A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 08, 2015 8:21 pm

Assim que o vapor atracou, um contingente de escravos começou a subir uma rampa de madeira que ligava o porto ao porão da embarcação, onde havia imensos baús a serem carregados.
Outra rampa de madeira foi colocada para que os viajantes pudessem sair do navio com um mínimo de conforto.
Anna e Emily estavam admirando o trabalho extremamente ágil daqueles negros.
Não gostaram de ver crianças trabalhando como adultos.
Entreolharam-se e abaixaram suas cabeças, num gesto de repúdio.
No meio da multidão, destacou-se um grito seco:
— Adolph! Adolph!
Adolph tentava avistar de onde vinha o chamado, mas o barulho e a desordem impediam a pronta identificação.
— Adolph, aqui! Sou eu.
Aí, sim, Adolph pôde avistar.
Um jovem moreno, cabelos castanhos, muito bem vestido.
Encostado próximo a três carruagens estava Alberto, o fazendeiro.
Adolph correu ao seu encontro.
— Alberto, que bom vê-lo!
Meu Deus, eu não imaginava que as pessoas aqui fossem tão falantes e... Agitadas.
— Por isso eu não suporto este lugar.
Isto não é como Paris ou Lisboa.
Estou farto de tanta sujeira, de tantos negros ao meu redor.
Estava preocupado que vocês não viessem.
Eu quero tratar da venda da fazenda e sumir deste lugar imundo.
Adolph ficou desconcertado.
Não esperava que Alberto fosse tão indelicado e arrogante.
O americano olhava as pessoas à sua volta e não sentia o asco que Alberto sentia.
Pelo contrário, sentia-se em casa.
Nunca uma cidade o havia fascinado tanto como o Rio de Janeiro.
Pensou:
"Meu Deus, isto aqui é o paraíso!
As belezas naturais são fantásticas.
As pessoas parecem muito simpáticas.
Como Alberto pode ser tão insensível?"
Adolph teve seu pensamento cortado pelos gritos de Mark e Sam:
— Adolph, não encontramos as nossas bagagens.
— Calma - disse Alberto.
Seus pertences já se encontram nas carruagens.
Tão logo o navio atracou, meus escravos foram pegar suas bagagens.
Por sorte eu ainda tenho alguns negros não tão burros, que sabem ler, o que facilitou a localização das malas.
Agora vamos, chamem suas esposas, porque não aguento mais ficar neste lugar horrível e fétido. Vamos.
Sam, Mark e Adolph entreolharam-se.
Não gostaram da postura de Alberto.
Será que valeria a pena fazer negócio com ele?
Será que ele era um bom sujeito?
Não estariam fazendo um mau negócio?
Deixaram os pensamentos de lado e foram buscar Emily e Anna.
Entraram nas carruagens e seguiram viagem.
Todos estavam encantados e maravilhados com a cidade, sua arquitectura, com a mistura das raças.
Ficaram muito impressionados com a beleza dos mulatos e mulatas.
Assustaram-se com o desrespeito de alguns homens, que açoitavam desumanamente alguns negros.
Adolph perguntou o porquê daquilo.
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 08, 2015 8:22 pm

Alberto respondeu-lhe:
— Nós costumamos vender escravos.
Quando a produção na fazenda cai, por exemplo, por que é que vamos ficar sustentando esse povo nojento?
Então nós trazemos para cá, nesta praça, e fazemos comércio.
E ainda mais agora, que estamos proibidos de importar essas criaturas, existem alguns espécimes que valem um bom dinheiro.
Como diz um amigo meu, também fazendeiro: negro vale ouro.
— E por que estão batendo naquele negro ali? - perguntou Mark, preocupado.
— Porque ele foi vendido separado da mulher e dos filhos.
Ele não quer separar-se de sua família, por isso está apanhando.
Negro não pode reclamar, senão apanha, entendeu?
— Não, não entendi - disse Mark, agora com raiva no tom de voz.
E você acha justo separar um pai de sua esposa e filhos?
Isso é crueldade.
— Crueldade nada.
Eles se ajeitam nas senzalas, ficam fazendo filhos e mais filhos.
É uma raça inferior, portanto não podem seguir os preceitos de família como nós seguimos.
Não podemos ser sentimentalistas com essa gente.
Não se pode titubear.
Sam fazia de conta que não ouvia nada.
Não podia acreditar no absurdo que Alberto falava daquelas humildes pessoas.
Adolph segurou o braço de Mark, que já estava a ponto de esbofetear o rosto de Alberto.
O brasileiro continuava:
— E, ademais, precisamos ser firmes com eles.
Eu já tive de mandar matar alguns negros metidos.
Eles me faziam juramento de morte, pode uma coisa dessas?
Olhem o atrevimento!
Antes mesmo de me jurarem morte eu os massacrava.
Tonico, meu capataz lá na fazenda, adora fazer esse tipo de serviço.
Os americanos estavam estarrecidos.
Isso era crueldade e desumanidade pura.
Por sorte, as mulheres estavam em outra carruagem.
Não ouviram as barbaridades que Alberto foi falando durante o trajecto até a fazenda.
Algumas horas depois, pararam numa pousada.
As mulheres aproveitaram para se banhar e retocar a maquilhagem.
Os homens suspiraram pelo facto de ficarem livres dos comentários maledicentes de Alberto.
Aproveitaram e fizeram uma farta refeição.
Arroz, feijão preto, angu. E muito vinho.
De sobremesa foi-lhes servido quindim.
Ficaram maravilhados.
Embora se sentindo pesados com o repasto, aprovaram a comida local.
— Anna - disse Emily —, vamos aprender rápido a fazer estes pratos.
Não imaginava que a comida brasileira fosse tão variada e saborosa.
— Espero aprender a não fazer nada disso - disse Anna num tom de desalento.
Todos se entreolharam.
Isso não era sua postura de costume.
Sam perguntou-lhe, preocupado:
— Por que, meu bem?
Você tem uma mão óptima para cozinhar.
Por que disse isso?
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 08, 2015 8:22 pm

— Porque, se aprender a cozinhar essas delícias, vou engordar como uma porca.
Você vai querer uma esposa gorda e horrorosa?
Caíram todos na risada.
Realmente Anna estava certa.
Ela nem imaginava o que viria pela frente.
Nem sequer podia imaginar o que as cozinheiras da fazenda iriam lhe ensinar.
Após o quindim, tomaram delicioso café.
Estranharam um pouco, porque era muito forte, diferente do café americano.
Seguiram viagem.
— Alberto - perguntou Adolph —, quantas horas mais de viagem?
— Duas horas e estaremos na fazenda.
Eu lhe disse na carta que ela não ficava longe da cidade.
— E não fica longe? - rebateu Mark.
Estamos viajando desde cedo.
Você acha quatro horas de viagem pouco?
— Vocês americanos são engraçados - respondeu Alberto.
Um bando de ianques nascidos e criados em cidadezinhas pequenas.
Por acaso você acha que o Brasil é pequeno?
Quatro horas não é nada.
Existem fazendas que ficam a três dias da cidade.
Já está cansado da viagem?
— Ora, seu... - Mark quase partiu para cima do brasileiro.
Sam e Adolph seguraram-no.
Sabiam agora quem era na verdade Alberto.
Mas não podiam enervar-se com seu jeito estúpido de falar.
— Calma, Mark - disse o próprio Alberto.
Poupe o seu nervosismo aos negros imundos que vai encontrar lá na fazenda.
Continuaram a viagem em silêncio.
Desejavam o mais rápido possível acertar a compra da fazenda e livrar-se de Alberto.
Pouco depois de uma hora chegaram.
Um imenso portão de ferro, em forma de arco, foi aberto por dois negrinhos.
Árvores e flores das mais variadas espécies rodeavam o caminho até a casa grande.
A beleza da fazenda Santa Carolina era descomunal.
Alguns minutos caminhando pela propriedade, avistaram um rio abastecido por belíssima cachoeira.
Adolph pediu para que Alberto parasse a carruagem.
Nunca haviam visto nada igual.
A paisagem era magnífica.
Ficaram alguns minutos contemplando a beleza do lugar.
Alberto intimamente se deliciava.
Aqueles trouxas americanos estavam gostando. Isso era bom.
Dois escravos morreram, dezenas ficaram doentes a fim de deixarem a fazenda impecavelmente linda aos olhos dos estrangeiros.
Valeu o esforço daqueles negros imbecis e imundos, pensou.
O resultado deixara-o feliz.
Era isso que ele queria:
livrar-se o mais rápido daquela fazenda que não lhe dava um pingo de lucro, pois seus cafezais estavam morrendo ano após ano.
Os escravos não cuidavam bem das plantações.
Alberto já havia perdido dinheiro com a venda de uma fazenda em Goiás.
Não iria permitir o mesmo com a fazenda Santa Carolina.
Havia se endividado para mantê-la e precisaria vendê-la pelo dobro do que valia.
Pagaria as suas contas e iria para Lisboa, com a irmã e o resto da fortuna.
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 08, 2015 8:22 pm

Leve sorriso sarcástico esboçou-se em seus lábios.
Os rapazes nem notaram.
A apreciação da beleza foi interrompida por uma cena hedionda.
Próximo à cachoeira, jazia o corpo de uma menina negra, muito machucado.
Anna e Emily correram na direcção da garota.
Os rapazes seguiram-na.
Alberto ficou parado, encostado na carruagem, irritado com o ocorrido.
Enquanto os americanos corriam em direcção à menina, Alberto bradava:
— Não liguem.
É uma negrinha safada.
Não cumpriu direito com os afazeres que tinha lá na casa-grande e foi castigada.
Sorte de estar próxima da água, pois o que ela merecia mesmo era o tronco.
Ninguém parou para dar ouvidos aos seus comentários.
Quando se aproximaram da menina, caída próxima ao leito do rio, custaram a crer na verdade.
A pobre menina estava com as costas, peito e pernas em carne viva.
Mal conseguia respirar, tamanha a dor.
Filetes de sangue escorriam pela água cristalina do rio.
Anna e Emily começaram a chorar.
Viraram-se para Alberto indignadas.
Adolph e Mark pegaram a garota.
Com extrema delicadeza e com profundo pesar no olhar, retiraram-na do leito do rio.
Sam abriu um de seus baús de viagem e pegou uma coberta para cobrir a menina nua, que tremia de dor e frio.
Estendeu-a no gramado próximo ao rio.
— Coloquem-na aqui, rapazes.
Com cuidado, porque os cortes estão muito profundos.
Anna retirou a capa que estava usando e, juntamente com Emily, rasgou-a em tiras largas, a fim de cobrir os cortes mais profundos, para amenizar a dor da menina.
Os gritos de dor da negrinha, conforme sua pele esfacelada entrava em contacto com a coberta, eram terríveis.
Mesmo os rapazes, agora, estavam com os olhos marejados.
Como um canalha podia fazer uma barbaridade daquelas?
A pobre menina não tinha mais do que doze anos.
Alberto, completamente alheio à situação, disse-lhes:
— Bem, já que a tiraram do rio, deixem que o resto ficará por conta de Tonico.
Não precisam mais sujar as mãos.
Mark esbofetearia Alberto, não fossem os braços fortes de Sam a segurá-lo.
— Mark, não ligue.
Não vale a pena.
— Como não vale a pena, Sam?
Esse patife iria deixar a pobre menina morrer aqui.
Como um ser tão desumano como ele pode ficar com essa cara tão serena?
Merece levar uma surra.
Uma surra, entendeu?
Alberto gargalhava:
— Ora, ora. Vocês americanos são tão sentimentalistas!
Àquilo que não tem valor vocês dão atenção, e àquilo que tem valor vocês não dão a mínima.
Agora larguem a negrinha e vamos até a casa-grande.
Chega de perda de tempo.
Adolph também estava se irritando com os impropérios do brasileiro.
— Alberto, o preço pela fazenda é aquele da carta, não é verdade?
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 08, 2015 8:22 pm

— É, sim, Adolph.
E não venha agora querer baixá-lo.
Só as belezas que viram até agora já valem o preço que pedi.
Isso porque vocês ainda não viram a casa.
Adolph procurou acalmar-se.
— No navio, conhecemos um fazendeiro brasileiro.
Ele nos disse que o preço que você havia pedido era muito alto, mas que, se melhorássemos o sistema de colheita do café, teríamos um bom retorno daqui a alguns anos.
— Sei. E daí? - redarguiu Alberto.
— E daí que, durante a viagem, convertemos o valor da fazenda de conto de réis para dólar e percebemos que dinheiro não é problema para nós.
Sendo assim...
— Sendo assim... - continuou Alberto, secamente.
— Sendo assim, eu já me sinto proprietário desta fazenda.
— Óptimo, fico feliz com isso.
Quero ir embora o mais rápido possível deste inferno - gritou Alberto, levando as mãos para o alto.
— E como proprietário - continuou Adolph — eu faço o que quiser aqui, de agora em diante.
Com voz firme e o dedo em riste no rosto de Alberto, Adolph continuou:
— Por esta razão, a menina vai ser levada connosco na carruagem até a casa grande e vai receber todos os cuidados necessários.
Alberto ficou colérico:
— Você nunca esteve por aqui antes, ianque.
Aqui não é a América.
Não se pode misturar as coisas.
Essa negra tem de ir para a senzala.
Não pode receber cuidados na casa-grande, jamais.
Adolph perdeu o controle.
Seu rosto ficou vermelho.
A raiva que sentia naquele instante era forte demais para ser controlada.
Partiu para cima de Alberto.
Com as mãos no pescoço dele disse, num tom de voz capaz de estremecer qualquer ser humano:
— Eu levo a menina para onde eu quiser, entendeu?
Para onde eu quiser.
Eu sou o novo dono desta fazenda, portanto a partir de agora as coisas serão do meu jeito.
Eu vou levá-la até a casa-grande.
Assim que cuidarem dela, vamos acertar as contas.
Não o quero mais por aqui.
Eu quero que você suma de nossas vidas, Alberto.
Estamos conversados?
Todos permaneceram calados.
Ninguém desta vez quis segurar Adolph.
Estavam cansados de tantas barbaridades vindas de Alberto.
Vendo a pobre menina naquele estado, não suportariam mais nada.
Sam e Mark deitaram a menina na carruagem onde estava Anna e Emily.
Alberto estava impassível.
Não movia um músculo do corpo.
Assustou-se com a postura dos americanos.
Eles não eram tão imbecis quanto imaginava.
Constrangido com a situação, Alberto procurou apaziguar os ânimos:
— Está bem, você é quem manda.
O rapaz do cartório já se encontra em meu escritório.
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 09, 2015 8:58 pm

Vamos fazer a transacção agora mesmo.
Assim que assinarmos toda a documentação, eu partirei.
Nem pousarei aqui esta noite.
— Assim é melhor - disse Adolph, tirando as mãos do pescoço do rapaz.
Antes de embarcarem para o Brasil, e durante a viagem, todos estudaram português.
Ainda não tinham domínio do idioma, mas sabiam o suficiente para entender as crueldades que saíam da boca de Alberto.
Adolph era o único com o português fluente, pois o aprendera com Augusto e Carlos, na época da faculdade.
Ele entrou na carruagem de Anna e Emily.
Passando suavemente a mão no rosto da menina, perguntou:
— Como você se chama?
A menina, embora com muita dor, teve forças para dizer:
— Rosa, senhor.
Meu nome é Rosa.
Com os olhos marejados, Adolph disse:
— A partir de agora, Rosa, ninguém mais vai ser maltratado aqui na fazenda.
Eu prometo.
— Obrigada, senhor... Obrigada...
Rosa não conseguia falar mais nada.
As dores dos cortes eram muito fortes.
Estava praticamente desfalecida.
As carruagens partiram em direcção à casa-grande.
Todos emudecidos.
Nos minutos seguintes, o silêncio só foi cortado pelos gemidos de Rosa.
A cada gemido, ouviam-se os gritos abafados de Anna e Emily, muito sensibilizadas com a situação.
Alberto seguia sozinho em sua carruagem.
Sam e Mark espremeram-se entre os baús da terceira carruagem.
Não suportavam mais ficar ao lado daquele homem completamente sem escrúpulos.
A estrada margeava o rio.
Algum tempo depois, após uma sinuosa curva, avistaram a casa-grande.
Ela era imensa, linda.
Paredes brancas e janelões azul-marinho.
Galhos de primaveras cercavam toda a varanda, cujas flores amarelas enroscavam-se nas sacadas, dando um toque romântico e delicado ao casarão.
Mark foi o primeiro a descer.
Não acreditou no que via.
Era a mesma casa do sonho.
A mesma, igual, inclusive as cores.
Como podia ser possível?
Não suportando a emoção, Mark desatou a chorar.
Emily foi em sua direcção:
— Querido, não fique assim.
Por que chora tanto?
Mark abraçou-se à esposa.
Continuou a soluçar por mais alguns instantes.
Terminada a forte emoção, conseguiu dizer:
— Emily, meu amor, esta é a casa com que eu sonhei.
Eu já havia comentado com vocês antes.
Mas é muito real.
Desde pequeno eu vejo esta casa.
Com as mesmas cores, inclusive.
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 09, 2015 8:58 pm

E, virando-se para Adolph:
— Meu amigo, o que acha disso?
Será que eu já conhecia a casa?
Adolph estava impressionado.
A gravura da casa, quando mostrada a Mark, possuía paredes amarelas.
E Mark dizia sonhar com a mesma casa, só que com a parede na cor branca.
Antes de Adolph responder a Mark, Alberto disse:
— Eu sabia que vocês iriam gostar e ficar.
Eu tinha tanta certeza disso que mandei pintar a casa toda.
Aliás, gastei um bom dinheiro para arrumar esta fazenda.
E pintei-a desta cor porque era a cor da fazenda quando minha família a comprou, anos atrás.
Mark e Adolph se olharam.
Como podia Mark ter acertado inclusive a cor da casa grande?
Passada a emoção, voltaram a real situação.
Uma negra simpática, moça ainda, na faixa dos vinte anos, e mais um negro alto e musculoso, bem bonito e na mesma faixa de idade, aguardavam os estrangeiros.
Alberto mais uma vez mostrou seu carácter:
— Ora, por que só Jacira e Pedro aqui na recepção dos novos patrões?
Onde está Maria?
— Ela está na senzala.
Está muito triste com a morte da filha - respondeu Jacira, com a cabeça voltada para o chão.
Alberto desatou a rir.
Gargalhava sem parar.
— Como você é estúpida, Jacira.
A pobre coitada não morreu, infelizmente.
Foi socorrida por esses gringos imbecis.
Alberto esqueceu-se de que Adolph tinha domínio do idioma português.
Adolph, por sua vez, esqueceu-se de sua educação.
Avançou para cima de Alberto, dando-lhe um soco no nariz.
O rapaz não teve tempo de reagir.
A força do murro levou-o directo ao chão.
Ninguém entendeu nada.
Anna, Emily, Sam e Mark ainda não tinham completo domínio do português.
Depois que Adolph lhes disse o porquê de ter dado um murro em Alberto, todos aprovaram e queriam fazer o mesmo.
Jacira e Pedro assistiram à cena estarrecidos.
A satisfação de verem o patrão caído no chão, com nariz e boca ensanguentados, brilhava em seus olhos.
Tinham vontade de beijar Adolph.
Controlaram-se. Estavam começando a gostar dos novos patrões.
Adolph dirigiu-se a Jacira e Pedro.
— Meu nome é Adolph.
Estes aqui são Anna e Sam, Emily e Mark.
Formamos uma grande família, unida por laços de afecto e respeito, e seremos seus novos patrões.
— Sim... Sim... - responderam Jacira e Pedro.
- Depois de acertarmos as contas com Alberto, conversarei com vocês e com os outros empregados.
Agora, por favor, ajudem-me com a menina que está na carruagem.
Levem-na aí para dentro da casa-grande e cuidem dela, vocês me entenderam?
Jacira e Pedro olhavam-se assustados.
Quem seria essa menina necessitando de cuidados?
Seria uma nova sinhazinha com problemas de saúde?
Correram até a carruagem.
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 09, 2015 8:58 pm

Os americanos se surpreenderam e também se emocionaram com o grito de alegria de Jacira ao reconhecer o rostinho de Rosa na carruagem.
— Rosa, minha Rosinha!
Acharam você, minha menina.
Graças a Deus!
Bem que Pai Juca disse:
louvados sejam os novos patrões.
Pedro também estava emocionado.
Antes de pegarem Rosa e levarem-na para a casa-grande, foram beijar as mãos dos novos patrões, num sinal de profundo agradecimento.
Pedro disse-lhes:
— Penso que o resgate de Rosinha foi uma bênção.
Todos os escravos aqui da fazenda serão eternamente gratos.
Os americanos se emocionaram.
Não estavam acostumados com aquele jeito carinhoso do povo brasileiro.
Estavam começando a gostar do Brasil.
Pedro e Jacira correram de volta à carruagem.
Ele pegou Rosa nos braços e levou-a até a casa-grande.
Jacira foi até a senzala avisar a mãe da menina que sua filha sobrevivera.
Alberto não estava gostando nada daquela situação.
Assim que avistou o rapaz do cartório, na porta da sala, disse:
— Vamos logo.
Quero assinar a papelada e ir embora deste lugar.
Está anoitecendo, e quero partir antes de a escuridão tomar conta da paisagem.
Vamos.
Adolph, Sam, Anna, Emily e Mark foram apressados até o escritório.
Não queriam mais a presença insuportável de Alberto.
Nem repararam na rica e apurada decoração da casa.
Meia hora depois, todos os papéis estavam assinados.
Finalmente os americanos eram proprietários da fazenda Santa Carolina.
Alberto tinha como certa a venda da propriedade, por isso já havia levado quase todos os seus pertences para a capital.
Pegou seus últimos bens e partiu, aliviado por deixar aquele pedaço de terra improdutivo na mão dos ianques.
Mal se despediu.
Seguiu viagem com destino à capital, levando consigo o rapaz do cartório.
Anna e Emily percorreram todo o interior da casa-grande.
Adolph, Sam e Mark queriam dar uma volta pela fazenda, mas já estava escurecendo.
Resolveram deixar para a manhã seguinte a visita pelas terras e a conversa com os escravos.
Tinham muito tempo pela frente.
Adolph pegou uma pequena jarra de vinho.
Serviu uma taça a cada um dos amigos.
— Companheiros, este é o nosso novo lar.
Que ele nos traga muitas alegrias de agora em diante. Saúde!
Todos responderam, emocionados:
— Saúde!
E brindaram à nova etapa de suas vidas.
Uma etapa carregada de optimismo, coragem e determinação.
O brinde foi interrompido por uma grave voz de mulher.
Os americanos curvaram-se para o som que vinha do corredor que dava acesso à cozinha.
Era Maria, a mãe de Rosa.
— Que Deus abençoe cada um de vocês, meus novos senhores.
Serei eternamente grata por resgatarem a minha filhinha.
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 09, 2015 8:59 pm

Maria parou de falar.
O pranto não a deixou continuar o agradecimento.
Adolph tomou a palavra:
— Não nos agradeça.
Fizemos o que achávamos ser o correcto.
Viemos de uma terra distante.
Não estamos acostumados com esse tratamento desumano aos empregados.
Acredito que vocês terão também uma nova vida daqui para frente.
Vocês continuarão em seus afazeres, como de costume.
Mas serão tratados como seres humanos, e não como escravos.
Maria não acreditava nas palavras do novo patrão.
Deus havia ouvido as preces dos escravos.
Finalmente eles teriam uma vida digna.
Intimamente ela agradeceu a Deus, mais uma vez, pelo facto de agora estar nas mãos de gente boa, gente honesta.
E agradecia mais ainda o facto de ter sua filha viva.
Isso ela nunca mais iria esquecer.
Faria tudo para defender os novos patrões.
Maria era uma bonita negra, perto de seus quarenta anos.
Seu marido havia morrido anos atrás, quando Rosa ainda era bebé.
Ele discutira com Alberto e foi para o tronco.
Não resistiu às chicotadas, ao sol escaldante e à falta de comida.
Maria só tinha Rosa.
Por ser excelente cozinheira, morava na casa-grande.
Jacira e Pedro faziam as arrumações na enorme casa.
Também moravam lá.
Eram casados e não tinham filhos.
A crueldade com que o Alberto tratava os escravos não lhes dava a coragem necessária de terem filhos.
Por esse motivo, tratavam Rosa como filha.
Adolph chamou Pedro no canto da sala.
— Diga-me, por que Rosa foi açoitada tão brutalmente?
Ela não é servil?
Pedro, meio sem jeito, mas acreditando na boa intenção de Adolph, respondeu:
— Não é isso, não, sinhozinho.
A menina Rosa é tão boa cozinheira quanto à mãe.
Ajuda muito a gente aqui na casa.
Acontece que o senhor Alberto bebia muito.
E, quando bebia, queria pegar Rosinha, o patrão sabe bem para quê...
Adolph indignou-se.
Pedro continuou:
— Desta última vez, ele foi mais violento.
Rosa, para se defender, cuspiu na cara dele e deu uma mordida na sua mão.
Ele ficou fulo da vida e bateu nela até não poder mais.
Desta vez achamos que ela não fosse aguentar.
Foi muito feio.
— E o capataz? Não podia ajudar?
Ninguém aqui podia impedir aquele canalha de fazer uma coisa dessas?
— Sinhozinho, desculpe.
O senhor não sabe o que é ser escravo.
Ser escravo é o mesmo que nada.
Somos tratados como animais.
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 09, 2015 8:59 pm

Quando o assunto é negro, ninguém se mete.
E o capataz é gente do patrão.
Ele é tão perverso quanto o Sr. Alberto.
Tonico não presta de jeito nenhum.
Ele também queria abusar de Rosa.
Adolph estava estarrecido.
Não podia acreditar naquele tipo de conduta.
Virou-se para Sam e Mark, falando pausadamente em português, para que eles entendessem:
— Rapazes, amanhã já temos alguém para mandar embora.
Pedro arregalou os olhos.
Não esperava que Adolph tivesse aquela atitude.
Por que o novo patrão iria mandá-lo embora?
Só porque tinha sido sincero?
Será que havia se enganado com os novos donos da fazenda?
Ia falar algo, mas Adolph não deixou.
Continuou a conversa pausada com Sam e Mark:
— Teremos de arrumar um novo capataz.
Parece-me que esse Tonico é tão vil quanto Alberto.
Os rapazes, mesmo sem entender direito o que ele falava, menearam afirmativamente a cabeça.
Pedro encheu-se de euforia.
Quase abraçou Adolph.
Realmente ele não havia se enganado.
Seus novos patrões eram pessoas maravilhosas.
Saiu correndo da casa-grande e foi se reunir com os escravos na senzala.
Todos já haviam terminado o trabalho no cafezal.
O burburinho era grande.
Os escravos já sabiam que os novos patrões haviam acolhido Rosa e que, graças a eles, ela não morrera.
Pedro chegou e contou sobre o soco que um dos novos patrões tinha dado em Alberto e sobre a demissão de Tonico.
Os escravos duvidaram.
Era muita notícia boa naquele inferno em que viviam.
Resolveram, ainda que temerosos, fazer uma pequena festa para os novos patrões.
Os mais velhos se reuniram no centro da senzala e todos juntos fizeram uma oração de agradecimento.
Pai Juca, o mais velho de todos, não continha a emoção.
Lágrimas escorriam sem cessar pela sua face enrugada pelo tempo.
Os santos haviam ouvido suas preces.
Estavam livres do mal.
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 09, 2015 8:59 pm

Capítulo 17

A casa-grande possuía três salas enormes, um escritório reservado e uma cozinha ricamente equipada.
No canto da sala principal havia um extenso corredor, dando acesso a seis quartos, todos mobilados em estilo colonial.
Cortinas de veludo davam um toque europeu à decoração.
Havia três quartos no lado esquerdo do corredor e mais três quartos do lado direito.
No final do corredor, um grande vitral colorido evidenciava o requinte da construção.
Adolph mais os dois casais escolheram os quartos da ala esquerda, pois era a ala que recebia os primeiros raios de sol.
Os quartos da ala direita foram designados para os hóspedes, ou para os filhos que viessem com o tempo.
Pedro, Jacira, Maria e Rosa dormiam em dois cómodos ao lado da cozinha.
As varandas rodeavam o casarão, com lindos galhos de primaveras amarelas entrelaçados nas grades.
Além de bancos de madeira azul, elas tinham redes coloridas espalhadas por toda a sua extensão.
Os americanos adoraram as redes.
Nunca tinham visto algo parecido.
Correram feito moleques, onde cada um foi escolher a sua.
Após brincarem na rede, tomaram um caldo preparado por Maria.
Rosa sentia-se um pouco melhor.
Outras escravas passaram algumas ervas em seu corpo e deram-lhe também um chá.
Adolph, Anna, Sam, Emily e Mark estavam realmente muito cansados.
Despediram-se.
Adolph foi para o quarto no final do corredor.
O quarto do meio ficou para Mark e Emily e o da ponta ficou para Sam e Anna.
Não tiveram tempo de banhar-se.
Suas forças haviam se exaurido devido ao turbilhão de emoções vividos desde que chegaram ao Rio.
Cada qual caiu num sono profundo e reparador.
O dia resolveu dar boas-vindas ao grupo americano.
O sol logo cedo já se fazia presente.
Não havia uma nuvem sequer no horizonte.
Podia-se sentir o cheiro do orvalho que a noite de primavera havia deixado no vasto verde da fazenda.
Adolph foi o último a acordar.
Despertou com um forte mas agradável cheiro de café.
Lavou-se e foi até a sala de refeições.
Mark, Emily, Sam e Anna já estavam a postos, devorando todas as novidades brasileiras, colocadas caprichosamente sobre a mesa.
Estavam acostumados com bacon, ovos, batatas.
Foram surpreendidos por bolos de fubá e de chocolate, geleias de vários tipos, doce de leite, manteiga, pão salgado e pão doce, leite e, obviamente, o delicioso café.
Adolph desatou a rir bem-humorado das expressões de deleite que seus amigos faziam.
— Não acredito que vocês estejam devorando todas essas coisas.
Cadé o bacon? E os ovos?
Emily respondeu, soltando farelos de bolo de fubá pelos cantos da boca:
— Adolph, você é que não vai acreditar!
Que bacon que nada...
Venha comer este bolo de fubá com manteiga.
Está quente e a manteiga fica derretendo toda nele.
Junte este pedaço de bolo com manteiga a este delicioso café escuro que Maria nos fez.
É um banquete dos deuses.
Só queremos comida brasileira daqui para frente.
Todos concordaram com Emily.
Adolph coçou a nuca e, num gesto gracioso, sentou-se com os amigos.
Maria e Jacira, na ponta da sala, riam divertidas do comportamento dos novos patrões.
Os tempos de paz haviam retornado àquela fazenda.
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 09, 2015 8:59 pm

Tão logo terminaram o café, chamaram Pedro para que os conduzisse pelas terras.
Tanto os rapazes quanto as moças queriam saber qual o real tamanho da propriedade e qual seu estado.
Pedro correu a selar cinco cavalos.
Maria foi cuidar de Rosa, que havia amanhecido bem melhor.
Jacira foi tratar do almoço.
Antes de partir, pediram a presença de Tonico.
Minutos depois ele apareceu no escritório.
Um homem de estatura mediana, com pouco mais de quarenta anos, barba por fazer, a aparência bem rude.
Tonico já sabia o motivo de ter sido chamado pelos novos patrões.
Alguns escravos mais afoitos haviam comentado em alto e bom som que ele seria demitido.
Não tiveram muito tempo de conversa.
Sem a protecção de Alberto, Tonico sabia que seria bem difícil domar aquele bando de escravos.
Sabia haver perdido a autoridade.
Iria embora naquele dia mesmo, com medo de ser pego por algum escravo que quisesse acertar as contas.
Ele já havia ceifado tantas vidas, por que não poderiam acabar com a dele?
Tonico soubera havia algumas semanas que Alberto iria vender a fazenda.
Alberto, enquanto acertava com Adolph a venda da propriedade, indicou o nome de Tonico para trabalhar numa fazenda de um conhecido seu, próxima de São Paulo.
Em dez minutos, e em monossílabos, Adolph, Mark e Sam acertaram o pagamento de Tonico.
Ele pegou as notas, contou-as.
Percebeu que havia mais do que o esperado, mas resolveu não falar.
Mark, percebendo o que ia na cabeça de Tonico, disse:
— Sabemos que você está levando mais do que merecia.
Não somos burros e não erramos no cálculo.
Agora vá, antes que eu perca a paciência com você.
Tonico colocou o dinheiro no bolso e saiu ligeiro.
Não teve coragem de dizer adeus a ninguém.
Embora amáveis, aqueles homens eram firmes.
Efectuada a demissão de Tonico, partiram os casais mais Adolph rumo ao conhecimento da nova propriedade.
Conforme andavam pelas plantações de café, os americanos eram saudados pelos escravos.
A alegria e a satisfação de estarem lá trabalhando para aqueles novos patrões estavam estampadas no rosto de cada homem, de cada mulher, de cada criança.
Não imaginavam que a fazenda fosse tão grande.
Rodaram horas e mais horas.
Não tinha fim.
No alto de uma colina, resolveram parar.
Desceram de seus cavalos.
— Diga-me, Adolph - perguntou Mark.
É tanta terra assim?
Você sabia da real extensão da propriedade?
Pedro respondeu antes de Adolph emitir qualquer resposta:
— Esta é uma das maiores fazendas do Rio de Janeiro.
Até onde os olhos dos patrões puderem avistar daqui da colina, é tudo dos senhores.
Não acaba mais.
— Mas é muita terra - respondeu Sam.
Como uma fazenda como esta não dá lucro?
Qual o problema, se há tanta terra e tanto café?
— Bem - seguiu Pedro —, o sinhozinho Alberto era muito ruim com a gente.
Ninguém trabalhava direito, não plantava direito.
A gente fazia de propósito mesmo.
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 09, 2015 8:59 pm

Ele nunca gostou daqui e nunca soube administrar a fazenda.
E, quanto mais negros morriam por causa das surras dele e do Tonico, mais a gente não trabalhava direito.
E também...
— E também o quê? - perguntou Adolph.
— É que... Que... - Pedro pigarreou.
Não sabia se devia falar, mas confiava nos patrões.
Continuou:
— É que a gente também fez uns trabalhos com o Pai Juca para terra daqui secar para sempre.
— Como assim? - indagou Sam.
Eles não estavam entendendo o que Pedro tentava lhes dizer.
— A gente fez umas rezas e uns trabalhos com os nossos santos, e a terra começou a não dar mais para plantar.
Agora que tem patrão novo, a gente já começou a fazer trabalho para a terra voltar a dar de novo.
E os santos vão ajudar, porque gostaram dos patrões.
— Pedro - perguntou Adolph —, como os santos vão ajudar?
Que santos são esses?
— São espíritos que a gente recebe na senzala toda sexta-feira.
São os nossos guias.
A palavra "espírito" fez com que todos se entreolhassem admirados.
Teria algo a ver com o que eles estavam estudando?
Sam remexeu-se inquieto no selim, virou-se para Pedro e respondeu:
— Está bem, Pedro.
Nós acreditamos em você.
Não precisa se assustar.
Nós entendemos um pouco disso e qualquer hora vamos conversar mais a respeito.
Agora vamos voltar, está na hora do almoço.
Amanhã vamos percorrer o resto.
Queremos falar com os escravos e arrumar um novo capataz para a fazenda.
— Tem o Tonhão, patrão.
É um negro bem forte.
Ele nasceu aqui na fazenda.
Conhece como ninguém toda esta plantação.
E os escravos gostam muito dele.
Mas acontece que ele também é escravo.
— E qual o problema? - perguntou Emily.
Escravo não pode ser capataz?
Existe hierarquia, por acaso?
Pedro admirou-se com o jeito de Emily falar.
Era uma patroa diferente.
Não era quieta e, ainda por cima, falava esquisito.
Um português quase igual ao de escravo, todo errado, pensou.
Tornou a falar, devagar, para que Emily entendesse:
— Sabe o que é, patroa?
Acontece que capataz geralmente é homem branco, que ganha para a trabalhar.
A gente não ganha nada.
E não existe capataz negro.
Anna, dando de ombros, disse a Pedro:
— Pois bem, então agora teremos um capataz negro.
Não me interessa o que as pessoas vão pensar.
É problema delas.
Eu quero um bom empregado para as terras, não me importa se ele é branco, amarelo ou verde.
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 09, 2015 9:00 pm

O que nos importa é que ele seja bom. Só isso.
Pedro, bem como os outros, ficou impressionado com as palavras de Anna.
Bateram palmas para ela.
E voltaram felizes para a casa-grande.
Tonhão era realmente um negro bem alto e bem forte.
Careca, com um pequeno cavanhaque, assemelhava-se mais a um mongol, não fosse sua cor de ébano.
Simpatizaram rapidamente com ele.
Seria o novo capataz, e teria mais dois escravos a ajudá-lo, visto que conheciam bem a fazenda.
Eles não queriam salário, pois não sabiam o que fazer com o dinheiro.
Não tinham noção do valor do dinheiro.
O que interessava àquela gente era a comida, um tanto escassa, e poder descansar um dia na semana, inclusive até para poderem cultuar seus santos.
Havia muito patrão na fazenda.
Mas também havia muito trabalho a ser feito.
Desta forma, eles se dividiram em grupos.
Sam e Mark iriam cuidar da plantação.
Adoravam a terra e queriam estar junto a Tonhão e os outros escravos, aperfeiçoando os processos de produção.
Adolph e Emily se encarregariam de melhorar a vida dos escravos.
Iriam cuidar da parte "social" da fazenda.
Anna iria ajudar Adolph e Emily, mas somente de vez em quando.
Preferia ficar ao lado de Maria e Jacira, aprendendo as receitas da culinária brasileira.
Assim, cada qual teria uma função durante o dia.
Reuniam-se no almoço para troca de ideias e depois voltavam ao trabalho.
Por volta das cinco horas da tarde terminavam seus afazeres e voltavam para casa.
Banhavam-se e jantavam.
Depois se reuniam na varanda, cada qual em sua rede, e estudavam as questões espirituais até serem dominados pelo sono.
Três meses após a chegada dos americanos, a fazenda Santa Carolina já ia de vento em popa.
As chuvas de fim de ano ajudaram a semeadura.
As plantações de café cresciam em ritmo acelerado.
Os escravos agora estavam trabalhando com alegria, dedicação e amor, tanto a terra quanto aos novos patrões.
Afeiçoaram-se especialmente por Adolph, Emily e Anna, pois eles faziam a parte social, cuidando das crianças doentes, melhorando a condição de vida dos escravos na senzala.
Deram um bom pedaço de terra para que os escravos plantassem tudo aquilo de que necessitassem, desde frutas, verduras, legumes, até ervas.
Rosa já estava completamente curada.
Trabalhava com amor e dedicação, deixando os trabalhos mais leves nas mãos de Jacira.
Não havia um dia em que ela não arrastasse os pesados móveis da casa, a fim de mantê-la sempre limpa.
Pedro foi promovido e também trabalhava durante o dia com Tonhão, Sam e Mark.
Os escravos, contentes, resolveram fazer uma festa, pouco antes do Natal, em homenagem aos novos patrões.
Anna, Emily e Maria decidiram ir até a capital comprar panos para os escravos confeccionarem novas roupas para a festa.
Levantaram bem cedo e foram para a capital.
Naquele dia, Pedro, o único escravo que já havia ido até a cidade, deixou seu trabalho para levar as moças até a cidade.
No trajecto, dentro da carruagem, corria divertida conversa entre as patroas e Maria.
Maria, contente com a nova vida, longe dos maus-tratos, puxou conversa com Anna:
— Sinhá, toda sexta-feira, em nossos rituais, acendemos velas para a vocês.
É uma forma de agradecimento pelo que têm feito pela gente.
— Ora, Maria, não fazemos mais do que a nossa obrigação.
Tudo na vida é troca.
Eu sei que vocês vivem num regime duro, levam uma vida áspera.
Mas a nossa religião faz crermos que tudo tem um motivo.
De alguma maneira estamos aprendendo e absorvendo o que a vida nos dá.
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 09, 2015 9:00 pm

Emily tornou, amável:
— Sabe, Maria, cada um de nós teve sua tragédia na vida.
Eu perdi meus pais e depois perdi meu irmão numa guerra lá na América.
Anna também perdeu a família numa nevasca...
— Desculpe, sinhá Emily. Nevasca?
— Nevasca, de neve.
— Não estou entendendo...
— Aqui não há neve, Maria.
Lá na América, sim. São flocos de gelo que caem do céu, no inverno.
É como se fosse uma chuva, mas, ao invés de cair água, cai neve.
Maria não conseguia imaginar o que Emily estava falando.
Em sua cabeça não conseguia fazer ideia do que fosse neve.
Limitou-se a responder:
— Ah, sei... Sei...
Anna e Emily caíram na risada.
— Desculpe, Maria - disse Anna.
Você não pode entender uma coisa que nunca viu.
O mesmo ocorreu connosco quando nos falaram da ausência de neve aqui no Brasil.
Tivemos de vir até aqui e ver se era verdade mesmo.
Maria sentia-se muito bem ao lado das novas patroas.
Atreveu-se a perguntar:
— E o sinhó Sam e o sinhó Mark?
Ou o sinhozinho Adolph?
Eles também passaram por tragédias?
Emily respondeu, dando um tom sério às suas palavras:
— Mark era xerife em nossa cidade, mas sofreu um acidente e ficou manco, o que o fez se aposentar precocemente.
Sam perdeu os dois filhos e a primeira esposa de forma trágica, e Adolph, bem, Adolph perdeu o seu grande amor.
— Nossa, sinhazinha, quanta tragédia na vida de vocês.
Quem vê nem pensa, não é verdade?
Vocês são tão bons, tão amáveis.
Será que é coisa de americano?
Acredito que cada povo deve passar por aquilo que é necessário em seu aprendizado.
As palavras de Maria tocaram as patroas.
Emily disse:
— Nossa, Maria, você também imprime um tom diferente às suas palavras.
Ás vezes até esqueço que é escrava.
Acho você tão lúcida.
Por que pergunta se tragédia é coisa de americano?
Maria esfregou as mãos uma na outra, aflita.
Pensou ter falado demais.
Meio sem graça, respondeu:
— Sabe, sinhá Emily, alguns anos atrás conheci um americano.
Eu ainda não tinha sido vendida para a fazenda do sinhozinho Alberto.
Faz muitos anos.
Eu trabalhava numa pensão lá na capital.
Anna perguntou:
— E por que você não nos disse que já conhecia a cidade?
Poderíamos ter deixado Pedro na fazenda.
— Não, sinhá, não poderiam.
Quando eu vim da cidade para a cá, foi durante a noite, e há muito tempo.
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 09, 2015 9:00 pm

Portanto não faço ideia do caminho.
E, além do mais, é sempre bom termos um homem connosco.
Existem muitos almofadinhas lá na corte.
Eles podem querer abusar das senhoras, porque vocês são muito diferentes do povo daqui, e também...
São muito lindas.
Anna e Emily sorriram.
Intimamente se orgulharam do elogio de Maria.
Sentiam ser sincero.
Emily, mais faladeira, continuou interessada na conversa da escrava:
— Então, Maria, conte-nos.
Você conheceu um americano?
Ele mora aqui ainda?
— Não, não mora mais.
Ele se instalou na pensão em que eu trabalhava.
Simpatizei por ele logo de cara.
Era um homem muito descrente.
Mas, como digo, e disse sempre, quando a tragédia bate à nossa porta, não queremos saber se somos médicos, curandeiros ou benzedeiras.
Qualquer coisa serve para salvar uma vida.
Anna estremeceu.
Ela já tinha ouvido falar na palavra "benzedeira" antes. Mas quando?
Estava delirando, pensou, nunca tinha ouvido falar em benzedeira.
Emily interessou-se.
Não contendo a ansiedade, perguntou:
— E aí, Maria, que tragédia foi essa que bateu à sua porta?
— Na minha porta, nenhuma.
Na dele foi que bateu.
Seu filho começou a ficar doente, doente.
E olha que o americano era médico.
Mas a febre levou muita gente aqui da cidade.
Não adiantou nada, porque a vida já havia decretado que o filho dele tinha que partir.
E nós, mesmo sendo ignorantes, sabemos que a vida, quando decreta, acontece.
Porque ela ganha sempre.
— Como assim? - perguntou Emily.
— Ora, sinhá, morrer nada mais é do que ir para outro estado de vida.
Portanto não existe morte. Só existe vida.
Você vai estar sempre viva, não importa se na Terra ou no astral.
Ou seja, a vida sempre vence, não tem jeito.
Os dizeres de Maria eram sábios para uma pessoa de seu nível.
As mulheres continuaram interessadas na conversa.
— Diga mais, Maria - suplicou Anna.
— Bem, o filho dele tinha que partir de qualquer jeito.
Sua hora havia chegado.
Fizemos o possível, mas um dia o Pai Juca foi visitar o menino.
Assim que ele chegou, viu os guias do garoto.
Não deixaram a gente fazer muita coisa.
Não era nosso direito alterar o destino do menino, a não ser que o próprio garoto quisesse.
Mas só podia partir dele, de mais ninguém.
— E o pai da criança, Maria, voltou para a América? - inquiriu Anna.
— Voltou. Depois que o menino morreu, ele quis voltar para a América.
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 09, 2015 9:00 pm

É por isso que eu entendo o que os sinhozinhos dizem, mesmo com sotaque, porque aprendi bastante inglês com ele.
Eu falava dos nossos santos, das curas, e ele ensinava a língua para a mim.
Eu tenho muita saudade do doutorzinho Anderson...
Anna deu um salto no banco da carruagem e um grito de espanto e de dor.
De espanto pelo nome que Maria havia pronunciado, e de dor pelo galo que ganhou batendo a cabeça no teto do coche.
Emily, assustada com a reacção de Anna, empalideceu.
Maria, passando delicadamente a mão na cabeça de Anna, perguntou:
— Sinhá Anna, por que o susto?
O que foi?
— Desculpe, Maria.
Mas qual foi o nome que você disse?
Foi Anderson?
— Isso mesmo, sinhá: Anderson.
Um médico extraordinário.
Um grande homem.
Anna abriu e fechou a boca, sem articular som algum.
Como podia ser?
Então Maria era a benzedeira que cuidou do filho de Anderson?
Do Dr. Anderson, aquele médico que a ajudou a encarar uma nova forma de viver?
Aquele que veio de Chicago a pedido do Dr. Lawrence?
Então esta era Maria, a mulher que havia mudado a vida de Anderson?
Era muita coincidência.
Anna não conseguiu impedir a avalanche de perguntas em sua mente.
Emily preocupou-se:
— O que foi, querida? O que aconteceu?
— Nada, Emily - respondeu Anna.
E virando-se para Maria:
— Eu já conheço você, Maria, pelo menos de nome.
Sou amiga do Dr. Anderson.
— É mesmo? A senhora o conhece?
Desta vez foi Emily quem deu um salto no banco da carruagem:
— De onde você conhece esse homem, Anna?
Por acaso é a mesma pessoa?
Você não está se confundindo?
— De jeito nenhum - respondeu Anna, mais aliviada.
E continuou:
— Quando Sam e Brenda estavam doentes, o Dr. Lawrence chamou uma equipe de médicos lá de Chicago.
Foi na noite em que Brenda morreu.
Aliás, foi o Dr. Anderson quem a encontrou morta na cama.
Antes de ir para o quarto dela, conversamos um pouco.
Eu até fui dura com ele.
Eu disse que ele não tinha autoridade para me falar sobre a morte das crianças, porque era muito fácil falar, pois ele não sabia o que era perder um filho...
Anna parou um pouco.
Começou a chorar.
Lembrou-se do quão áspera havia sido com o médico e o quanto admirava aquele homem.
Prosseguiu:
— Então ele me disse que tinha morado no Brasil, que seu único filho tinha morrido aqui.
E que ele tinha recebido muita força de uma mulher chamada Maria.
Só pode ser você, Maria.
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 09, 2015 9:01 pm

Foi a vez de a escrava dar um salto do banco.
Era inacreditável!
Lembrou-se de ter recebido uma carta de Anderson uns anos atrás, na qual ele relatava um caso em que parecia haver obsessores envolvidos.
Logo em seguida Maria foi vendida a Alberto e não pôde responder à carta.
Mas deveria ser outro caso.
Ela mesma falou:
— Pode ser coincidência, dona Anna.
Acho que o médico é o mesmo, até pensei que a história que me contaram, do sinhozinho Sam, fosse a mesma da carta que ele me escreveu.
E retomaram a conversa.
Estavam as três fascinadas com a incrível coincidência.
Estava lá, diante de Anna, a mesma mulher que havia ajudado o querido Anderson, anos atrás.
Chegaram à cidade.
Embora com algumas vielas sujas e malcheirosas, o Rio de Janeiro era uma cidade encantadora.
Muitas árvores, casarões em estilo português, prédios de três e quatro andares, pessoas elegantes andando nas ruas.
A corte de Dom Pedro II era acolhedora, animada.
O Brasil aproximava-se do ano de 1870.
O café tornara-se o maior produto de exportação.
O Rio de Janeiro crescia a olhos vistos. A política estava lá, junto à corte.
A cultura e a moda que vinham de Paris chegavam primeiro à Cidade Maravilhosa.
Anna e Emily estavam apaixonadas pelo Rio.
Caminharam pela Rua do Ouvidor, fizeram algumas compras pessoais e depois foram à loja que vendia os tecidos para a confecção das roupas dos escravos.
Já haviam terminado de fazer as compras quando foram abordadas timidamente por Pedro:
— Dona Anna e dona Emily...
Eu queria fazer um pedido...
Anna sorriu e perguntou:
— Pode fazer, Pedro.
O que é? Quer comprar algo?
— Não, sinhá Anna, de jeito algum.
Não quero nada, não, estou agradecido.
Eu queria aproveitar e dar carona a um amigo da gente.
Como é vizinho nosso, eu pensei...
— Pedro, que bobagem!
Chame o seu amigo.
Nós não vamos fazer objecção alguma.
Ou vamos? - perguntou Anna virando-se para Emily e Maria.
Ao que de pronto responderam:
— De forma alguma.
— Está bom, sinhá Anna. Obrigado.
Vou chamar meu amigo - disse Pedro.
E saiu apressado.
As mulheres entraram com alguns pacotes e riam bem-humoradas do jeito sapeca de Pedro.
O riso foi interrompido por uma voz doce, cadenciada, porém máscula:
— Obrigado, madames, por me darem esta carona.
Anna e Emily surpreenderam-se.
Pensaram ser um escravo amigo de Pedro. Mas não era.
Diante delas, postava-se um homem alto, muito bem vestido, cabelos naturalmente lisos e castanhos, olhos de um profundo azul e pele bronzeada.
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 09, 2015 9:01 pm

Simpático bigode adornava seus lábios superiores, vermelhos e carnudos.
Era muito bonito.
Ambas se cutucaram, segurando-se para não gritarem de prazer.
Mas eram mulheres casadas.
E, mesmo elas sendo um pouco diferentes das mulheres da época, não era de bom-tom demonstrarem admiração por um homem que mal conheciam.
Maria soltava seus risinhos no canto da carruagem.
Anna e Emily responderam juntas:
— Prazer.
— Desculpem-me, senhoras, não quero criar transtornos.
Vou seguindo viagem sentado ao lado de Pedro.
Sei que são casadas e não é apropriado andarem na companhia de desconhecidos.
Com licença.
Sentou-se ao lado de Pedro, na parte externa da carruagem.
Após sorrisos maliciosos, as mulheres voltaram a conversar animadamente:
— Que vizinho, hein, Anna? - exclamou Emily.
Imagine Mark ou Sam vendo esse tipão?
E sabendo que mora ao lado da gente?
Vão ficar com ciúme.
Maria, mais calma, disse-lhe:
— Qual nada, dona Emily.
O vizinho fica à uma hora da sua fazenda.
Não é tão perto assim.
Anna perguntou a Maria:
— Você conhece o moço?
Ele é daqui mesmo?
— É, sim, dona Anna.
Mas não sei direito o que ocorre lá na fazenda dele.
Parece que ele é empregado.
— Empregado?
Porque é empregado se tem escravo na fazenda?
Ele não tem cara de capataz.
— Ora, dona Anna, não sei.
A história desse moço é esquisita.
Ele e mais outro moço, também bonitão, como as sinhás falam, são muito ricos e moram com uma madame nossa vizinha.
Ela é do estrangeiro e é muito doente.
Piorou depois que o marido morreu.
Acho que é caso de obsessão...
— E você nunca ajudou.
Por que, Maria? - perguntou Emily.
— O patrão lá da outra fazenda também era muito mau.
Ele era amigo do senhor Alberto.
Não deixava a gente ir lá para a ajudar.
Quem sabe, agora que tenho novos patrões, vocês permitam que eu possa visitar a madame.
— Mas é claro! - disse Anna.
A qualquer momento, Maria.
Vocês podem e devem dar auxílio.
Se for possível, nós também gostaríamos de ajudar, porque estamos estudando algo que tem certa semelhança com os rituais de vocês.
Pelo menos tanto os nossos estudos quanto a religião de vocês falam em espíritos.
Talvez estejamos permeando terrenos semelhantes.
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 09, 2015 9:01 pm

— Obrigada, sinhá Anna.
Vocês são patrões maravilhosos.
Continuaram o caminho de volta à fazenda.
Foram conversando outros assuntos.
Passadas algumas horas, Pedro parou a carruagem.
O rapaz desceu, aproximou-se da porta e despediu-se das mulheres:
— Caras senhoras, muitíssimo obrigado.
Que Deus lhes pague.
Se não fosse por sua ajuda, não sei quando eu voltaria para a fazenda.
Emily ficou intrigada:
— Mas você me parece que tem dinheiro...
— Ah, sim, eu tenho.
É que eu tinha algumas dívidas com um conhecido.
Ele foi embora do país e quis acertar as contas de qualquer jeito.
Não tive outra saída, senão ele seria capaz de me matar.
Pegou até meu cavalo como parte de pagamento.
Estava já indo à casa bancária quando avistei Pedro...
— Puxa - disse Emily.
Que sujeito mais estúpido, não é verdade?
Ele não podia esperar?
— Não - disse o moço.
Não podia porque estava partindo num vapor rumo à Europa.
Ele era meu vizinho.
Anna perguntou-lhe:
— Alberto, não é?
— A senhora o conhece? - perguntou o moço.
— Conhecer, mais ou menos.
Nós compramos a fazenda dele.
— Não diga! Vocês compraram a fazenda de Alberto?
Então somos vizinhos.
É um prazer saber que temos duas vizinhas tão bonitas ao nosso lado.
Seus pais também moram lá com vocês?
Emily e Anna sorriram graciosas.
Emily respondeu ao moço:
— Nós não somos irmãs.
Somos comadres, amigas, por certo.
Nossos pais já morreram. Somos americanas.
E, por sinal, muito bem casadas.
— Nossa! Americanas...
Adoro os americanos.
— Que bom - respondeu Emily.
Acredito então que nunca teremos problemas.
Todos caíram no riso.
Anna fez a apresentação:
— Eu sou Anna, esta aqui é Emily e esta outra é Maria.
— Prazer. Meu nome é Augusto.
Seus maridos são americanos também?
— Oh, sim - disse Anna.
— Eu sou casada com Sam, Emily é casada com Mark e temos mais um outro amigo, que é solteiro.
Nós compramos a fazenda em sociedade.
Somos cinco sócios, americanos de verdade e aventureiros.
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Ave sem Ninho

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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 10, 2015 8:10 pm

Estavam todos descontraídos.
Maria também gostou muito do rapaz.
Após mais algumas palavras, despediram-se e marcaram um café para qualquer outro dia.
Chegaram animadas na fazenda.
Mark e Sam estavam preocupados, pois estava quase anoitecendo.
— Por que demoraram tanto?
Estavam se divertindo na corte? - perguntou Sam, em tom de gracejo.
— Na corte não nos divertimos.
O melhor foi dar carona para o príncipe - disse Anna, em sonoro sorriso.
— Que príncipe? - perguntou Mark, franzindo o cenho.
— Nosso vizinho, querido - respondeu Emily.
Antes que Mark falasse qualquer coisa, Emily tascou-lhe um beijo na boca.
Logo em seguida disse:
— E não precisa ficar com ciúme.
Você é o homem da minha vida, o amor da minha vida.
Não há homem no mundo que me faça sentir tudo que sinto por você.
Anna, Maria e Sam bateram palmas.
Sam respondeu, também brincando:
— Assim não vale.
Uma declaração de amor dessas, Emily.
Você está acostumando mal o garoto.
Mas, pensando bem, tudo que você falou eu também penso em relação à minha Anna.
E, virando-se para ela:
—Não existe mulher no mundo que possa entrar no meu coração.
Ele foi todinho loteado para você, meu amor.
E beijou apaixonadamente a esposa.
Novas palmas, novas brincadeiras, mais risadas.
O alvoroço causado na sala chamou a atenção de Adolph, que estava com Jacira e Rosa na cozinha.
— Ei, o que está havendo aqui?
Que tanto falatório é esse, minha gente?
Mark respondeu ao amigo:
— É o amor, Adolph. É o amor.
Quando você ama alguém, não importa se a pessoa amada vai ser cortejada, não importa se ela sai de casa.
O que importa é o que você sente por essa pessoa.
Amar do jeito que ela é. Isso é amor.
E, além de tudo, é também respeito.
Adolph limitou-se a responder:
— Você tem razão, Mark.
Amar é uma dádiva. Parabéns aos casais.
Num gesto de profunda irritação, retirou-se da sala, indo para a varanda.
Percebendo que Mark vinha ao seu encontro na varanda, Adolph desceu rapidamente as escadas e foi caminhar um pouco.
Pegou uma lamparina e foi fazendo seu caminho.
Os amigos compreenderam o que se passava com ele.
Mark mordeu os lábios e desejou que seu amigo encontrasse um grande amor, e, assim, todos viveriam felizes para sempre.
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 10, 2015 8:10 pm

Capítulo 18

Sentada numa encosta, na porta de sua gruta, Brenda estava impaciente.
Aramis estava atrasado. Já fazia duas horas que ela estava esperando por ele.
Pensou enraivecida:
"Onde será que ele está?
Por que Aramis demora tanto?"
Brenda estava radicalmente mudada.
Nesses últimos anos, aprendera uma série de truques com Aramis.
Fez curso de manipulação mental, curso de criação de amebas destrutivas, curso de materialização e outras práticas maléficas.
O Vale das Sombras, onde Brenda morava com Aramis, era assim, uma região do Umbral formada por espíritos vingativos e manipuladores.
O desejo comum dos habitantes desse vale era a vingança.
O ódio e a vingança eram porta de entrada para que um espírito por lá se afinizasse.
Brenda estava recuperada.
Não tinha mais dores na garganta.
Usava roupas e maquilhagem extravagantes.
Sua beleza estava escondida por entre camadas e mais camadas de tintas pelo rosto.
Aramis gostava disso.
Quanto mais ela se produzia, mais ele a desejava.
Donald, seu pai, já havia tentado uma aproximação, mas ela não queria mudar.
Com a ajuda de Aramis, ela já havia recordado algumas vidas.
Como ele era um excelente manipulador, mostrou a Brenda somente às partes em que ela havia sido maltratada por Sam, Anna, Mark, Emily e Adolph.
Todos eles eram espíritos que atravessaram muitas encarnações juntos, ora no ódio, ora na vingança.
De alguns séculos para cá, Sam, Anna, Mark, Emily e Adolph procuraram melhorar.
Em suas últimas encarnações foram trilhando o caminho da luz.
Nesta última encarnação haviam se comprometido com o estudo da vida espiritual.
Planejavam difundir seus conhecimentos no Brasil, começando pelo Rio de Janeiro.
Mesmo antes de reencarnar, sabiam dos resquícios fortes de ódio que Brenda trazia do passado.
Mas, através do aprendizado e do esclarecimento dos espíritos, iriam superar as adversidades de outras vidas.
A responsabilidade de Brenda, em sua última passagem na Terra, era receber e ajudar dois espíritos com os quais se comprometera muito no passado.
Em vidas anteriores, Brenda havia sido morta por eles.
Dinheiro, poder e ganância fizeram com que esses espíritos praticassem o assassinato.
Agnes e Júlia, a par dessas vidas passadas, comprometeram-se a ajudar Brenda até onde o arbítrio lhes permitisse.
Dessa forma, já tinham conseguido afastá-la de Aramis por mais de trezentos anos.
Uma vez encarnada, Brenda, abençoada pelo véu do esquecimento, acolheria esses dois espíritos como filhos, ajudando-a, assim, a galgar seu degrau rumo à luz.
Infelizmente, o grau de raiva acumulado em seu subconsciente fez com que Aramis a descobrisse e recomeçasse a atraí-la para o caminho das trevas.
Tanto o ódio dele quanto o de Brenda comprometeram o programa de reencarnação dos três.
Aramis e Brenda viveram paixões fortíssimas na Terra, formando uma simbiose de apego que criou uma colagem energética entre ambos.
Mesmo com os crimes praticados, o plano superior intercedeu no sentido de dar uma chance ao casal.
Ficariam alguns séculos reencarnando separadamente, a fim de que pudessem descobrir o real e verdadeiro sentimento do amor.
Assim que conseguissem chegar a esse patamar, a vida os uniria, definitivamente juntos, na luz.
Mas ambos escolheram a união do lado das trevas.
E, desta vez, plano algum iria interceder a favor deles.
Mais algumas horas, e Aramis chegou.
Brenda estava soltando fogo pelas ventas.
— Como ousa me fazer esperar por tanto tempo?
Quem você pensa que é?
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 10, 2015 8:10 pm

Nunca mais faça isso, ouviu?
Aramis dava suas gargalhadas.
Adorava vê-la chegar aos extremos.
— Não fale assim, porque senão eu me apaixono, meu bem.
E agarrou-a violentamente.
Deu-lhe um beijo demorado na boca e levou-a para o interior da gruta.
Depois de amarem-se loucamente, Brenda, mais calma, perguntou:
— Insisto em saber: onde esteve esse tempo todo?
Estava com alguma vagabunda aqui do vale?
— Brenda, você é a única mulher da minha vida.
O meu fogo acende quando a vê.
Você é e sempre será a única.
Demorei porque tenho novidades.
Aramis falava sinistramente.
Isso deixava Brenda excitada.
Sabia que iriam praticar alguma maldade.
— Você encontrou os bastardos?
É isso? Você encontrou Sam e sua corja?
— Encontrei.
Sexta-feira vamos lá, acabar com o desgraçado.
Vamos trazê-lo para cá, ele e aquele manco inútil.
Exultante, Brenda continuou:
— Não diga!
Então conseguimos passar a perna naquelas duas víboras da luz?
Conseguimos despistá-las?
Vencemos! Nós vencemos, Aramis.
Como amo você!
— Eu também a amo, Brenda. Muito.
E voltaram a se amar.
Esqueceram-se temporariamente do plano de vingança contra Sam e Mark e entraram numa frenética relação de paixão e desejo.
Adolph continuava caminhando pelo campo de café.
Estava andando sem direcção.
Sentia-se angustiado.
Por que não tinha o direito de ter seu amor a seu lado?
Por que a vida não o estava ajudando? Por quê?
E assim foi caminhando, fazendo uma série de perguntas a Deus, à vida, até aos espíritos.
Estava desesperado. Ajoelhou-se no chão.
Com a voz enrouquecida pela dor que ia em sua alma, disse em voz alta:
— Deus, eu sou uma pessoa honesta, estou procurando viver da melhor maneira possível.
Tive a oportunidade de encontrar esta gente aqui sofrida e ajudá-los.
Procuro fazer o melhor possível, porque sei que somos responsáveis por tudo aquilo que vivemos.
Mas por que ficar sem meu amor?
Por que me tirou Helène? Por quê?
Adolph deixou-se cair de joelhos no chão e soluçava sem parar.
Era muita dor no peito.
O que a vida queria lhe mostrar com isso?
Por que passar pela privação do amor?
Ficou mais uns minutos esvaindo sua dor através de lágrimas e mais lágrimas.
Foi surpreendido por um leve toque em suas costas.
O susto foi tamanho, que Adolph deu um salto do chão, ficando logo em pé na defensiva.
Com a pouca luz da lamparina não conseguia ver direito quem era.
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 10, 2015 8:10 pm

— Quem é você?
Venha para mais perto da luz.
Não consigo enxergar.
Aos poucos a figura foi se aproximando.
Cabelos brancos e ralos, barba por fazer.
Um velho, negro, de estatura baixa, segurando-se numa bengala improvisada por um galho de laranjeira, lentamente veio caminhando ao encontro de Adolph.
Soltando baforadas com o seu cigarro de palha, disse:
—Fio, num percisa fica assim, não.
Num se assusta. Eu sô o Pai Juca.
Adolph se recompôs, foi-se acalmando.
Aos poucos enxugou suas lágrimas e disse:
— Desculpe-me, senhor... ahn...
Pai Juca. Eu sou...
E foi interrompido pela voz mansa e firme do velho negro:
— Ocê é o Adolph, né não, meu fio?
— Isso mesmo. Eu sou Adolph.
O velho continuava com a fala mansa:
— Num adianta chora, meu fio.
A vida ta sempre do nosso lado.
E ela treina a gente, para a sabe se aprendemo a lição...
— De que o senhor está falando?
— Do seu coração apertado.
Agora está dando valor ao amor, não é, meu filho?
A voz do velho transformou-se.
Adolph, confuso e emocionado, sem perceber direito, limitou-se a dizer:
— Eu sempre dei valor ao amor. Sempre.
Eu amei muito uma mulher no passado, e Deus tirou-a de mim.
Como não ficar com o coração apertado?
Pai Jucá continuava:
— Deus tirou porque você já a conquistou e a deixou em outras vidas, trocando-a pelas orgias, pela vida desregrada.
Será que agora está maduro o suficiente para não se deixar levar pelas garras da paixão e da luxúria, e dedicar-se definitivamente ao amor puro e incondicional, ao amor verdadeiro, real?
Adolph começou a chorar novamente.
As palavras de Pai Juca tocavam-lhe fundo.
Pai Juca, por sua vez, continuava com a fala mansa, embora modificada:
— As circunstâncias pelas quais você reencontrou o seu amor já eram um teste.
Você foi conhecê-la justamente num prostíbulo...
Adolph cobriu-se de rubor.
— Aquilo não era prostíbulo.
— Tudo bem, Adolph.
Dê o nome que quiser.
Mas o local estava repleto de baixas energias, mesmo sendo agradável aos olhos da carne.
Você passou no primeiro teste.
E logo em seguida veio o último, para ver se você havia tomado jeito, se você havia deixado alguns problemas do passado de lado.
E você conseguiu. Você mudou.
E a vida vai lhe presentear, devido ao seu esforço no bem.
Pai Juca, logo que iniciou a conversa, foi envolvido por Agnes.
Estava na hora de Adolph acertar sua vida afectiva.
E Agnes, através de Pai Juca, iria orientá-lo para o acerto definitivo de seu coração.
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 10, 2015 8:11 pm

Continuou:
— Adolph, eu o acompanho há muito tempo.
Você é uma pessoa sensível, equilibrada, lúcida.
É um homem maravilhoso.
Acredito que vá conseguir realizar o seu intento.
Com o coração calmo e estudando cada vez mais as questões do espírito, logo você terá anos de glórias e alegrias.
Adolph estava impressionado.
Só agora se dava conta de que o velho estava tomado por alguma força, pois seu português tornara-se impecável de uma hora para outra.
E todas aquelas palavras bombardeavam sua alma.
Sentia que essa era sua verdade.
Ele não tinha mais forças emocionais para continuar a conversa.
Sem falar, foi até Pai Juca e deu-lhe um forte abraço.
Tomou-lhe as mãos e as beijou.
— Vai com Deus, meu fio.
Cê vai acha a moça, logo, logo...
Cada um foi para uma direcção no meio do cafezal.
Pai Juca voltou para sua choupana e Adolph, mais tranquilo, voltou para a casa-grande.
Emily estava na varanda.
Ao ver o amigo regressar a casa, atenciosamente o indagou:
— Adolph, meu querido.
Estávamos preocupados com você.
Que bom que chegou.
Vá se lavar e vou lhe servir um excelente caldo que Anna e Jacira fizeram.
— Obrigado, Emily.
Confesso que vocês são mesmo a minha família.
Amo todos vocês.
Sem comentar sobre o encontro com Pai Juca, Adolph foi até seu quarto.
Lavou-se, mas os pensamentos fervilhavam em sua mente.
As palavras de Pai Juca ecoavam em sua cabeça, sem cessar.
Terminou de se lavar e avisou aos amigos que não iria jantar.
Estava muito cansado.
Queria ficar um pouco sozinho.
Deitou-se na cama e, imerso nos pensamentos da conversa com Pai Juca, adormeceu.
Na sala de jantar, Sam, Anna, Mark e Emily estavam preocupados com o amigo.
Mark dizia:
— Pois bem. Eu sempre achei que Adolph gostasse de Emily.
Quando ele me disse que não a amava como mulher, fiquei muito feliz.
E passei a gostar muito dele, de sua sinceridade.
Será que a vida não vai presenteá-lo com um grande amor?
Emily interrompeu-o:
— Se somos responsáveis por nossos actos, Adolph deve ter algum padrão de pensamento que o deixe nesse estado.
Acredito que, tão logo ele se liberte de tais condicionamentos, a vida vai lhe trazer uma linda esposa.
Todos concordaram.
Gostavam muito de Adolph. Continuaram a conversar agradavelmente durante o resto do jantar.
Depois, reuniram-se na sala de estar e ficaram estudando alguns livros sobre mentalismo e espiritualidade oriental que Adolph havia encomendado da Europa.
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