Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 02, 2015 10:44 am

- Maria! Minha filhinha!
O que foi que aconteceu?
Chica retirou a menina dos braços de Norma e sentou-se com ela ao colo, sem imaginar que ela não tinha mais vida.
Maria estava toda molhada, e a mãe custou a perceber o sangue que começava a grudar na carapinha.
Algumas gotas, contudo, se espargiram sobre a alvura de sua blusa, e Chica afastou a criança, apalpando-lhe a cabeça até encontrar a ferida.
Só então se deu conta da moleza do corpo de Maria, bem como da falta de respiração, dos olhos cerrados que não se abriam e da ausência do compasso de seu coração.
Durante alguns minutos, em que tentou disfarçar a verdade, não acreditou que Maria estivesse morta.
Parecia que dormia.
Alisou-lhe os cabelos e chamou baixinho:
- Maria...
A menina não se movia, e o contacto de seu corpo frio lembrou à Chica o toque da morte.
Um arrepio percorreu os ossos da escrava que, finalmente, percebeu que a fatalidade a tinha escolhido.
Soltou um grito e apertou o corpo da menina, chorando com a dor da certeza de que ela havia morrido.
- Maria... -— rumorejou.
Oh! não...
Durante muito tempo, Chica permaneceu agarrada ao corpo da filha, e ninguém teve coragem de interrompê-la ou dizer alguma coisa.
Fidência as olhava emocionada, e Norma padecia de remorso.
Depois que ela parou de soluçar, permanecendo tão imóvel quanto a criança, Fidência se aproximou e falou gentilmente:
- Ela se foi, Chica.
Precisamos enterrá-la.
Chica levantou os olhos e enxugou as lágrimas, e a dor que havia impressa neles causou um calafrio em Fidência e mal-estar em Norma.
Ela havia, sem querer, roubado uma criança de sua mãe.
- Minha filhinha -— soluçou Chica - o que foi que aconteceu?
Fidência olhou para Norma, que engoliu em seco e pensou em recuar, mas o caminho não tinha mais volta.
Era preciso reunir coragem e agir.
- Chica... -— sussurrou ela - Maria caiu no rio...
Os olhos de Chica se estreitaram, como se quisessem impedir que, com as lágrimas, a dor fugisse de dentro dela.
- Caiu? -— repetiu ela, ouvindo as palavras de Norma como se estivesse num sonho.
- Bem, na verdade... -— ela hesitou e olhou para Fidência, que a encorajou com o olhar.
Eu estava com ela, e... nós estávamos brincando, e ela estava na beira do rio...
Havia muitas pedras, muitos seixos escorregadios...
Eu não queria, eu juro...
O quase descontrole de Norma chamou Chica de volta à razão.
Ela acomodou o corpo de Maria sobre o banco e se levantou, agora mais consciente.
- Você não queria o quê?
Norma engoliu em seco e respondeu com voz inaudível:
- Não queria que ela morresse...
Olhou de relance para Chica e, vendo seus olhos ávidos, temeu a sua reacção.
- O que você estava fazendo com ela? -— tornou Chica, tentando imaginar por que Norma estava com Maria, se não gostava dela.
- Eu... eu a vi na beira do rio...
Fui brincar com ela, e ela caiu...
- Brincar com ela?
Não compreendo...
- Eu... só encostei nela... e ela caiu.
- Você a empurrou?
Norma não conseguiu responder.
Fechou os olhos e fez que sim com a cabeça, esperando pela explosão de Chica.
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Ave sem Ninho

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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 02, 2015 10:45 am

A reacção, contudo, não veio.
Quando Norma abriu os olhos, o que viu a deixou ainda mais angustiada.
Chica estava de joelhos, o corpo dobrado sobre si mesmo, a cabeça quase tocando o chão.
- O que está fazendo? -— questionou Fidência, com medo de que a amiga estivesse passando mal.
- Estou rezando para que Deus não permita que meu coração se encha de ódio pelo que Norma nos fez.
A resposta foi deveras pungente, e Norma sentiu o remorso afundar diante da nobreza e da superioridade do gesto de Chica.
- Por Deus, Chica, perdoe-me! —- suplicou transtornada, atirando-se ao chão à frente da outra.
Eu não queria!
Fui tola, covarde, maldita!
Mas jamais teria matado uma menina ou qualquer outra pessoa.
Posso ser uma mulher sem alma, mas não sou assassina!
Foi sem querer.
Eu a empurrei, sim!
Mas, por idiotice, pensei que ela iria cair e se molhar.
Jamais imaginei que sua cabeça fosse encontrar aquela pedra.
Foi um acidente, eu juro!
Não me odeie, Chica, perdoe-me!
Perdoe-me! Oh! meu Deus, o que fui fazer?
Quem chorava em descontrole era Norma, ao passo que Chica permanecia serena, apesar da dor profunda.
Ela estendeu a mão para a frente e tocou o braço da outra, que olhou para ela assustada.
- Se dissesse que não estou sofrendo pelo que você fez, eu estaria mentindo.
Mas não odeio você, e perdão quem tem que lhe dar é o seu coração.
- Você é uma alma nobre -— afirmou Norma, a voz entrecortada pelos soluços.
Ao passo que eu... sou uma perdida.
Só agora percebo a cegueira que me guiou por toda a vida.
Ainda que eu viva cem vezes, jamais serei como você.
A dor e o arrependimento de Norma eram sinceros, e Chica não disse mais nada.
Auxiliadora por Fidência, levantou-se e foi cuidar do enterro da filha.
Em nenhum momento Chica acusou Norma ou fez qualquer insinuação maldosa.
Nem sequer comentou sobre o ocorrido.
Disse apenas que a menina havia caído e batido com a cabeça numa pedra, o que era verdade.
Não queria destilar o ódio entre os seus nem provocar a punição de Norma por parte de Eusébio.
Com o passar do tempo, Norma foi desfazendo as intrigas que levantara sobre Maria e Chica.
Admitiu que havia inventado aquelas histórias porque estava com raiva da menina, mas que agora, depois que ela morrera, arrependia-se.
E teria até contado que fora ela quem empurrou a criança se Chica não a impedisse, argumentando que aquela revelação não faria bem a ninguém, pois as críticas, as acusações e os julgamentos só servem para aliviar as culpas de quem os faz.
- Aquele que julga é porque se considera superior, e nenhum de nós está acima dos outros ou de Deus — dizia ela.
Só sabe a verdade quem pode se beneficiar com ela.
Para todos nós, ela serve de lição.
Para os outros, será um estímulo à prática da maledicência e do mal.
Se bem que não florescesse uma amizade entre Chica e Norma, nenhum ressentimento restou entre as duas.
Chica tratava Norma bem, embora com certo distanciamento, e esta correspondia com respeito, defendendo-a sempre que alguém pensava em falar mal dela.
E Norma nunca mais em sua vida usou a palavra para ofender ou agredir quem quer que fosse, servindo ainda de exemplo para suas amigas Ninoca e Zeferina, que também aprenderam que o silêncio é uma bênção que todos devem cultivar.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 02, 2015 10:45 am

Falando sobre o passado...

Maria foi uma alma nobre que se dispôs a me acompanhar na vida.
Pode ser que muitos não saibam, mas ela gostava de ser minha filha, porque fui sua mãe por três encarnações sucessivas.
Assim como eu, tinha muito que aprender, embora ela estivesse mais preparada para enfrentar as armadilhas de seu próprio coração.
Falando um pouco de Maria, que antes foi Airumã, e antes ainda Cibele, só o que posso dizer é que ela foi a luz que me guiou pelas noites infindas e que, sem ela, talvez eu não conseguisse vencer.
O maior conflito de Maria era sua dificuldade de adaptação ao mundo e, por isso, pelo seu merecimento, podia retornar mais cedo do que a maioria de nós.
Embora aparentemente dolorosos, seus desenlaces não foram sentidos com sofrimento, porque sempre houve muitos bons espíritos que a desligavam da matéria milésimos de segundos antes de ela ser atingida pela dor.
Com isso, Maria foi crescendo em espírito e hoje consegue, sozinha, auxiliar muita gente.
Para mim, os anos transcorreram solitários, porém, proveitosos.
Eu, que um dia fora Aracéli e antes Alejandro, podia agora me considerar preparada para novas experiências.
Não vivi muitos anos na terra, porque também tinha pressa de retornar, e me foi concedida essa graça.
Quando reencarnei naquela senzala, muitos dos que me acompanharam haviam sido antigos índios e índias que pereceram sob a sanha da minha espada, nos tempos dos maias e astecas.
Reuniram-se todos ali, uns para me cobrar, outros para me ver cair.
Alguns, como Norma, Ninoca e Zeferina, consegui conquistar.
Com outros precisava ainda me esforçar um pouco mais.
De toda sorte, aprendi com a vida o valor exacto do orgulho.
É o orgulho que nos dá o reconhecimento do que somos e podemos, desde que não nos deixemos envenenar pela soberba, a presunção e a arrogância.
Quando isso acontece, nós decaímos, mais uma vez, pelas veredas da ilusão e nos atribuímos uma importância maior do que qualquer um pode ter nesse mundo de enganos.
Ninguém que habite este planeta está em condições de merecer o título de melhor, supremo ou absoluto.
Ninguém. Somos todos parte do Um, que não se fragmenta nem se divide, apenas se irradia em diferentes direcções.
E todas essas centelhas, um dia, inexoravelmente, tornarão à fonte da qual partiram para resplandecer numa única flama de amor.
Se é assim, então, por que perder tempo alimentando o orgulho que destrói, que invalida e que engana?
Basta olharmos a natureza para percebermos o tamanho da nossa pequenez.
Que arrogância é essa que nos faz pensar que somos absolutos, quando o desconhecido ainda ocupa a maior parte de nossas vidas?
Como pode alguém que conhece tão pouco do Universo pretender ter a última palavra no sentido da verdade?
E o que é a verdade senão aquilo que nosso coração sente como a resposta indizível aos nossos questionamentos mais profundos?
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 02, 2015 10:45 am

Parte 4

Capítulo 36


Eleonora se distraía no jardim de sua casa com as crianças.
Silmara, a mais velha, percorria, com a boneca, caminhos imaginários por entre as flores perfumadas, enquanto Evandro espetava formigas com uma vareta pontiaguda.
Eleonora se levantou e, gentilmente, retirou a varinha das mãos do menino.
Quantas vezes tenho que repetir que não se deve maltratar os animais?
- Ora, mamãe, é só um insecto -— protestou ele, com irritação.
- Mesmo assim. É crueldade.
Ela não percebeu a chegada de Sérgio, que a abraçou por trás e beijou sua cabeça perfumada.
- Olá, querido -— disse ela, virando-se para ele.
Vai sair?
- Mais tarde.
Temos reunião no centro espírita.
- Ah!
- Você não vai?
- Eu gostaria, mas não tenho com quem deixar as crianças.
- Você é quem sabe.
Permaneceram algum tempo no agradável convívio em família, até que a noite se aproximou, e Sérgio partiu para o centro.
Chegando lá, encontrou, entre os presentes, algumas pessoas que não conhecia.
- Quem são? -— indagou a um amigo.
- Um tal de seu Joaquim.
Veio trazendo o filho, um jovem chamado Zélio(16), que, dizem, sofria de paralisia e começou a andar de repente.
Os presentes sentaram-se à mesa, e iniciaram-se os trabalhos.
Logo após a abertura, para surpresa de todos, o rapaz se levantou da cadeira e falou com voz categórica:
- Aqui falta uma flor!
E saiu, deixando todos mudos de espanto.
- Seu Joaquim, não é permitido se ausentar no meio da reunião -— censurou o presidente.
- Eu... lamento muito.
Não sei o que aconteceu.
O rapaz voltou em seguida, trazendo uma rosa branca e depositando-a sobre a mesa.
O dirigente ficou confuso, e um pequeno tumulto estabeleceu-se no ambiente, com todos falando ao mesmo tempo.
Sérgio parecia paralisado com a cena e, principalmente, com aquele menino de nome Zélio.
A muito custo, o dirigente conseguiu conter a balbúrdia, e os médiuns se aquietaram.
Mas não por muito tempo.
Logo um homem sacudiu o corpo, seguido por muitos outros, inclusive Sérgio, que não sabia bem o que se passava.
Na verdade, todos incorporavam espíritos diversos, que falavam com estranho chiado na voz.
- O que está acontecendo? -— indagou o dirigente.
Onde está a disciplina?
E quem são vocês, que aparecem assim na sessão, sem convite?
- Nós somos os espíritos dos índios que aqui habitaram - —disse um dos médiuns.
- E outros de nós, antigos escravos, pretos velhos que agora desejam trabalhar.
- Isso não é possível - repreendeu o dirigente.
Peço que, por favor, se retirem.
Aqui não são permitidas manifestações de espíritos tão atrasados e incultos.
Sérgio viu-se dominado por um daqueles espíritos e não lutou contra ele.
Sentiu indescritível bem-estar com a presença da entidade, que se dizia um índio, e permitiu a incorporação tranquila e benéfica.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 02, 2015 10:45 am

A seu lado, Zélio havia-se levantado e, igualmente incorporado, falou com voz clara e segura (17):
- Por que repelem a presença dos citados espíritos, se nem sequer se dignaram a ouvir suas mensagens?
Seria por causa de suas origens sociais e da cor?
Um médium vidente, percebendo a luminosidade que irradiava do espírito incorporado em Zélio, perguntou espantado:
- Por que o irmão fala nesses termos, pretendendo que a direcção aceite a manifestação de espíritos que, pelo grau de cultura que tiveram quando encarnados, são nitidamente atrasados?
Por que fala desse modo, se estou vendo que me dirijo, neste momento, a um jesuíta, cuja veste branca reflecte uma aura de luz?
E qual o seu nome, meu irmão?
- Se julgam atrasados os espíritos de pretos e índios, devo dizer que amanhã estarei na casa deste aparelho, para dar início a um culto em que esses pretos e índios poderão dar sua mensagem e, assim, cumprir a missão que o plano espiritual lhes confiou.
Será uma religião que falará aos humildes, simbolizando a igualdade que deve existir entre todos os irmãos, encarnados e desencarnados.
E se querem saber meu nome, que seja este:
Caboclo das Sete Encruzilhadas, porque não haverá caminhos fechados para mim.
- Julga o irmão que alguém irá assistir a esse culto? -— ironizou o vidente.
- Cada colina de Niterói actuará como porta-voz, anunciando o culto que amanhã iniciarei.
A manifestação do espírito, embora desdenhada pela maioria dos presentes, muito impressionou Sérgio.
De volta a sua casa, encontrou Eleonora sentada na sala, lendo uma obra espírita, e foi logo contando:
- Minha querida, você nem imagina o que aconteceu.
- O que foi?
- Apareceu por lá, hoje, um rapaz muito simpático, chamado Zélio de Moraes.
Em minúcias, Sérgio contou a Eleonora o que havia acontecido, inclusive com ele, que incorporara o espírito de um índio.
- Não me diga! -— interessou-se Eleonora.
E quando foi que você disse que ele iniciaria o novo culto?
- Amanhã, às oito da noite.
Por quê? Está interessada?
- Para falar a verdade, estou sim.
Achei essa história fantástica e maravilhosa!
Não conheço esse menino nem sei o que ele pretende, mas só de ouvir você falar, já simpatizei com ele.
Acho que ele resumiu bem tudo o que eu penso e sinto.
- Está pensando em ir à casa dele?
- E por que não?
Você mesmo disse que o achou simpático.
- Sim, mas, daí a frequentarmos o seu culto...
- O que é que tem?
Por acaso está com medo da reacção de seus colegas do centro?
- Não. Só não estou bem certo sobre a seriedade desse rapaz.
- É por isso que temos que ir até lá.
Só assim saberemos se o menino é sério e se essa entidade, realmente, está em condições de introduzir esse novo culto.
Ficou curiosa?
- É mais do que isso.
Sinto como se uma voz interior me impelisse a ir.
Eu tenho que conhecer esse moço.
- Também fiquei curioso.
Você tinha que ver o garoto.
Parecia tão espontâneo, tão verdadeiro!
- Então, você tem que me levar até lá.
Precisamos ver de perto o que está para acontecer.
- Muito bem, minha querida, iremos até lá.
Está satisfeita?
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 02, 2015 10:46 am

- Muito.
Ele a beijou com carinho e indagou:
- E as crianças, como estão?
- Silmara está bem, mas Evandro, como sempre, faz das suas.
É rebelde, malcriado e autoritário.
Sem falar que gosta de maltratar os animais.
- Você se preocupa à toa.
Com o tempo, isso passa.
- Espero que sim.
Deitados para dormir, Eleonora não conseguia parar de pensar no que Sérgio dissera sobre o rapaz que fora ao centro naquele dia.
Embora o marido insistisse para que ela frequentasse as reuniões, tinha certa resistência.
Eleonora gostava das leituras que fazia e achava bonitas as palavras do Evangelho.
No entanto, sentia uma inquietação que não podia definir.
Havia algo que não guardava coerência com a ideia que ela fazia de caridade ou das verdades divinas.
E, agora, Sérgio vinha lhe falar sobre um novo culto, iniciado por uma entidade que se dizia caboclo.
Só o nome do espírito, Caboclo das Sete Encruzilhadas, já a impressionou.
Sentiu imensa alegria e ficou imaginando por que a ideia de um índio dirigindo um culto a entusiasmara tanto.
Naquela noite, Eleonora sonhou.
Sonhou que caminhava por uma floresta muito verde, até que encontrou um índio imenso, musculoso e muito atraente.
Sem temê-lo, aproximou-se.
Ao vê-la, o índio sorriu e a estreitou num abraço forte e amistoso.
- Sinto saudades, Piraju -— disse ela, ainda abraçada a ele.
- Também eu —- respondeu o índio.
Mas está chegando a hora em que trabalharemos juntos.
- Por onde você anda?
Por que não me acompanhou?
- Foi preciso que eu ficasse.
Juntos, temos muita contribuição a dar a essa religião nascente.
- Você vai estar comigo?
- O tempo todo.
Serei o seu guia, o espírito com o qual você desenvolverá a sua mediunidade e trabalhará para ajudar não só aqueles que necessitam, mas a si mesma.
É através da sua missão na Terra que terá a chance de finalmente se reajustar com os últimos desafectos.
E os laços de inimizade se diluirão pelo bem que você lhes fará.
- Não sei se estou à altura.
- Se não estivesse, não teria sido permitido que você viesse ao mundo com essa tarefa.
E agora, minha querida, volte ao corpo físico.
A manhã se aproxima e, em breve, Sérgio despertará.
Piraju pousou-lhe um beijo suave na testa, e Eleonora voltou ao corpo.
Em poucos instantes, sentiu as cutucadas gentis do marido, que lhe dizia ao ouvido:
Levante-se, preguiçosa.
O relógio acaba de dar seis horas.
Eleonora abriu os olhos mansamente e fixou-os nele.
Lembrou-se vagamente do sonho que tivera naquela noite e comentou com Sérgio:
- Sonhei com um índio.
- Teria sido o Caboclo das Sete Encruzilhadas?
- Não sei dizer.
Só o que me lembro é que ele dizia que teríamos que trabalhar juntos.
Não é estranho?
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 02, 2015 10:46 am

- Talvez você tenha ficado impressionada com a história do Zélio e de seu caboclo.
- Talvez...
Eleonora sabia que não era só isso.
Impressionara-se, sim, mas aquele sonho era muito mais real do que qualquer impressão que tivera.
Tinha certeza de que, de alguma forma, ela se encontrara com aquele índio, em algum outro lugar, e ele era uma pessoa muito querida.
O índio, de cujo nome não se recordava, dissera-lhe que trabalhariam juntos.
Mas juntos em quê?
Embora não se lembrasse com exactidão do sonho, Eleonora sabia que ela e aquele índio ainda se encontrariam muitas vezes, e que ele seria, durante toda a sua vida, seu protector e amigo.

16. A História conta que o episódio com Zélio de Moraes, jovem de 17 anos que inaugurou o culto da Umbanda no Brasil, ocorreu na Federação Espírita do Rio de Janeiro, em Niterói, no dia 15 de novembro de 1908.
17. O diálogo a seguir é transcrito das anotações que constam das fontes históricas.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 02, 2015 10:47 am

Capítulo 37

Eleonora não saberia descrever a emoção que sentia.
Só de pensar que, à noite, iria conhecer Zélio de Moraes, seu coração disparava.
Desde menina, sempre fora bastante curiosa a respeito das verdades ocultas da vida e procurava estudar e se instruir.
Casou-se aos dezoito anos e ganhou de presente dos sogros uma viagem à Europa.
Por essa época, ela já conhecia a doutrina espírita.
Quando pequena, leu alguns artigos publicados em jornais cariocas e logo travou contacto com a doutrina de Kardec(18).
Ficou fascinada e procurava estudar cada vez mais.
No Brasil, contudo, a literatura espírita e esotérica era muito restrita, e Eleonora permanecia com um anseio inenarrável e insatisfeito.
A fim de dar cumprimento à tarefa que lhe fora confiada, Eleonora nasceu em uma família de posses e de mente aberta para seu tempo.
Teve educação aprimorada, estudou nas melhores escolas e aprendeu inglês e francês, idiomas que dominava tão bem quanto o português.
Gostava de ler e se instruía o mais que podia, e foi adquirindo uma cultura pouco vista em mulheres brasileiras do início do século 20.
Para sua felicidade, casou-se com um homem compreensivo e inteligente, também disposto a estudar e conhecer as verdades ocultas e invisíveis.
Sérgio tinha um próspero consultório dentário em Niterói e era dedicado médium em um centro espírita local.
Em sua viagem à Europa, Eleonora conheceu obras de escritoras como Helena Blavatsky(19) e Annie Besant(20), dentre outros, interessando-se cada vez mais pelas coisas ocultas.
Em posse de tão variada literatura espírita e esotérica, não era de se espantar que a mente de Eleonora sofresse um impulso muito além do comum de sua época, e as doutrinas praticadas no Brasil não despertavam muito o seu interesse, por achá-las incompletas e muito selectivas.
Por isso, quando Eleonora ouviu falar de um menino que vinha trazendo a mensagem de um caboclo para dar início a uma nova doutrina que falaria aos humildes, algo dentro dela se acendeu.
Parecia que aquela religião nascente resolveria os seus questionamentos, pois Eleonora tinha reservas quanto à excessiva erudição de certos segmentos espiritualistas.
Para ela, estudar era importante, mas mais importante do que o conhecimento era a compreensão para com os humildes.
Era preciso inaugurar uma corrente que despertasse a fé nas pessoas sem, contudo, exigir-lhes mais do que suas capacidades intelectuais poderiam dar.
E seu coração lhe dizia que seria através daquele menino, Zélio de Moraes, que essa nova doutrina se iniciaria e depois se espalharia por todo o Brasil.
As crianças haviam acabado de voltar da escola, e Eleonora as recebeu com o carinho de sempre.
Silmara, a mais velha, contava agora nove anos, e Evandro, sete.
Os dois eram muito diferentes.
Silmara era meiga e compreensiva, amiga de todos e estava sempre sorridente.
Evandro, ao contrário, era agressivo e autoritário, além de morrer de ciúmes da mãe.
Ao mesmo tempo que era possessivo, parecia comprazer-se quando fazia algum comentário que a indignava ou feria.
- Como estão os meus amores? -— indagou ela, beijando cada um no rosto.
- Muito bem, mamãe -— respondeu Silmara, envolvendo o pescoço de Eleonora.
E o meu rapazinho? -— tornou ela, puxando o menino para si.
Evandro deu de ombros e apertou-a com força.
- Não gosto da escola -— queixou-se.
A professora é uma chata.
- Não diga isso -— repreendeu ela.
A professora está apenas cumprindo o dever dela de ensinar alguma coisa a você; principalmente boas maneiras.
Isso não é jeito de se referir a ninguém.
O rosto de Evandro enrubesceu.
Ele não gostava quando a mãe lhe chamava a atenção e fulminou Silmara com o olhar, como se ela fosse a culpada pela repreensão que sofrera.
- Podemos ir ao parque mais tarde? -— perguntou Silmara, sem notar o olhar do irmão.
- Depois que fizerem o dever de casa, podem.
E agora vão lavar as mãos para o almoço.
Já passa do meio-dia.
Ao final da tarde, as crianças foram ao parque com a babá, e Eleonora começou a sentir a ansiedade crescer.
A todo instante, consultava o relógio na esperança de que ele avançasse mais depressa e logo chegasse a hora de ir à reunião em casa de Zélio.
Quando Sérgio chegou, encontrou a mesa posta para o jantar.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 02, 2015 10:47 am

Eleonora e as crianças o aguardavam na sala, e a mulher foi logo falando, assim que ele entrou:
- Boa noite, querido.
Venha jantar, depois poderá tomar o seu banho e iremos à casa de Zélio.
- Sim, senhora -— brincou ele, fazendo-a rir.
Mas será que antes eu não mereço um beijo de minha mulher e meus filhos?
Ainda sorrindo, Eleonora o beijou levemente nos lábios, e Silmara pulou no colo do pai, dando-lhe prolongado beijo no rosto.
Evandro, por sua vez, fingiu que não escutou e permaneceu sentado em seu lugar, brincando com o guardanapo.
Sérgio não disse nada.
Aproximou-se do filho e beijou-o na face, desalinhando seus cabelos.
- Vamos comer? -— chamou Eleonora, sentando-se à mesa com a família.
O jantar transcorreu tranquilo, e Eleonora e Sérgio chegaram à casa de Zélio de Moraes um pouco antes das oito horas.
- É aqui mesmo? -— perguntou Eleonora, surpresa com a multidão espalhada pela calçada.
Sérgio consultou o papelzinho com o endereço e retrucou igualmente espantado:
- O endereço está correcto.
É aqui, sim.
Pediram licença e entraram.
Os demais membros do centro já se encontravam presentes e cumprimentaram Sérgio e Eleonora.
Os dois tomaram assento, e Eleonora viu pela primeira vez o menino Zélio.
Sentiu uma estranha força partindo dele e teve certeza, naquele momento, que era ali que realizaria a tarefa que lhe cabia, embora ainda nem soubesse ao certo o que era.
Quando o relógio da sala bateu vinte horas, Zélio se agitou e incorporou o Caboclo das Sete Encruzilhadas, que começou a falar com estranha fonação(21):
- Aqui se inicia um novo culto, onde os espíritos de pretos velhos africanos, que haviam sido escravos e que desencarnaram, e que não encontram campo de acção nos remanescentes das seitas negras, já deturpadas e dirigidas quase exclusivamente aos trabalhos de feitiçaria, e os índios nativos da nossa terra poderão trabalhar em benefício dos seus irmãos encarnados, qualquer que seja a sua cor, raça, credo ou posição social.
A prática da caridade, no sentido do amor fraterno, será a característica principal deste culto, que tem base no Evangelho de Jesus e, como mestre supremo, o Cristo.
O olhar de todos era de espanto, menos de Eleonora, que parecia beber as palavras do caboclo.
Após um breve instante, ele prosseguiu:
Serão chamados de sessões os momentos de trabalho espiritual, que se realizarão diariamente, das oito às vinte horas.
Os participantes devem estar uniformizados de branco, e o atendimento será gratuito.
Esse culto será chamado de Umbanda, que é a manifestação do espírito para a caridade.
Ninguém ousava dizer nada, e o caboclo continuou:
- Este grupo, que acaba de ser fundado, será conhecido por Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade porque, assim como Maria acolheu em seus braços o filho, a tenda acolherá os que a ela recorrerem nas horas de aflição.
Todas as entidades serão ouvidas, e nós aprenderemos com aqueles espíritos que souberem mais e ensinaremos àqueles que souberem menos, e a nenhum viraremos as costas e nem diremos não, pois essa é a vontade do Pai.
Dentre os presentes, havia alguns sacerdotes que, indignados com a actuação daquele espírito, endereçaram-lhe perguntas em latim e alemão, às quais o caboclo respondeu com facilidade.
- Como pode ser uma coisa dessas? -— maravilhou-se Eleonora.
Sérgio, esse espírito é um sábio, e o menino que tem o privilégio de incorporá-lo é um abençoado!
- Ele é uma fraude -— comentou alguém a seu lado.
Um índio ignorante não pode ser o portador de nenhuma doutrina que se preze -— sussurrou um homem.
Que ousadia!
Alguns se levantaram para sair, outros permaneceram.
Sem se incomodar com a reacção dos presentes, o caboclo deu início, então, à segunda parte dos trabalhos.
Eleonora e Sérgio estavam paralisados e ficaram observando, maravilhados, as curas aparentemente milagrosas que ele realizou.
- Como, Sérgio? -— espantou-se Eleonora.
Como ele pode fazer isso?
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 02, 2015 10:47 am

- Não sei — respondeu ele, igualmente espantado.
Como você mesma disse, ele é abençoado.
O entra e sai de enfermos era grande, e a todos o caboclo recebeu com igual amorosidade, curando-os e dando-lhes conselhos amigáveis.
A sessão já chegava ao fim quando nova entidade se manifestou, auto-denominando-se pai António, espírito de um preto velho, ex-escravo, que vinha para auxiliar nos trabalhos de cura.
Quando a sessão terminou, Eleonora esperou até que os presentes se retirassem e foi falar com Zélio.
- Estou encantada com o que você fez.
Nunca vi nada parecido.
- Não se espante com a minha tarefa -— respondeu ele, fitando-a fixamente nos olhos.
Porque a sua dará continuidade à minha, pois você é uma das voluntárias na propagação desta doutrina do bem.
- Como assim? -— surpreendeu-se ela.
Não entendo o que quer dizer.
- A hora ainda não é agora, porque você ainda tem muito que aprender.
Por isso, convido-a, e ao seu marido, a se unirem a mim nesta Tenda.
Sei que são pessoas de coração puro e que estão dispostas a trabalhar pela caridade e o amor.
Vejo a seu lado um belo índio, com o qual você poderá desenvolver a sua mediunidade e ajudar no auxílio aos enfermos do corpo e da alma.
- Por que está dizendo uma coisa dessas? -— protestou Sérgio.
Você nem nos conhece!
- O que sei de vocês é o que basta para conhecer-lhes o coração.
- E nós nada sabemos sobre essa Umbanda! -— continuou Sérgio a objectar.
- Mas não desejam aprender?
Eleonora fez que sim, e Zélio prosseguiu:
- Pois é o que é preciso para filiar-se a nós.
Não exigimos nada além de amor e boa vontade.
Isso vocês têm?
- Sim -— afirmou Sérgio.
Mas... não sei o que dizer...
- Você tem medo do que desconhece.
Seu coração está ainda preso a antigos dogmas surgidos da interpretação da obra espírita.
Noto, contudo, que os seus anseios são maiores e as suas dúvidas são pertinentes.
- Perdoe-me, Zélio.
O que vimos aqui hoje realmente nos impressionou.
Temos, no entanto, algum conhecimento sobre o desenrolar das seitas africanas no Brasil, e não é isso que procuramos.
- Ele disse que a Umbanda seria diferente do Candomblé - lembrou Eleonora.
- Diferente, sim.
Não quis dizer que seria melhor nem pior.
Apenas que é um novo culto, para pessoas que buscam outras coisas.
Não quero, com isso, competir com outras seitas nem lhes retirar o mérito.
Tudo está certo na obra divina, e não se pode dizer que um culto é melhor do que outro.
Todos são bons.
O que faz a diferença são as pessoas, são elas que os fazem melhores ou piores.
- Mas diferente em quê? -— insistiu Sérgio.
- Para começar, não teremos sacrifícios de animais nem utilizaremos tambores ou roupas coloridas.
Será um ritual simples para os que são simples.
- Não precisa dizer mais nada -— arrematou Eleonora.
Eu aceito o seu convite e estarei aqui amanhã para contribuir com as sessões.
E Sérgio virá comigo, não é?
- Sim, claro —- concordou ele, embora não muito seguro.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 02, 2015 10:47 am

- Não vão se arrepender -— finalizou Zélio, despedindo-se deles.
Já em casa, Eleonora conversava com o marido sobre o ocorrido naquela noite.
- Não sei o que pensar -— dizia Sérgio.
Tenho minhas dúvidas sobre o resultado de tudo isso.
- O futuro mostrará o resultado -— contrapôs Eleonora.
E acho que você está sendo preconceituoso.
- Preconceituoso, eu?
Desde quando tenho preconceito com as pessoas?
- Desde que julga o Candomblé uma religião atrasada.
- Eu não disse isso.
Apenas não me agradam seus rituais.
- A mim também não, porque não tenho afinidade com sacrifício de animais ou coisas do género.
Mas nós não podemos criticar o que não conhecemos.
Aquelas pessoas com certeza têm um motivo para fazer o que fazem, e há de haver um fundamento em seus rituais.
- Não nos cabe julgar, Sérgio.
E se essa nova religião promete um culto diferente, por que não experimentar?
- Ora, se você já aceitou o convite de Zélio, acho que não tenho escolha.
- Você não precisa ir se não quiser.
- E deixá-la sozinha? Nunca.
- De que tem medo?
- Não tenho medo de nada, mas quero estar ao seu lado.
- Você também gostou do que viu hoje, confesse.
- Eu gostei, não nego.
E o centro também já não me satisfaz.
Sinto falta de algo mais.
Mas será que esse algo mais está nessa tal Tenda de Nossa Senhora da Piedade?
- Como disse, temos que experimentar.
Se não frequentarmos, não vamos descobrir.
- Está bem. Como sempre, você venceu.
Eles se abraçaram sorrindo e foram dormir.
No dia seguinte, lá estavam eles, às oito em ponto, prontos para participar da sessão.
Eleonora mandou fazer roupas brancas para ela e Sérgio, e logo se integraram aos cultos.

18. Allan Kardec — pseudónimo do Professor Hippolyte Léon Denizard Rivail (Lyon, 3/10/1804 — Paris, 31/3/1869), pedagogo e escritor, codificador do Espiritismo.
19. Helena Petrovna Blavatsky (Yekaterinoslav, Rússia, 31/7/1831 — Londres, 8/5/1891), uma das fundadoras da Sociedade Teosófica.
20.Annie Wood Besant (Londres, 1/10/1847 — Madras, Índia, 30/9/1933), escritora e teósofa, uma das principais discípulas de Helena Blavatsky.
21. Aqui são transcritas as palavras literais, segundo fontes históricas, do Caboclo das Sete Encruzilhadas.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 02, 2015 10:48 am

Capítulo 38

Durante os dez anos seguintes, Eleonora esteve com Sérgio ao lado de Zélio de Moraes.
Quando, em 1918, ele recebeu ordens do astral superior para fundar sete novos templos, Eleonora e Sérgio, a seu pedido, transferiram-se para a Tenda Espírita São Jerónimo, onde trabalharam por cerca de dez anos.
Ao final desse período, Eleonora finalmente estava pronta para assumir a direcção de seu próprio centro espírita, onde continuaria sua tarefa de propagar a Umbanda e contribuir para o crescimento moral e espiritual do ser humano.
Na inauguração do novo centro de Umbanda, Eleonora contava com poucos médiuns que a acompanharam da Tenda São Jerónimo, mas os trabalhos corriam bem.
Sérgio e Silmara actuavam a seu lado, ficando a condução das sessões doutrinárias a cargo de Eleonora.
Evandro, por sua vez, comparecia vez ou outra, normalmente quando precisava de alguma coisa.
Quando a ideia de abrir seu próprio centro brotou, Eleonora ainda resistiu, julgando não estar à altura de tão nobre missão.
Contudo, o próprio Zélio a estimulou, e o sonho com Piraju tornou-se bastante revelador, levando-a a aceder à vontade do Alto.
- Você deve abrir o centro -— disse-lhe o índio em sonho.
É a sua chance de se libertar de tantas cobranças.
- Por quê?
- Não se lembra do que Alejandro fez?
- Sim, mas isso foi há tanto tempo!
- Não há tempo bastante para que todos que você matou a perdoem.
E, agora, morrer não é mais uma opção válida de crescimento.
Você já passou por essa fase de necessidade da dor.
O que precisa, agora, é orientar aqueles que deixou ao desabrigo da fé.
- E abrindo o centro, conseguirei isso?
- É a melhor maneira de reunir todos os antigos desafectos, espíritos ainda empedernidos que não conseguiram perdoá-la e que esperam uma oportunidade de serem conduzidos por você pela seara do bem.
- Mas, e se eles quiserem vingança?
- Não querem mais.
Estão perdidos, desnorteados, necessitando de uma orientação espiritual, de alguém que lhes mostre o caminho da verdade.
E você pode ser esse alguém.
- Não sou ninguém para revelar o caminho a outras pessoas.
- Muitos que virão procurá-la estão ainda presos à escuridão da inconsciência.
Ajude-os a acender a primeira chama.
- Quem sou eu para acender alguma chama?
Está me super estimando, Piraju.
Sou apenas um ser humano comum.
- Cada alma humana pode ser um cristal rutilante na vida das pessoas.
Não para clarear os caminhos e apontar por onde elas devem seguir, mas para mostrar onde está a chama e incentivá-las a buscá-la e acendê-la em seu próprio coração e iluminar a própria consciência.
Com a consciência iluminada pelo reconhecimento do que pode ser e fazer, cada criatura encontrará dentro de si mesma a resposta do porquê de sua vida e a natureza de sua essência.
- Suas palavras são muito bonitas e me deixam emocionada.
Temo apenas decepcioná-lo.
- Você veio preparada para isso, minha querida.
E não se esqueça de que tem ao lado um homem que já foi sacerdote.
Seu auxílio será de grande valia.
Pense nos muitos espíritos que estão à espera de que você os oriente.
Com as palavras de Piraju, Eleonora se convenceu e se deixou conduzir pelo caminho que a vida havia traçado para ela.
O centro foi inaugurado sob a direcção espiritual do Caboclo Rompe Mato, nome que Piraju assumiu por afinidade com todos aqueles espíritos que desbravaram florestas em busca do direito à vida.
E hoje, passados seis anos desde a inauguração do centro, ela se encontrava ali, trabalhando pelo crescimento de todos e, principalmente, dos filhos.
Silmara abraçara a causa espírita com fervor, mas Evandro era resistente.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 02, 2015 10:48 am

Não que não acreditasse.
Apenas não queria assumir responsabilidades.
De repente, contudo, passara a frequentar o centro assiduamente, embora nada fizesse de útil.
- Deveria se interessar mais pelos assuntos espíritas, meu filho — disse Eleonora, enquanto terminava de arrumar o altar com a filha.
- Evandro até que tem vindo mais, mamãe — observou a moça.
Não percebeu?
- Percebi, sim.
Mas não o vejo fazer nada, a não ser ficar perambulando por aí.
- Não quero ficar carola feito Silmara -— snobou ele.
- Não sou carola -— defendeu-se a irmã.
— Apenas gosto do trabalho que fazemos aqui.
Tem algum mal nisso?
- Isso é falta de marido.
Deveria ter-se casado enquanto ainda era jovem.
Agora, quem é que vai querer você?
- Nunca me interessei por casamento porque jamais conheci um homem que correspondesse aos meus anseios.
- E agora seus anseios são os de ficar para titia.
Ninguém vai querer se casar com uma velha de mais trinta anos.
- Deixe disso, Evandro -— cortou Eleonora.
Sua irmã sabe o que faz.
- Se aparecer alguém que me interesse, eu me caso.
Mas não vou me casar com qualquer um só para satisfazer a sociedade.
Ou você.
- E você também não deveria falar da sua irmã, pois não consegue se acertar com moça nenhuma -— observou Eleonora.
- Não é bem assim -— murmurou ele, os olhos voltados para uma menina que acabava de entrar no centro.
- Boa noite -— cumprimentou a moça, os olhos igualmente presos em Evandro.
- Ah! Boa noite, Gilda.
Chegou cedo hoje.
- Vim ver se precisavam da minha ajuda.
Imediatamente, Eleonora notou a troca de olhares entre Gilda e Evandro.
Então era por isso que ele andava indo ao centro; para se encontrar com Gilda!
E provavelmente também não era por outro motivo que a menina aparecera mais cedo.
Havia alguma coisa se iniciando entre os dois, e Eleonora sentiu certa preocupação.
Não que fosse impedir o filho de namorar, mas era preciso cuidado com os médiuns do centro.
Envolvimentos amorosos não eram o problema, e ela não se opunha a isso.
Apenas orientava os médiuns sobre a necessidade de estarem alertas contra o ciúme, guardando o decoro e o equilíbrio, principalmente nos casos de rompimento.
Era lamentável, mas, toda vez que isso acontecia, um ou outro deixava o centro, incapaz de lidar com as emoções de uma forma madura e consciente.
Gilda era ainda uma menina e fora conduzida ao centro pela mãe por causa de dificuldades para dormir, pois ouvia vozes que a chamavam durante toda noite.
Eleonora a havia atendido com seu guia, o Caboclo Rompe Mato, e foi constatada a obsessão.
Havia, ao redor da menina, alguns espíritos de ex-escravos clamando por vingança.
- O que devemos fazer? -— perguntou a mãe, apavorada.
- Rezar, em primeiro lugar(22) — orientou o caboclo.
Pedir perdão a eles e perdoar a si própria pelos actos cometidos nos momentos de maior ignorância.
E trabalhar.
Trabalhar muito para reconquistar as almas que hoje se mostram inimigas.
- Trabalhar como? -— quis saber a menina.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 02, 2015 10:48 am

- Procure um lugar onde você possa desenvolver a sua mediunidade e aplique-a no auxílio ao próximo.
Fazendo isso, estará ajudando a si mesma.
- Mas que lugar seria esse? -— interessou-se a mãe.
- Qualquer lugar.
Se gostar desta Casa, as portas estarão abertas para você.
Vejo, em seu coração, um sincero desejo de aprender e crescer.
- Eu posso ficar aqui? -— tornou Gilda.
- Pode. Tem a minha permissão.
Duas semanas depois, Gilda ingressou no corpo mediúnico e encontrava-se ainda em desenvolvimento.
Seus guias começavam a incorporar, e ela agora tentava vencer o medo e se entregar com mais confiança.
Além disso, Gilda comparecia às sessões de doutrina, onde todos os médiuns se sentavam para ouvir as explanações de Eleonora e de Sérgio sobre O evangelho segundo o espiritismo.
Nessas ocasiões, havia debates e todos podiam perguntar e tirar suas dúvidas.
Foi aí que Evandro viu Gilda pela primeira vez.
Ele havia saído do trabalho e resolvera passar no centro, aparentemente sem motivo algum.
Os pais estavam à frente do grupo, e um debate havia-se iniciado.
Gilda levantou a mão, e lhe foi dada a palavra:
- Por que temos que pagar por erros dos quais nem nos lembramos?
- Não vamos pensar dessa forma -— falou Sérgio.
Vamos imaginar que a divindade nos fornece um meio seguro para nos reajustarmos com a vida, que é a reencarnação.
Podemos não nos lembrar do que fizemos, porque o esquecimento é uma das ferramentas de crescimento.
Ninguém pode ser livre se está preso a lembranças dolorosas.
E precisamos ser livres para nos abrirmos às várias possibilidades de experiências que a vida oferece.
Daí o porquê de esquecermos tudo.
Para que lembranças difíceis não coloquem em nós nenhuma amarra de culpa, medo, desvalor ou ódio, entravando-nos as escolhas e a acção.
- A alma, todavia, jamais esquece -— completou Eleonora.
E é por isso que ficamos amarrados a sentimentos cuja origem desconhecemos.
Às vezes nos sentimos tristes e nem sabemos por quê.
Muito provavelmente, algum sentimento do passado está impregnado em nossa alma, e é esse sentimento que precisamos transformar.
- Isso só vale para sentimentos ruins? -— prosseguiu Gilda, sob o olhar penetrante de Evandro.
- É claro que não.
Simpatias florescem espontaneamente e, muitas vezes, podem ter sido geradas em outras vidas e prosseguem ganhando força.
- Vejam Eleonora e eu, por exemplo -— falou Sérgio.
—Quando nos conhecemos, foi amor à primeira vista.
Parecia que já nos conhecíamos há muito tempo, não foi?
Eleonora assentiu rindo, e todos os médiuns sorriram também.
Ao final dos estudos, Evandro se aproximou de Gilda, que guardava seu exemplar do Evangelho e se preparava para sair.
- Você é nova por aqui, não é? -— indagou.
- Faz dois meses que comecei.
- Tudo isso? Como é que nunca a vi?
- Não sei. Mas também nunca vi você.
- Sou Evandro, filho de Eleonora e Sérgio.
- É mesmo? -— surpreendeu-se Gilda.
- Por que o espanto?
Nunca ouviu falar de mim?
- Não é isso...
Foi apenas a surpresa, porque muitas garotas falam de você.
- E o que elas dizem?
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 02, 2015 10:48 am

- Nada que lhe interesse -— brincou ela.
- Tem razão.
Não me interessam as outras moças.
No momento, estou mais interessado em você.
Como é que se chama?
- Gilda.
- Muito prazer, Gilda -— ele beijou a mão dela, e ela enrubesceu.
E como é que você vai para casa?
- Meus pais estão me esperando — ela apontou para os pais, que haviam acabado de entrar, e Evandro ficou sem graça.
Tenho que ir.
Evandro ficou vendo-a afastar-se em companhia dos pais e imaginando que jamais havia visto moça mais linda em toda a sua vida.
Gilda também teve o mesmo sentimento, porque voltou para casa com os pensamentos presos nele.
Apenas Eleonora e Sérgio não haviam notado nada, ocupados em dar atenção aos médiuns que se despediam.
Dali em diante, sempre que Gilda chegava, Evandro a estava esperando.
Ficava arranjando desculpas para ir ao centro e falar com ela.
Até então, não tinham tido nenhuma conversa em particular.
Mas só o facto de estar perto dela já o deixava irrequieto.
Por isso, quando Gilda entrou naquela noite, ele se entusiasmou como sempre, deixando transparecer seu interesse pela moça, interesse esse que a mãe logo captou.
- Por que não me ajuda a limpar os bancos lá de fora? - —perguntou ele para Gilda.
- Que bancos? -— surpreendeu-se Silmara.
Lá fora já está tudo limpinho.
Evandro fulminou-a com o olhar, e Silmara logo compreendeu.
- Posso ir, dona Eleonora? -— pediu Gilda.
Eleonora apenas assentiu, e Gilda foi com Evandro para fora.
- Será que eles estão namorando? -— sondou Silmara.
- Acho que não.
Mas que estão interessados um no outro, isso estão.
- E você vai permitir?
- Não adianta nada proibir.
Sabemos que as coisas sempre acontecem do jeitinho que devem acontecer.
O máximo que posso fazer é orientá-los.
- Tomara que Evandro saiba o que está fazendo. Gilda é uma moça direita, e os pais podem ficar aborrecidos.
- Se Evandro a tratar com respeito, vão até gostar.
Tudo vai depender dele.
- Será que ele gosta dela?
- Algo me diz que sim.
Eleonora não sabia o quanto estava certa.
Realmente, Evandro estava apaixonado por Gilda e era correspondido.
Do lado de fora, ele apanhou um pano e, enquanto passava nos bancos, ia dizendo:
- Não posso mais esconder o que sinto por você, Gilda.
Estou loucamente apaixonado.
- Oh! Evandro, por favor, não brinque comigo.
- Não estou brincando.
Quero pedir permissão a seu pai para namorar você.
A menos que você não queira.
Ele soltou o pano e olhou bem fundo dentro dos olhos dela, que brilhavam de emoção.
- Eu... -— ela balbuciou -— quero muito.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 03, 2015 10:48 am

- Pois então, está decidido.
Vou falar com meus pais primeiro, para que eles não se espantem de eu estar namorando você aqui no centro, e depois falo com os seus.
Acha que eles vão consentir?
Afinal, sou bem mais velho do que você.
- Tenho certeza de que vão.
Mamãe vive dizendo que você é um bom partido.
Olhando para ela, a vontade de Evandro era tomá-la nos braços e beijá-la, mas a reverência ao local em que estavam o impedia.
- Por que não saímos daqui um pouco? —- sugeriu ele, coberto de desejo.
- Não posso - sussurrou ela, em resposta.
Já é noite, e meus pais não gostam que eu saia do centro sozinha.
- Será, que não podemos sair no final de semana?
- Se você falar com eles...
- Falo com eles na sexta, então.
E, no sábado, vamos sair só nós dois.
Podemos ir a um cinema e depois à confeitaria.
O que acha?
- Vou adorar!
Evandro conteve o beijo, porque a mãe os observava lá de dentro, mas apertou as mãos de Gilda com paixão.
Tinha certeza de que, finalmente, encontrara a mulher de sua vida.

22. As falas dos guias de Umbanda foram reproduzidas naturalmente, sem os erros comuns, de forma a facilitar a compreensão pelo leitor.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 03, 2015 10:49 am

Capítulo 39

Era dia de sessão no centro, que crescia rapidamente.
Muitas eram as pessoas que acorriam ao local em busca de auxílio espiritual.
O número de médiuns também aumentava, e Eleonora se preocupava em orientar cada um deles no sentido da honestidade e da firmeza de propósitos.
Antes das sessões ditas de terreiro, os médiuns se reuniam para estudar e Eleonora lhes passava os ensinamentos que ela mesma aprendera em seus estudos e na convivência com Zélio de Moraes.
Os ouvintes, corno sempre, eram muitos.
Não apenas os médiuns, mas vários espíritos começavam a chegar, trazidos pelos guias que colaboravam com a casa.
Alguns vinham contrariados, outros, esperançosos.
Entravam em fila e iam ocupando os lugares vazios.
Muitos se sentavam no chão, outros permaneciam em pé.
Como de costume, os guias se cumprimentaram com alegria, principalmente o Caboclo Rompe Mato, que era o dirigente espiritual daquela casa.
Acomodados os espíritos necessitados, saíram para iniciar o trabalho de auxílio no plano astral situado logo acima do centro.
Havia ali algumas macas e máquinas desconhecidas e incompreensíveis à imaginação humana da época.
Para lá eram conduzidos os espíritos mais necessitados e que não estavam ainda em condições de compreender a doutrina.
Alguns pareciam dementes, outros, desesperados.
Mas todos, sem excepção, haviam pedido ajuda e agora a recebiam naquele local imantado.
Eleonora fitou os presentes, visíveis e invisíveis, e mentalmente cumprimentou o Caboclo Rompe Mato, que era quem sempre a intuía.
Fez a prece de abertura e começou a prelecção da tarde:
- Estamos aqui para ajudar.
Ao próximo e a nós mesmos em primeiro lugar.
Não adianta nada fazer caridade para os outros quando os mais necessitados somos nós.
Cada médium deve investir no seu autoconhecimento, pois assim ganhará compreensão para enfrentar as dificuldades, aceitar as inevitáveis e modificar as que estão no seu domínio.
Mas, acima de tudo, temos que compreender que a vontade que se faz é sempre a de Deus, que é o único que está em condições de avaliar o que é melhor para nós.
Dentre os médiuns, muitos havia que tinham sido antigos inimigos de Eleonora, desde a época de Alejandro, e que ainda não tinham conseguido se libertar do passado.
E era orientando-os na senda do bem que ela ia desmanchando os liames que a prendiam a eles, transformando-os em fios luminosos de simpatia e amor.
Alguns, embora não abraçassem a tarefa mediúnica, vinham em busca de auxílio, e Eleonora os atendia e orientava, ajudando muitos a encontrar o caminho da cura física, espiritual e moral.
- Por que temos que nos vestir de branco? -— perguntou Jonas, um dos que haviam perecido sob a espada de Alejandro no passado, ainda na época dos maias.
- Porque o branco, além de representar a paz, a pureza e a perfeição, possui a vibração da luz que contém todas as cores.
O branco é a luminosidade que penetra até a alma, tornando-nos mais alegres e renovando-nos para a vida.
Facilita a nossa relação com o mundo externo, retirando-nos do isolamento de nossos sentimentos.
E nada melhor do que igualar a todos nessa vibração de pureza.
Vestidos de branco, estamos todos iguais, evitando comparações de quem é melhor ou pior.
- Quer dizer então que os centros que utilizam roupas coloridas estão errados? -— indagou Lilian, outra desafecta de vidas passadas.
- Eu não disse isso.
Nada no mundo está errado, e nós não somos ninguém para fazer um julgamento desse tipo. Isso seria leviandade da minha parte.
O que eu disse foi que aqui, na nossa casa, a opção foi por igualar a todos na pureza do branco.
Existem lugares que prezam as diferenças individuais, porque isso é importante para o tipo de trabalho que desenvolvem, e deve ser respeitado, assim como desejamos que respeitem o nosso culto.
- Mas isso não sugere uma superioridade da nossa casa em relação às demais? -— insistiu Lilian.
- Não. Sugere apenas que cada um tem os seus métodos próprios.
Essa distinção entre superior e inferior está somente no coração dos orgulhosos.
Lilian calou-se envergonhada, e Nádia, outra médium, tomou a palavra:
- Mas essas vestes coloridas não despertam a vaidade de certa forma?
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 03, 2015 10:49 am

- A vaidade, como tudo mais, habita o coração de cada ser.
Quando falo em vaidade, refiro-me àquela que é daninha, que nos faz crer que possuímos algo que nos diferencia dos demais por sermos melhores, diferentes ou especiais.
Essa deve ser combatida.
Mas há aquela vaidade que brota do reconhecimento dos nossos valores e do nosso desejo de estar bem.
Essa é apenas fruto do valor pessoal que cada um deve estimular em si.
- Certo. Mas a utilização de vestes coloridas não faz nascer justamente esse sentimento de que se é melhor do que os outros?
- A utilização de vestes coloridas pode estimular a vaidade de quem a tem, assim como pode despertar o gosto pela beleza naqueles que apreciam o que e belo.
Pode também servir de facilitador para a incorporação das entidades não por elas, mas pelo médium, que ainda necessita de artifícios para abrir o seu canal comunicação com o mundo astral.
- Mas como saber o que vai no coração de cada um? - —interessou-se Silmara.
- Não sabemos.
Cada um é que sabe de si, quando sabe.
Como as vestes coloridas podem representar uma faca de dois gumes, nós da Umbanda preferimos não arriscar.
As almas que vêm a nós tentam vencer as suas dificuldades, e a vaidade pode ser uma delas.
- Então, por que dar a esses a oportunidade de exercitar um sentimento contra o qual estão tentando lutar?
- Para testá-los —- sugeriu Gilda.
A vida não cria armadilhas.
E todos os testes só são aplicados depois de aprendida a lição.
Ora, se os que aqui estão vieram aprender, por que os iríamos testar antes de estarem preparados?
A Umbanda é uma escola que prepara para a vida, e os testes, se é que assim podemos chamá-los, surgem naturalmente na convivência do dia a dia.
Não é preciso provocá-los para ver cair aquele que ainda não está firme na sua convicção.
- Tudo bem.
Mas, e as guias? -— interpôs Jonas.
- As guias não são colares de enfeite.
Podem ser bonitas, brilhantes e coloridas, mas sua função não é o embelezamento.
- E qual é? — falou Evandro, que acabara de entrar.
Embora sua intenção fosse chamar a atenção de Gilda, Eleonora se sentiu gratificada porque, ao menos por isso, ele estava ali.
Considerou a pergunta pertinente e esclareceu:
- As guias servem de facilitador para a conexão do médium com a entidade que representam.
Podem também funcionar como elemento de protecção, atraindo a vibração da entidade para o campo áurico da pessoa.
- As guias são imantadas, não são? -— observou Lilian, e Eleonora assentiu.
— Podemos dizer então que são uma espécie de amuleto?
- Pode-se dizer que sim.
- Mas, então, como conciliar sua utilização com a doutrina de Kardec, que nós seguimos, quando ele diz que amuletos e talismãs são dispensáveis?
Não há aí uma incoerência?
Ou a Umbanda contradiz a doutrina de Kardec?
- A Umbanda não veio para segregar, mas para somar aos ensinamentos que levam ao engrandecimento do homem.
E nenhuma religião se contradiz.
Existem formas de ver.
Para uns, há os espíritos de caboclos e pretos velhos.
Para outros, tudo é o espírito santo.
Que diferença isso faz?
- Nenhuma.
Contudo, a contradição ainda persiste.
- Não há contradição.
A doutrina de Kardec dispensa o uso de amuletos, mas não os proíbe e nem poderia.
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Ave sem Ninho

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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 03, 2015 10:49 am

Assim como nós dispensamos o uso de roupas coloridas, mas temos que reconhecer a sua eficácia para determinados segmentos religiosos.
Assim também as guias e os demais elementos, pois a Umbanda trabalha com a manipulação das energias daí provenientes, enquanto Kardec as considera desnecessárias, porque concentra a sua força no poder mental da oração.
- Então, quer dizer que só os elementos bastam para os trabalhos da Umbanda?
- Umbanda é magia, e os elementos nada são sem a vontade e o pensamento.
Eles são apenas facilitadores, e há segmentos religiosos que os dispensam.
- Qual é o melhor método? -— perguntou Nádia.
- Não existe o melhor.
Existe o ser humano que deve procurar a sua melhora em qualquer religião, culto ou seita.
- É, mas há pessoas, sacerdotes mesmo, que consideram a sua religião a única que pode verdadeiramente levar a Deus.
E aí? Quem está certo?
- Ninguém e todos.
Não se esqueçam de que as religiões foram criadas pelo homem, que é falível e vulnerável às ilusões do mundo.
Mas em toda religião há espíritos iluminados que orientam no sentido das verdades divinas, só que nos moldes em que a religião foi criada.
O que acontece é que algumas pessoas, por orgulho ou ignorância, distorcem as mensagens que vêm do Alto e as transmitem de acordo com os seus interesses ou com o máximo que o seu intelecto permite alcançar.
Nesse momento, Sérgio chegou à porta, anunciando que a hora já ia avançada e que havia chegado o momento de iniciar-se a sessão pública.
Eleonora convocou um médium a fazer a prece de encerramento, e todos se retiraram para um pequeno intervalo.
- Como foi a reunião de hoje? - — perguntou Sérgio.
- Muito produtiva, embora haja médiuns que gostam de polemizar.
Enfim... é assim que se cresce.
- Você tira isso de letra -— brincou ele, apertando o queixo dela.
Já está tudo pronto para começarmos.
A assistência está cheia hoje.
- Há muitas pessoas precisando de auxílio.
Espero que estejamos em condições de ajudar.
Sérgio sorriu e a abraçou.
Pouco depois, tinha início a sessão de terreiro, como era chamada.
Reunidos os médiuns, Sérgio fez a defumação do ambiente, queimando ervas cujas energias, manipuladas pelos guias espirituais, iam dissolvendo as impurezas espirituais e atraindo energias mais subtis.
Dotada do dom da vidência, Eleonora percebia as nuvens cinzentas e as crostas astrais desmanchando-se sob a acção da fumaça impregnada do princípio activo das ervas que estavam sendo queimadas.
Em alguns médiuns, particularmente, a acção era mais forte, devido ao baixo teor vibratório de seus pensamentos.
Com o ambiente assim purificado, os espíritos dos caboclos, que há muito já se encontravam no local, actuando no plano astral correspondente, começaram a espargir glóbulos brancos e minúsculos, parecidos com flocos brilhantes de algodão.
Eram milhares de pontinhos, atirados pelas mãos dos caboclos e caboclas, fazendo o efeito de uma chuva nívea, refrescante para a alma.
Algumas pessoas, mais receptivas, imediatamente sentiram o bem-estar que aquela torrente de luz causava.
Outras, porém, ainda um pouco mais endurecidas, deixavam-na passar despercebida.
Eram essas as mais necessitadas, aquelas que mais atraíam a atenção dos guias, que iam aplicando passes em todos os presentes, demorando-se um pouco mais na energização dos mais enfermos, fosse do corpo ou da alma.
Há, nos templos de qualquer religião voltada para o crescimento do ser humano, seres iluminados que actuam sobre os encarnados, ajudando-os a reequilibrar suas forças físicas, mentais e emocionais.
Essas entidades, contudo, não agem sozinhas.
Necessitam do concurso dos assistentes para um resultado mais eficaz.
Cada pessoa está em condições de ajudar a si mesma contribuindo com seus pensamentos, palavras e atitudes.
A concentração, o silêncio e a vigília são caminhos fáceis para a penetração das energias derramadas pelos guias.
Em especial nas casas de Umbanda, onde o julgamento e a crítica decorrem da falta de conhecimento acerca dos rituais, essa necessidade se redobra.
A curiosidade leva muitos a visitarem os centros espíritas sem que haja, realmente, o envolvimento da fé.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 03, 2015 10:49 am

Nesses casos, a postura mais adequada é a observação sem julgamentos.
Todos são livres para frequentar qualquer lugar de culto, desde que o façam com respeito.
Pois é do pensamento das pessoas, sobretudo aqueles de crítica, deboche e arrogância, que os espíritos mais empedernidos retiram forças para tumultuar e atrapalhar o desenvolvimento dos trabalhos, dificultando a actuação dos guias dedicados ao trabalho sério.
Não era por outro motivo que, nos lugares destinados à assistência, havia avisos de silêncio e oração, recomendações pelas quais os médiuns, sem excepção, tinham o dever de zelar, orientando amorosamente os que chegavam.
Com a chegada da assistência, mais desencarnados vieram com ela.
Havia pessoas que se faziam acompanhar de espíritos protectores, que as conduziam intuitivamente a um local de ajuda.
E havia também aquelas que traziam consigo inimigos, galhofeiros e toda sorte de espíritos ignorantes e necessitados de ajuda.
Alguns, todavia, não chegavam a entrar.
Baderneiros, eram barrados na porta do centro pelos espíritos que ali estavam, encarregados de fazer a filtragem dos frequentadores.
Todos aqueles que estivessem em sofrimento ou quisessem se esclarecer, descansar, ou, simplesmente, visitar e conhecer, podiam passar.
Havia espíritos que inclusive passavam pela rua e eram atraídos pela vibração do lugar.
Movidos pela curiosidade, mas sem intenções de desordem, tinham a entrada franqueada.
Apenas os espíritos cujo propósito era criar confusão e atrapalhar não podiam entrar.
Os que ainda assim entravam faziam-no com permissão, pela necessidade de aprendizado ou em atenção a algum pedido do Alto, e eram o tempo todo acompanhados por guias que, em vez de incorporar, ficavam rondando o ambiente para manter a ordem e fazer o que fosse necessário do lado invisível.
Mas ninguém, absolutamente ninguém, burlava a vigilância dos porteiros e entrava despercebido.
Todos que estavam ali tinham permissão para estar.
Deu-se, então, início aos trabalhos.
Não apenas Eleonora atendia, incorporada com o Caboclo Rompe Mato, mas também muitos outros médiuns, incorporados com caboclos e caboclas.
Era um trabalho bonito de se ver.
As entidades eram esclarecidas e orientavam os consulentes sempre no caminho do bem e da oração.
Estimulavam a prática do amor e do perdão, incentivavam as pessoas a buscar o seu autoconhecimento através da leitura.
Eleonora ia, assim, reconquistando inimigos, transformando-os em companheiros e admiradores de sua fé, desembaraçando-se pouco a pouco das cobranças da vida.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 03, 2015 10:50 am

Capítulo 40

A cada dia, Evandro se sentia mais e mais apaixonado por Gilda.
Ela era um tanto rebelde e autoritária, mas os pais a mantinham sob constante vigilância.
Além disso, os trabalhos no centro a ajudavam, e Gilda começou a vislumbrar algo na vida além de seus próprios prazeres.
- Não posso esperar mais -— disse Evandro, sentado com ela na confeitaria.
— Quero me casar com você.
- Tem certeza? -— retrucou Gilda, um tanto receosa.
Sua reputação de solteiro mulherengo me assusta.
- Desde que a conheci, não tive olhos para nenhuma outra mulher.
Só você me interessa.
- Você me ama?
- Ainda tem dúvidas?
- Não. E eu também o amo.
- Pois então é só falarmos com seus pais.
Quanto aos meus, tenho certeza de que não se oporão.
E nem podem, visto que já sou um homem maduro e ganho um bom salário no Banco do Brasil.
- Não é só isso que faz um casamento dar certo.
- Sei que não -— ele a abraçou.
Mas é um bom começo.
E o principal é que a amo.
- Se você tem certeza do que quer, então podemos falar com meus pais.
- Que tal marcarmos um jantar lá em casa?
- De noivado?
- E por que não?
- É uma boa ideia.
Os dois estavam felizes.
Os pais de Gilda não se opuseram ao casamento e Sérgio mandou fazer uma bonita festa de noivado.
Todos os médiuns do centro foram convidados, e havia muitos amigos e parentes de ambas as partes.
Os coquetéis estavam sendo servidos por três garçons na espaçosa varanda e no quintal atrás da casa.
Num grupinho de amigos, Silmara se divertia.
Era uma moça alegre e gostava de ouvir os sonhos das colegas, preocupadas com o futuro e os rapazes.
Como a maioria das moças de sua idade já estava casada, suas amigas eram mais jovens, ainda solteiras e à procura de um noivo.
Ela havia ultrapassado a fase de sonhos com príncipes.
Mais jovem, interessara-se por alguns rapazes, todavia, nenhum conseguiu realmente arrebatar seu coração.
Tivera muitas propostas de casamento, porém, estar casada com um homem a quem não amava a repugnava, e ela preferiu ficar solteira, mesmo enfrentando a solidão e a chacota das amigas, que a chamavam de solteirona e titia.
- Vocês são terríveis, meninas -— gracejou ela, levantando-se bruscamente.
Nem teve tempo de erguer o corpo por completo.
O garção que passava atrás foi atingido em cheio pela cadeira de Silmara, fazendo-o virar a bandeja e entornar uma taça de champanhe sobre o vestido dela.
- Meu Deus! -— exclamou o rapaz.
Desculpe-me, eu não sabia que a senhora ia levantar-se.
- Não se preocupe -— tornou Silmara, bem-humorada.
O descuido foi meu.
E ainda bem que a bandeja estava praticamente vazia.
Naquele momento, os olhos dos dois se cruzaram, e Silmara sentiu como se uma corrente eléctrica percorresse o seu corpo.
O rapaz sentiu o mesmo, porque abaixou os olhos, intimidado pela posição da moça e recriminando-se por sua ousadia.
- Eu... -— balbuciou ele -— vou encher novamente a bandeja.
Se a senhora estiver bem...
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 03, 2015 10:50 am

- Estou óptima.
E não precisa me chamar de senhora.
Ele balançou a cabeça, envergonhado, e foi para a cozinha buscar mais champanhe.
Ela permaneceu parada, acompanhando-o com o olhar, e só voltou a si quando o risinho abafado das meninas na mesa alcançou os seus ouvidos.
- Está flertando com o garção, Silmara? -— ironizou Nádia.
- Não -— respondeu ela, sonhadora.
Mas bem que poderia.
Afastou-se do grupo e já ia entrar em casa quando a mãe se aproximou.
Vendo o estado do vestido da filha, Eleonora perguntou curiosa:
- O que foi que aconteceu?
- Um garção derramou champanhe em cima mim.
- Não foi nada, minha filha.
Isso acontece.
- Eu sei.
Vou-me trocar e já volto.
Eleonora deixou-a ir e foi ao encontro de Evandro e Gilda.
Nunca havia visto o filho tão feliz.
Ele estava diferente, mais maduro e compenetrado, sem os traços da rebeldia que lhe fora tão peculiar na infância.
E Gilda era uma boa moça.
Os pais lhe disseram que ela também era rebelde, mas que o centro a estava ajudando a se ajustar.
Isso era óptimo.
Talvez ela incentivasse Evandro a se dedicar um pouco mais à causa espírita.
Ela se afastou do filho e foi procurar o marido, quando viu Silmara passar.
Eleonora tinha o dom de sempre estar olhando para o lugar certo, na hora certa.
Um garção passou pela filha, carregando uma bandeja de champanhe.
Silmara o parou e pegou uma taça e, em vez de prosseguir servindo, o moço ficou parado ao lado dela.
Naquele momento, Eleonora teve a certeza de que algo diferente havia nascido entre os dois.
- Vejo que a senhora trocou de vestido -— observou o rapaz.
- Já disse que não precisa me chamar de senhora -— contestou Silmara, procurando por uma aliança no dedo dele, mas não havia nenhuma.
Meu nome é Silmara. E o seu?
- Octávio. Octávio das Neves Assunção.
- Veio com nome e sobrenome -— brincou ela, e Octávio enrubesceu.
- Perdão, moça, mas não posso ficar de conversa.
O dono da casa me pagou para servir os seus convidados.
- Você está falando com a filha do dono da casa.
O noivo é meu irmão.
- Mais um motivo para eu não me deter -— retrucou ele, entre confuso e surpreso.
Ele pode não gostar.
- Você não o conhece -— objectou ela, em tom sério.
E nem a mim.
Octávio reparou no quanto ela era bonita, embora não fosse tão jovem.
Seria solteira?
Alguém chamou: garção! E ele teve que deixá-la.
No entanto, o rosto bonito e cativante continuou gravado em seus pensamentos, e uma vontade louca de tornar a vê-la o foi dominando.
Mas como?
Aquelas pessoas pareciam ter dinheiro, e ele era um simples e pobre garção.
Como faria para se aproximar de Silmara sem despertar a fúria do pai dela?
Durante o resto da noite, não se falaram mais.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 03, 2015 10:50 am

Octávio, contudo, não perdia Silmara de vista, e ela o seguia com olhares disfarçados aonde quer que ele fosse.
Quando a festa chegou ao fim, ela resolveu aproximar-se.
Estendeu-lhe um papelzinho, onde ele leu o número de um telefone.
- Ligue para mim, se quiser -— falou ela.
Octávio ficou parado com o papel na mão e Silmara se afastou.
- Quanta ousadia!
Já havia ultrapassado em muito o tolerável para uma moça solteira e não queria mais se expor.
Por mais que não ligasse para comentários alheios, não era sua intenção alimentar os mexericos das pessoas.
Dos familiares, apenas Eleonora percebera a atracção dos dois, e era melhor que permanecesse assim por enquanto.
Por mais que Sérgio fosse compreensivo, não aceitaria com facilidade o interesse da filha por um garção, não por preconceito, mas por medo de que o rapaz quisesse se aproveitar dela.
***
Passaram-se duas semanas até que Octávio se decidisse a telefonar.
Como não tinha telefone em casa, tivera que recorrer à mercearia próxima, o que o impedia de ficar falando por muito tempo.
- Gostaria de vê-la -— disse ele, acabrunhado.
Se for possível.
- É possível.
Onde e a que horas?
- Você é quem sabe.
Não tenho automóvel nem dinheiro.
- Vou lhe dar o endereço de uma confeitaria.
Encontre-me lá hoje, às cinco da tarde.
Quando Silmara chegou, Octávio já a aguardava na porta da confeitaria.
Ela se aproximou e estendeu a mão para ele, que a tomou meio sem jeito e a levou aos lábios.
- Vamos entrar? -— convidou ela.
- Eu disse que não tenho dinheiro.
Não posso pagar um lanche aqui.
- Deixe por minha conta -— ela ia entrando, mas ele a segurou pelo braço.
O que foi?
- Sinto muito, mas não posso permitir que uma moça pague a conta.
- Que besteira!
- Não é besteira.
E nem o seu pai ficaria satisfeito com isso.
Silmara recuou e olhou-o de frente.
- Muito bem.
O que quer fazer, então?
- Vamos olhar a baía(23).
Caminhando lado a lado, chegaram até a baía.
Octávio estava quieto e pensativo, e foi Silmara quem, novamente, iniciou a conversa:
- Você não gosta muito de falar, não é mesmo?
- Não é assim... -— tornou ele.
Eu simplesmente não sei o que dizer.
- Por que não me conta onde mora, quantos anos tem, o que faz...
Não, o que faz não precisa.
Sei que você é garção.
Mas você só trabalha em festas?
- Sim. Consegui, com muito sacrifício, ingressar na Faculdade de Letras, onde estudo de manhã e trabalhar só à noite me possibilita estudar.
- Que maravilha!
E mora por aqui?
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 03, 2015 10:50 am

- No Fonseca.
- Você mora sozinho?
- Por que todo esse interrogatório?
- Não é um interrogatório.
Eu só queria conhecê-lo melhor.
- Olhe, Silmara, acho que foi um erro eu ter vindo aqui.
Você é uma moça de sociedade, e eu, um joão-ninguém.
Não é certo nos encontrarmos.
Sua família não vai gostar.
- Está enganado a nosso respeito.
Minha família não costuma julgar as pessoas pela aparência ou condição social.
Ele a olhou indignado e prosseguiu:
- Sou um homem pobre... viúvo... sem instrução.
O que uma moça feito você pode querer com alguém feito eu?
- O que você quer comigo?
- Hein?
- Por que me telefonou e veio ao meu encontro?
Se pensa realmente tudo isso, por que me procurou?
Octávio ficou confuso, mas acabou confessando:
- Não pude parar de pensar em você.
Sei que é errado, mas não consegui esquecer aquela noite.
- Eu também não.
Se nós dois sentimos a mesma coisa, por que não podemos nos conhecer melhor?
- Você é uma moça diferente das demais.
É decidida, sabe o que quer e não se importa em tomar iniciativas.
- Isso incomoda você?
- Assusta-me.
- Não sou mais criança, Octávio.
Tenho mais de trinta anos e sou solteira.
Não me casei porque não quis, porque nunca me interessei por ninguém.
E sou professora.
Dou aulas na escola primária todos os dias pela manhã.
E você?
Quando foi que ficou viúvo?
Ele balançou a cabeça e acrescentou com pesar:
- Faz cinco anos.
Minha mulher morreu no parto, levando consigo a criança.
De lá para cá, nunca mais me interessei por ninguém.
Até agora...
Disse isso de cabeça baixa e em tom quase inaudível, mas que Silmara escutou.
- Eu também não -— arrematou ela.
Até ver você, nunca me senti atraída por homem algum.
Estavam sendo sinceros.
Ambos se viam presas de inexplicável afeição.
Desde a noite em que se viram pela primeira vez, seus corações se reconheceram imediatamente e voltaram muitos anos no passado, quando Silmara era ainda Cibele, e Octávio, seu noivo Soriano.
E agora, depois de muitos anos separados, ambos haviam reconquistado o direito de se reencontrarem para construir o que não haviam conseguido naquela época tão remota.

23. Baía de Guanabara.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 03, 2015 10:50 am

Capítulo 41

Sérgio e Eleonora estavam na sala, conversando sobre os progressos que vinham alcançando no centro, quando Silmara entrou.
Ela beijou os dois no rosto e ficou olhando para eles, pensando na melhor maneira de lhes contar o que estava acontecendo.
Ensaiara aquele momento muitas vezes, mas agora, sozinha com eles, não tinha mais certeza do que diria.
- Deseja alguma coisa, minha filha? -— perguntou Sérgio, levantando os olhos para ela.
- Queria falar com vocês -— respondeu ela, puxando uma cadeira e sentando-se mais próxima da mãe.
- O que é?
Sérgio não sabia do que se tratava, mas Eleonora tinha uma ideia.
Desde a noite do noivado de Evandro, Silmara andava diferente, mais alegre e animada.
Nos últimos dias, passara a sair todas as tardes, sendo que muitas vezes não voltava do trabalho para almoçar.
- Bem, eu... -— começou ela, tentando escolher as palavras com cuidado -— conheci uma pessoa.
- Uma pessoa? — repetiu o pai.
Você quer dizer, um rapaz?
Isso mesmo.
- Finalmente!
E quem é esse príncipe que despertou o seu interesse?
- Não é nenhum príncipe, papai.
- Mas deve ser alguém muito especial, ou você não estaria interessada.
Há anos que vejo os rapazes flertarem com você, e você não liga para nenhum.
- Octávio é diferente.
- Ah! O nome dele é Octávio.
E onde foi que o conheceu?
- Aqui mesmo, em casa.
- Aqui? Como?
Só pode ter sido na festa de noivado de seu irmão.
É filho de algum amigo nosso?
- Não.
- É amigo de seu irmão?
Parente de Gilda?
- Também não.
- Mas, então, quem pode ser?
Diga logo, Silmara.
Por que tanto mistério?
- Octávio tem medo de que vocês não o aceitem.
- Por que não o aceitaríamos?
- Porque ele é garção, é pobre e desvalorizado -— quem respondeu foi Eleonora, e todos se voltaram para ela.
- Isso é verdade? -— retrucou Sérgio.
- É, sim.
- Não vejo motivo para todo esse mistério -— comentou Eleonora.
Você sabe que não nos importamos com essas coisas.
Desde que ele seja um bom rapaz...
- Ele é. Só que é viúvo.
- Viúvo? -— indagou Sérgio.
Tem filhos?
- Não. A mulher e a filha morreram no dia do parto, há cinco anos.
- Coitado! — condoeu-se Eleonora. — Ele deve se sentir muito só.
- Olhe, Silmara —- intercedeu Sérgio - o facto de ele ser garção e viúvo não nos incomoda.
Mas você tem certeza de que ele é um homem direito?
- Ele é trabalhador.
Trabalha à noite como garção, em festas como a que demos.
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