Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 24, 2015 10:28 am

Alejandro deu um sorriso enigmático e acrescentou:
— Na verdade, sim.
Estou amadurecendo a ideia e logo, logo você saberá de tudo.
Damian ficou satisfeito.
Despediu-se de Alejandro efusivamente e partiu antes que Rosa voltasse.
***
Durante o mês que se seguiu, Rosa não conseguiu mais ir ao encontro de Lúcio.
Embora Alejandro já estivesse praticamente reabilitado de suas feridas, fingia fraqueza e alegava sentir muita dor, requisitando a companhia da esposa quase que diuturnamente.
Ela já não suportava mais, contudo, não via meios de sair e ver o amante.
Como Alejandro deixara de beber o chá, exigia que Rosa dormisse a seu lado, despertando sempre que ela se mexia.
Louco da vida, Lúcio aparecia ocasionalmente, mais para ver Rosa do que para visitar Alejandro.
Para todos os efeitos, ainda era o melhor amigo dele.
Vinha poucas vezes, desculpando a escassez de visitas com a enorme quantidade de afazeres que seu cargo público exigia.
Tinha certeza de que Alejandro sabia a verdade e temia ser confrontado por ele em seu próprio lar.
Todos os dias, Damian ia visitá-lo, e era nesses momentos que Rosa se afastava um pouco, a pretexto de deixá-los a sós para conversarem.
Não conseguia sair de casa, mas ao menos se libertava da companhia desagradável de um marido inválido e repugnante.
Isso permitia a Alejandro confabular secretamente com Damian, e o plano foi-se armando e estruturando, até que chegou o dia de, finalmente, ganhar vida.
Era o aniversário de Alejandro, que encomendou uma festa muito íntima para comemorar a data.
Poucos amigos haviam sido convidados, e Lúcio viu naquela festa a oportunidade que tanto esperava.
Com muitas pessoas e a bebida a distrair Alejandro, seria mais fácil encontrar um momento a sós com a amante, longe das vistas do rival e de Damian.
Tudo estava planeado para acontecer naquela noite se nenhum contratempo os impedisse.
Lúcio foi um dos primeiros a chegar e Damian veio em seguida, com a esposa.
O jantar foi servido e os convidados se deliciaram com as iguarias que Rosa mandara preparar.
Em seguida, um pouco de música e muita bebida.
Rosa e Lúcio sentiam uma explosão a percorrer-lhes os corpos cada vez que se viam, embora mal pudessem se falar.
Durante toda a noite, aguardaram ansiosos um momento para ficarem sozinhos, mas Alejandro não lhes dava nenhuma oportunidade, solicitando a presença da mulher a seu lado por quase toda a festa.
Seguindo o combinado, Damian foi um dos últimos a sair, muito embora tomasse o cuidado de colocar o xale da mulher sobre o espaldar da cadeira, sem que ela se desse conta.
-— Será que vai dar certo? -— murmurou ele ao ouvido de Alejandro.
-— E se eles não caírem na nossa armadilha?
- Eles vão cair -— sussurrou Alejandro de volta.
Faz tempo que não se deitam.
Devem estar ardendo de um desejo incontrolável, e é isso que vai fazê-los abandonar a prudência.
Damian e a esposa saíram e, logo em seguida, Alejandro levantou-se, apalpando as costelas com ar de sofrimento.
-— Meus amigos, perdoem-me, mas preciso me recolher.
Ainda estou convalescendo.
Todavia, Rosa está aqui para alegrá-los.
Fiquem e divirtam-se.
Como era de se esperar, os últimos convidados se retiraram logo após a saída de Alejandro, inclusive Lúcio.
Rosa se despediu dele polidamente e mandou a criada para casa, a fim de não testemunhar o adultério.
-— Mas, senhora -— objectou a moça - há muito que limpar.
- Amanhã você cuida disso.
Sei que trabalhou demais e deve estar exausta. Pode ir.
A criada agradeceu e foi apanhar suas coisas.
Assim que ela saiu, Rosa voltou correndo para a sala e abriu a porta devagarinho, dando entrada sorrateira a Lúcio.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 24, 2015 10:28 am

— Aguarde-me na saleta de chá.
Vou ver se Alejandro está dormindo e, em breve, estarei com você.
Lúcio puxou-a e beijou-a sofregamente, relutando em largá-la.
Ela se afastou dele com um gesto brusco e subiu para ver o marido.
Encontrou-o ressonando na cama, recendendo a suor e vinho.
Propositadamente, ela deixou cair a escova de cabelos, que ecoou surdamente no chão de pedras, mas Alejandro não acordou.
Soltou um ronco mais grave, mastigou saliva e se virou para o outro lado, parecendo dormir pesadamente.
Contendo a repulsa, Rosa acercou-se dele pelo outro lado e aproximou o rosto o mais que pôde.
Ficou nessa posição por alguns minutos, experimentando para ver se o marido abria os olhos.
Queria certificar-se, com absoluta certeza, de que ele não estava fingindo.
Após um tempo razoável, ele não se moveu, e ela se convenceu de que, efectivamente, dormia embriagado.
Pé ante pé, Rosa saiu do quarto e fechou a porta, descendo as escadas às pressas, à procura de Lúcio.
Ele a esperava na saleta, bebendo calmamente um cálice de vinho.
Mal colocou a taça sobre a mesa, Rosa atirou-se sobre ele, arrancando-lhe as roupas e puxando as mãos dele para cima de seus seios.
Nesse mesmo instante, sem que os amantes se dessem conta, Damian entrava por uma porta lateral, cuja chave Alejandro lhe dera.
Ouviu sussurros e gemidos e seguiu para a saleta, onde aguardou atrás da porta, sem entrar.
Em poucos instantes, Alejandro surgiu armado.
Durante algum tempo, permaneceu parado, ouvindo os sons característicos do sexo e tecendo na mente a cena grotesca do amor depravado da mulher.
-— Você está bem? — perguntou Damian.
Quer desistir?
-— Os descarados! -— rosnou Alejandro, olhando para o amigo com olhar insano e vermelho de raiva.
Não hesitam em trair-me dentro da minha própria casa.
Com a espada na mão, Alejandro empurrou a porta, entrando com Damian em seu encalço.
O que viu embrulhou seu estômago e encheu-o de um ódio tão fremente que ele mal conseguiu pensar.
Rosa se mexia freneticamente sobre Lúcio, apertando-lhe os flancos com as coxas e espalhando no ar os seus gemidos de luxúria e os seus gritos de prazer, enquanto o amante, de olhos fechados, lhe apertava os seios e emitia sussurros lúbricos e palavras obscenas.
Ele quase não acreditava no que via e ouvia.
Rosa, que o evitava o mais que podia, entregava-se a Lúcio com a lascívia de uma meretriz, em atitude que ele, até então, só experimentara no leito das prostitutas.
Com Damian como testemunha, Alejandro puxou Rosa pelos cabelos, e ela, sem entender o que se passava, soltou um grito estridente de pavor.
- Sua vagabunda, meretriz, cadela! -— esbracejou Alejandro, desferindo-lhe um murro no queixo.
Rosa tombou para trás com a boca ensanguentada e Damian a segurou para que ela não fugisse.
- Alejandro, deixe-me explicar -— suplicava Lúcia.
Nós não queríamos.
Mas você ficou muito tempo longe...
Pediu-me sara tomar conta de Rosa...
- E você tomou conta tão bem que não apenas dormiu com ela, mas tramou a minha morte para poder ficar com a minha esposa e tudo que é meu.
- Não é nada disso...
À medida que ia tentando desculpar-se, Lúcio se arrastava para trás, o corpo ainda desnudo repugnando e enfurecendo cada vez mais Alejandro, que o seguia com a ponta da espada apontada para seu pescoço.
- Por Deus, Alejandro -— Rosa implorou.
Tenha piedade de nós.
Expulse-nos, mande-nos embora, mas não nos mate.
- Mandá-los embora seria o mesmo que reconhecer a sua vitória.
Não posso deixá-los livres para que sejam felizes à custa da minha desonra.
-— Nós nos amamos! -— confessou Rosa.
Não temos culpa de nos amar.
Você é minha mulher, Rosa! -— vociferou ele, os olhos injectados de sangue.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 24, 2015 10:28 am

Como pôde me trair com meu melhor amigo e ainda tramar a minha morte?
Pensam que não sei?
Como acham que Soriano morreu? -— ninguém disse nada.
Eu o entreguei aos índios! Fui eu.
Tive-o sob a ponta da minha espada, como você agora, Lúcio, que rasteja como um covarde, e poupei-lhe a vida para que um índio truculento o levasse.
Lúcio e Rosa não sabiam o que dizer para sensibilizar Alejandro, que cuspia sobre o rival com o ódio do inimigo voraz.
- Poupe-nos, Alejandro, por favor -— gemeu Lúcio.
Em nome dos nossos anos de amizade...
- Dos anos em que você me traiu, fingindo-se meu amigo para poder dormir com a minha mulher!
De forma inesperada, Lúcio tentou se levantar para correr, mas Alejandro foi mais rápido.
Atravessou a espada no coração do outro e ficou assistindo a sua breve agonia, até que o último suspiro se esvaiu de sua boca.
Matar Lúcio lhe deu grande prazer, e os gritos desesperados de Rosa só fizeram aumentar a sua sanha, fazendo com que ele a encarasse com um brilho de loucura no olhar.
Rosa se debatia nos braços de Damian, tentando soltar-se a todo custo.
- Por piedade, Alejandro, não me mate -— ela chorava descontrolada.
Farei o que você quiser, serei sua prisioneira, nunca mais falarei com homem algum.
Mas não me mate, pelo amor de Deus, não me mate!
- Se permitir que viva, cada vez que olhar para você desprezarei a mim mesmo por ter deixado impune a sua traição.
Ele ficou olhando o corpo perfeito de Rosa, que já não mais lhe pertencia, e o ódio recrudesceu em seu coração.
De repente, lembrou-se da amiga Giselle, que o advertira sobre aquilo, mas a quem não quisera dar ouvidos.
Alejandro tomou Rosa das mãos de Damian e a arrastou até o meio da sala.
-Vista-se -— ordenou.
Aos prantos, ela se vestiu, na esperança de que a sua submissão o tocasse, e ele a perdoasse e deixasse viver.
Mas não foi isso que aconteceu.
Alejandro tornou a arrastá-la, dessa vez para o pátio interno, e jogou-a sobre o chão de pedras.
Ela chorava cada vez mais e rastejou até ele, agarrando os seus joelhos e implorando entre lágrimas:
- Em nome de Deus, Alejandro, não me mate.
Farei o que você quiser -— e, vendo que Damian os seguira com uma tocha, que iluminava parte do átrio, virou para ele os olhos em súplica e prosseguiu:
— Você é amigo dele.
Por favor, convença-o a ter piedade e não cometer esse crime.
-— Adúlteras não merecem piedade.
E não há crime maior do que a traição.
Assim instigado pelas palavras de Damian, Alejandro chutou-a para o chão e estendeu a mão, onde Damian depositou a tocha que trazia consigo.
-— O que vai fazer? -— horrorizou-se Rosa, sentindo o calor do fogo que Alejandro aproximava dela.
-— Vê-la morrer lentamente -— foi a resposta cruel e fria.
Na mesma hora, Alejandro ateou fogo em Rosa, regozijando-se com seus gritos lancinantes e as voltas desencontradas que ela dava sobre o próprio corpo, numa tentativa desesperada de extinguir as chamas.
Mas as chamas só se extinguiram muito tempo depois, quando a vida de Rosa já se havia esvaído.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 24, 2015 10:29 am

Capítulo 6

A água escorria da cascata em nuvens esbranquiçadas e densas, indo cair num lago transparente e fundo, onde Alejandro esfregava o corpo para soltar da pele o sangue ressecado dos índios que matara.
Na margem, amarrada a uma árvore e com a boca amordaçada, uma mulher jovem e de pele morena acompanhava cada movimento dele, tentando imaginar o que aquele homem tão branco poderia querer com ela.
Depois que terminou de se lavar, Alejandro se atirou na relva verde e ficou olhando o céu azul, praticamente ignorando sua prisioneira, que não podia nem se mover, nem falar.
De repente, um estalido na mata despertou os seus sentidos, e ele passou a mão no mosquete, fazendo pontaria na direcção de onde provinha o barulho.
Damian apareceu com ar cansado, deu uma olhada na mulher amarrada e sentou-se perto de Alejandro, que protestou mansamente:
-— Deveria tomar mais cuidado.
Por pouco não atiro em você.
Damian sorriu e apontou para a mulher, indagando com ar de quem sabia a resposta:
- Mais uma? -— Alejandro assentiu.
— Não acha que está exagerando?
-— Não — foi a resposta seca.
Em silêncio, Damian se retirou.
Não tinha pena daqueles selvagens nem achava que deviam ser tratados como gente, mas Alejandro já ultrapassava os limites.
Usava os índios para extravasar sua raiva e vingar-se da traição da mulher.
Só que as índias não eram Rosa, e, por mais que ele matasse, jamais se veria livre da lembrança do que ocorrera naquela noite.
O plano todo fora arquitectado cuidadosamente.
Quando, no dia seguinte, a criada descobriu os corpos de Lúcio e de Rosa, Alejandro fora preso, mas conseguira se salvar alegando legítima defesa da honra.
Damian servira como testemunha de que ele, enfermo e debilitado, fora vítima da traição da esposa e do melhor amigo, tendo flagrado os dois em adultério em sua própria casa no dia da festa de seu aniversário.
Que homem suportaria a visão desse crime sem perder a cabeça e liquidar os culpados?
No julgamento, Alejandro dissera que se recolhera um pouco mais cedo, em função de seu estado, e já estava quase dormindo quando ouvira um ruído estranho vindo do andar de baixo.
Assustado, apanhou a espada e desceu, encontrando Damian ao pé da escada.
O amigo voltara a sua casa para apanhar o xale que a mulher havia esquecido.
Damian também ouvira o barulho e acompanhara o outro, que, por sua debilidade, poderia acabar nas mãos de algum bandido.
Qual não foi o espanto de ambos, porém, ao descobrir Rosa e Lúcio em posição que nenhum ser humano decente ousaria relatar.
Ainda assim, por insistência da defesa bem articulada, Alejandro narrou, em minúcias, os movimentos de luxúria e sem qualquer pudor em que flagrara os amantes, sua nudez, seus gestos e gemidos.
Tal visão o mortificara, fazendo-o permanecer algum tempo paralisado, enquanto Damian procurava ocultar o rosto daquela cena vergonhosa.
Foi quando Alejandro, tomado de ira, empunhou a espada e cravou-a no peito do rival, ateando fogo nas vestes de Rosa num gesto tresloucado de fúria.
Nenhum juiz ousou discordar dos motivos mais que justos de Alejandro.
Surpreender a esposa, que ele até então julgava casta e pura, nos braços de quem ele acreditava ser o seu melhor amigo foi um golpe duro demais.
Qualquer homem perderia a cabeça e a razão e, num impulso vingativo, daria cabo da vida dos amantes.
O depoimento de Damian, ademais, confirmava as alegações do réu, que foi absolvido por se encontrar no exercício de seu legítimo direito de defender, com sangue, a honra que a mulher indigna conspurcara.
Daí em diante, Alejandro se tomou de ódio pelas mulheres e sentia prazer em lhes infligir sofrimento e dor.
Não raras eram as prostitutas que se queixavam de sua brutalidade, até que chegou ao ponto de nenhuma delas querer mais dormir com ele.
Passados quase dois anos de sua volta da aventura ao lado de Francisco de Córdova, Alejandro soube de uma nova expedição, dessa vez sob o comando de Hernán Cortés(7), partindo de Cuba rumo ao Yucatã para a conquista de outros povos.
Alejandro não aguardou o convite.
Apresentou-se ao chefe da expedição e ofereceu os seus serviços, seguindo com Damian em busca de ouro e de algo que lhe permitisse extravasar sua fúria e seu desgosto.
Apesar de não concordar com o modo que Alejandro escolhera para se vingar da vida, Damian não dizia nada.
Afastou-se do lugar em que o amigo se encontrava e foi descansar, em sua tenda, do último ataque aos nativos.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 24, 2015 10:29 am

Depois que ele se foi, Alejandro permaneceu quieto por alguns momentos, fitando o vazio, até que soltou um suspiro e se levantou, aproximando-se da índia.
Desamarrou-a, e ela tentou fugir, desencadeando nele uma fúria sem igual.
Desde que matara Rosa, Alejandro se enfurecia por qualquer motivo, principalmente com as mulheres, e costumava espancá-las até quase deixá-las sem vida.
Não foi outra a reacção que teve com a índia.
Alejandro agarrou-a com força e desferiu-lhe vários socos no rosto, deixando-a com as faces inchadas e vermelhas.
A índia começou a chorar, mas ele não se compadeceu.
Deitou-a no chão e violentou-a fria e cruelmente, e depois, quando a mulher começou a dizer coisas que ele não compreendia, sacou de uma faca e cortou o seu pescoço, arrematando com indiferença:
-— Ora, cale a boca.
Era apenas mais uma selvagem insignificante que nenhuma falta faria ao mundo civilizado.
Depois que a matou, Alejandro limpou a faca na água do riacho e voltou para o acampamento.
Ao longe, apenas alguns vestígios de fumaça cinzenta subiam do povoado que haviam acabado de queimar.
Ele inspirou profundamente, como se quisesse engolir parte daquela fumaça de morte, e sorriu, satisfeito consigo mesmo.
Matara muitos índios naquele dia, o que se tornara motivo de glória e satisfação para ele e os seus companheiros, que disputavam quem alcançaria a maior quantidade de selvagens abatidos.
Foram muitas as jornadas que Alejandro fez na campanha Cortés, seguido por seu amigo Damian, que se orgulhava de matado quase tantos índios quanto ele.
Mas faltava a Damian o entusiasmo da morte, algo que se via nitidamente nos olhos de Alejandro desde que incendiara o corpo de Rosa.
Para Damian, matar os índios era parte da conquista, enquanto para Alejandro era fonte de vingança e prazer.
No dia seguinte, Cortés saiu a cavalo com mais homens e alguns índios, estando Alejandro e Damian entre eles.
Ao invadirem o primeiro povoado, Alejandro se distraiu, fazendo pontaria nos indígenas que fugiam assustados, enquanto os companheiros ateavam fogo às cabanas.
Quando Alejandro saltou do cavalo, já sabia o que iria fazer.
Vendo as índias fugirem espavoridas, encurralou uma jovenzinha de seus quatorze anos e repetiu com ela o ritual macabro que se acostumara a realizar.
Estuprou-a com violência, regozijando-se ante o seu desespero, e depois a matou sem piedade.
No outro povoado, a mesma coisa, e no outro também, e em todos os outros que ele invadiu.
Alejandro entrava nas vilas, matava muitos índios, tocava fogo em suas casas e estuprava as índias que cruzavam o seu caminho, liquidando-as logo após.
Justificava-se com o cumprimento da tarefa, executando as ordens que o capitão lhe dava.
Se Cortés mandava matar, ele matava.
Se mandava queimar, queimava.
E dos prisioneiros que faziam, muitos eram mulheres, postas à disposição dos homens para seu divertimento e lazer.
Alejandro apenas usufruía o que julgava ser seu por direito, já que, conquistadores, aos espanhóis cabia dispor de suas vítimas como parte da pilhagem.
Após vários meses de ataques sangrentos, Alejandro começou a sentir os primeiros sintomas da doença.
Tudo começou com um mal-estar que o deixou cansado e abatido.
Haviam acabado de entrar em Tenochtitlán(8) e se instalado no palácio real.
Uma índia foi designada para servir os soldados e Alejandro, ao colocar os olhos sobre ela, desejou-a instantaneamente.
Enquanto ela o servia, ele a admirava e seguia todos os seus passos ao redor dos homens.
Depois de comer, Alejandro se levantou e foi atrás dela. atraindo-a para a floresta com falsos sorrisos.
A moça seguiu-o sem de nada desconfiar, certa de que se tratava de um mensageiro do deus Quetzalcoatl(9).
Aproveitando-se dessa crença, Alejandro a imobilizou e estava prestes a subjugá-la, quando súbito mal-estar se apoderou de seu corpo.
Uma dor profunda o trespassou, e ele soltou a índia, que, apavorada, correu para o meio da selva.
Ainda pensou em ir atrás dela, mas a fadiga não permitiu.
Como a campanha de Cortés já durava mais de um ano, ele atribuiu o cansaço às lutas incessantes que empreendera contra os nativos.
Talvez estivesse ficando velho e precisasse ir mais devagar.
Dominado pela exaustão, sentindo o corpo dolorido e trémulo, a cabeça explodindo de dor, resolveu se deitar por uns minutos.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 25, 2015 7:48 pm

Quando Damian entrou na barraca que dividia com ele, assustou-se com o seu estado.
Alejandro, coberto até o pescoço, tinha gotículas de suor no rosto e tiritava de frio.
-— Alejandro -— chamou Damian baixinho - o que você tem?
Lentamente, Alejandro abriu os olhos e custou a focar o amigo.
Quando finalmente o reconheceu, respondeu com voz sumida:
- Não sei... Sinto-me fraco, a cabeça dói, a garganta também... e o nariz... parece tampado...
Damian experimentou a testa do outro, que ardia em febre.
— Hum... acho que é melhor chamar o médico.
— Não é preciso -— objectou Alejandro, segurando-o pelo punho.
É só um mal-estar.
Amanhã estarei bem.
- Mas e se alguma índia lhe passou doença?
- Não... Deixe estar.
Vou melhorar, você verá.
A melhora não veio.
Três dias depois, Damian se apavorou com o que viu.
Deitado de lado na cama, Alejandro apertava o estômago e se contorcia todo, em espasmos de dor que sacudiam o seu corpo.
— Alejandro -— disse ele -, você está piorando!
— O médico... -— balbuciava ele.
Vá chamar o médico...
Tenho... dores horríveis...
Todo o meu corpo... a barriga...
Começou a vomitar violentamente, e Damian saiu correndo da barraca.
Foi chamar o médico da expedição, que entrou apressado e sussurrou penalizado:
— Ele contraiu a doença(10).
Só nos resta esperar que resista.
— O que... o que eu tenho... doutor? -— gaguejou Alejandro.
O médico não respondeu e fez com que Alejandro engolisse um preparado de ervas que o fez dormir um pouco.
— O que eu faço, doutor? -— indagou Damian, preocupado.
-— Eu, no seu lugar, procuraria outro canto para dormir.
Daqui para a frente, os sintomas só vão piorar, e a aparência dele vai se tornar repugnante.
Você não vai querer presenciar isso -— acercou-se bem de Damian e cochichou ao seu ouvido:
-— Sem contar que é contagioso.
Altamente contagioso.
Damian olhou para o médico com ar assustado, mas ainda não havia se dado conta da gravidade da situação.
Em nome da sua amizade, recusou-se a sair e permaneceu ao lado de Alejandro.
As pústulas começaram a aparecer pouco depois, primeiro na garganta, que ardia imensamente, e depois na boca, passando em seguida para o rosto e, por fim, espalhando-se por todo o corpo.
Em toda a sua extensão, a pele de Alejandro estava coberta de bolhas purulentas.
Em outras barracas, alguns soldados padeciam do mesmo mal. e logo os enfermos foram isolados num local mais afastado do palácio.
O aspecto de Alejandro foi-se tornando cada vez mais repulsivo, e a certeza da malignidade daquela enfermidade caiu feito um raio sobre a cabeça de Damian, enchendo-o de pavor.
Muito embora quisesse permanecer ao lado de Alejandro, o temor de contrair a doença tornou-se tão intenso que, mesmo a contragosto, decidiu afastar-se.
Corroía-se de remorso por abandonar o amigo numa hora daquelas e rememorava os momentos de maior perigo que atravessaram juntos.
— Nenhum ataque de índio é tão fatal quanto essa doença advertiu o médico.
- Foi impossível conter a disseminação do mal, que contaminou os índios e levou à morte mais de oitenta por cento da população, facilitando a tomada e destruição de Tenochtitlán.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 25, 2015 7:48 pm

Alejandro, todavia, não participou de mais essa investida.
Sem forças para combater tão maligna enfermidade, cerrou os olhos após intensa agonia, sozinho em sua tenda, longe da ilusão da glória e do calor das batalhas, dos selvagens e do amigo Damian.

7. Hernán Cortés-— conquistador espanhol, responsável pela queda do império asteca, em 1519, notabilizado da violência com que atacou e dizimou povoados inteiros.
8. Tenochtitlán - capital do império asteca, actual Cidade do México.
9. Quetzalcoatl — deus asteca com o qual Cortés foi confundido.
10. Varíola.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 25, 2015 7:48 pm

Capítulo 7

Ao despertar, Alejandro assustou-se com o que viu.
Estava num lugar seco e muito quente, deitado sobre uma areia áspera e escaldante.
Uma queimação espalhou-se pelas feridas, e ele as apalpou suavemente.
A humidade grudou em seus dedos, algo parecido com pus misturado a sangue.
Enojado, virou-se para o lado e vomitou, contudo, o que saiu de sua boca foi um jorro quente de sangue.
A muito custo, conseguiu levantar-se.
Parecia que se encontrava no deserto, visto que um calor asfixiante fazia arder sua garganta e ressecar sua língua.
Precisava de água, mas não via nenhuma fonte ou rio nas proximidades.
Ficou a imaginar que lugar seria aquele, porém, a única coisa que lhe ocorria era que Cortés talvez tivesse mandado atirá-lo em alguma fenda de montanha para padecer no inferno e queimar consigo a doença maldita.
Só que ele não morrera.
Caíra no inferno, sim, mas continuava vivo e precisava descobrir uma maneira de voltar à superfície e fugir, ou Cortés mandaria matá-lo novamente.
Sentiu um ódio profundo pelo capitão, que eliminava os enfermos que já não serviam mais, esquecendo-se de todos os momentos de perigo em que eles haviam arriscado as próprias vidas para defender a causa do conquistador.
Alejandro sentia o corpo todo dolorido, no entanto, precisava controlar a dor e se esforçar se quisesse sair vivo dali.
A sede ainda era o pior, e ele estreitou a vista para ver se conseguia vislumbrar alguma coisa que fosse líquida.
Nada. Procurando mais além, pareceu-lhe divisar a silhueta de uma pessoa e caminhou para lá.
Muito vagarosamente, arrastando a perna como um aleijão e mal conseguindo respirar, Alejandro se acercou do que pensou ser uma pessoa.
Foi-se aproximando com ansiedade e estendeu a mão para o vulto, que se encontrava de costas para ele.
- Por favor... amigo... -— balbuciou. — Ajude-me...
Foi quando o vulto se virou, e Alejandro estacou horrorizado.
Agora com a visão mais nítida, notou que a pessoa era um índio e que seu corpo todo estava coberto de sangue.
O índio se voltou para ele e soltou um grito lancinante, fazendo com que Alejandro rodasse nos calcanhares e tentasse correr, pois vira a lança se levantar na mão do inimigo.
Inútil tentativa.
Muito debilitado, não conseguiu se mover, e o índio chegou muito perto dele, quase colando o rosto ao seu, rosnando palavras ininteligíveis naquela língua nativa.
Sentiu o cheiro de sangue que emanava de todos os poros do selvagem, embrulhando seu estômago.
Instintivamente, virou o rosto para o lado, e novo jacto de sangue amargo espirrou de sua boca.
Quando Alejandro tornou a virar o rosto para a frente, o índio havia desaparecido.
Piscou várias vezes, para se certificar de que o que vira não era real.
—- Devo estar delirando — disse em voz alta para si mesmo.
Ainda sentindo imensas dores, retomou a caminhada.
Não sabia em que direcção seguir, mas não fazia diferença.
Estava certo de que a saída era para cima, contudo, nenhuma elevação havia.
Por onde fora atirado naquela cratera, não saberia dizer.
Tinha que procurar um lugar para subir.
Mais adiante, uma aglomeração de pessoas atraiu sua atenção.
Chegando mais perto, ouviu lamentos e gritos que eriçaram todos os seus pelos.
Apesar do medo, aproximou-se cautelosamente e notou que todos tinham o corpo coberto de fuligem, como se tivessem acabado de limpar uma chaminé.
As pessoas o viram e, por um momento, emudeceram, fitando Alejandro com um misto de ódio e medo.
A um sinal do que deveria ser o líder, todos se empertigaram e puseram-se a urrar tão alto que Alejandro tapou os ouvidos, embora continuasse escutando a gritaria, sem, contudo, compreender o que diziam.
A multidão se aproximou, e ele recuou novamente aterrado.
O que ele julgava ser fuligem, na verdade, eram queimaduras enegrecidas cobrindo toda a pele de uma gente que ele constatou, horrorizado, serem novos índios.
Alguns ainda soltavam fumaça, e um odor horrendo de carne carbonizada atacou as narinas de Alejandro, que, mais uma vez, foi acometido por forte náusea.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 25, 2015 7:48 pm

Vomitou sangue novamente.
Tentou recuar, mas a dor nos membros lhe dificultou a escapada, e ele tropeçou nas próprias pernas, tombando no chão sobre as pústulas, que estouraram e o picaram feito agulhas fininhas e cortantes.
Imediatamente, os índios queimados se atiraram sobre ele, que se encolheu todo para receber os golpes violentos da malta enfurecida.
Não podendo mais suportar a dor, Alejandro desmaiou.
Ao abrir os olhos, sentiu uma viscosidade sob seu corpo e constatou que havia caído de borco em uma poça de sangue.
Apesar dos músculos doridos, conseguiu levantar-se e começou a desconfiar de que havia algo de muito estranho naquele lugar e naquelas pessoas.
Como podiam estar vivas com os corpos cobertos de sangue e queimaduras?
Só se estivessem mortas.
Mas, se havia pessoas mortas ali, era porque ele também tinha morrido e fora parar no inferno.
Ou talvez tudo não passasse de um pesadelo causado pela insânia da doença, o que era mais provável.
- — Isso só pode ser uma alucinação -— pensou.
— Não posso estar morto, e isso não é o inferno.
Sinto que respiro, estou vivo.
Foi assim por muito tempo, embora Alejandro não conseguisse precisar dias ou horas.
Por onde passava, vinham índios ensanguentados ou carbonizados investindo contra ele.
Até que, de repente, os ataques cessaram.
Quando Alejandro já relaxava, acreditando que os índios não voltariam mais, uma nova investida aconteceu.
Mas dessa vez não eram índios.
Eram índias.
De toda parte, surgiam mulheres estranguladas e retalhadas, expondo o sexo ferido e ultrajado.
Um grupo de índias atirou-se sobre ele e, fazendo gestos obscenos, começou a provocá-lo, forçando-o a manter relações sexuais.
Mesmo involuntariamente, Alejandro se excitou e assistiu, horrorizado, à dança erótica das mulheres sobre ele.
Fazer sexo causava-lhe imensa dor, mas elas pareciam não se importar com as bolhas que roçavam seus corpos.
Quando um grupo terminava, lá vinha outro do mesmo jeito, tão rápido que ele nem conseguia fechar os olhos e descansar.
Corpos mutilados e queimados, de todos os lados surgiam espectros tenebrosos a exigir que Alejandro se deitasse com eles.
As mulheres o dominavam e riam dele, de seu pénis encaroçado e de suas lágrimas de súplica.
- Por favor, não façam mais isso -— implorava ele, a garganta seca ainda sem água.
- Não aguento mais.
Prefiro morrer! Prefiro morrer!
Oh! Deus, por favor, ajude-me!
Nesse momento, as mulheres desapareceram, e ele conseguiu dormir um pouco.
Quando acordou, sentiu que não estava sozinho e se encolheu todo, temendo o assédio de mais índias.
O ataque, contudo, não veio, e Alejandro experimentou olhar para os lados.
Perto de onde estava, um homem o observava, o abdómen aberto em imenso talho bem abaixo do diafragma, por onde afluía uma grande quantidade de sangue.
-— Não aguento mais choramingou ele.
Mate-me, se quiser, mas não me torture mais com a visão do sangue.
Para sua surpresa, o homem respondeu em bom e audível espanhol:
- — Não é possível matar quem já está morto.
Pelos primeiros segundos, Alejandro permaneceu fitando o interlocutor, puxando a memória para se lembrar de onde é que o conhecia.
Finalmente, a lembrança se fez presente, e ele deu um salto, aterrado e atónito:
- Você!?
Soriano começou a andar em volta dele, sem chegar muito próximo, e respondeu com certa frieza:
-— Quem você esperava?
Um anjo de asas brancas?
Sou o que há de melhor para atender o seu chamado.
O pavor dominava Alejandro, que interpretava a presença de Soriano como um acto de vingança.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 25, 2015 7:49 pm

— Não chamei ninguém.
Soriano ergueu uma sobrancelha e, afinando a voz, repetiu debochadamente as palavras dele:
-— Oh! Deus, por favor, ajude-me! -— em seguida, fulminou-o com o olhar e, apontando o dedo ensanguentado para ele, disparou:
Não foi você quem disse isso?
-— Foi, mas... não esperava que alguém ouvisse.
Muito menos alguém feito você.
-— Pois alguém ouviu, e não fui eu.
Foi alguém que está acima de mim aqui nessa treva profunda, alguém que manda, mas que também recebe ordens de outro alguém, e por aí vai.
Enfim, alguém mais poderoso do que eu ouviu a sua súplica patética e covarde, e me enviou para ajudá-lo.
- Ajudar-me em quê?
Vai tirar-me daqui?
— Você não tem para onde ir, Alejandro.
Essa vai ser a sua casa pelos próximos quinhentos anos.
— Ficou louco?
Ninguém vive tanto tempo.
— Será que você é muito burro ou fui eu que não me fiz entender?
Você está morto, idiota, morto!
Acabou para o mundo lá de cima.
Compreendeu agora?
Ao contrário do que o próprio Alejandro esperava de si mesmo, não se surpreendeu.
Na verdade, já tinha essa desconfiança, embora seu coração se recusasse a acreditar, pois ainda se sentia vivo.
- Isso aqui é o inferno?
— De certa maneira, sim, se você compreender que só vêm para cá aqueles que têm o que temer.
- Temer?
— Quando o coração do homem é negro, faz com que ele tema que a treva que nele habita se vire contra si próprio.
Vendo que Alejandro não compreendera, esclareceu:
— Os que aqui estão não são almas; são sombras escurecidas pela maldade.
Como o mal traz o medo do retorno, todos aqueles que não se perdoam vêm parar aqui por suas próprias culpas, que se transformam em guias para esse mundo de trevas.
Soriano deu um passo na direcção de Alejandro, que andou para trás e procurou a espada na cintura.
— Não se aproxime de mim -— ele pediu, quase implorou.
Não suporto mais tanta vingança.
- Não vim aqui para me vingar de você, embora me agradasse ter o seu pescoço em minhas mãos.
— Se não veio se vingar, o que pretende, então?
— Você é mesmo estúpido, não é?
Já não disse que está morto?
— E você veio aqui só para me dizer isso?
- Recebi uma incumbência.
Como você pediu ajuda, mandaram-me aqui para avisá-lo de que seu corpo de carne está morto e que você continua vivo em essência.
— E você?
— Acho que já deu para perceber que estou morto também.
— O que foi que lhe aconteceu?
— Ora, obrigado por perguntar -— desdenhou Soriano.
—Mas pensei que você soubesse.
Quando me entregou nas mãos daquele selvagem carniceiro, devia saber o que estava fazendo.
- Eles o sacrificaram?
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 25, 2015 7:49 pm


Soriano exibiu a ferida sangrenta aberta na barriga e retrucou com mórbido prazer:
— Sabe o que é curioso nesses selvagens?
É que conhecem procedimentos cirúrgicos melhor do que os médicos incompetentes que temos na Coroa.
O sacerdote foi tão preciso com a faca que cortou a minha barriga sem tocar nenhum osso, agarrou meu coração e puxou.
— Jesus Cristo! -— horrorizou-se Alejandro.
- Ele não me ajudou, mas não porque tivesse me abandonado.
Fui eu que simplesmente nem me lembrei de que ele existia.
- Por favor, Soriano, pare com isso.
Não estou me sentindo bem.
Soriano, contudo, pareceu ignorá-lo, deleitando-se com a reacção de repulsa e pavor que suas palavras produziam.
-— Na verdade — prosseguiu ele —, não vi quando ele cortou os ligamentos que prendiam meu coração ao corpo porque... morri.
Mas sei que ele o arrancou para fora e o levantou ainda pulsante.
O mais engraçado foi que não senti raiva dele... e nem de você por querer me matar.
Meu ódio foi porque, por sua causa, eu nunca mais tornaria a ver Cibele.
Se fosse só pela minha vida, eu não me importaria tanto.
Quanto vale a vida de um condenado?
Mas Cibele...
Tudo o que eu mais queria era estar ao lado dela, todavia, por sua causa, nunca mais tornei a vê-la.
Nunca... -— calou-se, engolindo uma lágrima, e fulminou o outro com o olhar.
Nesse ponto, Alejandro se virou para o lado e vomitou sangue novamente, várias vezes, sentindo uma dor terrível no estômago e na garganta:
— Acho que isso ainda é pior do que a varíola -— ironizou Soriano, já recuperado de sua momentânea fraqueza.
— Chega — murmurou Alejandro, quase sem conseguir falar.
— Será que você sabe por que vomita tanto sangue? -— ele meneou a cabeça.
Porque todo sangue inocente que você derramou fluiu para dentro de você.
Alejandro escondeu o rosto entre as mãos e desatou a chorar convulsivamente:
- Oh, Deus, como me arrependo do que fiz!
Só agora percebo o quanto fui cruel e orgulhoso.
- Ah! E sem falar na pobre Rosa e no tolo do Lúcio.
Alejandro ergueu a cabeça e fitou Soriano.
- Não se arrepende do que lhe fez também!
- Foi por causa deles que me permiti decair -– confessou Alejandro, a voz sofrida e entrecortada por soluços.
Porque o meu orgulho não me permitiu perdoar.
- Eles planearam matar você.
Então, você estava com a razão.
- Não deveria ter devolvido na mesma moeda.
Vingar-me só me trouxe sofrimento.
- Sabe, Alejandro, assim como você, estou tentando compreender que a razão está com Deus, que nunca erra.
- Está arrependido também? -– surpreendeu-se.
- Quase.
Só não consegui ainda perdoar o que você me fez.
Nada mais se fez ouvir.
Soriano desvaneceu nas brumas, deixando Alejandro entregue à total solidão.
Daquele momento em diante, o calor aconteceu um pouco, e ele encontrou um poço de água lamacenta e malcheirosa, onde pôde finalmente saciar sua sede.
Alejandro não poderia precisar quanto tempo havia que estava vivendo naquele inferno.
Desde o encontro com Soriano, os índios haviam desaparecido, e o insulamento lhe trouxe a reflexão.
Sozinho, só lhe restava seus pensamentos, e eles acabaram conduzindo-o para Deus.
Pela primeira vez em sua vida, Alejandro ajoelhou-se e rezou.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 25, 2015 7:49 pm

Capítulo 8

Era noite, e o silêncio se espalhava pela ilha adormecida, somente interrompido pelo marulho das ondas, que se despedaçavam na areia branca.
A lua esbranquiçada dava seu toque especial ao mar, encobrindo as ondas como uma colcha de retalhos pálida e ondulante.
Vento não havia, e apenas uma brisa morna e suave corria pela areia, sem levantar muitos grãos nem interferir nas ondas.
Tudo quieto.
Contrastando com o transcorrer pacífico da noite, o coração de Damian se agitava em sobressaltos de agonia e remorso.
Desde a morte de Alejandro, não conseguia se perdoar por haver abandonado o amigo em momento tão doloroso.
Mas o médico fora claro ao alertá-lo sobre aquela doença maldita, que deformava o rosto com suas bolhas purulentas.
De que valeria morrer com Alejandro?
Aquela não era uma forma aconselhável de prestar solidariedade.
Cerca de vinte anos haviam-se passado desde que Alejandro se fora.
Damian nem sabia como ainda estava vivo, após ter fugido a nado da cidade índia com os bolsos carregados de ouro.
Tivera que matar muitos selvagens, mas sobrevivera.
Agora, Tenochtitlán estava destruída, e os índios, praticamente dizimados.
Com isso, Damian perdeu o interesse pelas conquistas sangrentas e recusou ingresso em nova expedição, cuja finalidade seria liquidar de vez os povos do litoral(11).
Estava cansado de tanto sangue.
A mulher o havia deixado e sumido no mundo na companhia de um grumete recém-chegado de Portugal.
Estranhamente, Damian nem sentiu raiva do facto.
Chegou mesmo a experimentar certo alívio por ficar sozinho, pois assim não se veria obrigado a compartilhar com ninguém o seu remorso.
Damian contava agora cinquenta e sete anos, e o peso das atrocidades de toda uma vida desabou sobre sua consciência.
Queria lavar a alma de tantas maldades, sentir-se leve como alguém que nunca desafiara a morte.
Sem pensar no que fazia ou por que fazia, desatou o cinturão de onde pendia a espada e deixou-a cair na areia, praticamente sem ruído.
Como se o mar pudesse limpá-lo de tanta sujeira, atirou-se entre as ondas e foi nadando em direcção ao horizonte, até que os músculos se cansassem e o obrigassem a parar.
Ao se virar, uma enorme quantidade de água se estendia entre ele e a praia.
Havia nadado uma distância que agora seria impossível refazer.
A terra parecia pequenina e inacessível, e ele sentiu o medo da morte se avizinhar.
Quando entrara na água, não pensava em se matar.
Era como se o oceano tivesse a força e o poder de purificá-lo de seus pecados e conduzi-lo ao perdão de si mesmo.
Não queria morrer.
Tinha medo de se deparar com seus inimigos do outro lado e das cobranças que lhe fariam.
Não. Precisava desesperadamente voltar à praia.
Ergueu os braços para a primeira braçada de volta, mas desistiu logo em seguida.
Inútil. A dor muscular era grande e a distância, imensa, quase invencível.
Chorou arrependido, nos lábios o gosto salgado das lágrimas e da água do mar.
Os pés tentaram inutilmente alcançar alguma coisa sólida abaixo; não havia nada em que pudessem se apoiar.
Cansado, seu rosto começou a afundar, para logo em seguida emergir das águas, na esperança vã de manter o nariz e a boca na superfície.
A cada minuto, afastava-se mais e mais da costa e das chances de sobrevivência.
Caíra numa correnteza que o levou lenta e mansamente para o mar aberto.
Damian chorou. Queria voltar, mas não podia.
A morte era inevitável, e ele precisava se curvar a ela para não sofrer ainda mais do que sofria.
Entre lágrimas, finalmente parou de resistir e entregou-se ao destino.
Durante muitos anos, ficou perdido no astral inferior, vagando entre seres miseráveis feito ele.
Quando finalmente recebeu auxílio para abandonar aquele mundo de treva, encontrou-se com os velhos companheiros de jornada.
O primeiro que viu após o restabelecimento foi Alejandro.
O amigo emagrecera, muito embora seu rosto não exibisse mais as marcas da doença.
- Alejandro -— balbuciou Damian, vendo-se de frente para o amigo.
Onde estamos?
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 25, 2015 7:50 pm

- Em uma cidade no mundo invisível.
Durante alguns minutos, Damian permaneceu em silêncio, até que Alejandro prosseguiu:
— Não se sinta culpado pelo que me aconteceu.
Muito mais do que eu, você soube ser meu amigo.
Era natural que tivesse medo de tão horrível doença.
O espanto dominou Damian, que retrucou constrangido:
- Você não tem raiva de mim?
- Agora não.
Nos primeiros anos de minha estada nesse mundo, carreguei imensa mágoa pelo seu abandono.
Mas depois percebi que o único responsável por tudo que me aconteceu fui eu mesmo.
— O que, exactamente, aconteceu a você?
Alejandro narrou a Damian tudo por que passara desde que desencarnara, e este fez o mesmo.
Trocaram experiências. e Alejandro continuou a contar:
— Lúcio e Rosa também se encontram aqui.
E...?
- Ainda guardam muito rancor de mim, e de você também.
Sobretudo Lúcio, que o considerou um intruso em nossas vidas.
- Eu, um intruso?
Mas não fui eu que me intrometi no casamento do meu melhor amigo.
— Mesmo assim.
Lúcio não consegue entender por que você ficou do meu lado e compactuou com os assassinatos.
Acusa-o de cumplicidade.
— Sei que fui cúmplice, mas eu realmente era seu amigo.
Posso ter cometido um crime, porém, o que me moveu foi a amizade, não a traição.
— Infelizmente, não é assim que ele vê.
Tomou-se de ódio por você também.
Quando alguém toca no seu nome, ele reage com rispidez e desdém, chamando-o de covarde e bajulador, insinuando que havia algum motivo obscuro na nossa amizade.
- Que motivo? -— indignou-se Damian.
— Acho que ele pensa que você esperava ser favorecido com ouro.
— Você sabe que isso não é verdade, não sabe?
Eu nunca quis nada seu.
— Sei disso. Mesmo porque eu nunca tive tanto dinheiro assim.
E você não deveria se importar com as insinuações maldosas de Lúcio.
Ele ainda não esqueceu o que lhe fizemos.
Damian ficou algum tempo pensativo, remoendo as palavras de Alejandro e imaginando até que ponto Lúcio o responsabilizava pela participação nos crimes.
Depois de alguns instantes, como se quisesse desligar-se da imagem do outro, indagou subitamente:
— E Soriano?
Também está aqui?
— Não.
— Ele não conseguiu perdoá-lo, então.
— Não. Mandaram-no avisar-me que eu havia morrido, e hoje sei que essa foi uma tentativa de dissolver o ódio.
Ele cumpriu o que lhe determinaram, não de boa vontade, mas foi categórico em afirmar que obedecia a ordens, mas que não havia me perdoado.
— E agora? O que vai nos acontecer?
- Precisamos reencarnar, meu amigo.
Só através da experiência no corpo físico conseguiremos dissolver tanto ódio e tanta mágoa.
— Entendo. Mas quanto tempo faz que estamos aqui?
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 25, 2015 7:50 pm

— Estamos no ano de 1643.
— Mais de cem anos... -— lamentou Damian.
Tanto tempo desperdiçado!
- Na verdade, nada se desperdiça na vida, e tudo por que passamos é repositório de experiências.
É através delas que vamos lapidando nossa essência para, um dia, alcançarmos a unidade com o divino.
- Você está estranho, Alejandro.
Tão mudado.
— Aprendi muito durante esse tempo em que estive aqui.
Passei setenta anos no umbral, e faz pouco mais de cinquenta que estou nesta cidade iluminada.
Foi o suficiente para rever meus valores e modificar minha consciência.
- Será que chegarei a isso também?
— Você sempre foi melhor do que eu.
- Até parece...
- É verdade.
Você não se comprazia em matar nem estuprar.
Fazia o que achava que era certo.
— E isso me valeu esses anos todos na treva.
Fui escravizado por espíritos mesquinhos.
— Que lhe deram protecção.
Não fosse por eles, você hoje estaria preso a algum maioral que o obrigaria aos trabalhos mais sórdidos e cruéis.
Não foi melhor assim?
— Bom, olhando por esse ângulo...
— Não devemos nos culpar por nossas acções.
Cada um faz o que sabe e dá o que tem.
A ninguém pode ser cobrado mais do que possui.
— Você não se sente culpado por tudo que fez?
-— E como! Tenho medo de fazer tudo de novo, caso retorne à Terra.
- Tem medo?
Mas, então, como sugere que devemos reencarnar?
Será que não é melhor ficar por aqui mesmo, já que é tão bom?
— Sei que é necessário.
O que estou dizendo agora vem das minhas experiências na treva.
Foi muito doloroso, horrível, aterrador.
Aqui, tudo é perfeito.
A vibração que existe no ar é de amor e compreensão.
Por isso, é muito fácil sentir coisas boas.
Mas me pergunto:
será que eu realmente aprendi o valor da vida e do respeito ao meu semelhante?
O que irá me manter firme em meu propósito de me modificar?
Damian o encarava abismado, voltando para si mesmo as perguntas que Alejandro se fazia.
— Não sei -— murmurou ele.
Pergunto-me a mesma coisa.
Precisamos experienciar situações difíceis.
Só assim conseguiremos compreender, e essa compreensão será para sempre.
— Você diz que devemos sofrer? É isso?
— Disseram-me aqui que o sofrimento não é necessário.
Que posso me reconciliar com a vida de uma maneira que não seja dolorosa.
Eu' contudo, carrego muitas culpas.
Como então me sentir merecedor de uma vida sem dores?
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 25, 2015 7:50 pm

Damian silenciou e ficou encarando Alejandro, pensando na imensa quantidade de coisas que tinha para lhe dizer e que agora não importavam mais.
Conseguiu abraçá-lo com carinho e tornou com sinceridade:
— Quero estar com você, Alejandro.
Aonde você for, quero ir junto e ficar ao seu lado.
Juntos, quem sabe não conseguiremos superar nossos erros e nos reconciliar com a vida?
Podemos nos ajudar mutuamente.
Comovido, Alejandro apertou o ombro do amigo e declarou:
— Sua companhia será de grande ajuda.
Mas quero que saiba que você não me deve nada.
Sou grato por tudo o que fez por mim em vida.
— Não fiz nada por você.
Salvei a sua vida num gesto impulsivo...
- Ainda assim, salvou.
- E contribuí para a sua ruína, servindo de cúmplice para o assassínio frio de duas pessoas.
Terei de responder por isso.
- A sua consciência é quem vai lhe dizer por quais atitudes você deve responder.
Só lhe peço que medite sobre a ignorância e a imaturidade, e se coloque disponível para o crescimento sem dor.
Você pode fazer isso.
- Você não fez.
— Mas você pode.
Damian fitou-o em dúvida.
Seus crimes eram muitos, e ele não estava bem certo se poderia livrar-se deles em uma única encarnação, ainda mais com a culpa que sentia.
Tinha, contudo, que tentar.
E era o que faria.
Quitar-se-ia com os homens, com sua consciência e com a vida.
Falando sobre o passado...
Depois desses factos tristes, segui o destino que a minha consciência traçou para mim.
Não vou dizer que foi fácil.
Senti na pele o sofrimento que infligi a outros, e foram muitos os momentos em que pensei desistir.
Mas eu não podia.
O crescimento de outras pessoas dependia em parte de mim, e eu precisava prosseguir.
Se desistisse, o que seria daqueles que atrelaram seus destinos ao meu, na esperança de podermos, todos juntos, levar nossos espíritos adiante na senda da elevação espiritual?
As passagens que aqui deixo narradas não tiveram outro intuito além de mostrar todo o processo por que passei e que culminou na minha reforma.
Falar do sofrimento não dói em mim, embora muitas pessoas não consigam ainda encarar com naturalidade e respeito as dores que foram criadas nesse mundo.
E fomos nós que as criamos, com o nosso orgulho e a nossa falta de amor.
Por que então precisamos fugir com pavor de nossa própria criação?
Não falo do sofrimento como algo bom, mas necessário, na medida em que ainda não conseguimos acreditar no poder transformador do amor.
Não digo que é preciso sofrer para alcançar algum tipo de elevação espiritual, mas também não podemos negar que é através do sofrimento que o homem vem conquistando novos valores.
Poderia e pode ser diferente.
Ninguém precisa sofrer para ser feliz.
Há muitos caminhos que conduzem ao estado de bem-aventurança, e só aqueles que conseguem compreender e respeitar a verdadeira dor é que podem se livrar dela.
É preciso viver para conhecer, experienciar para discernir, sentir para se libertar.
Provar para poder dizer: eu não quero e não preciso mais disso.
Apenas entendemos que não precisamos da dor depois de termos passado por ela.
Só deixa de sofrer quem já vivenciou o sofrimento e alcançou o estado de compreensão de que ele não é o único caminho para o crescimento moral do Ser.

11. Os maias.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 25, 2015 7:50 pm

Parte 2

[b]Capítulo 9


Padre Gastão havia acabado de encerrar a missa quando ouviu, do lado de fora da pequena igreja de madeira, um alarido estrondoso e infernal.
Uma gritaria foi ecoando pela vila, e o ruído de patas de cavalos pisando firme na pedraria do chão provocou gritos de espanto e medo, e o som do pranto das crianças invadiu os ouvidos do pároco.
- Mas que diabos está havendo por aqui? -— blasfemou o padre, persignando-se em seguida.
Nem precisou chegar à porta para saber do ocorrido.
Aracéli entrou esbaforida e assustada, os olhos esbugalhados de espanto.
- Padre Gastão! -— exclamou ela.
Esses homens a cavalo...
Estão por toda parte, assustando as crianças!
- Tenha calma, Aracéli.
Vou procurar ver o que está acontecendo.
Depois que o padre saiu, Aracéli sentou-se num dos bancos da igreja e ficou escutando o alarido.
Aos poucos, suas pálpebras foram pesando e, à medida que o ruído lá fora diminuía, seus olhos iam se fechando lentamente, e ela acabou adormecendo.
Poucos instantes depois, foi despertada pela mão do padre, que apertava seu ombro com doçura.
Ela abriu os olhos lentamente e fixou-os em Gastão, que lhe sorria com bondade.
- Tenha calma. Já está tudo resolvido.
- O que foi aquilo? -— indagou ela, esfregando os olhos e levantando-se devagar.
- Aventureiros, como sempre, em busca de ouro e fortuna.
Um tal senhor Licínio...
Acorrem a Vila Rica na ilusão do Eldorado.
Onde já se viu?
Aracéli não disse nada.
Pouco entendia daqueles assuntos e não lhe interessavam as loucuras do homem branco em busca do metal dourado.
Quando Aracéli nasceu, o pai, português, havia morrido numa disputa por uma jazida de ouro, assassinado por um paulista enfurecido.
O choque antecipou o parto de sua esposa índia, e Aracéli veio ao mundo minutos antes do falecimento da mãe.
Órfã, a pequena índia permaneceu aos cuidados de padre Gastão, que, compadecido da sorte da menina, criou-a nos arredores da paróquia, dando-lhe educação apropriada, além da religiosa.
Aracéli tornou-se uma moça muito bonita, culta e generosa, embora um pouco rebelde.
Tinha as feições do pai e a cor da mãe, o que lhe emprestava um ar ao mesmo tempo exótico e gracioso.
Cuidava da casa de padre Gastão e o amava como o único pai que conhecera em toda a sua vida.
***
Ao entrar na cidade, Licínio veio cheio de esperanças e com a certeza de que terminaria de concretizar o seu sonho de se tornar um fidalgo e receber um título de barão da Coroa.
Não que ainda não possuísse dinheiro.
Fizera sua fortuna traficando escravos para os senhores de engenho, mas agora estava cansado de lidar com os negros e suas constantes revoltas.
Por isso, ao juntar uma boa quantia, partiu em busca de novas chances.
Ouviu falar do Arraial do Padre Faria(12) e em suas possibilidades mineradoras.
Quando soube de sua recente transformação em sede do Conselho, não hesitou.
Partiu para a recém-inaugurada Vila Rica na certeza de que se consolidaria na mineração.
Vencida a concorrência com vários outros pretendentes, ganhou o direito de explorar uma considerável área de garimpo, que iria torná-lo muito mais rico do que já era.
Casado com Esmeraldina, tinha um filho de cinco anos, de nome Teodoro, a quem idolatrava.
Os dois permaneciam ainda na capital, à espera de que ele arranjasse uma casa grande e confortável e começasse a mandar seus escravos para a garimpagem.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 25, 2015 7:50 pm

Licínio passou a primeira noite em uma hospedagem local e, no dia seguinte, saiu em busca de uma casa que lhe servisse.
Depois de muito perambular, encontrou o que procurava.
Era um pequeno sítio, nos arredores da cidade, onde o filho poderia crescer em meio a árvores frutíferas e correr em liberdade pelos campos.
Além disso, a distância do centro manteria a esposa longe dos olhares cobiçosos de garimpeiros e mineradores.
Finalizada a compra, faltava-lhe apenas arranjar uma mucama para servir de ama-seca ao filho.
Uma escrava novinha, com disposição para brinquedos infantis, lhe serviria bem.
Ele não sabia onde procurar nem a quem recorrer, mas talvez o padre pudesse ajudá-lo.
Lembrava-se bem do padre.
Era um homem magro e baixinho, que ficara enfurecido porque ele entrara com seus cavalos pisoteando fortemente o chão.
Licínio achara graça e não revidara.
Era-lhe interessante travar amizade com as autoridades e os clérigos, porque era com eles que poderia obter ajuda e favores.
A porta da igreja estava aberta, contudo, não havia ninguém por ali.
Andando de um lado a outro, foi informado de que o padre se encontrava atrás, na casa paroquial.
Dirigiu-se para lá e bateu à porta, e foi o próprio padre quem atendeu.
- Ah! Senhor Licínio -— surpreendeu-se ele.
O que o traz aqui?
- Preciso de um favor -— retrucou Licínio, passando para o lado de dentro.
- Já encontrou casa?
- Já, sim. Um sítio encantador, não muito longe do centro da cidade.
- Conheço o lugar, bem como a viúva que o vendeu.
O marido morreu no garimpo...
- Lamentável...
- São coisas da vida.
Bem, mas deixemos isso de lado e diga-me: o que o trouxe aqui?
- Bom, agora que encontrei um lugar para fixar minha residência, preciso de uma ama-seca para o meu filho, um menino de apenas cinco anos, um primor de criança.
Por acaso o senhor não conhece aí uma negrinha jovem que esteja à venda?
Padre Gastão fitou-o com ar de desgosto e repulsa, mas não emitiu nenhum comentário.
Deu um muxoxo e respondeu com secura:
- Não.
Licínio notou a contrariedade do padre e logo deduziu que ele era daqueles que condenavam a escravatura.
Como não era sua intenção criar polémicas nem estabelecer divergências ou debates filosóficos nem religiosos, mudou o tom de voz e rebateu com simpatia:
- Mas nem uma mocinha que esteja à procura de trabalho? - ele meneou a cabeça.
Olhe que pago bem.
- Não conheço ninguém -— continuou o padre, agora com um tom glacial que fez gelar os ouvidos de Licínio.
- Mas nem uma...
A frase parou no ar, e Licínio estacou, de boca aberta, olhando para a figura que acabara de passar pela porta.
- Está fazendo um calor danado, padre Gastão!
E está faltando de tudo lá na venda do seu Ferreira -— disse Aracéli.
A jovem percebeu a presença de Licínio e deu-lhe um sorriso formal, passando para a cozinha abraçada ao saco de compras.
Ele acompanhou os seus passos, sentindo a boca salivar, estupefacto com a beleza da moça.
- Quem é a menina? -— indagou ele, analisando os seus movimentos na cozinha contígua.
- É Aracéli.
- Ela trabalha para o senhor?
- Ela foi criada por mim.
É como se fosse minha filha.
- Entendo. E será que o senhor, como bom cristão, alma generosa que é, não poderia me ceder a moça para cuidar do meu Teodoro?
Seria só até eu encontrar alguém.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 25, 2015 7:51 pm

- Aracéli não está interessada.
- Como é que o senhor sabe?
Ainda nem perguntamos a ela.
Padre Gastão tinha vontade de mandar aquele homem embora dali, mas a educação e o dever não permitiam.
Nisso, Aracéli voltou segurando uma bandeja com dois copos e uma jarra.
Pousou-a na mesa e serviu o refresco.
- Fiz uma limonada para os senhores -— anunciou, entregando um dos copos a Licínio e o outro ao padre.
Está muito quente, e achei que gostariam de se refrescar.
- Obrigado, minha filha -— falou Gastão, louco de vontade de mandá-la para o quarto.
- De nada.
Antes que ela pudesse virar-se para ir embora, Licínio retornou de seu estupor e chamou-a de volta:
- Por favor, Aracéli, fique mais um pouco.
Gostaria de falar com você.
Espantada, a moça se virou para ele e olhou discretamente para padre Gastão, que fez um gesto para que ela se sentasse.
- Este é o senhor Licínio, Aracéli.
Acabou de chegar à cidade.
- Senhor Licínio?
Não é o homem que entrou no outro dia assustando a todos com os cascos dos cavalos?
Licínio soltou uma gargalhada e retrucou com prazer:
- Eu mesmo, mocinha.
Mas já me desculpei com o bom padre pelos transtornos que causei.
- O senhor Licínio está à procura de uma ama-seca, mas já lhe disse que não conheço ninguém.
Pensei se você não gostaria de trabalhar para mim -— sugeriu Licínio, fitando-a com crescente admiração.
- Eu?! -— surpreendeu-se Aracéli.
Mas, senhor, nunca trabalhei fora daqui.
Só sei servir ao padre Gastão.
- Será que o padre quer você só para ele?
- Não é nada disso -— interrompeu Gastão.
É que Aracéli não está acostumada.
Ora, mas é só para cuidar de uma criança de cinco anos.
Um menino lindo e inteligente.
E você pode ganhar muitas coisas bonitas da patroa.
Dona Esmeraldina é generosa e aprecia a companhia de jovens feito você.
Não seria uma óptima oportunidade para experimentar coisas novas?
- Aracéli é só uma criança inexperiente e ingénua de dezasseis anos -— arrematou o padre.
- Não sou, não! -— contestou ela, com veemência.
Já sou uma moça, padre Gastão.
E trabalhar fora talvez seja bom para mim.
Nunca vou a lugar algum além da venda do seu Ferreira.
- Viu só? -— exultou Licínio.
Ela quer.
- E o senhor vai me pagar?
Licínio balançou a cabeça e olhou de soslaio para o padre, que parecia enfurecido, embora se esforçasse para não demonstrar.
- Isso não é comum -— objectou o padre.
O normal é que esse trabalho seja feito por uma negra, e o senhor pode perfeitamente adquirir uma, do jeito que está procurando, no mercado de escravos.
O olhar de espanto de Aracéli foi genuíno.
Ela nunca ouvira Gastão dizer aquelas coisas.
Pois se ele era radicalmente contra a escravidão, como é que agora aconselhava o senhor Licínio a comprar uma escrava?
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 25, 2015 7:51 pm

- Padre Gastão! -— exclamou Aracéli.
Como pode sugerir uma barbaridade dessas?
Não é o senhor que vive dizendo que a liberdade não tem preço e que ninguém deveria comercializar seus semelhantes?
O senhor mesmo diz que isso é uma vergonha!
Ele queria desesperadamente dizer-lhe que estava falando aquele absurdo tão grande só para protegê-la, mas ela não entenderia.
Criara Aracéli envolta em uma campânula de protecção, afastando-a de tudo que pudesse fazer-lhe mal, principalmente homens feito Licínio.
Ela se havia transformado numa moça realmente bonita e sedutora, embora não se desse conta disso.
- É para o seu bem -— disse ele simplesmente.
Aracéli não discutiu.
Conhecia muito bem o padre para duvidar do que ele dizia.
Embora não compreendesse por que ele falava coisas tão estranhas e contraditórias, não o questionou.
- Bem, senhor Licínio, se padre Gastão não quer, então não posso ir.
- É melhor então que eu compre uma escrava? -— retrucou ele com raiva.
- O senhor é quem sabe -— falou ela.
Licínio retirou-se furioso.
Aquilo não terminaria assim.
Ver Aracéli fora como ser atingido por um furacão, e precisava acalmar a turbulência que se instalara dentro dele.
Ela era uma jovem fresquinha e tenra, bem do jeito que ele gostava.
E virgem. Só de pensar na virgindade de Aracéli, sentiu-se invadido por uma onda incontrolável de desejo.
Preciso tê-la — disse para si mesmo.
Custe o que custar.
Não havia nada que o dinheiro não pudesse comprar, e ele estava disposto a pagar o mais alto preço pela inocência de Aracéli.

12. Arraial do Padre Faria — um dos arraiais que deram origem à Vila Rica, actual Ouro Preto (MG), fundada em 1711.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 25, 2015 7:51 pm

Capítulo 10

Esmeraldina e o pequeno Teodoro somente foram chamados a Vila Rica quando a casa já estava pronta para recebê-los.
Licínio espalhou escravos por toda a propriedade, mandou cuidar do pomar e do jardim, e decorar os quartos ao gosto de cada um.
Queria que, quando a mulher e o filho chegassem, pensassem que entravam numa casa de sonhos.
- Finalmente! -— exclamou Licínio, beijando Esmeraldina na face e erguendo Teodoro no colo.
O menino envolveu o pescoço do pai e estalou-lhe um beijo no rosto:
- Saudades do papai...
- Meu menino, minha vida! - —e, virando-se para Esmeraldina, prosseguiu:
Como foi a viagem?
A mulher fez cara de repulsa e respondeu com desdém:
- Horrível, como sempre.
Só você para nos tirar de Salvador nos trazer para este fim de mundo.
- Não é um fim de mundo -— objectou Licínio, com indignação.
É aqui que está a fortuna, a riqueza, o ouro!
- Ouro? -— repetiu Teodoro, impressionado porque sabia que ouro era algo bonito e brilhante, mas cujo valor real desconhecia.
- Muito ouro, meu filho.
E quando sua mãe estiver com o pescoço e as orelhas pesados de tanto ouro, quero ver se vai continuar com essa cara de desprezo.
- Isso são modos de falar comigo, Licínio?
E na frente da criança?
Esmeraldina retirou o menino dos braços do marido e entregou-o à escrava idosa que a acompanhava.
- Leve-o para brincar lá fora -— ordenou.
Está um lindo dia de sol.
Depois que eles saíram, Esmeraldina pôs-se a inspeccionar cada canto da casa, inclusive algumas peças em ouro e prata que Licínio havia comprado.
Ele não dizia nada, apenas acompanhava os seus gestos e observava o ar de surpresa que ela fazia ao constatar a riqueza de seu novo lar.
- Não posso negar que você se esmerou -— reconheceu ela, fascinada e satisfeita com o luxo que a cercava.
Talvez você tenha razão... acho que vou gostar daqui.
- Fiz tudo isso por você e por Teodoro.
Quero que se sintam vivendo num palácio.
- Você já começou a trabalhar?
- Sim. Logo que cheguei, mandei os escravos para o garimpo.
Não se preocupe, Dina, vamos ficar muito mais ricos do que já somos.
Os olhos da mulher brilharam, e ela seguiu alisando os móveis, até que parou e fixou o olhar penetrante no marido.
- E a aia? -— indagou.
Já encontrou alguém?
- Estou procurando.
- Você sabe que não gosto que Teodoro fique em companhia daquelas velhas.
Ele precisa de uma mocinha que brinque com ele.
E aquelas escravas que você deixou para mim não prestam para nada.
- Não tenho culpa se a última morreu.
- Nem eu. Como é que eu iria saber que aquela ferida na perna iria infeccionar e ela iria morrer?
- Bom, deixe isso para lá.
São coisas que acontecem.
Temos é que agradecer porque quem rasgou a perna naquele prego foi a estúpida da negra, e não o nosso Teodoro.
- É, mas agora preciso de outra escrava.
- Eu estou de olho em uma menina que vi na casa de um padre.
É uma garota índia, de seus dezasseis anos, óptima para brincar com Teodoro.
- Índia? Não sei não, Licínio, nunca tivemos escravas índias.
- Essa não é escrava.
Foi criada pelo padre, e é por isso que é a pessoa ideal para o nosso filho.
Tem boa educação, é limpinha e de boa aparência.
Muito melhor do que essas negras que a gente precisa toda hora mandar se lavar.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 26, 2015 9:39 am

- Índios são selvagens.
Quem me garante que essa menina não é alguma espécie de canibal?
- Que canibal, que nada!
Aracéli foi civilizada pelo padre.
- Esse é o nome dela? Aracéli? — ele assentiu.
E os pais dela, onde estão?
- Acho que morreram.
E ela não tem jeito de ser totalmente índia.
Possui feições finas e delicadas, como as de um europeu, embora sua pele seja bem da cor do jambo.
Esmeraldina não percebeu a excessiva empolgação com que Licínio descrevia Aracéli, preocupada que estava com a possibilidade de colocar uma selvagem dentro de casa.
- Tem certeza de que ela serve para Teodoro?
- Absoluta!
Você tem que ver a menina.
É esperta, inteligente, li... -— ele ia dizer linda, mas corrigiu a tempo: — limpinha, como já disse.
E você mesma diz que não gosta das negras.
- E não gosto mesmo.
São feias e sujas, com aquela carapinha espetando o rostinho inocente de Teodoro.
- Pois então?
Aracéli não é assim.
Tem os cabelos negros mais lisos e lustrosos que já vi.
- Bom, isso é uma vantagem, realmente.
É... pensando bem, você tem razão.
Creio que ela deve servir.
- Só tem um problema.
- Que problema?
- O padre não quer deixá-la vir trabalhar connosco.
- Por que não?
- Ora, porque não!
Porque ela serve a ele, por isso.
Ele não quer perder a criada.
- E se lhe oferecêssemos dinheiro?
- Esqueça. Esse padre não é do tipo que se deixa comprar.
Parece gostar de causas nobres e ser muito correcto.
Esmeraldina pensou por alguns minutos.
Não podia deixar que um simples padre se opusesse à sua vontade e saísse vencedor.
- Acho melhor irmos falar pessoalmente com ele.
Levaremos Teodoro.
Não há quem não se encante com ele e, vendo-o, talvez o padre mude de ideia.
Foi no domingo seguinte que padre Gastão e Aracéli conheceram Esmeraldina e Teodoro.
Logo após a missa matinal, Licínio os apresentou.
Aracéli logo se encantou com o menino, e ele com ela.
A simpatia foi recíproca.
Esmeraldina não era uma mulher afectiva nem carinhosa, e a criança se ressentia disso.
Assim, quando Aracéli o tornou nos braços e começou a fazer brincadeiras com ele, Teodoro imediatamente sentiu a sua afeição.
- Teodoro gostou de Aracéli -— observou Licínio, enquanto padre Gastão cumprimentava Esmeraldina.
- Pois é, padre, como o senhor deve saber, Teodoro e eu chegamos ainda essa semana de Salvador -— tagarelava Esmeraldina.
E uma moça como Aracéli, para cuidar de nosso Teodoro, seria o ideal.
É claro que podemos comprar uma escrava, mas acho que não seria aconselhável, tendo uma menina tão fina e educada bem aqui perto de nós.
E livre. Não acha que seria um bom exemplo para o nosso filho ter uma criada que não fosse escrava?
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 26, 2015 9:40 am

- Perdão —- falou o padre.
A senhora é contra a escravidão?
Espertamente, Esmeraldina havia dito aquilo.
É claro que ela não era contra a escravidão.
Afinal, onde encontrariam mão-de-obra barata sem o concurso dos negros?
Todavia, pelo que Licínio lhe contara do padre, era óbvio que ele era contrário à escravatura e fingir-se solidária a sua causa a faria simpática aos olhos dele.
- Acho que os negros são gente, como todo mundo, e deveria haver uma lei que proibisse a captura deles.
Ela nem olhou para Licínio, que abriu a boca, estupefacto, pois nunca ouvira a mulher falar daquele jeito.
Segundos depois, ele sorriu intimamente, já percebendo o jogo da esposa para conquistar a confiança do padre.
- Mas a senhora tem escravos, não tem?
- Infelizmente, padre Gastão -— retrucou ela baixinho - quem manda é o marido.
Mas, por mim, nós não teríamos nenhum. Foi por isso que, quando Licínio falou em Aracéli, logo pensei que seria um bom começo.
- É verdade.
- E, depois, Teodoro adorou Aracéli.
Olhe só como os dois se deram bem.
Aracéli e Teodoro corriam pelo pátio da igreja, brincando de esconder, e ele dava gargalhadas cada vez que ela o segurava pela cintura e o rodopiava no ar.
- São duas crianças —- comentou Licínio, sentindo, outra vez, a boca salivar ao ver os seios de Aracéli subindo e descendo por baixo do vestido simples, mas desviou os olhos rapidamente, para que o padre nada notasse.
Realmente, a cena comoveu padre Gastão.
Fazia muito tempo que Aracéli não tinha contacto com ninguém além dele.
Os pais das outras crianças não permitiam que seus filhos brincassem com um filhote de índio, como diziam pejorativamente, e ela passou a infância sozinha.
Contudo, havia Licínio.
Gastão temia que houvesse intenções ocultas no interesse dele por Aracéli.
Ou seriam o apego e a preocupação excessiva que o faziam imaginar uma maldade que realmente não existia?
O que ele notava agora na relação entre Licínio e a família era muito carinho e atenção, e talvez Aracéli representasse para ele apenas isso:
uma criada jovem para cuidar de seu filho pequeno.
- Por favor, padre Gastão, permita que ela vá -— implorou Esmeraldina, que se irritava quando contrariada.
Nosso filho é pequenino, precisa de alguém com a educação de Aracéli para lhe servir de exemplo.
Não pode nos ajudar?
- Bem... -— hesitou o padre.
Parece mesmo que eles se deram bem.
- Quer dizer, então, que ela pode ir?
- Não sei. Vamos perguntar a ela.
Na mesma hora, Aracéli concordou.
Se antes já queria ir, que diria agora, que conhecera Teodoro e se apaixonara por ele?
Não poderia perder a oportunidade de cuidar de uma criança tão doce e meiga.
Ficou acertado que Aracéli dormiria com o menino, mas viria para casa aos domingos.
No dia seguinte, lá estava ela, pronta para seu primeiro dia de trabalho.
Ficou impressionada com a riqueza e o luxo do casarão de Licínio e adorou o jardim e o pomar, onde havia muitas árvores para subir e muitas frutas para colher.
No quarto de Teodoro, vários livros de história trazidos de Portugal enfeitavam as prateleiras, e brinquedos coloridos que Aracéli jamais havia visto se espalhavam pelo chão.
Ela estava encantada com aquele mundo de brilho que sequer imaginava existir.
E Teodoro, então, era uma criança adorável.
O menino também gostara muito de Aracéli, que se transformara numa espécie de irmã mais velha com quem ele podia brincar.
Tudo parecia perfeito para os dois.
Aracéli só não sabia que, nos momentos de brincadeira, os olhares de Licínio eram muito mais para ela do que para o filho.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 26, 2015 9:40 am

Capítulo 11

- Onde estão seus pais, Aracéli?
A vozinha miúda de Teodoro chegou aos ouvidos de Aracéli, que abriu os olhos e tentou focá-los no menino.
O sol estava muito forte, e os dois haviam-se deitado embaixo de uma árvore para fugir do calor.
- Eles morreram.
- Que pena.
Não queria que meus pais morressem.
- Eles não vão morrer.
- Você é índia?
- Sou meio índia.
Minha mãe era índia, mas meu pai era português.
- O que é português?
É quem nasce em Portugal.
- Você sabe falar a língua dos índios?
- Um pouco. O meu nome, por exemplo, significa altar do céu. Não é bonito?
- É lindo. E o meu, o que quer dizer?
- Não sei. Você não tem nome de índio.
- A sua mãe morava numa tribo?
- Morava. Padre Gastão me contou que ela foi capturada pelos bandeirantes, e meu pai a comprou, porque gostou dela.
- Não entendi.
O que são bandeirantes?
Aracéli passou a mão sobre os cabelos de Teodoro e perguntou sorrindo:
- Não quer nadar?
- Quero!
Os dois estavam sozinhos perto de um riacho ao qual sempre iam e onde costumavam tirar as roupas para nadar.
O que diria Esmeraldina se soubesse daquela loucura?
Na certa mandaria a menina embora, horrorizada com a sua falta de pudor e o seu descaramento.
Para Aracéli, não havia mal algum naquilo, talvez porque o seu sangue índio não guardasse registos de censura, e ela se deliciava sentindo a água bater em seu corpo nu.
Embora Teodoro nunca houvesse tomado um banho de rio na sua vida, adorou a experiência ao lado de Aracéli.
Os dois tiravam toda a roupa e se atiravam no riacho, espargindo água por todo lado.
Depois, deitavam-se ao sol para se secar, vestiam-se e voltavam para casa.
O sol já ia se pondo quando Aracéli decidiu que era hora de voltar.
Não queria que Teodoro se atrasasse para o jantar, ou dona Esmeraldina reclamaria.
Aproximava-se de casa quando Licínio a avistou, e ela nem percebeu que ele, da janela, acompanhava todos os seus passos, passando a língua nos lábios, consumido pelo desejo.
Quando ela se aproximou ainda mais, ele saiu para a varanda.
- Aracéli -— chamou, assim que ela cruzou o seu caminho.
- Pois não, senhor.
- Onde vocês estavam?
Seus cabelos estão molhados.
Ele segurou a ponta dos cabelos ainda húmidos de Aracéli, esfregando-os entre os dedos como se experimentasse uma peça da mais fina seda.
- Estávamos nadando -— respondeu ela, com naturalidade.
- Nadando? Onde?
- No riacho lá embaixo.
Ele ficou observando-a, pensativo, até que tornou:
- Mas suas roupas estão secas.
- Isso é porque a gente nada pelado -— falou Teodoro, de forma inocente.
O sentimento de Licínio deveria ser de horror, no entanto, seu coração deu um salto, e o desejo ardeu numa espécie de febre maldita, resultado da imagem que sua imaginação construiu das gotas douradas escorrendo pelo corpo húmido e fresco de Aracéli.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 26, 2015 9:40 am

- Pelados? -— foi só o que conseguiu balbuciar.
- O senhor vê algum problema nisso? -— redarguiu ela, notando o ar de espanto dele.
- Você costuma fazer isso sempre?
Impulsionado pela paixão ardente, Licínio agora falava e agia com mais desenvoltura, imaginando a facilidade que aquilo poderia representar para a realização de seu intento.
- Padre Gastão às vezes ralha comigo, mas nunca me proibiu.
- Nunca a proibiu?
- Ele diz que é o meu lado índio que gosta de liberdade.
- Entendo... Bem, Aracéli, não sou eu que vou censurar a sua liberdade índia.
E acho que é bom para Teodoro experimentar um pouco dessa liberdade também.
Contudo, advirto-a para que não deixe Esmeraldina saber.
Ela não compreenderia e poderia proibi-los de voltar ao riacho.
Ou, pior, poderia mesmo mandá-la embora.
- Não quero que Aracéli vá embora -— protestou Teodoro com veemência.
- Então não conte nada a sua mãe.
- Não vou contar.
- Desculpe-me, senhor Licínio, mas padre Gastão me ensinou a não mentir, e não me agrada esconder a verdade de sua esposa.
Se ela não aprova o que faço, não farei mais.
- De jeito nenhum!
Por que vai roubar do menino esses momentos de inocente prazer?
- Porque o senhor disse que sua esposa não gosta.
- Ela não compreende.
Foi criada por padrões rígidos de moral e desconhece a liberdade dos índios -— ele frisou bem a palavra liberdade, mas Aracéli não conseguiu captar-lhe o sentido.
E você não precisa mentir.
Basta lhe ocultar.
- Não sei. Padre Gastão não gostaria.
- Padre Gastão não está aqui e não manda na minha casa.
E eu, como seu patrão, quero que você ensine meu filho a nadar.
Não é nada de mais.
Existe apenas uma pequena divergência entre mim e minha mulher no modo como criamos Teodoro.
E eu sou o homem da casa, sou eu quem decide.
Ela o fitou em dúvida, no fundo ciente de que o que Licínio pedia não era o mais correcto.
Contudo, não queria contrariá-lo e não pretendia desagradar Esmeraldina porque, àquela altura, não poderia mais prescindir da companhia de Teodoro.
- Não vamos dizer nada à mamãe, não é, Aracéli? — suplicou o menino.
Por favor, diga que não vamos.
- Não, não vamos -— concordou ela, embora não muito satisfeita.
- E também não vão parar de nadar no rio, não é? -— questionou Licínio.
- Não vamos, não.
Vamos, Aracéli? -— insistiu Teodoro.
- Também não.
- Viu, papai?
Não precisa se preocupar com mamãe.
- Não, não preciso -— concordou ele, olhando bem dentro dos olhos negros da moça e imaginando até que ponto ela seria inocente e não perceberia o que ele realmente desejava dela.
Naquele momento, algo despontou em Aracéli.
Não era apenas a dúvida, mas uma desconfiança das palavras de Licínio.
Ela não sabia ainda identificar o desejo que ele sentia por ela e nem imaginava o que ele poderia estar tramando.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 26, 2015 9:40 am

Sua intuição apenas lhe dizia que algo não estava certo na conduta do patrão.
Todavia, pensar em afastar-se de Teodoro era muito doloroso.
Aracéli não lembrava de ter sido tão feliz em toda a sua vida.
Adorava aquele menino e não pretendia separar-se dele.
Por isso, silenciou e, naquele domingo, quando voltou para casa e padre Gastão lhe perguntou se tudo estava bem, ela disse que sim.
Não queria mentir, mas o facto era que não saberia o que lhe dizer.
Licínio não lhe fizera nada, nem sequer uma ameaça, e ela desconhecia o quão devastador o desejo de um homem apaixonado poderia ser.
- Dona Esmeraldina pediu-me para ir inaugurar a pequena capela que mandou construir atrás de sua casa —- disse Gastão, atribuindo ao cansaço o mutismo de Aracéli.
Você sabia que ela estava construindo uma capela?
- Sabia.
- Por sua causa, acho que acabaram se apegando a mim.
Minha paróquia não é a mais próxima da casa deles, nem a mais rica.
- Talvez eles gostem do senhor.
- Deve ser isso -— ele se sentou ao lado dela para jantar e prosseguiu:
E como estão indo as coisas por lá?
- Muito bem.
Teodoro é um menino adorável.
- Você gostou mesmo dele, não foi?
- Muito.
Embora Aracéli nada dissesse sobre o banho de rio, Gastão, em sintonia com os seus pensamentos, captou-lhes o sentido e, sem saber, foi orientando:
- Você deve tomar cuidado com o facto de ser índia.
Muitas coisas que você faz aqui não são permitidas em uma casa como a do senhor Licínio.
- Como assim? -— tornou ela, espantada.
- Você sabe que nunca lhe proibi os costumes de seu povo.
Você tem certas liberdades que ninguém jamais permitiria aos filhos.
Eu compreendo isso, porque, inclusive, acho injusto o que fizeram a sua gente.
Você deveria estar lá, junto a sua tribo.
- A minha tribo não existe mais.
- Infelizmente.
O seu pai foi um homem muito bom para a sua mãe e a amou de verdade.
Viveu com ela muitos anos antes de você nascer e ensinou-lhe a nossa língua.
E ela queria que você fosse criada como os de seu povo.
Depois que ela morreu, não pude devolver você aos seus.
Tive medo de que eles não a aceitassem por causa do seu sangue branco.
Desculpa...
A verdade mesmo é que não pude mais ficar sem você.
Quem é que segura uma criança nos braços e depois consegue se separar dela?
- Por que está me contando essas coisas?
- Não sei -— respondeu ele, com sinceridade.
De repente, senti um aperto no coração, um medo infinito de perder você.
- Não diga isso, padre Gastão.
Eu só vou lá para trabalhar.
Minha casa é aqui.
- Não é isso que me preocupa.
Se você quiser se mudar para lá para ser feliz, eu não me oponho.
Não sei... sinto um perigo no ar que não consigo definir.
Ou talvez saiba, mas não queira acreditar.
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Ave sem Ninho

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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

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