Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

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Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 23, 2015 9:59 am

Jurema das Matas
Mónica de Castro

Espírito Leonel

Meu amor pela literatura existe desde os meus tempos de menina.
Sempre gostei de ler e escrever, em verso e prosa, e foi nos poemas de Manuel Bandeira que lapidei ainda mais a sensibilidade da minha alma.
Gostava de escrever poemas, contos, textos diversos, e cheguei a ganhar um concurso de poesia aos treze anos, aqui na cidade do Rio de Janeiro, onde nasci, em 1962.
Ao mesmo tempo, minha mediunidade despertou, e adoptei o espiritismo como bálsamo do meu coração.
Meu desejo sempre foi o de ser escritora.
Mas a vida nos leva por caminhos diferentes, sempre em nosso benefício, e acabei me formando em Direito e passando num concurso para o Ministério Público do Trabalho.
Anos depois, após o nascimento do meu filho, senti a primeira inspiração.
Foi uma coisa estranha.
Uma voz ficava na minha cabeça, repetindo esse nome:
Rosali, e a ideia de fazer um romance brotou na mesma hora.
Rejeitei a ideia e pensei:
"Quem sou eu para escrever um romance?".
Por outro lado, a mesma voz também me dizia:
"Não custa nada tentar.
O máximo que pode acontecer é não dar em nada".
Aceitei a sugestão do invisível, acreditando ser o meu pensamento, e fui sentar-me ao computador.
Na mesma hora, a inspiração para Uma História de Ontem surgiu espontânea, e fui escrevendo, cada dia um pouquinho.
Até então, eu não sabia que estava psicografando.
Foi só quando terminei o romance que recebi a psicografia do Leonel, que abre o meu primeiro livro, e nele se apresenta, dando o seu nome.
Mas foi preciso uma boa dose de desprendimento para escrever, sem questionar e aceitar a interferência do espírito.
Hoje, posso dizer, Leonel é parte fundamental da minha vida.
Não escrevo para viver.
Escrevo porque gosto e porque acredito estar levando algum bem para as pessoas.
E é esse sentimento que me faz querer escrever cada vez mais.
É pelas pessoas que vale a pena escrever.
Pelos leitores, que estão em busca de algo, além do aqui e agora, e que acreditam no poder da fé, do auto-conhecimento e do amor, como caminhos seguros para a transformação do Ser.
Acredito que nós todos podemos trabalhar pelo aperfeiçoamento moral da humanidade para construir um mundo melhor.
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Ave sem Ninho

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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 23, 2015 10:00 am

Leonel

Leonel é um espírito muito querido do meu coração.
Já em nosso primeiro romance, ele me deu uma ideia do que teria sido em sua vida passada: escritor.
Sei que nasceu e viveu na Inglaterra, em sua última encarnação, assim como nas anteriores.
Em Segredos da Alma, ele narra um pouquinho da sua história, juntamente com a da mulher que foi o grande amor da sua vida.
Não foi um escritor dos mais famosos.
Era um boémio, mas alguém com tanta dignidade que logo despertou para os verdadeiros valores do espírito, e hoje está em condições de transmitir mensagens de optimismo e amorosidade.
Eu mesma percebi isso no contacto quase diário com ele e nas comunicações que transmite, sempre de forma mental.
Há algum tempo, ele me permitiu conhecer sua aparência.
Leonel mostrou-se para mim na casa espírita, em um momento de profundo recolhimento e reflexão.
Fisicamente, é um rapaz bonito.
Cabelos negros, cheios, com feições delicadas e olhos azuis.
Estatura mediana, magro, veio vestido com calça e bata brancas, descalço e com ar tranquilo.
Tinha um rosto tão sereno, que me contagiou.
Ali, ele me disse coisas que modificaram para sempre o meu modo de encarar certos aspectos da vida.
Sua proposta é a do crescimento e da disseminação do amor.
É para isso que trabalha, é nisso que acredita e me faz também acreditar.
Sem a esperança e a certeza na consolidação do amor, a vida não tem razão de ser.
E o instrumento que ele encontrou para a realização desse propósito, no momento, foi a psicografia.
Assim como eu, Leonel escreve por amor a si mesmo e ao próximo.
Considero Leonel mais um batalhador do invisível.
Um espírito com enorme sabedoria e inigualável capacidade de amar.
Um ser em evolução que conhece o caminho para o crescimento e sabe onde está a fonte do discernimento e da moral.
Uma alma que cresce por meio do esforço próprio, do reconhecimento de suas imperfeições e da busca incessante do domínio sobre si mesmo.
E é nisso, acima de tudo, que reside o seu valor.

Falando sobre o passado...
Não sei dizer se é doloroso relembrar tantos acontecimentos que se perderam na poeira dos tempos...
Os anos se passaram e eu me modifiquei, tentando remodelar a imagem austera, arrogante e orgulhosa que, durante tantos séculos, ficou grafada em mim.
Hoje faço parte de uma nova vida.
Não daquela à qual os homens se acostumaram por ilusão, mas à real existência dos seres imortais que habitam os muitos espaços acima deste pequenino mundo que é a Terra.
Gosto de viver em espírito, assim como gostei de ter um corpo de carne e desfrutar os prazeres e vícios que me satisfaziam as paixões e o ego.
Agora, porém, tudo isso passou.
As marcas da desilusão serviram para tornar confiante e segura a manifestação da minha vontade.
Tento crescer e levar comigo tantos quantos possam me acompanhar.
Mas a visão estreita do mundo ainda faz com que os olhos do homem permaneçam fechados, mesmo quando a luz da verdade desponta diante dele, quase a ofuscar-lhe a mente nebulosa.
Não foi fácil acertar o ritmo dos pensamentos para trazer esta história.
No entanto, ela está aqui e é real, em cada uma das existências em que experimentei a sensação da matéria densa.
Os ensinamentos foram muitos e enriqueceram minha alma de uma forma que não poderia descrever.
Quanta gratidão tenho a Deus pela chance de enxergar dentro de minha mais profunda essência e buscar, em mim mesma, o caminho da redenção.
A dor foi necessária e me ajudou, porque eu ainda não havia compreendido o poder transformador e curativo do amor.
A vida só vale a pena se for vivida pelo amor ou em busca do amor.
Fora disso, tudo é ilusão e há de ficar para trás nas sombras das encarnações.
A inteligência é um atributo divino e, se exercida com amor, transcende os limites da razão mesquinha e adentra, límpida e serena, o mais alto plano que a alma humana pode tocar.
Por todos nós, que ainda estamos presos às tramas desse mundo de sonhos, é que resolvi contar a minha história...
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 23, 2015 10:00 am

Capítulo 1

Chovia torrencialmente quando Alejandro Velásquez deixou a taverna, ainda sentindo os efeitos estonteantes do rum e da mulher que o inebriara na cama.
Foi caminhando, cambaleante, tentando recordar-se do local em que havia deixado o cavalo.
Como a memória lhe falhava, sacudiu os ombros e cuspiu no chão, tomando o caminho da rua à direita, e seguiu chutando as poças e espargindo água por todo lado.
Era madrugada, e não havia ninguém na rua.
Um cão encharcado se aproximou, e Alejandro lhe teria dado um pontapé, não fosse o bichinho mais rápido e fugisse assustado, alertado pelo instinto de que não estava diante de uma pessoa amiga.
- Idiota — rosnou o homem, tentando equilibrar-se e seguir avante.
Quando chegou em casa, o dia estava prestes a raiar, e ele abriu a porta com estrondo, atirando-se na primeira poltrona que viu pela frente.
Ali mesmo adormeceu, até que foi despertado algumas horas depois pelo murmurinho da criada, ocupada em limpar a sala enquanto cantarolava uma cantiga da moda.
- Pare com esse barulho infernal! -— esbracejou ele, assustando a moça, que deixou cair a bandeja de prata que segurava.
- Senhor! -— redarguiu ela, cabeça baixa e voz humilde.
—Não sabia que estava aí.
Ele não respondeu.
Levantou-se, coçando o queixo, e passou por ela sonolento, não sem antes lhe beliscar as nádegas e dar uma gargalhada irónica.
Apesar da contrariedade, a moça nada fez e se encolheu para lhe dar passagem.
- Onde está a minha mulher? — perguntou, ainda sustentando no canto da boca aquele sorriso maroto.
- Está dormindo.
Alejandro não disse nada e saiu.
No quarto, a esposa dormia placidamente, e ele parou para fitá-la por uns instantes.
Era linda e lhe pertencia, por mais que ela não gostasse disso.
Com gestos bruscos e desajeitados, sentou-se na cama ao seu lado e alisou os seus cabelos.
Rosa abriu os olhos contrariada e fixou-os no marido, esforçando-se para conter o repúdio e não o mandar embora.
- Não o vi chegar -— foi o que conseguiu dizer em sua mal disfarçada repulsa.
- Não quis acordá-la, minha querida.
Você dormia feito um anjo dos céus.
Rosa sabia que era mentira, que ele havia passado a noite fora na companhia de mulheres de reputação duvidosa e de bebida farta, porém, não disse nada.
Tinha vontade de xingá-lo e depois fugir correndo dali, mas não podia.
O pai a forçara àquele casamento sem amor em troca de um nome que lhe salvasse a honra.
Parecia que fora há muito tempo que se apaixonara por um artesão de sapatos, dono de uma oficina próxima à casa em que viviam, ainda na Espanha.
De uma hora para outra, Rosa dera para fazer constantes visitas ao artesão, encomendando-lhe mais sapatos do que tinha ocasiões para usar.
O pai, desconfiado, acompanhou-a em uma dessas visitas e logo percebeu um brilho diferente na troca de olhares entre os dois.
Naquele momento, julgava tratar-se de uma paixão inocente e platónica, mas, ainda assim, proibiu a filha de ver o rapaz.
Auxiliada por uma criada, Rosa passou a receber o moço em seu quarto todas as noites.
O pai, a princípio, julgou que a obediente Rosa houvesse esquecido o artesão.
Contudo, com o passar dos dias, notou que ela vivia com o olhar sonhador, sorrindo sem motivo e prestando pouca atenção aos jovens que a cortejavam.
Foi quando o pai descobriu tudo.
Furioso, teria matado o rapaz, mas este, mais rápido, fugiu espavorido pela sacada e nunca mais foi visto.
A tristeza de Rosa só não foi maior do que o desgosto do pai, que viu, de uma hora para outra, sua reputação esvair-se nos lençóis manchados do pecado da filha.
Ele já estava decidido a mandá-la para um convento quando conheceu Alejandro.
Acontecera na taverna de sempre.
Alejandro, abraçado a Giselle, a proprietária, sua amiga, e por vezes amante, falava com os companheiros sobre um lugar chamado Castilla de Oro(1), colónia da Espanha nas recém-descobertas terras de além-mar, para onde pretendia ir assim que surgisse uma oportunidade.
A novidade chamou a atenção do pai de Rosa e, em poucos minutos, estava negociado o casamento da moça.
Alejandro lhe daria um nome em troca de dinheiro para a viagem e as primeiras despesas.
Na véspera do casamento marcado às pressas, Alejandro repartia com Giselle a excitação que o dominava ante a perspectiva da viagem.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 23, 2015 10:00 am

- Acho que o que você está fazendo é uma loucura!
Deixar o mundo civilizado por uma terra de selvagens?
Francamente!
- É lá que está o ouro, Giselle.
Vou voltar rico!
- Conversa!
Aposto que não tem nada lá além de mato e mosquitos.
Sem falar nos índios que comem gente.
Você vai se arrepender.
Ele se movimentou na cama e a abraçou:
- Por que não vem comigo?
Poderia ser minha amante.
- Deus me livre!
Já tenho amantes suficientes aqui mesmo, na Espanha.
E, depois, não nasci para essa vida de aventuras.
Além do mais — ela aproximou a boca dos lábios dele e sussurrou baixinho -, estou apaixonada, de verdade.
- Sei. Por aquele velhote?
- Aquele velhote tem sido muito bom para mim, mas não, não estou apaixonada por ele.
Conheci um homem de verdade.
- Alejandro suspirou e ficou olhando-a.
Gostava de Giselle.
Eles eram amigos de longa data e, por vezes, dividiam a mesma cama.
Giselle, no entanto, não era mulher de se prender a ninguém e estava envolvida com gente importante.
- Você é quem sabe — lamentou ele.
Mas vou sentir a sua falta.
Eu também — ela se desenvencilhou dele e foi apanhar a taça de vinho.
No fundo, você é como eu, Alejandro: livre e ambicioso.
Estamos ambos em busca de uma vida de luxos.
Não estou certo?
Exactamente — concordou ela, levantando a taça em um brinde solitário.
Ele soltou novo suspiro e acrescentou em tom nostálgico:
- Reluto em deixá-la, mas já é hora de partir.
Caso-me amanhã e, no outro dia, parto com minha doce esposa para Castilla de Oro.
Sua doce esposa já experimentou o fel da desgraça — desdenhou ela.
Não vai ser fácil manter sob as rédeas uma mulher assim.
Olhe só quem fala!
Até parece que você é algum exemplo de doçura.
É por isso mesmo que estou lhe avisando.
Uma mulher conhece a outra.
Sua Rosa é uma mulher experiente e apaixonada por outro homem.
Aceitou esse casamento por imposição paterna.
Ou você acredita mesmo que ela se apaixonou por você?
— Sei que não.
Digamos que foi uma troca de interesses.
Dinheiro por honra.
É um preço justo.
— E a fidelidade?
Faz parte do negócio?
— Você está certa de que ela vai me trair, não está?
- Ela não o ama e, na primeira oportunidade, vai cair nos braços de outro.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 23, 2015 10:00 am

— Pois lhe garanto que isso não vai acontecer.
Se Rosa é uma mulher fogosa, eu mesmo posso lhe oferecer o fogo de que necessita.
E ela vai se dobrar a mim.
Estarei sempre de olho nela.
— Bem, espero que se lembre do que lhe falei e não se surpreenda quando a encontrar na cama de outro.
— Lamento decepcioná-la, mas sei dobrar uma mulher.
Rosa me será fiel, você verá.
— Infelizmente, meu caro, não verei.
Você parte para o desconhecido, e eu terminarei meus dias aqui, no sossego de Sevilha.
Escreverei para você e contarei o quanto Rosa é dedicada a mim.
Só para deixá-la morta de inveja.
Duvido que o seu padreco seja fiel a você.
— Ele não me interessa mais como homem.
Já disse que estou apaixonada por outro, e sua fidelidade é inquestionável.
É louco por mim.
— Será? Que homem é fiel se não está morto?
Ela atirou a taça em cima dele, errando o alvo, e riu gostosamente.
Alejandro puxou-a para junto de si e beijou-a, deitando-se sobre ela na cama.
Aquela seria a última vez que faria amor com Giselle e na Espanha.
Pensar nisso causou-lhe certo arrepio.
Será que nunca mais tornaria a ver a amante nem sua terra natal?
E foi assim que Rosa se viu forçada àquele casamento arranjado às pressas, com um homem a quem repudiava e em cuja companhia foi enviada para o exílio.
Em Castilla de Oro, a vida não transcorreu conforme o esperado.
O sonho de riqueza se perdeu na ausência de ouro, e a vida permanecia estagnada na monotonia.
Naquela terra estranha e sem muitas possibilidades, não havia ocupação para homens feito Alejandro, que acabou por obter permissão para se mudar para Cuba, junto com mais uma centena de espanhóis.
Sem escolha, Rosa partiu com ele.
Tudo isso agora era passado.
A vida em Cuba se revelara bem mais agitada, o que não serviu para diminuir a aversão de Rosa por Alejandro.
Ele era um homem rude e mal-educado, bebia em excesso e fazia sexo como um animal.
Quase não lhe dirigia a palavra, a não ser para mandar e exigir obediência.
Assim, foi com a usual repugnância que Rosa o sentiu aproximar-se, espargindo sobre ela aquele hálito repulsivo de bebida e suor.
Rosa puxou o lençol alvo sobre a camisola de linho e virou o rosto, enojada, enquanto Alejandro a puxava pelo queixo para um beijo.
No auge da repugnância, avistou um pequenino pedaço de pergaminho sobre o aparador da lareira, dando graças aos céus pela salvação.
- Chegou uma mensagem para você. -— conseguiu articular.
— Que mensagem?
Com um aceno de cabeça, Rosa indicou o pergaminho, e Alejandro a soltou com um suspiro.
Apanhou-o e rompeu o lacre.
Desdobrou-o, e seus olhos foram percorrendo a escrita desenhada até chegar ao fim.
Leu e releu a mensagem umas três vezes, e Rosa ficou olhando-o, ansiosa para que ele lhe dissesse do que se tratava.
- Alguma coisa importante? -— perguntou, tentando aparentar gentileza.
— Um convite. Para uma viagem.
- Viagem? Para onde?
- Outras ilhas.
Rosa levou a mão ao peito e conteve um suspiro.
— A mando de Bernal Diaz de Castilho(2).
- Por quê?
— Parece que o governador acatou nosso pedido.
Vamos partir em busca de índios.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 23, 2015 10:01 am

Rosa não disse nada, mas, em seu íntimo, exultava.
Que Alejandro fosse mandado para longe era o que ela mais queria.
No dia seguinte, ele atendeu ao chamado de Bernal e ficou sabendo que uma expedição seria montada, sob o comando de Francisco Hernández de Córdova(3), a fim de capturar índios para o trabalho nas fazendas e na mineração.
Seria a chance dele de adquirir escravos e estabelecer-se como fazendeiro.
No caminho de volta para casa, ouviu uma voz familiar atrás de si.
Ao se voltar, avistou Lúcio, seu amigo desde o dia em que chegara a Cuba, e foi ao seu encontro.
— Lúcio, meu amigo! -— alegrou-se.
— Há quanto tempo!
Lúcio estendeu-lhe a mão e apertou a de Alejandro, sorrindo, ao mesmo tempo que dizia:
— Soube que vocês conseguiram a expedição.
Era o que você queria, não era?
— Há muito tempo.
Já não aguento mais esta falta de acção e aventura.
E vou precisar de escravos se quiser realmente me transformar em fazendeiro.
O dinheiro que meu sogro envia é suficiente para comprar a fazenda, mas, sem escravos, é quase impossível fazer algo.
- É verdade.
E não há muitos disponíveis, há?
- Quem tem não quer vender.
Eu também não venderia.
— Quem vai liderar a expedição?
— Um fidalgo chamado Francisco Hernández de Córdova.
- Já ouvi falar.
Dizem que é muito rico e possui um povoado de índios aqui mesmo, em Cuba.
— Pois é esse homem que será o nosso capitão.
— Espero que a missão seja bem-sucedida, e que os índios não sejam selvagens.
— Não há selvajaria que resista ao estrondo de um mosquete.
Vamos domá-los, você vai ver.
— Pena que não poderei acompanhá-los.
Tenho assuntos urgentes a tratar por aqui.
— É mesmo uma pena.
Gostaria que pudéssemos ter uma aventura juntos.
Oportunidades não hão de faltar, meu amigo.
— Já que vai ficar, poderia me prestar um grande favor?
— É claro! O que pedir.
Alejandro se aproximou ainda mais de Lúcio e falou baixinho:
— Você se lembra da história que lhe contei de Rosa, não lembra? -— Lúcio assentiu.
— Isso me deixa preocupado.
— Por quê?
— Rosa já era uma mulher experiente quando me casei com ela.
Nunca se importou com reputação, ou honra, ou castidade.
— Você descobriu alguma coisa sobre ela? -— horrorizou-se o amigo.
— Não é isso.
Tenho certeza de que ela é fiel, mas porque eu estou aqui para satisfazê-la.
Agora eu pergunto:
o que fará uma mulher fogosa feito ela sem um marido para esquentar-lhe a cama?
- Você está exagerando.
Rosa não me parece esse tipo de mulher.
— Ela nunca ficou sozinha.
Sempre estive de olho Tela.
É melhor não facilitar.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 23, 2015 10:01 am

— E você quer que eu tome conta dela?
 — Na minha ausência, sim.
Seria um grande favor, de amigo para amigo.
Está certo -— concordou Lúcio com um suspiro.
— Acho desnecessário, mas, se você insiste...
 - Eu insisto.
Sei que é um pedido um tanto fora do comum, mas só posso confiar em você.
 — Fique tranquilo.
Rosa estará bem guardada.
 — Obrigado, amigo.
Ah! E não deixe que ela perceba, ou, mais tarde, há de voltar-se contra mim.
 — Não se preocupe.
Ela não perceberá que a estou vigiando.
 A conversa estava quase terminada quando um homem se aproximou.
Era jovem e musculoso, e cumprimentou Lúcio como se já o conhecesse de muito tempo.
 — Quero apresentá-lo a meu sobrinho, recém-chegado da Espanha -— disse Lúcio para Alejandro, segurando o ombro do rapaz.
Este é Soriano e vai viajar com você.
 — Muito prazer, Soriano.
E seja bem-vindo.
Espero que possamos ser amigos.
 — Bem, aí vai então uma troca de favores -— tornou Lúcio.
 - Já que vou tomar conta de Rosa para você, será que se importaria de dar uma olhada em Soriano para mim?
O rapaz é jovem e inexperiente.
 Alejandro lançou um olhar para Soriano e revidou sorrindo:
 - Com tantos músculos, talvez seja melhor ele tomar conta de mim.
 - Nada me daria maior prazer, senhor -— falou o rapaz, com voz servil.
 - Soriano é forte, mas não tem experiência -— explicou Lúcio.
E meu irmão não me perdoaria se algo lhe acontecesse.
É seu único filho varão.
 Deixe-o por minha conta -— garantiu Alejandro.
Prometo defendê-lo com a minha vida e sei que você defenderá, com a sua, a minha honra de marido.
 - Considero um privilégio servir ao seu lado, senhor - acrescentou Soriano, em tom embevecido.
— Ouvi muito a respeito de sua intrepidez e ousadia.
 — Não conte comigo para sua ama-seca, rapaz.
Estarei ao seu lado para ajudá-lo a se tornar um homem. Sabe manejar uma espada?
 — Sei, senhor.
Mas reconheço que ainda tenho muito que aprender.
 - Óptimo. Com sorte, estaremos a bordo do mesmo navio e poderemos praticar um pouco.
 — E, depois, capturar muitos índios — finalizou Soriano, com ar arrebatado e sonhador.
 Quando os três se despediram, havia um clima de forte expectativa no ar.
Alejandro não estava acostumado a tomar conta de ninguém além de si mesmo, mas tinha que manter a palavra dada a Lúcio.
Precisava que o amigo vigiasse Rosa, e o favor bem que valeria o sacrifício.
Ademais, Soriano era um rapaz simpático, e poderia ser divertido tê-lo por companhia.
Bastava esforçar-se para mantê-lo vivo, o que não deveria ser difícil, já que os índios que iriam capturar deveriam ser dóceis e amistosos.
 Ao menos era o que ele esperava.

1.Castilla de Oro – nome dado pelos colonizadores espanhóis aos territórios da América Central, que se estendiam desde o golfo de Urabá (a oeste da actual Colômbia) até as margens do rio Belém, no Panamá.
2. Bernal Diaz de Castilho — um dos cento e dez espanhóis que partiram de Castilla de Oro para Cuba, foi o cronista da expedição liderada por Francisco Hernández de Córdova ao Yucatá, no México.
3. Francisco Hernández de Córdova — conquistador espanhol que, em 1517, liderou a expedição que descobriu a costa setentrional da península do Yucatã, onde foi travado o primeiro contacto com a civilização maia.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 23, 2015 10:02 am

Capítulo 2

O dia da partida chegou veloz como uma flecha e Alejandro despediu-se de Rosa em casa.
Ela não lhe preparou nenhuma despedida especial, mas fora carinhosa com ele na noite anterior e se entregara de um jeito ardente e apaixonado.
Sim, fizera bem de impedir a Lúcio que tomasse conta dela, porque uma mulher feito Rosa não se acostumaria a passar as noites sozinha.
Em meio ao burburinho do porto, Alejandro avistou Lúcio, que se aproximou com o sobrinho ao lado.
- Bom dia, amigo Alejandro.
Entusiasmado com a viagem?
- E quem não estaria?
- É verdade.
Soriano nem conseguiu dormir.
- Vá com calma, rapaz.
- É minha primeira expedição, senhor –- justificou o moço.
Vim da Espanha louco por uma aventura.
- Chegar a Cuba já foi uma aventura -– considerou Lúcio.
- Essa é diferente.
Nós vamos caçar índios!
— Espero que não sejam os índios a nos caçar — brincou Alejandro.
- Vocês estão no mesmo navio? -— indagou Lúcio.
— Sim. E, por acaso, no mesmo em que viaja dom Francisco e o próprio Bernal.
Soriano lançou um olhar maravilhado para o navio e tornou com euforia:
- Se me derem licença, gostaria de embarcar logo.
— Ele não vê a hora de se lançar ao mar -— comentou Lúcio, vendo o sobrinho subir a rampa da embarcação.
Espero que nada lhe aconteça.
— Nada vai lhe acontecer, eu prometo.
— Obrigado, meu amigo.
- E quanto a mim?
Ou melhor, a Rosa?
- Não se preocupe, Alejandro, já disse.
Estarei de olho nela.
- Sei que estará.
Todavia, se por acaso acontecer de ela se encontrar com alguém...
— Isso não vai acontecer, eu lhe asseguro.
- Rosa é esperta.
Enganava o pai para se encontrar com o amante artesão.
— Mas não vai me enganar.
Tenho meus métodos para controlá-la.
- Que métodos?
— Pessoas que trabalham para mim e que ficarão encarregadas de vigiar sua casa à noite.
Ninguém estranho entra ou sai.
- Óptimo!
Aprecio a sua competência.
Despediram-se em seguida e Alejandro embarcou no navio, em cujo convés Soriano já o aguardava.
Era o dia 8 de fevereiro de 1517, e a flotilha partiu de Cuba contando com dois navios e um bergantim.
Por muito tempo, Lúcio permaneceu parado no cais, vendo as embarcações se afastarem vagarosamente.
Foi só quando o último mastro sumiu no horizonte que resolveu ir embora.
Precisava contar a Rosa que Alejandro já partira.
Foi informado de que Rosa se encontrava no jardim e partiu para lá, procurando-a pelas alamedas floridas que recendiam aos mais variados perfumes.
Avistou-a perto de uma roseira e pôs-se a admirá-la.
Ela usava um vestido amarelo-claro que quase se confundia com seus cabelos, e Lúcio permaneceu parado, como se a sua presença pudesse macular tamanha delicadeza.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 23, 2015 10:02 am

Rosa percebeu a sua chegada, encaminhou-se para ele e indagou com ironia:
— O que está fazendo parado aí feito uma estátua?
— Eu... -— balbuciou ele, confuso por ter sido surpreendido naquela atitude de contemplação.
— Perdoe-me, Rosa.
Vim trazer-lhe notícias.
— Que notícias?
— De seu marido.
- Você sabe tão bem quanto eu que Alejandro viajou hoje.
— Eu sei. Estive com ele até há pouco, no porto.
Vi, pessoalmente, quando ele embarcou e o navio partiu.
- Você viu?
— Vi.
— Quer dizer então que ele se foi e não vai mais voltar?
— Não.
— Como pode ter tanta certeza?
- Muitos perigos rondam essa viagem.
O mar, os índios, os mercenários...
— E muita coisa pode acontecer, não é mesmo? -— ele assentiu, sem nada dizer.
Você lamenta?
- Alejandro é meu amigo.
— Mesmo?
Que provas ele lhe deu dessa amizade?
Lúcio olhou-a fixamente e respondeu com voz grave:
— Deu-me a mulher para tomar conta.
Com um sorriso sardónico, Rosa argumentou:
— Creio então que você deveria estar fazendo o que ele pediu.
É assim que toma conta de mim?
— Há três anos espero por esse momento.
— Não sente remorso, Lúcio?
Ou medo?
— Não fui eu que escolhi partir nessa aventura insana -— contrapôs ele, balançando a cabeça de um lado a outro.
— Mas Soriano...
Lúcio se aproximou e passou os dedos nos lábios de Rosa, fixando nela os olhos negros de noite.
— Soriano não é ninguém.
Não temos que nos preocupar com ele.
— E se ele falhar?
- Não vai falhar.
— Você me parece muito seguro.
- Sei bem com quem estou lidando.
- Quisera eu ter a sua certeza.
— Você não tem com que se preocupar.
Eu disse que cuidaria de tudo e vou cuidar, como Alejandro pediu -— terminou ele, com um esgar maldoso.
Lúcio puxou Rosa para si, beijando-a apaixonadamente, até que se deitaram sobre a grama e se amaram com paixão.
— Eu a amo, Rosa -— sussurrava ele, apertando-se cada vez mais contra ela.
— Alejandro não merece você.
Ele não sabe dar valor à mulher que tem.
— Também o amo -— replicou ela, cheia de arder.
Quero ser sua para sempre.
— Você já é minha... só minha.
Em breve, estaremos casados e voltaremos para a Espanha, ricos.
— Nosso plano vai dar certo, não vai? -— afirmou ela, vislumbrando o momento em que entraria triunfante nos salões da Coroa de Espanha.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 23, 2015 10:02 am

— Não suportaria ter que me separar de você novamente.
Eu odeio Alejandro, odeio!
- Calma, minha querida.
Quando Soriano voltar sem Alejandro, você não terá mais que se submeter aos seus caprichos.
Estaremos livres, enfim.
— E se ele não morrer?
— Isso não vai acontecer.
Soriano foi muito bem recomendado.
— Tem certeza?
— Absoluta.
Os índios levarão a culpa e ninguém ficará sabendo de nada.
— E se não houver nenhum embate?
— Então, Soriano forjará um acidente.
Em expedições desse tipo, não é incomum.
Entre risos, Lúcio abraçou Rosa, e ambos se entregaram novamente aos prazeres do sexo.
Seus pensamentos abandonaram Alejandro, que, no navio, só pensava na fortuna que faria ao retornar a Cuba com um punhado de índios para trabalhar na lavoura como escravos.
— Pensando na vida? -— a voz de Soriano interrompeu os pensamentos de Alejandro, que levantou os olhos para ele e sorriu.
- Na verdade, sim.
Estou apostando tudo nessa expedição.
— É o sonho de todo homem enriquecer, não é mesmo?
— Também não é o seu?
- Certamente.
Prometi a mim mesmo que voltaria a Espanha rico, e é o que pretendo fazer.
Quando voltar, vou-me casar, e Cibele vai ter tudo que meu dinheiro puder comprar.
Alejandro soltou uma gargalhada estrondosa e retrucou de bom humor:
— Sabia que havia uma mulher envolvida nisso.
- Minha. Cibele merece o melhor.
— E que mulher não merece?
Soriano não respondeu, pensando no quanto o outro se iludia com a mulher que tinha.
Riu intimamente.
Se Alejandro soubesse que seu falso tio havia pagado uma pequena fortuna para que ele desse cabo de sua vida, não estaria tão confiante nem tão tranquilo.
O serviço encomendado parecia fácil, mas era preciso encontrar a oportunidade certa.
Poderia jogar Alejandro do navio, como Lúcio primeiramente sugerira, mas quem lhe garantia que não haveria testemunhas?
Eles estavam na primeira embarcação, e havia ainda mais duas repletas de homens.
Não. Tinha que esperar.
Nas ilhas para onde rumavam, certamente haveria um momento, uma chance para acabar com Alejandro.
Riqueza era o que Soriano mais desejava obter com aquela aventura criminosa.
Lembrava-se de Cibele, tão doce e tão meiga, esperando por ele na distante Madrid.
Precisava de fortuna para garantir a Cibele o luxo e o conforto que ela merecia.
Antes de partir para Cuba, Soriano se despedira da noiva que, em lágrimas, pedira a ele para não ir.
— Por favor, Soriano, não vá — implorara ela.
— Eu vou voltar cheio de riquezas.
Prometa que vai esperar por mim.
— Não preciso de riquezas, só de você.
— Você não entende, Cibele.
Seu pai morreu, e sua mãe é uma pobre viúva.
Quem vai cuidar de você quando ela se for?
— Você.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 23, 2015 10:03 am

— Mas eu não tenho o que lhe dar.
— Não peço muito.
Apenas o seu amor.
— Isso não é o suficiente.
Você merece ser tratada feito uma rainha.
— Quanta ilusão, Soriano!
Não é isso que importa na vida.
E, depois, não creio que essa viagem vá fazê-lo tão rico quanto você pensa.
O que pretende descobrir afinal?
Alguma mina de ouro?
Ele sorrira enigmaticamente e a abraçara com ternura.
Nem ele sabia o que o esperava em Cuba, contudo, tinha que tentar.
Chegara à ilha cheio de sonhos de grandeza, mas não fora isso que encontrara.
Nada das prometidas riquezas, e ele acabou envolvendo-se com homens de má vida e entregando-se ao crime.
Enviava cartas apaixonadas a Cibele, que respondia a todas relatando a sua saudade.
Quando Soriano achava que tudo estava perdido, eis que a oportunidade surgiu inesperada.
Um fidalgo andava à procura de um homem corajoso para se engajar numa viagem ao Novo México e liquidar um inimigo.
Era a oportunidade perfeita para ele enriquecer de vez e mandar buscar Cibele na Espanha para que pudessem se casar.
Além de fortuna, o que mais Soriano desejava era ter em seus braços a mulher que amava, e por ela valia a pena enfrentar qualquer perigo.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 23, 2015 10:03 am

Capítulo 3

Durante mais de dez dias, os navios seguiram pela costa da ilha, até que, finalmente, pegaram o rumo do oceano.
O mar, antes calmo e sereno, subitamente começou a ondular.
A intensidade do vento aumentou e parecia impulsionar as ondas para que subissem pelo costado do navio e o invadissem.
Marujos preocupados acorriam ao convés e, no corre-corre que se iniciou, tentavam manter a ordem dentro do navio e a água fora da embarcação.
Durante dois dias e duas noites, a tempestade não deu trégua, levando Francisco de Córdova a temer pela segurança de seus barcos e homens, e pelo sucesso da expedição.
- Vamos todos morrer -— dizia Soriano, certo de que o oceano pretendia engoli-los a qualquer momento.
— E nunca mais verei Cibele.
— Ainda não, meu amigo -— replicava Alejandro.
Ainda não capturei os meus índios.
— O senhor é louco?
Embora fosse essa a previsão geral entre os navegadores, o pior não aconteceu.
O mar serenou de repente, e as embarcações seguiram por vários dias, atravessando águas mais amenas.
Certa feita, Soriano e Alejandro divertiam-se no convés com outros navegantes, quando um grito interrompeu suas risadas:
— Terra! Terra à vista!
Todos olharam ao mesmo tempo, surpresos e ansiosos por novidades.
Ao longe, uma praia de areias brancas se descortinou diante deles, terminando em frondosa floresta que parcialmente ocultava imensas e sólidas construções de pedra.
Era o primeiro povoado que avistavam em quase dois meses, e a tripulação soltou vivas de genuína alegria.
— É o Grande Cairo -— disse um dos navegantes, já que os espanhóis consideravam muçulmano tudo que não fosse cristão.
— O que faremos, senhor? -— indagou um dos homens a Francisco.
Como o menor barco se aproximara da costa e informara que não havia perigo, Francisco de Córdova deu ordens para que os navios lançassem âncora e aguardassem.
Todos permaneceram em silenciosa expectativa, olhos pregados na praia, à espera de que algo acontecesse.
Foi quando uma movimentação repentina fez com que os espanhóis sustassem o fôlego, e Soriano exclamasse espantado:
- Vejam!
Canoas a remo e a vela se aproximaram com índios(4) curiosos e de fisionomias risonhas, trajando roupas estranhas e coloridas, aparentemente pacíficos.
Ao se aproximarem, Francisco os recepcionou com cortesia, dando ordens aos marinheiros para que lhes oferecessem as bugigangas reluzentes que haviam trazido, como prova de sua amizade.
O brilho colorido das missangas pareceu fascinar os indígenas, que respondiam com gestos amistosos e comunicativos.
Estimulados pela pacata recepção, os navegantes relaxaram e tentaram comunicar-se com eles através de sinais.
O que será que estão dizendo? -— indagou Soriano, ante um homenzinho baixo e de braços compridos que puxava sua túnica e apontava para a praia.
— Não sei -— respondeu Alejandro, fixando-se em seus cabelos negros e lisos.
Parece que querem nos levar à terra.
O linguajar dos índios era incompreensível, e Francisco, seguindo o som do que diziam, baptizou de Yucatã o que ele pensava ser uma ilha.
Decorrido um longo tempo, os espanhóis se convenceram de que o que eles realmente queriam era que os homens descessem à terra, e, depois de muitos gestos engraçados de ambas as partes, marcaram um novo encontro para o dia seguinte.
Conforme o combinado, os nativos retornaram no outro dia com mais canoas para conduzir os navegantes à terra.
- Por que será que há tantos índios na praia? -— perguntou Soriano, curioso.
- Não sei -— respondeu Alejandro, abanando a cabeça para afastar um pressentimento sombrio.
— Mas é melhor não facilitar.
- Levem suas armas, homens -— ouviram o imediato dizer.
Esse encontro pode ser perigoso.
Do outro lado, Francisco se entendia com quem parecia ser o líder dos selvagens.
Por todos os lados, então, batéis foram descidos à água, e os homens começaram a desembarcar.
— Parece que nosso capitão não confia nos nativos -— comentou Alejandro.
Vamos usar nossos próprios botes, em lugar das canoas deles.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 23, 2015 10:03 am

- Decisão muito mais sensata -— concordou Soriano.
O cacique dos índios pareceu não se ofender com a recusa de Francisco em ocupar suas canoas e continuou a falar naquela estranha língua, sempre mostrando os dentes num sorriso gutural.
— Como são feios esses selvagens -— observou Soriano.
- Disse bem, meu jovem amigo.
Parecem mesmo selvagens.
Não podemos confiar neles.
Alejandro e Soriano embarcaram em um dos batéis, e logo pisavam a areia.
Mal começaram a caminhar, foram surpreendidos com a perturbadora aparição das esculturas nativas, lembrando seres diabólicos e maléficos.
Ídolos de argila com cabeças monstruosas e mulheres gigantescas retratando cenas demoníacas desafiavam a mente limitada dos desbravadores cristãos.
O padre que os acompanhava persignou-se três vezes, chamando de hereges aqueles índios pagãos que provavelmente haviam sido postos ali pelo próprio Satanás.
A caminhada prosseguiu, mas não por muito tempo.
Ainda aturdidos pelo choque causado pelas estátuas profanas, os espanhóis não perceberam a movimentação bélica dos selvagens, que surgiram de todos os lados da floresta e se atiraram sobre eles.
Lanças e pedras em punho feriam e matavam com uma selvajaria nunca antes experimentada, pondo no rosto uma horrível expressão de prazer ante a iminência da carnificina.
O sangue começou a tingir a selva, e levou algum tempo até que os exploradores saíssem de seu torpor e conseguissem reagir, revidando a agressão.
Seguiu-se um corpo a corpo feroz, e Alejandro investiu contra o índio mais próximo, gritando em desvario:
- Desgraçados!
Seguindo o movimento do companheiro, Soriano também se lançou contra eles, desferindo golpes a torto e a direito tentando atingir o máximo de selvagens que pudesse.
Aos primeiros golpes, os índios recuaram, com medo daquelas armas cortantes e letais.
Mas a surpresa e o espanto não duraram muito.
Logo perceberam que podiam não só evitar o fio das espadas, mas também enfrentá-las com a ponta de suas lanças afiadas.
Aquela certeza superou o pavor do desconhecido e lhes deu confiança.
Brandindo lanças e pedras, prepararam-se para uma nova investida, exibindo olhares aterradores e sorrisos maléficos.
Já iam avançar, sedentos de sangue, quando um barulho ensurdecedor e desconhecido paralisou-lhes os movimentos.
O disparo dos mosquetes espanhóis encheu os selvagens de assombro e receio, pois nunca haviam escutado estampido mais terrível e tão carregado de ira.
A debandada foi geral, e Francisco aproveitou para fazer cessar-fogo e gritar aos seus homens:
- Bater em retirada!
Na mesma hora, Alejandro deu meia-volta, não sem antes se certificar de que Soriano estava com ele.
Havia no rosto do rapaz uma expressão indefinível, que Alejandro, na pressa de fugir o mais rápido que suas pernas permitissem, não conseguiu perceber.
Nem sequer notou que ele empunhava uma lança tirada das mãos de um selvagem morto.
— Está tudo bem? -— perguntou Alejandro.
Não está ferido, está?
- Estou bem.
O temor de novo ataque impediu Alejandro de identificar o olhar de decepção de Soriano, que soltou a lança ao sentir a proximidade dos demais homens.
Alejandro agora empunhava um mosquete, apontando-o para todos os lados, e foi recuando rapidamente, seguido de perto pelo companheiro.
- Vejam o que conseguimos apanhar -— anunciou um homem, com incrível desprezo na voz.
E exibiu dois indígenas, presos pelas mãos de seus companheiros.
— Vamos embora —- disse Francisco.
— E tragam-nos.
Com o coração em sobressalto, fizeram o caminho de volta aos barcos, levando os dois prisioneiros e algumas peças de ouro que conseguiram furtar de uma pirâmide próxima.
— Vejo que o nosso clérigo descobriu ouro - —falou Alejandro, atento ao olhar de cobiça do padre ao revirar nas mãos os utensílios dourados.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 23, 2015 10:03 am

— Isso pode mudar nossos planos, não é mesmo?
Soriano não respondeu, porém, ficou pensativo.
Talvez fosse melhor desistir da ideia de matar Alejandro e entregar-se à pilhagem.
O problema era Lúcio.
Soubera, por conhecidos, que ele era rico e influente, e provocar a fúria de um homem assim poderia ser perigoso.
Se Lúcio encontrara um assassino para matar Alejandro, bem poderia achar outro que o matasse.
E como ficaria Cibele?
Pensando nela, achou melhor não arriscar.
Seguiria com o plano de matar Alejandro, e Lúcio lhe pagaria a devida recompensa, tornando-o rico para poder, finalmente, se casar com ela.
Soriano perdera a primeira oportunidade que tivera de liquidar Alejandro sem levantar suspeitas.
O ataque dos selvagens teria sido um álibi perfeito.
Agora, contudo, tinha que esperar um outro momento.
Por ora, primordial era proteger a própria vida.
A ameaça dos índios era perigosa demais para que Soriano se descuidasse da segurança, então, seu plano teria que esperar.
Todos embarcados, os navios retomaram a navegação.
Soriano agora seguia calado, e Alejandro atribuiu seu silêncio ao horror daquela primeira incursão na floresta.
— Não se deixe abater -— consolou Alejandro.
A luta faz parte de toda expedição.
Ainda mais em se tratando de índios.
- Eu estou bem -— afirmou Soriano, tentando parecer natural.
Foi apenas um susto, nada mais.
A embarcação avançava lentamente, ladeando a costa do que todos julgavam ser uma ilha.
A imagem de Cibele acompanhava Soriano em todos os momentos, e ele não via a hora de o navio tornar a atracar para ultimar o seu propósito de entregar Alejandro aos nativos.
O plano seria até perfeito, não fossem aqueles índios tão imprevisíveis e violentos.
Não apenas Soriano, mas todos da expedição estavam certos de que os índios, muito embora selvagens, não seriam tão inteligentes, audazes e furiosos como revelaram ser.
Diante desse quadro assustador, tenebroso e altamente arriscado, o que fazer para forjar a morte de Alejandro sem colocar em risco a própria vida?
De tão absorto nesses pensamentos, Soriano não percebeu a aproximação de Alejandro nem o burburinho no convés, e foi só quando o outro tocou o seu ombro que olhou adiante.
A visão, ao longe, de duas grandes torres desafiando o céu arrancou-lhe suspiros entre esperançosos e amedrontados.
O navio seguiu naquela direcção e atracou a poucos metros da praia.
A tripulação parecia em alvoroço e Alejandro puxou o rapaz pelo braço, falando com voz grave e apressada:
— Venha. Precisamos encher as pipas de água.
Sem nada dizer, Soriano saiu atrás de Alejandro, seguido por mais alguns marujos.
Caminharam o mais silenciosamente possível, atentos a qualquer movimento na selva.
Finalmente, encontraram um poço de água potável e puseram-se a encher as vasilhas, em estado de alerta constante, como se esperassem que, de uma hora para outra, uma horda de índios se atirasse sobre eles.
— Estamos muito próximos do povoado deles -— comentou Soriano, indicando com o queixo as enormes construções.
— Não se preocupe -— tranquilizou Alejandro.
Eles não sabem que estamos aqui e, além do mais, temos as nossas armas.
— Eu não teria tanta certeza.
Havia tremor na voz de Soriano, e Alejandro acompanhou o seu olhar assustado.
Parados alguns metros adiante, alguns indígenas os fitavam imóveis.
Instintivamente, Alejandro apertou o cabo de seu mosquete.
Como da outra vez, os nativos se aproximaram, risonhos e amistosos, puxando os espanhóis pelas mangas das túnicas, rodeando-os como se farejassem a presa antes de devorá-la.
Apesar da linguagem incompreensível, os dedos, apontando na direcção da cidade, deixavam claro o desejo de que os seguissem até lá.
Alejandro, desconfiado, olhou para Francisco, mas este já se havia posto em marcha ao lado dos índios, com o restante dos homens atrás deles.
- O que ele está fazendo? -— sussurrou Soriano, apavorado.
Já não basta o que nos aconteceu da outra vez?
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 23, 2015 10:03 am

— Fique quieto! -— censurou Alejandro.
— Francisco sabe o que faz.
A cena parecia se repetir.
Os espanhóis caminharam pela floresta com os índios ao redor, gesticulando e rindo guturalmente.
Ao adentrarem o povoado, os sólidos e já conhecidos edifícios se descortinaram, seguidos de mais e mais ídolos diabólicos.
— Isso me dá calafrios —- observou Soriano, acercando-se mais de Alejandro.
— Você ainda não viu nada — retrucou o outro, estacando com ar aterrado.
Surgiu à sua frente uma figura singular.
Vestido numa espécie de túnica branca, um homem de cabelos negros e respingando sangue segurava nas mãos um facão igualmente ensanguentado.
Atrás dele, sobre um altar de pedra parcialmente visível, jazia inerte, numa poça de sangue, um corpo retalhado e sangrento.
- Jesus Cristo! — exclamaram muitos.
— Mas o que é isso? — horrorizou-se Soriano.
- Parece que o nosso amigo acabou de praticar um sacrifício humano -— constatou Alejandro, lutando entre o terror e o pânico.
— Ele está todo ensanguentado!
Todos olhavam para Francisco, esperando que ele tomasse alguma atitude, mas o capitão parecia tentar entender-se com o macabro sacerdote.
- Acho que não está adiantando — constatou Alejandro.
O sacerdote dizia estranhas palavras e gesticulava para os muitos guerreiros que acompanhavam o encontro.
Mais que depressa, os índios se juntaram, apontando as lanças e fitando o grupo com olhar hostil e ameaçador.
Alguém acendeu uma fogueira, e o sacerdote deu prosseguimento ao seu bailado gutural, apontando ora para o fogo, ora para os espanhóis, ora para os guerreiros, que emitiram um grito de guerra assombroso.
— O que é isso agora? -— horrorizou-se Soriano.
- Acho que ele quer dizer que, se não partirmos até o fogo se extinguir, vai lançar seus guerreiros sobre nós.
— E o que Francisco está fazendo? — desesperou-se.
— Por que não vamos logo embora?
- Será que ele enlouqueceu e vai combater esses demónios?
Dessa vez, até Alejandro estava com medo.
Enfrentar aqueles guerreiros seria quase suicídio.
Os homens começaram a se apavorar, ameaçando dar meia-volta e fugir, mas Francisco permanecia parado, na esperança de fazer-se entender.
— Vamos embora, capitão -— falou um dos homens mais próximos.
Por Deus, não podemos mais continuar aqui.
Se tiver amor às nossas vidas, volte connosco aos navios!
Ainda defronte ao sacerdote, Francisco ensaiou mais alguns gestos, tentando um entendimento, mas o olhar feroz do outro o convenceu a partir.
-— Vamos recuar -— ordenou ele, com a voz mais calma que conseguiu entoar.
Sem se virar, os homens foram recuando e, passo a passo, tomaram o caminho de volta.
Só quando já se encontravam fora das vistas dos guerreiros foi que se viraram de frente e puseram-se a andar, quase a correr.
Caminhando ao lado de Alejandro, Soriano ia remoendo seu fracasso.
Ao mesmo tempo que desejava que Francisco declarasse guerra aos selvagens, tinha medo do que poderia lhe acontecer.
Já não aguentava mais o papel de idiota que precisava representar para ganhar a simpatia e a confiança do outro.
Aqueles índios malditos, contudo, não facilitavam as coisas.
Concentrar-se em Alejandro poderia custar-lhe a vida, e agora tinha duas coisas com que se preocupar: matar o outro e não se deixar matar.
Finalmente, os homens chegaram aos botes e remaram de volta aos navios, que se puseram em movimento outra vez.
-— Ao menos conseguimos nos reabastecer de água -— comentou Alejandro, sorrindo aliviado.
Perdemos o ouro, mas garantimos a vida.
Soriano, contudo, não conseguia sorrir.
Achava mesmo que nunca mais voltaria a sorrir enquanto não conseguisse executar o seu plano, que foi tornando-se uma obsessão em sua cabeça.
Durante alguns dias, o mar se manteve calmo e sereno, e os navios seguiram viagem sem maiores transtornos.
A calmaria, porém, durou pouco.
Quando menos se esperava, o céu escureceu e os ventos expulsaram o sol para trás das nuvens espessas e carregadas.
Uma tempestade se aproximava, e os navios, mais uma vez, seriam testados em sua resistência.
A ventania foi aumentando, e as ondas cresciam ao redor dos barcos, como se tentassem engoli-los de uma só vez.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 24, 2015 10:24 am

- Já passamos por isso antes -— estimulou Francisco.
Vamos vencer mais essa tormenta.
Mas as rajadas produzidas pelo vento quase estouravam as velas, e os navios eram constantemente sacudidos pelas vagas gigantescas que os atiravam de um lado a outro.
As ondas avançavam pelo convés, aproximando as embarcações do naufrágio iminente.
Alejandro juntou-se ao corre-corre dos marujos para tentar manter a embarcação acima da água.
Era uma luta ferrenha contra a natureza, e parecia que o navio não iria resistir.
Tábuas começaram a estalar, e cordas se partiram das amarras, atirando fragmentos de lona e madeira em todas as direcções.
Foi tudo muito rápido.
Com incrível habilidade, Soriano agarrou uma verga solta e, auxiliado pelo vento e pela inclinação do navio, que tombava para o lado onde Alejandro se encontrava, lançou-a de encontro a ele, atingindo-o em cheio na altura do ombro.
Com a chuva e a ventania, o outro não conseguiu ver de onde partira o golpe, mas perdeu o equilíbrio e tombou para trás, indo bater na amurada semi-destruída do convés e se precipitando para dentro do mar negro e revolto.
Alejandro nem teve tempo de pensar.
Em fracções de segundos, viu-se aproximar do oceano faminto, que escancarava sua bocarra para levá-lo às profundezas.
A sorte, entretanto, laborou a seu favor.
Quando tudo parecia perdido, uma mão forte e robusta o agarrou firmemente, puxando-o para cima no exacto instante em que o navio começava a adornar para o outro lado.
Durante alguns instantes, Alejandro ficou pendurado, os pés se sacudindo acima do mar, até que um marujo corpulento o alçou de volta, evitando seu mergulho para a morte.
Oscilando bruscamente, a embarcação retornou para cima, atirando água por todos os lados, enquanto os homens lutavam para se manter agarrados aos mastros e balaústres.
Auxiliado pelo homem que o salvou, Alejandro conseguiu rastejar até alcançar a porta do porão e se atirar para dentro.
— Meu Deus, Alejandro! -— gritou Soriano, correndo para ele com olhar mortificado.
Quando não o vi, tive medo de que tivesse morrido.
— Ainda não -— rebateu o outro, sem de nada desconfiar.
Não chegou a hora de fazer de Rosa uma viúva.
Graças ao meu amigo aqui — e apontou para o marinheiro — ainda pertenço ao mundo dos vivos. Obrigado.
O marujo sorriu em resposta, e Soriano engoliu o ódio junto com o suor e a água que escorriam de seu rosto.
Tinha vontade de esganar aquele marinheiro intrometido, mas precisava se conter.
Perdera, até ali, a sua maior chance de liquidar Alejandro sem levantar a menor suspeita.
Outra oportunidade igual àquela muito dificilmente surgiria.
Passados quatro dias, a tempestade amainou e os homens conseguiram contabilizar os estragos.
Velas e mastros haviam sido destruídos e, o que era pior, a água potável, misturada à do mar, não servia mais para consumo.
— O que vamos fazer? — perguntou alguém.
— Precisamos desembarcar — anunciou Francisco, após breve reflexão.
- Mas, senhor -— objectou o imediato —- e os índios?
Já não está claro que não são nada amistosos?
— Dessa vez estaremos preparados — afirmou ele, batendo no punho de sua espada.
Mesmo em dúvida e com medo, a tripulação desembarcou.
A situação, que já era ruim, ficaria muito pior sem água.
Enfrentar os selvagens lhes daria uma chance de sobrevivência.
Sem água, acabariam morrendo.
Não tinham alternativa.
Precisavam encontrar outro poço onde pudessem reabastecer as pipas.
Com o máximo de cautela possível, mais uma vez embrenharam-se na mata, procurando não chamar atenção nem dos animais silvestres.
Depois de intermináveis horas, chegaram à margem de um rio.
Francisco deu ordens para que alguns homens enchessem as pipas, enquanto outros, em estado de alerta, colocaram-se de vigília.
De nada adiantou.
Sob a protecção da floresta, os índios se acercaram dos navegadores, ameaçando-os com flechas e lanças.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 24, 2015 10:24 am

Os homens de Francisco, embora temerosos, permaneciam firmes em sua guarda, armas em punho, mirando a selva sem se atrever a atirar.
Os selvagens surgiam e desapareciam, invisíveis atrás das árvores, confundindo os tripulantes, que não sabiam para onde apontar seus mosquetes.
De vez em quando, uma flecha zunia no ar e caía em meio aos aterrados espanhóis.
— Nem pensem em desistir -— avisou Francisco.
— Precisamos dessa água tanto quanto de nossas vidas.
Sem ela, nem adianta voltarmos.
Não temos chance de sobreviver.
— Senhor -— suplicou Soriano - podemos esperar nova chuva ou buscar água em outro local.
Eles nos cercaram e não podemos vê-los.
Sabemos que estão lá, mas onde?
— Nada disso!
Não somos covardes, somos homens!
Não podemos nos deixar vencer por um bando de índios armado de flechas e pedras!
Não enquanto não levarmos connosco esse líquido tão precioso!
Ninguém ousou mais discutir, e o temor da partida era uma realidade fria e cruel.
Mesmo após encher todas as pipas, os exploradores não ousaram adentrar a floresta novamente.
Paralisados de terror, sabiam-se sitiados pelos nativos, que os observavam à distância, camuflados pelas folhas.
A tarde chegava ao fim e a noite avançava, redobrando o pânico e pondo os homens em estado de alerta total.
— Senhor, o que faremos? — indagou Alejandro.
— Vamos pernoitar.
Acamparemos aqui mesmo, às margens do rio, e nos revezaremos na vigília.
Foi uma noite em que ninguém ousou dormir, temendo jamais voltar a acordar.
Atentos ao menor ruído e com tochas acesas para espantar a escuridão, os homens permaneceram acordados, rezando para estarem vivos até o romper do dia e partir em segurança.
Logo ao amanhecer, foram despertados com nova arremetida, e os homens já começavam a se desesperar, ameaçando abandonar seus postos e debandar, enquanto uma chuva de lanças desabava sobre eles.
— Vamos fugir! -— gritou alguém.
— Ninguém sai daqui!
Se formos embora, eles irão atrás de nós, e precisamos desesperadamente dessa água.
Por ela lutaremos até que não sobre um único desses selvagens vivos.
Durante algum tempo foi possível resistir, mas os índios intensificaram o ataque, redobrando a brutalidade, e Francisco finalmente viu-se obrigado a ceder.
Ou partiam ou pereceriam, sem chance alguma de sobreviver.
Já tinham a água, agora só lhes restava tentar voltar aos navios com vida.
Sob uma saraivada de flechas e lanças, os navegantes iniciaram o caminho de volta, disparando inutilmente seus mosquetes.
Os nativos, agora acostumados ao barulho que faziam, não os temiam mais e guardavam distância segura, fora do alcance das balas.
De repente, Alejandro soltou um grito esganiçado, carregado de medo, diante de horripilante cena:
— Eles estão tentando matar o capitão!
Uma enorme quantidade de flechas atravessava o corpo de Francisco, que, apesar de gravemente ferido, ainda respirava e tentava lutar.
— Protejam-no! -— berrou alguém.
Foi uma carnificina.
Francisco de Córdova, com pelo menos dez flechadas no corpo, não podia mais resistir ao ataque sangrento dos índios, cujo número aumentava a cada minuto.
Seus homens conseguiram ampará-lo e saíram arrastando-o pela floresta, sob uma espessa chuva de flechas.
Os nativos atacavam com ferocidade descomunal, mas havia algo estranho em sua investida.
Eles feriam gravemente, porém procuravam não matar os espanhóis, queriam capturá-los vivos.
— Malditos! -— vociferou Alejandro.
Querem-nos para sacrifício.
Alejandro assistiu, aterrado, a um português de barbas brancas ser arrastado pelos cabelos, mas nada pôde fazer para ajudá-lo.
O ódio foi crescendo dentro dele, ao ver seus companheiros feridos, muitos deles mortos, e o capitão rastejando pela relva como uma serpente moribunda.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 24, 2015 10:24 am

Por todo lado, jaziam também muitos índios mortos, e, embora a visão fosse aterradora, Alejandro não conseguiu conter a cobiça ao vislumbrar as jóias em ouro que adornavam seus pescoços escuros e suas orelhas compridas.
A exemplo de outros homens, pôs-se a recolher as peças que conseguia alcançar, guardando-as cuidadosamente dentro das calças e debaixo da túnica.
De vez em quando, tinha que parar para se proteger de um ataque directo, disparando seu mosquete naqueles que se descuidavam e se punham ao alcance de sua mira.
Ia passando entre os cadáveres e recolhendo o que podia.
Um colar particularmente brilhante quase ofuscou seus olhos, e, certificando-se de que não havia nenhum selvagem vivo nas proximidades, abaixou-se, hábil e ligeiro, e arrancou-o do pescoço do índio morto.
Foi quando uma dor aguda perpassou-lhe as costas.
Alejandro se virou apavorado, e qual não foi o seu espanto ao se deparar não com um índio carniceiro e cruel como esperava, mas com o jovem Soriano, que ainda tinha as mãos trémulas do golpe que, covardemente, acabara de desferir no companheiro.
— O que você fez? -— indignou-se, sentindo pelo outro um misto de ódio e decepção.
- Eu? -— retrucou Soriano com ironia.
Não fiz nada.
Por acaso essa lança me pertence?
Não, claro que não.
Então, quem o matou não fui eu, mas um desses selvagens malditos que o atacou pelas costas e que eu depois matei.
Quem sabe aquele ali? -— ele apontou para um índio caído de borco numa poça de sangue.
—Não estou certo?
Soriano não conhecia Alejandro e subestimou sua força.
A lança que lhe cravara não perfurou o pulmão, passando a milímetros de seu coração.
Fortalecido por um ódio descomunal, arrancou a lança de seu corpo, engolindo o grito que a dor lhe causou, e atirou-se sobre Soriano, travando com ele uma luta feroz.
Ambos agora lutavam pela própria vida, sabendo que um dos dois deveria morrer.
No desespero da fuga, nenhum de seus companheiros notou o que estava acontecendo, e apenas Alejandro e Soriano, agora inimigos, debatiam-se, desesperados, no embate de morte.
O ódio de Alejandro redobrou sua força.
Poderia morrer ali, mas não vítima de perfídia.
Reunindo o máximo de energia que a situação permitia, conseguiu derrubar Soriano no chão e, num gesto rápido e preciso, encostou em seu pescoço a lâmina afiada de sua espada.
- Diga, verme! -— vociferou.
Por que fez isso comigo?
— Por favor... -— balbuciou o outro, com medo.
— Não me mate. Eu não queria feri-lo.
— Mentiroso, canalha! -— tornou Alejandro, apertando ainda mais a lâmina contra a garganta de Soriano.
Exijo que me diga por que quer me matar.
Por que, se só o que fiz foi lhe dar minha amizade?
Vamos, patife, responda!
— Não foi culpa minha...
Fui obrigado...
— Obrigado? Por quem?
Quem o obrigou?
- Não posso dizer... eu morreria...
Vai morrer agora, de qualquer jeito!
Diga, covarde!
Quem foi que o mancou me matar?
- Se eu disser... — balbuciou ele ofegante, os olhos turvos de um medo real -— promete não me matar?
Alejandro não tinha a menor intenção de poupar a vida daquele traidor, mas precisava saber quem havia encomendado a sua morte.
- Prometo -— respondeu entre os dentes.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 24, 2015 10:24 am

- Foi o senhor Lúcio.
— O quê?! -— exasperou-se.
— Isso é uma infâmia!
Uma calúnia!
Lúcio é meu melhor amigo.
A ponta da espada de Alejandro já começava a perfurar a garganta de Soriano, e uma gota de sangue vivo brotou em seu pescoço.
- É verdade, Alejandro.
Foi o senhor Lúcio.
Eu só fiz o que e me mandou.
— Por quê? Por que Lúcio faria uma coisa dessas?
— Ele e sua esposa... são amantes.
— Mentiroso! -— enfureceu-se Alejandro ainda mais.
Lúcio não é um traidor.
Ao contrário de você, verme!
- Eu juro, meu senhor, é verdade.
Lúcio queria matá-lo para poder desposar a senhora Rosa...
Alejandro não ouviu mais nada.
Sentindo a presença de um índio às suas costas, puxou Soriano com extrema agilidade e atirou-o sobre o selvagem, que imobilizou os seus braços e saiu arrastando-o floresta adentro.
Quase desfalecido e esvaindo-se em sangue, Alejandro rodou nos calcanhares e correu na direcção oposta, torcendo para ainda conseguir alcançar seus companheiros.
Os demais homens, perseguidos pelos indígenas, abandonaram as vasilhas de água, que se derramavam sobre a terra, para chegar com mais rapidez aos botes salvadores.
À medida que corria, Alejandro ouvia os gritos de Soriano diminuindo à distância, imaginando o destino cruel que os índios lhe iriam.
Ao alcançar a praia, alguns homens já se atiravam ao mar, em busca dos batéis, nadando desajeitadamente por causa das feridas.
Alejandro se jogou na água, sentindo o ferimento arder em contacto com o sal.
Nem deu importância.
Impulsionou as pernas o mais que pôde, tentando desviar das pedras e flechas que os índios atiravam da areia.
Alguns botes, atingidos pelos projécteis, desequilibravam-se e emborcavam, sendo agarrados por mãos desesperadas que os impulsionavam feito pranchas toscas.
Finalmente, o bergantim os resgatou feridos e quase mortos.
À excepção de um único homem, que estranhamente saíra ileso, todos os demais haviam-se ferido gravemente.
Alejandro mal respirava e apalpou o local em que Soriano lhe cravara aquela lança, sentindo uma dor lancinante espalhar-se por todo o peito.
Em terra, os índios gritavam e agitavam lanças e flechas, como em um ritual macabro de guerra.
Eles haviam saído vencedores em sua própria terra, e Alejandro engoliu a raiva juntamente com o sangue.
Tomara-se de ódio por aqueles selvagens, transferindo a eles o ódio que sentia por Soriano, Lúcio e Rosa.
Como num sonho, recordou as palavras de sua amiga Giselle, que o alertara sobre a possível traição da esposa.
E ele não lhe dera ouvidos.
Deveria ter escutado a voz de uma mulher experiente feito Giselle, que conhecia tão bem os desejos e as fraquezas femininas.
Com os pensamentos ainda em Giselle, tombou a cabeça no chão do navio e desmaiou.

4. Índios dos povos maias.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 24, 2015 10:25 am

Capítulo 4

Alejandro tinha a impressão de ouvir o crepitar do fogo do inferno em sua mente.
Por seus olhos, pareciam passar chamas vivas e torturantes que incendiavam o seu cérebro com a dor da traição.
Agitou-se em seu catre, virando o rosto para os lados e balbuciando palavras incompreensíveis.
O corpo todo húmido e quente lhe dava a impressão de que havia mergulhado num poço de lava, que lhe consumia a vida na turbulência do ódio.
Em agonia, abriu os olhos e saltou da cama, correndo para a em busca de ar.
Ao ver as chamas que manchavam de amarelo e rubro o mar que as espelhava, parou aterrado, certo de que mundo, efectivamente, se acabava em fogo.
Rapidamente, um homem se aproximou e tocou o seu ombro.
Deveria estar deitado, Alejandro -— falou com bonomia.
Perdeu muito sangue.
Só então Alejandro sentiu a ardência no tórax e apalpou as feridas por onde a ponta da lança havia penetrado em seu corpo e saído do outro lado.
Fixou os olhos no interlocutor e abaixou a cabeça, envergonhado por sentir tanto ódio diante do homem que o erguera da morte no dia em que fora atingido por uma verga solta.
Alejandro apertou o ombro de Damian e encenou o melhor sorriso que conseguiu, apontando, em seguida, para o mar incandescente.
— O que está acontecendo?
— Tivemos que atear fogo no bergantim.
Não podemos manobrar os três barcos, devido às condições da tripulação.
Perdemos muitos homens e, dos que sobreviveram, a maioria está ferida.
- E o capitão?
— Por pouco não o perdemos, e ainda não está nada bem.
- Você não desceu à terra, desceu?
— Não. Fiquei cuidando do navio.
— Sorte a sua.
Não imagina o horror que passamos com aqueles selvagens.
— Já ouvi as histórias.
— E a água? -— retrucou Alejandro, a garganta seca tornando roucas as suas palavras.
— Perdemos tudo.
A partir daquele dia, a desesperança se tornou companheira constante da tripulação.
Alejandro ardia em febre e sede, a língua grossa, em fogo, e a garganta, de tão seca, dava a impressão de que explodiria, soltando as cordas vocais se tentasse falar.
Em dado momento, uma espécie de demência tomou conta do navio.
Os marujos, alucinados, acorriam à amurada e atiravam baldes presos em cordas, bebendo água do mar na tentativa desesperada de matar a sede.
Alejandro sentiu-se tentado a fazer o mesmo, porque a sede também lhe dava a ilusão de que o mar a saciaria.
Mas ainda conseguia manter um mínimo de sanidade e resistia à tentação.
Pegava água do mar, sim, mas para embeber a ferida, que aos poucos foi-se fechando.
A água salgada só fez piorar a situação dos que a beberam, aumentando a sede e precipitando a morte.
Por todo lado, homens adoeciam, acometidos de convulsões e fortes dores.
Fracos em virtude das feridas e do corpo desidratado, logo começaram a morrer, e seus corpos iam sendo atirados ao mar.
Até Damian foi assaltado pela insanidade que a sede causticante causava em todos.
Vendo os baldes descendo à água, tornou de um deles e atirou-o também, levantando-o avidamente para levá-lo à boca.
— Não cometa essa loucura! -— gritou Alejandro, dando vigoroso tapa na mão de Damian e atirando para longe a água.
— A sede só vai aumentar, fazendo a saliva parecer sal.
Tente suportar, meu amigo, resista!
- Não posso... -— gemeu Damian.
— A sede me inflama a garganta...
Damian desmaiou.
Delirava e falava coisas sem nexo, e Alejandro deitou-o no catre.
A seu lado, vários doentes agonizaram, atendidos pelos poucos que ainda tinham alguma resistência.
— Não entendo por que ele adoeceu tão rápido -— comentou Alejandro.
Permaneceu embarcado, não tem chagas.
Há outros feridos em pior situação que ainda conseguem resistir.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 24, 2015 10:26 am

— Damian reservou sua ração de água para você, que estava doente -— contou um marujo.
Enquanto todos ainda se saciaram, ele deitava em sua boca a porção de água que lhe cabia.
Por isso você não morreu.
- Por que ele fez isso? -— a voz de Alejandro denotava surpresa e emoção.
— Quem é que vai saber? -— respondeu o outro.
Os olhos de Alejandro se encheram de lágrimas.
Aquele, sim, era um amigo de verdade, alguém por quem valia a pena lutar e morrer.
Alisou os cabelos engordurados de Damian e pousou a mão sobre seu peito.
- — Farei de tudo para que você sobreviva.
De hoje em diante, será meu único amigo.
Os navios prosseguiam em sua jornada de morte, até que, finalmente, avistaram terra outra vez.
— Acha seguro desembarcarmos? -— alguém perguntou a Francisco.
Com o raciocínio comprometido pelas flechadas que levara, o capitão respondeu de forma quase inaudível:
— Temos que tentar.
Quinze homens foram mandados a terra, e os que ficaram mal podiam conter a ansiedade e a esperança.
Quando voltaram, o desespero foi maior.
A água recolhida era salobra, não servia para beber.
Os homens quedaram desanimados, aguardando sem forças a chegada da morte iminente e, àquela altura, desejada como alívio para seus sofrimentos.
Em seu catre, Damian oscilava entre o delírio e a lucidez.
Repetia frases desconexas e ininteligíveis e Alejandro cuidava dele e de outros sem esperança de que sobrevivessem.
- Vamos todos morrer -— diziam os marujos, desanimados.
— Não vamos, não -— afirmava Alejandro, convicto.
—Recuso-me a morrer antes de concretizar minha vingança.
— Não sei do que está falando, mas, de qualquer forma, estamos perdidos.
— A Situação é de extrema gravidade, mas nos resta uma esperança.
Alaminos(5) e os outros estão nos levando para La Florida(6), por uma rota que ele julga mais segura.
O único problema é que teremos que nos defrontar com mais selvagens, que, segundo eles, são ainda mais violentos.
Como era esperado, a recepção dos nativos foi deveras sangrenta.
Alejandro, apesar da fraqueza, desembarcou com os outros e ainda conseguiu matar mais alguns índios, muito embora o esforço da luta reabrisse a ferida, ainda não totalmente cicatrizada.
A batalha foi feroz, mas o destino, dessa vez, lutou ao lado dos espanhóis, que, apesar de exaustos e bastante machucados, conseguiram finalmente chegar aos navios com água potável.
A água foi logo distribuída, e os feridos foram os primeiros a beber.
Como a sede era desesperadora, muitos bebiam avidamente e sem parar, vindo a desencarnar poucos dias depois.
Damian, contudo, sobreviveu.
Quando por fim se recuperou parcialmente, saiu em busca de Alejandro, indo encontrá-lo enfraquecido sobre um catre.
— Meu amigo -— disse ao enfermo —- quando caí, lembro-me de tê-lo deixado bem.
O que aconteceu?
- Mais índios -— retrucou o outro.
— Você estava ferido!
Ninguém ia exigir que desembarcasse de novo.
Eu precisava ir, Damian.
Não podia simplesmente ficar sentado e aguardar.
Não é da minha natureza esperar pela morte de braços cruzados.
— Mas agora a sua ferida inflamou outra vez -— constatou Damian, levantando as bandagens que cobriam o corte de Alejandro.
— Eu vou ficar bem! -— exclamou ele com certa fúria, erguendo o corpo e agarrando o braço do outro.
Tenho contas a ajustar com alguém.
— Muito me admira e alegra a sua determinação, mas tenha calma.
Seja o que for que tiver em mente, pode contar com este seu amigo aqui.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 24, 2015 10:26 am

— Obrigado -— respondeu Alejandro comovido.
Você é realmente um bom amigo.
E isso me faz lembrar uma coisa.
Quero saber por que você deixou de beber água por minha causa.
Damian deu de ombros e respondeu com simplicidade:
— Achei que você precisava mais do que eu.
E não me passou pela cabeça que fôssemos demorar tanto a encontrar água.
— Seu tolo, você poderia ter morrido.
— Mas não morri. E nem você.
— Exactamente. Nem vou morrer.
Como disse, tenho contas a acertar.
— Posso saber com quem?
— Com minha mulher e seu amante.
Damian ergueu as sobrancelhas, e Alejandro contou-lhe tudo.
Quando terminou, o companheiro tinha o olhar distante e pensativo.
- Sua reivindicação é justa -— disse depois de algum tempo.
Se minha mulher fizesse isso comigo, eu mataria ela e o cachorro que a seduziu.
- É exactamente o que pretendo fazer.
É meu direito.
Com o fracasso da expedição, os navegantes retornaram a Cuba, e Alejandro deixou o navio avariado no porto, antegozando o momento em que ultimaria sua vingança contra Rosa e Lúcio.
Antes, a conselho de Damian, iria se certificar da veracidade do que Soriano dissera, para não cometer uma injustiça da qual se arrependeria depois.
Além do mais, precisava se recuperar do ferimento com todo o cuidado para que Rosa, aproveitando-se de seu estado debilitado, não concluísse ela mesma o serviço que Soriano não lograra terminar.
Alejandro chegou em sua casa amparado por Damian, e só o olhar estupefacto de Rosa já seria suficiente para dar crédito à confissão de Soriano.
Rosa parecia estar diante de um fantasma e nos primeiros minutos, não conseguiu esboçar qualquer reacção.
Quando recobrou o equilíbrio e conseguiu falar, Damian o havia ajudado a deitar-se na cama e dava instruções para que ela cuidasse pessoalmente do ferimento.
— Ele já está fora de perigo -— avisou Damian.
Mas sua saúde ainda é precária.
— O que foi que aconteceu, Alejandro? -— indagou ela, aterrada.
Não compreendo...
- Eu deveria estar morto, não é?
Rosa se sobressaltou, mas ele prosseguiu como se não tivesse percebido.
Fomos atacados por selvagens durante toda a jornada e, por sorte, sobrevivi.
Além disso, devo a minha vida a meu amigo Damian aqui, que conseguiu evitar que eu caísse do navio em meio a uma tempestade.
Rosa estava muda e pálida, olhando de Alejandro para Damian assustada e surpresa.
A informação da chegada de dois dos três navios que partiram naquela aventura logo se espalhou por toda a ilha, e Lúcio, sabendo que muitos navegadores haviam perecido vítimas dos ataques dos índios, correu apressado para a casa da amante, certo de que a notícia da morte de Alejandro logo chegaria aos seus ouvidos.
Foi abrindo portas num rompante e adentrou o quarto de Rosa com a certeza do sucesso de sua empreitada, quase desfalecendo ao encontrar Alejandro deitado no leito, ferido, porém, vivo.
-Alejandro... -— balbuciou.
Mas... Você está vivo!
— É o que parece, não é? -— tornou o outro com ar de ironia.
Embora isso pareça surpreender você.
— Surpreender-me?
Sim, surpreendo-me com grata alegria.
Ao ouvir as notícias e ver o estado em que os navios ficaram, temi por sua integridade.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 24, 2015 10:26 am

— Quanta generosidade! -— ironizou novamente.
Só os amigos sinceros lamentam profundamente a morte de um homem.
 Lúcio olhou de soslaio para Rosa, que não ousava levantar a cabeça, tamanho o pavor que a atitude de Alejandro lhe infligia.
Pelo tom de sua voz, estava claro que já sabia de tudo.
 — E onde está Soriano? -— indagou Lúcio, só então percebendo que deveria ter primeiro se preocupado com a ausência do falso sobrinho.
 — Não se informou na capitania? -— replicou Alejandro em tom de sarcasmo.
 Lúcio ficou confuso, já que era o primeiro lugar a que deveria ter ido para saber notícias do tão amado parente.
 — Não... -— tornou confuso.
Confesso que fiquei atarantado...
 - Os índios o levaram.
 — Levaram? Para onde?
 — Só Deus sabe...
Ou talvez saibam os deuses pagãos daqueles selvagens, porque me parece que é para eles que sacrificam pessoas.
 — Sacrificam?
 - Pois é.
Soriano não deu sorte.
Caiu nos braços de um selvagem, que o arrastou floresta adentro, sumindo com ele das minhas vistas.
Por sorte não fui capturado também, ou hoje estaria estirado em alguma pedra de altar, com uma adaga cravada no coração, e meu sangue derramado pelas paredes de algum templo demoníaco -— ele regozijava-se com o ar de horror de Lúcio e Rosa, e prosseguiu com toques de sadismo:
- Pelo menos foi o que vimos.
Um sacerdote que tinha nos cabelos o sangue ainda fresco de sua vítima.
E, a julgar pela forma como aqueles índios nos perseguiam, evitando matar-nos e tentando nos prender, concluímos que o seu intento era na verdade fazer prisioneiros para oferecer em sacrifício a seus deuses diabólicos.
 - E Soriano foi capturado por um desses? -— revidou Lúcio, mortificado.
 — Uma pena.
Senti não poder ajudá-lo, mas tinha que salvar a própria pele.
Diga a seu irmão que lamento muito a perda do filho amado.
 - Ele... nem teve tempo de lhe dizer nada?
 — O que poderia o pobre coitado me dizer?
Só o que pude ouvir dele foram seus gritos de agonia desaparecendo no meio da mata.
 Lúcio engoliu em seco e olhou para Rosa, cujo semblante avermelhado e rijo lhe dava uma ideia do temor que ela sentia.
 — E o que houve com os navios? -— continuou Lúcio, tentando aliviar a tensão.
 — Foram as tempestades -— explicou Alejandro.
Damian, meu novo amigo, foi quem me salvou de uma delas.
À excepção de Damian, ninguém sabia o esforço que Alejandro fazia para manter a conversa em um nível razoável de normalidade.
Seu tórax ainda doía dos ferimentos, e ele sentia uma fraqueza mordaz se apoderando de seu corpo.
Era preciso, contudo, demonstrar naturalidade para evitar que Rosa e Lúcio se deixassem seduzir pelo oportunismo e engendrassem um plano maligno para acabar com a sua agora frágil vida.
O efeito satisfez Alejandro, que fitou Damian discretamente.
O amigo permanecia parado ao lado da cama, mãos cruzadas sobre o peito, como um fiel cão de guarda.
Enquanto isso, Rosa e Lúcio, acabrunhados, não sabiam ao certo o que dizer ou pensar.
Pela primeira vez desde que chegara, Lúcio olhou directamente para Rosa, que devolveu o olhar com outro de genuíno pavor.
Em seu íntimo, o pavor foi-se alastrando, junto com uma quase certeza de que não tinham ainda experimentado a fúria de Alejandro.

5. Anton de Alaminos — um dos pilotos da expedição, juntamente com Camacho e Joan Álvarez.
6. Florida, nos EUA, na época sob o domínio espanhol.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 24, 2015 10:27 am

Capítulo 5

Encoberta por um manto negro, com o capuz derrubado sobre o rosto, Rosa ia caminhando pelas ruas estreitas, procurando o lado escuro das calçadas a fim de evitar ser vista.
De vez em quando, parava e olhava ao redor e para trás, certificando-se de que não estava sendo seguida.
Retomava a caminhada e ia avançando silenciosamente, sobressaltando-se ao menor sinal de movimento ou de barulho.
Finalmente, chegou ao seu destino e bateu à porta, entrando apressada assim que ela se abriu.
Do lado de fora, imperceptível, Damian espreitava.
A mando de Alejandro, vinha seguindo Rosa desde que ela deixara a casa.
Ainda convalescendo, encontrava-se ele preso ao leito, e Rosa se aproveitava de sua debilidade para oferecer-lhe ervas soporíficas e ausentar-se tão logo ele caísse no sono.
Da primeira vez, a artimanha surtiu efeito.
Todavia, no dia seguinte, Alejandro mandou chamar Damian e contou-lhe o ocorrido:
— Desconfio de que Rosa colocou alguma erva no chá para me fazer dormir.
Excelente ideia!
Quero que você fique de vigília todas as noites até que a veja sair e a siga.
Quanto a mim, não beberei mais o remédio.
Assim foi feito.
Dali em diante, todas as noites, Damian se colocava à espreita.
E quando Rosa novamente ofereceu o chá a Alejandro, ele o despejou atrás da cama, sem que ela visse.
Ele fingiu dormir, e ela, encobrindo-se com o manto, saiu, sem perceber que Damian a seguia à distância, oculto pelas sombras da noite.
Dentro da pequena casa de pedra, Lúcio a aguardava ansioso e tomou-a nos braços tão logo fechou a porta.
— Minha querida -— sussurrou ele, coberto de paixão.
Não aguentava mais a torturante demora.
— Tive que esperar Alejandro dormir -— respondeu ela, beijando-o ardentemente.
— Precisamos acabar com isso.
Não podemos continuar nos encontrando desse jeito.
— O que podemos fazer? Matá-lo?
— Temos que concluir o que Soriano não conseguiu fazer.
O tolo, idiota, deve ter sido morto pelo próprio Alejandro.
— Você acha que foi Alejandro quem o matou?
—Tenho minhas desconfianças.
Essa história de índios levando-o para o meio da selva não me convenceu.
Para mim, Alejandro fez o que Soriano deveria ter feito.
Matou-o e colocou a culpa nos selvagens.
E, se o matou, só pode ter sido por um motivo.
- Porque descobriu a verdade -— completou Rosa, totalmente aturdida com as conjecturas de Lúcio.
— Exactamente.
— Soriano deve ter-lhe contado tudo.
— Isso não importa.
O importante é que nós mesmos teremos que fazer o serviço.
— Não seria mais prudente contratarmos outra pessoa?
— Alejandro deve estar alerta.
E, depois, tem aquele touro que ele arranjou por amigo.
Damian não desgruda do lado dele.
— Oh! Lúcio, o que vamos fazer? -— ela se atirou em seus braços, chorando dolorosamente.
Eu o amo, não quero ter que me separar de você.
Quero ser sua esposa, só sua.
- Você será.
Encontraremos um jeito de acabar com a vida dele.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 24, 2015 10:27 am

- Tenho medo.
E se eu for presa?
- Isso não vai acontecer.
Não vou permitir.
Podemos fugir para a Terra do Brasil, e ninguém nunca há de nos descobrir.
Rosa apertou a mão de Lúcio, sentindo esvair-se a confiança que tinha antes de Alejandro partir no navio.
Lúcio começou a beijá-la e, em breve, o silêncio dominou o ambiente, entrecortado pelos gemidos de prazer de Rosa.
Esquecera-se, por instantes, de Alejandro, envolvida no calor excitante do amado.
Com o ouvido colado contra a janela, Damian não perdia uma só palavra do que eles diziam.
Quando Rosa entrou na casa, ele se aproximou e foi acompanhando a direcção das vozes, que passaram de um cómodo a outro, seguindo o rastro da luz das velas.
A casa era muito pequena, talvez dois ou três cómodos, e fora comprada por Lúcio para facilitar os seus encontros.
Não distava muito da casa de Alejandro, para que Rosa pudesse caminhar sem ter que tomar nenhuma charrete ou carruagem, de forma a não chamar atenção.
O plano o indignou, e ele partiu dali com a cabeça fervilhando de ideias de vingança.
Alejandro era seu único amigo.
Mesmo doente, não o abandonara e cuidara dele, assim como ele havia salvado a vida de Alejandro e cuidado de sua ferida.
Tinham agora um pacto de vida, porque viviam graças aos cuidados recíprocos.
Era em nome desse pacto que não pretendia deixar que Alejandro fosse enganado pela mulher e o amante, muito menos permitiria que o matassem.
Damian despertou Alejandro de seu sono leve.
Durante boa parte da noite, Alejandro permanecera à espera de notícias sobre o possível encontro de Rosa e Lúcio.
Como o amigo demorava a voltar, cochilou por instantes, e não foi preciso muito esforço para acordá-lo.
— Damian! -— exclamou eufórico, totalmente desperto.
E então? Alguma notícia?
Viu alguma coisa?
— Suas suspeitas têm fundamento.
Segui Rosa até uma casinha perto daqui e ouvi sua conversa com Lúcio.
Pretendem matá-lo e fugir para as Terras do Brasil.
Alejandro deu uma risada abafada, porém sinistra, e acrescentou com desdém:
— Talvez devêssemos deixá-los ir.
Lá também só tem índios.
Com um pouco de sorte, quem sabe eles não são devorados por uma tribo de canibais?
— Gostaria de fazer com eles o que fez com Soriano?
— Não, meu amigo, não é bem assim.
Para Rosa e Lúcio guardo uma vingança mais doce.
Quero ter o prazer de acabar com suas vidas com minhas próprias mãos, e não posso roubar-me o prazer de vê-los agonizar e morrer.
— Sabe que vou ajudá-lo, não sabe? -— Alejandro assentiu.
Você é o único amigo que tenho, e tudo farei que estiver ao meu alcance para que você lave sua honra.
— Obrigado, meu amigo.
Em breve, muito em breve, alcançaremos sucesso.
— Como é que você pretende fazer isso?
Eles não são tolos.
— Você vai ver.
Mas, por ora, é melhor que se vá.
Não seria prudente que Rosa o visse aqui a esta hora da noite.
Poderia pôr todo o nosso plano a perder.
— Você já tem um plano?
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Ave sem Ninho

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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

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