A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 02, 2015 8:45 pm

A Vida Sempre Vence
Marcelo Cezar

Pelo espírito Marco Aurélio

Para Zibia Gasparetto e Lucius.
Seus livros despertaram em mim o prazer de ler, o prazer de escrever e o prazer de viver.
Deus os abençoe.

Prólogo

Quando temos a permissão de levar ao público alguma história, geralmente os espíritos envolvidos encontram-se desencarnados, evitando os transtornos causados pela curiosidade.
No caso deste livro, em particular, a maioria dos envolvidos encontra-se ainda na Terra, desenvolvendo seus potenciais, aproveitando as oportunidades que a vida dá para a constante renovação de suas atitudes.
Os nomes verdadeiros foram alterados, bem como alguns fatos da história, o que de maneira alguma deturpa nossa intenção de mostrar aos leitores a verdade.
Somos responsáveis por tudo que fazemos, daí a necessidade de fortificar nosso pensamento sempre no bem, pois o resultado de nossas escolhas abre nossa consciência, permitindo-nos optar pelo jeito melhor sob o qual queremos viver.
Se ficarmos presos em conceitos, normas e valores criados pela sociedade, mais lento se tornam o processo de evolução.
À medida que vamos nos desgarrando desses valores e seguindo nosso coração, a vontade de nossa alma, estamos dando um grande passo em nossa escala evolutiva.
A vida não erra nunca.
Ela é poderosa, está sempre presente, estejamos encarnados ou desencarnados.
Fique com a luz.
Só através dela você consegue tudo que quer.
Acredite.
Boa leitura.

Marco Aurélio Outono 2000
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 02, 2015 8:45 pm

Capítulo 1

1864 -
Os americanos estavam livres da Inglaterra, tinham a própria Constituição, mas estavam presos à Guerra Civil.
Muita gente ainda não conseguia entender como um país tão próspero podia estar guerreando entre seus próprios conterrâneos.
Declarar guerra aos índios, aos espanhóis e aos mexicanos fazia parte da rotina de expansão territorial dos Estados Unidos; o aumento de seus territórios foi assim conquistado.
Mas uma guerra entre eles próprios nunca havia ocorrido.
Pela primeira vez na história, americano estava matando americano.
A Guerra de Secessão, que se resumia à contenda dos territórios do norte com os territórios do sul do país, já durava três anos.
Os estados do norte eram os mais ricos, responsáveis pela fabricação de munições, utensílios, máquinas, bens de consumo em geral.
Os do sul eram responsáveis pela agricultura e pela pecuária.
Os alimentos consumidos pelos americanos vinham predominantemente dos estados sulinos, cuja economia era baseada no trabalho escravo, repudiado pelos territórios do norte.
Grande parte da população estava fazendo pressão para que o sul abolisse a escravidão, principalmente nessa época, em que a corrida do ouro estava no auge.
Muito ouro foi descoberto na Califórnia.
Um sem-número de pessoas abandonou tudo que tinha para tentar a sorte nas minas e fazer fortuna no oeste.
Um dos factores que contribuiu para a guerra foi o fato de o sul querer levar o trabalho escravo também para as minas do oeste, transformando os Estados Unidos numa nação praticamente movida pela escravidão.
A maior pressão a favor do fim da escravidão vinha da Inglaterra.
O país, berço da Revolução Industrial, encontrava-se em forte crescimento.
Para a rainha Vitória, interessava que o mundo fosse povoado por trabalhadores remunerados, que se tornariam consumidores dos bens produzidos pelo seu reino e pelo povo americano.
A pequena cidade de Little Flower, no estado de Ohio, nos Estados Unidos, não sentiu o peso da guerra.
Seus habitantes viviam do emprego que tinham em pequenas fábricas.
Poucos homens se alistaram para a luta armada.
Por estar numa região localizada fora da área de combate, tinha-se a impressão, muitas vezes, de que o país não estava em guerra.
Little Flower era uma típica cidade de interior, onde todos os habitantes se conheciam.
Fora baptizada com esse nome devido ao grande número de árvores floridas que possuía.
As folhas amareladas dessas árvores caíam suavemente de suas copas, derrubadas pelo sopro suave da brisa matinal, denunciando a chegada do outono.
Tudo corria bem naquela manhã, até que o grito desesperado de Norma alterou a rotina da cidade.
Correndo pela avenida principal, Norma, com os braços sacudindo para o alto, gritava e chorava ao mesmo tempo:
— Socorro! Socorro!
Nossa Senhora! Alguém corra até lá.
Algo de terrível aconteceu na casa de Sam e Brenda.
As crianças... Pelo amor de Deus...
Tomada pelo desespero, ela desmaiou no meio da praça principal, sendo socorrida pelas pessoas surpresas e nervosas que vieram a seu encontro.
Mark, o xerife da cidade, que estava por perto, correu para a casa de Sam e Brenda.
Chegando à bela casa, ele encontrou Sam debruçado na escadaria principal, com as mãos cobrindo o rosto, gritando e chorando em desespero:
— Meus filhos! Como isso pôde acontecer?
Como Deus pôde fazer um negócio desses comigo?
Levantou-se e abraçou o xerife.
— Mark, é inacreditável! Meus filhos estão mortos.
Os meus dois garotos estão mortos.
Foram me chamar lá no celeiro.
Acho que minha mulher também está morta.
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 02, 2015 8:46 pm

Mark, o que está acontecendo connosco?
Mark não sabia o que dizer.
Estava tomado por forte emoção.
Diante de seu melhor amigo, sentia em seu peito que uma grande tragédia se abatera sobre aquela família.
Após abraçar o amigo, com a voz embargada disse:
— Calma, homem! Acalme-se.
Desse jeito não vamos chegar a nada.
Tente se controlar, por favor.
Anna, a babá das crianças, apareceu na varanda.
Com os olhos inchados e vermelhos, lágrimas escorrendo pelo rosto, dirigiu-se ao xerife:
— Oh, Mark, que bom vê-lo!
Pensamos que Brenda também estivesse morta, mas ela já acordou.
Provavelmente desmaiou de susto.
Adolph foi buscar o médico.
Parece que ela está em estado de choque.
— Anna, diga-me.
E, fazendo sinal para que ela lhe respondesse com a cabeça, sem Sam perceber:
— Como estão as coisas aí dentro?
Meneando a cabeça, ela deu a entender que os bebés estavam mortos.
Só restou ao xerife abraçar o amigo.
Os dois ficaram na escadaria da casa, chorando com muita dor a perda das crianças.
O xerife Mark era padrinho dos filhos de Sam.
Mesmo não sendo o pai, para ele aquela tragédia tivera o poder de estraçalhar seu coração.
Depois de muito chorar, passando a mão na cabeça do amigo, perguntou:
— Mas como isso aconteceu?
O que se passou?
Os meninos caíram do berço?
Sam levantou-se bruscamente e, desesperado, começou a gritar:
— Estão estrangulados!
Mark, meus gémeos foram estrangulados.
Quem poderia fazer um negócio desses connosco?
Como? Não vimos ninguém entrar ou sair...
Sam parou de falar.
A forte emoção impediu-o de continuar.
Uma dor sufocante banhava sua alma.
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 02, 2015 8:46 pm

Capítulo 2

Sam casara-se com Brenda três anos antes.
Eram amigos de infância.
Filho único, Sam perdeu os pais aos dez anos.
Foi morar com o avô Roger, que se tornou seu grande companheiro até morrer, havia dois anos.
A amizade entre Sam e o avô era preciosa.
Para eles não havia diferença de idade: conversavam sobre qualquer assunto.
Eram muito amigos.
Roger fora um homem ilustre, talvez o homem mais rico de Little Flower.
Fez muito dinheiro quando descobriu algumas minas de ouro no oeste.
Juntou o que considerava ser o suficiente para que seu único filho e seu neto tivessem uma vida tranquila.
Com a morte da esposa, do filho e da nora, todo o dinheiro que havia acumulado ficaria para o neto.
Quando Roger morreu, Sam herdou toda a fortuna.
Era um homem cujos ideais estavam longe da cobiça.
Gostava de dinheiro, mas não vivia em função dele.
Para Sam, o dinheiro devia ser gasto com inteligência.
Seu maior desejo era comprar muitas fazendas no sul do país, depois da guerra.
Gostava da terra, das plantas, do mato.
Várias pessoas, inclusive o avô, já haviam insistido para que ele se mudasse para Nova Iorque.
Mas Sam não gostava de agito social, preferindo lugares tranquilos, como Little Flower.
Desde pequeno demonstrava interesse em mexer com terra.
Nas horas vagas, lá estava Sam plantando algo, cultivando qualquer coisa.
Brenda irritava-se com essa postura do marido.
Como podia um homem tão rico e tão bonito querer ficar plantando, ao invés de gastar a fortuna em viagens e festas?
Isso preocupava Sam.
Mesmo amando a esposa, sentia que teria problemas caso não usasse pulso firme, evitando que ela tomasse conta da situação e do dinheiro.
Brenda sempre lhe dizia:
— Sam, com tanto dinheiro, você acha que eu quero morar aqui, nesta cidade encravada no meio do nada, sem vida social, sem atractivos para pessoas do nosso nível?
Depois que nos casarmos, poderemos ir para Chicago ou Nova Iorque. O que acha?
— Brenda, você me conhece desde pequeno.
Acredita mesmo que eu iria querer sair daqui?
Sairia se eu tivesse a oportunidade de comprar terras no sul.
Vamos esperar o fim da guerra, quem sabe?
Brenda, nessas conversas, não se dava por vencida.
Ficava contrariada.
O homem com quem iria se casar era milionário, mas não queria mudar o padrão de vida.
Era a grande oportunidade de saírem daquela pequena cidade.
Ela queria mais.
Um dia convenceria o marido...
Sam era um jovem bonito.
Alto, forte, com fartos cabelos ruivos ondulados, olhos verdes.
Dinâmico e trabalhador, meigo e doce, era adorado por todos.
Brenda era uma bela moça.
Loira, com os cabelos cacheados até as costas, olhos azuis, algumas sardas que davam colorido a sua tez alva, um corpo bem-feito.
Sam amava-a desde pequeno.
Brenda gostava muito de Sam, mas não o amava.
Algumas pessoas mais próximas não aprovavam o namoro dos dois. Brenda era muito mimada, prepotente, arrogante.
Tinha um temperamento muito forte.
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 02, 2015 8:46 pm

Era agressiva. Tudo tinha de ser de seu jeito.
O pai mimara-a demais.
Amigos da família suspeitavam que ela era revoltada por não ter o amor da mãe.
A própria Brenda chegava a dizer isso algumas vezes, justificando seu temperamento agressivo:
— Minha mãe nunca gostou de mim.
Nunca nos demos bem.
Quando Anna veio morar connosco, piorou.
Parecia que Anna era a filha, e eu a adoptada. Mas não ligo.
Com o dinheiro do meu futuro marido, não vou precisar do amor de ninguém, e, se precisar, eu compro...
Esse era o seu discurso.
Alguns tentaram alertar Sam, mas ele não ligava para os comentários alheios.
O importante era que ele a amava, o resto não lhe interessava.
Para ele, Brenda era uma mulher doce e meiga.
Às vezes, porém, ele percebia algo de estranho no olhar da esposa, o que o perturbava.
Após duas gestações complicadas, que resultaram em dois abortos espontâneos, Brenda teve dois meninos, Jack e Roger, nomes estes em homenagem ao pai e ao avô de Sam, respectivamente.
Eram bebé lindos, embora com a saúde debilitada.
A relação de Brenda com os bebés era a mesma que sua mãe havia tido com ela.
Se sua mãe fora-lhe indiferente, por que também não ser indiferente aos filhos, pensava.
Sam tentava, debalde, contornar a situação:
— Querida, pelo fato de não ter recebido o amor que queria da sua mãe é que você deveria amar mais os seus filhos.
E, além do mais, você não pode reclamar, porque o seu pai a tratava como uma princesa.
— Sei disso, Sam.
Mas o papel do meu pai fica para você, que é pai agora.
O meu é de mãe.
Fui educada por uma mãe severa, sem amor.
Gosto dos meus filhos, mas não consigo ser uma super-mãe.
Se aquela desgraçada ao menos me tivesse dado um pouco de atenção...
— Brenda, isso é jeito de falar da sua mãe?
Como você ousa dizer uma coisa dessas?
Sua mãe era adorável.
Só porque ela não realizava os seus caprichos não significa que não a amava.
Eu nunca a vi bater em você ou ser mal-educada.
Brenda irritava-se com tais comentários, principalmente quando Sam defendia sua mãe.
Sempre rebatia, aos berros:
— Você não sabe o que é não receber amor de uma mãe.
Você teve uma mãe amorosa, foi filho único.
Eu ainda tive a vergonha de ter uma falsa irmã, que apareceu do nada, que não tem o meu sangue, que foi amada pela minha mãe.
Como ela pôde fazer uma desfeita dessas comigo?
Demonstrar despudoradamente o seu amor por Anna e não por mim?
Espero que minha mãe esteja queimando no inferno, embora preferisse um lugar pior para ela ficar, se é que existe.
Sam amargurava-se.
Não conseguia compreender como sua mulher, em questão de segundos, se transformava de esposa amorosa em uma mulher que espumava ódio.
— Querida, acalme-se. Não fale mais assim.
Você pode ter lá as suas diferenças com a sua mãe, mas não a insulte, ainda mais que ela está morta e não tem como se defender.
Vamos esquecer o passado e seguir nossa vida
Temos duas lindas crianças para criar.
E espero que seja o início de uma série.
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 02, 2015 8:46 pm

— Uma série? Você ficou maluco?
Você acha que vou estragar novamente o meu corpo e fazer mais filhos?
Que vou passar a vida com um monte de crianças correndo pela casa?
— Brenda, você sempre me disse que queria muitos filhos.
Por que isso agora?
— Porque sou eu quem engravida, e não você.
Quem é que passa nove meses com cólicas, dores e desejos esquisitos?
Quem fica na cama após o parto, inchada, com o corpo disforme e cheio de dores?
Então não venha me pedir para cumprir esse papel tão maldito que foi impingido a nós mulheres.
— Eu desconheço você, Brenda.
Há horas em que você se transforma.
Desculpe-me, não vou continuar a discussão.
Você precisa estar bem-disposta, com a cabeça boa para amamentar nossos filhos.
O amor de Sam por Brenda estava ligado ao apego que herdara de seu avô.
Mesmo tendo uma boa cabeça e sabendo lidar bem com as adversidades da vida, Sam apegava-se facilmente às pessoas ao seu redor.
Todos em Little Flower acreditavam que Sam iria enlouquecer após a morte dos pais.
Não enlouqueceu.
Como ele tinha o amor do avô, acreditavam que, quando este partisse, aí, sim, Sam não aguentaria.
E ele aguentou, pois se apoiava demais em Brenda neste aspecto.
Com o nascimento dos dois filhos, ele passou a ter três pessoas que lhe davam a sensação de segurança.
Os bebés cresciam com a saúde debilitada.
O terrível frio no inverno deixava-os constantemente gripados, febris.
Mesmo assim, Sam seguia feliz, amando seus filhos e não se preocupando com a falta de amor de Brenda.
Segundo o modo de pensar de Sam, as crianças vieram em dose dupla justamente porque os dois abortos, mesmo espontâneos, mostravam que esses dois espíritos queriam estar juntos, com ele e com Brenda.
As pessoas riam dessas histórias, chamando-o de louco.
Desde o tempo de namoro, Sam tinha uma visão diferente da religião protestante pela qual fora educado.
Isso também era um ponto de atrito entre ele e Brenda.
— Sam, onde já se viu?
Achar que eles queriam ficar connosco e voltar?
Não, isso não é verdade.
Deus põe no mundo a hora que quer e tira a hora que quer.
— E o que você acha do suicídio, Brenda?
Se uma pessoa tem a capacidade de tirar a própria vida, como você me assegura que Deus coloca e tira a hora que quer?
Não acha que há certa inconsistência nessa sua crença?
— Ora, não seja tolo!
Você se esqueceu do demónio?
O pastor sempre falou, lá na igreja, da tentação do demónio.
O suicídio não tem a participação de Deus, de forma alguma.
A pessoa é tentada pelo demónio e assim vai para o inferno, com aquelas pessoas ignorantes e estúpidas que também vão para lá quando morrem, tal qual minha mãe.
— Se Deus é perfeito e único, como pode haver um demónio com a mesma capacidade que Ele de fazer as coisas?
Não acha que isso é invenção da cabeça ruim das pessoas?
Porque, para mim, demónio é a cabeça de certas pessoas, e não um ser invisível que actua deliberadamente sobre elas.
E, ademais, você é que enxergava em sua mãe uma estúpida.
Será que ela não era vista como uma boa pessoa aos olhos de Deus ?
— Boa pessoa?
Lá vem você de novo a defendê-la.
E para mim chega!
Não quero ficar discutindo a minha religião com a sua maneira imbecil e esquisita de interpretar o mundo.
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 02, 2015 8:47 pm

Aliás, você e aquele meu primo meio biruta, Adolph.
Ele deveria ser seu primo, e não meu.
Onde já se viu ter aquelas ideias esquisitas de espíritos?
Ele deve ser devoto do demónio, e não de Deus.
O pastor disse que Adolph é um pecador e vai pagar caro no inferno, por deturpar as leis de Deus.
— Por deturpar as leis de Deus?
Ou por mostrar que a igreja leva muita vantagem enchendo a cabeça de seus fiéis de culpa, medo e abnegação?
A religião está dentro de nós.
Aqui no peito é que é a morada de Deus, e não nesses templos luxuosos bancados por vocês, fiéis.
Acha que Deus iria querer que seus filhos pagassem para poder participar do culto à Sua imagem?
Ora, Brenda, pastores estarão sempre cheios de dinheiro enquanto as pessoas acreditarem que pagando o dízimo irão para o céu.
— Prefiro pagar o dízimo a ficar à mercê de cultos maléficos, mexendo com forças sinistras.
Ou estudando questões metafísicas, como faz Adolph.
Essas ideias que ele trouxe da Europa são disparatadas.
Ferem os preceitos da Bíblia.
Não quero Adolph por aqui.
Se você quiser continuar com essas ideias estúpidas, você tem todo o direito.
Mas não dentro de nossa casa.
Meus filhos crescerão segundo os preceitos ditados pelo nosso pastor, e o assunto por ora está acabado.
Você sempre me deixa com dor de cabeça.
Não quero mais discutir isso ou qualquer outro assunto com você, Sam.
Deixe-me em paz.
Sam continuou com seus estudos e procurou não mais os discutir com Brenda.
Não valia a pena.
Ela não queria aceitar, e tinha todo o direito de acreditar no que quisesse.
Os estudos com o primo Adolph eram tão esclarecedores, tão inteligentes, que era impossível uma pessoa de bom senso não ser tocada pela profundidade daqueles ensinamentos.
Adolph, primo de Brenda, concluiu os estudos na Europa.
Quando regressou aos Estados Unidos, contou ao casal sobre os estudos que vinha realizando, envolvendo questões de filosofia, metafísica e espiritualidade.
Quanto à filosofia e à metafísica, encantara-se com o escritor brasileiro J.G. de Magalhães.
O Dr. Magalhães havia publicado recentemente o livro "Factos do Espírito Humano", que abordava questões metafísicas com tanta desenvoltura que logo foi traduzido para o francês, tornando-se um grande sucesso na Europa.
Quanto à espiritualidade, falara sobre estudos deste teor que surgiram na França.
O renomado professor Léon Hippolyte Denizard Rivail, autor de inúmeras obras pedagógicas importantes, destacando-se a "Gramática Francesa Clássica", estava realizando algumas experiências acerca de fenómenos classificados como do "outro mundo", que ele vinha estudando havia algum tempo com um grupo de amigos.
Era uma sensação.
Nas altas rodas de Paris só se falava nisso, na coragem de um professor importante e respeitado estar ligado a esse tipo de assunto.
Ele se preparava para publicar alguns livros relatando o resultado de seus estudos.
A efervescência cultural e intelectual de Paris, tida como o centro dos acontecimentos na Europa, mostrava que o momento era ideal para tratar a religiosidade com uma nova roupagem.
Os franceses sempre foram um pouco arredios em relação à dominação da igreja.
E muitos aplaudiam o que o professor Rivail vinha fazendo, como também acolhiam, com respeito, a obra do Dr. Magalhães.
A maneira como Adolph contava essas histórias contagiava Sam sobremaneira.
Os dois sentiam que, de certo modo, a vida continuava depois da morte.
Mas, como os preconceitos e tabus eram fortes e o material disponível para leitura era escasso, ambos desistiram de se aprofundar nesses estudos.
Mas ali, com os filhos mortos dentro de sua própria casa, Sam voltou a pensar no assunto, pois nenhuma outra explicação poderia amenizar a imensa dor que ele sentia no coração.
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 02, 2015 8:47 pm

Capítulo 3

A cidade emocionou-se com o ocorrido.
Por três dias o comércio e as repartições ficaram fechados.
A tristeza tomou conta de Little Flower.
Ninguém conseguia imaginar quem poderia ser o responsável por tão brutal crime.
O xerife Mark, tão logo os bebés foram enterrados, viajou até a cidade vizinha.
Acreditou que lá pudesse encontrar alguma pista, um suspeito. Mas nada.
Sam, desde a morte das crianças, ficou incomunicável.
Trancou-se no quarto dos filhos e lá permaneceu dias.
Ficava sentado numa poltrona, próximo ao berço dos bebés, olhando para o nada.
Era interrompido uma vez por dia para se alimentar.
Anna preparava-lhe um caldo, misturado com um sedativo ministrado pelo Dr. Lawrence.
Apesar disso, Sam definhava a cada dia.
Brenda teve uma forte crise emocional durante o enterro dos filhos.
Tentou jogar-se sobre os caixões, sendo segurada por amigos.
Sam não tinha forças para ampará-la no enterro.
Logo depois do funeral, Brenda trancou-se no quarto do casal.
Enquanto Sam permanecia imóvel, sentado, olhando para o nada, Brenda tinha crises de choro e pesadelos.
Passava horas correndo pelo quarto, como que fugindo de algo ou alguém. Gritava histérica:
— Saiam daqui! Quem são vocês!
Eu nunca os vi antes. Parem de me infernizar!
Parem!
Assim permaneceu por dias.
Ela não se alimentava, não queria falar com ninguém.
Após a morte dos filhos, Sam e Brenda não ficaram mais juntos.
Cada um num canto, digerindo a dor cada qual à sua maneira.
Sam calado e Brenda com gritos e ataques de histeria.
O Dr. Lawrence aplicou alguns sedativos em Brenda, mas de nada adiantavam.
As crises aumentavam a cada dia.
Mark, Adolph e Anna eram agredidos tão logo tentavam entrar no quarto.
Brenda não queria a ajuda de ninguém.
— Deixem-me só! Eu nunca tive ninguém na vida.
Mas as coisas não vão ficar assim.
Eu prometo que vou dar um jeito nesta situação.
Os amigos faziam orações, tentavam falar com Sam para que ele pudesse convencer a esposa a tratar-se, a sair do quarto.
Mas era inútil. Sam não queria saber de nada.
Estava descontente com a vida, com Deus.
Não tinha mais forças para lutar.
Como Deus podia permitir que pessoas entrassem em sua vida e depois partissem, sem mais nem menos?
Por que então Deus lhe tinha dado a afeição, o amor, se tudo terminava de uma hora para outra?
Onde estava o aprendizado, se é que havia algum?
Um mês depois da morte das crianças, Sam e Brenda continuavam na mesma situação.
Mark e o Dr. Lawrence arrumaram uma equipe de médicos de Chicago para cuidar do triste casal.
O Dr. Lawrence estava intrigado com os ataques histéricos de Brenda.
Será que ela estava ficando louca?
Será que a morte dos filhos havia afectado suas faculdades mentais?
Durante o dia, Brenda passava bem.
Ficava sentada numa cadeira, sedada, olhando o sol entrar pela janela do quarto.
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 02, 2015 8:47 pm

Ao escurecer, ela se transformava.
Conforme o sol se guardava, seu corpo começava a tremer.
Brenda suava frio.
As visões tornavam a surgir.
Ela entrava em pânico:
— Por Deus, deixem-me em paz!
Eu vou enlouquecer!
Quem são vocês?
O que querem comigo?
Digam o que querem e deixem-me em paz. Mas me digam.
Quando o médico ou algum outro amigo queria conversar a respeito dos gritos nocturnos, Brenda dizia estar bem, que eram pesadelos somente.
O orgulho não lhe permitia passar a imagem de uma mulher louca, descontrolada.
Ela dava muita atenção à opinião das pessoas.
Como os outros iriam encará-la se soubessem o que se passava?
Não, esse gosto as pessoas não teriam, principalmente Anna, a meia-irmã.
Não iria fazer esse papel ridículo.
Mark chegou correndo à casa de Sam:
— Anna, Anna, abra a porta.
Anna estava terminando de preparar um caldo para Sam.
Assustada, abriu a porta:
— O que foi, Mark? O que aconteceu?
— O Dr. Lawrence está na estação.
Os médicos estão chegando daqui a meia hora.
Graças a Deus!
Quem sabe agora Sam e Brenda não ficam bons de vez, e tudo volta ao normal?
Anna, com sua meiguice, pela primeira vez desde a tragédia esboçou um sorriso, e com alegria nos olhos disse:
— Que bom! Como torço para que ambos fiquem bons.
Sam já está melhorando.
A cada dia reage mais.
— Com a sua dedicação e carinho, qualquer um melhora.
— Imagine! Gosto muito de Sam e Brenda.
Se não fosse a família dela, não sei onde eu estaria hoje.
Mas Brenda não quer me ver de jeito nenhum.
Só deixa o Dr. Lawrence entrar no quarto.
Eu aproveito essa hora e mando um prato de caldo para ela não definhar.
— Pois bem, daqui à uma hora, mais ou menos, o Dr. Lawrence vem para cá com os médicos.
Sam e Brenda não podem saber. Vamos pegá-los de surpresa, certo?
— Deixe comigo, Mark.
Vou ficar sentada no corredor, vigiando as portas dos quartos.
Bem, deixe-me terminar o caldo que estou fazendo para Sam.
Estarei ansiosa esperando por vocês.
— Até daqui a pouco.
Mark despediu-se e foi directo para a estação.
Uma nova onda de ânimo invadia-o, pois gostava muito de Sam.
Excepto Anna, ninguém mais próximo ao casal sentia afeição por Brenda.
Estavam fazendo tudo isso em consideração a Sam, e não em consideração a ela.
Duas horas depois, Mark chegou com o Dr. Lawrence e uma equipe de quatro médicos.
Anna abriu a porta da casa de Sam e conduziu-os à sala.
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 02, 2015 8:47 pm

— Anna - disse o Dr. Lawrence —, leve os médicos ao quarto das crianças.
O estado de Sam está ligado ao desânimo e à falta de alimentação.
Parece-me um caso mais fácil de ser resolvido.
Depois, conduza-os até o quarto de Brenda.
— Mas, doutor - perguntou Anna —, e se ela resistir e não abrir a porta?
O senhor sabe como ela se comporta ao anoitecer, não é mesmo?
— Sim, eu sei.
Mas, tão logo eles saiam do quarto onde está Sam, faça com que entrem no quarto de Brenda.
Depois os deixe a sós com ela.
Desça e prepare um caldo para todos nós, e ajeite cinco camas.
Vamos passar a noite nos quartos de hóspedes lá no sótão.
— E você, Mark? Não vai dormir aqui esta noite?
— Não posso, Anna.
Preciso fazer minha ronda na cidade.
Mas logo cedo estarei aqui.
Ao invés do caldo, quero que você me prepare um bom café amanhã cedo.
— Está bem. Só de saber que esses médicos poderão nos ajudar...
Por favor, senhores, venham comigo.
Anna conduziu os quatro médicos até o quarto onde Sam estava.
O Dr. Lawrence ficou na sala conversando amenidades com Mark antes que este partisse para sua ronda nocturna.
Os médicos não se assustaram com a aparência de Sam.
Estava magro, enfraquecido.
O que mais chamava a atenção era a expressão de profunda tristeza em seu olhar.
A equipe conversou um pouco com ele e ajudaram-no a banhar-se.
Após tomar os medicamentos que eles trouxeram, Sam ficou mais relaxado.
Um dos médicos chamou Anna:
— Senhorita, por favor, onde fica o quarto da madame? Poderia me levar até lá?
— Mas já? Sam não precisa de mais cuidados?
— Senhorita - respondeu o médico —, o que acontece com esse homem aí dentro não é doença.
Ele perdeu o sentido da vida. Seu corpo físico está um pouco debilitado, mais nada.
A verdadeira doença que ele tem está na alma, portanto é uma doença emocional, e não física.
Só o tempo vai poder ajudá-lo a superar as perdas que teve.
Mas, segundo o Dr. Lawrence, o que preocupa mais é o estado da esposa.
Parece que ela fica mal à noite. É verdade?
— Sim, é verdade - disse Anna um tanto perturbada com as palavras do médico.
Antes de irmos para o quarto de Brenda, queria perguntar-lhe algo.
— Pois não, senhorita, pergunte.
— O senhor disse que a doença dele não é física.
Se não é doença, então o que ele tem?
O médico fez sinal para que os outros três permanecessem mais um pouco no quarto de Sam.
Pegou Anna delicadamente pelo braço e sentaram-se num pequeno sofá no corredor.
— Senhorita, sou médico há mais de trinta anos.
Já vi muitos casos nesta minha vida.
O facto de lidar diariamente com doentes fez-me questionar as coisas que acontecem em nossas vidas.
Por que adoecemos?
Por que ficamos loucos ou debilitados?
Anna interrompeu-o:
— Porque Deus assim quer, e assim sempre será.
Mas, antes de continuarmos, qual o seu nome, doutor?
— Meu nome é Anderson.
Formei-me aqui nos Estados Unidos, mas passei alguns anos clinicando no Rio de Janeiro, no Brasil.
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 02, 2015 8:47 pm

— Rio de... Brasil? Ah, sei.
O primo de Brenda, Adolph, tem amigos brasileiros que moram na França.
E qual é a sua impressão sobre o Brasil?
— É uma terra muito boa, muito bonita, com pessoas maravilhosas, e tem uma diversidade religiosa impressionante.
Devido à mistura de raças no país, há vários cultos, várias religiões, se assim posso dizer.
Durante os cinco anos em que lá fiquei, tive contacto com essa religiosidade, e assim pude perceber aquilo que os nossos olhos de carne não vêem, compreende?
Anna procurava entender.
Nunca ouvira alguém falar daquela maneira antes.
— Então lá a religião não é como aqui, unificada?
— Sim, aparentemente é.
Mas o povo lá é muito engraçado.
Diz que é católico, mas faz rezas, oferenda para santos que não estão ligados à igreja católica, recorre às benzedeiras...
— Desculpe, doutor, mas o que são benzedeiras?
O senhor usa um vocabulário que eu nunca ouvi antes.
— Benzedeiras são mulheres capazes de curar uma doença que a própria medicina ainda luta para encontrar a cura.
São mulheres, porque os homens que fazem esse trabalho lá são chamados de curandeiros.
Elas fazem poções com ervas que nos são desconhecidas, fazem chás, rezas.
E o pior, ou melhor, é que curam. Acredite.
— Nossa, que interessante!
Mas o que tudo isso tem a ver com o caso de Sam e Brenda?
Por mais que conversemos, ainda acho que isso tudo é coisa de Deus...
— Mas é - garantiu-o.
E acredite, senhorita, eu vim aqui mais interessado no caso de sua patroa.
A madame tem pesadelos e suores nocturnos?
— Isso mesmo. Suores, calafrios.
E os gritos, então? É impressionante!
Parece que Brenda está agonizando, morrendo.
Conforme amanhece, ela se acalma e dorme praticamente o dia todo.
No fim da tarde, começa tudo outra vez.
— É natural. Os espíritos preferem atormentar os seus algozes durante a noite.
Anna não deixou o Dr. Anderson terminar sua fala.
Arregalou os olhos e, trémula, segurando firmemente as mãos do médico, gaguejou:
— Es-pí-ri-tos?
O doutor está falando em espíritos?
Deus do céu!
O senhor acha...
— Sim, eu acho.
Mesmo sendo científico, trabalhando somente com a razão, percebi, desde que morei no Brasil, que devemos olhar as situações que vivemos com os olhos do espírito, e não com os olhos da carne.
Portanto todos nós somos espíritos, só que vestidos com um corpo de carne, que é este aqui que vemos.
Eu, você, Sam, Brenda, o Dr. Lawrence...
— Mas espíritos não são invisíveis?
Não são um bando de almas penadas que vivem infernizando a vida das pessoas boas aqui no mundo?
— Não, de maneira alguma.
Veja, nós somos espíritos vestidos com o corpo de carne, daí dizermos que estamos encarnados aqui na Terra.
Os invisíveis, ou almas penadas, segundo você, são os desencarnados.
A única diferença entre nós e eles é que estamos com o corpo físico, e eles não.
Mas eles são iguais a nós.
Eles também têm sentimentos, sensações, e há tanto os bons quanto os maus.
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 02, 2015 8:48 pm

— Existe então alguma alma penada boa?
— Senhorita, alma penada é o termo usado pelos padres e pastores.
Meu argumento é que uma alma penada é um espírito que sofre pelas próprias atitudes.
São espíritos que não querem encarar a realidade.
E Deus, na sua infinita bondade, provoca a dor, o sofrimento, a fim de que eles enxerguem a verdade.
Veja, Deus nos deu a escuridão para que percebêssemos a magnitude da luz.
Este nosso mundo é assim, aprendemos por contrastes.
— Então damos valor ao bem porque existe o mal?
— É mais ou menos isso.
Eu levaria um bom tempo para explicar essas coisas.
Mas isso não é tão complicado.
Basta querermos nos desnudar dos valores sociais, das crenças que aprendemos a impregnar em nosso espírito através de sucessivas encarnações.
Libertando-nos disso tudo, veremos a verdade de nossas almas.
— Nossa, doutor, que maneira encantadora de falar!
E quanto a Brenda?
O doutor acha que ela está sendo importunada por espíritos?
Por quê? Embora ela sempre tenha sido um pouco prepotente, nunca foi uma mulher má.
— Os espíritos, bons ou não, ligam-se às pessoas aqui na Terra pelas afinidades de pensamento.
Se você acredita que o mundo é cruel, violento, cheio de sofrimento, vai estar com o seu pensamento ligado a espíritos que também pensam dessa forma.
Mas se você acreditar que só existe o bem no mundo, que a dor só serve para acordar-nos e para mostrar-nos que não estamos fazendo o melhor que deveríamos fazer, então estará ligada aos espíritos de luz, que nos ajudam, nos aconselham, nos orientam enquanto estamos vivendo aqui.
No caso de Brenda, pelo que o Dr. Lawrence me contou, acredito que ela tenha se ligado a desafectos do passado.
Alguma atitude dela, algum tipo de pensamento ligou-a energeticamente a esses espíritos, cujos laços só poderão ser desatados pela reforma de suas próprias atitudes.
— Então quer dizer que, se Brenda for boa, vai melhorar?
Vai conseguir separar-se desses espíritos ruins?
Que situação!
— Não é uma questão de ser boa ou má.
A bondade é relativa aqui no mundo.
Eu posso ser uma boa pessoa e você achar que eu sou frio, indiferente.
— Não falei isso do senhor.
— Não, minha filha, você não falou.
Estou lhe dando um exemplo.
Nós interpretamos as bondades e maledicências das pessoas segundo os nossos padrões de pensamento, segundo as nossas crenças, segundo os nossos valores.
Cada um de nós tem dentro de si uma imagem do que seja uma pessoa boa ou má.
E garanto-lhe que as más, às vezes, são melhores do que aquelas que nos parecem boas.
Todos nós um dia teremos de encarar as nossas verdades, doam ou não.
Só assim estaremos sempre caminhando na trilha da luz.
— E quanto a Brenda?
— Bem, quanto a ela, eu não sei.
Não a conheço ainda para dar um veredicto.
Mas, pelo que o Dr. Lawrence me falou, ela sempre foi muito mimada, sempre quis as coisas do seu jeito.
E a vida não funciona assim.
— Não? Como assim, doutor?
— A vida funciona da sua própria maneira.
Daí a necessidade de nos livrarmos de determinados conceitos e voltarmos nossas atitudes para o nosso melhor.
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 02, 2015 8:48 pm

Confiarmos e deixarmos que a vida nos conduza para onde devemos ir.
Jamais interferir em nossa vida com mimos, desespero, preocupação ou rigidez.
Devemos confiar em Deus e fazer aquilo que dá para fazer, e não aquilo que queremos fazer por teimosia.
— Mas Brenda passou por poucas e boas ultimamente.
Perdeu os pais antes de as crianças nascerem.
E agora também os filhos.
Doutor, o senhor não acha que é muito sofrimento para um ser humano?
— Diante do ocorrido, Anna, se entrarmos no estado emocional, se tomarmos as dores de Brenda, iremos achar que Deus errou e que a desgraça na vida dela não teria razão de ser.
Ora, eu não nego que a perda de pais, e muito mais a perda dos filhos, nos deixe infelizes.
É muito dolorido, pois sempre achamos que partiremos antes dos filhos, como se a vida seguisse padrões rígidos e imutáveis.
E a vida está sempre em constante mutação.
Por que os pais devem morrer antes dos filhos?
Isso é crença nossa.
Todos os dias temos casos nos mostrando o contrário.
Quantos país não perderam seus filhos em acidentes, ou por doenças, ou nesta guerra pela qual estamos passando?
Anna sentiu-se tocada pela conversa.
Estava maravilhada com as palavras de Anderson.
Embora sua cabeça estivesse fervilhando com esses novos conceitos, seu coração absorvia cada palavra que o velho homem lhe dizia.
Ela se atreveu a perguntar:
— Então para esses pais foi uma punição?
Por serem pecadores?
Pois essa é a razão que ouvimos lá na igreja, quando alguém perde um filho nesta guerra, por exemplo.
O médico continuava pacientemente a conversar com a moça:
— Procure, antes de tudo, livrar-se dessa imagem de um Deus ruim, punitivo, vingativo.
Essa é uma visão errada que temos de Deus.
Só o bem é real, só existe o bem no mundo.
O mal nada mais é do que uma visão distorcida do bem.
— Puxa, nunca tinha pensado nisso antes.
Como isso pode ser possível?
— Veja o exemplo desses pais que perderam os filhos. Tudo na vida é experiência.
Alguma coisa deve servir de lição para melhorar a vida desses pais.
— Melhorar? Como assim?
Agora estou confusa.
— Eu digo melhorar porque, se Deus permite que um filho seja arrancado dos braços de uma mãe, é porque essa mãe deve aprender alguma coisa com essa experiência.
Ás vezes passamos por situações tidas como horrorosas e doloridas em nossas vidas.
Mas acredito e sinto que isso aconteça para despertarmos para o melhor, para entendermos mais sobre os mecanismos da vida, para procurarmos olhar o mundo como um grande laboratório.
— Desculpe-me, Dr. Anderson, mas está dizendo isso porque não foi o senhor quem perdeu filhos.
É fácil entender e aceitar a dor dos outros.
Não é nossa, não é mesmo?
Anderson percebeu o estado emocional da moça, mas não se deixou abater.
Com as experiências de vida que tinha, pegou pacientemente as mãos de Anna e pousou-as sobre seu colo.
— Cada um na vida tem a sua porção de tragédia.
Acredito que você tenha ou vá ter ainda a sua porção.
E digo isso porque só assim é que despertamos para a nossa verdade, para a luz.
Deus usa certos mecanismos para tirar-nos de nossas ilusões, para fazer-nos perceber a realidade e a beleza da vida.
Anna sentiu-se mal por ter feito aquela pergunta ao médico.
Estava se sentindo envergonhada.
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 02, 2015 8:48 pm

Mas Anderson continuou, fingindo não notar o constrangimento da moça:
— Sabe, alguns pais perdem os filhos porque não lhes deram atenção ou amor.
Outros enchem os filhos com tantos mimos, com excesso de zelo, ficam tão apegados, que a perda serve para diminuir o grau de dependência que estavam criando com os filhos.
Outros os perdem para entender que ninguém é de ninguém nesta vida, que estamos aqui hoje, mas que não há garantias de que estejamos aqui amanhã.
Porém conforta-me saber que Deus faz tudo certo.
Daí eu tiro a conclusão de que o importante e o que vale na vida são os momentos que vivemos.
Por isso, quando acordo, eu saúdo o sol, sinto os meus pulmões filtrando o ar, agradeço a Deus por estar aqui mais um dia e procuro passar o tempo reformulando os meus pensamentos, procurando melhorar minhas atitudes, procurando ser uma pessoa cada vez mais feliz comigo e, consequentemente, com o mundo ao meu redor.
— Dr. Anderson, adorei o seu discurso.
Mas ainda digo ao senhor:
é fácil falarmos dos outros quando a tragédia não acontece connosco.
— Senhorita, eu perdi o meu único filho...
Anna tirou as mãos do colo de Anderson e com elas cobriu a boca, abafando um grito de susto.
Estava perplexa. Sentiu-se constrangida.
— Desculpe-me, doutor! Perdão!
Eu nunca poderia imaginar...
Um homem tão calmo, falando sobre a vida de uma maneira tão fantástica, tão desprendido dos valores...
— Eu sei. Você não precisa me pedir perdão, você não me conhecia.
Já está sabendo mais do que muita gente sabe a meu respeito.
Eu gostei de você, do seu jeito, você tem uma boa energia, é isso.
— Boa energia?
— É, você é uma pessoa agradável, gosto de estar a seu lado.
Quando estamos em equilíbrio, podemos perceber a energia das pessoas.
Porque energia se sente, não se vê.
Bem, isso não vem ao caso agora.
Falarei do meu filho.
Anderson deu um breve suspiro e, olhando bem fixo nos olhos de Anna, começou a contar:
— Júnior era um excelente rapaz, cheio de vigor, cheio de vida.
Quando recebi o convite de um amigo meu para ficar uns tempos no Brasil, meu filho me acompanhou.
Sua mãe não quis ir, preferiu ficar em Chicago.
Júnior queria ser médico, como eu.
Eu amava muito o meu filho, mas tínhamos uma relação muito distante, porque eu acreditava nos padrões de nossa sociedade, segundo os quais devemos educar o filho à distância, sem intimidades.
Ah, meu Deus... Às vezes eu me arrependo um pouco.
Faria tantas coisas com meu filho...
Eu o abraçaria e beijaria todos os dias, eu o acompanharia nos estudos...
Eu seria um amigo mesmo, e não um pai formal.
Lágrimas começaram a surgir nos olhos de Anderson.
Seu filho morrera havia mais de dez anos, mas lembrar-se de Júnior sempre o deixava emotivo.
Anna também estava em lágrimas.
Procurou conter-se, a fim de que Anderson continuasse sua história.
— Bem, nós nos apaixonamos pelo Brasil.
Júnior não queria mais voltar para a América.
Júnior odiava o frio, e o facto de não haver neve por lá o deixava encantado com aquela terra.
Era muito esperto e estudioso, e em questão de meses já estava falando português, que é a língua falada naquele país.
Os anos foram passando, e chegou à época de estudar medicina.
Ele se preparou para ir estudar em Londres.
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 02, 2015 8:48 pm

Duas semanas antes de embarcar, foi acometido por um tipo desconhecido de febre.
Foi quando tive contacto com as benzedeiras.
Uma empregada nossa tinha uma amiga que era benzedeira.
Anderson fez uma pequena pausa e continuou:
— Eu era muito céptico.
Não acreditava em nada.
Sempre fui muito racional.
Mas tudo mudou quando eu conheci uma escrava, Maria.
Uma mulher fantástica, com muito mais sabedoria do que muitos cientistas e sábios juntos.
Uma mulher com um conhecimento profundo sobre a vida. Muito do que eu lhe disse há pouco aprendi com ela.
Maria cuidou de Júnior com o amor e o carinho de uma mãe.
Era uma moça muito bonita.
Ela dizia ter vidência.
— Desculpe mais uma vez, doutor, mas ela tinha o quê?
— Ah, eu é que peço desculpas.
Estou tão familiarizado com tudo isso, que esqueci que você é novata no assunto.
Bem, vidente é a pessoa que vê os espíritos.
E Maria, tão logo foi cuidar de Júnior, viu o guia dele.
O guia de Júnior disse a Maria que meu filho tinha de partir, que a hora dele era aquela, que tanto ele quanto eu sabíamos disso antes de reencarnar.
Júnior teria uma morte tranquila e iria continuar seus estudos numa colónia espiritual ligada ao Brasil, devido a suas vidas passadas estarem relacionadas àquele país.
E eu deveria aprender a lei do desapego, do amor maior, do amor incondicional.
Um treino em que eu tinha de esquecer-me
do amanhã e viver o hoje, o agora, o aqui.
Que, por mais dolorido que fosse, Deus não estava me punindo, mas me mostrando que tudo é eterno, que tudo continua na vida.
Que apenas passamos por situações para melhorarmos, sempre.
E foi devido à morte de Júnior que eu despertei para os estudos da vida espiritual.
Eu me sentava com Maria e um grupo de escravos bem velhos, amigos dela, que me passavam cada ensinamento.
Não há nada no mundo, livro que seja, filósofo que exista, tão inteligente quanto aquelas humildes pessoas no Brasil.
Graças a eles estou aqui hoje, firme, forte, com uma boa cabeça.
Sei que meu filho continua vivo, em espírito.
Sei que ele está bem, trabalhando e estudando.
Um dia nos encontraremos novamente.
Nesta vida ele foi meu filho, mas e nas outras?
Quem sabe o que possa ter acontecido para termos de viver essas experiências, não é mesmo?
Anna estava boquiaberta.
O médico falava com muita calma mas ao mesmo tempo com uma firmeza que a deixava impressionada.
Um homem que havia sofrido a perda do único filho, ali na sua frente, mostrando todo aquele amadurecimento emocional, porém sem deixar de mostrar a dor da perda.
Era impressionante.
— Doutor, o senhor é uma pessoa maravilhosa!
Passar por tudo que passou e ainda viver desse jeito...
— Não me leve a mal, senhorita, mas, se Júnior não tivesse morrido, eu hoje talvez não estivesse aqui conversando essas coisas com você.
Talvez eu não percebesse o quanto a vida é magnífica e bela.
O quanto ela é perfeita.
— Pena que o senhor teve de despertar dessa forma.
— Não me sinto vítima.
Sentir-se vítima da situação é dar poder para algo que você mesma pode controlar.
Ser vítima é responsabilizar Deus ou os outros por tudo de ruim que acontece em nossas vidas.
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 03, 2015 8:15 pm

Eu não sou vítima. Cada um desperta de um jeito.
Eu despertei assim, porque para mim foi o melhor que poderia ter acontecido.
O mesmo acontece com esse casal, Sam e Brenda.
Garanto a você que ninguém carrega sua cruz com mais peso do que deva carregar.
A vida nos dá o peso exacto da dor.
Se esse casal está passando por isso, alguma coisa a vida deve estar querendo lhes mostrar. Vamos aguardar.
— O senhor tem toda a razão.
Estou meio atrapalhada em meus pensamentos.
Mas sinto em meu coração que o senhor diz a verdade.
— Bem, minha cara, vamos ao quarto de Brenda.
Anderson levantou-se.
Sentiu um mal-estar muito grande.
A tontura foi tanta que ele caiu no sofá.
Anna preocupou-se:
— Doutor, o senhor está bem?
O que está havendo? Está pálido...
Ele procurou recompor-se.
Fechou os olhos por uns instantes e começou a orar.
Anna não sabia se ele estava conversando, orando ou fazendo ambos ao mesmo tempo.
Aos poucos, ele foi melhorando.
Pediu a ela que lhe trouxesse um copo de água.
Ela desceu correndo as escadas e retornou poucos segundos depois.
— Tome, doutor.
Coloquei um pouco de açúcar também.
— Obrigado, menina.
Anderson levantou-se do sofá, respirou profundamente e soltou vagarosamente o ar pela boca.
Fez isso três vezes.
Em seguida foi ao quarto de Brenda, seguindo sua intuição, sem perguntar a Anna onde ele ficava.
Anna ficou estática ao ver Anderson daquele jeito.
Não parecia o mesmo homem com quem ela havia conversado minutos atrás.
Ela não percebeu que Anderson estava ligado ao seu mentor, daí a leve alteração em seu estado.
Com a voz levemente mudada, o médico pediu a Anna que ficasse sentada no sofá.
— Deixe que eu vá sozinho até lá.
Eu a chamarei assim que for permitido.
Ele caminhou até a porta.
— Sra. Brenda, por favor, abra a porta.
Precisamos conversar.
Nada. Nem um som. Ele bateu novamente.
— Sra. Brenda, meu nome é Anderson, um amigo da família.
Abra a porta, por favor.
Precisamos conversar.
Percebia-se o silêncio do outro lado.
Anderson abriu a porta.
O quarto estava tomado pela escuridão.
Deixou a porta entreaberta e voltou ao corredor, apanhando uma lamparina.
Entrou no quarto. Não havia ninguém.
Com a lamparina na mão, foi entrando. Brenda não estava lá.
Onde estaria? Teria descido?
Foi até a janela. Estava trancada por dentro.
Procurou iluminar o quarto, acendendo as velas do lustre.
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 03, 2015 8:16 pm

Foi até o vestíbulo, ligado por um pequeno corredor dentro do quarto.
Por sorte, Anderson estava sendo amparado por seu mentor.
Com o pavor estampado nos olhos, soltou um grito abafado.
No meio do corredor, uma cadeira caída.
No teto, presa ao lustre, uma corda...
Brenda havia se enforcado.
Anderson foi intuído por seu mentor.
Tão logo passou o susto, abaixou-se e começou a fazer uma sentida prece, dirigida ao espírito de Brenda, que não mais se encontrava no quarto.
Levantou-se, procurando se recompor.
A sua frente estava uma mulher com a coloração da pele já indo para o roxo.
Os olhos estavam virados, a cabeça pendia para o lado, os braços largados e as mãos cerradas.
Era uma cena chocante.
Anderson, por hábito da profissão, procurou tomar o pulso de Brenda.
Pela rigidez do corpo, devia estar morta havia algumas horas.
Não podia removê-la. Precisaria falar com o xerife antes.
O médico mais nada podia fazer.
Fez o sinal da cruz e pediu a Deus que fizesse o melhor por aquele espírito que acabara de desencarnar.
Foi saindo do quarto e encostando a porta.
Anna veio ao seu encontro.
— Então, doutor, como ela está?
Não ouvi gritos, nada. Ela está dormindo?
Anderson procurou manter a calma, para não a assustar.
— Aparentemente está dormindo.
Vamos descer, preciso conversar com o Dr. Lawrence e o xerife.
Desceram as escadas e foram até a saleta onde estavam Lawrence e Mark.
Assim que entraram, o xerife perguntou:
— Então, doutor, como está Sam?
Anderson procurou manter a calma.
— Ele está bem.
Os médicos estão lá conversando com ele.
Ele só está um pouco debilitado.
Dentro de alguns dias estará bem melhor.
Lawrence perguntou:
— E Brenda? Não ouvi grito algum.
Acabaram-se os pesadelos nocturnos?
Anna interveio, animada, sem imaginar o que realmente havia acontecido:
— O doutor ficou alguns minutos com Brenda.
Não ouvi gritos também, Dr. Lawrence.
Parece-me que ela está bem, não é, doutor?
Anderson pigarreou, coçou a nuca, passou a mão nervosamente pelos cabelos prateados.
Procurava nesses segundos uma maneira de lhes contar o ocorrido.
Colocou-se na frente de Anna, Mark e Lawrence.
— Bem, senhores, se a Sra. Brenda está bem, eu não sei.
A minha parte está encerrada. O caso da Sra. Brenda agora fica nas mãos do senhor, xerife.
Nenhum dos três entendeu o porquê de o médico ter falado aquilo.
Todos se entreolharam com um sinal de interrogação estampado no rosto.
Mark logo entendeu a situação, mas relutava em aceitar a verdade.
Gaguejando e nervoso, aproximou-se de Anderson.
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 03, 2015 8:16 pm

— O senhor está dando o caso de Brenda para mim?
Então... Meu Deus...
Dr. Anderson... Ela está...
Mark não terminou de falar.
Começou a esmurrar a parede à sua frente.
Anna e Lawrence ficaram aturdidos.
Ainda não haviam percebido a verdade.
Anna abraçou Mark.
— Não fique assim, tudo vai se resolver.
Mark desprendeu-se de Anna.
Gritando muito, disse-lhe:
— Anna, você não compreende?
Brenda está morta! Morta, ouviu?
Anna estremeceu.
A emoção foi tanta que não aguentou e desmaiou.
Anderson e Lawrence pegaram-na e colocaram-na no sofá.
Anderson foi até a cozinha e trouxe-lhe um pouco de água.
Enquanto isso, Lawrence, também estupefacto com a situação, perguntou a Mark:
— Meu filho, como Brenda pode estar morta?
O que está acontecendo nesta casa?
— Não sei, Dr. Lawrence, não faço ideia.
Esperemos pelo Dr. Anderson e vamos subir.
Anderson chegou com um copo de água com açúcar.
Passou um líquido nas narinas de Anna.
Logo ela acordou.
— Dr. Anderson, é um sonho, não é mesmo?
A expressão no rosto de Anderson indicava que ela havia ouvido a verdade.
Brenda estava morta.
Anna, nesse momento, não pensou em Brenda, mas em Sam.
— Como vamos dizer isso a Sam?
Há um mês seus filhos morreram.
E agora a esposa. Doutor, foi parada cardíaca?
Anderson sabia que iriam perguntar-lhe sobre a causa mortis.
— Senhorita, acho melhor você ir até o quarto de Sam.
Fique lá com ele e com os médicos, mas não diga nada.
Eu vou com Lawrence e Mark até o quarto de Brenda, para tomarmos as providências necessárias.
Subiram as escadas, em profundo silêncio.
Anna entrou no quarto de Sam.
Procurou manter a calma e ficou lá sentada, esperando.
Anderson conduziu Mark e Lawrence até o quarto de Brenda.
— Senhores, por favor, mantenham a calma.
Mark e Lawrence não entenderam o que Anderson estava dizendo.
Lawrence, meio aturdido, perguntou:
— Mas ela não está aqui no quarto, Anderson.
Se ela está morta, deveria estar ali na cama. Onde ela está?
Mark foi até o outro lado da cama, achando que Brenda pudesse estar caída no chão.
— Por favor - disse Anderson —, dirijam-se ao vestíbulo.
Mark foi na frente, estugando o passo.
Chegando ao corredor, deparou com o corpo de Brenda.
Ele não conseguia acreditar. Ela havia se matado.
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 03, 2015 8:16 pm

Subitamente o semblante de Mark mudou.
Ficou com raiva.
Ele poderia até ficar triste se ela tivesse morrido por qualquer outro motivo.
Mas tirar a própria vida?
Deu meia volta e retornou ao quarto.
Seu ódio era tanto que começou a gritar:
— Dr. Lawrence, o senhor, que é médico, vá lá e faça a sua parte.
Eu não tenho nada o que fazer, a não ser cuidar do meu amigo Sam.
Como ela pôde ser tão egoísta, como ela pôde ser tão covarde?
Lawrence não entendeu o porquê de Mark estar furioso.
— Calma, meu filho.
Não fique assim. O que foi?
— Vá lá, Dr. Lawrence, e veja com os seus próprios olhos.
Ela se matou, o senhor ouviu bem?
Lawrence foi tomado de enorme surpresa.
Virando-se para Anderson, perguntou, aflito:
— Suicídio?
Anderson fez sinal afirmativo com a cabeça.
Lawrence pôs as mãos na cabeça.
— Meu Deus. Mark, o que faremos?
— Eu não vou fazer nada.
O senhor e o Dr. Anderson vão lá e tirem aquele corpo amarrado naquela corda.
Tratem de tudo. Eu corro só com a papelada.
Velório e enterro, se é que ela merece, deixo a cargo de vocês.
Anderson, percebendo o estado emocional de Mark, procurou mudar o tom da conversa:
— Mark, tenha calma, porque você vai precisar estar ao lado de Sam.
Precisa prepará-lo para a verdade.
— Para a verdade? Que verdade?
Saber que era usado por uma mulher sem escrúpulos, só interessada em seu dinheiro, mimada, prepotente, arrogante?
O senhor fique sabendo que eu aturava essa mulher por causa de Sam.
Eu nunca gostei dela. Essa morte combina com ela.
Somente um monstro como ela poderia morrer assim.
Lawrence procurou acalmá-lo:
— Calma, Mark.
Eu sei que não está sendo fácil.
Você era o padrinho das crianças.
Eu sei que você gosta muito de Sam.
Mas ela era uma boa moça, uma boa esposa, uma boa mãe.
Mark espumava pelos cantos da boca, tamanho o ódio que sentia:
— O senhor não imagina o quão fútil ela era, Dr. Lawrence.
Então vamos lá.
Primeiro, boa mulher? Para quem?
Uma filha detestável, uma menina mimada pelo pai e estúpida.
Segundo, boa esposa?
Tratava Sam aos pontapés, sempre agressiva e mimada.
Sam fazia tudo para vê-la feliz, e nada.
E terceiro, boa mãe?
Ela mal ficava ao lado das crianças.
Anna era a verdadeira mãe.
Estava sempre junto delas.
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 03, 2015 8:16 pm

Brenda nunca gostou dos filhos.
Um pensamento horroroso veio à cabeça de Mark naquele instante.
Não, ele não podia sequer permitir o que vinha à sua mente.
Engoliu as palavras que iria dizer.
Saiu do quarto e bateu violentamente a porta.
Lawrence olhou para Anderson com ar preocupado.
— Anderson, eu conheço todos esses garotos desde que nasceram.
Nunca pensei que as coisas tomassem esse rumo.
— Desculpe-me, Lawrence, mas sinto que ele falava a verdade em relação à Brenda.
Pelo comportamento dela nos últimos tempos, segundo o que você me relatou, acredito que ela estava tomada de profundo remorso pela vida.
Não vamos perturbar mais ainda o ambiente.
Vamos lá fazer a nossa parte.
Foram até o vestíbulo. Anderson subiu na cadeira.
Com uma faca cortou a corda que prendia Brenda.
Seu corpo caiu nos braços de Lawrence.
Lágrimas começaram a escorrer de seu rosto.
Por mais arrogante que Brenda fosse, ele a conhecia desde menina.
Era-lhe muito triste vê-la terminar sua vida daquela maneira.
Colocaram-na na cama e arrumaram o quarto.
Anderson e Lawrence providenciaram tudo.
Não contaram a ninguém a verdade sobre a morte de Brenda.
Todos que perguntavam recebiam a mesma resposta:
parada cardíaca.
Como o caixão fora lacrado, tudo ficou mais fácil.
Nem Anna ficou sabendo a verdade.
Mark, Anderson e Lawrence procuraram manter sigilo sobre o suicídio.
Queriam poupar Sam de mais um desgosto em sua vida.
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 03, 2015 8:16 pm

Capítulo 4

Na semana seguinte ao funeral de Brenda, Anderson e a equipe de médicos partiram de Little Flower.
Sam ainda se encontrava dopado, mas os amigos não poderiam esconder-lhe a morte da esposa por muito tempo.
Após a partida de Anderson, Mark procurou conversar com Anna e Adolph.
Reuniram-se na casa de Sam, numa noite.
— Amigos, já está na hora de contarmos a ele.
— Mas, Mark - indagou Anna —, como?
— Anna, não podemos mais esconder a verdade.
Estamos aflitos, temerosos, angustiados.
Sam tem de saber, não é mesmo?
Então vamos lá e contamos.
Será melhor assim.
— Eu concordo com você, Mark - disse Adolph.
Chega de esconder a verdade.
É hora de irmos lá ter com ele.
Deram-se as mãos e foram para o quarto de Sam.
Ele estava deitado na cama, ainda um pouco debilitado.
Adolph tomou a iniciativa:
— Sam, precisamos ter uma conversa.
— O que foi?
Vão reclamar que estou aqui há quase dois meses?
Eu já até saí do quarto dos bebés.
E Brenda, como está?
Não nos vemos desde a morte das crianças.
Ela está no quarto delas?
Está no quarto de hóspedes?
Por que ela não fica aqui comigo?
Será que a dor dela é maior que a minha?
Acho que está na hora de encararmos a realidade e conversarmos, não acham?
Anna, Mark e Adolph entreolharam-se. E agora?
Como dizer? Sam percebeu o olhar esquisito dos três.
Sentia em seu íntimo que havia algo errado por ali.
— O que vocês querem me dizer? Onde está Brenda?
Ela está mal também?
Diga, Adolph, onde ela está?
Adolph não conseguia encontrar palavras.
Mark, que andava frio como uma pedra de gelo desde a morte de Brenda, sentiu-se firme para dizer:
— Bem, meu amigo, Brenda não está mais aqui connosco.
— Como assim?
Ela foi para a casa de alguém?
Não suportou ficar aqui?
Puxa, por que não pensei nisso antes?
Eu deveria estar ao seu lado, certo?
Fiquei imerso em minha dor e me esqueci dela.
Mark procurou ser mais duro.
Afinal de contas, a verdade, mesmo sendo dolorida, precisava ser dita.
— Sam, Brenda... Brenda... Está morta.
A última palavra ficou ecoando na cabeça de todos.
O ar ficou pesado.
Anna começou a chorar, não controlando a emoção.
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 03, 2015 8:17 pm

Adolph ficou estático.
Um calor percorreu o corpo de Sam, subindo até a cabeça, deixando seu rosto vermelho.
Estava a ponto de explodir.
Levantou-se da cama e avançou para cima de Mark.
— O que você está me dizendo?
Como se atreve?
Mark e Adolph procuraram segurá-lo.
Sam estava completamente desequilibrado.
Desgrudou-se de ambos e foi para o quarto das crianças.
— Brenda! Onde está você? Brenda!
Ele não queria acreditar na verdade.
Um pavor invadiu sua alma, e ele, não tendo forças para se controlar, tombou na ponta da escada.
Anna, que estava à sua frente, não teve forças para segurá-lo.
Sam rolou escada abaixo, batendo fortemente a cabeça no chão.
Anna deu um grito.
Os rapazes saíram correndo do quarto de Sam, assustados.
Adolph abraçou Anna, tamanho nervosismo.
Mark desceu rapidamente as escadas.
Sentou-se no chão ao lado de Sam.
Delicadamente passou as mãos pelo rosto do amigo.
— Sam, por favor...
Eu estarei sempre ao seu lado, eu prometo.
Mas, por favor, não morra, não morra!
E desatou a chorar.
Um filete de sangue escorreu pelo canto da boca de Sam, aumentando o desespero do amigo.
— Adolph, desça. Ele está sangrando.
Vá chamar o Dr. Lawrence. Não sei o que fazer.
Adolph desceu correndo e saiu em disparada para chamar o médico.
Anna desceu as escadas cambaleando, assustada com tudo aquilo.
Foi envolvida por uma força estranha.
Sua voz ficou mais firme. Foi até Mark.
— Saia. Deixe-me cuidar dele.
Vamos, saia, por favor.
Mark parou de chorar e limpou o rosto.
Não sabia se estava alucinando.
A doce e meiga Anna agora lhe falava com uma voz levemente diferente, porém decidida.
Parecia outra pessoa.
Anna ajoelhou-se e fechou os olhos.
Instintivamente levantou a mão esquerda para o alto, como que captando algo do céu.
A mão direita tocou levemente a testa de Sam.
Mark ficou paralisado.
Nunca havia visto Anna daquele jeito.
Estava muito confuso para raciocinar.
Poucos minutos depois, Sam começou a mexer a cabeça.
Seu corpo começou a tremer. Anna continuou firme em seu intento.
Abriu os olhos, abaixou-se e deu um suave beijo no rosto dele, não se incomodando com o sangue que escorria de sua boca.
Anna levantou-se.
Sentiu uma leve tontura, mas logo ficou bem.
Olhou para Sam no chão e para Mark.
— E então? - perguntou ela.
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 03, 2015 8:17 pm

— Então o quê? - indagou Mark, aturdido.
— Ele não vai morrer.
Logo o Dr. Lawrence e Adolph estarão aqui.
Teremos de fazer vigília constante, até que ele melhore o estado emocional.
Vamos cada um de nós fazer a nossa parte.
Enquanto eles não chegam, vou me banhar e trocar de roupa.
O vestido está um pouco manchado de sangue.
Virou-se e subiu. Mark, estupefacto com a transformação de Anna, só conseguiu dizer:
— Seu vestido e sua boca...
Mark ficou olhando para Anna enquanto ela subia a escada, serena, com um brilho diferente no olhar.
Abaixou-se e pôs-se a falar com seu amigo, que ainda estava meio inconsciente.
— Calma, Sam...
Logo Dr. Lawrence vai estar aqui e cuidará de você.
Não se preocupe.
Ficou passando levemente as mãos sobre os cabelos de Sam.
Mark gostava muito dele, eram muito amigos.
Começou a lembrar-se das crianças, e lágrimas teimavam em escorrer por seu rosto.
Anna entrou no banheiro, despiu-se e foi se lavar.
Continuava do mesmo jeito, ainda envolvida.
Lavou-se, trocou de roupa.
Desceu as escadas, passou por Mark e deu-lhe uma piscada.
Foi até seu quarto, ao lado da cozinha.
Tomada por leve sonolência, cochilou.
Tão logo Anna adormeceu, desprendeu-se do corpo.
Um pouco tonta, foi conduzida por suaves mãos que a fizeram sentar-se numa pequena cadeira, ao lado da cama.
O quarto estava iluminado por uma luz verde bem clara, suave.
Anna abriu os olhos e viu uma mulher jovem, muito bonita, com a pele alva, brilhante.
Vestia um lindo vestido azul-claro, e seus cabelos encaracolados, ruivos, desciam até as costas.
Possuía um sorriso encantador.
— Anna, querida, precisei actuar através do seu corpo.
Foi necessário. Muitas tragédias aconteceram neste lar.
Mas logo tudo vai passar.
Com o tempo, Sam vai melhorar. Confie.
Anna estava ainda zonza, mas ouvia perfeitamente o que a mulher lhe dizia.
— Quem é você? Eu tenho certeza de que a conheço, mas não sei de onde.
— Sou Agnes. Você sabe quem eu sou, minha querida.
Só não se recorda, porque está vivendo uma outra vida, uma outra história.
Vivemos muitas vidas juntas, mas agora o meu trabalho é do lado de cá.
— De que lado? - Anna não estava entendendo o que Agnes lhe falava.
— Vocês voltaram, e eu fiquei por aqui, auxiliando-lhes naquilo que fosse preciso, mas sempre com a permissão de vocês, nunca interferindo de maneira directa no arbítrio de cada um.
Logo uma nova etapa se iniciará.
Eu conto muito com você, Anna.
Agora eu preciso ir.
Agnes deu um beijo na testa da jovem.
Ajudou-a a levantar-se e a encaixar-se no próprio corpo.
Depois disso, partiu. Anna despertou.
— Nossa, que sonho encantador!
Que mulher mais linda!
De onde a conheço?
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 03, 2015 8:17 pm

Permaneceu assim por alguns minutos, ainda sentindo em todo o corpo as energias salutares de Agnes.
Sentiu um ânimo muito grande, uma vontade muito prazerosa de viver.
Reconhecia, no fundo de seu coração, que realmente uma nova etapa se iniciava em sua vida.
Lawrence e Adolph chegaram em seguida.
Mark continuava a passar as mãos no rosto do amigo.
Quando Adolph os viu, suspirou aliviado.
— Santo Deus! Ele está vivo, doutor.
Acho que ninguém aqui aguentaria mais uma tragédia.
— Concordo - disse Lawrence. — Chega de tragédias.
Vocês são jovens, bonitos, saudáveis, têm toda uma vida pela frente.
Vamos, ajudem-me a colocar o menino no sofá.
Mark começou a rir.
— Menino? Sabe quantos anos ele tem?
Nós não somos mais tão jovens, doutor.
Principalmente eu, que vou fazer trinta e um.
— E sabe quantos anos eu vou fazer? - perguntou Lawrence.
Trinta a mais que você.
Estou mais para o lado de lá...
— Doutor - interveio Adolph —, será que ele sofreu alguma contusão? E o sangue?
— Adolph, eu tenho mais de trinta anos de prática médica.
Sam aparentemente não sofreu nada grave.
Veja, ele está movimentando todo o corpo.
E o sangue escorreu porque ele quebrou um dente.
— Um dente? Como sabe?
Nem ao menos tocou nele.
— Ora, Adolph, é só olhar para o chão, próximo ao local da queda.
Adolph e Mark foram até o pé da escada.
Ao lado de uma pequena poça de sangue, lá estava o dente.
Começaram a rir.
— Doutor, Sam vai ficar horrível.
Vai ficar banguela! - declarou Mark.
— Não, aparentemente.
Esse dente aí fica no fundo da boca, portanto ninguém vai notar, a não ser Sam, quando for mastigar um bom pedaço de filé.
Os três continuaram a rir, e não notaram uma presença na sala.
Lá estava Agnes.
Saindo do quarto de Anna, ela tinha ido até a sala para energizar o ambiente.
Pétalas de rosas iluminadas escorriam por suas mãos e eram espalhadas por toda a casa.
Em seguida, ela passou suavemente a mão pela testa de Mark, Adolph e Lawrence, respectivamente.
Pousou a mão mais demoradamente sobre a testa de Sam.
Deu um beijo em cada um e partiu, sorridente e feliz.
Mais uma vez, Agnes fizera sua parte.
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 03, 2015 8:17 pm

Capítulo 5

Sam, nas semanas seguintes, ficou aos cuidados de Anna, Mark e Adolph.
Os três faziam escalas para que ele não permanecesse sozinho em momento algum.
O Dr. Lawrence ministrou-lhe doses cavalares de medicamentos.
Quanto mais o tempo passasse, e quanto mais Sam não se lembrasse, melhor.
Num desses dias, completamente sedado, Sam teve uma visão.
Ele viu seu avô Roger no canto do quarto.
— Meu neto querido, não cause mais dor para sua alma tão sofrida.
Sabemos que o ocorrido foi brutal para você e Brenda.
Mas você está conseguindo caminhar.
Infelizmente, sua esposa não suportou e encontra-se em terrível estado.
Nada podemos fazer por ela neste momento.
Mas veja, meu neto, você está vivo e bem.
Você tem uma saúde de ferro.
Nada como confiar em Deus, pois ele nunca erra.
Tudo está certo no caminho de cada um de nós.
Daqui a alguns anos você vai entender tudo.
Agora reaja, por favor. Vá viver o que é preciso.
Vá viver o que você mesmo prometeu aqui, antes de regressar à Terra.
Sua nova etapa de vida começa no Brasil.
Siga confiante, pois eu estarei ao seu lado sempre que for necessário.
Não desista, não desista, meu querido.
Sam começou a pronunciar algumas palavras:
— Não desista... Vovô... Bra...
— O que ele está dizendo, Mark? - inquiriu Anna.
— Não sei. Talvez esteja delirando.
Já são três semanas nesse estado.
É a primeira vez que vejo Sam falar alguma coisa.
Provavelmente deve ter sonhado com seu avô.
Eles eram muito ligados.
Sam tinha uma relação muito mais estreita com seu avô do que com o pai.
Anna olhou em direcção à porta, que acabara de abrir-se.
— Adolph, que bom que chegou!
Sam está falando palavras desconexas.
Aproxime-se dele, por favor.
— Sam, o que se passa?
— Meu avô está ali no canto do quarto, olhe.
— E ele está falando algo?
— Sim, ele disse que não está com Brenda, que sou forte e que devo ir para o Brasil.
— Adolph, ele deve estar com febre, não?
— Acredito que não, Mark.
Estou quase certo de que o avô de Sam está aqui, tentando deixado mais calmo, auxiliando-o.
— Que história é essa, Adolph?
Um rapaz que estudou na Europa, como você, falando desse jeito?
Também está delirando?
— Não, não estou delirando, de forma alguma.
É que lá em Paris eu me interessei e estudei assuntos metafísicos e espirituais, existência de vida após a morte.
— Isso é absurdo.
Como pode você, um rapaz estudado, com uma carreira brilhante, acreditar em assuntos próprios de pessoas ignorantes?
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