa decisão contra o ingresso na carreira militar.
Minha mãe dizia que ele gostaria de ver-vos abraçando as artes e a literatura.
A guerra somente vos traria sofrimento e amargor.
- É verdade!
Ele sempre falou nisso.
- Meu avo (tosse) vos considerava um filho e ficou infeliz quando foi separado bruscamente de vossa orientação.
- Ele tinha ideias estranhas...
- Vós vos referis a vida após a morte?
- Exactamente! Então já sabes disso também?
- E acredito fielmente nas palavras de vovô...
- Não é possível, essas lendas e crendices passam por gerações...
Eu pensei que somente Paul acreditasse verdadeiramente naquelas asneiras...
- Senhor duque, cumpri a minha tarefa.
Estou satisfeito! Posso partir tranquilo.
- Não, ficarás bem!
Mandarei chamar um bom médico.
- Sinto não ser mais possível continuar...
Mas não guardo rancor algum, pois sabia que estaria sujeito a qualquer agressão desse tipo ao abordar-vos.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70274
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 26, 2015 8:02 pm

- Mas eu não determinei que isso ocorresse.
- Não importa o responsável.
Não há magoa, logo, não deve haver culpado.
Em respeito a imagem de seu antigo mestre Paul de Sarcotian, Charles permanece a beira do leito de Max, acompanhando-lhe as derradeiras palavras.
Orando, o garoto cerra os olhos pela última vez.
Suas forças esgotam-se e ele desprende-se definitivamente do corpo material.
Patrícia - a esposa do general Eustáquio Alexandre Rouanet no passado - retorna a pátria espiritual, recebida fraternalmente pelo mentor Genevaldo.
- Seja bem-vinda, querida Patrícia!
Não tema! Aqui estou para ampará-la nesse momento de reintegração ao seu meio.
- Genevaldo, meu bom amigo!
Em meus sonhos estávamos sempre juntos e, agora, posso vê-lo melhor.
Graças a Deus! Sinto-me aliviada.
- Você necessita descansar.
Voltemos a Alvorada Nova.
A sua missão foi cumprida.
A dívida que Patrícia assumiu no pretérito, em face de sua traição conjugal, termina reparada pela força do amor e da perseverança.
Um clarão azulado acompanha a partida dos dois rumo a Colónia Espiritual, deixando para trás, confuso e reticente, Charles de Bogondier, ainda envolto na senda do erro, porém regenerando aos poucos os seus sentimentos.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70274
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 26, 2015 8:02 pm

CAPITULO XXX - DESTRUIÇÃO NA TERRA SANTA

Nobre e galardão, Eustáquio deixa-se conduzir pelos braços do materialismo em sua passagem pela crosta terrestre no século XII.
Dijon é o seu berço e o ducado de Bogondier o seu fardo.
Tem uma criação refinada e revestida de todos os cuidados possíveis para a perfeita formação intelectual de um fidalgo francos, embora dissociado da ética e dos valores morais.
Apesar disso, evolui gradativamente, mas ainda aprisionado pelos sentimentos menos dignos.
Sangrentos embates estilhaçam aldeias de são João D' Acre, enquanto pérfidos soldados acoimam impiedosamente os seres semivivos estendidos sob as patas lanceoladas de seus imponentes cavalos, tal qual fossem sátiros bebericando a essência de suas vidas.
Tropéis agitam as fileiras do sultanato, expondo as mazelas de um povo deseducado ainda nos preceitos cristãos, mas não menos digno e respeitável do que os inóspitos invasores, dominando e vergando o inimigo pela força da espada, enquanto proferem acintosamente justificativas divinas para tais nefandos actos.
A guerra religiosa compõe um cenário grotesco, alheio a qualquer ensinamento de Cristo, jamais aceito pela Superioridade Divina e entregue a resgates seculares, levando inúmeras criaturas a peregrinações que montam a gerações.
Os nobres de França, associados aos bravateiros ingleses, impõem fragorosa derrota ao sultão Saladino, que assina um armistício colocando fim a batalha.
Charles, um dos vitoriosos, comanda parte do exército de Filipe Augusto.
Silenciosos e envilecidos, eis que os anilados céus da Terra Santa não aplaudem o massacre.
Aproveitando-se da vitória, o duque de Bogondier resolve, por conta própria, associando-se a mercenários locais, atacar e roubar o templo de São João D'Acre.
Mirna - nefasta reencarnação de Ana da distante Cosenza do ano de 600 - auxilia Charles em seu acto criminoso.
Para tanto, a serva do templo contrata o vil Rocco, outro peregrino que cruza novamente os caminhos do duque.
Os três larápios, comandando um grupo de homens bem armados, invadem o templo e promovem o aguardado saque.
A ânsia pela riqueza fácil coloca em risco a evolução de milhares de encarnados todos os dias no orbe terrestre.
Do ouro parece emanar um clarão tenebroso e hipnótico que aos incautos cega e aos ambiciosos cala.
Em busca do metal precioso e das pedras cintilantes do poder e da gloria, os homens matam-se uns aos outros, profanam templos, saqueiam cidades, humilham nações e desferem profundo golpe nas suas próprias trajectórias de progresso.
- Homens! Atenção!
Conforme o plano traçado, cada um deverá preocupar-se com sua seção e após a realização do serviço, o ponto de encontro será o salão principal das pedras da coroa.
Ninguém contesta a autoritária Mirna e até mesmo o duque cala-se diante de figura tão prepotente.
Os ladrões recolhem o que encontram pela frente e o encontro no salão acontece minutos após.
Rocco, chefiando uma parte do grupo, chega em primeiro lugar, secundado de Charles e, finalmente, adentra no recinto Mirna, sozinha e coberta de jóias.
- Pensas que és a rainha do Nilo, Mirna? - indaga, irónico, o ferino Rocco.
- Cala-te! Ficarei com estas jóias para mim, pois o plano não teria êxito sem a minha participação.
- Não foi essa a combinação!
Não admitirei uma divisão desigual.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70274
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 26, 2015 8:02 pm

Charles observa apreensivo a discussão entre os dois e o brilho de uma estrela do alto do céu alcança uma minúscula janela, na parte superior da parede principal da sala onde estavam, penetrando no recinto e iluminando-lhes as faces.
Subitamente, como que hipnotizado, vê ressurgir a sua frente a imagem de Ana e Filipo, os dois amantes que o traíram no passado.
Assustado, o duque esfrega os olhos e torna a encará-los.
A mesma imagem lhe é mostrada.
Chocado, o nobre Francês resolve partir imediatamente, largando tudo o que amealhara para trás.
Inconformados, os mercenários passam a brigar entre si pelas riquezas, atraindo a atenção de guardas do templo que invadem o local.
Algumas jóias são levadas na fuga precipitada dos desastrados ladrões, embora a maioria dos bens permaneçam no seu lugar.
Ao deixar o local do crime, uma seta perdida atinge pelas costas o duque de Bogondier, que termina banhado em sangue e queda, inconsciente, no deserto.
A sabedoria árabe ensina que mesmo no mais solitário oásis, confiando em Ala, pode surgir a Mão Salvadora para curar as feridas e saciar a sede dos moribundos.
Socorrido por Shalek-Al-Mair, um comerciante das redondezas, conduzido a uma tenda, Charles recebe tratamento e cuidados para recuperar-se.
A família que o recebe faz orações ao seu Deus almejando o pronto restabelecimento do paciente que Ala confiou-lhes.
Os Emissários Espirituais de Alvorada Nova, servindo-se das vibrações positivas encaminhadas pelos corações sensíveis dos árabes que velam o duque, conseguem reanimá-lo e ele recobra a consciência.
- Quero agradecer-vos pelos cuidados que tiveram comigo e desejo gratificar-vos com a quantia que quiserem.
Shalek, sorridente, nega a oferta e justifica o atendimento.
- Os povos cristãos do Ocidente invadem nossas terras para nos converter ao vosso Deus e a vossa religião, embora muitos dos vossos soldados não tenham a fé que o povo árabe possui.
Recusamos vossa recompensa porque tratamos de qualquer ferido que surja em nosso caminho por um dever de solidariedade e fraternidade que os povos do deserto aprendem, desde cedo, a cultivar.
Sois um nobre e rico invasor e não deveríeis receber qualquer consideração de nossa parte.
Entretanto, sois também um ser humano e mereceis, por isso, o nosso auxílio.
- Sois bom e inteligente!
Como posso chamar-vos?
- Sou Shalek, o comerciante.
- Então não conseguistes ainda vislumbrar o bem que a Santa Igreja procura fazer ao vosso povo?
- Estais cego, cavaleiro!
Não há bem algum em destruir vilas inteiras e matar nosso povo.
Não há religião no mundo que mereça sustentar-se em tantas e inúteis mortes.
Somente a paz universal entre os povos poderá tornar o mundo em que vivemos mais fraternal.
Essa é a vontade de Ala e, creio eu, do vosso Deus também.
Calado, Charles ouve as lições de Shalek, torneadas na sabedoria das nações árabes peregrinas que habitam o deserto de São João D'Acre.
- Sou agradecido aos vossos préstimos e devo partir.
Mantenho minhas posições, mas irei reflectir a respeito do que me foi dito.
Talvez tenhais alguma razão!
- Estrangeiro, não deveis aguardar o momento de vossa morte para descobrirdes a verdade do que vos falo.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70274
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 27, 2015 8:33 pm

Tornai o vosso coração mais complacente e sede solidário ao vosso semelhante, antes que seja tarde demais para vosso cansado espírito.
Shalek fala com a autoridade de quem conhece Eustáquio há muitos anos, embora não seja menos verdade que em seu caminho acabara de cruzar um dos mensageiros de Alvorada Nova, que esta reencarnado em missão de amor nas desertas terras orientais.
Certamente inspirado por Mentores presentes, o árabe transmite a Charles exactamente a mensagem que a sua Colónia Espiritual deseja fazê-lo ouvir e compreender.
Um afectuoso abraço marca a despedida dos dois e o duque jamais esquece o amigo que lhe salvou a vida na distante São João D'Acre.
No seu percurso de volta à França, medita a respeito das palavras fraternas que ouviu de Shalek e passa a reflectir a respeito de sua própria existência, tão vazia e por vezes mesquinha e superficial.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70274
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 27, 2015 8:34 pm

CAPITULO XXXI - FINALIZANDO A JORNADA DECISIVA

A resplandecência de um gigantesco lustre de cristal preenche toda a imponente sala principal do castelo ducal de Bogondier.
Finos veludos bretões, na tonalidade do vinho de Bordeaux, cobrem a rica mobília, talhada em madeira nobre e tratada por respeitados artesãos.
Cada peça decorativa do castelo representa uma parcela da historia da França e possui valor histórico incalculável.
Reina, absoluto, entre a riqueza do ambiente um leopardo de granito, símbolo de valentia e poder da família e sustentáculo do brasão platinado do clã secular do ducado incrustado em seu peito e içado por correntes de prata.
Ao seu lado, duas lanças com as pontas de ouro seguram uma flâmula dúplice representativa dos títulos do Condado de Canterbury, herança do velho tio Heber Roithman.
No centro dessas relíquias tão valiosas, encontra-se, pensativo, absorvido pelas reminiscências, o duque de Bogondier.
Isolado do mundo, há semanas está prostrado em uma das poltronas em frente a lareira, sem qualquer contacto com o mundo exterior.
Há alguns anos não mais participa da vida leviana da Corte, nem tampouco envolve nas questões políticas do reino.
O vento agita as bandeiras aniladas e frondosas que pairam no ambiente, simbolizando as glórias de uma carreira construída ao sabor de interesses materialistas.
Tantos combates e vidas solapadas, tanta dor e a angustia do fracasso espiritual causam-lhe o temor inconsciente de enfrentar o Julgamento Divino a respeito de sua existência patética.
A depressão invade o seu âmago e recrudesce a inquietação de sua consciência.
Há dez anos havia abandonado as armas.
Charles vive de recordações, lembrando-se de sua participação activa em uma das mais importantes Cruzadas enviadas pelo Ocidente à Terra Santa.
Participara da conquista de São João D'Acre e granjeou respeito e admiração entre os soldados.
Retornou ao seu país para receber os louros de sua fama.
Invejado, descuidou-se de seus inimigos e, em pouco tempo, começa o seu declínio.
Na época em que os reis Filipe Augusto da França e João da Inglaterra disputavam terras e questões de fronteira, no século XIII, o duque de Bogondier, que também recebera em herança o condado de Canterbury, na Grã-Bretanha, resolveu apoiar as duas partes na disputa.
Delatores na Corte francesa cuidaram de intrigá-lo junto a Filipe Augusto e a amizade de muitos anos arruinou-se.
Em 1214, vencido na Batalha de Bouvines, o rei inglês perdeu o Condado de Poitou e o Ducado da Guiena, enfrentando sérios problemas internos em seu país, que o levou a capitular ante a Carta Magna, imposta pelos barões em 1215.
Nessa ocasião, cego de fúria, o barão de Windsor expulsou todos os serviçais do castelo de Charles, no condado de Canterbury, terminando por usurpar-lhe os domínios.
De nada adiantou o seu acordo com o enfraquecido rei João e nem mesmo a força do soberano Francês lhe serviu, eis que revoltado com a sua postura dupla durante a disputa.
O ostracismo bate-lhe as portas e seus amigos mais próximos não mais o procuram.
Seu nome foi esquecido pelo rei e o seu castelo em Bogondier constitui-se o único refúgio.
Aos poucos, Charles deixa-se obsedar por criaturas das trevas e termina dominado por seus algozes do passado.
Fala sozinho e passa horas vagando pela casa sem noção do tempo.
Esquece-se dos filhos e de que, um dia, teve uma vida gloriosa.
Atinge as raias da subjugação e lenta, mas gradativamente, vai cedendo aos intentos das entidades obsessoras que planejam levá-lo ao suicídio.
Colocando fim à própria vida seria arrastado as mais profundas zonas de escuridão e estaria a mercê de Espíritos cruéis, longe do amparo e da protecção de Mentores de Alvorada Nova.
Em 1216, desencarna com o estômago queimando em brasa, pela força devastadora de poderoso veneno, Eustáquio Alexandre Rouanet, desnudando-se de seus títulos e riquezas para abraçar roupagem insólita e decrépita, própria dos desavisados do destino e errantes da senda do bem.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70274
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 27, 2015 8:35 pm

CAPITULO XXXII - AS CONSEQUÊNCIAS DO SUICÍDIO

No abismo trevoso dos suicidas, uivos guturais e soturnos são ouvidos a todo instante, enquanto a variação entre calor e frio, angustiando os habitantes da região, são frequentes.
As entidades não conseguem enxergar absolutamente nenhuma luz e vivenciam uma sensação de queda constante no tempo e no espaço.
O ar parece viciado e pútrido.
Figuras horrendas e deformadas vagam pela escuridão, sem rumo e sem esperança.
Subitamente, flamejam as mais grotescas chamas de fogo que transformam o covil em uma enorme fornalha, quase sem condições de suportabilidade.
Ainda assim, permanecem as trevas e o sofrimento é inevitável.
Pouco depois, um frio congelante invade o ambiente, sem proporcionar um minuto de sossego aos seres que se acomodam em cavernas para tentar um repouso, praticamente impossível nessa região.
Infelizes criaturas esgargalham-se da própria desgraça encenando um quadro pessimista e lúgubre.
Eis a representação mais próxima do choro e do ranger dos dentes.
Nesse ambiente inamistoso encontra-se Eustáquio, dentre suicidas e dementados, vagando sem rumo pelos cantões fétidos da escuridão impiedosa das fossas umbralinas.
Regenera-se no convívio obrigatório com seres do mesmo estágio vibratório.
Sofre como nunca havia experimentado antes, porém depura pouco a pouco o seu adoentado perispírito.
Dia após dia, durante 70 longos anos, o suicida que já fora nobre e famoso expia erros graves de seu soturno passado.
Após extenso estágio nas escrobiculadas zonas abissais, Eustáquio passa a viver em um vale assemelhado a cratera de um vulcão inactivo, cercado por montanhas rochosas e sem qualquer vegetação.
Alguma luz já é possível de ser visualizada para alento de alguns e temor de outros que se acostumaram com a cegueira.
O ambiente é árido e o clima mantém-se mais constante e quente, imperando o ar rarefeito mas estável, embora desagradável.
Permanece a falta de noção a respeito do tempo e do espaço. Os Espíritos vagam num latente estado de torpor e sonolência, culminando em um mal-estar generalizado e perene.
Os suicidas aglomeram-se nessas montanhas, sem qualquer organização ou liderança.
Não há construções ou projecções mentais que simulem cidades.
Em agonia profunda, caminham na espelunca a que foram lançados pelo mau uso de seu livre-arbítrio, levado as últimas consequências.
Possuem sensações de fome e sede, tal como se estivessem encarnados, o que lhes agrava o estado de ansiedade e insatisfação.
Fisionomia doente, um pouco mais consciente, embora revoltado, Eustáquio inicia uma retrospectiva de seu passado.
Ao seu lado, passeiam, despreocupados, suicidas que se deixaram aprisionar em um invólucro perispiritual deformado e monstruoso, formando um universo dantesco.
Seu choro e sua tristeza, nessa região, constituem parte do cenário, de modo que seus lamentos não são ouvidos por nenhuma criatura.
Decorrem anos nesse processo, quando lhe surge na consciência a veia activa do remorso, iluminando-lhe algumas ideias e fragilizando o seu coração.
Continua, no entanto, sentindo-se injustiçado.
Fatigado de remordimento, ainda nutrindo mórbidos pensamentos, sente-se incapaz de alterar a sua precária situação.
Avançando em suas reflexões, percebe que já viveu iguais sensações terríveis em seu passado e conclui estar sendo castigado por actos precipitados que tenha praticado.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70274
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 27, 2015 8:37 pm

Começa a regenerar-se.
Eustáquio, decorridas sete décadas, afadigado de seus sofrimentos, refeito de parte de seus inconformismos, eleva por alguns minutos o seu pensamento aquele que, um dia, serviu-lhe de exemplo e amparo, na sua infância e adolescência em Dijon e lembra-se da figura tema e amorosa de Jesus, retratado fielmente pelos ensinamentos proveitosos de seu mestre Paul.
A prece e simples, mas sincera.
Consegue estabelecer comunicação com o mundo exterior.
Auxiliado por um grupo de orações da cidade de Lyon, que costuma reunir-se em uma velha igreja para discutir as belas lições do Evangelho, Eustáquio consegue desprender-se dos grilhões escuros do umbral.
Um caminho de luz invade as trevas do seu coração, enquanto os encarnados oram a Jesus pelas almas errantes e pelos irmãos sofredores.
Mentores de sua Cidade Espiritual obtém autorização para resgatar Eustáquio.
Ele parte, feliz, para o Posto de Socorro de Alvorada Nova.23
Num iriado ambiente, ele desperta de sono profundo e recebe, de pronto, a agradável visita de uma enfermeira.
- Eustáquio, meu bom amigo, como se sente hoje?
- Rosana?!
Há quanto tempo não a vejo?
Parecem-me somente algumas horas...
- Podemos dizer, sem chance de errar, que alguns séculos se passaram desde nosso último encontro.
Você foi resgatado em 1286.
Pela sua ficha, o caso foi grave e seu sofrimento bastante intenso.
For isso, já esta aqui connosco há cinco anos.
Somente agora houve autorização para retira-lo da câmara.
Observe que seu preparo melhorou e sua capacidade de rememorização e entendimento esta mais aguçada.
- Fico feliz por estar de volta.
Ingressa no quarto o Dr. André, médico do Posto de Socorro n.º 5.
- Eustáquio! Percebo que a presença de Rosana lhe serve de balsamo...
Vamos caminhar um pouco juntos?
Precisamos conversar.
Instalado em uma cadeira magnética flutuante, pairando a cerca de vinte centímetros do chão, Eustáquio é conduzido a uma sala e colocado de frente a imensa janela de onde pode vislumbrar todo o belo jardim do Posto.
- Há tantos anos não vejo uma obra tão magnífica da Natureza.
As flores coloridas e o verde das folhas são deslumbrantes!
Pena não darmos valor a eles quando os temos em nossas mãos.
- Lembre-se que estamos, ainda, em zona umbralina densa, embora em Posto avançado de nossa colónia.
Em Alvorada Nova, as cores são mais vivas e brilhantes e respira-se um ar mais puro e revigorante.
- É verdade!
Quando poderei seguir viagem até a cidade?
- Não há possibilidade de retorno a Colónia, Eustáquio.
Você deverá reencarnar imediatamente, partindo daqui em busca de uma nova vida, a fim de regenerar-se.
Lembre-se que seus erros foram muito graves na última existência.
- Não me sinto preparado a voltar, Dr. André.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70274
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 27, 2015 8:37 pm

Acredito que será desnecessário.
Eu não tenho mesmo jeito.
- Não fale assim, Eustáquio!
Nenhuma criatura de Deus é irremediavelmente errada.
Todos tem possibilidade de recuperação, bastando aproveitar a oportunidade que a reencarnação proporciona.
- Mas eu não consigo mudar meu comportamento.
Quando volto ao plano material sinto-me atrelado aos meus vícios de sempre.
- Calma, meu amigo!
A Sabedoria Divina nos prepara muitas vezes um cenário apropriado aos nossos reclames e auxilia-nos a errar menos.
- Como assim?
- Você voltara a carne, Eustáquio, embora desta vez longe da riqueza e do poder, suas fontes de maiores desvios.
Terá menos chance de erros e poderá exercitar melhor o seu livre-arbítrio.
*****
Alguns meses antes do reencarne, Eustáquio assiste a palestras no auditório do Posto de Socorro, tendo ao seu lado Rosana e Anita, duas enfermeiras que lhe acompanham o tratamento.
O tema do encontro e o suicídio.
Os Espíritos presentes ouvem atentos as informações que são passadas pelos orientadores.
Ao final, cada um dos participantes - todos deixaram os laços da carne colocando fim a própria vida - recebe uma minúscula caixinha de cristal, onde consta, no seu interior, a anotação do tempo que faltava na Crosta para o desencarne natural que foi frustrado pelo suicídio.
Atónito, Eustáquio constata que, em seu caso, faltavam-lhe oito meses para deixar o plano material.
Chora e é amparado por Anita, deixando o auditório.
Recorda-se do imenso sofrimento que viveu no umbral e promete a si mesmo jamais retornar aquela situação angustiante em zonas trevosas.
Sente-se cada vez mais preparado a deixar o plano espiritual, abraçando a trajectória que o aguarda.
Em 1291, revigorado espiritualmente, reencarna cônscio da responsabilidade de estar iniciando uma reencarnação-altemativa.

23 - Nota do autor material: a par dos resgates directos que se fazem actualmente nas reuniões espíritas em todo o Globo - de forma ostensiva e por intermédia do mecanismo da incorporação - existem os resgates indirectos que ocorrem, por vezes, com o apoio das preces e vibrações sinceras que se possa dirigir ao Alto, em qualquer culto, e que representam um dos importantes aspectos de interacção entre os dois planos da vida.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70274
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 27, 2015 8:37 pm

CAPITULO XXXIII - REDIMINDO O SEU PASSADO

Uma jovem franzina com quatorze anos de idade, corpo esquálido e pernas delgadas, rosto moreno e abatido pelos intensos raios do sol de São João D'Acre, trajando roupas esfarrapadas e sujas, ajeita seus cabelos ralos e negros, enquanto caminha pelas margens de um riacho, soltando suspiros e lacrimejando vez ou outra ao constatar tanta miséria e sofrimento.
Seguindo o curso das águas, aproxima-se da cidade onde deveria encontrar-se com seu pai, um vendedor ambulante, ladrão e mau carácter, que tem o hábito perverso de tentar seduzir a própria filha.
Eustáquio, agora vivendo no corpo material da menina Adila, vive uma peregrinação de resgates, que vai de encontro aos males causados no pretérito contra muitos habitantes da cidade de São João D'Acre.
Sente-se injustiçada pelo destino; aliás, um sentimento comum a maioria dos encarnados que não estão ainda aptos a suportar, com resignação, a trajectória que lhes foi traçada com sabedoria pelo Plano Superior.
Em busca do pai, atravessa os corredores estreitos do centro urbano e percebe, atrás de si, um tropel de cavalos despontando no horizonte.
Inicia-se uma gritaria desesperada e as famílias recolhem seus filhos, pois os mercenários do deserto avançam pela cidade.
Aterrorizada, Adila busca esconder-se dentro de enormes vasos de uma barraca do mercado, mas já fora vista por um dos cavaleiros.
O turco, arremessando a espada contra o seu esconderijo, espatifa o vaso e leva consigo a menina, debruçada na garupa do cavalo.
Abandonam rapidamente a urbe saqueada e rumam ao deserto para contar as riquezas que conseguiram roubar.
A noite, em volta de uma fogueira, os ladrões reúnem-se, apresentando ao patriarca e líder do grupo, Khalik, os valores amealhados.
Em especial, os três irmãos, Nabul, Abdul e Chakar dividem o espólio do saque e disputam a garota Adila, agora transformada em escrava.
O vencedor passaria com ela a noite.
- Eu fui o melhor saqueador da cidade!
Cabe a mim o direito de escolha.
- Cala-te, Abdul.
Nosso pai, o sábio Khalik, saberá enxergar nas riquezas e nas jóias que eu trouxe o melhor triunfo da missão.
A mim, cabe ficar com a menina.
- Nem Nabul, nem Abdul!
Eu trouxe a maior parte dos alimentos e das peças que guarnecem a vossa riqueza, meu pai.
Enquanto o velho turco observa a disputa dos três filhos, a menina Adila, apavorada, conta os minutos em que será entregue a um dos mercenários.
Abdul vence a contenda e segue com a moça para sua tenda.
Estuprada pelo raptor, Adila nem mesmo consegue gritar, tamanho e o ódio que penetra em seu coração.
Estirada no leito, perde os sentidos.
Horas mais tarde, serve-se dela o segundo dos irmãos, Nabul.
A violência dos sedutores provoca-lhe ferimentos em todo o corpo.
Desmaiada, quase ao amanhecer, e recolhida nos braços por Chakar, que decide não violentá-la.
Penalizado ante a brutalidade dos irmãos, o mais jovem dos turcos leva de volta a garota à cidade, abandonando-a numa viela do centro.
Meses mais tarde, ela percebe ter engravidado, vítima do estupro que sofreu.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70274
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 27, 2015 8:37 pm

Enlouquecida, busca apoio familiar, mas somente encontra desprezo e agressões por parte do progenitor viúvo e rancoroso.
Os irmãos a castigam, isolando-a, pois não acreditam na versão do rapto.
Assim decorre a gestação.
Sozinha, nas margens de um dos mais belos rios da região, enquanto cuida de seus afazeres domésticos, sente contracções violentas e desmaia.
Torna a si momentos depois e percebe já estar em processo de parto.
Atónita e aflita, coloca-se de cócoras e pressiona o ventre com suas mãos.
Recebendo o auxílio da Natureza Divina, minutos depois coloca-se a seus pés um menino choroso com olhos esgazeados, que necessita dos cuidados matemos.
Tomando-o aos braços, Adila sente-se, pela primeira vez em sua vida, feliz.
Em sua casa, no entanto, todos a repudiam e maltratam seu filho, quase levando-a a loucura.
Agredida e ofendida, a menina não resiste e termina doando a criança a um comerciante de São João D'Acre.
Sufocada dentro do lar, Adila é assediada sexualmente pelo próprio pai aos dezoito anos.
Refutando-o, desperta a ira no progenitor, que termina vendendo-a a mercadores de escravos.
Aprisionada e metida em grilhões, a moça vaga, por vários anos, sem rumo definido.
Passando por inúmeros proprietários, acaba na residência de um casal de tecelões, cuja mulher, Mariala, tem um grande carinho pela recém-adquirida escrava.
Seus anos começam a melhorar.
- Não deves guardar tanto rancor em teu coração, Adila.
Ao teu lado está o Espírito do Bem, que cuidara de proteger-te os passos.
É melhor perdoar aqueles que te fizeram algum mal do que por eles sentir ódio.
A raiva angustia e sufoca o coração.
- Senhora, sois boa para mim.
Entretanto, pouco me resta nesta vida a não ser o ódio que meu coração guarda, perene e imortal.
Sinto-me protegida unicamente por meu rancor.
Não consigo ter outra ideia para o meu destino.
- Estás errada, minha filha!
Amar os nossos semelhantes é a melhor lição que podemos auferir dos livros sagrados do Islão.
Meu espírito está sempre preparado à sofrer injustiças porque acredito que esta vida é passageira.
Um dia, haveremos de nos libertar.
- Falais como se fosseis escrava como eu.
Nada é pior que uma vida reclusa e humilhante como a minha.
- Já cuidei disso, Adila.
Meu marido a libertará dentro de pouco tempo.
Poderás seguir o rumo que quiseres.
- Sois muito bondosa comigo, senhora.
Jamais poderei agradecer-vos.
Cumprida a promessa, a moça percebe que, mesmo sem as correntes da escravidão, o melhor para sua vida e permanecer ao lado da patroa Mariala.
Somente quando sua ama morre, deixando-a sem o carinhoso amparo de fraternas palavras, ela resolve partir de São João D'Acre e vai fixar residência em Jerusalém.
Íngreme promontório serve de paisagem permanente a uma vila nos arredores da cidade.
Repleta de culpas a expiar e feridas a cicatrizar, Adila acomoda-se em uma pequena choupana, construindo ali uma vida solitária e amarga e ajudando as famílias da região nas pequenas tarefas do lar.
Os tapetes que aprendeu a fazer com Mariala constituem a renda que lhe permite sobreviver.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70274
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 27, 2015 8:37 pm

Com vinte e nove anos, marcada pelo ódio, ela rejeita qualquer tipo de relacionamento amoroso.
Arrastam-se os anos lenta e vagarosamente como se a vida fosse intemporal.
O coração lhe determina uma reacção cotidiana contra a languidez dos seus sentimentos, embora sua força de vontade esteja praticamente reduzida a zero.
Percebe a cada alvorecer a falta que seu filho lhe faz e arrepende-se de tê-lo entregue, ainda bebé, a estranhos.
O único consolo de seu espírito é relembrar os bons momentos com a ama Mariala, que lhe passou boas e optimistas mensagens a respeito da vida.
Maturada, passa a preencher seu tempo com pequenos auxílios aos vizinhos, cuidando de seus filhos quando saem para viagens ou a trabalho.
Amalgamada com a dor, no entanto, não se torna boa companhia as crianças, apesar de tentar ser agradável e dedicada.
Aos quarenta e dois anos, enferma e permanentemente solitária, ela parte de Jerusalém para o mundo espiritual, deixando atrás de si uma vida inteira de expiações.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70274
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 27, 2015 8:38 pm

CAPITULO XXXIV - EM TRANSIÇÃO

Descansa Eustáquio, ainda na forma perispiritual de Adila, em câmaras de rectificação do Posto de Socorro nº. 5.
Ante seu estado de revolta e inconsciência, alcançados ao longo de sua derradeira existência material, sente-se melhor em manter esse corpo, usando a força de sua mente para moldar o perispírito.
Vivencia um estágio determinado pela Coordenadoria Geral e a nova programação de reencarne começa a ser tragada independentemente de sua vontade.
Interferindo por ele, ingressa no Prédio Central seu mentor Genevaldo.
- Agamémnon, nosso querido líder!
Venho à sua presença a fim de conseguir autorização para encaminhar o caso de Eustáquio à Unidade da Divina Elevação.
Conversei com os nossos companheiros do Departamento de Reencarnação e eles também opinaram pela consulta.
Afinal, sua última passagem pela Crosta, apesar de tantas expiações, teve poucos êxitos no seu progresso espiritual.
- Você tem razão, Genevaldo.
Como encarregado que é do acompanhamento do irmão Eustáquio, deve buscar todo o auxílio possível para bem orientá-lo nessa Jornada tão importante para sua evolução.
Além do mais, nós iríamos, de facto, consultar a Unidade e, em face de seu pedido, abreviaremos esse tempo.
Cada programação de reencarne recebe a orientação final da Unidade da Divina Elevação e Alvorada Nova, através do seu Departamento de Reencarnação, segue sempre os Desígnios Superiores.
Quando o Espírito esta preparado a escolher o caminho que pretende trilhar, participa desse processo selectivo e, exercitando o seu livre-arbítrio, adopta um trajecto que irá desenvolver na crosta terrestre.
Nem sempre poderá fazê-lo e, como acontece agora com Eustáquio, recebe uma programação determinada pelo Alto, retornando a carne para cumpri-la.
A consulta realizada aos Emissários do Plano Maior, através da Unidade da Divina Elevação indica uma reencarnação-preparatória, pois Eustáquio já teria condições de, em futuro não distante, voltar a vivenciar uma reencarnação-chave.
- Agamémnon, estou de volta!
Houve resposta ao nosso questionamento.
Eustáquio retornará ainda em corpo feminino e novamente em precária situação financeira.
Constituirá família no Sul da Itália e deverá receber como filhos os seus algozes do passado.
Estaremos a postos para ampará-lo naquilo que ele necessitar.
- Que o desejo do Alto seja cumprido à risca!
Cuidaremos de tudo.
Solicite ao Dr. Euclides que prepare a desincompatibilização de Eustáquio das câmaras de sono profundo.
Iniciemos o processo de reencarnação.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70274
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 27, 2015 8:38 pm

CAPÍTULO XXXV - REEDUCANDO-SE

Em 1339, Eustáquio retorna ao plano material.
A menina Mirandela nasce em conturbado lar, na cidade de Palermo, na Sicília, sul da Itália.
É a sétima dos filhos de um casal grosseiro e materialista, embora miserável.
Ríspidos no tratamento mútuo, seus pais Francesco e Cármen não se entendem e descarregam nas crianças a ira e a cólera que um possui contra o outro.
Ainda em fase de amamentação, Mirandela já vivencia as brigas entre os dois, assistindo a tudo silente, no colo de sua mãe.
O carinho e o amor são sentimentos raros na família e somente Eunice, a irmã mais velha, consegue a todos distribuir um sorriso permanente, acalentando o coração dos pequenos irmãos.
Os anos transcorrem corrediços e Mirandela logo se transforma em uma adolescente sagaz e dona de uma beleza crisálida, que ainda esta por desabrochar.
Escravizada pelo autoritarismo dos pais, ela trabalha incessantemente na lavoura, mas conforma-se tendo por exemplo a dedicada Eunice que ainda encontra tempo de vivenciar uma religião e agradar os progenitores.
- Papai e mamãe ficarão contentes hoje.
Consigamos colher tudo o que prometemos.
Estou muito feliz, pois ainda terei tempo de ir a missa.
Vais comigo, Mirandela?
- Ora, Eunice, és mesmo uma santa!
Depois de tanto trabalho eu quero ir mesmo e para a cama.
Para que rezar?
O padre António não conseguira aplacar-lhe o cansaço.
- Só estou fisicamente exausta, minha Irma!
Espiritualmente, enfrento qualquer trabalho.
- E existe alguma diferença?
- É claro, Mirandela!
O corpo independe da alma.
Quando morremos, o nosso espírito liberta-se e jamais se cansa.
Esta altivo e belo, pronto a ir ao Reino de Deus.
- Tu és boa, Eunice!
Acreditas mesmo nos sermões do padre.
Melhor assim...
Não sofres com a nossa miséria e com o nosso sofrimento.
- Sofrimento não deveria existir.
Nossa vida aqui é passageira.
Estamos apenas construindo o nosso futuro.
Eu me sinto muito feliz em tê-la como irmã e não sinto raiva de nossos pais.
Eles fazem o que podem por nós.
- Bobagem! Eles são preguiçosos e tiveram filhos somente para nos escravizar.
- Não digas isso! Deus castiga!
Devemos respeitar e honrar os nosso progenitores.
Mas, Mirandela, peço-te outra vez, vamos a missa?
- Não posso mesmo negar-te nada.
Esta bem! Eu vou.
O seu aprendizado com a irmã mais velha e experiente guarda momentos de profundo respeito e desprendimento.
Ambas convivem juntas muito tempo e cuidam dos outros cinco varões da família desagregada.
Cada vez mais ligada a Igreja local, Eunice dedica-se também a caridade com os habitantes da região, deixando sua família nos momentos em que esta descansa.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70274
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Eustáquio: XV Séculos de uma trajectória - Cairbar Schutel / Abel Glaser

Mensagem  Conteúdo patrocinado


Conteúdo patrocinado


Voltar ao Topo Ir em baixo

Página 4 de 8 Anterior  1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Voltar ao Topo

- Tópicos similares

 
Permissão deste fórum:
Você não pode responder aos tópicos neste fórum