Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 03, 2015 10:51 am

- E durante o dia? Não faz nada?
- De manhã faz
Faculdade de Letras.
Quer ser professor.
Isso agradou Eleonora e principalmente Sérgio, que tornou interessado:
- Quando é que iremos conhecê-lo?
- Quando vocês quiserem -— anunciou ela.
Podemos marcar um almoço.
- Que seja para o próximo sábado -— sugeriu Sérgio.
Está bom assim?
- Está óptimo!
- E ele sabe de nossas actividades no centro? -— questionou Eleonora.
- Sabe.
Já lhe contei tudo, mas ele tem um pouco de medo de espiritismo.
- Leve-o lá.
Tenho certeza de que será bom para ele.
- Depois que vocês o conhecerem, vou convencê-lo a ir.
Ela beijou os pais novamente e se virou para sair, mas Sérgio a segurou pela mão e acrescentou:
- Você está namorando a sério esse rapaz? -— ela assentiu.
Você o ama?
- Amo. E tenho certeza de que ele também me ama.
- Você já não é mais nenhuma jovenzinha, e acho que não temos o direito de interferir na sua vida.
Mas tenha cuidado.
Não vá se machucar com nenhum aventureiro.
- Entendo a sua preocupação, pai, mas as intenções de Octávio são sinceras.
Vocês verão quando o conhecerem.
Ela saiu animada, feliz com a conversa que tiveram.
Sabia que os pais não procurariam impedir o namoro, se bem que Sérgio, como era natural, se preocupasse com a sinceridade de Octávio.
Agora era só esperar o dia marcado.
- O que você acha? -— sondou Sérgio, depois que ela se foi.
- Ainda é cedo para dizer -— falou Eleonora.
Mas algo me diz que ele é uma boa pessoa.
- Fico mais tranquilo.
Você sempre acerta nas intuições que tem.
Depois do jantar, deitaram-se para dormir, e Eleonora, como sempre, abriu um livro para ler.
Naquela noite, contudo, um sono diferente se apoderou dela.
As pálpebras foram piscando, piscando, até que o livro tombou sobre o colo, e ela adormeceu rapidamente.
Assim que seus olhos se fecharam, seu corpo fluídico se libertou parcialmente do físico, e ela viu Piraju a seu lado.
- Você deve vir comigo.
Há alguém que precisa de sua ajuda.
Eleonora obedeceu prontamente.
Em segundos, estavam parados à porta de um edifício todo branco, circundado por um jardim florido e iluminado por luzes que escapam à percepção dos olhares humanos.
A porta parecia de vidro esmaltado de uma cor marfim bem suave e, antes de abri-la, Piraju estacou e segurou o braço de Eleonora.
Ao se virar para ele, ela percebeu que ele havia mudado a sua aparência de índio e agora se apresentava como um indiano vestido de branco, tal qual o mestre que fora na encarnação anterior à do indígena.
- Antes de entrar, quero preveni-la sobre a pessoa que vamos encontrar.
Trata-se de alguém que foi sua conhecida há muitos anos, quando Alejandro ainda vivia na Espanha.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 03, 2015 10:51 am

Ela ergueu a sobrancelha, demonstrando a imensa surpresa, e retrucou curiosa:
- Na Espanha?
Quem poderia ser?
Há muito não tenho notícias de ninguém que tenha convivido comigo por lá.
- Ela agora é uma menina.
Desencarnou de forma violenta e traumática, e precisa da sua ajuda.
- Quem é ela?
- Lembra-se de Giselle?
- Giselle? —- fez ela, tentando puxar pela memória.
— Refere-se à dona da taverna que eu frequentava na Espanha?
A mesma onde conheci o pai de Rosa?
- Essa mesma.
- Meu Deus!
Há quanto tempo não tenho notícias!
O que foi feito dela?
- Giselle escolheu caminhos tortuosos para trilhar.
- Assim como eu...
- Como todos nós, mas isso não vem ao caso.
O importante é que ela desencarnou na Europa e veio para cá, a fim de iniciar uma nova tarefa.
Só que está ainda muito confusa, traumatizada pela sua última encarnação e a morte violenta que atraiu.
- Por que eu para ajudá-la?
Com certeza, há outros que tiveram mais contacto com ela.
- A maioria de seus antigos companheiros está hoje no mundo espiritual, preparando-se para uma nova oportunidade.
Muitos amadureceram, contudo, o que ela necessita agora é de alguém que a esclareça sobre certos aspectos da vida na matéria.
Você já está familiarizada com o Brasil, sua língua e seus costumes, ao passo que Giselle ainda permanece apegada à Inglaterra, onde viveu sua última encarnação, e veio para cá um tanto quanto a contragosto.
- Se é assim, por que veio então?
- Porque é no Brasil que ela poderá desenvolver seus dons mediúnicos juntamente com a moral.
Em outros lugares, esses assuntos ganham aspectos de sobrenatural e extraordinário, e passam a ser tratados como objecto de estudo científico, sem o preparo moral e a fé que devem acompanhá-los.
Só aqui, no Brasil, a mediunidade será vista como fonte de crescimento e apreensão dos valores morais, além de oportunidade para o exercício da fé.
É disso que Giselle precisa no momento.
- Entendo.
- Ela foi um espírito muito rebelde, egoísta e orgulhoso.
Agora, está tentando se modificar.
Já conseguiu grande progresso, mas ainda tem muito que aprender e fazer.
E você poderá ajudá-la, mostrando-lhe os caminhos da Umbanda e procurando despertar sua atenção para ela.
- Giselle vai trabalhar na Umbanda?
- Quando reencarnar, quem sabe?
Por isso escolhemos você.
Se lhe mostrar o trabalho que a Umbanda desenvolve, temos certeza de que ela se interessará.
Pode ser muito bom para ela.
- Como vou encontrá-la?
Triste? Acabrunhada? Revoltada?
- Não é que esteja propriamente triste; é mais como se tivesse perdido a alegria interior.
Ela não reclama nem se revoltou contra a vida ou Deus, mas perdeu um pouco da vitalidade e se tornou por demais silenciosa.
Se você puxar assunto, ela vai conversar normalmente, mas nós, que já estamos acostumados aos processos cármicos do ser, podemos reconhecer lá no mais íntimo da alma humana, os sinais da felicidade perdida.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 03, 2015 10:51 am

Uma coisa é estar triste por causa de experiências ruins.
Essa tristeza passa à medida que o tempo vai cicatrizando as feridas.
Outra, bem diferente, é banir da alma a alegria genuína.
Essa é preciso reconquistar.
Eleonora fitou Piraju com firmeza e considerou:
- Será que estou à altura dessa tarefa?
Giselle pode nem mais se lembrar de mim.
- Muito provavelmente, não vai lembrar a princípio.
Mas vai reconhecê-la.
Vocês podem não ter sido grandes amantes, mas foram amigos, e amizade nunca se esquece.
- Por que isso é tão importante, Piraju?
O que ela tem de especial?
- O que todo mundo pode ter: coragem e vontade de crescer.
Quando o espírito empreende esforços para se modificar, todo o plano espiritual trabalha para favorecer essa mudança.
Ela é tão especial quanto qualquer outro em igual situação.
E então? Está pronta para vê-la?
- Só mais uma coisa.
Quem eu conheci foi Giselle de quatrocentos anos atrás.
Como devo chamá-la agora?
- Deixe que ela mesma lhe diga.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 03, 2015 10:51 am

Capítulo 42

Quando Eleonora entrou com Piraju, encontrou-se num aposento cujas paredes, de cima a baixo, encontravam-se recobertas de prateleiras com os mais variados livros.
Havia réplicas astrais de muitas obras humanas, e alguns livros estranhos, que pareciam plasmados pela própria menina.
Ela estava sentada na beira da cama, lendo um livro para um rapaz.
Quando percebeu a entrada dos dois, parou a leitura e olhou para eles.
Sorriu.
Naquele momento, Eleonora compreendeu o que Piraju lhe dissera sobre a perda da alegria.
O sorriso de Giselle, se bem que sincero, transmitia uma melancolia que lhe passava pelo coração e parecia emanar-se pelo olhar.
- Boa noite, Mohan -— cumprimentou ela, chamando Piraju pelo seu nome indiano.
Piraju devolveu o cumprimento com um aceno de cabeça, e o rapaz que estava com Giselle se levantou e disse:
- Vejo que conseguiu trazer a nossa amiga.
Eleonora não o conhecia, mas sentiu certa familiaridade em sua voz.
- Trouxe alguém para conversar com você -— disse Piraju, frente a frente com Giselle.
A menina olhou para Eleonora sem interesse e retrucou com voz monótona:
- Lamento, mas não a conheço.
- Engano seu.
Vocês foram muito amigas no passado.
- Sempre o passado... -— ironizou ela, buscando, com os olhos, seu acompanhante.
Aonde é que você vai, Leonel?
Leonel se virou para ela e, com um sorriso cativante, respondeu:
- Vou dar uma volta com Mohan.
Enquanto isso, você e Eleonora podem conversar melhor.
Só então Giselle ficou sabendo que a moça se chamava Eleonora.
Os dois saíram, e elas ficaram a sós.
- Não quer se sentar? -— convidou a menina, gentilmente.
- Obrigada.
Eleonora sentou-se no lugar antes ocupado por Leonel e pôs-se a observá-la.
Era uma menina de seus dezasseis ou dezassete anos, nem bonita, nem feia, mas de olhar inteligente e perscrutador.
- Onde foi que nos conhecemos? -— indagou ela, agora mais curiosa.
- Não se lembra de mim?
- Não.
- Pois eu me lembro de você, Giselle.
Lembro-me como se fosse hoje.
A menina deu um salto e se afastou de Eleonora, respondendo com voz rouca:
- Giselle ficou para trás.
Sou Martha agora.
- Desculpe-me, Martha, mas quando a conheci, você se chamava Giselle.
- Faz muito tempo que não nos vemos?
- Tomamos caminhos opostos.
- Você veio me cobrar algo?
- Não. Vim para conversar com você.
Martha pareceu aliviada e voltou a se sentar na cama.
- Se você me conheceu como Giselle, quem foi você então?
- Não se lembra da Espanha... e de Alejandro?
Ela levou apenas um minuto para associar o nome à lembrança do homem forte e barulhento que fora seu amante havia mais de quatrocentos anos.
- Alejandro... Alejandro Velásquez? -— ela assentiu.
Mas você era homem!
- Era.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 03, 2015 10:51 am

- Meu Deus, há quanto tempo!
Desde que você partiu para... Cuba, não foi? -— ela fez que sim.
Pois é, nunca mais soube de você.
- Está surpresa?
- Muito! -— exclamou ela, visivelmente interessada e eufórica.
Minha nossa!
O que foi que você fez durante esses quatrocentos anos?
- Quer mesmo saber?
- Quero.
- Pois então, vou lhe contar.
Durante o resto da noite, Eleonora contou a Martha tudo o que havia feito desde que deixara a Espanha, como Alejandro, passando por Aracéli, Chica e agora Eleonora.
Martha, por sua vez, narrou-lhe um pouco de suas aventuras e desventuras, e as duas terminaram se abraçando.
- Você era... um bom amigo -— comentou Martha, rindo, sem saber se deveria referir-se a ela como o homem do passado ou a mulher do presente.
- Passou-se muito tempo, não foi?
Nós duas tivemos os nossos tropeços e hoje estamos aqui.
- Mas você está encarnada -— Martha apontava para o ténue fio prateado que ligava Eleonora ao plano físico.
E como mulher, veja só!
- Nada disso me impediu de vir visitá-la.
- Quem diria...
Alejandro Velásquez.
E eu que pensei que você havia sumido.
Mas você se saiu muito bem.
- Nem tanto assim.
Fiz muitas coisas das quais me arrependi depois.
- Também eu... -— calou-se, como se sentisse medo das próprias palavras.
- Sabe, Martha, seus amigos estão preocupados com você.
- Exagero deles. Estou bem.
- Piraju me disse que você vai reencarnar no Brasil.
- Piraju...? Ah! Mohan.
É verdade.
- E você parece não estar muito satisfeita.
- Não é isso.
É que eu gostava da Inglaterra.
Fui feliz lá...
- E pode ser feliz no Brasil também.
Você agora vai ser brasileira.
- Pois é.
- Quando será isso?
- Daqui a uns anos. Preciso me preparar um pouco mais.
Quer conhecer o país comigo?
- Como assim?
- Sou dirigente de um centro de Umbanda lá na Terra.
Não gostaria de ir conhecê-lo e ver o que você pode fazer quando voltar?
- Eu nem sei o que é Umbanda!
- É uma religião muito nova.
Na verdade, tem raízes bem mais remotas, mas veio para o Brasil como uma reunião das culturas negra, indígena e branca.
- E daí?
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 04, 2015 10:51 am

- E daí que surgiu para auxiliar todos aqueles que precisam de ajuda.
É uma religião que trata todos os seres como iguais, sem qualquer distinção de cor, sexo, raça ou posição social.
Nós, que a praticamos, adoptamos certos rituais para facilitar nossa conexão com os guias espirituais e, assim, trabalhar no auxílio ao próximo e a nós mesmos.
Quem procura a Umbanda busca iluminar o seu ser com o conhecimento, a caridade e a humildade.
Estamos trabalhando pela melhora do ser humano e pelo desenvolvimento das faculdades mediúnicas em prol do bem comum.
- Parece interessante.
- Talvez você possa trabalhar connosco.
- Eu?! Como?
Não tenho cara de guia espiritual, tenho?
- Não. Mas você disse que vai reencarnar e, pelo que sei, está tentando se reequilibrar com a vida.
Não é verdade?
- É.
- Então, a Umbanda pode ser um bom caminho de se transformar sem sofrimento.
O que você acha?
- Não sei.
Preciso conversar com meus mentores.
- Foram eles que mandaram me chamar.
Talvez, se me acompanhar, consiga compreender o sentido da vida e aceitar a mudança.
Você vai viver no Brasil e pode escolher fazê-lo com ou sem dor.
- Não tenho vocação para mártir.
Já dei à vida minha quota de sacrifício.
Quero experimentar coisas diferentes.
Chega de sofrimento físico.
- Isso quer dizer que você aceita a minha oferta?
- Pode ser.
Mas vou conversar com Leonel primeiro.
- Quem é ele?
- O melhor amigo que já tive.
Não faço nada sem antes falar com ele.
- Pois então, vá consultá-lo.
Se ele está aqui, com certeza, é um espírito de bem.
- Ele foi mais esperto do que eu e cresceu mais rápido.
Agora está me esperando.
- Isso se chama amor.
É muito bonito.
- Ele pode ir comigo?
- Não sei.
Piraju é quem deve saber.
- Por que o chama de Piraju?
Ele foi índio na última encarnação.
Não sabia?
- Sabia.
Mas é que ele usa seus conhecimentos hindus nos trabalhos que realiza.
- Isso não quer dizer nada.
Piraju trabalha comigo no centro de Umbanda que dirijo.
É ele o dirigente espiritual de nossa casa e se apresenta como Caboclo Rompe Mato.
- Que interessante!
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 04, 2015 10:51 am

- Sim, é muito interessante.
Tenho certeza de que você vai gostar.
- Qual a ligação que Piraju tem com você?
- Ele foi meu marido.
- Quando você foi índia?
- Exactamente.
Duas encarnações atrás.
- Olhe, Eleonora, você me convenceu.
Sei que não ando muito animada ultimamente, mas já estou cansada de ficar por aqui.
Talvez um novo lugar, longe de onde vivi minha última encarnação, seja uma boa ideia.
- Procure não pensar mais na Inglaterra.
Foi bom para você durante um tempo, mas agora suas necessidades são outras.
O Brasil tem um grande potencial espiritual, e soube que é disso que você precisa.
- Eu amo a Inglaterra.
Foi muito doloroso, para mim, sair de lá, mas Leonel me fez ver que era o melhor.
Deixei muitas alegrias e tristezas naquele solo, e ele diz que o que eu preciso agora é de renovação.
- Ele está certo.
- Tenho que me acostumar a viver em outro lugar.
Não deve ser difícil.
Afinal, você também viveu na Espanha.
- É, mas, antes da Espanha, vivi na Escócia e de novo na Inglaterra.
Foram muitas e muitas vidas naquelas terras.
- Hora de mudar.
Sua terra agora é o Brasil.
Martha balançou a cabeça e Eleonora sentiu novamente a perda de alegria em sua alma.
O que Piraju lhe dissera era quase visível na menina.
- A vida vai ensiná-la a recuperar a alegria -— disse Eleonora, apertando-lhe as mãos.
Martha não sabia por que Eleonora dissera aquilo e sentiu lágrimas lhe subirem aos olhos.
- Quando é que você vem me buscar? -— perguntou, enxugando as lágrimas que nem chegaram a cair.
- Não serei eu que virei buscá-la.
É mais provável que Piraju a leve com ele.
- Até lá, então.
- Adeus, Martha.
E procure animar-se.
Você vai gostar da Umbanda.
Eleonora se despediu de Martha e, no mesmo instante, Piraju entrou, acompanhado de Leonel.
- Obrigado — disse Leonel, emocionado.
Ela os abraçou também emocionada, e enquanto Leonel ia ao encontro de Martha, Piraju apanhou Eleonora pela mão e voltou com ela para a Terra.
- Você ouviu o que dissemos? -— quis saber Eleonora, parada ao lado de seu corpo físico.
- Não. Mas posso ler em seus pensamentos.
Você fez a coisa certa. Obrigado.
- Fiz o que pude.
No próximo dia de sessão, Leonel estará comigo, e levaremos Martha.
Eleonora o abraçou e voltou ao corpo, dando um longo suspiro.
Piraju ainda ficou olhando-a por uns minutos, mas Eleonora retomou o sono, e seu corpo fluídico permaneceu flutuando alguns centímetros acima do físico.
Ele espargiu energias luminosas pelo ambiente e se foi.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 04, 2015 10:51 am

Capítulo 43

Octávio estava muito nervoso para aquele encontro.
Silmara lhe dissera que ele não tinha que se preocupar com seus pais, mas ele se sentia inseguro.
Afinal, ele era um pobretão, e os pais dela eram pessoas distintas.
Podiam não ser milionários, mas tinham posses e com certeza não eram iguais a ele.
Parou em frente à casa da namorada e alisou o terno com as duas mãos.
Suspirou fundo, tossiu nervosamente e abriu o portão.
Subiu hesitante os cinco degraus que davam acesso à pequena varanda da frente e tocou a campainha.
Não demorou muito, e Silmara veio atender, linda feito uma noiva em seu vestido branco-pérola.
Ele segurou as suas mãos, e ela ofereceu-lhe a face para que ele a beijasse.
Ao ser apresentado a Eleonora, parecia que já a conhecia havia muitos anos.
A primeira impressão foi de alguém a quem devia temer, mas, logo em seguida, foi como se um calor o houvesse envolvido, e ele se pôs à vontade na confortável sala de estar.
Sérgio o cumprimentou amistosamente, e ele se sentiu em casa.
Logo estavam conversando, e ele então compreendeu o que Silmara lhe dissera a respeito dos pais.
Eram pessoas maravilhosas e se esforçaram ao máximo para agradá-lo.
Apenas com Evandro ele não simpatizou.
Achou-o um pouco snobe, mas não disse nada que pudesse ofendê-lo.
Na verdade, a alma de Octávio, evocando as vivências de Soriano tanto na carne quanto em espírito, recebia as sensações de seus antigos companheiros de jornada em séculos remotos.
Ao conhecer Silmara, seu coração imediatamente reconheceu a Cibele de outros tempos.
Eleonora, a responsável por sua morte violenta e traumática nas mãos do índio maia, passara por Aracéli, a quem ele a princípio tentara matar, mas que depois procurara defender por amor a Cibele.
E, por fim, Evandro, que tão bem serviu a seus propósitos no início, como Licínio, mas que depois se tornou seu inimigo por tentar liquidar sua Cibele, ainda no ventre da mãe.
Gilda não lhe despertou nenhum sentimento, já que nada vivera com Esmeraldina.
De Sérgio não guardava lembranças ruins, porque a antipatia que sentira inicialmente por padre Gastão se devia ao facto de que as suas orações representavam um empecilho a suas investidas.
E agora encontravam-se todos ali reunidos para alcançar uma nova compreensão.
Apenas Teodoro não estava presente, ainda aguardando a oportunidade de voltar ao mundo e reencontrar seus amigos.
Octávio foi informado das actividades da família no centro espírita e demonstrou interesse em conhecer o lugar.
Não sabia nada de espiritismo, nunca lera coisa alguma a respeito.
Apenas ouvira falar uma coisa ou outra, como se fosse algo sobrenatural que se devesse temer.
Sobre a Umbanda, então, não tinha nenhum conhecimento, achando mesmo que ali se adoptava a prática do fetichismo.
- Não é nada disso -— informou Sérgio.
A Umbanda é uma religião nova para nós, mas trabalha dentro da lei do amor e da fraternidade.
Procuramos levar conforto e esperança às pessoas.
- Você precisa apenas manter a sua mente aberta -— disse Eleonora. —
Não pode ter preconceitos nem ideias preconcebidas.
- Vou tentar.
- Teremos sessão hoje -— prosseguiu Sérgio.
Mais tarde, iremos para lá.
Não quer nos acompanhar?
- Hoje? -— surpreendeu-se Octávio.
Mas não estou preparado.
- Ora, vamos, Octávio, você vai gostar -— pediu Silmara.
E não precisa de preparo algum.
- É isso mesmo -— concordou Sérgio.
Basta a sua boa vontade.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 04, 2015 10:52 am

- Bem, se é assim, então eu vou.
Estou mesmo curioso para conhecer esse culto.
Terminado o almoço, Evandro e Gilda saíram para dar uma volta e Silmara e Octávio ficaram em casa conversando.
Às quatro da tarde, lá estavam para abrir o centro e iniciar os preparativos para a reunião de estudos e as consultas mais tarde.
No plano invisível, Piraju chegou com Leonel e Martha.
A actividade no astral já era intensa, com os guias empenhados na imantação do ambiente.
Martha notou vários espíritos ali, muito embora o centro estivesse praticamente vazio de pessoas encarnadas.
- Quem são esses espíritos? -— indagou ela, curiosa, referindo-se a uma porção de criaturas nitidamente pouco evoluídas.
- São almas necessitadas de auxílio -— esclareceu Piraju.
Vê como se acomodam no fundo do salão?
Estão aguardando a chegada de Eleonora e Sérgio, para ouvir-lhes a palestra e ganharem algum conhecimento.
- Mas por quê?
No nosso mundo não há espíritos sábios o suficiente para ensinar-lhes?
- Muitos desencarnados se recusam a frequentar reuniões no mundo astral.
Sentem-se mal e, às vezes, intimidados com a presença de espíritos mais iluminados.
Todavia, um lugar como este, onde a vibração, apesar de elevada, está ainda ligada à matéria, faz com que eles se sintam mais à vontade.
É a presença dos encarnados, sobretudo, que lhes traz a sensação de familiaridade, pois vários desses espíritos encontram-se ainda afinizados com a vida física que, muito a contragosto, tiveram que deixar.
Quando Sérgio e Eleonora chegaram, todos os espíritos se aquietaram e ficaram atentos às palavras do palestrante e às perguntas que os médiuns lhes endereçavam, esclarecendo muitas de suas dúvidas.
Encerrada a primeira parte, houve uma pequena pausa, e, em seguida, todos retornaram para dar início à sessão de consulta.
Nessa hora, Piraju se despediu de Martha e Leonel e foi para junto de Eleonora.
Incorporado na médium, ia atendendo as pessoas.
O primeiro a se consultar foi o próprio Octávio, que Piraju, agora Caboclo Rompe Mato, recebeu com um abraço.
Após o passe inicial para energizar seus corpos físico, astral e mental, o caboclo começou a falar(24):
- Você sabe por que está aqui, não sabe?
Octávio ficou confuso e respondeu hesitante:
- Vim acompanhar minha namorada...
- Vocês estão ligados por vidas passadas e agora têm a chance de se reencontrar e buscar, em seus corações, alegria e felicidade.
A conversa foi rápida, porém, construtiva e Octávio saiu de lá com o coração leve, sentindo nascer a fé naquela doutrina tão nova para ele.
Em seguida, entrou uma mulher mal-humorada, que o caboclo abraçou com amorosidade.
Via, em sua mente, que ela estava ligada ao passado de Eleonora.
Fora Zenaide, escrava que delatara Aracéli para Esmeraldina, informando-a do caso da índia com Licínio.
Piraju captou essa informação, mas ocultou-a da consciência de Eleonora, que nada registou a respeito.
- Minha vida está muito difícil, seu Rompe Mato -— começou ela a dizer.
Meu marido me largou por conta de uma fofoca que fizeram com o meu nome.
Foi embora e nem me deixou pensão.
Tenho dois filhos para criar sozinha.
Arranjei um emprego de doméstica, mas havia outra empregada na casa que dormia com o filho da patroa.
Quando ela descobriu, a danada tirou o corpo fora e colocou a culpa em mim.
Inventou que era eu que dormia com ele.
E o pior foi que o safado confirmou!
A mulher pôs-se a chorar, e o caboclo ficou olhando-a calmamente.
Esperou até que ela se acalmasse para então poder dizer:
- Não culpe a vida pelos seus actos.
Saiba que nada que acontece é por acaso, e cada um somente colhe aquilo que plantou um dia.
- O senhor quer dizer que eu estou pagando por algo que fiz no passado?
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 04, 2015 10:52 am

- Não pense nas coisas dessa forma.
Ninguém paga porque ninguém é devedor.
Você está apenas presa à necessidade de compensação, como todo mundo.
Mas não precisa ser assim.
Você não precisa sofrer.
Modifique as suas atitudes, e sua vida também vai mudar.
O auto-perdão e a disciplina interior conduzem à transformação que, por sua vez, levam à felicidade.
- Mas eu não sou fofoqueira...
- Silencie e olhe um pouco para dentro de si.
Se está segura de que não é dada a maledicências, saiba que é no passado que está a causa de tudo isso.
- Se é assim, estou mesmo pagando, porque tenho certeza de que, nessa vida, não falo mal de ninguém.
Piraju sabia que era mentira, que a mulher, ainda hoje, fazia intrigas e falava mal da vida alheia, repetindo a atitude de antes que tanto lhe trouxera transtornos.
Contudo, não estava ali para acusá-la nem julgá-la, e sim para ajudá-la a enxergar a si mesma e tentar se modificar.
- Como disse, faça uma reflexão sobre seus actos e procure modificar suas atitudes.
Só com a reforma interior é que poderá quebrar o elo que você criou com os problemas de maledicência.
Depois de muita conversa, Piraju conseguiu acalmar a mulher e fazê-la aceitar, ao menos para si mesma, que precisava conter a língua se quisesse mesmo modificar aquela tendência que tinha para atrair fofocas.
Quando ela saiu, veio um rapazinho de seus dezassete anos, meio abobado, acompanhado pela mãe.
Estava tendo problemas de obsessão.
Na primeira vez que o recebeu, Piraju logo detectou o comprometimento com espíritos menos esclarecidos que estavam a seu redor e reconheceu nele o antigo dono da fazenda onde Eleonora fora escrava, ainda na pele de Chica.
Fazia-se acompanhar pelo espírito de um escravo que se chamava Sebastião, revoltado com o fim que tivera, enforcado em uma árvore por conta da ordem do rapaz, conhecido então como sinhó Eusébio.
- Como está o menino hoje? -— indagou Rompe Mato.
- Está melhor -— afirmou a mãe.
As orações têm surtido bastante efeito.
Piraju segurou o menino pelos ombros e disse:
- Vingança não leva a lugar algum de felicidade.
Quanto mais você perturbar o menino, mais vai trazer perturbação para si mesmo.
Não acha que é melhor perdoar e seguir o seu caminho?
Você não pertence mais ao mundo da matéria, e não é ao lado desse moço que você vai encontrar o que procura.
- Você fala em perdão porque nunca sofreu -— respondeu o rapaz, completamente alheio ao que dizia.
- Todo mundo sofreu na vida, mas o sofrimento não termina com a vingança.
Ao contrário, ele se prolonga.
Deixe-o e siga o seu caminho.
Há aqui espíritos que podem ajudá-lo a reencontrar a paz.
Ou vai me dizer que, desde que iniciou essa vingança, você tem vivido em paz?
O menino, com o espírito colado a ele, hesitou:
- Foi por culpa dele que perdi minha paz -— respondeu, referindo-se à sua presa.
- A responsabilidade foi sua pelo que fez.
Aquele que age, seja para o bem ou para o mal, tem que assumir a responsabilidade pelas consequências que gerou
- Não quero mais passar por isso -— queixou-se o rapaz.
- E nem precisa.
Você se ligou a ele pela vingança.
É tão prisioneiro do ódio quanto ele.
Liberte o menino e estará se libertando também.
O espírito titubeou.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 04, 2015 10:52 am

Era obrigado a acompanhar seu antigo algoz àquele centro fazia muito tempo.
Havia espíritos que o prendiam e o levavam até ali juntamente com o rapaz, e ele já estava ficando cansado.
- Para onde é que eu vou? -— questionou ele, com medo de ir parar em algum calabouço.
- No lugar para onde o convido não existem prisões -— esclareceu Rompe Mato, notando o medo do espírito.
É um local calmo e sereno, onde só vibram a paz e a amorosidade.
- Tem certeza?
- Não estou aqui para enganar ninguém.
O menino deu um suspiro longo e falou pelo espírito:
- Sabe de uma coisa?
Vou aceitar o seu convite.
Já estou mesmo farto desse bobalhão.
Em silêncio, Piraju ficou observando o espírito ser levado dali por uma cabocla, que se aproximara deles ao perceber o que estava acontecendo.
Era um dos guias que trabalhavam na casa sem incorporar, pronta para executar importantes tarefas que escapavam aos olhos e à compreensão dos encarnados.
O espírito se deixou conduzir mansamente, e o menino olhou ao redor, como se só agora percebesse onde estava.
Mente ainda confusa, não disse nada.
- Vou passar um banho para ele -— informou Piraju. —
Aos poucos, seus corpos irão se limpando da influência do espírito que o acompanhava.
E não se esqueça de orar todos os dias.
Em breve, ele dará sinais de significativa melhora.
O caboclo abraçou a mulher e o filho, que se foram cheios de gratidão.
Em seguida, veio uma menina pequena, também acompanhada da mãe.
Como sempre, o caboclo as abraçou, e a mulher foi logo dizendo:
- Quero que o senhor me perdoe, seu Rompe Mato, mas ela insistiu em vir.
Disse a ela que não deveria ocupar o seu tempo com bobagens, mas ela tanto insistiu que não tive remédio.
Precisei trazê-la, ou ela não me deixaria em paz.
- O que foi que houve, pequenina? -— perguntou Piraju, carinhosamente.
- O meu cachorro está doente - respondeu ela, em lágrimas.
Não quero que ele morra.
- Eu disse que era besteira -— cortou a mulher, envergonhada.
Onde já se viu ocupar o tempo do caboclo com uma coisa dessas?
Animal não é gente.
- Filha -— falou Piraju, dirigindo-se à mulher - não nos cabe impor graus no sofrimento.
Não temos o direito de decidir que dores são justas e quais não são.
Tudo que aflige as criaturas tem importância aos olhos de Deus.
E um ser humano não é melhor do que um cão só porque sabe pensar.
Toda vida é importante porque é através dela que o espírito se manifesta e os seres têm a chance de evoluir.
Assim também os animais, e a preocupação de sua filha é plenamente justificável.
Você deveria agradecer por ter colocado no mundo alguém que se preocupa com a vida, em vez de um ser que a despreze.
A mulher ficou vermelha de vergonha, mas a menina se adiantou e perguntou:
- O senhor vai curar o meu cachorro?
Rompe Mato colocou a mão sobre a cabecinha da criança e, durante alguns minutos, permaneceu de olhos fechados, conectando-se mentalmente à casa dela, onde se encontrava o animal.
Depois, abriu os olhos e aconselhou:
- Dê-lhe chá de quebra-pedra.
Ele não tem nada, a não ser uma pedra no rim.
Com o chá, vai ficar bom.
A menina ficou tão feliz que se agarrou às pernas de Eleonora, e o caboclo se abaixou para abraçá-la.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 04, 2015 10:52 am

Abraçou também a mulher, e as duas foram embora.
Após mais algumas consultas, a sessão estava terminada.
Os médiuns, reunidos em grupo, batiam palmas e cantavam uma cantiga para os caboclos subirem e retornarem para Aruanda.
Depois que os caboclos subiram, Piraju foi juntar-se a Leonel e Martha.
- E então? -— perguntou a Martha.
Gostou?
- Estou impressionada -— respondeu Martha sinceramente.
Eu não podia imaginar que fosse assim.
Tanta gente que veio aqui e recebeu ajuda!
- Você vai ver muitas coisas mais.
- Tem uma coisa que não entendi.
O que é Aruanda?
É urna cidade astral?
- Na verdade, é um lugar onde os caboclos e pretos velhos se reúnem após deixarem o terreiro de Umbanda, mas não é lá, necessariamente, que residem no invisível.
Todos nós temos os nossos afazeres no mundo astral e nas diversas cidades espalhadas pelo cosmo acima da Terra e, muitas vezes, abaixo dela.
Além disso; nem todos estamos constantemente sob a vestimenta de caboclos ou pretos velhos.
Na maioria das vezes, longe do centro, reassumimos alguma aparência que tínhamos em outra vida, voltando à forma que utilizamos na Umbanda quando precisamos, seja para os trabalhos, seja para nos apresentarmos a algum vidente que nos chama ou com quem precisamos nos comunicar.
Todos nós que trabalhamos na Umbanda estamos ligados por um fio mental que nos coloca em permanente contacto, e é através dele que somos accionados sempre que a Umbanda de nós precisar, para nos reunirmos em Aruanda.
- É lá que são traçadas as directrizes da Umbanda? -— questionou Leonel.
- Sim — respondeu Piraju.
Em Aruanda, todos aqueles que trabalham na Umbanda se reúnem para trocar experiências e resolver importantes questões ligadas aos trabalhos que são realizados.
Aruanda não é uma cidade cheia de índios e escravos.
É um lugar de encontro, de repouso e de estudos voltados à prática da Umbanda aonde qualquer um pode ir.
Mas, como disse anteriormente, cada um de nós segue para um local diferente, onde nossa ajuda é solicitada.
Quando, por qualquer motivo, precisamos nos reunir, somos imediatamente contactados através desse fio mental que nos une e nos dirigimos para lá.
- Se entendi bem -— prosseguiu Martha.
Aruanda não é um lugar de moradia espiritual que aloja caboclos e pretos velhos, mas um ponto de encontro para todos aqueles ligados pelo mesmo fio mental que os convoca e reúne quando é preciso.
- Pode ser que, eventualmente, haja espíritos morando por lá, mas o que quero dizer é que isso não é um padrão, não é obrigatório.
Aruanda é uma cidade astral livre e franqueada a qualquer um que tenha interesse na prática e nos estudos da Umbanda.
E estamos todos ligados a ela por um elo mental, pois o que nos une é a mente ligada no propósito comum, não importa onde estivermos.
Depois disso, ao apagar das luzes do centro, Piraju foi-se despedindo dos demais guias e voltou para o Astral juntamente com Leonel e Martha.

24. Aqui também serão colocados os diálogos com fluência normal, sem o característico linguajar aparentemente inculto das entidades de Umbanda, para melhor compreensão do leitor.
Fica apenas a observação de que caboclos e pretos velhos adoptaram a forma simples de falar em sinal de humildade, numa simbologia clara de que a Umbanda estaria voltada para os simples e humildes de coração.
Actualmente, além desse motivo, existe a questão cultural, pois muitos são aqueles que, acostumados a esse linguajar, teriam dificuldades em crer na força de espíritos de Umbanda que falassem como pessoas cultas e letradas.
Sendo a religião dos humildes, ainda hoje subsiste a crença nessa característica peculiar de humildade.
As entidades de Umbanda, todavia, podem conversar naturalmente e possuem conhecimentos muito mais avançados do que se pode supor.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 04, 2015 10:52 am

Capítulo 44

Como era de se esperar, Silmara e Octávio se casaram, e Evandro e Gilda tiveram seu primeiro filho.
O menino, de nome Ricardo, era adorado pelos pais, principalmente por Evandro, que não hesitava em fazer todas as suas vontades.
Ricardo era um menino amistoso e dócil, desde cedo ligado ao centro espírita.
Tinha verdadeira adoração pelos avós e gostava de passar os fins-de-semana em sua casa.
Além disso, era fascinado por tudo o que se referisse aos índios, demonstrando um pendor natural para as questões relacionadas à causa indígena.
- Quando crescer — disse ele numa tarde de domingo, após ouvir as histórias que a avó lera de um livro de contos indígenas —, vou morar na Amazónia e fazer parte do SPI(25).
Sérgio e Eleonora riram muito, embora os pais não aprovassem a escolha de Ricardo e tudo fizessem para demovê-lo daquela ideia absurda.
- O que você sabe sobre o SPI, seu bobinho? -— indagou o pai carinhosamente.
- Bem... — hesitou o menino — sei que é um lugar para onde vão as pessoas que defendem os índios.
Todos riram bastante, menos Gilda, que protestou veemente:
- Onde já se viu meu filho vivendo entre os índios?
Você está recebendo uma boa educação, Ricardo.
Não é para se meter no meio de selvagens.
- Não deveria falar assim, Gilda -— censurou Sérgio.
Os índios são pessoas como nós e merecem o nosso respeito.
- Concordo, desde que eles estejam no mato e nós aqui, na cidade, bem longe de sua selvajaria.
- Índios não são necessariamente selvagens -— objectou Sérgio novamente.
- Quando falo em selvagens quero dizer não civilizados —corrigiu Gilda.
- E daí, mamãe? — prosseguiu Ricardo.
— Quanto mais selvagens, melhor.
- Jamais concordarei com um absurdo desses — contestou Gilda.
- Deixe de se apoquentar por bobagens -— repreendeu Evandro mansamente.
Ricardo é só um menino e está impressionado com tantas histórias de índios que minha mãe lhe conta.
Com o tempo, isso passa e ele muda de ideia.
Gilda olhou-o em dúvida, e Ricardo foi-se aninhar no colo do avô, a quem sussurrou baixinho:
- Não mudo.
Realmente, Ricardo, querendo redimir-se do extermínio dos índios a que procedera quando fora Teodoro, jamais mudou o seu objectivo.
Sempre se interessou pela causa indígena e, mais tarde, conforme era de seu desejo, ingressou nos quadros do SPI, passando, com a extinção deste, a trabalhar para a Funai, sempre defendendo os direitos dos silvícolas.
Com essa encarnação, fechava-se o ciclo de troca de experiências e reajustes recíprocos entre os integrantes dos dramas que se desenrolaram desde princípios de 1500, quando Alejandro se arvorara nas terras dos maias e dos astecas, auxiliando Cortés no extermínio dos índios.
Desde aquele tempo, muita coisa acontecera, e o amadurecimento espiritual trouxera a todos uma nova visão do mundo e da vida.
Mesmo os mais empedernidos, como Evandro e Gilda, acabaram cedendo ante o poder imbatível do amor.
Nos idos de 1947, Sérgio retornou ao mundo astral, tendo Eleonora desencarnado serenamente no ano seguinte, deixando aos filhos a tarefa de dar continuidade ao trabalho espiritual que haviam começado.
Evandro e Gilda, contudo, não tiveram nem a firmeza de propósitos, nem o preparo moral necessário para dar seguimento à tarefa iniciada por Eleonora e Sérgio.
Não por serem pessoas sem moral, mas por estarem com seus interesses ainda voltados às ilusões do mundo, pouco comparecendo ao centro após o desenlace de Eleonora.
Ricardo, por sua vez, envolvido com a Funai e os índios, não tinha tempo para se dedicar a outros assuntos, muito embora lamentasse a sorte do centro que sua avó fundara com tanta satisfação e alegria.
Assim, a tarefa coube a Silmara e Octávio, que continuaram se dedicando ao trabalho espiritual até sua passagem para a outra vida.
Não tiveram filhos nem ninguém que pudesse substituí-los.
Quando Silmara desencarnou, os médiuns não conseguiram chegar a um consenso sobre quem dirigiria o centro.
Houve até algumas brigas de pessoas iludidas pela fascinação do poder.
Julgavam-se melhores e mais poderosas do que as demais, porque sabiam mais, porque estavam no centro há mais tempo, porque se intitulavam herdeiras dos poderes de Eleonora, sucessoras de Rompe Mato e outras tantas justificativas que arranjavam para convencerem-se a si mesmas de que mereciam o cargo.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 04, 2015 10:53 am

Do lado invisível, Eleonora, Sérgio e Silmara presenciavam essas desavenças com tristeza e decepção.
- A culpa foi minha -— disse Eleonora a Piraju.
— Deveria ter preparado alguém para realmente me substituir.
- Será que adiantaria? -— retrucou o índio.
Quando se está firme na moral, o preparo surge espontaneamente.
O que acontece é que as pessoas ainda não se desapegaram da ilusão do poder.
- E para que serviu toda aquela doutrina que procuramos lhes dar? -— tornou Sérgio.
— Será que ninguém aprendeu nada?
- Você não deve generalizar.
Os que se encontram realmente preparados não estão sendo cogitados para ficar no lugar de Eleonora.
Nem sequer estão se oferecendo ou se digladiando com os demais para serem eleitos.
- Mas por quê? — indignou-se Silmara.
— Deveriam!
— Junto com o conhecimento vem a humildade.
Só os ignorantes são orgulhosos.
- O que podemos fazer, Piraju? -— indagou Eleonora.
—Temos que direccioná-los.
- Infelizmente, minha querida, não podemos mais intervir.
Trata-se de uma questão que agora está fora do seu alcance.
O centro não mais lhe pertence nem a Silmara.
Vocês concluíram sua tarefa na Terra, deixando sua continuidade a cargo de outros.
Interferir na escolha desses outros seria o mesmo que alterar seus planos de vida.
São os que ficaram que agora precisam testar sua maturidade espiritual e evoluir.
Podemos orar por eles e inspirar-lhes bons conselhos, mas não temos como impedir que ajam de acordo com a sua moral.
A responsabilidade agora não é mais de vocês.
- Mas é multo triste.
Tantos anos de luta, tanto trabalho perdido!
- Tantas pessoas que vocês ajudaram a se reequilibrar na vida.
O seu trabalho, o de Sérgio e o de Silmara jamais serão perdidos.
Todos aqueles que passaram pelo centro, sob a direcção de vocês, beneficiaram-se com os seus ensinamentos e o exemplo da rectidão de carácter.
Mas isso foi no seu tempo.
O tempo agora é outro, para ser experienciado por outras pessoas, com outras necessidades e outros projectos.
Sintam-se felizes pelo dever cumprido.
Dêem aos outros o direito de tentar cumprir o deles.
- Você está certo — concordou ela por fim.
— Acho que fiquei um pouco apegada ao centro.
Afinal, fui eu que o fundei.
- Você o fundou para a vida, não para você.
Depois que lhe deu vida própria, o centro se separou de você.
Enquanto na matéria, cabia-lhe a direcção material e espiritual, que passou a Silmara por similitude de propósitos e necessidades temporais.
- Mas o que acontecerá?
Será que essa disputa vai acabar e alguém vai continuar a minha obra?
- Os que lá ficaram vão se debater por algum tempo, mas depois se acertarão.
Mais tarde, quando perceberem que o poder que buscam reside apenas na fantasia de seu orgulho, sairão em busca daquele que tiver melhor preparo moral para conduzi-los.
Por enquanto, é necessário que se desgastem na luta para que possam, mais tarde, fazer uma reflexão e alcançar o entendimento sobre o que é realmente dirigir um centro espírita.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 04, 2015 10:53 am

- Tem razão.
Vou rezar para que Deus ilumine as cabeças daqueles que estão em luta, para que consigam se desenvencilhar da quimera do poder e se entregar ao que verdadeiramente tem valor.
- É o melhor que podemos fazer por ora.
Por alguns anos, o centro fundado por Eleonora pareceu perder a força.
A doutrina, tão estimulada por ela, Silmara e Sérgio, fora posta de lado para dar lugar a rituais cada vez mais elaborados e complexos.
Esqueciam os médiuns que os rituais servem para possibilitar a criação de uma harmonia de pensamentos e sentimentos, organizando-os de forma a facilitar as experiências espirituais e a captação de energias para aplicação adequada nos trabalhos e na vida.
Distanciados dessa verdade, passaram a utilizar os rituais como forma de demonstração de poder e exibicionismo, transformando-os em formalidades vazias e sem nenhum equilíbrio, retirando-lhes o sentido de libertação da alma de tudo o que fosse material.
Ao contrário, prendiam as pessoas cada vez mais na falsa ilusão do poder e da vaidade.
Os guias, não encontrando um ambiente espiritual propício, tinham dificuldades em manter contacto com os médiuns, que não conseguiam transmitir as mensagens com fidelidade.
Os que estavam em busca do autoconhecimento e da verdadeira caridade não se afinizavam com o lugar e logo saíam.
Outros, ainda apegados à vaidade e ao orgulho, permaneciam, e, devido a sua constante invigilância, iam abrindo buracos na camada magnética que guarnecia as dependências do centro, responsável pelo constante bem-estar que, até então, sentia-se ao adentrar-se o local.
Mesmo as entidades encarregadas de guardar a casa se afastaram, atraídas para outros centros iniciantes, cujos propósitos eram mais sinceros dos que o de lá.
A situação chegou a tal ponto que o centro quase fechou as portas.
Os Consulentes deixaram de comparecer, e os médiuns pararam de contribuir com o sustento da casa.
A casa espiritual agonizava.
Foi quando alguém teve a ideia de iniciarem uma cobrança módica pelas consultas, para cobrir o deficit deixado pelos próprios médiuns.
A maioria concordou, até que alguém com firmeza de carácter suficiente para protestar se levantou e ergueu a voz num alto e sonoro não.
- Assim também já é demais!
Já suportei ao máximo todos esses desmandos e guerra de vaidades.
Agora chega!
Se iniciarmos a cobrança pelas consultas, podem ir dizendo adeus de vez ao centro.
Fecharemos as portas e teremos que nos acertar com a vida depois, porque essa não é, nem nunca foi, a nossa política.
- Mas há centros que cobram pelas consultas — observou alguém.
Será que estão todos errados?
- Se dona Silmara estivesse viva, diria que não há certo nem errado na vida -— contrapôs Sónia, a médium inconformada.
Quem cobra consultas tem um motivo e não nos cabe julgar, principalmente porque desconhecemos as razões que movem os actos de cada um, que são sempre justas.
Cada um trabalha a seu jeito.
Mas esse não é o nosso.
Não foi assim que começamos e não é assim que terminaremos.
Estamos comprometidos com a gratuidade.
Todos ficaram em silêncio, reflectindo nas palavras da médium, que estava sendo intuída pelo seu próprio guia, a quem fora recomendada uma última tentativa para salvar o centro.
Iniciou-se uma discussão acalorada, e os médiuns se dividiram.
A maioria já estava cansada dos resultados pouco produtivos dos trabalhos e começou a pressionar o presidente, que acabou renunciando.
Sónia foi eleita para a presidência, e iniciou-se o trabalho de reforma do centro.
Os médiuns que eram contra as novas directrizes saíram, ficando apenas aqueles que davam razão a Sónia.
Do lado invisível, Eleonora, Sérgio e Silmara felicitavam os novos guias que acompanhariam os trabalhos do centro a partir de então.
Sentiam-se gratificados porque o plano espiritual não havia perdido mais um posto de luta a favor do bem.
Os três abraçaram-se chorando, até que Piraju falou:
- Muito bem, Eleonora.
Terminou a sua missão aqui.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 04, 2015 10:53 am

Sua tarefa agora deve iniciar-se em outro lugar.
Eleonora olhou para ele e sorriu.
Sabia bem do que ele estava falando e, juntos, os quatro partiram em direcção ao seu novo destino na Terra.

25. SPI — inicialmente, Serviço de Protecção aos Índios e Localização de Trabalhadores Nacionais, passando depois a Serviço de Protecção aos Índios (SPI), órgão criado pelo Decreto-lei no. 8.072, de 20 de junho de 1910, para tratar das questões indígenas do país.
Somente em 1967 foi criada a Funai -— Fundação Nacional do Índio, pela Lei no. 5.371, de 5 de dezembro de 1967, em substituição ao extinto Serviço de Protecção aos Índios.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 04, 2015 10:53 am

Epílogo

Eleonora e Silmara foram encontrar Martha num aconchegante campo estrelado, onde ela e Leonel, deitados ao ar livre, contemplavam os milhares de pontinhos cintilantes polvilhados no céu.
Martha sentiu a sua aproximação e se sentou, sorrindo ao ver as duas chegando de mãos dadas.
- Olá, minhas amigas -— cumprimentou ela.
Como estão?
- Bem -— respondeu Eleonora.
E vocês?
- Bem, também.
Martha e eu estávamos fazendo planos para o futuro —esclareceu Leonel.
- Ela está animada.
- Mais ou menos.
- Vou voltar porque sei que será bom para o meu crescimento, o que não significa que esse seja o meu desejo.
- Preferiria ficar aqui com você.
Ou, então, que você fosse comigo.
- Já conversamos sobre isso, e você sabe que não vai ser bom para você.
- Mas essa é uma outra história, não foi para falar dela que Eleonora veio aqui, foi?
- Não -— concordou Eleonora.
Na verdade, estamos à espera de Piraju, que vai nos orientar sobre o que devemos fazer.
Não demorou muito, e Piraju apareceu.
Sentaram-se todos no chão e, por uns momentos, ficaram deliciando-se com o silêncio e a paz que absorviam da visão das estrelas.
- Muito bem — começou Piraju.
Acho que estão todos prontos, não é mesmo?
- Sim... — concordou Martha, um pouco hesitante.
- Você não tem com o que se preocupar.
Eleonora vai estar com você.
Procure apenas não se revoltar contra a vida e se dedique à causa espiritual o mais cedo que puder.
Vai evitar-lhe muitos sofrimentos.
- Vou tentar.
- Haverá outras entidades que a acompanharão na tarefa mediúnica, mas Eleonora é quem estará à sua frente.
Será sua força e sua guia.
- Está bem.
- Silmara estará connosco também -— acrescentou Eleonora.
Embora não tenha tanta necessidade de se fazer presente e incorporar.
- Eleonora, contudo, virá sempre em primeiro lugar -— acrescentou Piraju.
Entregue-se a ela, e tudo correrá bem.
Martha suspirou profundamente, demonstrando estar um pouco assustada com tantas novidades.
- Sei que deve ser difícil para você -— falou Eleonora - mas vai se acostumar.
Também para mim será novidade.
- E para mim também — concordou Silmara.
Eleonora integrará a falange de Jurema por afinidade, e Silmara se apresentará como criança, integrando a falange das crianças.
Tudo conforme os preceitos da Umbanda, que já não está mais como antes, mas que continua crescendo em sua força.
Conversaram por mais algum tempo, até que se despediram de Martha e Leonel.
Tudo já estava pronto para a nova descida de Martha na matéria, que seria acompanhada de perto por Leonel e Eleonora, até o momento em que ela iniciaria sua tarefa mediúnica com eles.
- Está satisfeita com os novos planos? -— indagou Piraju a Eleonora, depois que Silmara os deixou.
- Sim, muito embora quisesse trabalhar no centro que fundei.
- Você sabe que os companheiros de Martha se encontrarão em outro lugar.
- Eles não conheciam você.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 04, 2015 10:54 am

- Sei disso.
- E não quero que pense que estou contrariada.
- Nada disso. Vou para qualquer lugar que trabalhe no bem.
- Você e Martha se darão muito bem lá.
Sempre houve entre vocês uma camaradagem sincera que facilitou sua união.
Se não fosse você, quem mais poderia estimulá-la a aceitar a mediunidade?
E mais: a trabalhar num centro de Umbanda, com todas aquelas culpas e medos que ela traz?
Todos os que conviveram mais intimamente com ela precisam estar na matéria, menos você e Leonel.
E a proposta dele, no momento, é outra.
- Compreendo isso muito bem e me sinto agradecida por poder, eu também, continuar ligada a essa força astral que é a Umbanda, que eu vi nascer.
E trabalhar numa falange de caboclos, como a de Jurema, é um privilégio que não posso deixar de honrar.
Somente aqueles que já alcançaram um alto nível de discernimento e amor estão aptos a ingressar na falange de Jurema.
- Você está à altura dessa tarefa, senão, não teria sido escolhida para ela.
- Sei disso e agradeço.
Comprometo-me a fazer o meu melhor e continuar contribuindo para o engrandecimento da Umbanda.
Eleonora e Piraju deram-se as mãos e fitaram as estrelas.
Naquele momento, pela primeira vez em muitos anos, ela retomou a forma astral da jovem Aracéli, hoje conhecida, na Umbanda, como cabocla Jurema da Mata.

Fim

§.§.§- Ave sem Ninho
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

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