A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 03, 2015 8:17 pm

— Não precisa se exaltar, Mark.
É o meu ponto de vista, e só.
Estamos num país livre, não estamos?
Então eu tenho todo o direito de acreditar em tudo que quiser.
Sinto-me confortável com esta descoberta.
Acho que realmente chegou à hora de começarmos a acreditar no poder do invisível e que somos responsáveis por tudo que nos ocorre nesta vida, você me entende?
— Não. De forma alguma.
Como se atreve a falar de responsabilidade?
Como pode dizer que somos responsáveis por tudo que nos ocorre, sendo que este pobre homem, que está aí deitado, delirando, perdeu dois filhos?
Como? Por acaso aquelas crianças eram responsáveis por elas?
Por acaso tinham a obrigação de se cuidarem?
Você é louco?
Elas tinham oito meses de vida. Oito meses!
Irritado e nervoso, Mark partiu colérico para cima de Adolph, em pleno quarto, ao lado de Sam, que novamente se encontrava em estado de torpor.
Anna teve de se colocar entre os dois homens, para evitar uma briga.
— Depois de tudo que aconteceu, vocês vão começar a discutir neste quarto?
Como ousam? Olhem o estado de Sam.
Por favor, chega de confusão.
Já vivemos uma situação tão dolorida...
— Ela tem razão, Mark - disse Adolph.
Os seus pontos de vista são completamente diferentes dos meus.
Cada um pensa como quer, vive como quer.
Vamos deixar essa conversa de lado.
Procurando acalmar-se e dar outro rumo à conversa, Adolph perguntou:
— A propósito, você já conseguiu alguma pista?
— Não - respondeu Mark tristemente.
Sabe, Adolph, foi um crime tão esquisito, mas eu suspeito que...
Dizendo isso, Mark sentiu o sangue ferver.
Novamente aquele pensamento horroroso de semanas antes.
Não se permitiu fixar-se no que lhe passava pela mente.
Procurou desconversar.
— Eu suspeito que... Que...
Será sempre um crime sem solução.
De que vai adiantar?
Por acaso as crianças vão voltar? Não, não vão.
Para mim foi uma fatalidade, e todo dia eu rezo para esquecer-me disso.
Adolph ficou sensibilizado com a postura de Mark.
Realmente não fazia sentido correr atrás de alguém àquela altura.
Mas deixar um crime hediondo daqueles impune?
Ele sentia que todos eram responsáveis por si mesmos.
Ainda achava que tinha de estudar muito, mas, no fundo, Adolph queria apenas saber quem havia feito aquilo, para entender o porquê do ocorrido.
Só assim poderia ficar em paz.
Mark, para desviar os pensamentos que teimavam em ferver em sua cabeça, disparou:
— Então somos todos suspeitos? Claro que não.
A minha hipótese é de que algum forasteiro se escondeu por aí, na madrugada, e ao amanhecer verificou que podia saquear, roubar, sei lá.
E, convenhamos, a casa de nosso amigo Sam é sumptuosa...
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 03, 2015 8:18 pm

— E, segundo você - disse Adolph —, provavelmente ele deve ter esperado Sam ir ao celeiro, Anna ir para as compras e aproveitou que Brenda ainda estava dormindo e entrou pela janela do quarto das crianças.
— Isso mesmo, Adolph. Isso mesmo.
E acredito que as crianças começaram a chorar ao perceber o estranho, ou ouviram algum barulho e se assustaram, sendo que, não havendo alternativa para que se calassem, ele as enforcou.
É horrível, mas acho que foi assim. O que você acha?
— Eu acho que você está coberto de razão.
E, com o alvoroço causado por essa tragédia, a cidade toda correndo até aqui, ninguém se deu conta de verificar se tinha ou não algum estranho na cidade, fugindo.
— Realmente, naquela manhã, ninguém nesta cidade pensou em outra coisa, a não ser em consolar o pobre casal.
— E aquele bêbado que encontraram na cidade vizinha?
Não seria um suspeito, xerife?
— Olhe, eu até pensei que esse tal bêbado pudesse ser o assassino.
Eu fui até a delegacia de lá.
Mas, quando cheguei, ele já havia partido.
O xerife disse que aquele bêbado sempre aparecia por lá.
É freguês antigo da região e, segundo dizem, não faz mal nem a uma mosca.
— Que pena... Então, Mark, será que esse crime jamais terá solução?
— Acredito que nunca nesta vida saberemos quem foi o autor de tamanha brutalidade.
— Será?
Naquele instante, a conversa foi abruptamente interrompida por Emily, a responsável pelo correio local, que entrou no quarto de Sam ansiosa:
— Sr. Adolph, corra para o correio!
Chegou um pacote bem bonito, vindo da Europa.
O senhor fez alguma encomenda?
— Que eu me lembre, não.
Pacote vindo da Europa?
— Isso mesmo.
Chegou mês passado lá no porto, e, com as avalanches deste inverno, só entregaram agora de manhã.
Vamos lá, eu mesma acompanho o senhor.
— Ah, Emily, só você mesmo para que eu esboce um sorriso nestes tempos.
Vamos, então, minha cara - e ofereceu seu braço a ela, em deferência.
— Está certo, Sr. Adolph.
Com licença, xerife.
Adolph, Emily e Anna não perceberam o rubor na face de Mark.
Já fazia um bom tempo que ele andava de olho na garota.
Emily era uma linda moça.
Aos dezoito anos, possuía um corpo bem-feito, olhos e cabelos de um castanho amarelado, estatura mediana.
Nos bailes organizados para angariar fundos de guerra, o caderninho de Emily era sempre o mais disputado, deixando muitas moças morrendo de inveja.
Filha de um casal escocês, ambos já falecidos, ela herdara o posto do correio, que era de seu pai.
Seu irmão Bob, um ano mais velho, estava servindo aos aliados do norte e não lhe mandava notícias havia alguns meses, o que a preocupava.
Emily era muito esperta, inteligente.
Possuía um sorriso que cativava qualquer um.
Principalmente o coração do xerife Mark.
Mesmo sendo cobiçado por algumas moças da cidade, ele só tinha olhos para Emily. Pensava:
"Como terei coragem de falar para ela tudo que vai em meu coração?
Como dizer-lhe que a amo, que a quero como minha esposa, mãe de meus filhos?"
Ficou pensando nisso enquanto observava Sam.
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 03, 2015 8:18 pm

Anna voltou aos afazeres domésticos.
Chegando ao correio, Adolph dirigiu-se ao balcão.
— Onde está, Emily?
Você veio me perturbando tanto neste caminho, que fui contagiado pela sua excitação.
Vamos lá, menina, pegue para mim.
Emily entregou-lhe o pacote.
— Vamos, Sr. Adolph, abra logo!
Estou inquieta. Será algum presente?
Por favor, abra.
— Calma, menina!
Desse jeito você vai ter um ataque.
E, rindo, continuou:
— Vamos fazer o seguinte:
você abre para mim, está certo?
— Eu? Posso mesmo?
O senhor deixa?
— Deixo, mas só se você nunca mais me chamar de senhor.
— Está certo, senh..., desculpe!
Está bem, Adolph.
— Pode abrir.
— Oh! São livros!
Não estão escritos em inglês.
Estão em que língua?
— Deixe-me ver, Emily.
Eufórico, Adolph começou a rir.
Subiu no balcão da agência.
— Meu Deus, Emily!
Finalmente. Chegaram!
Surpresa, ela perguntou:
— Que livros são esses?
— É uma longa história, depois eu conto.
Acabo de receber algo que esperava há tempos, entende?
— Não, Adolph, eu não entendo.
Você os encomendou?
— De maneira alguma.
Quando regressei de Paris, no final do ano passado, meus amigos me falaram que um livro muito importante iria ser publicado este ano, mudando, para sempre, a visão do homem sobre todas as coisas.
Está escrito em francês, por isso você não entende.
— E esse outro?
— Ah, este outro aqui é sobre metafísica, questões do espírito humano.
É um livro que eu tenho aqui, mas está escrito em francês.
Como meus amigos são brasileiros, estão me presenteando com a edição original, escrita em português.
Emily, desconhecendo o assunto, pegou aleatoriamente o livro francês:
— O que está escrito aqui na capa, afinal de contas?
— Está escrito "O Livro dos Espíritos".
Mal deu tempo de Adolph terminar de dizer o nome do livro, e Emily, com o medo estampado no rosto, impulsivamente jogou o livro num canto e saiu correndo para o depósito, gritando:
— Adolph, tire isso daqui!
Leve esse livro para longe.
Imagine se as pessoas aqui na cidade sabem que você mexe com esses assuntos profanos.
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 03, 2015 8:18 pm

Falar de espíritos?
É muita ignorância. Coisa de gente à toa.
— Emily, não se zangue. Desculpe-me.
Eu jamais tive a intenção de causar susto a você.
Este é um livro sobre estudos da espiritualidade que está sendo lançado na França.
Uma obra que já era esperada, que o autor escreveu através do contacto com espíritos.
Um livro que ajuda a entender muitas coisas que acontecem connosco nesta vida.
E este outro já é mais filosófico.
— E por acaso esses livros podem explicar a morte das crianças?
Esse tal livro dos espíritos vai elucidar o crime?
Como você, um homem estudado, pode dar crédito a um autor que teve colaboração de espíritos para escrever?
Não é insanidade?
— Escute, se fosse insanidade, não seria publicado.
Em Paris, conheci o professor Rivail.
É um homem culto, educado, inteligente, cativante.
Faz parte das altas rodas da sociedade, e já há muita gente por lá que está de acordo com suas ideias.
— Mas aí na capa não consta o nome Rivail.
— O professor adoptou o nome de Allan Kardec.
Este homem é um sábio, um estudioso.
E garanto, minha cara, que este livro vai mudar os conceitos que o homem tem das coisas.
— Que coisas? O que pode mudar?
Que agora não vamos mais morrer?
Que não vamos mais ter guerras?
Que meu irmão vai voltar vivo?
Que coisas são essas, Adolph?
— Assuntos da natureza humana, minha cara.
Assuntos proibidos pela igreja.
Morte, culpa, de onde viemos, como nascemos, por que vivemos aqui neste mundo, por que cada um de nós tem uma vida diferente...
— E você está achando que esse livro francês, desses tais espíritos, e esse outro brasileiro vão explicar tudo isso, não é?
— Tenho certeza absoluta.
— Você fala com tanta convicção, Adolph, que eu estou começando a entrar na sua história.
Veja eu, uma mulher lúcida, independente, inteligente, começando a acreditar no que você me diz.
— Quem sabe, à medida que eu for lendo esses livros, trocando cartas com meus amigos em Paris para tirar dúvidas, eu possa lhe mostrar uma nova forma de pensar, certo?
— Adolph, eu sou uma mulher.
Mesmo sendo colocadas de lado nesta sociedade machista, se não fôssemos nós, o que seria dos soldados feridos nesta guerra horrível?
Trocando ideias, animados, ambos ficaram horas conversando na agência do correio.
Mais alguns dias se passaram.
O inverno daquele ano foi rigoroso, com muitas avalanches e nevascas.
Cidades foram parcialmente destruídas por ventos fortes, deixando um saldo de centenas de mortos espalhados pelo norte do país.
Os amigos de Sam estavam preocupados.
Ele não estava reagindo aos medicamentos e não se alimentava, piorando seu estado.
— Doutor, o que mais poderemos fazer? - perguntou Anna.
— Não sei, minha querida, já tentamos de tudo.
Acredito que orar será o melhor remédio.
Anna estava arrasada.
Também já tinha feito tudo que podia.
Alimentava Sam, ministrava-lhe os remédios prescritos pelo Dr. Lawrence.
Mas estava cansada. Sam não reagia.
Lawrence, percebendo seu estado, começou a conversar, a fim de animada.
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 03, 2015 8:18 pm

— Anna, recebi uma carta de meu amigo Anderson, lá de Chicago.
Ele perguntou por você.
Anna sorriu. Trocou a dor de ver Sam naquele estado pela saudade que sentia do Dr. Anderson.
— Oh, Dr. Lawrence, ele perguntou por mim?
Eu conversei tanto com ele naquela noite terrível.
Aliás, se não fosse a força do Dr. Anderson, não sei como suportaria tudo aquilo.
— Não só você como eu também.
Anderson é uma pessoa muito esclarecida, muito lúcida, um homem muito inteligente.
Conhece os quatro cantos do planeta.
Imagine que ele morou até no Brasil!
— Ele me falou.
É o mesmo lugar onde nasceram aqueles amigos que Adolph conheceu em Paris.
Confesso que me senti tão pequena, tão estúpida.
Nunca viajei na vida, nunca saí de Little Flower.
— Mas e a cidade onde você nasceu e viveu até encontrar o pai de Brenda?
— Ah, doutor, eu nem me lembro.
Eu era muito pequena.
Só me recordo de que tinha muita neve.
Devia ser mais ao norte do país, provavelmente.
Sabe, o Dr. Anderson me falou de sua maneira de encarar a vida, os factos. Ele é brilhante.
Onde o senhor o conheceu?
— Anderson estudou comigo na faculdade.
Depois, por obra do destino, nos separamos.
Mas sempre mantivemos contacto.
Mesmo quando ele estava no Brasil, nunca deixou de me escrever.
— A morte do filho foi muito dura para ele, não?
— Sabe, Anna, perder um filho deve ser muito triste, uma dor muito pior do que a do filho que perde o pai.
Porque o filho vai casar-se, constituir família.
Ele tem uma vida pela frente, caso venha a perder os pais.
Ao passo que o filho é a própria vida de um pai.
Anderson sofreu muito com a morte de Júnior.
Pensei até que ele fosse se matar.
— Eu gostei muito dele.
Se pudesse escolher um pai, eu o escolheria.
Ele nos fala da vida com clareza.
— É, sim, Anna.
Depois que Júnior morreu, ele se envolveu com umas pessoas no Brasil, participou de alguns rituais, de algumas curas, não sei ao certo o quê, porque ele nunca se abriu comigo sobre esses assuntos.
— Mas devem ser pessoas boas e decentes, porque ele demonstra ser muito bom também.
— Anderson é uma pessoa instruída, um médico conceituado em Chicago.
O facto de ter sido sempre equilibrado ajudou-me a também enxergar a vida de outra maneira.
Anna espantou-se:
— O senhor também pensa como ele?
E por que nunca nos disse nada?
— Por causa do preconceito, Anna.
Eu já estou velho, não tenho mais para onde ir, não tenho mais como me aventurar pelo mundo.
O pouco que ganho vem dos meus pacientes aqui em Little Flower.
Imagine eu falando aos meus pacientes que eles são responsáveis pela dor que sentem.
Eles nunca mais iriam se tratar comigo.
E eu ficaria sem nada.
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 04, 2015 8:47 pm

— Entendo o seu ponto de vista, doutor.
Naquela semana em que o Dr. Anderson ficou aqui aprendi muitas coisas.
As palavras dele estão me confortando até hoje, ajudando-me a cuidar de Sam.
Ela começou a chorar.
Por mais que tentasse, era-lhe muito triste ver Sam naquele estado.
Lawrence também não sabia o que fazer.
Orava, pedindo pela melhora de Sam.
Terminou de ver seu paciente e foi até a cadeira em que Anna estava sentada.
— Minha filha, tenho certeza de que logo tudo vai passar.
E sei que vocês serão felizes.
Anna estremeceu.
Não conseguia olhar para Lawrence.
Como ele havia notado?
— Anna, não precisa me dizer nada.
Aliás, não precisa dizer nada a ninguém, a não ser para a pessoa que merece o seu amor.
E não queira usar a cabeça, porque, nesses casos, só tendo o coração como guia.
A conversa foi interrompida pelos gemidos de Sam, que estava novamente delirando:
— O que fazer agora, vovô?
Mudar de casa... De cidade... De País... Hum...
Anna esqueceu-se por ora do amor que vibrava em seu peito.
Preocupada, disse:
— Está vendo, doutor? Ele ainda delira.
Acho que faz uns três meses que não pára de sonhar com o avô.
Como pode isso?
— Não sei. Mas é melhor ele delirar do que não respirar.
Vamos continuar elevando o nosso pensamento para o bem dele.
Já que eu descobri que você andou conversando muito com meu amigo Anderson...
— O senhor está com ciúme?
Ora, doutor, o senhor é o melhor médico do mundo.
Eu o adoro!
Anna abraçou Lawrence com carinho. Ele lhe deu um beijo na testa.
— Eu também gosto muito de você, Anna.
Às vezes eu me pergunto se não poderia estar no lugar de Donald naquele dia em que a encontrou. Adoraria ter uma filha como você.
Abraçaram-se, e ela nada disse.
Estava emocionada com as palavras do velho médico. Lawrence continuou:
— Eu já vou para casa, está tarde.
Gostaria que você fosse até a cozinha e trouxesse um pouco de caldo quente para Sam.
Mais tarde Mark virá para continuar a vigília.
Agora, por favor, conduza-me até a porta.
— Com todo o prazer.
Vamos, mas antes tome também um pouco de caldo.
Sem modéstia, está tão bom...
— Vou aceitar, Anna.
Está bastante frio hoje, e um caldo vai muito bem.
Ainda mais um caldo feito com amor e carinho, só pode fazer bem.
Começaram a rir e saíram do quarto.
Desceram as escadas e foram até a cozinha.
Após a saída de Anna e Lawrence, duas figuras presentes no aposento durante todo o diálogo permaneceram aos pés da cama de Sam.
Agnes, mais uma vez, estava lá, dando a assistência necessária, junto a Roger.
Pingos de luz começaram a descer do céu em direcção ao corpo de Sam.
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 04, 2015 8:47 pm

Em segundos, seu campo áurico foi tomado por um colorido bem vivo, variando nos tons de azul.
Essas luzes não podiam ser vistas no plano físico, mas a sensibilidade de Sam as percebeu.
— Vovô, não aguento mais estes sonhos.
Por que devo delirar tanto assim?
Por que não morro de vez? Levem-me daqui.
Deus, tenha piedade de mim, tire-me daqui, por favor.
Começou novamente a chorar.
Roger e Agnes levantaram-se, cada um ficando de um lado da cama, próximo à cabeceira.
Das mãos de Roger saíam fluidos coloridos que entravam pela testa de Sam e saíam pela região do umbigo.
Enquanto isso, Agnes pousava as mãos nos objectos do quarto, limpando-os.
De suas mãos saía uma luz branca que, em contacto com os objectos, imediatamente tornava-se negra, sendo logo em seguida dissipada no ar.
O trabalho de Roger e Agnes nesse momento, era o de preservar o corpo físico de Sam, ao mesmo tempo em que deveriam manter o ambiente magnetizado com energias revigorantes.
- Roger, acredito que sejam necessários mais uns dois dias para levantarmos Sam da cama.
Ele já passou tempo demais prostrado.
Depois de todo este tempo magnetizando seus alimentos e ministrando-lhe estes passes duas vezes ao dia, sinto que ele já se encontra em condições de partir para a próxima etapa.
O que acha?
— Agnes, você o acompanha desde que foi fecundado, desde que estava na barriga da mãe.
Estava olhando algumas anotações que os outros guias fizeram, mas há algumas coisas que não compreendo.
Eu sei que tudo isto aqui já estava previsto, mas e agora?
Não vejo mais anotações daqui para frente.
— Querido Roger, entenda uma coisa:
estes primeiros vinte e um anos de Sam já estavam traçados.
Quando somos novos, na maioria das vezes temos poucas escolhas a serem feitas.
Mesmo sendo espíritos já velhos, aprisionados num corpo jovem, temos poucas escolhas.
À medida que vamos envelhecendo no plano físico, vamos aumentando as nossas responsabilidades, porque já tivemos mais experiências, mais treino.
E isso é o que vai acontecer com ele a partir de agora.
— Você acredita que ele esteja maduro o suficiente para encarar essa nova etapa?
Ir para um outro país, com outra língua, outros costumes...
É muita mudança. Há mesmo essa necessidade?
— Roger, você se esqueceu de que os outros envolvidos estão naquele país?
O nascimento de Sam foi programado para ser aqui nos Estados Unidos por razões que já conhecemos.
Você sabe que Brenda nunca poderia nascer no Brasil.
Se assim fosse, todo o plano de encarnação dos dois estaria comprometido, porque aqui não há o suporte necessário para o que ele tem de realizar, compreende?
— Sim, Agnes, compreendo, muito embora Brenda tenha se comprometido muito feio.
Mas... Brasil?
Por que o meu neto tem de ir para o Brasil?
Por mais que eu tente, eu não consigo compreender.
— Roger, seu neto viveu no Brasil na encarnação anterior.
Todos nós temos laços com aquele país, inclusive você.
— Então qual a razão de eu ter uma mente tão bloqueada?
Por que mesmo eu, um espírito que está ao lado da luz, tenho tantas indagações e não compreendo tantas coisas assim?
Nem ao menos me sinto ligado ao Brasil...
— Porque não quer, Roger.
Você está muito apegado ao seu neto.
Você se envolve com o problema dos outros.
Não é pelo facto de estar na luz que você irá se livrar do seu ego.
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 04, 2015 8:48 pm

— Como, problema dos outros?
Ele é o meu único parente vivo e não tem mais ninguém nesta vida, a não ser a mim.
Se nós não estivéssemos cuidando dele, ele não teria resistido.
Como posso ir estudar e largar meu neto?
Vindo de você, Agnes, uma mentora?
E, ainda por cima, de luz?
— Por isso mesmo.
Eu não fico toda hora ao lado de Sam.
Nestes últimos vinte e um anos, estive com ele, na verdade, por quatro vezes.
O resto do tempo fico à distância.
Não precisamos ficar ao lado dos nossos amigos encarnados.
Mentalmente, vou direccionando seu neto, sempre, é claro, quando ele pede ajuda, através de suas orações.
— E se não pedir?
E o seu orgulho?
Acha que meu neto vai ficar implorando a Deus para que faça tudo para ele?
— Claro que não.
Mas compreenda uma coisa, Roger:
somos responsáveis por tudo que fazemos em nossas vidas.
E, se acontece algo com alguém com o qual estamos envolvidos emocionalmente, é porque devemos aprender algo.
Eu disse aprender, e não viver o drama do outro.
— Você fala de um jeito diferente.
Mesmo assim, sinto que toca meu coração.
Quando meu neto chegar àquele país, eu juro que largo mão dele e vou estudar.
Estou tentando vaga para o curso de "Desapego".
— Não sabia que você queria fazer esse curso.
Eu sou uma das coordenadoras.
Você quer mesmo fazê-lo?
Pode ficar tranquilo, pois vamos abrir novas turmas para este semestre.
A procura está sendo muito grande.
— Enquanto estávamos conversando, conseguimos terminar o trabalho de magnetização de hoje.
Vamos ficar aqui esta noite?
— Não, temos alguns serviços lá na colónia.
Anna está voltando da cozinha.
Vamos aplicar-lhe um passe e magnetizar a sopa que está trazendo para Sam.
E assim fizeram.
Roger ficou ministrando um passe em Anna, e Agnes fluidificou a sopa que Sam iria tomar.
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 04, 2015 8:48 pm

Capítulo 6

O dia amanheceu cinza, com muita neve.
Anna procurava fazer o possível para manter aquecido o quarto de Sam, deixando a lareira sempre em brasa.
Sam estava bem melhor.
Os passes de Agnes e Roger e os cuidados de Anna estavam surtindo efeito.
Pela primeira vez, em meses, Sam espreguiçou-se ao acordar.
Estava mais corado.
O período de prostração parecia ter chegado ao fim.
— Anna... Anna...
Onde está você? Cadé o meu café?
Ela estava cantarolando na cozinha e demorou um pouco para escutar o chamado.
Num instante, seu coração começou a trepidar.
Estava difícil esconder o amor que sentia por Sam.
Nesses meses de cuidados intensos, o seu coração estava completamente ligado nele.
Órfã, Anna chegou à casa de Brenda com apenas seis anos.
Donald, o pai de Brenda, era agricultor.
Sempre viajava, no fim de cada inverno, para a compra de sementes.
Numa dessas viagens, uma forte nevasca forçou-o a pousar num vilarejo.
Durante a semana em que ficou preso, ele conheceu a pequena Anna.
No quarto dia de nevasca, algumas casas na periferia da cidade não resistiram e foram levadas pelo vento, matando muitas famílias, inclusive a de Anna.
Donald, tomado pelo espírito da fraternidade, começou a ajudar os habitantes da cidade no socorro aos sobreviventes, que eram levados para a paróquia da cidade, em função de o hospital estar lotado de feridos abatidos pela nevasca.
Aquela garotinha loira, de olhos azuis, lembrava muito sua filha Brenda.
Donald, que tinha somente uma filha, encantou-se pela menina.
Ela tinha a mesma idade que Brenda.
Poderia ser sua companheira, sua irmã.
Quando as estradas foram liberadas, uma semana depois, Donald e Anna já estavam unidos.
O sentimento de afeição de Anna por Donald também era forte.
— Posso chamá-lo de papai?
As lágrimas brotaram dos olhos de Donald.
Emocionado, ele respondeu:
— É o que mais gostaria neste mundo.
Você vai ser criada por mim e pela minha esposa.
Brenda vai adorar você, tenho certeza.
— E se ela não gostar? E se me bater?
— Nunca! Prometo-lhe, minha pequena, que nada e ninguém irá tocar em você.
Além do mais, Brenda sempre quis ter um irmão, ou irmã.
— E por que ela não tem mais irmãos?
Por que o senhor não faz mais irmãos para ela?
O rosto de Donald ficou vermelho.
Como aquela garotinha, tão pequena, podia falar coisas daquele tipo?
Nem um adulto ousava tocar naquele assunto.
Mas a meiguice de Anna era tanta que ele não resistiu e, com largo sorriso estampado no rosto, respondeu:
— Anna, isso é assunto de gente grande.
Depois do nascimento de Brenda, a minha esposa não pôde mais ter filhos.
Mas, graças a Deus, agora tenho duas.
Continuaram o trajecto até chegarem a Little Flower.
Brenda ficou mais animada do que o pai.
Arrancou Anna da carruagem e arrastou-a como uma boneca para dentro de casa.
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 04, 2015 8:48 pm

— Papai, ela vai dormir comigo?
Pode dormir comigo, não pode?
— Claro, minha filha. Anna é sua nova irmã.
Ao invés de vir embalada pela cegonha, numa fralda, já veio grandinha.
— Por que o senhor a trouxe grandinha?
Não podia escolher uma menorzinha?
Um bebé?
— Poder, eu até que podia.
Mas, Brenda querida, não é melhor já trazer uma do seu tamanho?
Sua mãe e você não aguentariam choro de criança.
— Não mesmo, papai.
O senhor está sempre certo.
Posso chamá-la de irmãzinha? Posso?
— Pode, e deve.
Anna voltou ao presente.
O facto de encontrar-se apaixonada trazia-lhe essas boas recordações.
Mas agora não tinha tempo para isso.
O importante era cuidar de Sam.
Enquanto levava o café para ele no quarto, ia pensando:
"Que bom, ele está se recuperando.
Eu tinha certeza disso.
Ele sempre foi forte, eu sabia que iria sobreviver.
Claro, é horrível perder a família assim, mas a vida continua, não podemos ficar chorando pelas perdas.
O Sr. Donald sempre me dizia isso:
quem chora as perdas não tem tempo de sorrir os seus ganhos.
Anna deu uma leve batida na porta.
— Posso entrar, Sam?
— Entre, por favor.
— Olá. Que boa surpresa!
Estava há dias querendo ver essa melhora.
Preparei o melhor café do mundo para você.
Pães, bolos, um bom caldo, ovos e um pouco de carne também.
— Calma, Anna! Quer que eu morra?
Se eu comer tudo isso agora, não vou resistir.
Ele estava bem-disposto e já voltava a sorrir.
— Mas que fantástico!
Você está tão bem...
Vou chamar Adolph.
Ele me pediu para chamá-lo, caso você melhorasse.
— Então faça isso.
Enquanto tomo meu café, vá chamá-lo.
— De jeito algum, Sam. E se você se engasgar?
E se a carne ficar parada na garganta?
— Anna, está me tomando por um bebé?
Eu sou bem grandinho.
Pare com tanta preocupação.
Já dei muito trabalho, agora quero e preciso voltar a trabalhar, retomar a minha vida.
Agnes e Roger estavam no quarto de Sam.
Agnes, com muita paciência, conseguiu convencer o velho Roger a largar o neto e tratar de sua vida.
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 04, 2015 8:48 pm

— Pronto, Roger.
Ele está óptimo, não acha?
Vamos deixá-lo por ora.
Não deveria trazer você aqui, mas como você não acreditou em mim...
— Realmente foi fantástico o que você fez pelo meu neto.
Ele está até corado.
Que maravilha, Agnes!
Agora, sim, você conseguiu me convencer.
Não vou acompanhá-lo até o Brasil.
Agradeço por ter conseguido aquela vaga no curso para mim.
— Que começa depois de amanhã, certo?
— Isso mesmo.
Vou ficar um ano estudando assuntos ligados ao desapego.
É um curso intensivo.
São quatro horas por dia de aulas teóricas e mais quatro horas de exercícios.
Você, como coordenadora, fez parte da elaboração?
— Fiz.
— O que vou aprender, Agnes?
Será que pode me adiantar um pouco?
— Roger, meu amigo, você não tem jeito.
Aguarde e verá.
O próprio título do curso já diz: desapego.
Você vai aprender a depender apenas de si, a buscar equilíbrio, paz, amor em você mesmo.
Vai aprender que você pode e é capaz de se nutrir, de criar forças em volta de você, aprender a se garantir na vida.
Somos responsáveis por tudo que fazemos, daí a necessidade de fortificar o nosso pensamento, sempre no bem, e nos tornarmos, de uma vez por todas, impessoais.
Só uma pessoa, ou um espírito no estado impessoal, poderá alcançar a luz e sair da dor que o apego cria.
É o primeiro bem que podemos fazer, ao contrário do que muitos pensam, é desapegar-se de tudo e de todos.
— Como aquelas pessoas que largam tudo e ficam isoladas num monte, longe da civilização?
— Mais ou menos isso.
Mas agora o assunto não é este.
Viemos para você se despedir do seu neto.
Não se esqueça de que daqui a três horas o seu ónibus vai pegá-lo.
E você sabe muito bem que a disciplina de nossa colónia não permite atrasos.
— Você tem razão, Agnes.
Vou ficar só mais um pouquinho aqui.
Não fiz o curso ainda, portanto sou apegado ao meu neto.
Será que vou conseguir?
— Todos podemos, quando queremos.
Quando se quer alguma coisa, sempre se consegue, não importa o que seja.
Você é um espírito inteligente, gosta de se sentir útil.
Vai adorar as aulas.
— E é verdade que, depois de terminar o curso, eu poderei, de acordo com minhas notas, ter o mérito de rever minhas vidas passadas?
— Esse é um dos méritos, Roger.
Você poderá também escolher ir para outras colónias, visitar seu neto aqui neste planeta ou conseguir vaga para outros cursos mais disputados.
Bem, está na nossa hora.
Precisamos voltar.
Sam nada percebeu, só sentiu um bem-estar muito grande.
Estava corado, alegre, com disposição e vigor.
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 04, 2015 8:49 pm

Agnes e Roger deram um beijo no rapaz e seguiram viagem.
Sentado em sua cama, Sam estava melhor.
Mais lúcido e animado, percebeu o tom cerimonioso com o qual era tratado por Anna.
Resolveu que isso deveria acabar, já que ela agora tinha se tornado uma grande amiga.
Antes que ela saísse do quarto, ele disse:
— Anna, você já está a tanto tempo em minha vida que não há mais a necessidade de manter tanta formalidade comigo.
Você foi criada junto a Brenda.
Conheço você desde menina.
Não é pelo fato de trabalhar para mim que você vai se colocar na posição de criada.
Sei que Brenda a tratava como tal, mas agora, sem ela, podemos nos tratar de igual para igual.
O que você me diz disso?
Anna não conteve a felicidade.
Não sabia o que dizer.
Ser sua amiga já era uma grande conquista.
espondeu entusiasmada:
— Se você prefere assim, assim será.
De agora em diante você será o meu amigo Sam.
Irei cuidar direitinho de você, não deixarei faltar nada.
Farei tudo que Brenda sempre fez.
Parou bruscamente de falar.
Sentiu-se encabulada.
Na sua cabeça, fazer tudo que Brenda sempre fez estendia-se além das fronteiras domésticas.
Anna deixou transparecer o seu desejo de substituir Brenda em tudo, inclusive como esposa.
Sam, ainda alheio às coisas, não notou o disfarce da moça.
Sorrindo, disse:
— Você está, e sempre estará, presente em meu coração.
Uma grande amiga, que nos momentos mais difíceis esteve ao meu lado, dando-me mais apoio do que qualquer outra pessoa.
Eu só posso e devo lhe agradecer. Muito obrigado.
Ela se sentiu ainda mais emocionada. Agora ele estava mais receptivo.
Talvez estivesse chegando o momento de ser amada pela primeira vez na vida.
Depois de tanto sofrimento, depois da perda dos pais, do tratamento hostil por parte de Brenda, um novo colorido aparecia em sua triste vida em preto-e-branco.
O relacionamento entre Anna e Brenda sempre fora muito conturbado.
A princípio, Brenda mostrara-se encantadora.
Mas aos poucos, conforme percebia o estreitamento da relação entre Anna e sua mãe, Flora, as coisas começaram a mudar.
Brenda não suportava a indiferença da mãe.
Os carinhos de Flora dirigidos a Anna irritavam-na profundamente.
Anna compreendia o estado emocional de sua nova "mãe".
Flora fora obrigada a casar-se com Donald por questões financeiras.
Naquela época, era muito comum famílias se unirem para manter a fortuna.
Flora teve de largar seu grande amor para satisfazer o desejo de seus pais.
Seu único alento era Anna.
A presença dela em sua casa deu novo impulso à sua vida.
Quando Brenda nasceu, Flora sentiu-se muito deprimida.
Nunca gostou da filha.
Em seu íntimo, muitas vezes se perguntava por quê.
O remorso a corroía por não gostar da filha.
Por outro lado, Brenda adorava provocar a mãe.
Mas Flora, muito inteligente, não se deixava envolver por suas provocações, o que aumentava a ira da filha.
Embora obrigada a casar-se com Donald, Flora gostava da companhia do marido.
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 04, 2015 8:49 pm

Ela possuía um temperamento firme, representando muito bem o papel de esposa.
Indagava-se se seria punida por não amar a filha conforme os valores de sua sociedade.
Flora era muito sincera em seus sentimentos.
Depois de ter de abandonar o seu amor, percebeu que dava mais importância à família, aos valores sociais, desprezando o que ia em seu coração.
E essa foi a sua lição.
Após seu casamento com Donald, passou a se valorizar e a ignorar os comentários maledicentes das amigas a respeito do seu relacionamento com Brenda.
Se os outros achavam que ela era fria e não amava a filha como deveria amar, problema dos outros.
O facto de tratar "bem" a filha já aliviava o seu pesado coração.
Ela sentia na pele o preço pago por dar ouvidos aos outros e não a si.
Portanto nunca mais repetiria esse erro.
Cumpriria com o seu papel de mãe, auxiliando a filha na educação, na etiqueta e nos costumes vigentes, até que Brenda encontrasse alguém que a amasse de verdade.
Isso, sim, era o mais importante de tudo, e não se casar por dinheiro, por nome de família ou outro motivo que não fosse a vontade do coração.
Mas a chegada de Anna deu uma reviravolta em sua vida, colocando em xeque seus verdadeiros sentimentos.
Flora ficou muito nervosa no dia em que Donald chegou com Anna em casa:
— Donald, você deveria ter me consultado antes de trazer esta garota para cá.
Chame-a, preciso conversar com ela, já que vai morar connosco.
— Não se assuste, querida.
Ela não nos dará trabalho.
É uma garota sensacional.
Já lhe disse. Ela perdeu os pais e irmãos na nevasca que me impediu de regressar há mais de dez dias.
Ela estava sozinha, não tinha parente algum.
Achei que poderia ser uma companhia óptima para a nossa Brenda.
Com postura altiva e voz firme, Flora determinou:
— Leve-a para se lavar. Está muito suja.
E depois a conduza até o escritório, deixando-nos a sós, por favor.
Ela precisa saber que esta casa segue regras, e, já que vai ficar por aqui, precisa saber como as seguir.
Anna foi conduzida por Brenda até o banheiro, no andar de cima.
Estava um pouco assustada.
Mesmo Brenda querendo levá-la para o quarto e mostrar sua colecção de bonecas, Anna sentiu um arrepio percorrer-lhe o corpo tão logo ouviu a voz de Flora.
Lavou-se e colocou um vestido emprestado por Brenda, pois perdera inclusive suas roupas.
Flora estava sentada na cadeira do escritório.
Apreciava a paisagem pela janela, quando ouviu uma leve batida na porta.
Ela já sabia que era Anna.
De costas para a porta disse, num tom seco:
— Entre e feche a porta, por favor.
Anna estava tremendo.
O que será que aquela mulher com voz tão grave e firme iria exigir-lhe?
Já não tinha mais nada na vida, havia perdido toda a família, seus amores, seus brinquedos, suas roupas.
Será que aquela mulher, de costas para ela, iria lhe tomar mais alguma coisa? O que seria?
— Pois não, senhora. Já me lavei e tomei a liberdade de usar um vestido de sua filha e...
Anna não terminou de falar.
Flora virou-se bruscamente e não acreditou no que viu.
No momento em que as duas cruzaram seus olhares, foi como se um antigo amor tivesse brotado com toda a intensidade, como um vulcão adormecido que de repente explodisse em labaredas de amor.
Um sentimento com misto de saudade, amor e respeito.
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 04, 2015 8:49 pm

Eram duas almas amigas, cujo reencontro já tinha sido previamente estabelecido.
Estavam reunidas novamente para fazer o melhor que pudessem, depois de anos passando pelos vales do sofrimento.
Flora não conseguia falar.
Agachou-se e abraçou a pequena Anna, com lágrimas nos olhos.
Era um sentimento diferente.
Flora nunca havia sentido isso em toda a sua vida, nem mesmo quando se apaixonou por aquele rapaz nos tempos de sua juventude.
A reacção de Anna foi recíproca.
O abraço que recebeu de Flora estremeceu todo o seu corpo.
Sentia que uma saudade represada por muito tempo agora era liberada pelo contacto de seus corpos.
Flora agora conseguia entender o que suas amigas diziam em relação ao amor que sentiam pelas filhas.
Se elas sentiam isso que ela estava sentindo por Anna, então estavam cobertas de razão.
Mas por que não sentia isso por Brenda?
Por mais que tentasse, era-lhe impossível qualquer acto de amor para com a filha.
Isso agora não importava.
Flora estava radiante, feliz.
Sentia-se como se estivesse parindo pela primeira vez na vida.
A partir daquele instante, Anna passou a ser companhia constante de Flora, que não mais se importava se Brenda ficava ou não irritada com a situação.
Seu coração, por mais que tentasse em suas orações, não sentia amor por Brenda, a filha de sangue, mas por Anna, a filha postiça.
Conforme os anos foram passando, Flora foi externando cada vez mais esse amor que sentia por Anna, o que culminou definitivamente no ódio de Brenda por ela.
Anna e Flora passavam horas juntas conversando, trocando confidencias.
Brenda no início sentiu-se um pouco chateada, mas com o tempo nem o amor de seu pai a tirava desse estado de ira pela mãe e por Anna.
Donald percebia e tentava apaziguar, dizendo:
— Minha filha, não ligue.
Papai ama muito você.
Mamãe também gosta muito de você.
Pensei até que sua mãe não fosse permitir a permanência de Anna por aqui.
— Eu também, papai.
Com o temperamento que mamãe tem, pensei que fosse ter uma outra companhia a sofrer destratos.
Mas é incrível, não?
Parece que Anna é a verdadeira filha.
O senhor percebeu isso, papai?
— No início, não, minha filha.
Mas com o tempo, nestes últimos anos, percebi que é inegável o amor que sua mãe sente por ela.
Acontece que Anna tem mais afinidades com sua mãe.
Você, deve ter reparado que Anna não se relaciona tão bem comigo.
E é por essa razão que temos equilíbrio aqui em casa.
— Papai, por que eu não tenho só o senhor?
Por que tenho que viver com essa mãe que não escolhi, de quem também não gosto?
— Brenda, sua mãe nunca foi omissa com você.
Sempre a educou, a orientou, dentro daquilo que lhe era possível.
Não podemos cobrar dos outros aquilo que eles não podem dar.
— Eu preferia que ela estivesse morta!
— Brenda, não fale assim. Ela é sua mãe.
Procure ao menos respeitá-la.
Você já percebeu o quanto provoca sua mãe e sua irmã?
— Irmã? O senhor disse irmã?
Uma garota que não sei de onde veio, que não está ligada a laços de sangue connosco, uma aproveitadora.
É isso que ela é, papai.
Eu não gosto de Anna.
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 04, 2015 8:49 pm

— Mas assim que ela chegou em casa, naquele dia, você a tratou muito bem...
— Tratei, sim. Mas achava que ela ficaria aqui por uns dias, somente.
E veja agora. Não desgruda de mamãe, parece que faz isso de propósito.
— Não creio que Anna faça isso deliberadamente.
Ela e sua mãe se dão muito bem.
Eu e você nos damos muito bem.
Então está tudo resolvido, certo?
— Errado. Um dia as duas ainda vão me pagar.
O senhor vai ver. A falsa mãe e a irmã postiça...
Um dia vou me vingar!
Donald ficou surpreso com as últimas palavras da filha.
Por que Brenda era tão rancorosa?
Por que seu estado emocional era tão instável?
Por mais que ele amasse a filha, às vezes sentia arrepios.
Brenda tinha a capacidade de se transformar.
Procurou amenizar a raiva da filha:
— Brenda, querida, não diga isso.
Entenda que muitas pessoas confundem os sentimentos.
Podemos gostar de alguém pelo simples facto de gostar.
Gostar é sentir com a alma, é perceber que algo dentro de nós gosta.
Alguma coisa aqui - e, colocando a mão da filha em seu peito, continuou:
— acende-se quando você vê alguém com quem simpatiza. Isso é gostar, é querer bem.
É algo que não posso explicar, porque gostar não se explica, sente-se.
— Não adianta o senhor vir com esses discursos.
A verdade é que não gosto delas, e pronto.
E o dia do acerto vai chegar.
Começou a chorar e largou o pai na sala.
Trancou-se em seu quarto.
Donald, nessas horas, procurava orar e pedir para que Deus não permitisse que a filha cultivasse tamanho ódio pela mãe e pela irmã.
— Senhor meu Deus, por favor tire tais sentimentos do coração de minha filha.
Que ela possa enxergar que cada um é aquilo que é.
Embora Donald sempre tivesse uma visão um pouco diferente da vida, suas conversas com Brenda sempre eram nesse tom.
Ele procurava passar à filha uma outra visão de vida, mostrando que tudo sempre estava certo em seu curso.
Era algo que ele sentia, não podia explicar.
Ele sabia que também não era amado por Flora.
Mas também tinha deixado um amor pelo casamento de interesses.
É por isso que se davam bem.
Tratavam-se como dois amigos.
E, se Flora não tinha lá seus amores por Brenda, com ele era diferente.
Donald amava a filha de uma maneira sem igual.
A fé de Donald fazia dele um homem sempre sereno e equilibrado:
Mesmo com os impropérios que ouvia de Brenda, procurava, com sua paz habitual, contornar a situação.
Sua morte foi assim também, tranquila e serena.
Morreu pouco antes de Brenda dar a luz às crianças.
— Papai, o senhor me prometeu esperar pelas crianças.
Elas vão nascer e não vão ter um avô?
O senhor não pode esperar um pouco mais?
— Filha querida, não posso mais.
Estou no meu limite.
Mesmo estando de cama, estou calmo, tranquilo, muito feliz.
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 04, 2015 8:49 pm

Meus pais já estão por perto há alguns dias.
Eles irão me levar para o meu verdadeiro lar.
— O senhor está começando a delirar.
Seu lar é aqui, junto a mim.
Terá os meus filhos para educar.
— Brenda, há muita coisa que você se recusa a aprender.
Papai sempre lhe falou da maneira como enxergava a morte.
É um assunto do qual você nunca quis participar.
Se você estivesse mais atenta, talvez hoje não estivesse sofrendo dessa maneira.
Você também um dia partirá, como todos aqui.
Faz parte da natureza.
— Não aceito.
Como ficam as nossas afinidades?
É justo nós nos amarmos e Deus tirar o senhor de mim?
Não dá para entender.
— Tudo passa nesta vida, Brenda.
Não fique revoltada, não blasfeme.
Deus tudo sabe. Ultimamente eu estive conversando muito com Adolph, seu primo.
Ele tem algumas ideias interessantes acerca da vida e da morte.
Quando eu partir, converse com ele.
Parece que muito do que ele vem lendo e aprendendo faz sentido.
— Não quero entender nada, quero você. Não me deixe.
Brenda começou a chorar.
Não aceitava que Deus lhe tirasse seu querido pai.
Para ela, Deus era muito injusto, levando o pai que tanto amava e deixando aquela mãe miserável a seu lado.
Por que não levava sua mãe ou sua irmã?
Sentia muita raiva, como se elas tivessem culpa por isso, desejando vingar-se delas. No fundo, era o ciúme que a inspirava.
Sentia inveja da afinidade, do carinho das duas.
Contrariando Flora, tão logo Donald faleceu, Brenda levou Anna para morar com ela e Sam, a pretexto de que a ajudasse nos afazeres domésticos devido à sua gravidez.
O que Brenda queria era transformar a menina em uma empregada em sua casa.
Sam passava o dia fora e não percebia o quanto Anna era maltratada por Brenda.
Flora estava doente naquela época e, como passava a maior parte do tempo na cama, não tinha condições de ajudar sua filha adoptiva.
Anna não se rebelava, para não comprometer a gravidez de Brenda.
Preferia ficar em silêncio, abafando sua dor e sua mágoa.
Chorava escondida e, nas poucas noites em que ficava livre, ia visitar Flora.
Anna nunca contou a Flora sobre os maus-tratos que sofria de Brenda.
Flora faleceu logo em seguida a Donald.
Na última noite em que estava viva, teve uma conversa de despedida com Anna.
Pediu para que ela se sentasse ao lado de sua cama.
Pegou suas mãos e começou a acariciá-las.
— Sabe, minha filha, não sei lhe explicar, mas sinto que minha hora está chegando.
— Não diga isso, dona Flora.
O que será de mim não tendo mais a senhora por perto?
É a única companheira que tive durante todos estes anos.
O que será de mim?
Anna começou a chorar.
Era sentido seu pranto.
Embora tivesse a amizade de Sam e Adolph, era-lhe muito difícil ter de conviver com Brenda.
Sentia que não teria mais felicidade em sua vida.
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 04, 2015 8:50 pm

E agora, deitada naquela cama, a única pessoa que realmente a amava estava partindo.
Flora entendeu o que se passava em seu coração e, com o carinho de uma mãe amorosa, disse-lhe:
— Anna, eu sei que é muito difícil conviver com Brenda.
Eu não tenho ódio da minha filha.
Ela nunca me entendeu.
Não carrego mágoa por isso.
Fui uma boa mãe dentro dos meus limites.
Os nossos temperamentos não permitiram termos uma amizade mais profunda, como tenho com você.
— Concordo com a senhora.
Eu percebi o quanto teve paciência para educá-la.
Conviver com Brenda é muito difícil.
Mas por que falar disso agora?
— Sinto o momento de minha partida.
Muitas vezes conversei com Donald sobre a morte, e, mesmo frequentando a igreja aqui da cidade, sempre acreditei que a morte não é o fim de tudo.
Acredito que estarei em outro mundo, outro lugar, mas estarei sempre ao seu lado.
Eu a amo muito.
E, de onde eu estiver, prometo que estarei fazendo o possível para que o seu caminho esteja repleto de felicidade.
Depois de mais um pouco de conversa, Flora cansou-se.
Dormiu suavemente.
Anna beijou-lhe as mãos e a testa.
Flora não mais acordou.
No dia seguinte, os empregados, percebendo que a patroa não descia para o café, resolveram chamá-la.
Lá estava Flora, deitada em sua cama, com o semblante sereno, esboçando um pequeno sorriso no canto dos lábios.
Os empregados foram chamar o Dr. Lawrence e avisar Brenda.
Seu enterro foi simples, mas muitas pessoas da cidade foram dar-lhe seu último adeus.
Anna estava inconsolável.
Brenda não foi ao enterro da mãe, usando o pretexto de sua gravidez.
Os mais chegados suspeitavam que isso poderia acontecer.
Sabiam do ódio que ela sentia pela mãe.
Ninguém se chocou com a ausência de Brenda.
Foram todos dar os pêsames a Anna, que consideravam a verdadeira filha de Flora.
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 04, 2015 8:50 pm

Capítulo 7

Adolph era o único parente de Brenda nos Estados Unidos.
Seus pais e sua única irmã estavam, desde a época em que eclodiu a Guerra de Secessão, morando em Paris.
Não tinham intenção de regressar.
Com o início da corrida do ouro, em meados de 1850, seu pai ficou muito rico e resolveu estabelecer-se de vez na Europa.
Adolph ficou na França somente para concluir os estudos.
Foi lá que teve contacto com grupos de pessoas que estudavam metafísica e espiritualidade, bem como teses sobre a libertação dos escravos.
Resolveu retornar aos Estados Unidos justamente para brigar pela abolição da escravatura no país.
A Guerra de Secessão nada mais era do que a disputa, pelos estados americanos do sul, para manter o regime escravista.
Adolph era um rapaz cortejado nas rodas europeias, mas seu senso de realidade era muito diferente daquele que a maioria das pessoas tinha.
Não ligava para rodas sociais.
Seu lema era sempre o de ajudar as pessoas naquilo que podia.
Não fazia caridade como a igreja pregava.
Acreditava no poder de criar espaços, conseguir terras, a fim de que gente sem condições pudesse trabalhar e desfrutar de uma vida melhor.
Gostava de ajudar as pessoas a progredir pelo próprio trabalho, e não de dar ajuda indiscriminadamente, acreditando-as incapazes.
Era um rapaz bonito. Loiro, cabelos naturalmente lisos, esbelto e alto.
Sua pele branca era contrastada por um fino bigode loiro, tornando maduro seu semblante.
Embora fosse admirado pelas mulheres, sentia que não era chegado o momento para casamento.
A instituição do matrimónio, em sua cabeça, tinha uma outra conotação.
Naquela época, os casamentos geralmente eram realizados somente para agregar a fortuna das famílias, sem levar em consideração o sentimento das pessoas envolvidas.
Adolph era completamente contra esse tipo de arranjo.
O dia em que seu coração voltasse a sentir algo mais forte por uma moça, com certeza iria se casar, independentemente das condições ou de qualquer outro atributo não aceito pela sociedade.
Seguia sua intuição em tudo que fazia.
Era carismático e atraente.
Tinha muita afinidade com Sam.
Muitos acreditavam que fossem irmãos.
Eram inseparáveis desde garotos.
Só ficaram afastados quando Adolph foi à França para concluir os estudos.
Adolph chegou à casa de Sam com os livros que acabara de receber da Europa.
Foi entrando no quarto do amigo cheio de entusiasmo:
— Sam, que maravilha!
Você parece outra pessoa.
Está corado.
E, olhando para Anna, dando-lhe uma piscada:
— Só você poderia conseguir isso com ele, não é?
Ela respondeu embaraçada:
— Adolph! Eu só estou cuidando de Sam da melhor maneira possível.
Estou fazendo o que Brenda faria, só isso.
Sam, sentado numa poltrona ao lado da cama, bem-disposto, respondeu:
— Devo toda a minha melhora a essa moça.
Ela realmente me ajudou muito.
Adolph foi tirando os livros que estavam em uma pasta e colocando-os no colo de Sam.
— Estes livros vão modificar a nossa maneira de encarar os factos de nossas vidas.
Acabaram de chegar de Paris.
Sam pegou um deles e abriu-o.
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 04, 2015 8:50 pm

— Que língua é essa?
— Esse livro está escrito em português.
Já venho estudando a língua há um bom tempo.
Logo poderei ministrar-lhe algumas aulas.
Por enquanto, eu vou lendo trechos e traduzindo para você.
— E este outro aqui?
Hum, está escrito em francês...
Deixe-me ver... "Le livre..."
Sam surpreendeu-se:
— "O Livro dos Espíritos"?
É isso mesmo o que está escrito aqui?
— Exactamente.
Quando eu voltei de Paris, por causa da guerra que aqui começou, esse livro tinha praticamente acabado de ser publicado.
Não tive tempo de trazer um exemplar e me esqueci de pedir para que meus amigos brasileiros me enviassem um exemplar.
— Mas por que você não pediu ao seu pai?
— Sam, imagine meu pai indo atrás de um livro com esse título.
Ele é americano, e protestante ainda por cima.
Você sabe que nunca pude discutir religião com ele.
É muito céptico. Só acredita no poder da igreja e no poder do dízimo que paga ao pastor.
Mais nada. Depois que encontrou ouro, então...
— Bem, Adolph, graças ao ouro, e mesmo sendo céptico, seu pai não foi mesquinho.
O montante de dinheiro que ele lhe envia por mês é um absurdo
E absurdo maior é que você não gasta nada.
Por que tem uma vida tão simples?
Por que você não vai para Nova Iorque?
Por que não compra uma bela casa em Washington Square?
— O dinheiro que ele me envia também serve para lutarmos por causas nobres, como a libertação.
E ainda lhe digo que o sul do país não está aguentando a batalha.
O presidente Lincoln já está enviando tropas.
Brevemente haverá o cessar-fogo.
Quanto a viver aqui em Little Flower, é uma questão de gosto.
Não aprecio burburinho, vida social agitada.
Claro que adoro teatro, jantares, mas na medida certa.
Não sou boémio, portanto Nova Iorque não me interessa.
— E o que você vai querer que eu aprenda com estes livros?
— Sam, temos muitos assuntos para tratar.
Isso vai nos ajudar até a compreender a desgraça que se abateu sobre a sua vida...
Adolph percebeu os olhos marejados de Sam.
Era-lhe muito difícil esquecer todo o drama pelo qual havia passado.
Um lar feliz, uma família feliz, destruída em poucos meses.
Mas Sam não conseguia revoltar-se contra Deus.
Algo dentro dele dizia-lhe para ter paciência, que aquilo era um treino, uma experiência necessária em sua vida.
Anna desceu correndo e foi até a cozinha preparar um chá para ele.
Adolph ajoelhou-se na frente de Sam e, pousando suas mãos nas dele, disse:
— Sam, você é como um irmão para mim.
Sabe o quanto gosto de você, o quanto gostava de Brenda e o quanto também amava seus filhos.
Sei que foi muito doloroso para você.
Eu também sofri muito, porque os adorava.
Sam enxugou as lágrimas e apertou com força as mãos de Adolph.
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 04, 2015 8:50 pm

— Você também é um irmão para mim.
Aliás, só tenho você na minha vida, e Anna, é claro.
Não tenho mais nada a não ser o amor de vocês dois.
Mas eu fico me perguntando o porquê disso tudo, entende?
Por que temos de passar por tragédias em nossas vidas?
— Sam, não sou um sábio.
Sou um ser humano como qualquer outro.
Comecei a estudar justamente por causa disso.
Eu cresci questionando muito e tendo poucas respostas.
E o que mais me intrigou foi como a vida pode nos dar tudo e tirar tudo também.
A nossa religião não explica o porquê disso.
Qual o mérito de recebermos, e qual o motivo de perdermos?
E junto de amigos meus, lá na Europa, eu percebi que a vida trabalha de acordo com as nossas atitudes interiores.
— Concordo em termos com você.
Mas qual a atitude que eu tive para que tivesse dois filhos assassinados?
É isso o que mais me deprime.
Eu não consigo encontrar resposta alguma que me convença.
— Sam, acho que, com vontade de mudar nossos pensamentos, de abrir nossa mente para o novo, vamos aprender muitas coisas.
Mesmo que tenhamos de remexer as feridas de nossas almas, tenho certeza de que acabaremos por compreender tudo que vem acontecendo connosco.
Olhe bem. Somos inteligentes, lúcidos, dotados de entendimento.
Com tantos atributos maravilhosos, um dia Deus vai dar uma mãozinha para compreendermos tudo isso.
Aliás, Ele já está nos dando uma mão com esses livros, não acha?
— É, Adolph. Você, com esse jeito sedutor, sempre me convence.
Por que não vira político?
— Meu negócio é outro, por enquanto.
Eu quero trabalhar com plantação.
Gosto da terra tanto quanto você.
Mas parece que aqui no norte as coisas estão muito ruins para isso.
O surto da industrialização está levando todos a construírem fábricas.
Só vejo fábricas sendo erguidas em todo lugar.
— E isso não é bom?
É o progresso, meu amigo.
— Eu sei. Imagine como vai demorar para este país se reerguer.
Estou pensando em outras coisas, talvez mudar de cidade, ou até mesmo de país.
— Você vai voltar para a Europa? - perguntou Sam um tanto triste.
— De jeito algum. Não quero mais voltar para lá.
Eu lhe disse que quero trabalhar com plantação.
E, quando penso nisso, também penso em você, porque desde pequeno você adora a terra, mexer com as plantas.
E, com aqueles países pequenos, vou arrumar terra onde?
Continuaram conversando, rindo, lembrando dos tempos em que eram crianças, quando passavam horas plantando mudas e sementes no jardim, cuidando da terra.
A conversa foi bruscamente interrompida com a entrada de Anna e de Mark.
— Sam, Mark tem uma péssima notícia para lhe dar.
Sam levantou-se rápido da cadeira com os olhos estatelados.
O que seria agora?
Mais uma tragédia?
Não teve tempo de perguntar o que era, pois, ao levantar-se depressa, sentiu-se tonto.
Adolph ajeitou-o na poltrona e voltou-se para Mark:
— Vamos com calma, Mark. O que é desta vez?
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 05, 2015 9:25 pm

O xerife estava bufando, muito agitado:
— O presidente foi assassinado.
Adolph não entendeu.
— Mark, você está dizendo que mataram o presidente Lincoln?
— Isso mesmo. Foi num teatro, durante um espectáculo.
Deram-lhe um tiro na cabeça.
Levaram-no às pressas para o hospital, mas ele não resistiu.
E agora nem sabemos se a guerra vai acabar ou não.
Nunca pensei que o nosso país fosse passar por uma situação tão trágica.
Adolph procurou controlar-se:
— Anna, vá lá embaixo e traga um bom café para nós três.
Ela não se movia.
Estava parada na porta do quarto, olhando para o chão.
Adolph precisou gritar:
— Anna!
— Oh, sim... Desculpe.
Eu estava preparando um chá, mas trarei café para os três. Com licença.
Sam perguntou a Mark:
— E agora? Como fica este país?
Uma nação livre, que está lutando pelo fim da escravidão; uma pátria onde o ouro vem proporcionando uma riqueza sem igual para muitas pessoas.
E, dirigindo seu olhar a Adolph:
— Acho que este lugar não tem mais jeito.
A América está afundando. Adolph, onde você gostaria de plantar?
Ou, melhor dizendo, o que você gostaria de plantar?
— Sabe, Sam, quando eu estava em Paris, você se lembra daqueles meus amigos brasileiros, muito educados e simpáticos de que lhe falei?
Eram estudantes como eu...
Adolph foi interrompido por Mark:
— Ah, os tais brasileiros de que você tanto fala...
Com largo sorriso, Adolph continuou:
— Sim, por quê?
— Por nada. Então moram naquela terra cheia de índios, florestas e bichos por toda parte?
— Ela é cheia de índios, florestas e bichos, mas também é cheia de gente como nós.
Existem cidades muito bem estruturadas.
Dizem alguns que a capital do Império está instalada em uma cidade de rara beleza...
— Como assim? - perguntou Sam.
Adolph, olhando para um ponto qualquer no quarto, como se estivesse vendo uma imagem à sua frente, explicou-lhes:
— Dizem que aquele país é um dos lugares mais lindos do mundo.
Vocês podem imaginar o que é viver rodeado de praias, de belezas naturais?
O espanto de Sam e Mark era expressivo.
Eles também tentavam vislumbrar o que Adolph lhes dizia.
Não conseguiam imaginar, porque não conheciam praias nos Estados Unidos.
Os médicos diziam que o sol e a água do mar faziam mal à saúde, eram coisa de gente não civilizada.
Como pessoas educadas e inteligentes podiam gostar do mar?
Adolph continuou:
— E, além do mais, há muitos, mas muitos campos para plantação.
O tamanho das fazendas por lá é imenso.
Sam interessou-se:
— Plantar o quê? Milho, por exemplo?
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 05, 2015 9:25 pm

— Não. Talvez, não sei.
Eu fiquei encantado porque meus amigos descreveram com tanto amor aquela terra, que fiquei até com inveja.
Diziam para mim que, tão logo acabassem os estudos, iriam voltar para o Brasil, aplicar por lá tudo que estavam aprendendo na Europa.
Eles me falaram que no Brasil tudo que se planta dá.
Pode-se plantar o que quiser.
É uma terra abençoada por Deus, com sol o ano inteiro.
Mark alegrou-se, e interessado perguntou:
— Sol o ano inteiro? Não tem este inverno rigoroso?
Não há neve por lá? Então deve ser mesmo uma maravilha de terra.
— Deve ser mesmo - concordou Adolph.
Mas o que está dando dinheiro naquele país são as exportações de cana-de-açúcar e café.
Estou com muita vontade de me aventurar.
Sam perguntou:
— Você largaria tudo para ir a um lugar desconhecido, só descrito por algumas pessoas com quem pouco contacto você teve na vida?
E se eles estivessem brincando com você? Não pensou nisso?
— O brilho nos olhos deles quando me falavam do Brasil era tão intenso que não poderia ser brincadeira.
Eu ainda me lembro com muito carinho de Augusto e Carlos, meus amigos.
Eles tinham duas fazendas cada, herdadas dos pais.
E por lá também há pessoas lutando pelo fim da escravidão, o que muito me agrada.
Anna chegou com as xícaras de café:
— Nossa! Alguns instantes atrás vocês estavam consternados com a morte do presidente e agora estão com os semblantes suaves, alegres.
O que aconteceu?
Todos os três riram com a pergunta de Anna.
Foi Mark quem disse:
— Estávamos aqui falando de outros assuntos, para espantar essa dor que vai em nossas almas ao ver um país tão rico e democrático como o nosso passar por tudo isso.
Eu vou dispensar o meu café.
Desculpe, Anna, mas preciso voltar ao meu posto.
Só vim mesmo para dar a notícia.
Caso tenha alguma novidade, eu volto para lhes contar.
Adolph havia terminado de falar e estava com o rosto tomado por leve tristeza.
Mark percebeu e perguntou, antes de sair:
— Estávamos rindo.
Você estava falando do Brasil, dos seus amigos.
Por que essa cara?
Adolph, como se algo apertasse seu peito, disse com voz embargada:
— É porque eu nunca mais consegui falar com esses amigos.
Sumiram. Foram embora de Paris sem me avisar.
Mas isso não interessa.
Vamos pensar em praias, coqueiros e outras belezas.
Todos passaram às gargalhadas.
Ficaram mais um tempo divagando sobre o país tropical.
Mark logo se despediu, e Anna foi acompanhá-lo.
Sam e Adolph continuaram no quarto.
— Adolph, agora estou me lembrando.
Sabe aqueles sonhos com o meu avô?
— Claro que sim.
Eu ainda estou estudando esses seus sonhos.
Quero descobrir se são sonhos ou se foram contactos reais...
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 05, 2015 9:26 pm

— Não, não estou falando sobre isso.
Eu posso até estar enganado, talvez estivesse delirando, mas, quando você estava falando do Brasil, não sei...
Algo aqui em mim...
Parece que vovô me falava disso... Do Brasil.
Adolph levantou as mãos para o alto, com surpresa e alegria estampadas em seu rosto:
— É mesmo!
Parece que, num dos tais "delírios" que você teve, havia um lugar aonde você deveria ir.
Será que era o Brasil?
— Agora não sei.
Foram períodos em que estive em total estado de torpor.
Não me recordo direito.
Tudo ficou fragmentado em minha mente.
A única certeza, mesmo, era de ver vovô e uma mulher muito linda ao seu lado.
Isso foi bem marcante.
— Paremos com esse assunto por enquanto.
Vou deixar os livros com você.
Já que vai ficar mais um tempo de repouso, é bom distrair a cabeça com algo produtivo.
Chega de tristeza.
Você agora é um novo homem.
Aproveite para pôr em prática o pouco do francês que aprendeu e começar a estudar português.
— Isso mesmo.
Vou começar com este aqui em francês.
O outro, com o tempo, você vai me traduzindo.
Mas o que vou fazer de minha vida? Estou tão perdido...
— Ora, Sam, você tem novos horizontes pela frente.
Na vida, a única coisa que pode nos levar adiante é o ânimo.
E você o tem de sobra. Isso é admirável. Você é forte.
Quando estiver melhor, vai até se casar de novo...
Sam fechou o rosto.
Fitou bem os olhos do amigo:
— Casamento, nunca mais. Nunca mais!
— Calma... "Nunca mais" é muito forte.
Não quis ferir os seus sentimentos.
É a última coisa que gostaria de fazer.
Mas você é novo, bonitão e ainda por cima rico.
Vai ser difícil permanecer solteiro, ou melhor, viúvo.
E, além do mais, algo aqui em mim diz que você já está sendo flechado...
Adolph começou a rir, e Sam nada entendeu.
— Como assim, flechado?
Quem iria se interessar por mim?
Ainda mais no estado em que estive todo esse tempo?
Não é possível, Adolph. Desde a tragédia, eu não saí mais de casa.
Portanto não há nenhuma mulher que pudesse estar interessada em mim.
Adolph achou melhor não prosseguir.
Sam deveria descobrir por si só o amor de Anna por ele.
Pegou sua cartola e sua bengala.
Despediu-se de Sam com um sorriso malicioso e foi-se embora.
Sam ficou na poltrona pensando nas conversas tidas minutos antes.
Pensou no Brasil, na beleza das praias, pensou em Brenda e nas crianças.
Ficou por horas pensando em tudo que havia acontecido em sua vida nos últimos tempos.
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 05, 2015 9:26 pm

A situação de seu país, a guerra, o assassinato do presidente.
Começou a folhear o livro em francês.
Por acaso abriu na página cujas questões tratavam da perda de entes queridos.
Começou a ler. As lágrimas brotavam, molhando seu rosto.
Era muito difícil aceitar a perda da família.
Tinham tudo para serem felizes.
O que estaria por trás de tudo isso?
Qual a necessidade de passar por uma situação dessas?
Não lhe vinham respostas.
Terminou de ler as questões e instintivamente começou a orar.
Orou por Brenda, pelas crianças.
Lembrou-se de seu avô e começou a soluçar.
Enquanto chorava e orava, não viu que pétalas douradas caíam sobre sua cabeça, provocando uma sensação de bem-estar.
Não notou a presença de seu avô Roger e de Agnes, que estavam, naquele instante, a seu lado.
Assim, Sam foi aos poucos perdendo os sentidos e adormeceu.
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 05, 2015 9:26 pm

Capítulo 8

Um cheiro insuportável, uma mistura de azedo e podre inundava o ambiente.
Gemidos, gritos, lamentos.
A cena era dantesca.
Um local tenebroso, cheio de pessoas desfiguradas e sofridas, em uma paisagem de terror.
No canto de uma encosta estavam deitadas algumas pessoas, deformadas e aflitas.
Uma delas levantou-se para tentar tomar um gole da água que descia pela encosta, caindo como uma cascata negra e viscosa.
Era o único líquido disponível naquele ambiente.
Fazendo muito esforço, a moça conseguiu chegar até a cascata.
Bebeu daquela água fétida.
Conforme sorvia o líquido, começou a sentir dores horríveis na garganta.
Aos berros, começou a correr pelo vale, sem direcção.
— Alguém me ajude, por favor!
Eu não aguento mais estas dores. Eu estou morrendo de sede e não consigo beber.
Tropeçou numa poça de lama, caiu e lá permaneceu aos soluços.
Até aquele momento ela não tinha noção do que estava fazendo ali.
Como teria chegado lá?
Estava cansada, perdida.
Não queria mais viver aquele pesadelo.
Foi ajudada por um homem alto, forte, olhos vermelhos.
Trajava uma elegante capa preta.
— Meu amor, você acordou? Finalmente!
— Ajude-me! Eu quero beber e não consigo.
Estou morrendo de sede.
— Mas é claro: a sua garganta está muito inchada.
Não há líquido que passe.
Venha, dê-me os seus braços.
Lentamente a moça levantou os braços em direcção à voz potente do homem.
Ele a levantou e a colocou em seus braços.
Foi até um local aberto, onde o cheiro de podre era menos intenso.
Olhando para a lua, ele esfregou as mãos e ergueu-as para o alto.
Começou a fazer uma prece com palavras esquisitas e depois pousou as mãos no pescoço da moça.
Uma luz prateada começou a sair de suas mãos e foi restaurando a região da garganta da jovem.
Em minutos, a moça estava completamente curada.
Ela adormeceu logo em seguida.
O homem ficou fitando-a, com o ardor da paixão expressa em seus olhos vermelhos.
Ele a amava. Finalmente havia encontrado o amor perdido.
Nunca mais sairia de seu lado.
— Minha Marianne, você agora vai ficar bem.
Eu a amo tanto...
Ninguém mais vai lhe fazer mal.
Vou ajudá-la na sua vingança.
Conte comigo, meu amor.
Deu um beijo em sua testa e continuou fitando-a mais um tempo.
De repente, sentiu uma presença a seu lado.
Era Sam. O homem de capa violentamente partiu para cima dele, sem tempo de defesa.
Agarrou Sam pelos braços e começou a sacudi-lo:
— Você não vai tirá-la de mim, seu safado!
Desta vez ninguém vai tirá-la de mim.
Eu a encontrei.
Agora ela é minha novamente. Minha!
Os olhos do homem eram de um vermelho tão intenso e pavoroso que Sam ficou imóvel, sem saber o que responder.
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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