Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 26, 2015 9:41 am

- Assim o senhor me assusta.
Não quero assustá-la, contudo, talvez seja melhor que você volte para casa.
Dona Esmeraldina pode arranjar outra pessoa.
- Não posso fazer isso.
- É para o seu bem, criança.
Você já se divertiu bastante por lá.
- Não se trata de divertimento.
A verdade é que me afeiçoei ao menino.
- Compreendo, mas ele tem mãe.
E você pode arrumar um trabalho junto aos órfãos se gosta de cuidar de crianças.
- O senhor não está entendendo, padre.
Eu também segurei nos braços uma criança.
E agora é difícil, para mim, separar-me dela.
- Está falando sério?
Você gosta tanto assim desse menino?
- Gosto. E sinto que ele não só gosta, mas precisa de mim.
Não posso deixá-lo agora.
Padre Gastão suspirou profundamente e afagou a cabeça de Aracéli, sentindo uma ternura sem igual por aquela menina a quem amava como filha.
Sabia, contudo, o que era afeiçoar-se a uma criança e compreendia por que ela não podia afastar-se de Teodoro.
- Muito bem, então -— aquiesceu.
Mas tome cuidado, por favor.
Não faça nada que não seja comum entre os brancos.
Pelo amor de Deus, Aracéli!
- Não se preocupe, padre.
Sei me comportar direitinho ela se levantou e deu-lhe um abraço apertado, sussurrando em seu ouvido:
— Amo-o muito, meu pai.
Emocionado, Gastão segurou as lágrimas nos olhos.
Não queria chorar na frente dela para não demonstrar excessiva preocupação.
Agora, só lhe restava orar para que tudo não passasse de um engano seu, e Aracéli não estivesse exposta a nenhum perigo.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 26, 2015 9:41 am

Capítulo 12

Assim que Esmeraldina entrou no quarto, foi surpreendida pela impetuosidade de Licínio, que a tomou nos braços e beijou-a longamente, vendo em seu rosto as feições morenas de Aracéli.
Durante os primeiros segundos, ela se deixou beijar e depois afastou-se dele com um empurrão subtil, apertando a gola do robe para que ele não vislumbrasse o seu corpo.
- O que deu em você? -— indagou.
Não pode esperar?
- Esperar pelo quê? -— rebateu ele, mal conseguindo conter a febre que o dominava.
Teodoro acabou de dormir e está sozinho.
Tenho que prestar atenção a qualquer ruído em seu quarto.
- Por que não coloca uma escrava com ele, só por esta noite?
- Agora que ele se acostumou com Aracéli, não quer ninguém mais dormindo com ele.
Isso é um problema.
Como assim?
- Esse menino está muito apegado àquela índia.
Quase em se importa mais comigo.
- Ele se importa tanto quanto você se importa com ele.
- Mas que infâmia! -— zangou-se ela.
Tenho meus compromissos, mas você não pode negar que sou boa mãe.
- Você vive cercada de mercadores e mascates.
Não se cansa de comprar coisas que nem usa?
- Ora essa, não foi você quem disse que nos tornaríamos cada vez mais ricos?
Então, o que faço é apenas gastar para ostentar a nossa fortuna.
- Então não reclame que o menino não se importa com você.
Antes que Esmeraldina respondesse, ele a puxou novamente, mas ela se esquivou.
Ainda não tinha dado por encerrada a discussão.
- Você não acha que Teodoro está muito apegado a Aracéli?
- De novo com isso?
Por favor, Dina, deixe Aracéri para lá.
Venha, preciso de você.
Sem dar importância aos apelos do marido, Esmeraldina continuava a falar:
- Ele realmente está muito apegado a Aracéli.
Quando fui colocá-lo para dormir, estava chorando, dizendo que sentia saudades dela.
- Ele é só uma criança, e ela satisfaz todas as suas vontades.
- Eles passam tempo demais juntos.
Talvez seja melhor mudarmos um pouco as coisas.
- Mudarmos como?
A Marocas tem uma criada francesa.
Você precisa ver só. Um luxo!
Imagine o nosso filho aprendendo a falar francês e desfilando pela cidade no colo de uma lourinha com sotaque!
Muito mais fino do que a cor de jambo e os vestidos sem graça de Aracéli.
E até o nome da moça é mais gracioso: Marie.
Elegante, não acha?
- Você não está pensando em mandar Aracéli embora, está?
- Quem sabe?
- Marocas me disse que pode tentar achar uma outra francesa se eu quiser.
Acho que seria muito mais apropriado do que aquela caboclinha.
- Você está inventando coisas.
Pois não tínhamos concordado que a índia daria uma boa ama-seca?
- Isso foi antes de eu conhecer a francesinha.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 26, 2015 9:41 am

- Nada disso!
Nem pense em trocar Aracéli por uma francesa.
Você não está pensando no bem-estar de nosso filho.
Teodoro morre se ficar sem Aracéli.
- Ele é só um menino.
Com o tempo, esquece.
- Não, Dina, de jeito nenhum.
E como é que fica a minha cara diante do padre, depois de tudo o que fiz para trazer Aracéli para cá?
- Desde quando você se importa com o padre?
- Você não mandou construir a capela?
E não o chamou para abençoá-la?
Pois então!
Se o dispensarmos agora, ficaremos mal perante a sociedade.
- Quem foi que falou em dispensá-lo?
Inaugurar a capela não tem nada a ver com Aracéli.
E, se quer mesmo saber, acho até que ele vai gostar que ela volte para casa.
- Escute aqui, Esmeraldina! -— esbracejou ele, mas de tal forma alterado que ela se assustou e se encolheu.
Eu a proíbo de despedir Aracéli.
Teodoro gosta dela, e não vou permitir que você o magoe.
Pelo bem do nosso filho, ela fica.
Estava encerrada a discussão.
Licínio ficou tão indignado e enfurecido que até perdeu o desejo de fazer sexo com a mulher.
Na verdade, queria usá-la para saciar a fome que sentia de Aracéli, mas ela o deixara realmente aborrecido.
Ele, que fizera de tudo para trazer Aracéli para junto de si, não poderia permitir que a mulher, por um capricho fútil, a substituísse por uma francesa insossa e idiota.
Quanto mais pensava em Aracéli, mais Licínio enlouquecia.
Fazia já alguns meses que ela estava trabalhando em sua casa e, até então, ele não se atrevera a procurá-la.
Descobrir que ela costumava nadar nua no riacho o deixara deveras transtornado.
Por que lhe contara aquela particularidade?
Talvez estivesse se insinuando e tentando provocá-lo.
Era no que ele queria acreditar.
Na segunda-feira, ela chegou cedo e foi ao encontro de Teodoro, que se atirou em seus braços tão logo a avistou.
Pelo canto do olho, Esmeraldina a observava com certo desdém, sem perceber a insânia no olhar do marido.
A partir de então, Licínio seguia Aracéli por todos os lados e procurava sempre estar por perto nos lugares e momentos em que ela passava.
Só não se atrevia a descer até o riacho, com medo de sua própria reacção, de não conseguir se conter e dominá-la na presença do filho.
Após o jantar daquela noite, Esmeraldina esperou até que Aracéli retirasse Teodoro da mesa e comentou com o marido:
- Hoje cedo chegou uma carta de Salvador.
Minha irmã teve seu quinto bebé.
- Que óptimo -— disse ele, sem nenhuma emoção.
- É um menino.
Finalmente, depois de quatro filhas.
- Bom para o seu cunhado.
- Estive pensando em visitá-la.
Faz tempo que não vou a salvador e poderia aproveitar para matar as saudades de papai e mamãe também.
Licínio olhou-a estupefacto, mal contendo a súbita euforia de ver naquela viagem a oportunidade que tanto queria para estar a sós com Aracéli.
- Se você quiser ir, por mim, está tudo bem — anunciou, com voz contida.
- Sabia que você compreenderia.
- Quando é que pretende partir?
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 26, 2015 9:41 am

- Creio que em duas semanas estará bom.
É o tempo de inaugurar a capela e preparar um novo enxoval para mim e Teodoro.
— - O quê? -— surpreendeu-se ele.
Pretende levar Teodoro?
- Ele precisa ver os avós.
Não quero que se esqueça dos meus pais.
- Você só pode estar brincando, Dina.
Teodoro não pode ir... e padre Gastão não vai permitir que você leve Aracéli com ele.
- Quem falou em levar Aracéli?
Vou convidar Marocas para ir comigo, e talvez ela me ceda sua criada francesa.
Aquela notícia era inesperada.
Sem Teodoro ali, não haveria motivo para que Aracéli permanecesse.
Não poderia permitir.
- De jeito nenhum! -— protestou ele, dando um salto da cadeira.
Teodoro não sai daqui.
- Mas o que é isso agora, Licínio?
- Não quero ficar longe do meu filho -— exasperou-se ele.
—Se quer ir, vá sozinha, eu não me oponho.
Mas Teodoro fica.
- Você não está sendo sensato.
Teodoro é criança e deve acompanhar a mãe.
- Deixá-lo comigo só vai beneficiar você, que estará mais livre para ir aos bailes de que tanto gosta.
- Você está sendo injusto! -— objectou ela com veemência.
Resolveu agora que eu não dou importância ao meu filho, mas isso não é verdade.
Sempre que posso, tenho-o junto a mim.
- Está certo, Dina, não vamos brigar -— reconsiderou ele, com medo de despertar suspeitas na mulher.
— Mas eu lhe peço que deixe Teodoro comigo.
Nem bem ele se recuperou da primeira viagem, já vai ter que fazer uma segunda?
E pense um pouco em mim.
Vou ficar meses sem ver a minha mulher.
Terei também que me separar de meu filho?
- Será por pouco tempo.
- Para mim, será como a eternidade.
Você vai para Salvador se divertir com a sua família.
E eu? Quem estará aqui para me confortar quando a saudade for insuportável?
Ela permaneceu algum tempo em silêncio, encarando-o e reflectindo sobre o que ele lhe dissera.
Ele fingia tão bem que ela não conseguiu perceber a dissimulação em suas palavras e acabou sentindo pena dele, de sua solidão naqueles muitos meses.
Aracéli nem lhe passou pela cabeça.
Licínio era esperto e nunca a deixara perceber a paixão que rugia em seu peito tal qual uma besta insana prestes a emergir.
- Muito bem -— suspirou Esmeraldina.
—Talvez você tenha razão.
A viagem é mesmo muito cansativa para uma criança de cinco anos, e não quero que você se sinta tão só.
Irei sozinha.
Licínio mal cabia em si de contentamento.
Puxou a mulher e deu-lhe um beijo demorado e ardoroso, já imaginando como seria o gosto dos lábios carnudos de Aracéli colados ao seu.
Pensar na cabocla só fez aumentar o seu desejo, e ele amou Esmeraldina com a paixão que alimentava pela outra.
A inauguração da capela aconteceu no domingo e, duas semanas depois, Esmeraldina partiu.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 26, 2015 9:41 am

Durante os dias que precederam a viagem, Licínio agiu como um marido dedicado, cobrindo a mulher de carinhos e atenções, satisfazendo seus desejos e mimando-a de todos os modos.
Pouco olhava para Aracéli e só falava com ela o necessário para dar ordens relacionadas ao filho.
Quando a carruagem atravessou o portão e ganhou a estrada, Licínio encarou Aracéli pela primeira vez naquelas duas semanas.
Ela segurava Teodoro no colo e erguia a mãozinha do menino em um gesto de adeus.
- Não fique triste, Teozinho -— falou com ternura.
Sua mãe volta logo.
Ao colocar a criança no chão, Aracéli notou que Licínio a fitava insistentemente.
Um rubor lhe subiu pelo rosto, contudo, antes que ele pudesse dizer alguma coisa, um burrico adentrou o pátio do casarão e Licínio percebeu insatisfeito que se tratava de padre Gastão.
- O senhor por aqui, padre? -— perguntou, disfarçando a contrariedade.
- Vim para me despedir e quase não chego a tempo.
Cruzei com a carruagem agorinha mesmo e acenei para dona Esmeraldina.
- Que bom -— retrucou Licínio, com ar de mofa.
E agora, padre, se me der licença, preciso ver como estão as coisas no garimpo.
Licínio saiu furioso.
Estava há tanto tempo esperando por Aracéli que, por um momento, deixou-se levar pela ansiedade e quase armou um bote precipitado.
Não fosse a chegada daquele padre intrometido, teria dado um jeito de se desembaraçar de Teodoro e levar Aracéli para seu quarto.
No pátio, Aracéli abraçou padre Gastão, enquanto Teodoro se distraía seguindo o rastro de algumas formigas.
- É sempre bom vê-lo, padre.
- Quero falar com você, Aracéli.
Estive pensando muito e não acho que seja prudente você ficar sozinha aqui com o senhor Licínio.
- Mas, padre, não posso deixar Teodoro sozinho.
Não há ninguém para cuidar dele.
- O senhor Licínio tem muitas escravas.
Alguma há de servir.
- Mas o menino já se acostumou comigo!
E foi por isso que dona Esmeraldina não o levou com ela.
- Você não entende... -— padre Gastão olhou ao redor e puxou Aracéli pela mão, afastando-se com ela da casa.
Licínio não é confiável.
E se ele lhe fizer alguma coisa?
Aracéli compreendeu o porquê do temor de Gastão e ficou alguns minutos pensativa.
Quando falou, foi com cautela, escolhendo bem as palavras:
- O senhor está imaginando coisas.
O senhor Licínio me trata bem porque eu cuido do filho dele. Só isso.
- Quisera eu ter a sua certeza, mas meu coração não se engana.
Não precisa se preocupar.
Acho que o senhor Licínio não vai me fazer nada e, além do mais, sei me cuidar.
Estou sempre com Teodoro, e ele não seria louco de me atacar na frente do menino... seria?
- Não digo que ele vá atacá-la.
Mas um homem vivido como ele tem lá as suas manhas.
Homens feito Licínio sempre conseguem o que querem.
- Não a mim!
Não sou uma coisa que ele possa obter nem pretendo me deixar seduzir.
E, se quer saber, acho que o senhor exagera.
Não creio que o senhor Licínio tenha algum interesse em mim.
Ele é um homem rico, tem uma esposa linda e elegante, por que haveria de querer uma cabocla bronca feito eu?
- Não adiantava discutir.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 26, 2015 9:42 am

Os jovens sempre têm a mania de achar que os mais velhos é que não sabem das coisas, e Aracéli não era diferente.
Padre Gastão não conseguiria convencê-la a sair daquela casa e deixar o menino.
- Que Deus a proteja, Aracéli -— desabafou ele, quase em lágrimas.
E que livre do seu caminho todo mal que você não precise encontrar.
Depois disso, ele se foi, o coração confrangido pela impotência em proteger Aracéli.
Queria desesperadamente livrá-la daquele perigo, mas não via meios.
Só lhe restava orar.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 26, 2015 9:42 am

Capítulo 13

Naquela noite, Aracéli sonhou.
Ela estava caminhando por uma espécie de ravina e tinha o corpo todo pintado de vermelho.
A princípio, achou que era tinta indígena, mas logo percebeu que se enganara.
Passou a mão pelo corpo e sentiu a quentura do sangue.
Ouviu uma gargalhada sonora e olhou espantada na direcção de onde ela partia.
Parado mais adiante, um índio segurava um coração palpitante e executava uma dança demoníaca, rindo às alturas, enquanto um homem branco chorava e apertava o peito, tentando conter o fluxo de sangue que afluía de um corte profundo na altura do abdómen.
Acordou assustada e levantou-se de um salto, olhando para baixo como se esperasse ver sangue na humidade que fazia grudar a camisola.
Enganara-se.
A roupa continuava branca como sempre, sem nenhum vestígio de sangue, colada ao corpo pelo efeito do suor.
Na cama ao lado, Teodoro dormia tranquilamente, e ela escancarou a janela, deixando que o ar fresco da noite a envolvesse e lhe trouxesse alívio.
Tornou a deitar-se, sentindo uma espécie de presença maligna ao seu lado, e orou.
Em poucos instantes, a sensação passou e ela adormeceu novamente, dessa vez, sem sonhar.
O espírito que estivera junto dela havia desaparecido.
No dia seguinte, levou Teodoro para brincar do lado de fora, torcendo para não encontrar Licínio, mas ele não apareceu.
No outro dia, também não.
No terceiro, encontraram-se ao jantar.
Ele sentou Teodoro no colo e ficou brincando com o menino, até que a comida foi servida, quando entregou o filho novamente a Aracéli.
Ao passar a criança para seu colo, seus dedos acidentalmente se tocaram, e Licínio retirou os seus, apressado, abaixando os olhos e evitando encará-la mais do que o necessário.
Por dentro, ele quase explodia.
Só ele sabia o esforço que precisava fazer para não arrancar a roupa de Aracéli, acariciá-la, beijá-la e amá-la com ardor e fúria.
E quando sentira a pele macia dela próxima de sua mão, teve que retirá-la às pressas, como se os dedos dela estivessem em brasa, queimando-lhe a pele com a força ígnea do desejo.
Não poderia se descontrolar.
Não na frente do filho.
E ainda havia o padre.
Licínio tinha certeza de que Gastão conhecia as suas intenções.
Questionava-se se Aracéli também havia percebido alguma coisa e, em caso positivo, por que não ia embora.
Se permanecia, não seria porque ela também ansiava estar com ele?
Era preciso disfarçar.
Não queria arruinar o seu casamento nem que padre Gastão fizesse algum tipo de escândalo porque ele resolvera se divertir com sua indiazinha de estimação.
Por isso, só por isso, Licínio procurava não demonstrar o vulcão prestes a explodir dentro de seu corpo.
Tinha que se conter e aguardar o momento mais oportuno.
O sol, naqueles dias, reluzia com um calor excessivo, marcando de forma abrasiva os longos dias de verão.
Acostumada a banhar-se nos rios, Aracéli saía logo cedo com Teodoro para nadar no riacho.
Da janela de seu quarto, Licínio a acompanhava com os olhos, louco de vontade de segui-la.
Certa manhã, não resistiu mais.
Vestiu-se apressadamente e saiu sem que ninguém percebesse.
Seguiu-os a uma distância segura e ocultou-se atrás de uns arbustos, sem fazer qualquer ruído.
De forma inocente, Aracéli e Teodoro se despiram e se atiraram no riacho, cuja água cristalina e refrescante logo os cingiu.
Aracéli dava mergulhos e emergia perto de Teodoro, levantando o corpo dele e atirando-o na água.
O menino soltava gargalhadas de prazer e se apertava ao pescoço de Aracéli, que o envolvia, e afundavam juntos.
A visão do corpo nu de Aracéli foi causando uma espécie de febre em Licínio, que chegou a invejar o filho por experimentar o contacto dos seios morenos da índia.
Licínio sentia-se no lugar do menino, abraçando-a e apertando-a, alisando todo o seu corpo e beijando-a em suas partes mais íntimas.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 26, 2015 9:42 am

Quanto mais pensava, mais se excitava, e estava certo de que não conseguiria mais conter o desejo ardente.
Precisava dar um jeito de afastar Teodoro de Aracéli.
Enquanto os dois se deliciavam de forma inocente na água, ele retornou para casa e mandou chamar Zenaide, escrava bajuladora, que tudo fazia para cair nas boas graças de seus senhores.
- Vá buscar Teodoro na beira do rio -— ordenou.
Traga-o imediatamente, sem nem mesmo vesti-lo nem esperar por Aracéli.
Leve-o para o quarto e fique com ele lá.
E não saia para nada, ouviu bem?
Ou vai se ver comigo.
- Sim, sinhó -— foi a resposta da escrava.
Ela saiu, e Licínio foi atrás dela, pisando de leve para que ela não o notasse.
Seguiu-a até a beira do riacho e retomou seu lugar atrás dos arbustos.
Ao ver os dois nus dentro da água, Zenaide estacou boquiaberta e pôs as mãos nas cadeiras, falando com autoridade:
- Sinhó Licínio mandou buscar o menino.
Quer que leve ele agora.
Aracéli olhou para Teodoro e fez um gesto para que ele saísse de dentro do rio.
A escrava, mais que depressa, agarrou o menino pelo punho e saiu arrastando-o, sem nem mesmo dar-lhe chance de se vestir.
Teodoro começou a gritar, e Aracéli saiu da água, o corpo dourado reluzindo ao sol.
- Espere um minuto -— protestou ela.
Deixe-nos ao menos nos vestir.
- Sinhó Licínio mandou levar o menino assim mesmo, pelado -— comunicou Zenaide, escandalizada com a nudez de Aracéli.
E você deveria se envergonhar de andar por aí desse jeito.
Sem ligar para os protestos de Teodoro e de Aracéli, a escrava pegou-o no colo e foi saindo com ele, indignada com a atitude da índia.
- Você é que deveria se envergonhar de agir dessa maneira -– gritou Aracéli, revoltada.
Fala como os brancos, mas se esquece de que é negra.
Não tem respeito pelo seu povo?
Zenaide se enfureceu e parou abruptamente, virando-se para Aracéli com o ódio estampado no olhar.
- Isso não é da sua conta!
Eu nasci na casa de sinhá Esmeraldina, recebi educação civilizada.
E ela não me ensinou a andar pelada por aí, como uma desavergonhada!
A vontade de Licínio era esganar aquela negra.
Ele não a mandara questionar as atitudes de Aracéli nem lhe dar lições de moral.
Queria apenas que ela tirasse o filho dali e deixasse o caminho livre para ele se aproximar.
- Ponha Teodoro no chão -— falou Aracéli com firmeza.
—Ele vai para casa comigo.
- Não vai, não! —- objectou ela com rispidez, temendo perder a oportunidade de provar ao seu senhor que era boa escrava e sabia obedecer ordens.
Sinhó Licínio mandou que eu levasse ele, e é isso que vou fazer.
Teodoro se debatia no colo de Zenaide, que saiu com ele a passos apressados, deixando Aracéli, também furiosa, parada na beira do rio com o vestido na mão.
A escrava se afastou correndo, e ela começou a se vestir às pressas, tencionando alcançá-la antes que chegasse à casa.
Logo que Zenaide passou, Licínio saiu de seu esconderijo, certificando-se de que ela não podia mais vê-lo nem ouvi-lo.
Com a boca seca, aproximou-se de Aracéli, ocupada em desdobrar o vestido que tivera que despir porque, na pressa, vestira-o pelo lado do avesso.
A sombra de Licínio chegou mais perto, e ela ergueu os olhos, assustada.
Instintivamente, encobriu o corpo com a roupa e exclamou:
- Senhor Licínio!
Teodoro... saiu agora mesmo com Zenaide.
O senhor não os viu?
Ele não respondeu.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 26, 2015 9:42 am

Chegou bem perto dela e segurou-lhe as mãos, baixando-as de seu corpo para exibir-lhe nudez.
Aracéli fez força para não se descobrir, mas ele conseguiu dominá-la facilmente e retirou o vestido das mãos dela, olhando-a com uma lascívia assustadora.
- Você é linda -— balbuciou ele. -— Linda...
Ele aproximou-se ainda mais, a ponto de Aracéli sentir em seu rosto a respiração ofegante dele.
- Por favor, me solte— - implorou ela.
Está me machucando.
Ele não soltava.
Em vez disso, puxou-a para si e comprimiu os seus lábios, forçando-a a corresponder-lhe o beijo.
Aracéli tentou se soltar, mas ele dobrou os braços dela para trás e estreitou-lhe o corpo bem de encontro ao seu.
Ela estava completamente nua, e ele a jogou com facilidade na areia, deitando-se por cima dela.
- Fique quieta -— ordenou ele.
Não quero machucá-la.
Ao mesmo tempo em que era firme, Licínio agia com cuidado, evitando feri-la.
Aracéli tentou resistir, lutando para escapar, excitando-o ainda mais.
Sentir o corpo dela se debatendo sob o seu foi aumentando a sua volúpia, até que não conseguiu mais se conter.
Ouviu o grito lancinante de Aracéli quando a penetrou e tapou a sua boca, para que ninguém mais a ouvisse.
O corpo dela acompanhava o vaivém do de Licínio, até que ela cessou de se debater e apenas chorou de mansinho.
Quando ele terminou, os olhos de Aracéli estavam secos e seu corpo, imóvel.
Por um momento, Licínio pensou que a tivesse matado, mas o seu peito arfante mostrou que ela estava viva, e bem viva.
Licínio saiu de cima dela e abotoou as calças, enquanto ela permanecia deitada, a virgindade perdida manchando de vermelho a areia do riacho.
Não fosse isso, nada denunciaria o que acabara de acontecer.
Ele fora cuidadoso e não deixara manchas em sua pele, que permanecia viçosa como sempre.
- Levante-se -— falou ele por fim.
Não aconteceu nada de mais.
As palavras dele a encheram de indignação, e Aracéli, finalmente, saiu de seu torpor:
- Por que fez isso comigo, senhor Licínio, por quê?
- Do que está se queixando?
Não foi você quem disse que foi criada com toda a liberdade dos índios?
Ela abaixou os olhos, magoada, e chorou novamente, dobrando os joelhos para ocultar os seios desnudos.
- Padre Gastão tentou me alertar, mas eu não quis escutá-lo.
O senhor é um monstro.
Por um instante, ele sentiu pena dela e apanhou a sua roupa.
- Não sou um monstro, Aracéli -— disse ele, estendendo-lhe o vestido.
O monstro estava dentro de mim, e foi você quem o ajudou a sair.
- Cada um deve domar seus próprios monstros.
Não é justo usar os outros para redimir o que lhe pertence.
- Você não está entendendo.
Eu queria você. Só você.
- Mas eu não queria o senhor.
- Não queria?
Ora, não foi tão ruim assim, foi? -— ele se abaixou e afagou o rosto dela.
Fui gentil e não a machuquei.
Não vá me dizer que não gostou nem um pouquinho.
Ela não respondeu e afastou a mão dele, levantando-se para vestir-se, vagarosamente.
Enquanto se vestia, Licínio foi sentindo o desejo inflando o seu corpo novamente, mas não fez nada.
- Não precisa responder -— continuou ele.
Sei que gostou.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 26, 2015 9:43 am

Ela o olhou com desprezo e revidou com azedume:
- Iluda-se o quanto quiser.
Pouco me importa.
A partir de hoje, não fico mais aqui.
Vou apanhar minhas coisas e voltar para casa.
- Não vai, não -— objectou ele com firmeza.
Você tem responsabilidades aqui.
- Sinto muito, senhor Licínio.
Amo muito Teodoro, mas não posso mais ficar.
O senhor me dá nojo.
O comentário o desagradou, e ele se deixou insuflar pelo orgulho, sentindo necessidade de demonstrar-lhe a sua superioridade.
- Nem pense em me deixar.
Você fica enquanto eu assim determinar.
Do contrário, algo muito ruim pode acontecer.
- Está me ameaçando?
Pois não tenho medo do senhor, ouviu?
- Sei que não.
Você é jovem, forte e corajosa.
Mas padre Gastão... bem, ele não é mais nenhum jovenzinho.
Vive para cima e para baixo montado naquele burrico, e, você sabe, acidentes acontecem...
- O senhor não seria capaz! — horrorizou-se ela.
Não? Pois, então, experimente deixar-me para ver.
Depois não diga que não avisei.
- Cafajeste! -— esbracejou ela, partindo para cima dele e tentando arranhá-lo no rosto.
Licínio riu alto e segurou-a pelos punhos, ao mesmo tempo em que dizia:
- Você é mesmo uma gata selvagem, não é?
Não faz mal, gosto disso.
Mas é bom que você não confunda as coisas -— ele a fuzilou com um olhar de crueldade.
Serei tolerante com a sua selvajaria, desde que você me obedeça e faça direitinho o que eu mandar.
Ou acabo com você e o seu paizinho de saias.
Ouviu bem?
As lágrimas que escorriam pelo rosto de Aracéli eram de revolta, não de submissão.
Licínio, contudo, não viu a diferença nem se importaria com ela.
- Ouviu bem? -— repetiu ele em tom autoritário e aterrador, ao qual ela assentiu com ódio.
Óptimo. E agora deixe-me explicar-lhe como você deve proceder.
Quero que todas as noites, depois que Teodoro dormir, você desça até aqui com um cobertor limpo e perfumado.
Espere-me.
Assim que Esmeraldina pegar no sono, virei atrás de você.
Por enquanto, como minha mulher está viajando, virei fogo em seguida.
E você será boazinha. Muito boazinha.
Fará tudo o que eu mandar, sem se queixar, nem chorar, nem gemer.
Compreendeu?
Ela engoliu em seco e respondeu entre soluços de ira:
- O senhor não pode...
- Posso. Posso o que quiser.
De hoje em diante, serei o seu dono.
- Ninguém é meu dono! -— objectou ela, a raiva misturando-se à indignação.
Sou livre, não sou escrava.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 27, 2015 10:17 am

- A sua liberdade é essa que agora lhe dou -— arrematou ele com frieza, soltando os pulsos dela e empurrando-a levemente para longe.
E posso retomá-la a hora em que desejar.
Ele segurou-a outra vez pelos punhos e puxou-a para si, beijando-a na boca.
Aracéli lutou novamente, e Licínio a afastou dele, olhando-a com ar entre divertido e intimidador, sem dizer nada.
Naquele olhar, Aracéli reconheceu o peso da ameaça e temeu, sobretudo, pela vida de padre Gastão.
Licínio falava sério, e ela sabia bem do que ele era capaz.
Mesmo a contragosto, no emaranhado do desprezo por si mesma, do medo e de um ódio fremente daquele homem, viu-se obrigada a ceder.
Sentindo o tremor de seus braços, Licínio soube que havia vencido.
Ela podia morder-se de ódio, no entanto, o medo era maior.
Suas ameaças eram bem reais, e ele contava com o amor de Aracéli pelo padre para garantir a obediência dela.
Ela agora lhe pertencia.
Com essa certeza, ele a puxou para novo beijo e, dessa vez, ela não resistiu.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 27, 2015 10:17 am

Capítulo 14

Veio o domingo, e Aracéli não apareceu em casa de padre Gastão.
No outro domingo, também não, e quando chegou o terceiro e Aracéli não veio, Gastão achou que já era hora de verificar o que estava acontecendo.
Montado em seu burrico, partiu para a casa de Licínio.
Foi informado de que ela estava na beira do riacho mais abaixo, e ele encaminhou-se para lá.
À distância, ouvia a voz de Teodoro, embora não conseguisse escutar o que Aracéli dizia.
Mais próximo, identificou as palavras do menino, que a interpelava:
- Por que você não entra, Aracéli?
A água está fresca e gostosa.
- Não estou com vontade, Teozinho.
Estou bem aqui, tomando conta de você.
- Mas você sempre gostou da água...
Ele parou de falar e encarou o padre, que se acercou de Aracéli.
Ela se levantou apressada, julgando tratar-se de Licínio, mas relaxou os músculos e distendeu a face num sorriso verdadeiro, atirando-se nos braços de seu pai.
- Como está a minha menina? -— perguntou ele, acariciando-lhe os cabelos.
- Aracéli está esquisita -— respondeu Teodoro.
Não quer cais brincar e há dias não entra na água.
- Aconteceu alguma coisa? -— retrucou ele, segurando o queixo miúdo de Aracéli.
- Nada, padre.
Eu apenas me cansei dessas brincadeiras.
- Está cansada de mim? -— era o menino.
Você vai embora?
Aracéli fez que não com a cabeça, e Teodoro saiu da água.
- Venha se vestir —- disse ela, estendendo-lhe as roupas.
- Mas primeiro a gente não se seca?
Teodoro se estirou ao sol, e Aracéli começou a dobrar suas roupas, evitando encarar padre Gastão.
- Aracéli -— chamou, e ela voltou o rosto para ele.
Eu a criei desde que nasceu.
Conheço-a melhor do que ninguém e sei que alguma coisa está errada.
O que é?
-  Impressão sua, padre.
Estou só um pouco cansada.
Tenho trabalhado demais.
- É por isso que não tem ido para casa aos domingos?
- Dona Esmeraldina não está... e Teodoro precisa de mim.
- Você está mentindo.
Sei que é difícil fazermos coisas as quais não estamos acostumados e, como você não está acostumada a mentir, não está mentindo direito -— ela não disse nada e, quando seus olhos começaram a lacrimejar, voltou o rosto apressada.
Foi o senhor Licínio?
Ele lhe fez alguma coisa?
- Não, padre. Ele não me fez nada.
Desenvencilhando-se dele, Aracéli foi sentar-se ao lado de Teodoro, que abriu os olhos quando ela passou pela sua frente, barrando a claridade do sol.
Padre Gastão aproximou-se também e ficou contemplando-a vestir o menino.
- Já vamos voltar? -— indagou a criança.
- Está na hora do almoço, e você sabe que seu pai não gosta que se atrase.
- Padre Gastão vai almoçar com a gente?
- Depende de seu pai.
Depois de vestido, Teodoro deu a mão a Aracéli e a padre Gastão, e os três voltaram para casa em silêncio, quebrado apenas pelas ingénuas observações do menino, que apreciava os pássaros e os insectos.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 27, 2015 10:17 am

Da janela da sala, Licínio os viu aproximando-se e fez um muxoxo de desagrado.
Não queria aquele padre intrometido interpondo-se entre ele e Aracéli.
Ainda assim, saiu para cumprimentá-lo, a fim de não levantar suspeitas.
- Muito boa tarde, padre Gastão -— saudou ele, estendendo a mão para o outro.
O que o traz ao meu humilde lar?
- Vim ver como Aracéli está passando.
Ela não tem ido para casa, e fiquei preocupado.
- Como pode ver, ela está muito bem, cuidando de Teodoro.
Não é, meu filho?
- É, sim, papai.
- O nosso trato, contudo, não foi esse -— rebateu o padre.
Consenti que Aracéli viesse cuidar do menino com a condição de que fosse para casa aos domingos.
Ela ainda é uma criança.
- Ela não é mais criança, padre -— rebateu Licínio, com uma estranha entonação que Gastão não conseguiu definir.
Já tem dezasseis anos.
Idade bastante para se casar.
- Você vai se casar, Aracéli? -— retrucou Teodoro, de forma inocente.
Ela meneou a cabeça e falou com certa ousadia:
- Gostaria de ir para casa hoje, se não se importa, senhor Licínio.
Quero estar com padre Gastão.
- Na verdade, importo-me sim -— declarou Licínio.
E o padre deve ter coisas mais importantes a fazer do que ficar paparicando você.
Não tem missas para rezar hoje?
- Já celebrei as missas matinais, e agora só tem a das dezoito horas.
- Ainda me resta tempo para aproveitar sua companhia - —continuou Aracéli.
Sinto muitas saudades de meu pai.
O olhar de Licínio era assustador, ao menos para Aracéli.
Ele deu um sorriso irónico, mexendo apenas o canto da boca e, olhando para o burrico do padre, acrescentou em tom mordaz:
- Bela montaria a sua, padre.
Mas não é perigosa?
- O quê? — fez Gastão, o pensamento ligado em Aracéli.
—Ah! O burrico? Não, é seguro.
- É preciso tomar cuidado com esses animais.
Às vezes, são imprevisíveis.
Padre Gastão não compreendeu a referência ao burro, mas Aracéli identificou a ameaça velada.
- Por que o padre não almoça connosco? -— tornou Teodoro.
Assim, Aracéli fica feliz e não precisa ir embora.
Aracéli deu graças a Deus pela interferência de Teodoro e, para sua surpresa, ouviu a voz grave de Licínio:
- É uma boa ideia, meu filho.
Vá, Aracéli, vá avisar na cozinha que temos um convidado para o almoço.
E você, hoje, se sentará connosco.
Pouco à vontade, Aracéli sentou-se à mesa para almoçar, aproveitando ao máximo a companhia de padre Gastão.
Ele ficou até as três horas, quando teve que partir por causa da missa das seis.
Despediu-se de Licínio e de Teodoro, e Aracéli acompanhou-o até o portão.
Gostaria que ficasse -— disse ela, segurando a mão do padre e levando-a ao rosto.
- Você pode voltar comigo.
Não há nada que a prenda aqui.
Ele não tem poder sobre você.
- Não se trata disso — retrucou ela, a voz já embargada pela emoção.
— Não quero deixar Teodoro sozinho.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 27, 2015 10:17 am

- Tem muita gente nessa casa para que o menino se sinta sozinho.
- Gosto de Teodoro.
É por ele que fico.
Não era a verdade integral, mas também não era mentira.
Padre Gastão suspirou profundamente e a abraçou com ternura, pousando-lhe demorado beijo na testa.
Em seguida, montou em seu burrico e partiu.
À noite, depois que Teodoro dormiu, Aracéli apanhou o cobertor e foi ao encontro de Licínio, que já a aguardava na beira do rio.
Ela mal teve tempo de estender a manta, porque Licínio a puxou pelos cabelos e deu-lhe um beijo asfixiante, ao qual ela não pôde fugir.
- O que pensa que está fazendo? -— rugiu ele, os olhos chispando de cólera.
Quer pôr tudo a perder?
- Não fiz nada — gemeu ela.
- Você e esse padreco têm algum segredo.
O que é? São amantes?
A insinuação causou-lhe tanta indignação que, sem sentir, Aracéli estalou-lhe uma bofetada no rosto, provocando uma fúria em Licínio que ela nunca havia visto.
Na mesma hora, ele devolveu o bofetão, mas com tamanha violência que Aracéli rodopiou sobre si mesma se estatelou no chão, a vermelhidão começando a se espalhar pela face morena.
- Nunca mais, enquanto viver, torne a fazer uma coisa dessas — esbracejou ele.
Se não quiser experimentar a força do meu punho ou a ponta do meu chicote.
Aracéli estava aturdida demais para falar e permaneceu sentada no chão, engolindo as lágrimas e os soluços.
Não daria a Licínio o gostinho de vê-la chorando porque havia apanhado.
Ele, porém, parecia não se dar conta de seu drama interior.
Com uma brutalidade desconhecida, atirou-se sobre ela e forçou-a ao sexo.
Aracéli se submeteu, permitindo que crescesse dentro do peito o ódio que sentia por ele.
Quando ele terminou, puxou-a para si e fez com que ela deitasse a cabeça sobre seu peito.
- Não queria bater-lhe, Aracéli, mas você provocou.
Não admito que mulher alguma me bata na face — ela não disse nada.
E quanto a você e ao padre, admito que exagerei.
Peço que me perdoe a insinuação maldosa.
Sei que são como pai e filha, mas o caso é que fiquei com ciúmes ao ver vocês se abraçando.
Gostaria que você sentisse por mim o mesmo que sente por ele.
As palavras de Licínio causaram imenso espanto em Aracéli, que ergueu a cabeça e o encarou.
- Padre Gastão me conquistou pelo amor.
O senhor me domina pelo medo.
Como pode pretender que meus sentimentos por ambos sejam iguais?
- Não quero que sinta medo de mim.
- Não tenho medo do senhor.
Temo a sua maldade e o que ela pode fazer a meu pai.
- É isso, Aracéli? Acha que sou mau?
- O senhor é mau.
E não gosto do senhor.
A menina tinha coragem, o que causou imensa admiração em Licínio.
Contudo, ele não podia permitir que Aracéli o tratasse como um igual e revidou com rispidez:
- Você não precisa gostar de mim.
Basta me obedecer.
A discussão estava encerrada, porque Licínio se deitou sobre Aracéli novamente.
A vontade dela era de empurrá-lo para longe e fugir correndo dali, mas sabia que ele concretizaria suas ameaças, e a vida de padre Gastão correria perigo.
Por Teodoro, não temia.
Apesar de gostar do menino, tinha certeza de que Licínio amava o filho acima de qualquer coisa e nada faria contra ele.
Por enquanto, sua única opção era submeter-se.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 27, 2015 10:18 am

Capítulo 15

Não havia dúvidas na cabeça de Gastão de que algo muito errado estava acontecendo em casa de Licínio.
Aracéli estava diferente, mais séria e calada.
Ela, que sempre fora uma moça alegre, parecia haver perdido o viço da juventude, e ele estava certo de que Licínio tinha alguma coisa a ver com aquilo.
No entanto, não havia nada que pudesse fazer.
Tentara convencer Aracéli a voltar para casa, mas ela se recusara, alegando responsabilidades para com Teodoro.
No íntimo de Gastão, todavia, ele sabia que aquilo não era verdade.
Só lhe restavam suas orações.
Homem de fé, acostumara-se a rezar por tudo, para pedir e agradecer, ou simplesmente para desafogar seu coração.
E, todas as noites, orava para que Deus protegesse Aracéli das garras de Licínio.
Com o passar dos dias, Gastão acostumou-se a visitar a menina aos domingos, já que ela não aparecia mais em sua casa.
Sempre que a via, ela estava com ar cansado e triste, mas não havia meios de fazê-la contar o que a afligia.
Até que, finalmente, Esmeraldina retornou de Salvador.
- Padre Gastão, que surpresa agradável! -— exclamou ela, beijando a mão do clérigo.
- Dona Esmeraldina! -— retrucou Gastão - feliz por vê-la de volta.
Quando foi que chegou?
- Ontem à noite.
Foi uma viagem terrível, o senhor nem queira saber.
Cheguei e logo fui dormir.
- E a família, como está?
- Oh! Muito bem.
Meu sobrinho é lindo, e meu cunhado não cabe em si de contentamento.
- Fico satisfeito que esteja tudo bem.
- A propósito, padre, já que está aqui, não se importaria de rezar uma missa?
Faz tempo que a capela está fechada, porque Licínio não se incomoda com religião.
- Pois deveria.
A religião aproxima o homem de Deus e o ajuda a compreender a vida.
- Quer dizer então que posso contar com o senhor para a missa?
- Lamentavelmente, não vim preparado para a celebração...
- Ah! Isso não é empecilho.
Mando um escravo agora mesmo a sua casa buscar o necessário.
- Mas eu preciso estar de volta para a missa das seis!
- Veja bem, padre, não é longe.
A cavalo, chega-se rapidamente.
- Está certo, dona Esmeraldina, desde que eu possa levar Aracéli comigo esta tarde.
- Nem sei por que ela ainda está aqui, se o combinado foi que voltaria para casa aos domingos.
- É que Aracéli não quis deixar Teodoro sozinho.
Como a senhora estava ausente, ela se dispôs a ficar.
- Bom, isso agora não será mais necessário.
Ela pode retomar a rotina.
Ao receber a notícia de que Aracéli voltaria para casa naquela tarde, Licínio quase espumou de raiva.
Após o primeiro momento de cólera, a reflexão levou-o a concluir que, no momento, seria o mais aconselhável.
Esmeraldina passara três meses fora, e o esperado era que ele cumprisse o seu papel de marido.
Não seria prudente que ele fosse ao encontro de Aracéli naquela noite.
A moça recebeu com entusiasmo a notícia de que iria para casa ao menos por uma noite.
Sentia saudades de seu lar, da igreja e dos cuidados que tinha com padre Gastão.
Sem falar nos passeios que estava acostumada a fazer pelas matas atrás do pátio da igreja.
Logo após a missa, Esmeraldina mandou que uma carruagem levasse padre Gastão e Aracéli para casa.
Com o burrico amarrado atrás, eles partiram, e o coração da índia, pela primeira vez naqueles três meses, festejou a alegria e a liberdade.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 27, 2015 10:18 am

- Feliz por estar indo para casa? -— indagou Gastão, vendo que ela respirava profundamente o ar que entrava pela janela.
- Muito! Queria não ter mais que voltar.
Aracéli dissera aquilo num impulso que o padre não deixou passar despercebido.
- Por que não quer mais voltar?
Pensei que gostasse do menino.
- Eu gosto... -— balbuciou ela.
— Mas é que sinto saudades de casa.
- Você não está sendo bem tratada naquela casa, minha filha.
Eu sinto isso.
- Bobagem, padre.
Teozinho é um amor de menino.
- Não me refiro à criança.
Sei o quanto Teodoro a aprecia.
Falo do senhor Licínio e da senhora Esmeraldina.
- Eles são apenas vaidosos -— disse ela com cautela.
—Mas não me incomodam.
Habilmente, Aracéli desviou a conversa para assuntos mais amenos, e Gastão não insistiu.
Se havia algo errado ele iria descobrir em seu tempo certo.
No momento, queria aproveitar a companhia da filha para conversarem e lerem juntos, como costumavam fazer.
Naquela noite, Licínio obrigou-se a amar a mulher, pensando que amava Aracéli.
Esmeraldina não era velha, mas seu corpo já não guardava mais o frescor da juventude, castigado que fora pela gestação e o parto, ao passo que Aracéli possuía ainda as formas rígidas e macias.
Mesmo assim, Licínio fez o que era esperado rapidamente e sem muito entusiasmo.
- Como ficaram as coisas por aqui? — indagou ela depois, enquanto passava a escova no cabelo.
- Muito bem.
- E Teodoro?
Ele parece não ter sentido muito a minha falta.
- Isso é porque Aracéli não saiu do lado dele.
Ficou o tempo todo aqui, abrindo mão até de voltar para casa aos domingos.
- Padre Gastão parece não ter gostado de tanta dedicação.
- Padre Gastão é ciumento e quer a índia só para ele.
- Talvez seja melhor mesmo devolvê-la.
Você sabe que faço minhas restrições a Aracéli.
- Você acabou de chegar de uma viagem longa e exaustiva.
Não acha melhor deixar isso para depois?
- Tem razão.
Não quero me desgastar desnecessariamente.
- Ainda mais depois desta noite -— finalizou ele, carregando na doçura da voz e abraçando-a por trás.
Ela sorriu e apertou os braços dele.
Encarando-o pelo espelho, questionou:
- E você?
O que fez na minha ausência?
- O de sempre.
Fui ao garimpo, perambulei pela cidade, fiz-lhe algumas compras...
- Compras?
Os olhos de Esmeraldina brilharam, enquanto Licínio apanhava no baú um pacote bem embrulhado em veludo vinho.
Estendeu-o para ela, que o apanhou e o desembrulhou avidamente.
Dentro, um maravilhoso colar de ouro e rubis reluziu à luz das velas.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 27, 2015 10:18 am

Ela apanhou o colar e o revirou entre os dedos, espantada com a quantidade de pedras incrustadas no metal dourado.
- Então? Gostou?
- Se gostei? É maravilhoso!
- E isso não é tudo.
Passou por aqui um mercador de sedas, e veja o que consegui.
Mais uma vez, ele abriu o baú e dele retirou três peças da mais pura seda, desenrolando-as sobre a cama.
- Licínio! -— exclamou ela, experimentando a maciez do tecido.
Mas são lindas!
- E de boa qualidade.
E veja só o que mais!
Novamente, de dentro do baú surgiu um frasco de perfume, que ele destampou e ofereceu ao nariz de Esmeraldina, que o inspirou profundamente.
- Hum... -— fez ela, maravilhada.
Que aroma!
- Directo da França, meu bem.
- E o que mais? -— exaltou-se ela, pulando sobre o baú e tentando levantar-lhe a tampa.
O que mais há nesse baú do tesouro?
Licínio abriu o baú, e dentro ainda havia dois leques de pena de pavão, três pares de sapatos cintilantes, mais três peças de jóias:
um colar de pérolas, um brinco de brilhantes e um bracelete de ouro e prata.
- Meu Deus!
Como você conseguiu tudo isso?
- Somos pessoas ricas, Dina.
Tudo se compra com dinheiro.
Na verdade, as três últimas jóias Licínio ganhara em apostas de dados com amigos abastados que frequentavam a mesma taverna, tendo negociado o restante com um mascate.
Tudo para impressionar Esmeraldina e impedir que ela o crivasse de perguntas sobre o que fizera em sua ausência e, principalmente, sobre Aracéli.
- É tudo tão maravilhoso! -— disse ela embevecida.
Oh! Licínio, você é um homem extraordinário.
Realmente sabe como agradar uma mulher.
- Sei como agradar a minha mulher.
Só a minha esposa merece tudo isso e muito mais.
O efeito dos presentes foi o esperado.
Inebriada com tantas riquezas, Esmeraldina deixou de lado a curiosidade e a preocupação com o marido, ocupada que estava em experimentar tudo o que ganhara.
Licínio sorriu, intimamente satisfeito consigo mesmo.
Conhecia a ambição da mulher que ele podia sempre usar em seu benefício.
Quando ela se cansou e foram dormir, Licínio custou a pegar no sono, remoendo a falta que Aracéli fazia.
Acostumara-se a estar com ela todas as noites, ainda que não fizessem amor, quando ele se satisfazia em admirá-la ou simplesmente acariciar o seu corpo.
Dali em diante, precisava ter cuidado para que Esmeraldina nunca descobrisse sobre Aracéli.
Se isso acontecesse, ele lamentaria muito, mas teria que se livrar dela.
Como a índia não era sua escrava, não poderia simplesmente mandá-la de volta para a senzala e calar a sua boca.
Havia o padre intrometido que bem poderia comprometer a sua reputação.
Pensar naquilo lhe causava angústia, porque Licínio não queria se desfazer de Aracéli.
Mas sabia que, entre ela e a esposa, não haveria dúvidas sobre qual das duas escolher.
Esmeraldina era a mulher virtuosa e elegante com quem se casara, aquela que mantinha o respeito de seu nome.
Aracéli não passava de uma cabocla anónima, rude e sem trato, cuja serventia se limitava aos estreitos de um cobertor.
Entre as duas, ficava com Esmeraldina.
Com Aracéli dava vazão a seus instintos mais primitivos, ao passo que Esmeraldina lhe evocava a civilidade e a honradez.
E ele tinha que manter estas últimas se quisesse conservar sua respeitabilidade e, no futuro, conquistar um título de nobreza.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 27, 2015 10:18 am

Capítulo 16

Foi com alívio que Licínio viu Aracéli chegar na segunda-feira, logo pela manhã.
Por mais que a houvesse ameaçado, temia que ela, vendo-se a sós com o padre, lhe contasse tudo e decidisse não voltar.
Se ela tomasse essa atitude, ele teria que reagir, e matar o padre era algo que, embora previsível, não era o mais aconselhável.
Sem oportunidade de falar com ela, Licínio se conformava em olhá-la à distância.
Embora Esmeraldina não houvesse percebido nada de errado na conduta do marido, vivia atrás dele pela casa e não lhe dava chance de ficar a sós com Aracéli.
Ao se deitarem, adormeceu abraçada a ele e, quando ele se levantou, sentindo o vazio na cama, abriu os olhos ainda a tempo de vê-lo encaminhar-se para a porta.
- Vai a algum lugar? -— perguntou ela, sonolenta.
- Preciso urinar -— respondeu ele, mas mudou de ideia e voltou para a cama.
- Você não queria urinar? -— replicou Esmeraldina.
- Perdi a vontade.
Vamos dormir.
Naquela noite, Licínio não foi ao encontro de Aracéli.
Para ela, foi uma alegria.
Esperou até bem depois da meia-noite, quando então desistiu e voltou para o quarto de Teodoro.
Na noite seguinte, ele também não apareceu, nem na outra, nem na próxima, nem nas noites seguintes.
Certa de que, com a volta da mulher, Licínio se cansara dela, Aracéli respirou aliviada e deixou de comparecer à beira do riacho.
Ao contrário do que ela imaginava, Licínio não se cansara dela.
Muito pelo contrário.
A cada dia, seu desejo aumentava mais e mais, insatisfeito com o amor insosso que Esmeraldina lhe oferecia.
Apenas não conseguia se ausentar porque ela se agarrava a ele e despertava todas as vezes que saía do seu lado.
Até que, saturado de uma paixão mal saciada, resolveu tomar suas providências.
Ao jantar, carregou nas taças de vinho, incentivando a mulher a beber, até que ela, zonza e com o rosto afogueado, acabou adormecendo pesadamente, dando a Licínio a chance de sair sem ser notado.
Chegando ao lugar do encontro, qual não foi a sua surpresa ao constatar que Aracéli não estava ali.
Licínio ficou furioso e gritou alto, tão alto que espantou as corujas próximas.
Voltou para casa enraivecido e foi directo ao quarto do filho.
Aracéli dormia tranquilamente ao lado do menino, e ele a sacudiu com força, tapando a sua boca para que ela não gritasse de susto.
- Venha comigo -— ordenou num sussurro exasperado.
Trôpega de sono, Aracéli obedeceu.
Levantou-se e saiu do jeito que estava, de camisola e sem apanhar o cobertor.
Ela o foi seguindo pelo corredor, temendo ser surpreendida por alguém.
Licínio, contudo, parecia não se incomodar com uma possível aparição de Esmeraldina.
Chegando à beira do riacho, Licínio puxou Aracéli com violência e rasgou sua camisola, deitando-a no chão com impetuosidade.
- Nunca mais me deixe esperando -— dizia ele, ao mesmo tempo em que investia contra ela.
Você é minha, Aracéli, minha!
Você me deve isso!
Ela não compreendeu bem e chorou baixinho.
Só quando ele terminou foi que ela tentou se explicar:
- Vim as outras noites, mas o senhor não apareceu.
Então, pensei que tivesse se cansado de mim.
- Nunca! Não vim porque não consegui me desenvencilhar de Esmeraldina, mas nunca vou me cansar de você.
Deveria saber disso.
Não se lembra do que lhe disse? -— ela não respondeu.
—Não se recorda de que lhe mandei vir todas as noites?
Pois é isso que você tem que fazer.
Se eu não vier, é porque não pude.
Então, você volta para o quarto e vem na noite seguinte.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 27, 2015 10:18 am

Quero que faça isso sempre, quer eu compareça, quer não.
Entendeu?
Ela assentiu e buscou a camisola rasgada para encobrir o corpo, porque começava a chover.
- Como vou voltar para casa desse jeito?
E se dona Esmeraldina me vir?
- Minha mulher dorme um sono pesado depois que eu a embebedei.
Foi a única maneira que encontrei de sair e vir ao seu encontro.
- Senhor Licínio... -— começou ela a dizer pausadamente -— será que não é hora de pararmos de nos encontrar?
Pode ficar perigoso...
- De jeito nenhum!
Não posso prescindir de você, Aracéli.
Se quiser, pode se sentir envaidecida, mas você me enlouquece de um jeito que nenhuma outra mulher consegue.
Nem Esmeraldina, nem as rameiras com quem andei.
Você é especial e é minha.
- Não sou sua.
O senhor me usa, mas eu não lhe pertenço.
- Engano seu.
Você pertence a mim, e é meu direito fazer com você o que bem entender.
Não! -— bradou ela de um salto.
Jamais pertencerei ao senhor nem a ninguém.
Minha alma é livre, e aprisionar o meu corpo não vai me impedir de ir ao encontro dessa liberdade.
O senhor é quem está preso:
na sua ignorância, na tirania e na ilusão de que é maior do que Deus!
Dizendo isso, Aracéli rodou nos calcanhares e correu de volta a casa, deixando Licínio espantado e sem acção.
Pensou em correr atrás dela, mas seria abandonar a prudência.
Já fora ao seu quarto no meio da noite.
Retornar lá com a raiva que estava acabaria acordando todo mundo na casa. Não.
No dia seguinte, ele lhe daria a lição que merecia.
Ele mal conseguiu dormir naquela noite.
A todo instante, acordava com as palavras de Aracéli ressoando em seus ouvidos, e uma febre rancorosa foi tomando conta dele.
Ao café da manhã, não conseguia disfarçar a raiva.
Não dizia nada, mas olhava para ela como quem está prestes a trucidar o inimigo, e tanto ódio acabou despertando a atenção de Esmeraldina.
O que foi que Aracéli fez? -— perguntou ela.
- Nada -— respondeu ele assustado.
Por quê?
Você olha para ela como se quisesse devorá-la viva.
Ela fez alguma coisa?
Não.
- Maltratou Teodoro?
Não.
Então, o que é?
Nada, já disse.
Depois que Esmeraldina o questionou, Licínio procurou disfarçar e não olhou mais para Aracéli, embora seu coração saltasse do peito toda vez que ela passava.
Teve que aguardar até a noite para vê-la, temendo que ela não comparecesse.
Como havia feito antes, serviu uma dose excessiva de vinho à mulher e, assim que ela pegou no sono, saiu do quarto.
Aracéli já o aguardava, enrolada no cobertor para se proteger da chuva.
Ele se aproximou e, sem dizer nada, puxou-a para cima, beijando-a com furor.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 27, 2015 10:19 am

Em seguida, atirou longe o cobertor e rasgou novamente a sua camisola, deitando-a sobre a areia fria.
Ele estava sendo mais bruto do que o habitual, e Aracéli gemeu de dor.
Licínio fez com ela o que quis.
Quando terminou, os olhos dela estavam secos, mas transmitiam um ódio que ele foi capaz de sentir.
- Você me odeia, não é? -— ela não respondeu.
Se pudesse, me mataria, mas sou eu quem tem esse poder.
Se me matar, seu destino é a forca, e seu paizinho de saias vai ficar muito triste.
Mas eu... posso fazer com você o que bem entender -— ele passou as mãos em volta do pescoço de Aracéli e começou a apertar.
Posso acabar com você aqui mesmo, agora, e nada irá me acontecer.
Sabe por quê? Porque você não é nada nem ninguém.
É uma caboclinha atrevida, mas mais insignificante do que um insecto.
E o que é que se faz com os insectos?
Nós os esmagamos.
Posso esmagar você sem nenhuma consequência.
Então? Quem é que ousa falar em liberdade?
Eu sou livre para fazer com você o que bem entender, mas você não pode sequer pensar em me atacar ou agredir.
Sua vida me pertence, está em minhas mãos, eu é que sou livre para decidir o que fazer com você.
Enquanto falava, Licínio ia estrangulando-a aos pouquinhos, enquanto Aracéli se debatia, tentando desesperadamente puxar as mãos dele de seu pescoço.
O desespero dela dava-lhe um prazer mórbido, e ele continuou a apertar, até ela quase desmaiar.
Quando sentiu que ela estava prestes a desfalecer, Licínio a soltou, e o ar penetrou pela garganta de Aracéli com a rapidez de um cometa, inflando seus pulmões como uma rajada de vento.
Ela tossiu e se engasgou várias vezes, para divertimento de Licínio.
Logo que ela se recuperou, excitado pela proximidade da morte de Aracéli, Licínio a subjugou novamente, mas, dessa vez, ela lutou contra ele.
Debateu-se sob seu corpo, aumentando ainda mais o desejo dele.
Ela era pequena, e ele facilmente a dominou.
- Chega... -— implorou ela num sussurro.
Não aguento mais...
Por que não me matou?
Preferia morrer.
- Acha mesmo que eu aniquilaria o meu brinquedo favorito?
Onde é que eu iria arranjar outra caboclinha apetitosa feito você?
Aracéli o encarou com ressentimento e rancor.
Naquele momento, sentia que as palavras seriam inúteis para traduzir toda a angústia que lhe ia na alma.
Simplesmente balançou a cabeça e começou a se levantar, puxando o cobertor por sobre o corpo.
Já nem tinha mais o que vestir.
Enrolada na coberta, o corpo todo dolorido da brutalidade e da humilhação, virou as costas a Licínio, mas, antes que começasse a retornar, ele a puxou pela mão, obrigando-a a ficar de frente para ele.
- Não fique triste nem com raiva, Aracéli -— falou em tom ameno.
Gosto de você, mas não posso permitir rebeldias.
Perdê-la me levaria à loucura, por isso, não me obrigue a livrar-me você.
Não seria bom para nenhum de nós.
Ela puxou a mão com força e correu para casa, atirando-se na cama e chorando copiosamente.
Teodoro ouviu o seu pranto e abriu os olhos, espantado ao perceber que era ela quem chorava.
- Aracéli -— chamou, saltando para a cama dela e a abraçando, sem nem perceber que ela estava nua por debaixo do cobertor.
O que aconteceu, Aracéli?
Foi um sonho ruim?
- Ah! Teodoro...
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 27, 2015 10:19 am

Abraçou-se a ele, e chorou ainda mais, ouvindo a vozinha miúda do menino, que repetia com amorosidade:
- Não chore, Aracéli, eu estou aqui.
Não vou deixar nenhum monstro pegar você.
As palavras de Teodoro só fizeram aumentar o seu pranto.
Agarrada a ele, Aracéli chorava e soluçava, não se importando mais com quem pudesse ouvi-la.
Do lado de fora, Licínio escutava com o ouvido grudado à porta.
Ouviu distintamente o seu choro e o consolo de Teodoro.
Pé ante pé, abandonou a porta do quarto do filho e voltou para sua cama.
- O que foi que houve? — perguntou Esmeraldina, sonolenta.
- Nada. Fui urinar.
Alguma coisa muito errada estava acontecendo naquela a, e essa certeza desanuviou o efeito do álcool do cérebro de Esmeraldina, que esfregou os olhos com vigor, lutando para restabelecer a sobriedade.
Os olhares de Licínio para Aracéli, que ela surpreendera várias vezes, retornaram-lhe à lembrança.
Seria possível que o marido estivesse se engraçando para aquela selvagem?
Ela deitou a cabeça sobre o peito dele e inspirou fundamente.
Um cheiro que misturava suor e sexo infiltrou-se em suas narinas, e ela afastou-se enojada.
- Por onde você andou? -— inquiriu duramente.
- Fui urinar, já disse.
- Você cheira como quem acabou de fazer sexo.
Ele quase pulou da cama, mas conseguiu manter a calma aparente e redarguiu com mal contida indiferença:
- Você está sonhando.
Cheiros não dizem nada.
Cheiros diziam tudo, e ela conhecia muito bem aqueles odores.
Não retrucou, porém.
Queria certificar-se de suas desconfianças, para depois agir.
Havia muitos escravos naquela casa, e não seria difícil encontrar algum que tivesse algo para contar.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 27, 2015 10:19 am

Capítulo 17

Havia quietude e silêncio quando a janela do quarto de Teodoro se abriu lentamente.
De modo sorrateiro e quase imperceptível, Aracéli se esgueirou pela janela e saltou para o lado de fora, sem emitir qualquer ruído.
Caiu e rolou para o chão, apanhando a trouxa com suas poucas roupas.
Levantou-se, sacudiu o corpo dos pedaços de grama e ainda deu uma última olhada para cima, pensando no quanto Teodoro ficaria triste quando acordasse e não a visse.
Lamentava por ele, porque aprendera a amá-lo de verdade, assim como sabia que o amor do menino também era verdadeiro.
Contudo, não podia mais suportar tanta humilhação.
Como uma lebre, correu para fora do pátio, sempre se ocultando nas sombras da noite.
Foi correndo o mais que pôde sem fazer barulho e só parou quando a casa já não era mais visível à distância, caminhando então para dentro da noite.
Na casa de padre Gastão, tudo ainda permanecia quieto.
Em breve ele despertaria para suas obrigações matinais, mas, por enquanto, as janelas estavam cerradas e não havia nenhuma lamparina acesa além daquela que guarnecia o pequenino altar em seu quarto.
Aracéli experimentou a porta.
Estava trancada, e ela bateu levemente.
Tornou a bater, dessa vez aplicando mais força e aguardou até que um ruído lá dentro anunciou que padre Gastão havia acordado.
- Quem é? -— perguntou ele, do outro lado da porta.
- Sou eu, padre, Aracéli.
Deixe-me entrar.
A porta abriu-se imediatamente, mostrando um Gastão lívido e assustado.
- Aracéli!
Por Deus, o que foi que houve?
Em vez de responder, ela se atirou nos braços dele e desatou a chorar.
Gastão levou-a para dentro e trancou a porta, conduzindo-a até seu quarto.
Ela se sentou na cama e alisou a colcha de retalhos que ela mesma costurara, pousando a cabeça na almofada macia e humedecendo-a com suas lágrimas.
- Que foi que houve, Aracéli? -— repetiu o padre.
O que fizeram a você?
Ela olhou para ele e enxugou os olhos.
Não queria preocupá-lo com o mal que já estava feito e não havia como desfazer.
- Não posso mais ficar naquela casa, pai — anunciou.
- Por que não?
Eles a trataram mal?
O senhor Licínio lhe fez alguma coisa?
Engolindo em seco, ela respondeu com Cautela:
- Não. Mas ele é uma pessoa detestável e gosta de me humilhar.
- Como? O que ele fez?
- Prefiro não falar.
- Você tem que me contar, Aracéli!
É preciso que eu saiba para poder protegê-la.
Não tenho o que contar.
Apenas não gosto de ser humilhada só porque sou índia.
- Então é isso?
Ele a humilha porque você é índia? -– ela assentiu, e ele continuou:
- — Não acredito.
Você não está acostumada a mentir e não sabe fazê-lo direito.
Mas não importa.
Estou feliz porque voltou sã e salva.
Todos os dias fico orando para que você retorne em segurança, e hoje Deus ouviu as minhas preces.
Vamos rezar e agradecer.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 27, 2015 10:19 am

Padre Gastão apanhou-a pela mão e foi ajoelhar-se com ela diante do altar.
Após a breve oração, a alma de Aracéli se aquietou, embalada pela sensação de bem-estar que se espalhara no ambiente.
Depois disso, ela se deitou em sua cama e, mansamente, adormeceu.
Do lado de fora, um espírito espumava de ódio.
Estava conseguindo ultimar a sua vingança graças à sintonia que estabelecera com Licínio e Esmeraldina.
Soriano não conseguira ainda perdoar Alejandro por tê-lo entregado aos índios.
Tivera a oportunidade, muitos anos antes, quando fora enviado para esclarecê-lo sobre a sua morte.
Contudo, fizera aquilo em obediência a seus superiores, quando, na verdade, o que gostaria mesmo era de cravar os dentes na jugular de Alejandro para vê-lo sangrar até a morte.
Alejandro mudara muito.
De espanhol sanguinário a cabocla ingénua era um grande passo.
E aquele idiota do Damian ainda pensava que era seu salvador.
O que dera nele para escolher a roupagem clerical?
Será que os anos de trevas o haviam modificado tanto assim?
Era provável, porque ele parecia sincero em sua vocação.
Soriano não podia deixar de achar aquilo tudo muito estranho, mas a esquisitice do outro não lhe interessava.
O único problema era a aura que criara ao seu redor e em volta de sua casa, que não lhe permitia aproximar-se.
Com Aracéli se passara algo semelhante.
Estranho como o sofrimento muda a vida das pessoas.
Alejandro fora um homem cruel e arrogante, mas a índia era bem diferente disso.
Ainda guardava um pouco de seu orgulho, que ela lutava com todas as forças para dominar.
De onde estava, Soriano tinha o privilégio de perceber aquelas coisas.
Até Aracéli encontrar Licínio, ele fora obrigado a se manter afastado.
Quando, porém, a moça caíra nas garras do garimpeiro, ele conseguira aproximar-se.
Enquanto morava com o padre, Aracéli vivia cercada pelas energias poderosas de suas rezas, que o mantinham afastado, impedindo-o de se juntar a ela.
Mas na casa de Licínio era diferente.
A sintonia com o antigo rival de Alejandro era perfeita para que ele pudesse dar vazão a seu desejo de vingança, e ainda podia contar com a raiva de Aracéli para fortalecer ainda mais a conexão entre eles.
Não era possível, contudo, que ela se mudasse novamente para a casa do padre.
Soriano, particularmente, não tinha nada contra ele, porque mal conhecera Damian em vida.
Haviam-se cruzado poucas vezes no navio, e a única lembrança significativa que tinha dele era do dia em que salvara Alejandro de se precipitar no mar revolto.
Já Licínio era diferente, pois tinha todos os motivos para odiá-lo também.
Não fora Damian cúmplice do acto cruel e sanguinário que tirara a vida de Lúcio e de Rosa?
"Que coisa engraçada", Soriano pensou.
Lúcio virara Licínio, Rosa, Esmeraldina. Damian, padre Gastão.
E Alejandro, que era um homem másculo, viril, arrogante e muito valente, se transformara naquela coisinha minúscula que era Aracéli.
Em seu íntimo Soriano se questionou por que apenas ele não se transformara em ninguém.
Passados quase duzentos anos, permanecia o mesmo Soriano espanhol, habitando o mesmo mundo de sombras, servindo aos mesmos senhores do mal.
Por que só a ele não fora dada a chance de uma nova vida?
Subitamente, lembrou-se de Cibele.
Será que ela também recebera uma nova chance?
Desde que desencarnara, nunca mais tivera notícias suas.
Teria ela reencarnado também?
De repente, sentiu imensa saudade da noiva que nunca mais tornara a ver.
Na certa certificando-se de que ele não retornaria de sua expedição criminosa esquecera-se dele e casara-se com outro.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 27, 2015 10:20 am

Não. Cibele devia ser um anjo, e anjos não se ocupavam com os que eram parte do inferno.
Soriano balançou a cabeça para afastar aqueles pensamentos de desânimo.
Não adiantava nada ficar se lamentando.
Tinha que aproveitar que recebera permissão para ultimar sua vingança antes que o chefão mudasse de ideia e mandasse chamá-lo de volta para algum serviço sujo.
Ali onde estava, entretanto, não obteria sucesso.
Precisava estimular aqueles que lhe eram receptivos, ou seja, Lúcio e Rosa.
Ninguém percebeu a fuga de Aracéli até que o dia amanheceu.
Teodoro foi o primeiro a dar o sinal.
Ao despertar, a moça não estava ali para ajudá-lo a se lavar e vestir, como sempre fazia.
O menino se levantou assustado e, não vendo Aracéli, pôs-se a chorar, atraindo a atenção de uma escrava, que correu a chamar Esmeraldina.
A mulher entrou no quarto correndo, seguida por Licínio, que pegou o filho no colo e tentou acalmá-lo.
- Aracéli sumiu -— soluçava ele.
O monstro a levou embora!
- Que monstro, que nada, Teodoro— - retorquiu Esmeraldina.
Ela simplesmente não tem responsabilidade alguma.
u não falei, Licínio?
Licínio não respondeu, mas o menino continuou a lamentar:
- Foi o monstro, mamãe, eu sei.
Ela estava chorando, com medo dele, e ele voltou para levá-la.
- Aracéli estava chorando ontem à noite?
- Estava.
- Por quê?
- Por causa do monstro.
Licínio afagou o menino e não olhou para Esmeraldina, que o fitava com desconfiança.
- O monstro não pegou Aracéli -— tranquilizou ele.
Ela só foi visitar padre Gastão, mas logo estará de volta.
- Não, não, papai, não foi isso.
O senhor não sabe, não viu...
- Eu sei.
Pode acreditar em seu pai.
Vou sair agora mesmo e trazê-la de volta.
Deu um beijo no menino e, sem encarar a mulher, pegou seu cavalo e partiu a galope para a casa do padre.
Gastão rezava a primeira missa matinal, e Aracéli não estava com ele.
Licínio foi até a casa do clérigo, nos fundos da igreja, e espiou pela janela.
Aracéli estava lá dentro, varrendo o chão, e, mais do que viu, ela sentiu a presença dele e estacou assustada.
Havia tanto ódio no olhar dele que ela sentiu como se uma onda a empurrasse para trás e teve que se segurar para não cair.
- Abra a porta, Aracéli -— ordenou ele, mas ela não se moveu.
- Abra antes que eu a arrebente ou pule a janela.
Ela abriu.
Não temia Licínio naquele momento, porque ele não seria louco de tentar nada contra ela na casa de padre Gastão.
Todavia, não precisava de um escândalo em sua porta nem dos comentários dos fiéis.
- O que o senhor quer? -— perguntou ela, afastando-se dele
- Vim buscá-la.
Teodoro pergunta por você.
Está preocupado, achando que algum monstro a levou.
- Diga a ele que estou bem, que fugi para longe do monstro e não vou mais voltar.
Ela pensou que ele fosse bater-lhe, mas ele, calmamente puxou uma cadeira e se sentou.
- Acho que você não compreendeu bem.
Teodoro reclama a sua presença, e eu a exijo.
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Re: Jurema das Matas - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 27, 2015 10:20 am

Creio que não preciso dizer o que irá acontecer se não vier comigo.
- Não vou voltar, senhor Licínio.
Não aguento mais viver como sua escrava.
Eu nasci livre.
Lamento por Teodoro, mas não posso mais me sujeitar aos seus desvarios.
Eu sou uma pessoa, não gosto de ser tratada como um insecto, e até os insectos são dignos de respeito.
- Você continua atrevida, falando o que quer e sem pensar
Nesse momento, padre Gastão irrompeu pela porta.
Vira quando Licínio entrara na igreja e dominado pela aflição, tratara de encurtar a missa e terminá-la logo.
Aracéli suspirou aliviada, enquanto Licínio permanecia impassível.
- Algum problema? -— indagou Gastão, aproximando-se de Aracéli.
- Nenhum, padre -— retrucou Aracéli.
O senhor Licínio já estava de saída.
Licínio não contestou.
Com um sorriso mordaz, se levantou.
- É verdade, já estou indo— - e dando tapinhas no ombro de Gastão, concluiu:
Que bom que é um homem forte, padre.
Saiu. Gastão não compreendeu o comentário, mas Aracéli ficou alarmada.
Tinha esperanças de que Licínio não concretizasse suas ameaças, que se cansasse dela e arranjasse outra escrava para satisfazer seus desejos.
Todavia, o olhar maldoso que ele lhe lançara não deixava dúvidas:
Licínio seria capaz de tudo para tê-la de volta.
- Padre — começou ela a dizer—, tenho medo do que o senhor Licínio é capaz.
- Ele não pode obrigá-la a voltar.
- Mas pode atentar contra o senhor.
E se ele fizer alguma coisa para feri-lo?
- Não acredito nisso.
Nada vai me acontecer.
- Tenho medo -— ela se atirou em seus braços e repetiu chorando:
Tenho medo do que ele é capaz.
Gastão acariciava os cabelos de Aracéli, até que perguntou:
- Minha filha, responda-me com sinceridade:
aconteceu alguma coisa entre vocês? -— ela não disse nada.
O senhor Licínio lhe fez algo que não deveria?
Vamos, pode me dizer. Não tenha medo.
Ela quase contou, mas não queria preocupá-lo com algo que já não tinha mais remédio.
Todavia, mentir que nada acontecera não o convenceria, e ela resolveu relatar parte da verdade:
- Ele tentou.
Quer que eu seja sua amante.
- E você?
- Eu o odeio.
Gastão sabia que a pergunta não fora bem respondida, mas conformou-se.
Pela própria vibração de Aracéli, sentia que Licínio havia ultrapassado o limite da mera tentativa.
Todavia, não desejava violar sua intimidade, sabendo o quanto seria doloroso e vergonhoso narrar os ultrajes a que Licínio poderia tê-la submetido.
E aquilo não tinha mais importância.
O importante era que ela voltara para sua casa e não precisaria mais retornar ao convívio daquele homem detestável.
- Eu jamais deveria ter consentido que você fosse trabalhar na casa dele -— lamentou-se o padre.
- Fui porque quis, porque queria experimentar coisas novas, e acabei me afeiçoando a Teodoro.
A única coisa que me entristece é saber que vou fazê-lo sofrer.
- Ele é uma criança, logo esquece. E tem mãe.
Teodoro não teria tempo de esquecer, porque Licínio não esqueceria e, mais cedo do que Aracéli imaginava, daria seu jeito para levá-la de volta.
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