Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 29, 2015 10:11 am

Capítulo 24

Licínio tapava os ouvidos e caminhava de um lado a outro do quarto, tentando não escutar a gritaria que Teodoro espalhava pela casa toda.
Fugindo da babá francesa, o menino se escondia nos cantos mais improváveis, pondo-se a berrar todas as vezes que ela o encontrava e tentava pegá-lo no colo.
- Viu o que você conseguiu, afastando Aracéli de Teodoro? - Licínio acusou Esmeraldina.
O menino parece estar possuído.
- Cruz-credo, Licínio!
Esmeraldina persignou-se e o encarou com zanga.
- Teodoro foi mal-acostumado por aquela índia.
Agora vai receber educação de verdade.
O berreiro diminuiu, e ele destapou o ouvido, acercando-se da mulher e tomando-lhe as mãos.
- Quando é que você vai me perdoar, Dina? -— sussurrou com ar súplice.
Será que já não me puniu o bastante?
- Como posso perdoá-lo se você ainda pensa naquela sem-vergonha?
- Engano seu.
Eu apenas acho que Aracéli era boa para Teodoro.
- E para você também, não é mesmo?
- Não diga isso, minha querida.
Já lhe falei que Aracéli foi apenas mais uma prostituta.
Você é que é minha esposa, a mulher pura e merecedora de todo o meu respeito e admiração.
- Não me venha com bajulações.
Você ainda não me contou o que fez com ela.
- Eu a devolvi a padre Gastão, já disse.
- Ela que fique por lá!
Teodoro está muito bem com Aneci
- Bem se vê — ironizou ele.
Ele só falta bater naquela francesa branqueia e sem sal.
- Isso é porque ele ainda não se acostumou.
Aneci é boazinha e vai pegar o jeito.
- Se ele vier um dia a compreender o que ela diz.
Quem é que entende aquela fala nasalada e arrastada de erres?
- É muito fino. E quer saber?
Não quero mais ouvir falar naquela cabocla desavergonhada.
Se sente tanta falta dela assim, pode se juntar a ela na casa do padre.
Aproveite e peça a ele para casar vocês dois.
- Que sacrilégio, Dina!
Já sou casado e não quero outra mulher além de você.
- Pois, então, chega de falar em Aracéli!
Ou vou pensar que você ainda a deseja e que a encontra às escondidas.
- Isso é um disparate!
Nunca mais fui à casa de padre Gastão.
Pergunte a quem quiser.
Ela o fitou em dúvida, mas não disse nada.
Era melhor não cutucar muito, ou acabaria perdendo o moral.
Para Licínio, era preciso estar alerta.
Ele estava levando Aracéli aos domingos para ver padre Gastão, mas tinha que parar com aquilo.
Alguém poderia vê-lo, e o que não faltavam eram mexeriqueiros que se compraziam em envenenar a vida alheia.
No dia seguinte, ele levou a notícia a Aracéli:
- Você não vai mais poder ver padre Gastão com tanta frequência.
Minha mulher está ficando desconfiada e pode descobrir que a escondi.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 29, 2015 10:11 am

- Mas, senhor Licínio, isso não é justo.
Vivo aqui sozinha, e padre Gastão é minha única alegria.
- Lamento, Aracéli, mas minha mulher vem em primeiro lugar.
- Pois, então, permita que ele venha me ver.
Ao menos uma vez.
- Não, de jeito nenhum!
- Por quê?
O que ele poderá fazer contra o senhor se descobrir onde estou?
- Quem é que vai saber o que a cabeça daquele padre é capaz de tramar?
- Se o senhor tem medo de que ele me facilite a fuga, não deveria.
Sabe muito bem que, se eu quisesse fugir, já o teria feito.
Não envolveria padre Gastão nisso.
- Vou fazer o seguinte -— retrucou ele, para encerrar o assunto:
- Uma vez por mês, mando um escravo levá-la até ele. E é só.
Havia rancor nos olhos de Aracéli quando ela os voltou para ele:
- Tenho vivido em silêncio por todo esse tempo, obedecendo às suas ordens e submetendo-me à sua luxúria.
Não vou permitir que me afaste de padre Gastão novamente.
- Você não tem que permitir nada.
Será que ainda não se convenceu de que quem manda aqui sou eu?
Mando nesta casa, em você e até em padre Gastão.
E agora chega dessa conversa.
Tenho sede do seu corpo.
Ele a puxou bruscamente e a beijou, mas ela o afastou com um gesto súbito.
Tapando a boca com uma das mãos, correu porta afora, bem a tempo de evitar vomitar no soalho da sala.
- O que você tem? -— perguntou ele, entre a preocupação e a desconfiança.
- Não sei dizer.
Devo ter comido alguma coisa estragada.
Desde ontem não me sinto bem.
Aracéli voltou para dentro, e ele ficou olhando-a com ar de suspeita.
Seria possível que ela...
Afastou o pensamento com a rapidez de um relâmpago, temendo que o pior tivesse acontecido.
- Como está o seu sangramento? -— sondou ele, e ela silenciou, com medo da reacção dele ao saber que estava grávida.
Vamos, responda-me: como está o seu sangramento?
- Não é o que está pensando...
Licínio não disse mais nada.
Saiu desabalado pela porta, montou no cavalo e disparou pela estrada poeirenta.
Voltou duas horas depois, acompanhado de um homem que ela nunca havia visto.
- Venha cá, Aracéli -— ordenou ele, puxando-a bruscamente pelo braço.
Tire a roupa e deite-se aí.
- O quê? -— espantou-se ela.
Quer que eu me dispa diante de um estranho?
- Ele não é um estranho.
É um médico e veio examinar você.
- Não estou doente -— objectou ela, de má vontade.
- Sabemos que não está, não é mesmo?
Mas o doutor está aqui para tirar a prova.
- Não preciso de médico.
Ela apertou a gola do vestido, como se quisesse proteger o corpo, e foi-se afastando para o canto da parede.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 29, 2015 10:11 am

O doutor fitou Licínio com impaciência e disse com irritação:
- Vamos logo com isso, senhor Licínio.
Tenho muitos pacientes para atender.
O médico concordara em atender o seu chamado porque Licínio lhe pagara uma importância muito além dos seus honorários, mas não podia reter-se ali por muito tempo.
Já bastante agastado, Licínio segurou Aracéli pelo pulso e atirou-a na cama falando com rispidez:
- Tire logo essa roupa, se não quiser que eu a rasgue.
- Não é preciso — contestou ela novamente.
Já sei o que ele vai encontrar.
- Mas eu quero saber! -— vociferou Licínio.
- Eu estou grávida! —- confessou ela, retendo os soluços.
Licínio se atirou sobre ela, que tentava afastá-lo a tapas.
Deitou-a com brutalidade e rasgou toda a sua roupa.
- Examine-a! -— gritou para o médico, enquanto ela chorava de humilhação.
O doutor fez um breve exame, mas só de olhar para a barriga de Aracéli já dava para reconhecer a gestação.
- Não sei como o senhor não percebeu -— disse ele.
O ventre já demonstra um leve sinal de elevação.
- Arranque-o! -— ordenou ensandecido.
Agora mesmo, arranque-o!
Não quero um bastardo na família.
O médico guardou seus instrumentos na maleta e fixou bem o olhar em Licínio.
Não entendia por que aquela gente se deitava com miseráveis feito as índias para depois se surpreenderem quando engravidavam.
Contudo, não lhe cabia questionar os motivos de homens ricos feito Licínio, e ele simplesmente anunciou:
- Lamento, mas o que me pede é impossível.
Há leis que o clero fez aprovar impedindo tal prática.
- Não há leis aqui entre nós.
Faça o aborto e será regiamente recompensado.
- Não carrego comigo os instrumentos necessários e não estou familiarizado com essa operação.
Todavia, se essa for mesmo a sua vontade, posso arranjar quem o faça, mediante quantia módica.
- O que está esperando, homem?
Vá agora mesmo buscar essa pessoa!
- Para agora, não prometo.
Amanhã, contudo, lhe enviarei uma parteira.
- Parteira?
Isso é alguma piada?
- Uma mulher que está acostumada a esses serviços.
Pague-a e tudo ficará bem.
- Está certo.
Até amanhã, então.
Mas não se atrase!
O médico apanhou a maleta e já ia saindo, quando voltou para dentro e, encarando Aracéli com desdém, indagou:
- Por que não manda que ela mesma faça?
Esse povo índio conhece as ervas melhor do que ninguém.
Duvido que ela não saiba de uma que seja abortiva.
Disse isso e saiu.
Licínio voltou-se para Aracéli, mas ela foi logo se adiantando:
- Não é verdade, senhor Licínio.
Eu nada sei sobre ervas.
Fui criada por um padre, desconheço os segredos de meu povo.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 29, 2015 10:11 am

- Idiota -— murmurou ele.
- Por favor, deixe-me ficar com a criança.
Para servir de alegria aos meus dias.
- Acha mesmo que vou permitir que você crie um bastardo?
Um filho para se igualar a Teodoro?
É muita audácia!
Filhos só tenho com minha mulher legítima, que é e sempre será Esmeraldina.
Você não é ninguém, Aracéli.
É só... uma caboclinha apetitosa que me serve de distracção -— ele segurou-a pelos punhos, encarando-a com chispas nos olhos.
Minha cabocla, minha!
Posso fazer com você o que bem entender.
Quem vai descobrir?
Quem vai se importar?
Aracéli não aguentava mais a humilhação.
Ele a empurrou violentamente, e ela encolheu-se na cama, as lágrimas transbordando de seus olhos aos borbotões.
Vendo-a tão frágil e tão indefesa, Licínio não teve compaixão, mas sentiu crescer dentro do peito a sensação de poder absoluto que detinha sobre ela.
Aproximou-se do leito em que ela estava, nua e toda encolhida, e puxou os seus braços que abraçavam os joelhos.
Forçou-a a deitar-se novamente e a beijou com fúria.
Ela nem tinha mais forças para resistir.
Apenas gemia baixinho e chorava, implorando a Deus que a levasse e a seu filho ainda não nascido.
Ele mordeu-lhe os lábios e olhou para ela, comprazendo-se com suas lágrimas.
Ela estava deitada de costas, o corpo todo trémulo exposto à luz das velas.
Licínio foi admirando-lhe as formas, até que seus olhos ultrapassaram as coxas e se detiveram sobre o ventre.
A elevação minúscula trespassou a sua vista como um dardo incandescente, e um ódio surdo se apossou dele.
Instintivamente, fechou o punho e desferiu violento murro na barriga de Aracéli, que se dobrou sobre si mesma, presa de infinita dor e agonia.
O golpe foi tão forte que ela sentiu-se sufocar, um gosto acre de sangue subindo-lhe à boca.
Debruçou-se sobre o ventre e vomitou em cima da cama, fazendo com que Licínio se afastasse, enojado.
- Por que fez isso? -— gemeu ela, mal conseguindo articular as palavras.
Na esperança de que o feto não houvesse resistido ao golpe, Licínio permaneceu afastado, olhando com ansiedade para as coxas de Aracéli.
Nenhum sangue desceu por ali, e a ideia de desferir-lhe um novo soco o assaltou, porém, algo deteve a sua mão.
Talvez fosse melhor desfazer-se da cria com a erva abortiva que a parteira iria ministrar a Aracéli no dia seguinte.
Mal contendo a ansiedade, Licínio, logo pela manhã, partiu em busca do médico, que lhe forneceu o endereço da parteira.
Ela estava prestes a sair para um parto, mas a soma em ouro que ele lhe ofereceu encheu os olhos da mulher de cobiça, e ela desistiu de atender à parturiente para ir com ele.
Aracéli estava na cabana, vigiada por Rufino, escravo de confiança de Licínio, e se encolheu quando ele chegou, tentando proteger a barriga com as mãos.
- Espere lá fora -— disse ele para o escravo.
Rufino se foi, e Licínio aproximou-se de Aracéli com a parteira, que a encarava com ar divertido.
A mulher abriu sua sacola e dela retirou um frasquinho.
Entornou o conteúdo numa caneca e estendeu-a para Aracéli.
- Beba -— falou com autoridade.
Aracéli não bebeu.
Deu um tapa na caneca, que voou longe, derramando todo o líquido no chão.
O sangue de Licínio começou a borbulhar nas veias, e ele agarrou a moça pelos ombros, sacudindo-a violentamente.
- Idiota! -— vociferou ele. — Mil vezes idiota!
O que foi que você fez?
Ela tentou se esquivar, mas Licínio a prendia com firmeza, fulminando-a com seu olhar de ódio.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 29, 2015 10:11 am

- Deixe estar, senhor -— sossegou-o a parteira.
Já prevendo essa reacção, trouxe mais poções.
Ela abriu um novo frasco e, dessa vez, Licínio estava preparado.
Deitou Aracéli na cama e imobilizou-a, enquanto segurava a cabeça dela para trás, forçando-a a abrir a boca.
Num gesto rápido e preciso, a mulher deitou o líquido, que desceu pela sua garganta, fazendo com que Aracéli engasgasse e tossisse.
Certificando-se de que ela engolira tudo, Licínio a soltou.
- Pode ir agora -— falou para a mulher.
Já fez a sua parte.
E lembre-se: nem uma palavra!
- Pode contar com a minha discrição, senhor.
Não direi nada a ninguém.
A mulher não sabia quem ele era nem onde morava, nem lhe importava.
Só o que queria era o dinheiro.
Aracéli ficou jogada sobre a cama, chorando amargamente a perda do filho que nem chegara a nascer.
Nada disso comovia Licínio.
Permaneceu alguns instantes a mirá-la com irritação, até que disse secamente:
- Quando esse filho descer pelas suas pernas, poderemos retomar nossa vida.
Por ora, você me dá nojo -— ele colocou a cabeça para fora da cabana, e o escravo reapareceu.
- Tome conta dela.
Amanhã voltarei para ver como estão as coisas.
Em seguida, partiu.
Aracéli olhou para Rufino, que permanecia parado na porta, impassível.
Naquele momento, sentiu que nada mais possuía que pudesse prendê-la à vida, ao mesmo tempo em que uma força invisível lhe dizia que não era hora de desistir.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 30, 2015 10:13 am

Capítulo 25

- Um dia se foi, e nada aconteceu.
Passaram-se mais dois, três, quatro dias sem que Aracéli desse mostras de que havia abortado a criança.
As ervas que a mulher lhe ministrara não surtiram efeito.
Em casa, Licínio dava mostras de aflição ao caminhar de um lado a outro em seu gabinete ou ficar parado, o olhar perdido e a mente mergulhada no mar do desespero.
Como era de se esperar, Esmeraldina percebeu-lhe o desassossego, e uma desconfiança indizível roubou-lhe a tranquilidade.
- O que está acontecendo? -— perguntou ela.
Como é que Licínio iria lhe dizer que a índia que ela tanto detestava carregava no ventre um filho seu?
- Problemas no garimpo -— mentiu ele.
A resposta de Licínio não a satisfez, mas ela fingiu acreditar.
O que quer que fosse que estivesse acontecendo, era melhor não saber.
Se havia problemas com a índia, que ele resolvesse sozinho.
Não era apenas Esmeraldina quem percebia a preocupação de Licínio.
Os escravos também haviam notado, principalmente Zenaide, que ainda remoía o despeito por ter recebido de presente, em vez da maravilhosa jóia com que sonhara, apenas um xale velho e puído.
Nesse ínterim, padre Gastão se contorcia de preocupação.
Aracéli não aparecera naquele domingo, e Licínio não mandara ninguém avisar.
Nos dias que se seguiram, a todo instante ele corria para a porta de casa ou pausava a liturgia sempre que escutava o ruído de alguém entrando atrasado na igreja.
Mas nunca era Aracéle.
Quando ela não apareceu no domingo seguinte, tomou uma decisão: esperou até o término das missas matinais, montou em seu burrico e partiu para a casa de Licínio.
O homem tinha que lhe dar alguma explicação.
Chegou perto da hora do almoço, e um escravo correu a anunciar a sua chegada.
- Padre Gastão? -— surpreendeu-se Esmeraldina.
Aqui! Mas o que será que ele quer?
É claro que Licínio sabia o motivo que levara o outro a procurá-lo em sua casa e foi tomado de imensa raiva pela atitude do padre.
Sem responder à mulher, saiu apressado ao encontro de Gastão.
Ele estava na sala, em pé perto da porta, e Licínio agarrou-o pelo braço, puxando-o para o lado de fora.
Passou pela lateral da casa e foi com ele para os fundos, levando-o até um tronco de árvore cuidadosamente talhado para servir de banco e estrategicamente colocado à sombra de uma mangueira.
- O que está fazendo aqui? -— rilhou entre os dentes.
Minha esposa já não disse que não o quer em nossa casa?
- Quero saber onde está Aracéli.
Exijo que me responda.
- O senhor não exige nada!
Aracéli não lhe pertence mais. Ela é minha!
- Ou o senhor me conta o que fez com ela, ou vou agora mesmo procurar sua esposa e dizer a ela que o senhor mantém Aracéli escondida.
- Quieto! -— sibilou ele, apertando o braço do clérigo.
Faça isso e nunca mais a verá com vida.
- Está ameaçando-a de morte?
Se quer que eu me cale diante dessa barbaridade, vai ter que me matar também!
- Muito nobre de sua parte, mas sua vida não tem valor para mim.
O senhor não é nada!
- Solte-me -— replicou ele baixinho.
Ou vou começar a gritar.
- O senhor parece um maricas -— desdenhou ele.
Já usa saias e se comporta como uma mulher.
Vamos, dê os seus gritinhos!
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 30, 2015 10:13 am

As humilhações não atingiam padre Gastão, que só se importava com Aracéli.
Alguma coisa em seu íntimo ficava martelando e dizendo que ela não estava bem.
- O que fez com Aracéli? -— retrucou Gastão, olhando ao redor para ver se a via.
Com medo de que a atitude do padre acabasse atraindo a atenção de Esmeraldina, que devia estar em casa morta de curiosidade, Licínio respondeu calmamente:
- Ela não está aqui.
- Onde ela está?
- Em um lugar seguro.
Que lugar é esse?
- Não posso dizer-lhe.
Mas asseguro-lhe que ela está bem.
- Por que não a levou para visitar-me?
Faz dois domingos que não a vejo.
- Não posso mais levá-la sempre.
Vai ter que se contentar com visitas esporádicas, de acordo com a minha disponibilidade.
- Alguma coisa está acontecendo, senhor Licínio, sei que está.
Exijo saber o que é.
- Não está acontecendo nada!
Nesse instante, a silhueta de Esmeraldina delineou-se na porta, e Licínio quis acabar logo com aquela conversa, para se livrar do padre o mais rápido possível e voltar para a esposa antes que ela resolvesse sair.
- Olhe, padre -— disse ele, em tom mais ameno - Aracéli está tendo uns probleminhas, mas nada que não se resolva.
- Ela está doente? -— ele meneou a cabeça, e Gastão ficou algum tempo parado, pensando, até que exprimiu alarmado:
Ela está grávida!
O olhar silente de Licínio já dizia tudo, e Gastão abaixou a cabeça, escondendo entre as mãos os olhos humedecidos.
- Fale baixo, homem! -— repreendeu Licínio, olhando ao redor.
Que isso não saia daqui, ou as consequências serão altamente desastrosas.
- Minha pobre menina... sozinha, com uma criança no ventre.
Por favor, senhor Licínio, deixe-me vê-la.
Permita-me levá-la de volta para casa.
Cuidarei dela e da criança como sempre cuidei, e ninguém nunca ficará sabendo que o filho é seu.
A proposta até que era tentadora, mas ele não podia deixar arma tão poderosa nas mãos de seus inimigos.
Só se o padre sumisse dali com Aracéli...
Tudo ficaria bem, e ele não precisaria mais se preocupar com a índia nem com seu filho bastardo.
- Pensando melhor, padre, talvez o senhor esteja com a razão.
Acho que já é mesmo hora de Aracéli desaparecer da minha vida.
- Deus seja louvado!
Podemos ir buscá-la imediatamente.
- Calma, não se apresse.
Eu não disse que ia buscá-la.
Apenas concordei que seria boa ideia sumir com Aracéli da minha vida.
Ela não pode continuar aqui. É perigoso demais.
As más-línguas falam, e logo Esmeraldina ficará sabendo.
É imperioso que minha mulher não descubra nada.
Muito menos Teodoro, meu único e legítimo herdeiro.
- Seu filho é uma criança amorosa e ficaria feliz com um irmãozinho vindo de Aracéli...
- Jamais ouse dizer isso novamente! -— rugiu Licínio com raiva, apertando os ombros de Castão.
Meu filho, um menino branco, de linhagem pura, jamais poderia se misturar a um bastardo mestiço e rude.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 30, 2015 10:13 am

Gastão engoliu em seco, mas não se deixou abater:
- Perdoe-me se o ofendi, senhor Licínio.
Só o que quero é de volta minha Aracéli.
- Minha Aracéli -— corrigiu ele.
Posso devolvê-la ao senhor com uma condição.
- O que quiser.
- Que o senhor a pegue e suma com ela daqui para sempre.
- Isso não é problema.
Posso pedir a meus superiores que transfiram...
- De preferência, para uma paróquia do outro lado da colónia -— interrompeu Licínio.
- O que o senhor quiser.
- Não posso permitir que Aracéli crie o bastardo -— divagou ele.
- Não será preciso.
Nós iremos embora daqui, e o senhor não terá notícias da criança.
- Não lhe dirá quem é o seu pai?
- Nunca.
- Jura?
- Juro -— respondeu o clérigo, sem titubear.
Farei o que for preciso para salvar a vida de Aracéli e do filho que ela carrega.
- Óptimo. Providencie tudo para a partida e, quando estiver preparado, mande avisar-me.
Só então trarei Aracéli.
- Pensei que o senhor fosse levá-la de volta imediatamente.
- Nada disso.
Não posso me arriscar a expor a sua barriga.
Já está ficando volumosa, sabe?
- E daí? Ninguém sabe de nada e Aracéli vai ficar dentro de casa.
Garanto-lhe que não vai aparecer em público.
- Não vou colocar em risco a honra de minha mulher e meu filho.
Sempre há os mexeriqueiros, e alguém pode fazer um comentário maldoso.
O senhor sabe como são essas coisas de maledicência, não sabe?
A intriga logo se espalha, e aí, mesmo que não seja real, é no que todo mundo acredita.
Ainda mais no meu caso, em que o mexerico é verídico.
- Mas Aracéli pode estar precisando de ajuda.
Uma menina sozinha e grávida...
- Não se preocupe com isso.
Aracéli não é mais menina há muito tempo.
É uma mulher. E que mulher!
O senhor nem imagina o quanto de experiência ela adquiriu comigo.
- Nada disso me interessa -— cortou o padre, rispidamente.
- Pense no lado positivo -— prosseguiu Licínio, deleitando-se com a repulsa de Gastão.
O senhor não vai mais precisar trabalhar para a Igreja.
Pode ir viver com Aracéli e fazê-la trabalhar para o senhor, fazendo... o senhor sabe o quê.
Garanto que não lhe faltarão clientes.
- Deveria se envergonhar! - exasperou-se Gastão, pondo-se de pé e encarando-o com revolta.
Eu sou um sacerdote e Aracéli é uma menina que foi violada em sua inocência.
Nada que o senhor faça poderá macular a alma dela, que é pura e está livre dos seus pecados.
Ele acentuou bem as últimas palavras, apontando um dedo acusador para Licínio.
Por uns momentos, o homem pareceu que ia reagir, mas logo relaxou as faces e sorriu maliciosa e sarcasticamente.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 30, 2015 10:14 am

- Pode ir agora, padre -— falou Licínio, enxotando o outro com um gesto de mãos.
E não se esqueça:
quando tudo estiver pronto para a partida, avise-me.
Entrego-lhe Aracéli, e vocês somem no mesmo dia.
Gastão sabia que não adiantaria mais tentar discutir com Licínio.
Levantou-se furioso e voltou para o lugar onde havia deixado o burrico, retornando com incontida raiva a crescer-lhe no peito.
Era-lhe difícil honrar a expressão do sacerdócio diante de um demónio feito Licínio.
Contudo, uma chance se abria.
Ele estava disposto a aceitar qualquer paróquia, mesmo no mais remoto rincão, desde que levasse Aracéli consigo.
E era isso mesmo que faria.
Levaria sua filha dali, para um lugar onde ela pudesse criar a criança longe das atrocidades de Licínio.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 30, 2015 10:14 am

Capítulo 26

Depois que Gastão se foi, Licínio permaneceu arda alguns minutos sentado no banco e aguardando até que a emoção daquele encontro se dissipasse entre as árvores.
Esmeraldina devia estar esperando que ele entrasse para despejar sobre ele uma saraivada de perguntas, para as quais lhe exigiria respostas convincentes.
Enquanto permanecia reunindo forças para enfrentar a mulher, um vulto pequenino se esgueirou entre as árvores, ocultando-se no mato e nos arbustos.
Sem que ninguém percebesse, Zenaide os havia seguido.
Ao perceber que a visita era de padre Gastão, tratara de se pôr em alerta.
Quando Licínio o apanhou pelo braço, Zenaide foi espiar da janela e viu-os encaminharem-se para os fundos da casa.
Da porta da cozinha, não foi difícil divisá-los no banco do pomar, e ela conseguiu escapulir sem ser notada e aproximar-se em total silêncio, disfarçando o som de seus passos com o rebuliço das aves refastelando-se ao sol.
Aproximou-se cautelosamente e tomou lugar no arbusto mais próximo, de onde tinha certeza que não seria vista.
Ouvidos aguçados, pôs-se a escutar.
A distância que havia entre eles não era pequena, de forma que ela ouvia parcialmente a conversa, pescando aqui e ali uma palavra de indignação ou raiva pronunciada em tom mais elevado.
Embora não conseguisse captar todo o sentido do diálogo, a menção à gravidez de Aracéli chegou nítida aos seus ouvidos.
Ouvira claramente a afirmação do padre de que Aracéli estava grávida, e a reacção de Licínio, que o mandara falar baixo.
Era difícil para ambos manter o tom ameno da conversação, e se exaltavam a todo instante, tornando o colóquio perfeitamente audível.
De posse da preciosa informação, Zenaide aguardou até que padre Gastão se levantasse para então voltar à casa dos patrões.
Por sorte, Licínio ficara onde estava, dando-lhe a oportunidade de chegar primeiro e contar a novidade a Esmeraldina.
- O que foi, Zenaide? -— perguntou a mulher de má vontade, mais interessada no retorno do marido.
Estou ocupada.
- Não quer saber o que sinhó Licínio estava conversando com o padre? -— retorquiu ela, em tom malicioso e divertido.
- O que você sabe disso?
- Eu ouvi tudinho o que eles disseram.
- Como?
- Sou esperta, sinhá.
Quando vi o sinhó correndo com o padre para o pomar, logo vi que devia ser para tratar de alguma coisa sobre Aracéli.
E foi isso mesmo.
O padre veio aqui para saber da índia.
- Tem certeza?
- Tenho, sim.
O padre estava muito preocupado.
Zenaide fazia mistério de propósito, guardando a melhor parte para o final.
- Mas, então, Aracéli não voltou a morar com ele -— disse Esmeraldina.
- Não, sinhá.
Sinhó Licínio escondeu ela.
- Onde?
- Isso, eu não sei.
Mas sei de uma coisa que é muito pior e que a sinhá vai ficar furiosa se souber.
- O que é?
Vamos, criatura, conte-me logo!
Ou quer levar uma surra?
Antegozando cada palavra, Zenaide contou a Esmeraldina sobre a gravidez de Aracéli e o plano de Licínio e do padre para levá-la para longe.
Ficou observando o rosto da mulher mudar de cor a cada parte da revelação, desde o lívido, quase desmaiado, até o rubro lustroso e explosivo.
- Infame! -— esbracejou ela, por fim.
Canalha! Patife! Vil! Imundo!
Obsceno! Degradado! Desprezível!
Esmeraldina seguia com seu repertório de pragas, que Zenaide, à excepção de imundo, não conhecia.
Imaginou, contudo, que não deviam ser palavras boas, do contrário, ela não estaria com o rosto em chamas e a língua cuspindo fogo.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 30, 2015 10:14 am

Em pouco tempo, Licínio recuperou o ânimo e resolveu voltar para dentro de casa.
Ao aproximar-se do quarto, ouviu a voz estridente da mulher, e as imprecações perfuraram seus ouvidos.
Por um momento, tomado de susto pela energia de ódio que ela espalhara no ambiente, Licínio sentiu medo e pensou em voltar.
Seria possível que ela houvesse escutado a sua conversa com padre Gastão?
A imagem de Esmeraldina saindo sorrateiramente de casa e embrenhando-se na mata para ouvi-los não casou bem com o que ele conhecia da mulher, e Licínio teve certeza de que ela nada escutara pessoalmente.
Precisava, contudo, enfrentar a sanha descontrolada da mulher e descobrir do que se tratava.
Enchendo-se de coragem, abriu a porta do quarto e entrou.
A primeira coisa que viu foi Zenaide parada a um canto e, num átimo, compreendeu tudo.
Já andava mesmo desconfiado de que fora ela quem o delatara à mulher.
Deu uma olhada ameaçadora para a escrava e aproximou-se da esposa, que gritava com Zenaide, de costas para ele.
- Dina -— chamou ele, e ela se virou para olhá-lo.
O que foi que houve?
- Saia daqui, Zenaide -— ordenou ela friamente.
A escrava se foi, e Licínio desejou ir atrás dela para aplicar-lhe uma sova.
No entanto, o ar intimidador de Esmeraldina o paralisou.
Cuidaria da escrava depois.
- Posso saber o que está acontecendo? -— insistiu ele, já conhecendo a resposta.
- Como se atreve a entrar aqui assim, seu descarado?
Depois de tudo o que fez?
Ela avançou para ele com ar tão aterrador, que Licínio recuou, temendo que ela tivesse em mãos alguma faca oculta.
- Do que está falando? -— tornou ele, não querendo fazer revelações antes de ser acusado.
- Você sabe do que estou falando!
De você e de sua prostituta índia!
- O que foi que lhe contaram, Dina?
- Não me obrigue a repetir as infâmias que ouvi a seu respeito!
Seria uma humilhação desnecessária.
Já não basta eu saber que a sua amante está esperando um filho seu, e com as bênçãos de um padre da Igreja?
- Você se deixa impressionar pelas palavras de uma negra?
Vai dar crédito ao que Zenaide contou?
- E ela mentiu, por acaso?
Vai me dizer que Aracéli não está grávida?
Não adiantava mais mentir, e a afirmação de Licínio buscava uma brecha para a desculpa:
- Sim, mas...
Todo o sangue de Esmeraldina borbulhou, tornando seu corpo tão quente quanto a cratera de um vulcão, e ela vociferou, cuspindo lavas:
- Mas o quê? Ela está grávida, mas o filho pode ser de qualquer um?
É nisso que espera que eu acredite?
- Não... Mas estou tomando minhas providências.
Vou fazer com que ela desapareça de nossas vidas para sempre.
- O único jeito de fazê-la desaparecer para sempre é acabar com a vida dela - sugeriu Esmeraldina, os olhos ofuscantes como a sombra do mal.
- Você quer dizer matá-la?
- A ela e ao seu bastardo imundo!
Ou pensa que vou dividir o lugar de Teodoro com uma criança morena de sangue selvagem?
- Não precisa.
Padre Gastão irá levá-la embora...
- Aonde quer que ela vá, o fruto do seu pecado vai estar com ela, pairando sobre nossas cabeças como um machado inimigo prestes a nos desfechar o golpe fatal.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 30, 2015 10:14 am

- Você exagera.
Ela é apenas uma índia, nada pode contra nós, que somos ricos e poderosos.
E eu estou prestes a receber o título de barão.
- Pior ainda!
Espera exibir o seu título sobre a desonra de um bastardo?
- Não é bem assim, Dina.
Vou lhes dar dinheiro, e eles vão sumir.
- E voltar um dia para exigir os direitos do seu bastardo?
- Eles não farão isso.
Tenho a palavra de padre Gastão.
Além do mais, a criança não terá direito algum.
Apenas Teodoro é fruto de nossa união abençoada.
Aracéli é só... uma prostituta cabocla.
- Pois eu exijo que essa prostituta morra, bem como o filho que está emprenhado nela.
Ou você a ama tanto que não pode ficar sem ela?
É isso, Licínio?
Você a ama, a ela e a seu filho, mais do que a Teodoro e a mim?
- Não cometa um sacrilégio desses!
Você e Teodoro são tudo o que tenho.
Aracéli serviu apenas para minha diversão.
- Pois está na hora de você cancelar seus divertimentos.
Acabe com ela e com aquele padre indecente se ele ousar interferir.
- Tenha calma, Dina.
Matar Aracéli é uma coisa:
ela é índia, e ninguém vai se importar com uma índia a menos no mundo.
Mas padre Gastão é um homem da Igreja.
Pode ser que haja algum tipo de reacção.
- Não me interessa! -— vociferou ela, ensandecida.
Só o que quero é que se livre da cabocla!
Livre-se daquela ordinária, ou voltarei para a casa de meus pais em Salvador, levando Teodoro comigo.
E ninguém vai conseguir me impedir.
- Você não faria isso.
Seria uma vergonha para a sua honra de mulher casada.
- E uma desonra a pesar na sua pretensão ao baronato.
- Não faça isso, Dina, eu lhe imploro -— ele se atirou a seus pés, beijando-os em sinal de humilhação.
Sou capaz de qualquer coisa por você e Teodoro.
Mas, por favor, não me abandone.
De nada valem títulos e ouro sem o seu amor e o de meu filho.
- Como ousa falar em amor depois de tudo o que fez?
- Não confunda as coisas, minha querida.
Aracéli é apenas um joguete, um capricho da minha vaidade masculina.
Nada é, se comparada a você.
Você é a minha doçura, minha vida, sustentáculo da minha existência, a única mulher que amo e por quem vale a pena viver.
E Teodoro... não tenho palavras para descrever, mas eu seria um homem pela metade se perdesse o amor e o respeito do único ser que posso chamar verdadeiramente de filho.
As declarações de Licínio foram consideradas satisfatórias por Esmeraldina, que deixou escapar o sorriso arrogante da vitória.
- Se é assim -— prosseguiu ela com a superioridade do triunfo - faça o que lhe peço:
mate Aracéli e livre-nos de sua cria espúria.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 30, 2015 10:15 am

É a única maneira de me manter ao seu lado.
Controlando o pânico, Licínio conseguiu retrucar, com aparente segurança:
- Farei como você me ordena, porque a sua vontade é lei.
Hoje mesmo, providenciarei alguém que dê desfecho a esse drama.
- Não. Você tem que fazer isso pessoalmente.
Só assim vou acreditar que não a ama e não se importa com ela nem com seu filho bastardo.
E quero ver o seu corpo sem vida.
Será uma prova de amor e fidelidade a mim.
Aquela ordem fora inesperada e Licínio saiu derrotado, deixando a Esmeraldina o sabor da vitória.
Não contava com aquela determinação.
Encarregar Rufino de dar cabo de Aracéli não seria tão ruim.
Matá-la pessoalmente exigiria dele muita coragem e frieza.
Tudo por causa daquela maldita escrava!
Quando voltasse, pensaria no castigo mais apropriado para Zenaide.
Por ora, tinha que se concentrar na dolorosa tarefa de, com suas próprias mãos, tirar a vida de Aracéli e levar seu corpo inerte para saciar a sede de vingança de sua mulher.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 30, 2015 10:15 am

Capítulo 27

Na frente de Licínio, partiu Soriano, aterrado.
Do lado invisível, acompanhara toda a conversa, sem perder qualquer detalhe.
Assim que soubera que Aracéli havia engravidado, perdera o sossego.
A hesitação que sentira a princípio cedera ao amor que tinha por Cibele.
Um aborto poderia causar muita dor e sofrimento a ela, e ele já a fizera sofrer demais; Cibele não merecia mais uma tragédia em sua vida.
Decidiu que poderia se vingar de Alejandro depois.
O importante agora era preservar a integridade de Cibele, e se ela escolhera o ventre de Aracéli para se abrigar, era essa a pessoa que ele precisava proteger em primeiro lugar.
Quando Licínio desferira aquele soco inesperado na barriga de Aracéli, Soriano sentiu como se o murro tivesse sido endereçado a ele também, só de imaginar o que teria sentido Cibele lá dentro, recebendo em seu corpo pequenino e indefeso aquele golpe violento.
Por protecção divina, o murro não danificou o envoltório físico da criança, muito embora Cibele, em estado quase adormecido, ainda não totalmente ligada ao feto, tivesse tido uma espécie de convulsão.
Aquilo foi o estopim na mente de Soriano.
Ele não chegara a ver, mas percebera o sofrimento de Cibele através de uma corrente magnética que o ligava a ela pelos laços afectivos que ela, recentemente, fora despertar.
Em desespero, Soriano soprou ao ouvido de Licínio que deveria esperar pela parteira, em vez de usar de violência, e surpreendeu-se quando ele assentiu à sua ideia. Mal sabia que, num plano invisível e superior ao seu, espíritos iluminados enviavam, a distância, fluidos capazes de actuar na mente do encarnado e desestimular o golpe fatal.
Quando Licínio mandara chamar a parteira, o próprio Soriano envidara esforços para impedir o assassinato da amada, convocando seus comparsas para ajudar.
Por determinação superior, espíritos treinados na manipulação de energias foram enviados para obstar o aborto. Haviam adquirido o conhecimento nos muitos anos passados no astral inferior, protegendo antigos companheiros de trevas.
Espíritos de luz poderiam ter ido pessoalmente, mas acabariam assustando Soriano, ainda despreparado para o contacto com seres mais elevados.
Foi por isso que, em respeito a ele, somente espíritos seus conhecidos comparecerem, portando elementos fluídicos neutralizadores da energia abortiva das ervas que Aracéli havia ingerido.
Encerrado o trabalho silencioso, os espíritos se despediram de Soriano e voltaram a seu próprio mundo de sombras, muito embora o gesto de auxílio, prestado de boa vontade e sem queixas, lhes tivesse conquistado a simpatia e a admiração dos seres superiores, angariando créditos a seu favor. Gomo resultado, a poção inexplicavelmente não surtiu efeito, e a gestação de Aracéli prosseguiu incólume.
Agora, contudo, Licínio pretendia matá-la com suas próprias mãos, e contra o ato consciente e determinado dos encarnados, os espíritos nada podiam.
Soriano lhe sopraria conselhos, chamando-o à razão e tentando despertá-lo para a impropriedade do crime.
Mas não havia espírito que conseguisse segurar-lhe a mão e impedir o golpe.
Como Licínio não era acessível, envolvido que estava pela energia de ódio de Esmeraldina e pela sua própria vibração de medo e o desejo de se ver livre de um estorvo, Soriano nada conseguiu com ele.
Licínio nem de longe percebeu-lhe as palavras.
O jeito mesmo era tentar Aracéli.
Encontrou-a adormecida.
No cómodo contíguo, Rufino tirara as botas e se distraía esculpindo imagens toscas de madeira com a ponta do facão.
O corpo astral de Aracéli permanecia flutuando alguns centímetros acima do físico, e Soriano o tocou gentilmente.
Ela despertou e, reconhecendo-o, quis fugir, mas ele foi mais rápido e segurou-a pela mão, impedindo-a de retornar ao corpo e desfazer o contacto com ele.
- Espere um momento — disse ele, transmitindo-lhe certa calma.
Não quero lhe fazer mal.
- Já sonhei com você —- rebateu ela, desconfiada.
Do que me acusa?
- Não estou aqui para acusá-la.
Vim para avisá-la de que você corre grande perigo.
Licínio está, agora mesmo, vindo aqui para matá-la.
Ela não duvidou nem um momento, sentindo a vibração de veracidade nas palavras dele.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 30, 2015 10:15 am

Instintivamente, colocou a mão sobre o ventre diáfano e rebateu com angústia:
- E agora?
O que devo fazer?
- Você tem que fugir.
- E o escravo lá fora?
- Tem que haver algum jeito de passar por ele.
- Ele é grande e é mau.
Não vai ter piedade nem me deixar sair.
Nesse momento, um estrondo se fez ouvir, e Licínio irrompeu pelo quarto.
Na mesma hora, o envoltório físico de Aracéli despertou, puxando de volta o seu corpo fluídico, que não reteve quase nada do breve diálogo que mantivera com Soriano.
Apenas a sensação de perigo permaneceu, e, ao olhar para Licínio, sua alma evocou o alerta de que ele estava ali para matá-la.
- Vá para casa imediatamente! -— ordenou ele a Rufino, que o seguira até o quarto.
Não queria testemunhas de sua covardia.
O escravo não pensou duas vezes.
Conhecia bem o patrão e identificava, como ninguém, quando ele estava dominado pela fúria.
Mais que depressa, enfiou as botinas, apanhou a escultura malfeita do que deveria representar um de seus deuses africanos e saiu, pensando na alegria de sua mulata ao receber o rústico presente.
Em desespero, Soriano gritava e tentava, em vão, acertar o rosto de Licínio, atirando sobre ele réplicas astrais dos objectos presentes.
Nada surtia efeito, porque o invólucro físico e grosseiro de Licínio não sentia as vibrações provenientes daquele outro plano.
Mesmo assim, Soriano ia jogando sobre ele o que encontrava, coisas que iam sumindo no ar à medida que a matéria subtil que as compunha se diluía na atmosfera.
Viu o facão que o escravo, na pressa de sair e recolher o presente da amada, esquecera deitado sobre a mesa.
Atirar aquela réplica astral sobre Licínio não adiantaria.
Tampouco podia levar o facão físico a Aracéli, que não era dotada de sensibilidade para auxiliar a movê-lo.
O jeito então era mudar de método.
Chegou para perto dela e pôs-se a gritar o mais alto que podia:
A faca! O escravo esqueceu a faca!
No princípio, Aracéli não percebeu a movimentação invisível, preocupada que estava com a ameaçadora aproximação de Licínio.
- O que você quer? — perguntou ela, aterrada.
- Por que não me obedeceu, Aracéli? -— retrucou Licínio, o olhar ensandecido de ódio.
Por que não tirou do ventre essa coisa indesejável?
- Não foi culpa minha.
As ervas que a mulher me deu não fizeram efeito.
- E, agora, veja no que deu.
Vou ser obrigado a me desfazer de você.
Ela engoliu em seco e sondou em pânico:
- Como assim?
- O idiota do padre foi procurar-me hoje — prosseguiu ele, como se ela não estivesse ali.
E sabe o que aconteceu?
Aquela estúpida da Zenaide ouviu tudo o que conversamos e correu a contar a Esmeraldina.
Você pode imaginar o escândalo que ela fez.
À medida que ia falando, Licínio foi-se aproximando de Aracéli, que recuava para a sala, com Soriano gritando e gesticulando a seu lado, apontando para o facão que jazia sobre a mesa.
Pegue a faca, Aracéli, a faca!
- Minha mulher me perdoou -— continuou ele.
Mas impôs condições.
Será que você é capaz de adivinhar que condições seriam essas?
Ele chorava enquanto falava, dando mostras de um quase desespero.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 30, 2015 10:15 am

- E agora... o que posso fazer?
Diga-me, Aracéli, que escolha eu tenho?
Ela me mandou acabar com você e o seu filho... nosso filho.
- Por favor... -— suplicou ela, andando para trás e batendo nos poucos móveis espalhados pela sala.
- Eu tentei, Aracéli, juro.
Tentei poupá-la, mas Esmeraldina foi implacável.
Está no direito dela, acho, livrar-se da rival que ameaça a sua família.
Não quis aceitar o plano que eu havia traçado com padre Gastão...
- Padre Gastão? — repetiu ela, sentindo um lume de esperança aquecer-lhe o peito.
- Falei que ele foi me procurar.
Era para ele sumir com você de Vila Rica, ir para bem longe.
O coitado deve estar até agora fazendo os preparativos de uma viagem que não vai acontecer.
Pobre padre...
Ele deu um soluço alto e emendou:
- Minha pobre Aracéli...
Prometo que não vou deixá-la sofrer...
- Por Deus, senhor Licínio, poupe-me!
Eu juro que fujo com padre Gastão e nunca mais apareço por aqui.
Mas não me mate.
Pelo nosso filho, deixe-nos viver!
- Não posso -— sussurrou ele.
Como gostaria de poder, mas não posso.
Fiz uma promessa a Esmeraldina.
- Ela não vai saber.
Diga que me matou e me enterrou ou entregou meu corpo para as onças comerem.
Mas, por favor, poupe-nos!
- Não posso, Aracéli, não posso!
Prometi a ela que lhe mostraria seu corpo sem vida.
Licínio estava em lágrimas, mas não retrocedeu.
Foi como se estivesse possuído por uma sanha assassina incontrolável e maligna.
Num gesto rápido, atirou-se sobre Aracéli, que tombou em cima da mesa, e envolveu-lhe o pescoço miúdo com suas mãos brutas.
O corpo da menina se dobrou sobre o móvel, e o ar, lentamente, começou a faltar-lhe nos pulmões.
Desesperada, ela tentou afastar as mãos de seu agressor da garganta e, ante a inutilidade da luta, começou a debater-se em agonia, atirando para longe as estátuas inacabadas que o escravo deixara ali.
- A faca! -— gritava Soriano, tentando direccionar sua mão.
Pegue a faca!
Guiados pelos fluidos que o espírito atirava na direcção dela, os dedos de Aracéli tocaram a lâmina fria e, como se escavassem a salvação, conseguiram puxá-la, virando-a freneticamente para firmar nas mãos o cabo grosseiro.
Ela estava prestes a desfalecer, mas Soriano fazia irradiar em sua direcção vibrações imperceptíveis e débeis suficientemente fortes para auxiliá-la a sustentar o peso do facão e erguê-lo.
O gesto foi tão rápido que Aracéli nem se apercebeu de que havia cravado a faca nas costas robustas de Licínio.
Só quando ele afrouxou a pressão em seu pescoço e começou a se agitar numa espécie de dança fantasmagórica foi que ela se deu conta de que ele tentava alcançar com a mão o cabo do facão enfiado no dorso.
Inútil, porém.
A faca entrara fundo, perfurando-lhe os pulmões e sufocando-o com o sangue que afluía aos borbotões.
Sob o olhar aterrado de Aracéli, Licínio sentiu que a vida lhe esvaía.
Esticou as mãos para a frente, na tentativa de alcançá-la, mas seus dedos estreitaram o vazio.
Paralisada, a moça assistia à agonia daquele homem que roubara sua alegria e sua juventude, mas a quem ela não permitiria roubar-lhe também o filho.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 30, 2015 10:16 am

Os olhos de Licínio tornaram-se opacos, e ele desmoronou no chão com estrépito, agitando-se em todas as direcções como alguém que não aceita a irreversibilidade da morte.
Resistia, o olhar colérico fincado em Aracéli, derramando sobre ela toda a força de seu ódio.
Custou muito para Licínio perder a consciência, até que, por fim, cuspindo sangue e estertorando diabolicamente, arregalou os olhos e expirou, deixando impressa em Aracéli a visão assustadora de seu olhar maligno em seu derradeiro instante de vida.
- Agora fuja! -— berrou Soriano, a quem foi dado ver os espíritos trevosos que arrastaram um Licínio inconsciente para o fundo da terra.
Como se ouvisse as palavras do espírito, Aracéli rodou nos calcanhares e destrancou a porta, ganhando o mato com a rapidez de uma febre.
O ar fresco da noite clareou-lhe o raciocínio fazendo-a perceber que, se quisesse chegar a algum lugar sem ser alcançada, teria que arranjar montaria urgente.
Montou como um raio no cavalo de Licínio, que seguiu em disparada pela estrada.
Por sorte, a lua reluzia argêntea, iluminando a estrada de barro batido por onde pisoteavam os cascos do animal.
Foi circundando a cidade, até se aproximar dos fundos da casa de padre Gastão.
Soltou o cavalo mais ao longe afugentou-o.
Correndo pela mata, adentrou o pátio e esmurrou a porta:
- Padre Gastão! Padre Gastão!
Não foi preciso chamar muito.
Assim que ouviu sua voz Gastão escancarou a porta, recebendo-a em seus braços.
- Aracéli, graças a Deus! Como eu rezei para que você pudesse voltar.
- Eu o matei, padre! -— desabafou ela aos tropeços, com a voz grave e assustada.
Matei o senhor Licínio!
- Meu Deus!
Ele recuou aterrado, passando a tranca na porta e correndo a fechar as cortinas.
Vislumbrou, rapidamente, a barriga ainda não muito volumosa, mas de uma gravidez visível.
- Ele ia me matar.
A mim e a meu filho.
Mas uma voz ficava na minha cabeça... e tinha uma faca... eu o matei... não queria, mas ele ia me matar!
- Onde foi que isso aconteceu?
- Na cabana onde ele me mantinha prisioneira.
- A que horas?
- Agora! Foi agora, padre!
O escravo saiu, mas vai voltar.
E, quando voltar, vai encontrar o senhor Licínio com a faca nas costas.
E eu vou ser presa e enforcada!
Não ligo para mim, mas o que será do meu filho?
- Você precisa fugir — alertou ele, com urgência na voz.
Quando dona Esmeraldina descobrir o que você fez, não vai descansar até vê-la morta.
- Para onde eu vou?
- Você vai viver com o seu povo.
- Sozinha? E se eles não me aceitarem?
- É mais fácil a aceitarem sozinha do que em companhia de um padre branco, que eles odeiam.
- Mas, e o senhor?
O que aquela mulher horrível fará ao senhor depois que eu me for?
- Nada. Eu não fiz nada.
Foi o marido dela quem seduziu você.
Não se preocupe comigo.
Pense em você e na criança. Eu estarei bem.
- Como poderei encontrar alguém de meu povo? Não sei nem onde procurar.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 30, 2015 10:16 am

- Você sabe caminhar nas matas e não tem medo da noite, tem? -— ela meneou a cabeça.
Pois então, caminhe o mais que puder para longe de Vila Rica.
Embrenhe-se na floresta e só pare quando encontrar uma tribo.
- E se eles forem canibais?
Gastão não havia pensado naquela possibilidade, mas algo em seu íntimo lhe dizia que Aracéli não corria aquele risco.
- Temos que confiar em Deus.
Você estará mais segura entre os índios do que na cidade, onde só a morte a aguarda.
Vá e tenha seu filho em paz.
Enquanto falava, Gastão ia arrumando coisas para Aracéli levar.
Roupas ela não tinha.
Havia deixado tudo na cabana quando fugira.
O padre lhe deu uma batina e um casaco, que ela poderia improvisar como vestido.
Colocou pão, queijo e frutas numa cesta e entregou tudo a ela.
- É o suficiente para você começar.
Água você encontrará nos rios.
Quanto à comida, a terra é abundante e não faltarão frutas nem peixes.
E agora vá. Não se demore mais.
Em breve, toda a milícia estará à sua procura.
Aracéli abraçou-se a ele, sentindo inigualável tristeza por ter que abandonar de vez a sua vida.
Deixaria para trás a segurança da casa de padre Gastão, o único que a amara em toda a sua vida, para arriscar-se numa aventura incerta e misteriosa.
Tudo para salvar a vida do filho que carregava no ventre.
- Oh, padre! -— chorou ela, apertando-se ao pescoço dele.
Sentirei tanto a sua falta!
- Também sentirei a sua e rezarei todos os dias por você e pela criança.
- Não sei se conseguirei viver sem o senhor.
- É preciso. Se ficar, vão matar você.
Por favor, Aracéli, vá.
Não pense que é fácil me despedir de você, mas só em nome de todo o amor que lhe tenho é que sou capaz...
Ele se calou, a voz embargada pela emoção.
Ela o apertou ainda mais e deu-lhe um beijo demorado na face.
Quando o soltou, as lágrimas em seus olhos cintilavam como coriscos.
- Adeus, padre -— arrematou ela.
E obrigada por ter sido o esteio da minha vida.
Gastão pôs as mãos em suas faces e acrescentou:
- Vá. E não se esqueça de mim.
Ela se afastou dele, as lágrimas gozando da liberdade de seu rosto, e concluiu:
- Jamais.
Em seguida, virou-lhe as costas e sumiu na floresta.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 30, 2015 10:16 am

Capítulo 28

Preocupada com a demora de Licínio, Esmeraldina começou a indagar aos escravos se o haviam visto.
Ninguém sabia dele, à excepção de Rufino, que ficou tenso.
Escravo de confiança, gozava de liberdade para sair à hora em que bem entendesse, pois não tinha pretensões de fuga.
Alarmado, partiu em silêncio para a cabana.
Chegando lá, sua maior surpresa.
O cavalo de Licínio havia desaparecido.
A porta encontrava-se escancarada, e a sala, uma bagunça.
Rufino entrou com um mau pressentimento e logo avistou o corpo de Licínio estirado no chão, os olhos ainda abertos sem qualquer expressão, o sangue coagulado grudado nas vestes e no solo.
Aterrado, rodou nos calcanhares e voltou correndo para casa.
- Preciso falar-lhe, sinhá Esmeraldina -— anunciou ele com urgência na voz.
Encontrei o patrão agora mesmo, morto, numa cabana na estrada que leva ao garimpo.
- O quê? -— ela pareceu não compreender.
- Disse que o sinhó Licínio está morto.
Foi assassinado.
Rufino teve que correr para amparar Esmeraldina, que caiu ao chão, desmaiada.
As escravas mais velhas acudiram, dando-lhe tapinhas no rosto para despertá-la, e até Teodoro, que já se acostumara com a criada francesa, veio lá de dentro, alarmado.
- Mamãe, mamãe! -— chamava, pensando que ela havia morrido.
Ouvindo a voz do filho, Esmeraldina acordou e começou a concatenar as ideias, só então compreendendo o significado das palavras de Rufino.
- Licínio... -— balbuciou ela -— morto?
- Papai está morto? -— repetiu o menino, incrédulo.
Ante o silêncio geral, Teodoro começou a chorar, e Esmeraldina, pondo-se de pé, ordenou atarantada:
- Aneci, leve-o para o quarto.
A criada apanhou o menino com jeito e saiu com ele, tentando acalmar o seu pranto.
Depois que se foram, Esmeraldina sentou-se, abanando o rosto, do qual havia fugido toda a cor.
- Conte-me agora o que aconteceu -— disse para o escravo.
- O que aconteceu, não sei, sinhá.
Só sei que, quando cheguei lá, o patrão estava morto, com uma faca nas costas.
- Quem fez isso? -— ele hesitou.
Pode falar, Rufino.
Sei tudo sobre aquela índia.
Foi ela, não foi?
Havia ódio, muito ódio na voz de Esmeraldina, e o escravo não conseguiu esconder-lhe nada.
- Lamento, sinhá, mas deve ter sido ela mesma.
Quando saí, deixei o patrão sozinho com ela.
- Aquela maldita! — vociferou ela, não se incomodando com a presença de Rufino.
— Onde está?
- Não sei.
Mas, como o cavalo do patrão desapareceu, imagino que ela o tenha roubado.
- Sim, e só pode ter ido a um lugar.
Vá correndo chamar a milícia, Rufino.
Talvez ainda tenhamos tempo de pegar a assassina.
Rufino conduziu os guardas até o local do crime, e, seguindo as ordens de Esmeraldina, foram procurar Aracéli em casa de padre Gastão.
Prevenido daquela possibilidade, Gastão os recebeu com surpresa e fingida preocupação:
- Não posso acreditar no que estão dizendo!
Aracéli não seria capaz de uma atrocidade dessas!
- Dona Esmeraldina diz que foi ela, e nós acreditamos.
E depois, o negro confirmou que deixou o senhor Licínio sozinho com a índia.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 30, 2015 10:16 am

- Meu Deus! -— lamentou ele, forçando os olhos para chorar.
— O que terá levado Aracéli a um acto tão desesperado?
- Ela era amante do senhor Licínio.
- Eu bem que desconfiava... - prosseguiu ele, intimamente pedindo perdão a Deus pelas suas mentiras, cujo único propósito era salvar a vida de Aracéli.
E onde está ela?
- Nós esperávamos que o senhor pudesse nos dizer.
Ela roubou o cavalo dele e sumiu.
- Pois não veio me procurar.
- Talvez seja verdade, senhor -— falou um dos guardas.
Se ela fugiu a cavalo, não veio aqui.
Não há marcas de cascos lá fora nem nas matas próximas.
- Eu não disse? -— continuou padre Gastão.
Minha pobre Aracéli.
Deve estar perdida e assustada.
- Precisamos encontrá-la.
Se a vir, mande nos avisar.
- Sim, claro.
Tenho certeza de que não foi Aracéli quem fez isso, e há de haver uma explicação para tudo.
- Não acredite nisso.
E lembre-se: avise-nos, ou mandaremos prendê-lo por cumplicidade.
Gastão balançou a cabeça em assentimento e retrucou:
- O que acontecerá a ela se for presa?
- A pena, para esses casos, é a morte por enforcamento.
- Meu Deus! -— exclamou ele, aumentando a expressão de horror que genuinamente sentia.
O pavor de Gastão era tão grande que ele temeu ser descoberto.
Os guardas, contudo, nada perceberam e acabaram indo embora, deixando-o a sós com seus pensamentos.
Onde estaria Aracéli àquela hora?
Bem longe, era o que esperava.
***
Aracéli caminhou a noite inteira, seguindo as estrelas.
Só parou para beber água no rio uma vez, retomando a caminhada em seguida.
Para sobreviver, tinha que contar com a vantagem sobre a milícia, e, se parasse para descansar, daria a eles tempo de vencer a diferença e alcançá-la.
A lua continuava a ajudá-la, com seu prateado brilhante a iluminar toda a floresta.
A seu lado, o espírito de Soriano a acompanhava, preocupado com Cibele, adormecida em sua barriga.
Vencera o medo de mato e penetrara a selva junto com Aracéli.
Se encontrasse algum índio do tipo daqueles maias, eles nada poderiam contra ele.
Mas, e contra Cibele?
Aracéli prosseguia incansável, na esperança de avistar alguma tribo pacífica, mas não via nenhuma.
A ideia de índios canibais a assaltou, mas, lembrando-se da fé de padre Gastão, afastou o pensamento e prosseguiu, certa de que não se depararia com selvagens daquele tipo.
Só muito tarde da noite foi que desabou exausta e adormeceu por duas horas.
Antes do amanhecer, prosseguiu caminhando, orientando-se pelo sol para não se perder.
Em dado momento, parou para se alimentar.
Como o cansaço a dominava, permitiu-se descansar enquanto comia.
Um pouco mais refeita, levantou-se e continuou a viagem, o tempo todo orando para que Deus não a desamparasse e lhe mostrasse o caminho mais seguro para uma tribo amistosa.
Ao anoitecer, seu estado de exaustão era crítico, havia bolhas em seus pés, pontilhadas de gotículas de sangue, e ela não conseguiu dar nem mais um passo.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 31, 2015 11:43 am

Precisava urgentemente dormir.
Pensou em acender uma fogueira, mas teve medo de que alguém visse a fumaça e encontrasse seu rastro.
Devia estar bem longe de Vila Rica, todavia, era preciso muito cuidado.
Ajeitou um cantinho no mato e, pela primeira vez, invocou os deuses de seu povo, como padre Gastão lhe havia ensinado, pedindo-lhes protecção.
Não queria terminar sendo comida por uma onça.
De manhãzinha, Aracéli sentiu uma movimentação por perto e forçou os olhos a se abrirem, a muito custo identificando o lugar em que estava.
Foi piscando lentamente, enquadrando as imagens ao redor, e raios de sol salpicaram o seu rosto, insinuando-se por entre as copas das árvores.
Por todo lado, a floresta a envolvia, e ela balançou a cabeça, confusa, até que percebeu o som de risadas nas proximidades, risadas infantis.
Olhares curiosos a fitavam, e ela se levantou de um salto.
Dois meninos índios conversavam em sua língua, rindo alto e apontando para suas vestes.
Ela reconheceu o idioma tupi e agradeceu em silêncio, porque era o único que entendia e que sabia falar.
- Podem me levar a sua tribo? -— pediu ela.
Ela falava correctamente, embora tivesse certa dificuldade, e os meninos, a princípio, não a compreenderam.
Mas ela apontou para a mata e repetiu a pergunta.
Um dos meninos, então, deu mostras de tê-la entendido e partiu correndo na frente, com o outro atrás e Aracéli no encalço dos dois.
Correndo pelo meio da floresta, Aracéli não os perdia de vista.
Parecia mesmo que os dois queriam pregar-lhe uma peça, fazendo com que ela se distanciasse deles.
Os pés de Aracéli, apesar de doloridos, também foram treinados descalços na selva, e as bolhas não a impediram de segui-los.
Subitamente, a tribo surgiu diante dela, incrustada numa clareira no meio da mata.
Aracéli ficou maravilhada com o que viu.
De um lado, extensa área dedicada à lavoura e, de outro, uma aglomeração de ocas construídas com troncos de árvores e recobertas por folhas de palmeiras.
Havia enorme movimentação na tribo, e Aracéli foi-se aproximando devagar.
Sendo ela morena, com lindos cabelos negros e lisos, os índios não perceberam que se tratava de uma estranha.
Só quando a mãe de um dos meninos o chamou e percebeu Aracéli perto dele, foi que a presença de alguém de fora foi anunciada.
Os índios, assustados, reuniram-se em círculo ao redor dela, fitando-a com ar entre hostil e curioso.
Alguns apontavam suas lanças, enquanto outros limitavam-se a observá-la.
Embora ela se parecesse com uma índia, estava claro que não era como eles.
Ela também estava assustada, pois era a primeira vez que mantinha contacto com alguém de seu povo que não estivesse acostumado ao modo de vida dos brancos.
Precisava tomar alguma atitude para demonstrar a eles que ela não representava nenhuma ameaça.
Assim, buscou dentro de si as palavras exactas e falou em perfeito tupi:
- Vim aqui em paz, fugindo do homem branco.
Podem me ajudar?
Quando ela colocou a mão sobre a barriga, uma das mulheres notou sua gravidez, e os demais silenciaram.
Os que lhe apontavam lanças as abaixaram, e a mulher se aproximou.
- O que aconteceu com você? -— perguntou ela.
- Caminhei dois dias inteiros.
Matei um homem branco...
A menção do assassínio de um branco pareceu agradar aos índios, que relaxaram os músculos e a saudaram.
Muitos chegaram mais para perto e tocaram suas vestes, outros retiraram-lhe o saco das mãos e o abriram, expondo o seu conteúdo.
Provaram o pão e o queijo, e apenas cheiraram as frutas, que já conheciam.
Desdobraram a batina, para imediatamente atirá-la longe, dando visível mostra de que já conheciam os padres.
- O homem que me deu esta foi quem me criou -— esclareceu ela.
Não é igual aos que tentaram dominar os índios.
Foi ele quem me mandou procurá-los, para que pudesse viver em paz e segurança, aprender com vocês e criar o meu filho.
Eles compreenderam e concordaram, a maioria já simpatizando com Aracéli.
- Quem lhe falou sobre nós? -— perguntou um índio com aparência de guerreiro.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 31, 2015 11:43 am

- Ninguém me falou.
Padre Gastão me orientou a me embrenhar na floresta e vir procurá-los.
Rezei para que Tupã me guiasse e me trouxesse até uma tribo amiga.
Ela conhecia seus deuses, o que agradou ainda mais aos indígenas.
Aracéli não lhes pareceu uma ameaça, e eles a acolheram na tribo.
Cercando-a por todos os lados, foram conduzindo-a até uma das ocas.
Aracéli deixou-se levar.
Ao chegar ao meio da tribo, olhou para trás.
Na beira da floresta, o saco com seus poucos pertences encontrava-se espalhado no chão.
Não precisaria mais deles.
Agora, tinha um novo lar e, estranhamente, percebeu que seria ali que encontraria a verdadeira vida.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 31, 2015 11:43 am

Capítulo 29

As dores do parto finalmente cessaram, e Aracéli ouviu o choro insistente e forte do bebé que acabara de nascer.
A índia que ajudara no parto exibiu a menina lívida, e Aracéli a fitou por uns momentos, sentindo um misto de alegria e tristeza por aquela criança que fora fruto do desamor.
Aracéli virou o rosto, como se quisesse esconder as lágrimas de sua filha, e vislumbrou o dia recém-nascido pela fresta da oca, onde apenas uma única estrela cintilava soberana no azul pálido do céu da manhã.
Airumã... -— balbuciou ela.
E foi assim que a menina recebeu o nome da estrela-d'alva, na língua nativa dos tupis, marcando o seu nascimento simultâneo ao nascer do dia.
Os índios estranharam um pouco a pele descorada de Airumã, contudo, nada perguntaram.
Desde a sua chegada, Aracéli se mostrara uma moça dócil e meiga, muito corajosa e decidida, sempre pronta a ajudar no que fosse preciso.
A mulher de um dos guerreiros que integrava o nheengaba(13) tendo-a recebido na entrada da tribo, foi a primeira a se afeiçoar a Aracéli.
A gravidez se desenvolvera toda sob o olhar atento Guaiani.
O marido de Guaiani, satisfeito com a presença de uma índia jovem em sua oca, demonstrou intenções de casar-se com Aracéli, mas depois desistiu.
Ele e Guaiani já estavam ficando velhos, e era melhor deixar a moça para algum bravo guerreiro.
Foi o que aconteceu, e Piraju foi o escolhido para desposar Aracéli.
Jovem e destemido, apaixonou-se por ela desde o primeiro instante em que a viu.
Acompanhou com paciência toda sua gestação e, após o nascimento de Airumã, finalmente o casamento foi realizado.
Aracéli mudou-se com Airumã para a oca de Piraju.
Enquanto o marido saía para a caça, ela auxiliava as mulheres nos trabalhos agrícolas e na fabricação da cerâmica.
Airumã, por sua vez, foi crescendo juntamente com as outras crianças, participando de suas brincadeiras e aprendendo os costumes do povo indígena
Finalmente, a felicidade chegara para Aracéli.
Ela ainda se ressentia dos acontecimentos passados e sentia muita falta de padre Gastão e de Teodoro, por quem orava todas as noites, pedindo em prece seu perdão.
Não queria ter matado o pai do menino, mas fora obrigada para salvar a própria vida.
Piraju participava de suas aflições como amigo e marido apaixonado, preocupado em dar-lhe alegria e fazer de Airumã uma verdadeira índia, para compensar a pele desbotada que herdara do homem branco.
Nas horas vagas, Piraju ensinava Aracéli a atirar com o arco e flecha e a caçar, além de levá-la para longas travessias numa canoa, pelos rios da região.
- Padre Gastão estava certo -— dizia ela a Piraju.
Minha vida é aqui, entre os de meu povo.
- Você foi a mais linda oferenda no altar de Rudá(14) -— declarou ele certa vez, em referência ao significado do nome de Aracéli.
Que Jaci (15) nos proteja para sempre e nos dê ainda muitos filhos.
Aracéli sorria para ele e afagava seu rosto.
- Nunca pensei que pudesse amar alguém em toda a minha vida — tornou ela.
— Minha felicidade, contudo, não é completa, pois sinto muitas saudades de padre Gastão.
- Você não pode mais ver esse homem -— objectou Piraju com veemência.
É o homem branco que nos causa destruição.
Não sabe que muitas tribos foram completamente destruídas pela fúria de sua ambição?
- Padre Gastão não é assim.
Pois se foi ele quem me enviou para cá!
- Ele pode ser diferente, mas aqueles que convivem com ele não são.
- Você tem razão, e ele sabia disso.
Foi por isso que me enviou para cá, e eu não penso em voltar.
Apenas sinto falta do único pai que conheci.
Piraju colocou sua mão sobre a de Aracéli, levando ambas ao coração da moça, e acrescentou:
- Você é o clarão da lua que afugenta as sombras que espreitam na mata.
Qualquer um que sinta o seu toque se transforma imediatamente em luz.
Ela levou a mão dele aos lábios e retrucou emocionada:
- Se você fosse um homem branco, seria um poeta.
Nunca ninguém me disse coisas tão bonitas.
Sei, contudo, que essas palavras tão doces transbordam de um coração apaixonado.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 31, 2015 11:44 am

Não sou essa mulher de quem você está falando.
- Você é isso e muito mais.
- Já matei um homem, Piraju.
Deixei uma criança sem pai...
Ele colocou o dedo sobre os lábios de Aracéli e revidou com firmeza:
- O destino do inimigo é o sacrifício.
Aquele homem não tinha o direito de tomá-la à força.
- Não quero mais falar sobre isso -— murmurou, pousando a cabeça sobre o ombro dele.
Guardo uma única coisa boa que Licínio me deu, que foi Airumã.
- Ela não é filha dele.
Seu espírito se fundiu ao da tribo e ela agora pertence ao nosso povo.
A noite avançava rapidamente, e Aracéli voltou para junto da tribo com Piraju.
Em sua oca, Airumã dormia tranquila, os longos cabelos lisos e negros, herdados da mãe, derramados para fora da borda da rede.
Ela se aproximou da filha e beijou-a no rosto, sentindo o quanto a amava.
Piraju alisou a cabeça da menina, guardou o arco e a flecha, e foram se deitar.
***
Não era apenas Aracéli que sofria a dor da saudade.
Padre Gastão também sentia muita falta da menina e se perdia em horas de reflexão, imaginando onde ela estaria e se teria dado à luz em segurança.
Sempre que lhe chegava aos ouvidos a notícia do extermínio de alguma tribo, ele se sobressaltava e fazia todas as orações que conhecia, não apenas pelas pobres almas atingidas, mas para que Aracéli estivesse bem.
Se ela e a criança fossem mortas pelo ataque dos bandeirantes, ele nunca ficaria sabendo.
O assassinato de Licínio permaneceu sem solução, e a milícia logo parou de procurar Aracéli, convencida de que ela havia fugido e se embrenhado no mato.
Por mais que Esmeraldina tentasse, não conseguiu incriminar padre Gastão, que ameaçou levar a público a relação de Licínio com a cabocla.
Além de Esmeraldina, apenas Teodoro sentiu a morte de Licínio.
Muito apegado ao pai, não compreendia por que ele havia sumido, juntamente com Aracéli.
Porque foi Aracéli quem o matou! -— acusava Esmeraldina.
Aquela índia maligna assassinou o seu pai!
Mas, mamãe -— contrapunha ele —- Aracéli é minha amiga.
- Ela nunca foi sua amiga.
Apenas o enganou para poder se aproveitar de seu pai.
- Como assim?
Não entendo...
- Porque você é ainda muito pequeno.
Por ora, basta você saber que seu pai foi morto por causa da perfídia daquela índia, que se fingia de amiga para tomar tudo o que temos.
Como não conseguiu, matou-o.
Teodoro chorava, e Esmeraldina aproveitava para incutir-lhe mais e mais veneno, alimentando no menino um ódio crescente por Aracéli e, por extensão, por todos os índios.
- Aracéli não gostava de mim? -— indagava ele, ainda pequenino.
- Se gostasse mesmo de você, não o teria abandonado quando seu pai a repeliu.
E matou-o por causa disso.
Porque ele descobriu suas artimanhas e a feitiçaria que ela havia feito para afastá-lo da família.
- Aracéli era boa comigo...
- Só enquanto foi amante de seu pai.
Quando ele a repeliu, não hesitou em abandonar você.
Não se iluda, meu filho, os índios são traiçoeiros e maus.
Têm o instinto cruel e maléfico.
Eles são a encarnação do mal, e Aracéli não era diferente.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 31, 2015 11:44 am

Os índios não prestam, são assassinos natos, frios e sanguinários.
É bom que você nunca se esqueça de que foi uma índia que matou o seu pai.
Teodoro era pequeno e não sabia das mentiras que uma mulher ciumenta, ferida em seu orgulho, era capaz de inventar.
Cresceu ouvindo as acusações da mãe contra Aracéli e os índios.
No princípio, seu coraçãozinho encheu-se de tristeza, que cedeu lugar à indignação e, mais tarde, já adulto, transformou-se num ódio cego e sequioso de vingança por todos os índios.
Foi esse ódio que escreveu o seu futuro, fazendo dele um feroz inimigo de todo povo indígena, incansável e sanguinário.
Especializou-se em caçar índios e, a cada um que matava, pensava em Aracéli.
Ela era a mulher pérfida e cruel que determinara o homem em que ele se tornara, e que o iludira e enganara, até conseguir matar o menino dentro dele.

13. Nheengaba — espécie de conselho.
14. Rudá — deus do amor, na mitologia tupi.
15. Jaci — a Lua, deusa protectora dos amantes e da reprodução.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

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