Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 31, 2015 11:44 am

Capítulo 30

Muito antes de Teodoro se tornar caçador de índios, as vidas de Aracéli e de Airumã tomaram novo rumo.
Ela e padre Gastão nunca mais tornaram a se ver em vida, e somente após o desenlace dele foi que ficou sabendo o que acontecera a sua protegida.
Por quase sete anos, Aracéli viveu entre os índios uma vida de paz e serenidade que jamais experimentara no mundo dos brancos.
Eles a tratavam como igual e adoptaram Airumã como filha nativa da tribo.
Suas diferenças de pele e de cultura não incomodaram os índios, e o casamento com Piraju serviu para consagrar definitivamente os laços de Aracéli com o seu povo.
Todos os dias eram vividos com a intensidade que só os índios conheciam.
Naquele dia, o destino havia traçado seu rumo sem que ninguém de nada soubesse.
Como de costume, Aracéli entrou na oca após ter ido se lavar no rio e ficou admirando o marido e o filho que acabara de nascer.
Era um menino robusto, cor de jambo feito o pai, que Piraju se distraía em embalar.
Airumã, agora com seis anos, lhe fazia companhia e admirava a graciosidade do irmão.
- Ele é lindo, mamãe! - comentou a menina, assim que ela entrou.
E se parece com meu pai.
Piraju olhou para Aracéli e sorriu, afagando, com a mão livre, a cabecinha de Airumã.
- E você é uma linda princesa que desceu do céu em forma de estrela -— elogiou ele.
— A primeira estrela do dia e a última a ir embora à noite.
Não poderia ter mais brilho.
Airumã sorriu satisfeita e agarrou-se às pernas do pai, que as sacudiu gentilmente, como um balanço, enquanto Aracéli corria para segurá-la.
- Vamos, deixe seu pai embalar seu irmão.
A noite caiu, e a família de Piraju se preparou para dormir.
Aracéli colocou Airumã na rede e ajeitou o bebé no estrado ao lado, indo deitar-se com o marido.
A quietude baixou sobre a aldeia, e apenas um pio ocasional de coruja se fazia ouvir.
Toda a tribo dormia tranquila, enquanto a madrugada silente avançava sem se incomodar com os ruídos peregrinos da noite.
Foi quando o mundo pareceu desabar.
Um barulho ensurdecedor se alastrou pela aldeia, e os gritos aterrados e indistintos se misturaram a estampidos retumbantes e infernais.
Rapidamente, Aracéli e Piraju despertaram, e as crianças puseram-se a gritar assustadas.
Os adultos correram para fora, e a cena que viram os encheu de horror.
Vários homens a cavalo invadiam a aldeia, disparando seus mosquetões ruidosos e derrubando, a golpes de machete, aqueles que tentavam opor-lhes resistência.
Os gritos de pavor eram de assombrar.
Por mais que os índios tentassem se defender, a sanha assassina dos bandeirantes era maior.
Armados com artilharia pesada, que os índios não conheciam, iam abatendo cada homem, mulher e criança que lhes surgisse na frente.
No momento em que perceberam a invasão, Piraju e Aracéli apanharam seus arcos e flechas e puseram-se a atirar, na tentativa inútil de defender os filhos.
Dentro da oca, Airumã segurava no colo o irmãozinho, enquanto os pais se entregavam à batalha do lado de fora.
Piraju foi o primeiro a tombar.
Uma bala o atravessou na altura do coração, e outra varou-lhe a perna.
Caído de borco, ele agonizava, enquanto Aracéli, tomada de ódio e pavor, só pensava em defender, com a própria vida, a vida dos filhos.
Um homem chegou correndo a cavalo, sacudindo pesada corrente, com a qual acertou o seu flanco.
Aracéli caiu ao chão gemendo de dor e raiva, e assistiu, coberta de pânico, um outro homem se aproximar da cabana, onde os gritos do filhinho recém-nascido se sobressaíam no meio da balbúrdia geral.
Com uma tocha, o homem ateou fogo à oca, fazendo recair sobre Aracéli invisível força que a fez levantar e cambalear em direcção ao arco.
Apanhou-o com as mãos trémulas e conseguiu armá-lo com a flecha, disparando-a num lançamento certeiro que varou a garganta do agressor.
O homem caiu do cavalo, morto, e ela iniciou o que parecia uma longa caminhada até a oca incendiada.
Não conseguiu alcançá-la, porque um tiro a atingiu pelas costas, levando-a novamente ao chão, dessa vez sem forças remanescentes.
Aracéli ainda tentou rastejar até a cabana, que as chamas haviam rapidamente consumido, na esperança de sentir um alento da vida dos filhos.
Inútil, porém.
De sua oca, apenas o crepitar das chamas era o que se podia ouvir.
Os filhos tinham silenciado seu lamento de medo e dor havia muito.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 31, 2015 11:44 am

Em pouco tempo, tudo estava acabado.
Os bandeirantes haviam logrado mais uma vitória, desbravando a selva e dizimando outra aldeia indígena, levando à morte centenas de índios e aprisionando outros tantos.
Os corpos subtis da maioria foram logo acolhidos por espíritos preparados para a tragédia, e Aracéli despencou numa espécie de sono confortador.
Seus últimos pensamentos, um pouco antes de morrer, haviam-se voltado para padre Gastão e, em seguida, para os filhos.
Naquele exacto momento, Gastão dormia um sono agitado.
Não sonhou com guerras nem com morticínios, mas Aracéli lhe apareceu com semblante triste e lágrimas nos olhos.
Ele esticou os braços para ela, que tentou alcançá-los, no entanto, uma espécie de redemoinho a sugou para trás.
Gastão acordou suando frio e se levantou para beber água.
Do lado de fora de sua casa, tudo permanecia quieto.
Ele abriu a janela e espiou, pensando se o sonho não seria um sinal de que Aracéli estaria voltando.
A noite, contudo, permanecia igual, sem qualquer movimento que lhe perturbasse o sossego.
As notícias dos feitos dos bandeirantes chegavam ao seu conhecimento como uma grande vitória e Gastão as recebia consternado.
Várias tribos eram dizimadas e muitos índios, feitos prisioneiros, eram levados, em sua maioria, para São Paulo.
O padre se perguntava se Aracéli e o filho estariam entre eles e se haveriam sobrevivido, mas nenhuma resposta obtinha.
Transferira-se para São Paulo, para ver se encontrava Aracéli ou alguma criança branca descoberta em alguma tribo.
Sempre que os bandeirantes chegavam com uma nova leva de índios, lá ia o padre, na esperança de encontrá-la viva.
Mas Aracéli não estava entre os índios aprisionados nem ninguém nunca ouvira falar de uma criança branca vivendo entre eles.
Os bandeirantes, já acostumados com as frequentes visitas do clérigo aos prisioneiros, riam de sua esquisitice e faziam troça de sua insistência.
Está sonhando, padre — disse um deles, certa vez.
- Brancos vivendo entre os índios?
Só se fosse no caldeirão.
- A moça era uma cabocla muito bonita, e talvez ninguém notasse a diferença.
Agora, a criança devia ser mais branca.
- Era menino ou menina?
- Não sei, não a vi nascer.
- Adentramos muitas tribos e não nos deparamos com nenhuma criança branca.
E se o senhor não sabe nem para onde moça foi, fica impossível lhe dizermos qualquer coisa.
- Não é possível que ninguém a tenha visto...
- Quem lhe garante que ela foi viver com os índios?
Ela pode ter fugido para outro lugar.
Se era tão bonita como o senhor falou, e civilizada também, pode ser que esteja em algum bordel.
- Não Aracéli!
Ela foi viver com os índios, disso tenho certeza.
Faz quinze anos que ela partiu, e a criança, hoje, deve estar com cerca de quatorze anos.
- Quinze anos! -— desdenhou um dos homens.
Ora, padre, pensa numa indiazinha, agora, já deve até ser avó!
Os bandeirantes riam às escâncaras, e Gastão afastou-se desanimado.
Não sabia que Aracéli, havia muito, deixara o mundo da matéria.
Sem que ele percebesse, um rapaz de pouco mais de vinte anos, de aparência distinta e nada parecido com o restante da tropa, seguiu atrás dele.
Acercou-se de Gastão e tocou-lhe o braço, falando com gentileza:
- Já faz muito tempo que o senhor perdeu sua índia, padre.
Se ela estiver viva, hoje deve ser outra pessoa.
Gastão olhou para ele com tristeza e retrucou:
- O senhor me parece familiar. Já nos vimos antes?
- Creio que não -— respondeu o moço, sem o encarar.
Apenas me comove a sua persistência.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 31, 2015 11:44 am

O padre enxugou uma lágrima e acrescentou:
- O senhor não faz ideia do que passei.
Se soubesse, teria insistido também.
- Não sei.
Gastar tanto tempo assim com uma índia me parece desperdício.
Na certa, seus fiéis precisam muito mais do senhor do que uma selvagem ingrata.
- Aracéli não é selvagem, muito menos ingrata.
Foi uma moça a quem a sorte não sorriu, mas que jamais se deixou derrotar diante do infortúnio.
Os olhos do rapaz reluziram, e seu semblante empalideceu por alguns momentos.
- Por que diz isso, padre? -— retorquiu acabrunhado.
Não me parece que uma índia tenha muito do que se orgulhar.
- Diz isso porque não conheceu Aracéli.
Ela era rara e especial.
- Por quê?
O que aconteceu a ela de tão fantástico?
- Nada que possa interessar a um jovem feito você.
São apenas lembranças dolorosas de um velho que não consegue deixar o passado.
- Engano seu.
Gosto de ouvir histórias e, quem sabe, conhecendo a sua e a de sua índia, eu não possa ajudar?
Gastão fitou-o em dúvida, mas alguma coisa naquele olhar deixou nele a vontade de contar tudo sobre a vida de Aracéli.
- Venha comigo até minha casa e lhe direi.
O rapaz foi seguindo Gastão até a paróquia, vazia àquela hora, e sentou-se com ele em um banco mais atrás.
O padre reuniu forças e começou a falar.
Contou tudo ao rapaz, desde o nascimento de Aracéli até sua partida de Vila Rica, carregando na barriga o filho bastardo de seu malfeitor.
O moço ouvia tudo com a respiração presa, sem pestanejar.
Quando Gastão finalmente terminou, ele estava chorando.
- O senhor disse que ela foi vítima desse tal Licínio?
- O homem fez com ela o que quis.
E, depois, quando ela engravidou e a mulher exigiu que a matasse, Aracéli conseguiu se defender e matou-o primeiro.
Mas foi legítima defesa!
- E ela fugiu...
- Fugiu pela mata, e ninguém nunca mais a viu.
Se tivesse ficado, Licínio a teria matado.
- E o menino de quem ela cuidou?
O que foi feito dele?
- Teodoro? Não sei.
Nunca mais o vi nem ouvi falar dele.
Deve estar, até hoje, morando em Vila Rica.
O pai era garimpeiro, muito rico.
O rapaz engoliu em seco e, olhos pregados no chão, falou em tom abatido:
- Vou confessar uma coisa para o senhor, padre.
O que fazemos aos índios não é nada bonito de se ver.
Muitos deles nem chegam a compreender o que está acontecendo.
Morrem antes mesmo de sair das tocas.
Mulheres e crianças geralmente são feitas prisioneiras, mas muitas padecem dentro daquelas choupanas queimadas ou asfixiadas pela fumaça.
Nem têm tempo de sair, e nós nem chegamos a colocar os olhos sobre elas.
Gastão, já bastante emocionado, chorava de mansinho, agora imaginando a carnificina que resultava da entrada dos bandeirantes nas aldeias.
- Por que faz isso, meu filho? -— retorquiu com amargura.
Por que toda essa violência contra seres que têm tanto direito à vida como você?
Eles só querem viver em paz.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 31, 2015 11:45 am

- Pensei que estava me vingando — justificou ele, pesaroso.
- Vingando-se?
Mas de quê, meu Deus?
- Dessa mesma Aracéli que o senhor agora afirma que matou meu pai para se defender.
Gastão abriu a boca, mortificado.
- O que está dizendo?
- Isso mesmo que o senhor ouviu.
Licínio Figueira era meu pai, que minha mãe jurou ter sido morto pelas mãos pérfidas de Aracéli.
Passei a minha vida toda alimentando pelos índios um ódio descomunal, tão grande que só conseguia aplacar vendo-os morrer.
E hoje o senhor me diz que Aracéli nada mais fez do que tentar salvar a vida das garras de um homem sanguinário e maldito?
Meu pai, a quem tanto amava, era um fornicador torpe e cruel?
- Jesus Cristo! -— exclamou o padre, persignando-se várias vezes.
O senhor é... Teodoro Figueira?
O menino Teodoro?
- Em pessoa, embora não mais tão menino.
- Por isso achei seu rosto familiar...
- Saí de Vila Rica assim que completei dezoito anos e me juntei aos bandeirantes.
Larguei minha vida de luxo e riqueza porque minha mãe me fez jurar que mataria muitos índios para vingar a morte de meu pai.
E eu acreditei nela.
Acreditei que Aracéli, que me amara com sinceridade, fora capaz de me usar e me trair só para se deitar com meu pai e se aproveitar da nossa fortuna.
- Meu filho -— confortou Gastão, pousando a mão sobre a dele.
Não alimente mais ódios desnecessários.
Sua mãe sempre foi uma mulher perdida nas ilusões do mundo, sem noção de amor ou compaixão.
Não a culpe por não ter algo melhor para dar.
Ela fez o que achou certo.
- Minha mãe morreu deixando que eu acreditasse que Aracéli era uma mentirosa.
Por causa dela, cometi todos esses crimes!
- Você não pode mudar o pensamento dela nem apagar o que você fez.
Mas sua alma lamenta o caminho que tomou e clama por uma chance de se modificar.
- Como, padre?
Como posso apagar todo o mal que já fiz?
- Fazendo o bem.
Largue essa vida de conquistador sanguinário e abrace uma causa mais nobre.
- Sou um homem perdido, padre.
Para mim, não há mais perdão.
Só me resta voltar ao meu posto e prosseguir...
- Não faça isso!
Você nada tem a ver com aqueles verdugos.
É um homem bom, embora transtornado por uma mentira e seduzido pela vingança.
- Oh, padre!
Por que fui me deixar levar pelas palavras de minha mãe, sem averiguar o que realmente aconteceu?
- Não se culpe.
Você era apenas uma criança entregue aos desvarios de uma mãe ignorante e inconsequente.
Mas é jovem.
Ainda tem tempo de largar essa vida.
- Matei tantos índios... e me orgulhava disso...
- Será que se orgulhava mesmo?
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 31, 2015 11:45 am

Teodoro olhou rapidamente para padre Gastão e abaixou novamente os olhos, rebatendo num sussurro:
- Não. Eu tinha vergonha de mim mesmo, de minha torpeza.
Quanto mais matava, menos sentia o prazer da vingança e mais me odiava por estar descontando nos inocentes a frustração que sentia pela traição de Aracéli.
- Porque ela nunca o traiu.
No fundo, seu coração sabia disso, e era por esse motivo que você não conseguia se comprazer.
E você não é um assassino.
- Sou um assassino, sim.
Depois de tantas vidas roubadas sob a fúria do meu mosquete, de que outra coisa posso me chamar?
- Mude de vida, Teodoro.
Posso ajudá-lo a se reencontrar com Deus.
- Deus não vai perdoar os meus crimes.
- Deus perdoa todos os crimes, desde que o pedido seja sincero.
- Sou sincero em minha dor, padre.
Nunca me arrependi tanto de algo que fiz.
- Pois, então, afaste-se dos bandeirantes.
Você não é como eles.
Teodoro permaneceu algum tempo em silêncio, a testa pousada sobre a mão de Gastão.
Quando falou, havia sinceridade e dor em sua voz:
- Perdoe-me, padre!
Em nome de Deus, não peço absolvição, mas apenas a chance de mostrar à vida que ainda posso ser bom!
Ele chorava descontrolado, e Gastão o abraçou com um carinho de pai.
Daquele momento em diante, Teodoro se separou dos bandeirantes e, guiado pelo padre, abraçou a vida religiosa.
Nunca mais tornou a erguer uma espada ou a segurar um mosquete.
Passou o resto de seus dias dedicado à causa dos índios, ajudando tantos quanto pôde e recolhendo-os em sua casa.
Ele e Gastão se tornaram como pai e filho e nunca mais ouviram falar de Aracéli.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 31, 2015 11:45 am

Capítulo 31

Havia ainda muito ódio no coração de Licínio e Esmeraldina quando reencontraram Aracéli no mundo espiritual.
Foi difícil para eles ficarem frente a frente com ela, e Licínio repetia, a todo instante, as mesmas palavras rancorosas:
- Assassina.
Por duas vezes, assassina.
Não conseguia perdoar nem compreendia que fora o responsável por sua própria morte como Licínio.
Para ele, Aracéli lhe devia, e era seu direito cobrar.
Por mais que os amigos espirituais tentassem, Licínio e Esmeraldina identificavam-se, ainda. com Lúcio e Rosa, sem conseguir enxergar que a vida os impelia à reconciliação e ao amor.
Só o tempo e novas experiências seriam capazes de diluir tanto ódio.
Durante longos anos, Soriano permaneceu vagando pelo mundo, remoendo no peito a frustração e a culpa por não ter conseguido salvar a vida de Cibele, reencarnada como Airumã.
Seus esforços para conter a fúria sangrenta dos bandeirantes não surtiram efeito, e ele não fora capaz de impedir o ataque.
Tentara derrubar muitos dos cavalos, mas em vão.
Chegara mesmo a criar lanças, manipulando matéria astral, mas de nada adiantara.
As lanças atravessavam os corpos dos agressores sem os ferir, e a única coisa que ele pôde fazer foi assistir, inerte, à destruição de uma tribo inteira.
Parado do lado de fora da oca incendiada, Soriano chorara de desespero.
Não podia vencer as chamas e resgatar o espírito de Cibele, mas tinha certeza de que alguém o fizera.
Estranhamente, ao pensar em salvar Cibele do fogo, desejara salvar também o pequenino que ela segurava no colo, e mesmo a queda de Aracéli e Piraju lhe causara revolta e tristeza.
Enquanto Aracéli criava Airumã, ou Cibele, Soriano viu e sentiu o amor com que ela se dedicara à menina.
Aos poucos, foi percebendo em Aracéli uma alma mais nobre do que aquela que, anos atrás, o atirara nas mãos dos índios maias.
Ela se havia modificado, conforme a própria Cibele dissera, e ele teve a oportunidade de acompanhar essa mudança e constatar o quanto era sincera.
Seria impossível odiar alguém que tratava tão bem a mulher que ele amava.
O que se iniciara como um desejo desesperado de salvar a vida de Cibele acabara se transformando em admiração e respeito.
Se antes odiava Aracéli, Soriano agora a respeitava e admirava.
Só lamentava não ter podido ajudá-la a salvar-se e aos filhos.
Era estranho, mas Soriano não pensara apenas em Cibele.
O extermínio de toda a tribo lhe provocara forte comoção.
No princípio, entrar em uma aldeia indígena lhe causou arrepios.
Ainda guardava viva a lembrança de seu sacrifício pelos maias.
Nos primeiros tempos, ficou olhando à distância, sem penetrar, com medo principalmente do pajé, que parecia ver e sentir a sua presença.
Temendo a sua feitiçaria, Soriano não se aproximava.
Além do mais, o pajé queimava ervas que o mantinham afastado, e ele ficava do lado de fora, rondando a taba na esperança de vislumbrar Aracéli e a menina.
Só de vez em quando conseguia se aproximar.
Percebendo que os índios não faziam sacrifícios humanos, foi ganhando coragem e aprendeu a ludibriar a atenção do pajé.
Evitava fazer-se visível e não se aproximava dele, desaparecendo quando ele surgia.
Soriano não compreendia, mas o facto era que aquele pajé parecia ter um poder semelhante ao de padre Gastão.
O padre, com as suas orações, mantinha-o afastado tanto quanto o pajé, com suas ervas.
Entretanto, Soriano agora não queria mais o mal de ninguém.
Tudo fora em vão.
Tanto esforço ele fizera para preservar a vida de Cibele, para tudo se desmanchar em fogo.
Soriano ficou perdido.
Não conseguia ver nem sentir para onde Cibele havia sido levada.
Já se haviam passado alguns anos, ele supunha, sem que tivesse qualquer sinal ou notícia da noiva.
Perdido, vagueava pelo mundo, tentando achar Cibele, mas ela não se encontrava em lugar nenhum.
Provavelmente, pensava ele, algum ser de luz a levara para o lado de cima e não permitia mais que ela se ocupasse com as coisas cá de baixo.
Sempre que podia, Soriano ia ao encontro de padre Gastão.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 31, 2015 11:46 am

Acompanhara de perto sua incessante procura por Aracéli e tentara lhe dizer, em sonho, que ela havia morrido, mas ou o padre não o escutava, ou se recusava a acreditar.
Acordava desses sonhos com o corpo suado e se entregava a suas orações, pedindo a Deus que não fosse verdade e que sua Aracéli estivesse viva.
Um dia, notou que Aracéli havia ido visitar padre Gastão em sonho.
À distância, acompanhou a chegada da índia, mas não entrou na casa do padre.
Quando ela saiu, Soriano a chamou:
- Aracéli.
A moça não guardava raiva nem ressentimentos de Soriano.
Depois que desencarnara, reconhecera no rapaz o mesmo homem que entregara nas mãos do índio tantos séculos atrás, e tentava intimamente o seu perdão.
Ouvindo aquela voz que a chamava, aproximou-se:
- Sei quem você é, Soriano -— disse ela, encarando-o com bondade.
E conheço a sua dor.
- Eu só quero notícias -— choramingou ele.
Onde está Cibele?
- Ela está bem.
Teve muitos traumas do incêndio, mas está se recuperando.
- Quero vê-la.
- Em breve.
Ele a fitou por uns momentos, com o coração dilacerado.
Havia tantas coisas que gostaria de lhe dizer, mas a língua se travara no medo, na vergonha e no orgulho.
- Eu... -— balbuciou -— sei que a prejudiquei...
- A mim? Ou a Cibele?
- Às duas.
- Não, meu amigo, você só prejudicou a si próprio.
Cibele e eu continuamos a nossa jornada, mas e você?
Por quantos anos ficou esquecido de si mesmo, perambulando por um mundo que já não é mais o seu?
Ele abaixou os olhos húmidos e respondeu lentamente:
- Primeiro, fiquei acorrentado ao ódio.
Depois, quando você reencarnou, prendi-me à vingança.
Mais tarde, deixei-me ficar pelo apego a Cibele.
E agora o que me prende é a culpa.
- Tudo isso contribuiu para o seu amadurecimento.
Tenho certeza de que hoje você é uma pessoa diferente.
- Pessoa? Eu nem ao menos sou uma pessoa.
Não passo de um espectro miserável...
- Você é um ser humano, Soriano.
Despir-se de um corpo de carne não o transformou em fera.
- Diz isso porque está em uma situação vantajosa.
Está bem assistida, protegida em algum lugar de luz.
Mas eu... sou um desgraçado...
- Por que você gasta a sua energia com palavras que trazem peso ao seu coração?
Por que, em vez de se lamentar e amaldiçoar, não se lembra das coisas boas que fez?
- Que coisas boas?
Quando estava vivo, recebi dinheiro para matar você.
Depois que morri, fiz o que pude para me vingar, e hoje estou aqui, neste inferno sem fim.
- Quando vivo, você fez o máximo que podia para um homem ignorante, assim como eu.
Por sorte, você ficou a serviço de alguém poderoso na treva, enquanto eu tive por companhia apenas o sofrimento e a dor.
Ainda assim, você venceu o ódio e veio em meu auxílio para esclarecer-me sobre meu desenlace.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 31, 2015 11:46 am

- Fui obrigado.
- Mas veio.
Cumpriu a tarefa para a qual foi designado.
Depois, quando eu encarnei, você deixou de lado o desejo de vingança e passou a me proteger.
Hoje sei que foi a sua inspiração que guiou a minha mão para a faca com a qual matei Licínio e fugi.
- Eu só fiz aquilo porque você carregava no ventre a única pessoa que amei na vida.
- Vê como o amor é mais forte?
Tantos anos você se entregou ao ódio e à vingança, mas bastaram apenas alguns poucos momentos para transformar tudo isso em nome do amor.
Não percebe?
- Não se iluda.
Fiz o que fiz por Cibele, não por você.
- No começo, sim.
Mas sei como você se sentiu quando viu aqueles homens dizimarem minha tribo.
Seu coração se confrangeu.
- Foi um morticínio...
Lembrei-me do que fizemos há muitos anos.
- Você, hoje, faria a mesma coisa?
- Não.
- Por quê?
- Através de você e Cibele vi a vida daquelas pessoas e compreendi que não temos o direito de matar ou nos julgar melhores.
- Você compreendeu, no astral, o que eu só pude aprender através da reencarnação.
- E daí?
Aonde foi que isso me levou?
Ainda estou perdido, e você já se reconciliou consigo mesma.
- Você também já se reconciliou consigo mesmo.
Só está preso aqui por causa de Cibele.
Não consegue se perdoar por ela ter morrido.
- Foi tudo em vão... -— lamentou com um soluço.
Tentei salvar-lhe a vida, mas o destino foi mais rápido e cruel.
- A vida apenas se encarregou de seguir o seu curso.
E você também deveria seguir o seu.
- Como assim?
- Já é hora de partir, Soriano.
Há muito tempo você não faz mais parte deste mundo.
Seus pensamentos agora mudaram, sua consciência tomou novos rumos.
Por que permanecer aqui?
- Não vou seguir com você, se é o que está sugerindo.
—- Ainda me odeia?
- Não, nem um pouco.
Mas não posso sair daqui enquanto não vir Cibele.
- Você pode vê-la no lugar em que ela se encontra.
- E se ela não estiver lá?
- Acha que estou mentindo para você?
- Você pode estar enganada.
Pensar é uma coisa, e ser, outra.
Quero ter certeza.
Preciso me certificar de que Cibele está bem e me perdoa.
Aracéli suspirou profundamente.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 31, 2015 11:46 am

Sabia que não adiantava mais insistir.
Aproveitara a oportunidade para conversar com Soriano, mas somente Cibele poderia convencê-lo a sair dali.
- Muito bem, Soriano, vou respeitar sua vontade -— disse Aracéli.
Quando Airumã puder, virá ao seu encontro.
Ela se foi.
Por muito tempo ainda, Soriano continuou vagando entre a floresta e a cidade.
Ia da aldeia incendiada à casa de padre Gastão e, por vezes, encontrava Aracéli.
Cumprimentava-a e conversava com ela.
Falavam sobre os velhos tempos e os sentimentos que já não eram mais os mesmos.
Eram conversas proveitosas, esclarecedoras e reconfortantes.
Cada vez mais, o ódio inicial de Soriano ia-se dissolvendo e transformando em amizade.
Aracéli deixara de ser sua inimiga há muito.
Um dia, Soriano perambulava pelo local que um dia fora a aldeia de Piraju quando ouviu um barulho na mata.
Olhou sem interesse, certo de que um animal estava se aproximando.
Soriano acostumara-se com os animais da selva, que não podiam lhe fazer mal.
Acompanhava-os, por vezes, e até tocava o pelo das onças, rindo, porque só em espírito tinha coragem para fazer aquilo.
Ele ficou aguardando até que o animal surgisse, mas, em vez disso, uma menina passou correndo pela sua frente.
Acostumado a circular entre os vivos, Soriano reconheceu o espírito e saiu atrás dela.
Será que era Cibele?
Seguiu-a até uma clareira mais adiante e viu quando ela se sentou em uma enorme pedra à sombra de uma árvore.
Aproximou-se, sentindo o coração disparar.
Ela estava de costas, os cabelos negros jogados sobre os ombros, e ele se aproximou.
Mesmo sem vê-la, sabia que era a menina Airumã.
Soriano ajoelhou-se e tocou o seu ombro.
Lentamente, a menina foi-se virando, até ficar de frente para ele.
De repente, não era mais a pequenina Airumã que ele tinha diante de si, mas a mulher doce e meiga que um dia fora sua noiva.
Ele não suportou a visão.
Caiu aos seus pés e pôs-se a soluçar, murmurando entre lágrimas:
- Perdoe-me!
Minha querida, perdoe-me!
Não pude salvá-la!
Você me deu a chance, e eu não consegui livrá-la daquela morte horrenda!
Gentilmente, Cibele o ergueu e sentou-o ao lado dela, pousando a cabeça dele sobre seu colo.
Acariciou-lhe os cabelos e permitiu que ele extravasasse o pranto.
Ficaram ali por muito tempo, até que a noite veio, e as estrelas perfuraram o tapete do céu, sem a luz esbranquiçada da lua para roubar-lhes a cintilação.
Soriano havia adormecido no colo de Cibele, tomado pela exaustão dos últimos anos de procura.
Quando finalmente acordou, permaneceu olhando-a em silêncio, sem saber o que dizer, com medo de que ela de repente se esvanecesse no ar.
- Do que tem medo, Soriano? -— perguntou ela com voz dulcíssima.
- De tornar a perdê-la.
- Em momento algum isso vai acontecer.
Mesmo quando estava distante, meu coração permaneceu junto ao seu.
Sou um miserável.
Não consegui protegê-la.
- Eu nunca pedi que me protegesse.
- Mas você me deu essa chance... e eu falhei com você...
- Quem sou eu para dar chances?
Foi Deus quem lhe deu a oportunidade de limpar o seu coração do ódio e da vingança.
Eu fui apenas o instrumento.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 31, 2015 11:46 am

- Você morreu tão menina...
Não tive como segurar os dedos que dispararam aqueles tiros nem as mãos que lançaram tantas tochas...
- Não era para que você o fizesse.
Sua chance não foi de salvar-me a vida, mas de transformar o ódio que sentia por Aracéli.
Quando reencarnei, já sabia que tudo acabaria assim.
Estava previsto que os bandeirantes invadiriam a tribo e matariam a todos.
Eu aceitei porque poderia me harmonizar com a vida e ajudar você a ver Aracéli como Aracéli, não mais como Alejandro.
E você conseguiu.
- Eu... não precisava salvá-la?
- Nem você, nem ninguém teria esse poder.
Quem é que pode mais do que as forças da vida?
- Mas foi errado, Cibele.
Se a vida programou aquele morticínio, ela não é justa.
- Como é que você, na sua pequenez, pode pretender definir o que é justo ou não?
A única injustiça que existe na vida é não reconhecer a justiça divina.
Deus é justo o tempo todo.
Não encare a justiça como instrumento da vingança nem como uma forma lícita de devolver uma agressão.
Ainda assim, seria vingança.
A justiça está no equilíbrio de todas as coisas.
Se você causa um abalo nas leis da natureza, tem que harmonizá-las, e tudo o que nos acontece é para compensar o desequilíbrio do qual fomos responsáveis.
Além disso, a obra divina segue um plano, e as oscilações são necessárias para impulsionar o crescimento.
- Então, eu não tive culpa pelo que aconteceu a você?
- Nenhuma.
Você não poderia evitar.
O que você deveria fazer foi feito.
Diluiu o ódio que sentia por Aracéli, e hoje são até amigos.
Isso é que era importante.
- Bem, olhando por esse lado...
- Pois então, não se aprisione mais aqui.
Você agora é livre. Pode partir.
- Mas e aqueles a quem eu servia?
- Vê alguém por aqui? -— ele olhou ao redor e meneou a cabeça.
Há quanto tempo você está sozinho?
- Não sei.
- Há tanto tempo que perdeu a noção.
Aqueles a quem você obedecia já não têm mais ascendência sobre você.
Há muito você rompeu a sintonia com eles.
- Nem percebi...
- Vamos embora, Soriano.
Não há mais nada para você aqui.
Dê a si mesmo a oportunidade de uma nova vida.
- Ao seu lado?
- Quem sabe?
Cibele fechou as mãos sobre as de Soriano, que se entregou ao destino com confiança.
Num piscar de olhos, os dois sumiram, deixando a selva entregue aos seus próprios habitantes.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 01, 2015 1:09 pm

Falando sobre o passado...

Nada está perdido para sempre.
Em todo lugar há um recanto onde as coisas ocultas aguardam o momento de se mostrarem.
Eu havia experimentado a minha dor e estava pronta para continuar a dar o meu quinhão de sofrimento, se isso fosse necessário para crescer.
Meus inimigos, assim como eu, foram se transformando em seres mais conscientes e dispostos a uma reconciliação pautada na compreensão.
Podíamos tentar.
Para alguns, contudo, era difícil esquecer e perdoar.
Os que haviam caído pela minha espada se levantaram contra mim, e eu tive que me esforçar para também não me levantar contra aqueles que haviam causado a minha derrota.
Foi assim com Licínio.
Hoje reconheço o quanto deve ter sido difícil para ele me perdoar e compreendo que eu também me enganava, dizendo a mim mesma que não lhe guardava mágoas nem rancor.
Afinal, fora eu a agredida.
Por que me revoltaria contra aquele que teimava em me perseguir, estando eu na confortável posição de vítima?
Às vezes é mais fácil nos colocarmos no lugar da vítima do que do algoz.
Ser o coitadinho atrai a atenção e a simpatia daqueles que nos rodeiam e cria, para o agressor, uma aura de censura e reprovação.
Somos aquele que tenta inutilmente a reconciliação, ao passo que o outro passa a ser o cruel perseguidor, incompreensivo e renitente na falta de perdão.
Para nós, todos os atributos nobres.
Para ele, a crítica e a condenação.
Essa é mais uma das muitas ilusões pelas quais nos permitimos seduzir em nossas vidas.
A cegueira de meu coração não me deixava ver que a submissão, assim como muitas outras coisas que eu fazia, era mais um artifício que o meu orgulho criara para impedir um ajuste não de contas, mas de sentimentos.
Eu estava longe de amar Licínio e me justificava com a teimosia dele.
Afinal, era ele quem me cobrava, enquanto eu nada precisava cobrar.
Ele acertava as coisas por nós dois, encarnando o conveniente papel do ofensor e fazendo de mim uma inocente ofendida.
Mas quem, nessa vida ou em outra, pode ser algoz ou vítima?
Não somos todos uma coisa só?
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 01, 2015 1:09 pm

Parte 3

Capítulo 32


Quando a filha de sinhó Eusébio morreu, pareceu que o mundo ia desabar.
Fátima estava com cinco anos quando pegou uma febre maldita que a levou embora em pouco tempo.
Era a única filha que Eusébio e Helena teriam, porque Helena, após um parto difícil, ficara impossibilitada de ter mais filhos.
O luto caiu sobre a fazenda, e até os escravos trabalhavam em silêncio para não perturbar o sono da menina, enterrada no pequeno cemitério no alto do morro.
Todos os dias, Helena ia ao cemitério lamentar a perda da filhinha.
A Eusébio, não agradavam aquelas constantes visitas, mas ela ficava agitada e agressiva, então, o melhor era deixá-la ir.
Chegava de manhã cedo, sentava-se à sombra de uma árvore próxima à sepultura e ficava ali observando, na esperança de que a filha se levantasse e corresse para ela de braços abertos.
Helena havia enlouquecido.
Com o tempo, Eusébio foi-se acostumando e já não se incomodava mais que Helena passasse as manhãs ao lado do túmulo da criança.
À hora do almoço, um escravo ia chamá-la, e ela voltava mais tranquila, dizendo que Fátima havia conversado com ela e pedia que fosse ao seu encontro.
- E como é que você pretende fazer isso? -— perguntava Eusébio, desconfiado.
Helena dava de ombros e não respondia, até que Eusébio deixou de se preocupar.
Ela sempre dizia a mesma coisa, fruto da sua imaginação doentia.
Os escravos da fazenda, em sua maioria, não gostavam nem de Eusébio, nem de Helena.
Trazidos da África em um navio negreiro, foram convertidos à religião dos brancos e aos seus costumes à força, além de se verem obrigados, sob ameaça de tortura e morte, a trabalhar pelo cultivo dos alimentos daquela gente.
Eusébio e Helena, embora não fossem dados a crueldades, viam os escravos como ferramentas de trabalho, dispensando-lhes tratamento em nada condizente com a dignidade humana.
Por isso, eram revoltados, e muitos riam intimamente da desgraça do patrão.
Era bem feito que a sinhá houvesse enlouquecido e que estivesse, agora, sofrendo a perturbação de espíritos que não gostavam dela.
Fazendo-se passar por Fátima, seus inimigos espirituais desencarnados procuravam levá-la ao suicídio.
E ela, transtornada com a morte da filha, desejando intimamente reencontrar-se com ela, dava vazão ao assédio dos desafectos, que a instigavam constantemente, minando-lhe a resistência e o restinho de lucidez que havia em sua mente.
Naquela manhã, tudo parecia como antes.
Helena saíra logo cedo, e Sebastião foi chamá-la perto da hora do almoço.
Foi subindo a colina devagarinho, maldizendo o sinhó e toda a sua comitiva de canalhas, capatazes e feitores que viviam de olho nos escravos e não os deixavam fugir.
Se pudesse, daria o troco naquela gente, mas sabia que, se tentasse qualquer coisa contra um branco, o resultado seria morte certa.
Mesmo antes de chegar ao topo da colina, Sebastião pressentiu que havia algo errado.
Um gorgolejar agonizante foi levado pelo vento até seus ouvidos, e ele estugou o passo, para ver o que poderia estar acontecendo.
Ao avançar pelas árvores e adentrar o cemitério, estacou aterrado, sustendo no peito a respiração ofegante.
Balançando de um lado a outro na árvore acima da sepultura de Fátima, o corpo de Helena se contorcia em espasmos de dor.
Os pés se agitavam freneticamente, chutando o ar em todas as direcções, enquanto as mãos desesperadas lutavam para afrouxar o nó que apertava sua garganta.
Na mesma hora em que prendera a corda ao pescoço e saltara daquele galho alto e grosso, Helena se arrependera.
Os espíritos que a instigavam afastaram-se momentaneamente, de forma a permitir que a sua consciência retornasse ao mundo e percebesse o que estava fazendo.
Foi só aí que se deu conta do ato insano que havia cometido.
Ela não queria morrer.
Próxima da semi-consciência, Helena não percebeu a chegada de Sebastião, que se ocultou entre as árvores para assistir a sua agonia, regozijando-se com a possibilidade de vingança.
Por que salvaria aquela mulher azeda que os tratava como animais?
Deixá-la morrer os livraria de sua detestável presença e causaria muito sofrimento a sinhó Eusébio, que ainda não se havia recuperado da morte da filhinha.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 01, 2015 1:10 pm

Quem sabe ele não morria também, permitindo que os escravos se libertassem e voltassem para sua terra?
Quis o destino que, naquele momento, uma menina passasse por ali.
Maria era a filha de oito anos da Chica, escrava encarregada dos quitutes, e a mãe lhe dera uma incumbência:
colher laranjas para um bolo.
Como as melhores árvores frutíferas ficavam no pomar atrás do cemitério, Maria fora correndo para lá, e agora carregava nas mãos uma cesta quase do seu tamanho, repleta de frutas.
Quando Maria se deparou com a cena macabra, parou estarrecida.
A visão de Helena pendurada na árvore, os pés se agitando freneticamente e fazendo a saia esvoaçar num bailado horripilante de morte encheram a menina de pavor.
Maria soltou a cesta no chão, espalhando laranjas por todos os lados, e desatou a correr.
Queria chamar alguém que tirasse sinhá Helena dali.
Não teve tempo.
Vendo-a, Sebastião a agarrou.
- Sebastião! -— exclamou ela, apontando para Helena.
—Depressa, Sebastião, a sinhá vai morrer!
Sebastião não se mexia e continuava segurando-a.
- O que está esperando? -— prosseguiu.
Vá salvar sinhá Helena!
O escravo olhou para Helena com um misto de ódio e prazer, voltando-se, em seguida, para Maria:
- Por que deveria?
O que ela fez por nós?
- Sebastião! -— tornou Maria, indignada.
Você não pode deixar uma pessoa morrer.
- E eles podem nos deixar morrer? Podem?
Podem nos tratar feito bichos, nos escorraçar e nos deixar naquela senzala fétida para apodrecer em vida?
Não, Maria, não se preocupe.
Ela não merece viver.
Nem ela, nem o maldito marido dela, nem aquela menina snobe que os vermes da terra agora estão devorando!
Havia tanto rancor no tom de voz de Sebastião, que Maria se aquietou assustada.
- Isso não é certo -— sussurrou ela, agora em lágrimas.
Não podemos simplesmente ficar vendo ela morrer.
- Não podemos é deixar que ela viva. Que morra!
Ele estava com tanta raiva que Maria se aproveitou.
Deu-lhe uma mordida na mão, com toda força, e Sebastião a soltou com um grito de dor.
Maria saiu correndo em desabalada corrida colina abaixo, com o outro atrás dela:
- Venha aqui, Maria!
Não seja besta!
Maria não se deteve.
Correu o mais que pôde e só parou quando entrou em casa, gritando feito louca:
- Sinhó Eusébio!
Sinhó Eusébio!
A balbúrdia foi tanta que todo mundo acorreu, inclusive Eusébio.
- O que está acontecendo? — censurou ele.
Que gritaria é essa?
- É a sinhá... — ofegou ela.
Sinhá Helena se pendurou lá na árvore do cemitério...
Eusébio não esperou mais.
Saiu pela porta feito um furacão gritando para que o capataz o acompanhasse.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 01, 2015 1:10 pm

Subiu correndo o morro, até que encontrou a árvore onde Helena balançava.
Já não se debatia mais, e os pés haviam-se aquietado.
As mãos pendiam ao longo do corpo, o pescoço arroxeado espremido no nó apertado
Com a ajuda de Ubaldo, o capataz, Eusébio desceu o corpo de Helena, afrouxando a corda que a estrangulava.
Experimentou-lhe o coração, que ainda batia fracamente.
Eusébio ergueu a mulher no colo e desceu a colina às pressas, dando ordens ao capataz para que corresse em busca do médico local.
Quando o médico chegou, já era tarde demais.
Em seus últimos momentos de vida, Helena nem se mexia.
O médico fez um exame superficial e constatou a inutilidade de qualquer tentativa.
Olhou para Eusébio e balançou a cabeça, enquanto ele ficou assistindo, inerte, à respiração quase imperceptível da mulher, que ia escasseando aos poucos, até sumir por completo.
Ela está morta -— constatou Eusébio, quase não acreditando no que acontecera.
- Lamento -— disse o médico, examinando o pescoço de Helena.
O que foi que aconteceu?
- Ela se enforcou -— esclareceu Eusébio, quase sem expressão.
- Se eu tivesse chegado um pouco antes, talvez tivesse tido tempo de salvá-la.
Mas o senhor me chamou muito tarde.
- Eu não sabia.
Mandei Sebastião ir buscá-la, e...
Foi então que Eusébio notou que Sebastião havia desaparecido.
Mandou chamar Maria, para que ela informasse se o havia visto
- Não sei do Sebastião, não, sinhó -— respondeu a menina de forma inocente.
Deixei ele lá no morro.
- Ele viu sinhá Helena na árvore?
- Viu.
- E não fez nada?
Maria percebeu que Sebastião fizera algo muito errado e que seria punido.
- Vamos, menina, responda-me!
Sebastião nada fez para salvar minha mulher?
- Eu... não sei, sinhó...
- Conte-me a verdade, eu lhe ordeno!
Só a voz tonitruante de Eusébio já era suficiente para apavorar Maria, que se encolheu num canto e começou a chorar, com medo até de abrir a boca.
- Eu não sei, já disse.
Ele só ficou lá parado, olhando...
- E Helena estava viva?
Quando você chegou, ela ainda se mexia?
- Sim.
Eusébio foi sentindo um ódio tremendo crescer dentro dele.
Descontrolado, começou a sacudir Maria pelos ombros, ao mesmo tempo em que gritava:
- Vocês a deixaram morrer, não foi?
Por vingança e ódio!
Vou acabar com vocês!
Ele começou a bater em Maria, que tombou no chão e procurou se defender com os braços.
- Não fui eu, sinhó! -— contestou ela, aos prantos.
Eu pedi a Sebastião para salvar sinhá Helena, mas ele não quis.
Disse que ela merecia morrer!
Ele me segurou, para não me deixar buscar ajuda, mas eu mordi a mão dele e corri.
Eu tentei salvar sinhá Helena, eu tentei...
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 01, 2015 1:10 pm

Eusébio susteve o braço e virou-se para Ubaldo, que acompanhava a surra sem mexer um dedo:
- Vá atrás daquele negro nojento.
Traga-o vivo!
Quero acabar com ele com as minhas próprias mãos.
Do lado de fora, Chica escutava tudo sem poder interferir.
Havia outras escravas com ela, algumas penalizadas, outras com medo, outras reprovando a atitude de Maria.
- A menina não teve escolha -— defendeu Chica.
Está apanhando de sinhó Eusébio!
- Ela deveria morder a língua! -— retorquiu Norma.
Por causa dela, Sebastião vai ser morto.
A porta se abriu bruscamente, e Ubaldo passou apressado.
- Vão procurar o que fazer -— mandou ele.
Não quero ninguém perturbando ainda mais o patrão.
Xô! Chispem!
As escravas voltaram correndo para a cozinha, menos Chica, que ficou esperando Maria.
A menina saiu em seguida, cabeça baixa, olhos inchados de tanto chorar.
- Maria!
A mãe correu para ela, abraçando-a e puxando-a para fora.
Estreitou-a o mais que pôde, para protegê-la dos olhares acusadores dos outros escravos, e levou-a para a cozinha, sem saber se temia mais a ira de Eusébio ou a revolta dos companheiros.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 01, 2015 1:10 pm

Capítulo 33

Não tardou muito para Sebastião ser encontrado.
Temendo a reacção de Eusébio, embrenhara-se no mato tão logo Maria descera correndo o morro.
Por que não terminara, ele mesmo, o serviço que Helena começara?
Deveria tê-la tirado da árvore e enforcado com a mesma corda.
Depois, poderia colocá-la de volta, e ninguém ficaria sabendo.
Todos pensariam que ela se havia enforcado, e nenhuma suspeita recairia sobre ele.
Mas não.
Achara que ela ia mesmo morrer, e só o que ele tinha a fazer era esperar, para depois voltar para casa esbaforido e dar a notícia a sinhó Eusébio, que nem iria desconfiar.
Ele andava ocupado e não tomava conta da hora exacta em que Sebastião saía para buscar sinhá Helena.
Por isso, tinha tempo para esperar que ela morresse e retornar, pesaroso, para contar que a mulher se havia enforcado.
Só não contava com a intrometida da Maria.
A menina sabia que ele se omitira deliberadamente para não salvar Helena e deixá-la morrer.
E agora? O que seria dele?
Só lhe restava fugir e rezar para que não o achassem.
Inútil ilusão.
Sem experiência no mato, Sebastião foi capturado em breve tempo e reconduzido à fazenda.
Ainda tentou correr, mas Ubaldo atirou uma corda e laçou-o como se laça um touro feroz.
- Venha cá, animal -— exasperou-se o capataz.
O patrão tem contas a acertar com você.
Com a corda presa ao pescoço, Sebastião seguiu puxado por Ubaldo.
De vez em quando caía e era arrastado pela estrada áspera até que o feitor diminuísse a marcha para que ele se levantasse.
Foi assim que Sebastião entrou na fazenda, atado pelo pescoço ao laço do feitor.
Estava exausto e machucado, o suor do corpo se misturando ao sangue das feridas.
Ubaldo deu uma volta com ele pela fazenda, para que todos os escravos o vissem, e parou em frente à porta de entrada, onde Eusébio os aguardava.
- Seu negro maldito! -— urrou Eusébio, desferindo-lhe violenta chibatada.
Vai ter o que merece!
Enquanto Ubaldo descia do cavalo, Eusébio chicoteou o escravo ali mesmo, diante dos outros.
Quanto mais batia, mais sentia a raiva guiando a mão do chicote.
- Canalha! Isso é pelo que fez à minha mulher!
Os escravos da fazenda queriam não olhar, mas foram obrigados pelos capatazes, que seguiam ordens de Eusébio.
Maria chorava de mansinho, o rosto enfiado na saia da mãe, corroendo-se de remorso e dor.
- Não foi culpa sua -— sussurrava Chica, bem baixinho.
Você não teve escolha.
Do outro lado, Norma se atirou ao chão, lamentando, em desespero, o destino de seu amado Sebastião.
O escravo apanhava sem dizer uma palavra.
Apenas em um momento, quando conseguiu virar o rosto para o lado, seu olhar cruzou com o de Maria, e ela sentiu toda a força de seu ódio.
Parecia que ele a acusava com palavras mudas.
Chegou o momento em que as chicotadas já não causavam dor em Sebastião.
A carne, de tão ferida, tornara-se insensível aos golpes, e ele apenas ficou ali parado, entorpecido pelo sofrimento.
Percebendo isso, Eusébio se deu por satisfeito e fez cessarem os golpes do chicote.
- Leve-o daqui -— ordenou a Ubaldo.
E enforque-o na árvore mais alta do terreiro.
- Não! Não! -— era Norma que, não podendo mais se conter, atirou-se aos pés de Eusébio, implorando pela vida do amado.
Eusébio empurrou-a com o pé e retrucou com desdém:
- Quer juntar-se a ele, negra?
Norma recuou aterrada, enquanto Ubaldo ria e jogava água no rosto de Sebastião, para acordá-lo.
- Você não pode perder o melhor da festa -— anunciou em tom irónico.
E olhe que a sua amada vai assistir de camarote, já que ela não quis lhe fazer companhia como a estrela principal do espectáculo.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 01, 2015 1:10 pm

Sebastião olhou com amargura para Norma, que abaixou a cabeça, tocada pela decepção gravada no olhar dele.
Ele não esperava mesmo que ela o acompanhasse, mas não contava que lhe desse as costas e fugisse.
Foi o que ela fez.
Com medo de ter-se excedido, evitou encarar Sebastião e voltou correndo para o seu canto, dando a si mesma a desculpa de que não poderia suportar vê-lo morrer, quando, na verdade, temia ser enforcada junto com ele.
Com risadas de euforia, Ubaldo amarrou as mãos de Sebastião e montou-o em seu cavalo.
Prendeu a corda no galho mais alto da árvore e passou o laço ao redor do pescoço do negro.
Os outros escravos choravam, evitando olhar para Sebastião.
A uma ordem de Eusébio, Ubaldo deu uma chicotada no cavalo, que se pôs em movimento.
O cavalo foi, e Sebastião ficou, pendurado na corda que pendia do galho.
Ao contrário de Helena, não resistiu muito tempo.
Nem sequer chegou a se debater.
Pescoço quebrado, encontrou a morte mais depressa.
Entre os escravos, o clima era de pesar e revolta.
Eusébio mandou que os próprios negros enterrassem o corpo de Sebastião, não permitindo qualquer cerimónia fúnebre.
Apenas em seus corações, os escravos rezaram pela sua alma.
À noite, quando todos voltaram a se reunir na senzala, ninguém dizia nada.
Estavam muito chocados com o ocorrido, pois aquela era a primeira vez que Eusébio mandava castigar alguém, e logo com a morte.
- A culpa é toda dela! -— esbracejou Norma, apontando o dedo acusador para Maria.
— Foi ela quem delatou Sebastião.
- O que você queria que ela fizesse? -— defendeu Chica.
Sinhó Eusébio estava batendo nela.
- Ela poderia ter mentido -— insistiu Norma.
Ter inventado alguma história.
Mas não. Foi logo contando tudo.
- Ela é apenas uma menina.
Não sabe pensar como você.
- Que, por acaso, morreu de medo quando sinhó Eusébio mandou que se juntasse a Sebastião, não foi? -— contrapôs Fidência, mais ponderada.
- É isso mesmo -— disse alguém mais.
— Maria é uma criança, mas você, Norma, já é mulher feita.
- E se acovardou diante do sinhó -— observou um outro.
E nem olhar mais para Sebastião, olhou.
- Deveria se envergonhar — acrescentou um terceiro.
—Acusar uma criança para esconder sua covardia.
- Ah! Agora a culpa é minha?
Fui eu que dei com a língua nos dentes?
- A culpa não é de ninguém -— contestou Fidência.
Foi Sebastião que escolheu o caminho dele.
Não deveria ter deixado a sinhá morrer.
- Você agora vai defender aquela gente? -— indignou-se um escravo robusto.
- Não estou defendendo ninguém.
- Pois eu acho que Sebastião fez muito bem em deixar aquela malvada morrer -— comentou mais um escravo.
- Também acho -— disse outro.
- E Maria deveria ter ficado quieta -— incentivou Ninoca, amiga de Norma.
Se não tivesse corrido para sinhó Eusébio, nada disso teria acontecido.
- É, e ninguém iria mesmo sentir falta de sinhá Helena.
- Quem mandou você chamar o sinhó, Maria? -— replicou Norma, fulminando-a com aquele olhar de acusação mordaz.
- Ninguém -— respondeu a menina.
Eu só achei que era o certo...
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 01, 2015 1:11 pm

- É certo querer salvar essa gente que só faz mal ao seu povo? -— revidou Zeferina, outra amiga de Norma.
Viu só no que deu?
- Fiquei com pena de sinhá Helena.
Ela parecia estar sentindo dor.
- E quem foi que teve pena de Sebastião, hein? -— insistiu Norma.
Ninguém ligou a mínima para a dor dele.
- Eu liguei... -— soluçou Maria.
Não queria que ele morresse.
- Se não queria, não deveria ter ido correndo contar tudo ao sinhó Eusébio.
- Pare com isso! -— gritou Chica, pondo-se na frente de Maria.
Pare de atormentar a minha filha.
- Sua filha é a única culpada pela morte de Sebastião!
- Ninguém é culpado de nada -— objectou Fidência.
E chega de veneno!
Maria só tem oito anos, e você deveria se envergonhar de ficar acusando ela por algo de que não foi culpada.
- É melhor todo mundo deixar isso para lá e ir dormir -— repreendeu um escravo velho e de cabeça branca.
— Amanhã cedo temos que estar na lida e, sem dormir, não vamos produzir, e mais de nós serão castigados.
É isso que vocês querem?
Ninguém queria mais ouvir falar em castigos, e todos foram dormir.
Maria agarrou-se a Chica, que a estreitou para protegê-la.
O silêncio caiu sobre a senzala, e apenas alguns roncos se faziam ouvir de vez em quando.
Norma era a única que não conseguia conciliar o sono.
Ainda se recordava do olhar desapontado de Sebastião, revivendo o medo que sentira de ser chicoteada também e, pior, enforcada junto com ele.
Para aliviar a consciência, punha a culpa em Maria, e logo uma crescente antipatia pela menina foi tomando conta do coração de Norma.
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Ave sem Ninho

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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 01, 2015 1:11 pm

Capítulo 34

Norma não esquecia a morte de Sebastião e buscava desculpas para si mesma.
Mas o que poderia ter feito?
Insistir com sinhó Eusébio e ser enforcada também?
Era esperar demais de um ser humano, e ela não tinha jeito para heroína.
Gostava de Sebastião, mas queria sobreviver, mesmo que a sua vida não fosse uma vida que valesse tanto a pena assim.
De qualquer forma, estava viva.
E agora, só por isso, sentia que os outros a recriminavam e a evitavam, mudando de conversa toda vez que ela se aproximava.
Não fosse a consciência de Norma, que era a única a dirigir-lhe cobranças e acusações, veria que nada daquilo era real, pois os outros escravos apenas prosseguiam com suas vidas.
Ninguém achou que Norma deveria ter-se deixado matar por causa de Sebastião.
Era ela, e apenas ela, quem sentia sobre si acusações invisíveis.
E, para aliviar-se da culpa, descontava tudo em Maria, não perdendo a oportunidade de maldizer a menina para os companheiros.
Certo dia, Norma lavava roupas na beira do riacho em companhia de mais outras três escravas, quando avistaram Maria correndo por entre as árvores.
- Lá vai a malandrinha -— observou Norma, em tom malicioso.
Desde que virou a filha preta do sinhó, pensa que não precisa mais trabalhar.
- Deixe de intrigas, Norma -— censurou Fidência.
Maria continua a fazer o que sempre fez.
- O quê? Brincar?
Ela é criança e não pode ficar o tempo todo trabalhando.
Agora fique quieta e faça o seu serviço.
Esse foi o prémio que ela recebeu por ter entregado Sebastião -— prosseguiu Norma, sem dar atenção a Fidência.
- Que prémio? -— quis saber Ninoca.
- Você não sabia? -— a outra meneou a cabeça.
Pois Maria agora é a preferida de sinhó Eusébio, que a tomou como filha.
- Não me diga... -— espantou-se Zeferina.
- Deixe de intrigas -— censurou Fidência.
Sinhó Eusébio ficou muno triste com a morte da mulher e da filha.
Quem poderia culpar o homem por se afeiçoar a outra criança, já que perdeu a que tinha?
Maria é uma menina muito meiga e carinhosa.
Não há quem não goste dela.
- Isso é o que a Chica diz, para proteger a filha -— objectou Norma.
Porque tem medo da reacção da nossa gente.
E agora, Maria acha que pode ficar por aí, desfilando com ares de sinhazinha.
- Isso tudo são invenções maldosas -— objectou Fidência.
Maria é uma menina boazinha, e nem lhe passa pela cabeça que possa vir a ser tratada como sinhazinha.
- Pois espere só para ver -— desafiou Norma.
Não vai demorar muito para Maria deixar a senzala.
- Você acha que Maria vai passar a viver na casa grande? -— indagou Ninoca.
- Não só viver na casa grande, mas ocupar o quarto da sinhazinha morta.
E vestir as suas roupas, e brincar com seus brinquedos.
E vai até poder mandar em nós.
- Oh! — fizeram Ninoca e Fidência ao mesmo tempo, a primeira já sentindo raiva da menina.
A segunda, surpresa com tanta mentira.
- Será que vai se pintar de branco também? -— ironizou Zeferina, mas com ira na voz.
- Não duvido nada -— concordou Norma.
E a Chica, aquela aproveitadora... não duvido nada que agora passe a fazer as vezes de mulher do sinhó Eusébio.
- Não diga! -— falou Ninoca, surpresa.
Você acha que ela e o sinhó...?
- Acho. Ninguém me disse nada, mas eu percebi.
Podem ver como Chica anda toda metida, com ares de gente importante.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 01, 2015 1:11 pm

- É mesmo -— concordou Zeferina.
Outro dia mesmo, pedi a ela um pedaço de bolo de laranja e ela disse que não podia, que era para sinhó Eusébio.
Vejam só que snobe!
- Cuidado com a língua -— repreendeu Fidência - ou vão acabar morrendo do próprio veneno.
- Vai ser a única a defender aquelas traidoras do nosso povo? -— provocou Norma.
- É você quem está dizendo que elas são traidoras.
Pois, para mim, elas continuam as mesmas.
Maria recebeu um favor de sinhó Eusébio, e daí?
Ela é só uma criança, fez o que podia para salvar sinhá Helena, e eu teria feito o mesmo.
Não acho certo ficar vendo alguém morrer sem fazer nada, mesmo que seja um cachorro.
Quanto a Chica, ela é responsável pelos quitutes de sinhó Eusébio.
Como acha que ela iria explicar um bolo mordido antes de ele experimentar o primeiro pedaço?
As escravas ficaram em silêncio.
Terminaram de lavar a roupa e se levantaram.
Ao passar por Fidência, Norma evitou encará-la, mas a outra a segurou pelo braço e censurou veemente:
- Deveria se envergonhar.
Maria e Chica nunca lhe fizeram nada.
Devolvendo à outra um olhar de raiva, Norma puxou o braço, abraçou a trouxa de roupas e partiu atrás das amigas, sem imaginar o resultado de tantas mentiras.
Norma acendera a primeira fagulha, e Zeferina e Ninoca proporcionaram a palha por onde o fogo se alastraria.
Em pouco tempo, os escravos da senzala estavam comentando sobre a preferência de sinhó Eusébio por Maria e Chica.
- Outro dia mesmo vi a Chica de mãos dadas com o sinhó -— comentou alguém.
- Verdade? -— indignou-se outra pessoa.
- É, e Maria estava brincando com as bonecas da sinhazinha.
Vocês sabiam que Maria está aprendendo a montar?
- Mentira!
- É verdade.
Eu vi Maria na garupa do cavalo de sinhó Eusébio.
- E a Chica, toda derretida!
Vi, pela janela do quarto do sinhó, quando ela se deitou na cama dele.
- Não, isso não!
- Vi, sim, eu juro!
E cheirava o seu travesseiro.
- Mas que desavergonhada!
- Isso não é nada.
Pois eu ouvi a própria Maria chamando sinhó Eusébio de meu paizinho.
Todos emudeceram, tamanho o espanto, menos Fidência, que se adiantou e replicou em tom de censura:
- Vocês deveriam se envergonhar.
Olhos e ouvidos nos enganam, e nem sempre as coisas são o que parecem.
E, ainda que Maria e Chica caíssem nas boas graças de sinhó Eusébio, o que vocês têm com isso?
Por acaso é pecado querer ser bem tratada?
Ninguém disse mais nada, e foram todos saindo, retomando seus afazeres.
Norma não conseguiu conter a euforia e deixou escapar um risinho de satisfação.
As coisas estavam tomando o rumo que ela desejava.
Na verdade, nada do que haviam dito era o reflexo da verdade.
Chica supostamente ficara de mãos dadas com Eusébio quando ele se cortara e mandara que ela lhe fizesse um curativo.
E Maria recebera ordens para colocar as bonecas da sinhazinha no sol e escová-las, de modo a tirar-lhes o pó e o cheiro de mofo.
Também andara a cavalo no dia em que Eusébio a chamara para ir com ele à vila comprar aguardente, e ela tivera que se equilibrar na garupa, com um pacote cheiinho de garrafas no colo.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 01, 2015 1:11 pm

Na hora de desmontar, o saco se rompeu e ela, morrendo de medo de deixar alguma garrafa cair e se quebrar, deixara escapar a súplica:
- Ai, meu paizinho... -— referindo-se àquele que está no céu.
Chica, por outro lado, fora obrigada a deitar-se na cama de Eusébio certa vez em que, por descuido, derramara a bandeja do café da manhã sobre os lençóis, quando fora recolhê-la após Eusébio haver tomado o desjejum.
Na queda, um bolinho rolara pela cabeceira, indo alojar-se num cantinho entre o colchão e o estrado, obrigando-a a esticar-se sobre a cama, com a cara colada no travesseiro, para alcançá-lo.
Ante olhos e ouvidos maldosos, a verdade se distorce e toma a forma daquilo que se deseja ver ou ouvir.
O facto, contudo, foi que as mentiras acabaram prevalecendo nos corações ressentidos e invejosos, e muitos escravos passaram a olhar Maria e Chica com desconfiança e raiva, evitando-as sempre que podiam.
Se antes Maria brincava com as poucas crianças negras que havia, agora, ninguém mais queria a sua companhia.
E toda vez que Chica vinha conversar com alguém, os outros respondiam com evasivas e meias palavras, arranjando sempre algo que fazer para não ter que falar com ela.
- Por que elas estão fazendo isso, mamãe? -— perguntava Maria, com lágrimas nos olhos.
- Não sei, minha filha.
- Ninguém mais quer brincar comigo.
- Vai passar.
Dali a pouco, ao encontrar-se com Fidência, Chica comentou:
- Não entendo por que todo mundo, de uma hora para outra, não fala connosco direito.
Será que fizemos alguma coisa, Maria e eu, que não sabemos?
As outras crianças até evitam brincar com ela.
Fidência não queria se envolver, mas aquilo já era demais.
- Não ligue -— aconselhou.
São mexericos de gente que não tem mais o que fazer, como se isso fosse possível entre nós
- Que mexericos?
- Bobagens.
Nem vale a pena falar.
- Não, Fidência.
Você falou em mexericos, e eu quero saber o que é.
Andam falando mal de mim pelas costas, é?
Fidência suspirou, mas acabou contando:
- Olhe, Chica, corre um boato por aí que você é amante de sinhó Eusébio, e que ele colocou a Maria no lugar da filha dele.
- O quê?!
Mas que ideia ridícula!
E você acredita nisso?
- Eu, não, mas alguns dos outros escravos, sim.
- Por quê?
Quem foi que andou espalhando esse absurdo?
- As pessoas...
- Sinhó Eusébio não é um homem mau, Fidência.
Ele se apegou um pouco a Maria, é verdade, mas não do jeito como estão dizendo.
- Ele mandou matar Sebastião.
- Coloque-se no lugar dele.
Sebastião deixou sinhá Helena morrer.
O homem ficou feito doido.
Perdeu a mulher e a filha em menos de um ano.
- Você tem razão, mas os outros não pensam assim.
- Era só o que me faltava, ser acusada pela minha própria gente.
Já não basta ter que servir a um branco?
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 01, 2015 1:11 pm

- Acho que o melhor é deixar para lá.
Se você não der importância, as pessoas param de falar.
Chica ficou em dúvida.
Agora entendia o olhar atravessado de algumas pessoas, mas não lhe agradava ser o alvo das futricas de seu povo.
Estavam todos pensando que ela era amante de sinhó Eusébio, e ele nunca olhara para ela com a menor sombra de desejo.
O homem ainda era apaixonado pela esposa e vivia a lamentar a morte dela e da filha.
Se os outros estivessem dentro da casa grande, saberiam do que ela estava falando.
O melhor mesmo era seguir o conselho de Fidência e não se importar com o falatório.
Só era ruim para Maria, que era ainda muito criança para compreender a maledicência humana.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 01, 2015 1:12 pm

Capítulo 35

Certa vez, Fidência estendia os lençóis no varal, enquanto Norma, Zeferina e Ninoca terminavam de enxaguar a rouparia.
Ao se levantarem para voltar, Norma avistou Maria brincando na beira do rio e soltou um risinho de escárnio.
Com o queixo, mostrou a menina às outras e aproximou-se, falando alto, em tom de reprovação:
- Deixe sinhó Eusébio saber que você mata o trabalho para ficar brincando com peixinhos.
Maria levou um susto tão grande que quase caiu dentro do rio.
Norma, secundada por Zeferina e Ninoca, ria a valer da menina, que se enfureceu e, mostrando-lhes a língua, retrucou com impertinência:
- E deixe o sinhó saber que vocês ficam vagabundeando pelo mato em vez de esfregar as ceroulas dele.
- Ora, sua atrevida! -— esbracejou Norma, partindo para cima de Maria.
—Vou-lhe dar uma surra, que é o que você merece.
Maria se virou para correr.
Na pressa, seu pé escorregou nos seixos cheios de limo, fazendo-a desequilibrar-se.
Seu corpo fez um rodopio estranho, e ela tentou se segurar em apoios invisíveis.
Estendeu os braços para todos os lados, contudo, não havia nada em que se agarrar.
Suas pernas bambearam, o pé falseou várias vezes, e ela quase caiu, mas conseguiu se sustentar, embora muito precariamente.
Foi tudo muito rápido.
Norma achou que poderia se divertir e escarnecer um pouco mais da menina e, aproveitando-se da posição mal equilibrada de Maria, empurrou-a com força para dentro da água.
O riacho ali não era fundo, e havia muitas pedras encobrindo seu leito.
Maria caiu de costas, espargindo água para todos os lados, o corpo afundado na areia do leito, a cabeça de encontro a uma pedra pontuda, lavada pela água fluente.
Ela não emitiu nenhum gemido e, a princípio Norma e as amigas se escangalharam de tanto rir.
Foi Ninoca quem percebeu algo estranho.
No lugar onde a água banhava a cabeça da menina, um filete avermelhado escorria, diluindo-se rapidamente na correnteza ténue que fazia o rio rumorejar.
Aos poucos, Ninoca foi cessando as gargalhadas, e só então as outras duas notaram que havia algo errado.
Um pavor enevoava os olhos de Ninoca, que cobriu a boca com uma das mãos enquanto, com a outra, apontava para o local onde o corpo da criança jazia inerte, balançando ao sabor da corrente.
Norma seguiu a direcção do dedo da amiga, com os lábios ainda distendidos no sorriso mordaz, que se extinguiu tão logo percebeu o sangue de Maria diluído na água.
As três se olharam em silêncio, recusando-se a acreditar no que havia acontecido.
- Não pode ser... -— balbuciou Norma, com medo de se aproximar.
O rosto está fora da água...
- Ela bateu com a cabeça! -— esganiçou-se Zeferina.
—Olhe o sangue!
O sangue continuava a correr, e Norma começou a se desesperar.
- Vão dizer que fui eu -— apavorou-se, associando tudo às acusações mudas e fantasiosas acerca da morte de Sebastião.
Não foi culpa minha. Ela caiu.
- Você a empurrou -— lembrou Zeferina.
- Ela escorregou.
É o que vamos dizer -— sugeriu Norma, em pânico.
- Ai, meu Deus, o que é que fazemos? -— soluçou Zeferina.
- Vamos chamar alguém e dizer que ela caiu.
Vocês entenderam?
Norma e Ninoca estavam de costas para a mata, e apenas Zeferina viu quando Fidência chegou.
Como demoravam a voltar com a roupa lavada, Fidência partira atrás delas para ver o que havia acontecido.
- O que vocês fizeram? -— gritou Fidência, que havia escutado parte da conversa.
- Foi um acidente -— afirmou Norma.
Não fizemos nada. Ela caiu...
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 01, 2015 1:12 pm

Fidência havia passado por elas às pressas e examinava o corpo inerte de Maria.
- Ela está morta! -— constatou horrorizada.
Vocês a mataram
- Não! Foi um acidente, eu juro!
- Não jure pelo que sabe que é mentira.
Eu ouvi o que vocês disseram.
Ouvi claramente quando Zeferina disse:
você a empurrou.
Você quem?
Qual das duas empurrou Maria?
- Ela caiu!
Escorregou na pedra e caiu!
- Mentira! Vocês a empurraram!
Ou você, ou Ninoca!
- Eu, não! -— defendeu-se Ninoca, apavorada ante a possibilidade de ser acusada de criminosa pelos demais.
Nem cheguei perto dela.
Norma permaneceu em silêncio, maldizendo intimamente a covardia da amiga.
- Foi você, não foi? -— acusou Fidência, apontando para Norma.
Você a detestava e aproveitou-se da oportunidade para livrar-se de uma criança inocente.
Como pôde?
- Foi sem querer, eu juro! -— choramingou Norma.
— Não queria que ela morresse.
Foi uma brincadeira.
- Você a empurrou?
Foi isso que fez?
- Norma a empurrou, mas não para matá-la -— intercedeu Zeferina.
- Nós só queríamos nos divertir - esclareceu Norma.
—Não era para isso acontecer.
Fidência não disse mais nada.
Lançou a Norma um olhar de muda reprovação e foi apanhar o corpo de Maria.
Como faria para contar a Chica que fora Norma quem matara sua filha?
- Você deveria vir comigo -— aconselhou.
Se realmente foi sem querer, venha comigo e conte tudo a Chica.
- Ficou louca? -— protestou Norma.
Chica vai querer me matar.
- É o mínimo que você deve fazer.
Assumir a responsabilidade pelo que fez.
- Mas foi sem querer!
- Ainda assim, você fez.
- Pelo amor de Deus, Fidência, não conte nada.
Confirme a nossa versão do acidente.
- Nunca menti na vida e não vou começar agora para acobertar o seu erro.
Venha comigo e conte a Chica.
Talvez assim ela não fique com tanta raiva de você.
- Ela vai me odiar.
Já me odeia.
- É você quem a odeia, assim como odiava Maria.
Foi o seu ódio que matou a menina.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 01, 2015 1:12 pm

- Não me peça para fazer uma coisa dessas!
- Por sua causa, Maria e Chica foram discriminadas pela nossa gente.
Por causa das mentiras infames que você inventou.
- Eu estava com raiva e com medo.
Achei que Maria e Chica tinham passado para o lado dos brancos.
- Mentira.
Você quis descontar em Maria a sua própria covardia.
Vai ser covarde novamente?
- Não sou covarde.
Eu não podia salvar Sebastião.
- Ninguém achou que podia.
O que aconteceu a Sebastião não foi culpa sua, nem ninguém esperava que você perdesse a vida junto com ele.
Você é quem se acusa de covarde e quis punir Maria no seu lugar para ver se, culpando-a, aliviaria a própria culpa.
- Eu não fui culpada, você mesma disse...
- Eu disse, mas não é assim que você pensa.
Com Maria, contudo, é diferente.
Foi por sua causa que ela morreu.
Vai ser covarde novamente?
Sem argumento, Norma abaixou os olhos e chorou.
Fidência tinha razão.
Ela fora longe demais.
Não tivera culpa na morte de Sebastião, mas, o que dizer de Maria?
De onde estava, ficou olhando Fidência erguer o corpo da menina e sentiu o coração se confranger.
Queria muito contar a verdade, mas tinha medo da reacção dos outros.
E se ficassem zangados e a matassem também?
E se sinhó Eusébio, que gostava tanto da menina, mandasse que Ubaldo a amarrasse no tronco, lhe desse umas chibatadas e a enforcasse?
Apesar do medo, Norma sentiu que precisava fazer alguma coisa.
Estava muito arrependida de tudo o que fizera.
As mentiras que inventara sobre Maria e, principalmente, o empurrão que lhe dera.
Nunca pensou em matar a menina.
Quando a empurrara, nem sequer lhe passou pela cabeça que poderia matá-la.
Não era uma assassina.
Podia ser invejosa, covarde e maledicente.
Mas criminosa, não era.
E, agora, Maria estava morta por causa da sua inconsequência.
Norma sentiu um medo indescritível apoderar-se de todo o seu corpo, só não a paralisando porque o remorso foi mais intenso.
Seria difícil, mas sabia o que tinha que fazer.
- Você vem comigo ou não? -— indagou Fidência, parando ao lado dela com a menina no colo.
Em vez de responder, Norma estendeu as mãos e tomou o corpo de Maria dos braços da outra.
- Deixe que eu a levo -— falou com voz sofrida.
Como você mesma disse, a responsabilidade é minha.
Percorreram o caminho todo em silêncio.
Apenas Fidência e Norma, carregando a menina morta, entraram na casa.
Chica estava mexendo as panelas no fogão e ouviu o barulho de passos.
Pensando que fosse a filha, virou-se despreocupadamente, ao mesmo tempo em que dizia:
- Você demorou...
As palavras morreram na garganta, e a mente de Chica não conseguiu decifrar a cena insólita que tinha diante de si.
O que Fidência fazia ali parada, ao lado de Norma, que segurava no colo sua filha adormecida?
Aos poucos, o susto foi passando, e a lucidez voltou a animar a mente de Chica, que soltou a colher de pau e correu para elas.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

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