A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 07, 2015 8:57 pm

— Isso é o que quero. Ela é boba, insegura.
Acredita que está tomando o lugar de Brenda.
Com esse pensamento, é fácil rebaixar o padrão vibratório e ser atraída pela energia que está nas pérolas.
Então o problema é dela, é da cabeça dela.
Eu só estou contribuindo um pouco.
— Você acha que o problema é dela?
Quem lhe deu o direito de colocar as pérolas aqui?
— O padrão de pensamento dela facilitou.
Se Anna fosse mais firme, eu não conseguiria fazer a minha parte.
— Mas o que você vai levar em troca?
A desarmonia, o desafecto, o fim da relação?
Por acaso não é mais vantajoso para você que Sam se case com Anna?
Por acaso não é melhor Brenda vê-los a todo instante juntos, e assim nutrir ódio por Sam e preferir ficar com você?
Aramis não havia cogitado essa possibilidade.
— Eu vou pensar...
Agnes era doce porém firme.
Não deixou Aramis terminar.
— Não, não vai pensar.
Não temos tempo para isso.
Quero que você tire essas pérolas daqui agora, porque o trabalho foi seu.
— E se não tirar?
— Bem, se não tirar, eu vou ter de chamar Apolónio para dar um jeito na situação, e assim tirar Brenda de você.
— Isso é chantagem. Espíritos de luz não podem fazer chantagem.
Agnes continuava firme e tranquila.
— Espíritos de luz não são bobos.
Não confunda bondade com burrice.
Nenhum de nós aqui é burro, nem do lado de cá nem do seu lado.
É só uma questão de interesses.
Ou você tira as pérolas ou eu tiro Brenda de você, e ainda lhe mando ao encontro de Apolónio.
— Apolónio, nunca!
Faço qualquer coisa para não ter de me encontrar com ele de novo.
Aramis mordeu os lábios com ódio.
— Está certo, faço a minha parte.
Começou o trabalho de limpeza.
Ainda contrariado, Aramis esfregou as mãos e pronunciou algumas palavras num dialecto estranho.
Aos poucos, as pérolas foram sumindo do quarto.
Uma luz azulada começou a irradiar no ambiente, limpando-o das vibrações pesadas emanadas por Brenda e Aramis.
Terminado o serviço, Aramis foi embora.
Estava confuso e nervoso.
Como podia ter sucumbido tão facilmente àquela mulher de luz?
Procurou em sua memória lembrar-se de Agnes.
De onde a conhecia?
Agnes, percebendo o ambiente limpo e equilibrado, retirou-se e foi ter com Júlia:
— Aramis já saiu da casa de Sam.
Teremos um pouco de paz.
— Agnes, será que não podemos pedir para Apolónio proteger Sam e Anna dos ataques de Aramis e Brenda?
— Não, isso não podemos fazer.
Tudo na vida é regido pelo arbítrio.
Há situações nas quais podemos ajudar, mas nunca poderemos interferir no destino das pessoas.
Anna carrega dentro de si um grande complexo de rejeição, e também é muito apegada às pessoas.
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 07, 2015 8:57 pm

A vida procurou ajudá-la tirando-lhe a família primeiro, naquela avalanche.
Depois tirou Flora de seu caminho, para que ela se garantisse no mundo.
Ela acredita que poderá perder Sam a qualquer momento.
Ele sempre foi o amor de sua vida, mas ela confunde amor com posse.
Anna é uma mulher muito insegura nos seus sentimentos.
No momento em que tiver mais confiança em si, ela mesma poderá afastar Aramis e Brenda de seu caminho.
Todos eles estão ligados há muitas encarnações por laços de apego, ódio, paixão e vingança.
Só mesmo a mudança de atitude provocará a quebra nessa relação obsessiva.
— Mas a interferência de Apolónio não seria para o bem de todos?
E também não seria mais rápida?
— Seria, mas só por ora. E depois?
Teríamos de estar sempre por perto?
Cada um deve fazer a sua parte.
Se Anna e Sam não mudarem os padrões de comportamento, não há nada que possamos fazer.
Eles já receberam bastante ajuda do plano astral.
Agora é chegada à hora de confrontarem os sentimentos, as emoções, enfim, de lutarem pela melhora interior.
— Concordo com você.
Se tivermos de estar sempre ao lado deles, a todo instante, eles não vão crescer.
— Isso mesmo, Júlia.
Anna e Sam têm um grande amigo que vai dar suporte nos momentos mais difíceis, que é Adolph.
Ele já está estudando bastante o comportamento humano, a vida espiritual.
Logo, todo o grupo vai estar estudando e nos poupando serviço.
Agora, vamos falar com Apolónio.
Ele deve estar curioso para saber como andam as coisas.
Vamos até o seu gabinete.
Deram-se as mãos.
Caminhando por entre bosques floridos, foram ao encontro de Apolónio.
Agnes era um espírito muito evoluído.
Júlia, sua assistente, também já havia subido alguns degraus na eterna escada da luz.
Ambas estavam há muito tempo no astral, trabalhando e estudando em várias dimensões.
Faziam parte do grupo de espíritos que iriam orientar alguns encarnados a difundirem a espiritualidade no mundo.
Elas estavam ligadas por laços de afecto a Sam, Anna, Mark, Emily, Adolph e Helène.
Todos haviam se comprometido, antes de reencarnar, a levar essa tarefa adiante.
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 07, 2015 8:57 pm

Capítulo 12

Passados alguns meses, Sam e Anna se casaram.
Muitas pessoas na cidade não aprovavam a união, achando que, por respeito à Brenda, eles deveriam esperar mais tempo.
Anna chegou a sofrer represálias nas ruas.
A mentalidade da maioria das pessoas estava presa a valores e crenças determinados por uma sociedade repressora e atrasada.
Era um tempo em que era mais importante adequar-se às regras do mundo, em detrimento dos sentimentos, numa postura rígida de padrões moralistas e falsos.
Sam e Anna receberam grande suporte dos amigos mais próximos, que na verdade eram sua verdadeira família.
Emily, Mark e Adolph estavam sempre por perto, dando-lhes apoio.
Adolph estudava cada vez mais sobre metafísica e espiritualidade.
Cada vez mais lúcido, apaziguava o sofrimento que o preconceito teimava em trazer aos corações de Sam e Anna.
Adolph acostumara-se a jantar na casa de Sam todas as noites.
Sempre após o jantar, estudavam questões do comportamento humano, tais como as atitudes e crenças das pessoas, e discursavam sobre os rígidos padrões da sociedade em que viviam.
Com relação às questões da vida espiritual, discutiam temas tais como reencarnação e obsessão.
— Adolph - perguntou Anna.
Por que tenho de passar por este aperto justo agora que estou radiante e feliz?
— Ora, Anna. Estou percebendo, através dos estudos, que somos muito mais do que seres imperfeitos à procura de melhora.
Acredito que Deus seja algo muito grande, muito forte, muito rico e muito bom.
Indo por essa linha de raciocínio, já que somos filhos Dele, também somos grandes, fortes, ricos e bons.
Somos perfeitos, no nível de consciência em que nos encontramos.
— Então você acredita que, apesar dos nossos erros, somos perfeitos? - perguntou Sam.
Adolph levantou-se da cadeira, deu a volta ao redor da mesa, até chegar à cabeceira, onde estava Sam.
Pousando as mãos nas costas dele, respondeu:
— Sim, você está certo.
Observe a natureza ao seu redor.
Tudo funciona perfeitamente.
Somos perfeitos porque, sendo filhos de Deus, fazemos parte da natureza, e ela é perfeita.
Pense nas estações do ano, no nascer e no pôr-do-sol.
Tudo tem o seu ritmo.
Tudo segue uma rotina natural em direcção ao melhor, sempre.
E, como estamos no meio disso tudo, também seguimos do mesmo jeito.
Sam estava admirado:
— Eu realmente sinto que você diz a verdade.
Se eu penso, tenho raciocínio, então eu posso optar por fazer o que quiser da minha vida, certo?
Mas o que me intriga ainda são as pessoas que não pensam, ou que são limitadas.
Isso eu acredito que tenho de estudar muito para compreender.
Anna levantou-se e abraçou o marido.
— Querido, eu sei do que está falando.
É sobre as crianças, não é?
Eu também não consigo entender por que isso acontece.
E é nessas horas - disse, olhando para Adolph — que realmente fico na dúvida.
Adolph continuou tranquilo.
Nesse momento orou a Deus, para que lhe ajudasse a dar uma resposta ao casal.
Um leve torpor tomou conta de seu corpo.
Adolph não percebeu, mas foi envolvido por Júlia.
Sam e Anna não notaram a mudança no olhar e na respiração de Adolph.
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 07, 2015 8:58 pm

Ele afastou as mãos das costas de Sam, levantou-se e fixou o olhar no meio da sala, como se estivesse falando para mais pessoas:
— Nascemos e morremos muitas vezes.
Faz parte do nosso ciclo aqui na Terra.
Só Deus sabe há quanto tempo estamos ou por quanto tempo iremos continuar neste processo de reencarne.
E, como Deus faz parte de nós, então um dia saberemos.
Ao nascer, temos uma vida recheada de situações, envolvimentos, afectos e desafectos.
Fazemos amizades, contraímos inimigos.
É uma vida de mão dupla, porque estamos ainda precisando aprender por contraste.
Sem o sol não há a sombra, sem o ar não há o fogo, sem o mal não há o bem.
E o resultado de nossas escolhas abre nossa consciência, permitindo-nos escolher o jeito melhor pelo qual queremos viver.
Se ficarmos presos em conceitos, normas e valores criados pela sociedade aqui da Terra, mais lento se torna o processo de evolução.
À medida que formos nos desgarrando dos valores da sociedade e seguindo o nosso coração, a vontade de nossa alma, estaremos dando um grande passo na nossa escala evolutiva.
— Quando o corpo de carne morre, continuamos mais vivos do que nunca, vivendo em outros planos, não tão diferentes deste daqui.
Há pessoas que se comprometem demais com os outros, que se metem na vida dos outros.
Como pensam que só há uma vida, acham que podem fazer o que querem.
Aprisionam, matam, escravizam, censuram, julgam, acusam.
Às vezes, o nível de comprometimento é tão grande que esses espíritos, no plano astral, não têm um minuto de sossego.
São perseguidos pelos seus algozes, são torturados, infernizados.
Muitos, ao serem perseguidos, clamam pela morte.
Mas esquecem que já estão mortos, que a vida continua, que a vida está sempre presente.
Percebem que não podem fugir da vida.
Então a dor e o sofrimento duram enquanto eles não mudam, deixando de lado a violência.
Esses espíritos, pela ajuda e bondade de Deus, conseguem uma trégua, vindo a reencarnar.
Alguns ficam num estado mental tão abalado em virtude desse sofrimento, que nascem e logo em seguida morrem.
Muitos pensam que isso seja um mal, um castigo, mas é uma bênção, porque o espírito que pouco tempo esteve aqui, acobertado por um corpo de bebé, teve um descanso, um respiro.
Teve condições de reestruturar alguns órgãos do corpo astral, o que só é possível através do mundo físico.
— É por esta e muitas outras razões que reencarnamos.
E talvez, Sam, você possa começar a entender um pouco mais o porquê da súbita morte de seus filhos.
Lembre-se de que eles eram velhos espíritos em corpos de bebé e que tinham de ficar por aqui num curto período de tempo.
Deveriam ser seus filhos, porque você tem sérios problemas com apego.
Sofreu em demasia pela perda dos pais.
Depois sofreu em demasia a perda de seu avô.
Não satisfeita, a vida quis amadurecer os seus sentimentos, e provocou a situação com seus filhos e Brenda.
E o que a vida espera de você com isso?
Ela quer que você aceite as coisas como são, que respeite as mudanças da vida.
Faça a sua parte: trabalhe, estude muito, ajude pessoas, ame sua esposa e, acima de tudo, cuide e ame a si mesmo.
— Quanto a você Anna, enquanto não trabalhar a sua vaidade, escondida nesse véu de bondade, vai sofrer o pão que o diabo amassou.
Enquanto você der ouvidos aos outros, enquanto você der importância a tudo que os outros pensam e acham de você, enquanto você acreditar que os outros são melhores e mais importantes que você, sua vida vai ser um inferno.
Quando começar a se valorizar, a ter confiança em si, as bocas ao seu redor irão se calar.
Lembre-se de que a maldade só fere as pessoas vaidosas e maledicentes.
— Este é o recado, por ora.
Júlia não tinha mais permissão para continuar.
Aos poucos foi se afastando de Adolph.
Sam e Anna estavam em lágrimas, com as cabeças abaixadas.
Adolph, voltando do transe, não sabia o que havia acontecido.
— Meus amigos, o que foi?
O que eu falei ou fiz para que vocês ficassem desse jeito?
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 07, 2015 8:58 pm

Sam, enxugando as lágrimas, levantou-se e abraçou o amigo.
— Você foi muito duro.
Falou-me coisas que nunca ninguém me disse na vida.
Mas confesso que foram as palavras mais verdadeiras que poderia ouvir.
Vou reflectir sobre tudo que nos falou. Obrigado.
Anna também se levantou e foi abraçar Adolph.
Ele não sabia o que dizer, estava sem acção.
— Concordo com Sam, Adolph.
Você foi muito duro.
Meu orgulho está ferido, sinto até raiva.
Eu estou um tanto confusa com o que me disse, mas sinto aqui dentro do meu peito que tudo que falou é verdadeiro.
Dei-me conta, enquanto você falava, que eu me sentia realmente muito vaidosa, querendo ser mais, querendo ser melhor do que sou.
Sempre me julguei imperfeita.
Nunca estive contente comigo.
Mas a partir de hoje vou prestar atenção no meu coração e sentir o que ele quer que eu faça.
Neste momento só quero lhe dar um abraço e um grande beijo.
E também gostaria de ficar a sós com meu marido.
Adolph meneou a cabeça, fazendo sinal afirmativo.
Pegou sua casaca, cartola e bengala e foi embora.
Ao sair da casa de Sam, Adolph ainda estava meio confuso.
Não tinha consciência do ocorrido.
O que ele havia falado para que Sam e Anna ficassem naquele estado?
Foi directo para casa.
Assim que fechou a porta do quarto, arrancou todas as suas roupas.
Aquela situação o tinha incomodado muito.
Adolph era sensato, inteligente e astuto.
Mas havia uma coisa que ele não suportava: perder o controle, principalmente sobre si mesmo.
Ao invés de deitar-se, esparramou-se na poltrona ao lado da cama.
Começou a rezar.
Fechou os olhos e concentrou-se na oração.
Ao abrir os olhos, bem à sua frente, uma linda mulher, rodeada de luz amarela bem clara, estava a sorrir.
Adolph não sabia se mais uma vez era sonho ou realidade.
Estava ficando louco com tanto estudo?
Estava perdendo o senso?
Começou a chorar.
— Adolph, querido.
Estou esperando há tanto tempo para lhe falar...
Já estava na hora de me apresentar a você.
Meu nome é Júlia. Sou sua amiga há muito tempo.
Só que não estou encarnada.
Mas estou sempre próxima. Você me ajudou muito.
E agora estou retribuindo um pouco essa ajuda.
Adolph parou o choro.
Estava inebriado com a candura na voz de Júlia.
Por mais que tentasse, não se lembrava dela, mas seu rosto era-lhe extremamente familiar.
Com a voz embargada, falou:
— Desculpe-me, não me lembro de você.
Mas sua presença me faz muito bem.
Algo em mim diz que você não me é estranha.
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 07, 2015 8:58 pm

— Não sou. Sua alma me reconhece, sua mente não.
Como temos um esquecimento provisório quando estamos encarnados, realmente se torna difícil nos lembrarmos de amigos de outras vidas.
Mas estou e estarei cada vez mais presente ao seu lado, Adolph.
Gosto muito de você.
Saiba que hoje eu abusei um pouco.
— Como assim?
— Fui eu quem conversou com Sam e Anna agora há pouco.
Eu usei o seu corpo para transmitir um recado.
E, além do mais, eu preciso treinar a comunicação mediúnica.
Logo você vai estar incorporando mais vezes.
— Usou o meu corpo? Incorporar?
Nunca imaginei que pudesse ter essa capacidade.
Desculpe-me, mas, por mais que eu estude, há muitas coisas das quais ainda não tenho conhecimento.
— Isso é natural.
Você está despertando para uma nova consciência, para uma nova maneira de interpretar a vida.
Logo surgirão mais livros a respeito.
Eu e Agnes também traremos explicações sobre o mundo espiritual, sobre certos mecanismos, para que você não desista dessa vez.
Tenho certeza de que agora você vai conseguir.
— Mas como é possível eu poder ver e falar com um espírito?
É um dom?
— Não, não é um dom.
Todas as pessoas têm essa sensibilidade.
Algumas usam, outras não. É como a inteligência.
Todos a têm, mas cada um a usa de um jeito.
O mesmo ocorre com a mediunidade.
Você já vem trabalhando há algumas vidas nisso, e é por essa razão que tem mais facilidade em ver, ouvir e falar com espíritos.
Isso não o torna mais que ninguém, nem o faz um premiado por Deus.
Você tem essas capacidades desenvolvidas porque já vem se dedicando a esses estudos há muito tempo.
— Júlia, estou perplexo.
É tudo muito novo para mim.
Eu sempre achei que houvesse algo além do físico, além da morte.
Agora sei. Esta constatação mexe muito comigo, traz responsabilidade, pois, se eu prejudicar a mim ou alguém nesta vida, uma hora terei de reparar o erro, certo?
— Mais ou menos certo.
Isso discutiremos depois.
Onde moro não usamos certas palavras, como erro, culpa ou imperfeição.
Erro nada mais é do que a tentativa de acerto.
Mas hoje não vim para isso.
Vim para avisá-lo que uma nova etapa se inicia para você e para os seus amigos Anna, Sam, Emily e Mark.
Anna também pode ver, ouvir e se comunicar connosco.
Mas, como não está se dedicando aos estudos necessários, não consegue distinguir um espírito desencarnado de um ser encarnado.
— Isso tudo não é fantasia?
Não é um sonho?
Como posso saber que tudo isso é verdade?
— Vocês sempre querem provas...
Não acreditam, ficam inseguros, com medo.
A prova mais real é a de que estou aqui na sua frente.
Você verá que estou falando a verdade. Agora eu preciso ir.
Quero desejar-lhe uma boa viagem.
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 07, 2015 8:58 pm

Nós nos veremos logo.
Júlia deu um beijo na testa do rapaz e partiu.
Sua imagem foi se dissipando no quarto, sumindo aos poucos, como névoa.
Adolph sentiu-se mais leve, mais firme, mas ao mesmo tempo estava desconfiado.
Era muita coisa. Tomou um copo de água e deitou-se.
O voto de boa viagem ecoava em sua mente.
Mas a beleza, a presença e o perfume deixado por Júlia faziam com que esquecesse as confusões mentais.
Adormeceu e, logo em seguida, estava embalado por um sono profundo.
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 07, 2015 8:58 pm

Capítulo 13

A América progredia rapidamente.
O país começava a receber muitos imigrantes vindos da Europa.
Um novo surto de crescimento tomava conta da nação.
O plano espiritual já havia traçado um programa para os Estados Unidos.
Espíritos com garra e com desejo de semear a prosperidade reencarnariam em número cada vez maior por lá.
A Guerra de Secessão fortalecera o povo americano, quebrara preconceitos, abrira caminho para a formação de uma nova mentalidade de progresso e prosperidade.
Mesmo vivendo num país que crescia e prosperava a cada dia Mark não escondia seu desgosto por não estar fazendo aquilo que realmente queria na vida: plantar, ter muitas terras, campos de plantação.
Desde pequeno sonhava com isso.
Desde garoto ele tinha sonhos com uma casa grande, com enormes janelas e uma espaçosa varanda, cercada por muitas flores e árvores.
Durante toda a sua vida, nunca vira em sua cidade ou em outras que conheceu nos Estados Unidos uma casa como a dos seus sonhos.
Morava num país livre, próspero, tinha uma boa vida, uma bela casa e uma linda mulher.
Mas para ele não bastava.
Faltava algo. Às vezes ia até a igreja e abria-se com o pastor.
Condenava-se pelo fato de ter tudo na vida e de se sentir insatisfeito.
— Pastor, não sei mais o que fazer.
Tenho tudo, mas não sou feliz.
— Meu filho, por que a vida é o que é, temos de aceitar tudo que Deus nos manda, seja bom ou mau.
— Mas, pastor, por que sinto insatisfação?
O que ocorre comigo?
— É a tentação do demónio.
Ele sempre nos quer pegar pela preguiça, pela insatisfação.
Vá para casa e reze. Reze muito.
Volte daqui a três dias, e veremos o que poderei fazer.
Mark saía da igreja mais confuso.
Fazia três semanas que esse sentimento apertava seu peito.
Não conversara com ninguém a respeito, pois considerava muito feio o que sentia.
Iriam chamá-lo de louco, de mesquinho.
Acreditava que o pastor pudesse ajudá-lo, mas aquela conversa de demónio o deixava angustiado.
Saía da igreja com mais peso no peito.
Sentia-se impotente.
Estava tão imerso em seus pensamentos que não avistou o buraco na calçada à sua frente.
Não teve tempo de desviar.
Tropeçou e bateu com a cabeça no chão.
Desmaiou.
Emily ficou desesperada.
Tinha pavor de pensar na possibilidade de ficar só.
Qualquer situação de perda aparente a deixava confusa, insegura, temerosa.
Cuidou do marido com todo o amor do mundo.
— Querido, quer mais chá?
— Emily, meu amor, faz dias que você não desgruda de mim.
O Dr. Lawrence disse que esta tala aqui na perna vai ajudar na recuperação.
Eu provavelmente só terei de usar uma bengala, mais nada.
Não é o fim do mundo.
— Mark, você não vai usar bengala coisa nenhuma.
Você vai ficar bem.
O doutor disse que eu devo estar sempre aqui, porque, se a tala se deslocar, você vai sentir muita dor.
Ele começou a rir.
Emily era madura em certos aspectos, mas em outros se mostrava uma criança.
E ele a amava cada vez mais.
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 07, 2015 8:59 pm

— Você caiu do céu. Amo você.
Agradeço a Deus todos os dias por tê-la ao meu lado.
— Bobo... Eu também amo você.
Agora chega de conversa.
Eu vou buscar mais chá.
Enquanto preparava a água ferver, Emily foi surpreendida pela visita de Adolph.
— Puxa, que bom que você veio agora.
Você costuma visitar-nos à noite, mas Mark fica sonolento e dorme logo.
Agora que ele está bem desperto, vocês podem conversar mais longamente.
— E como anda o nosso xerife?
— Ele ainda está um pouco triste com o ocorrido.
Um nó na garganta impediu que Emily continuasse a falar.
Procurou recompor-se.
— Ah, Adolph, como isso foi acontecer?
Mark terá de usar uma bengala para o resto da vida.
Ele não poderá mais ser xerife. O que faremos?
Adolph abraçou Emily ternamente.
Gostava muito dela e de Mark, considerando-os como parte de sua família.
— Querida amiga, não se desespere.
Eu e Sam estamos pensando em algo.
Nosso amigo nunca ficará inválido.
Não deixaremos que isso ocorra.
E precisamos de você.
— Oh, Adolph, você é mesmo um grande amigo.
Você é um irmão para mim.
Eu sabia que poderia contar com você e Sam. Obrigada.
— Não tem de agradecer.
Você também me é muito querida.
Considero-a minha irmã mais nova.
— O que é isso ao lado da sua cartola?
São gravuras? Onde as comprou?
— Não comprei, Emily.
Você se lembra dos meus amigos da faculdade, lá na Europa?
— Lembro. Você sempre fala desse grupo.
O grupo dos brasileiros, não?
— Sim, principalmente de Augusto e Carlos.
Só perdi o contacto porque eles sumiram.
Mas não estou falando deles.
Falo de Alberto, um outro brasileiro que estudou comigo.
Esse meu conhecido voltou a morar no Brasil.
— E daí?
— Daí que Alberto tem terras por lá e quer vendê-las.
— Interessante... Quanto à gravura...
Que linda! Nunca vi uma casa como esta em toda a minha vida.
Como se pode morar em casas tão abertas assim?
Não entra neve?
— Emily, no Brasil não há neve.
— Não? Como assim?
Como é o inverno, então?
— Segundo Alberto, o inverno brasileiro é como o nosso outono.
Faz frio, mas muito pouco.
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 07, 2015 8:59 pm

Na maior parte do ano brilha o sol.
A primavera, o verão e o outono são quase sempre quentes, na maior parte do território.
No sul chega no máximo a gear, mas não cai neve como aqui.
Por isso as casas são abertas, com amplas varandas e janelões.
Esta casa na gravura é a casa de Alberto.
— Mas ele é tão rico assim?
Tão novo e tão bem de vida?
— Sim, o pai deixou tudo para ele e para a irmã.
Mas ambos querem se livrar das terras, pois odeiam o Brasil.
Tanto que a irmã já se mudou para Lisboa e aguarda que Alberto venda logo as terras e vá para lá também, em definitivo.
— Por que odeiam o Brasil?
— Segundo eles, é uma terra de abutres, com gente muito feia, que come com as mãos, não tem educação.
Alberto também está cansado da vida que leva lá.
Não gosta de terra, tampouco dos escravos.
— Lá há escravos?
Não existe a possibilidade de eclodir uma guerra como a nossa?
— Não. O Brasil inteiro adoptou o sistema escravista, muito embora existam grupos de pessoas descontentes com isso.
Alberto é um sujeito frio e autoritário.
Sempre gostou de frequentar as altas rodas da sociedade de Paris e Viena, e simplesmente não suporta a pacata vida social do Brasil.
Quer vender tudo e fixar-se em Lisboa.
As ofertas que lhe fizeram pela fazenda são muito baixas, devido a pouca produção de suas terras.
Ele reclama dos escravos.
E está me propondo a venda porque sabe que eu gostaria de um dia conhecer o Brasil.
O preço que ele me pede não é tão alto assim.
— E você? Acha o quê?
Vai embora, nos largar?
— Emily, não é isso, não.
Quem disse que vou largar?
Eu vou é juntar.
Pegou Emily pelos braços e foram para o quarto onde estava Mark.
Adolph não continha o riso.
Emily não estava entendendo nada.
— Como está à perna, meu amigo? Melhor?
Mark estava bem-disposto, apesar de ter conversado com o Dr. Lawrence e ter descoberto que iria ficar manco.
Ficou aborrecido no início, mas depois se conformou.
Era uma maneira de não fazer mais o que não gostava.
Ele não estava mesmo querendo seguir na profissão de xerife.
Sentia que sua alma precisava de algo novo, diferente.
Algo em que ter uma perna deficiente não pudesse atrapalhar sua vida.
Respondeu tranquilo:
— Adolph, meu velho!
Que bom que veio agora na parte da tarde.
Tenho dado vexames quando você, Sam e Anna vêm me visitar à noite.
Os chás de Emily me dão muito sono.
— Ora, meu amigo, não precisa ficar encabulado.
Sabemos das poções que Emily lhe faz.
— Tenho de cuidar do meu marido.
Quem mais poderia?
Todos deram risadas.
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 07, 2015 8:59 pm

Adolph continuou a conversa:
— Sabe, Mark, eu gostaria de conversar com você e Emily.
Já falei com Sam e Anna, e eles estão pensando no assunto.
É uma proposta.
Assim que a perna melhorar, você não gostaria de fazer outra coisa?
Mark remexeu-se na cama.
Não acreditava no que ouvia.
Tudo que ele mais queria na vida era mudar de profissão, adquirir outros hábitos.
— Eu adoraria.
Mas tenho pouco dinheiro guardado. Não sou rico.
Eu e Emily vivemos bem, mas não temos luxo.
— Mas quem falou em dinheiro, aqui?
Eu disse mudar de vida, de ares.
— Bem, eu adoraria, mas como?
O que eu poderia fazer?
Adolph levantou-se e colocou a gravura da casa de Alberto no colo de Mark.
— O que você acha de viver num lugar assim?
— Assim como? - perguntou Mark, sem dar atenção à gravura.
— Olhe você mesmo - incitou Adolph, apontando para a gravura.
A reacção de Mark, ao ver aquela gravura, foi de uma comoção tamanha que Adolph e Emily se surpreenderam e se emocionaram.
Mark não acreditava no que viu.
Era a mesma casa de seus sonhos.
Neles, a casa era branca, com portas e janelas azuis.
Na gravura predominava a cor amarela.
Como Adolph havia conseguido aquilo? Onde?
Mark nunca havia comentado com ninguém, nem mesmo com Emily, sobre o sonho com a casa.
Com a voz ainda embargada, disse:
— Adolph, desculpe-me.
A emoção foi muito grande.
Você não imagina o que esta gravura representa para mim.
Não são os chás de Emily e do Dr. Lawrence...
Eu não estou alucinando, não pode ser...
Emily enxugou as lágrimas e abraçou o marido.
— Querido, quanta emoção!
Você gostou tanto assim da casa?
— Não é isso.
Não tenho condições de falar agora.
Depois falaremos a respeito.
Adolph, foi você quem fez esta gravura?
Adolph também estava emocionado com aquela cena.
— Não, não fui eu.
Foi um amigo meu que mandou.
É a casa onde ele mora.
— Um amigo seu mora aqui?
Então esta casa é real, ela existe mesmo?
— Sim, existe. Ela é muito bonita, não?
— Nossa, Adolph, ela é linda!
Deslumbrante. Fica na Califórnia?
Deve ser lá, porque este estilo de casa eu nunca vi pelos nossos lados.
Emily e Adolph começaram a rir.
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 07, 2015 8:59 pm

Mark não entendia nada.
Ficou ligeiramente zangado, mas logo começou a rir também.
Emily fez-se séria e falou:
— Meu bem, essa casa fica no Brasil.
— Brasil?
Vocês estão me falando que esta casa fica no Brasil?
Tão longe assim?
Como posso sonhar com uma...
— Sonhar com o quê, Mark?
— Sonhar com... Nada...
É que é uma casa tão bonita, e fica tão longe.
Adolph interveio na conversa do casal:
— Não, senhor.
Se você quiser, o seu sonho poderá se transformar em realidade.
— Não entendi. Como assim?
— Bem, amigos, esta é a minha proposta.
Eu tenho muito dinheiro, mas não estou interessado em investir por aqui.
Sempre gostei de plantação.
Sam também está cansado deste lugar, quer respirar outros ares.
Estamos pensando em vender nossas propriedades, juntar nossas fortunas e ir embora para o Brasil.
E gostaríamos que você e Emily viessem connosco.
O que acham?
Emily e Mark entreolhavam-se.
Não sabiam o que dizer.
Mark estava extasiado.
Plantar, deixar de ser xerife, ir para um outro lugar, começar uma nova vida.
Para Emily, morar em qualquer país do mundo seria melhor do que nos Estados Unidos, devido à morte de seu irmão.
Sam e Anna também estavam radiantes com a proposta.
Havia algum tempo que Sam já estava sentindo um enorme desejo de mudar seu estilo de vida.
Um amigo seu o convidara para mudar-se para Nova Iorque.
Lá, Sam poderia entrosar-se com a alta sociedade e talvez montar algo que lhe desse um bom retorno financeiro.
Esse amigo até já havia visto uma belíssima casa para Sam e Anna, nos arredores de Washington Square, um dos pontos mais nobres de Manhattan.
Mesmo havendo pontos favoráveis nessa mudança para Nova Iorque, Sam preferia descartar a ideia por não estar disposto a se tornar um grande empresário americano.
Já a proposta de Adolph tocou em suas fibras mais íntimas.
Nesse dia, após o jantar, Sam dirigiu-se até a varanda de sua casa.
Deixou-se cair numa poltrona e ficou olhando para as estrelas.
A noite estava gloriosa.
A coloração negra do céu dava lugar a uma névoa prateada, tamanha a intensidade do brilho das estrelas.
Fixou os olhos para o alto.
Começou a reflectir sobre toda a sua vida, desde pequeno, passando pela adolescência, seu namoro com Brenda, o casamento, os filhos...
Parou por um instante.
Algumas lágrimas começaram a cair pelo canto dos olhos.
Somente agora percebia que gostara muito de Brenda, mas como uma grande companheira, e não como um grande amor.
Seu grande amor era Anna, em definitivo.
Ao pensar em Anna, as lágrimas pararam de escorrer.
Seus lábios esboçaram um sorriso terno.
Mas a imagem de Brenda ficou fixada em sua mente.
Por mais que tentasse esquecer, sua imagem permanecia.
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 07, 2015 8:59 pm

Começou a sentir uma forte dor de cabeça e a suar frio.
Desesperado, chamou por Anna, que estava na cozinha.
Ela chegou aflita à varanda.
Ele estava pálido.
— Querido, o que houve?
Você não está com bom aspecto, está branco como cera.
Vou buscar-lhe um pouco de água.
Sam não conseguiu responder.
Sentia-se sufocado, o peito dolorido, a cabeça rodando.
Anna pegou um copo com água e açúcar.
Também começou a sentir calafrios pelo corpo.
Achou que fosse frio.
Depois de levar a água ao marido, iria se agasalhar, pensou.
Ao abrir a porta da varanda, ficou imobilizada.
Sentiu-se paralisada.
Tomada de grande pavor, derrubou o copo no chão.
A cena à sua frente era assustadora.
Sam continuava suando frio e passando a mão pelo peito.
Estava quase desfalecendo na poltrona.
Mas o que a chocava era a figura horrenda de uma mulher que estava atrás do marido, apertando com força sua garganta.
Ao lado da moça estava um homem alto, com a aparência rude, bem musculoso.
Ele ficava ao lado da moça, observando e gargalhando.
Anna não conseguiu identificar aquelas pessoas.
Ficou paralisada pelo medo.
De repente a figura da mulher virou o rosto em sua direcção.
Anna assustou-se. Não podia ser real, era alucinação, pensava.
Era Brenda? Naquele estado?
Não, isso não podia ser verdade.
Soltou um grito agudo, de horror.
O grito fez com que Sam se virasse para ela e voltasse a si.
De súbito, Brenda foi violentamente afastada de Sam, sendo jogada a alguns metros de distância.
Aramis ficou irado e partiu para cima de Sam.
Anna reagiu ao ver o marido ser atacado por aquela figura horrível, com olhos flamejantes.
Partiu para cima dele, dizendo:
— Quem você pensa que é?
— Como, quem eu sou?
Não interessa! Isso que ele está passando não é nada, perto do que vai sofrer.
Aramis continuou batendo na cabeça de Sam, que há essa hora estava fora de si.
Não distinguia mais a realidade da fantasia.
Sentia-se dopado.
Anna não se deu por vencida.
Vendo Sam ser agredido, ficou revoltada.
A raiva que sentia era tanta que lhe deu coragem para enfrentá-lo.
Com a voz dura e firme gritou:
— Ele é meu marido!
Você não tem esse direito.
Volte de onde veio e leve essa mulher imunda com você.
Não tem vergonha de nos atacar sem motivo?
Aramis largou Sam e encarou Anna, olhando-a furioso.
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 07, 2015 9:00 pm

— Ele é um covarde.
Destruiu a minha vida e a de Marianne.
E vai acertar contas por isso.
Nós vamos voltar e nos vingar.
Tudo acontece na hora certa, não é mesmo?
Pois bem, a hora desse canalha está chegando.
E, se você se atrever a se meter, vai levar também.
— Você não me intimida.
Eu sou tão forte ou até mais do que você.
Só porque é alto e forte, acha que pode ganhar de uma mulher?
Patife! Tenho outros meios para lidar com você.
Por ora saia do meu caminho, porque senão quem vai acertar contas sou eu. Irei até o inferno atrás de você, caso não nos deixe em paz, compreendeu?
Saiam! Sumam daqui!
Aramis esperava qualquer coisa, menos aquela atitude de Anna.
Ele a considerava meio boba, muito pacata.
O que havia acontecido?
A força nas palavras de Anna pegou-o de surpresa, e essa vibração tornou o ambiente desagradável para a permanência de Aramis.
Irritado, pegou Brenda nos braços, ainda desacordada, e partiu, sumindo por entre o aglomerado de estrelas que manchavam o céu.
Sam adormeceu em seguida.
Aramis e Brenda haviam tirado muito de sua energia vital.
Precisaria se recompor.
Dormir era a primeira coisa a ser feita.
Anna respirou fundo, abaixou-se e pousou a cabeça nas pernas de Sam.
O que estaria acontecendo?
Não conseguia chorar nem gritar.
Havia passado por uma experiência inusitada.
De repente, sentiu alguém acariciando seus cabelos.
Debateu-se e deu um salto, achando que Aramis havia voltado.
Ia gritar quando viu Agnes.
— Anna, minha amiga, eu disse a você que a tarefa não seria fácil, lembra-se?
Nesse momento Anna teve a certeza de que não era um sonho.
Toda vez que deparava com Agnes, sentia-se muito emocionada.
Assustada ainda, correu para abraçá-la.
Agnes fez um sinal com as mãos para que ela parasse.
— Minha querida amiga, não há como você me abraçar agora.
Quando for se deitar e dormir, poderá então se desprender do seu corpo.
Então poderemos nos abraçar.
Preciso conversar com você hoje à noite.
— Você? Que surpresa!
Não a vejo desde o casamento de Emily e Mark.
— Também estava com saudade. Mas precisamos falar sobre a sua capacidade.
— Capacidade? Qual?
— Você e Adolph têm a capacidade de ver, ouvir e falar com os espíritos.
Mark, Sam e Emily têm um outro tipo de mediunidade.
Cada qual irá saber, no tempo certo, qual a melhor maneira de trabalhar com esses fenómenos.
Precisamos conversar mais a esse respeito.
— Então você é mesmo uma alma penada?
Então elas existem.
Mas você é tão linda!
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 07, 2015 9:00 pm

— Obrigada. Mas você me faz rir, pela inocência.
O que acho mais espantoso é a capacidade que Deus nos dá de esquecermos tudo sobre as vidas passadas.
Eu e você já estivemos tanto tempo juntas, tanto na Terra quanto aqui no astral, e, veja só, você nem se lembra de nada.
Eu não sou alma penada.
A bem da verdade, Anna, almas penadas nada mais são do que espíritos desorientados, que não querem aceitar a realidade da morte, a passagem para o lado de cá.
Ficam tão perturbados por terem de deixar família, amigos e principalmente propriedades, bens materiais, que demoram a recuperar o equilíbrio.
Até lá, esses espíritos vão para vales, colónias, lugares específicos no astral para o restabelecimento emocional.
— Quem era o homem que estava com Brenda?
Nunca o vi, mas senti uma raiva tão grande que, pela primeira vez na vida, não tive medo de argumentar.
— Você foi óptima, Anna.
A sua conduta alterou o ambiente de tal sorte que Aramis não conseguiu mais permanecer aqui.
Aramis é o rapaz que você viu, ele anda sempre com Brenda.
— Mas ele falou sobre Sam estar arruinando a vida dele e de Marianne.
Quem é Marianne?
— Aramis está ligado a Brenda há muitos séculos.
Na última vida em que estiveram juntos, Brenda se chamava Marianne.
Eles se encontram num processo tão profundo de obsessão que não sabemos ainda como os separar.
— Mas, Agnes, por que Brenda está tão machucada?
Ela estava horrorosa.
— Brenda ainda se encontra em desequilíbrio.
Quando ela reencontrou Sam há pouco, não conseguiu controlar-se.
Ela não sabe ainda usar devidamente a raiva, portanto essa energia para ela se transforma em ódio.
O ódio não é saudável, e, no caso de Brenda, o contacto com Sam fez com que ela se lembrasse do dia em que morreu.
Por isso ela voltou a sentir dores.
— Agnes, você me falou em vales, lugares para espíritos em desequilíbrio.
Se Brenda está desequilibrada, por que então não está num vale?
Por que está nos perturbando?
— Ora, Anna, tudo na natureza é regido pela lei da afinidade de pensamentos.
Se você tiver bons pensamentos, vai atrair coisas e espíritos bons para o seu lado.
Agora, se você tiver pensamentos de preocupação, insegurança, medo, formas-pensamentos
negativas, vai atrair espíritos em desequilíbrio e coisas ruins para você.
— Você está querendo me dizer que Sam atraiu Brenda?
— Não propriamente atrair.
Brenda já está por perto faz um tempo.
Ela e Aramis têm uma força mental incrível, que poderiam usar para a melhora deles próprios e de outras pessoas.
Mas eles resolveram usar a força que têm para se vingar de certas pessoas.
Eles estão presos no vitimismo, e toda pessoa que estiver vibrando nesse padrão estará receptiva à manipulação dos dois.
Sam estava aqui na varanda pensando em toda a sua vida, mas houve um momento em que ele sentiu remorso pela perda de Brenda e dos filhos, e foi aí que seu padrão energético caiu, permitindo que Brenda pudesse manipular as energias dele.
— Meu Deus, isso é impressionante!
Mas, se Sam estava com remorso e não no vitimismo, como poderia estar susceptível à manipulação de Brenda?
— Bem, Sam não aceita até hoje a tragédia que lhe ocorreu.
Por mais que estude, mesmo tendo o seu grande amor de volta, que é você, ele ainda se sente vítima das circunstâncias.
Ele está no conformismo.
E você vai ajudá-lo a sair desse padrão mental.
Enquanto ele se julgar uma vítima da vida, por ter perdido mulher e filhos, e não querer olhar o que a vida está lhe mostrando com isso, tanto Brenda como outros espíritos afins poderão atrapalhar, perturbar Sam e, consequentemente, você.
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 08, 2015 8:19 pm

— Agnes, é muito duro o que diz.
A perda da família foi muito dolorida para Sam.
Como pode ele agora querer esquecer tudo e viver como se nada tivesse acontecido?
— Eu não disse para esquecer.
Estou falando que não há a necessidade de carregar a tragédia nas costas pela vida inteira.
Se Sam passou por essa tragédia, foi porque tinha a ver com ele.
Poderia ter acontecido com você, ou com Adolph, ou com Mark. Mas não.
A vida escolheu Sam. Por quê?
Porque às vezes só mesmo um grande choque é capaz de nos acordar e fazer com que levemos em frente aquilo a que nos propusemos antes de nascer.
Veja, Anna, que o sofrimento às vezes é necessário.
Encare-o como um treino, como um estímulo para entrarmos em contacto com a nossa firmeza, a nossa força, o nosso poder.
Se você agir como agiu minutos atrás, usando a sua firmeza e poder, nunca será derrotada, compreendeu?
— Sim, acho que compreendi.
Às vezes sinto como se houvesse uma capa de medo à minha frente, impedindo-me de ser eu mesma.
— São defesas mentais que criamos ao longo de nossas vidas.
Elas chegam a ficar tão densas que as sentimos como teias que nos impossibilitam de agir.
Lembre-se de que, da mesma maneira que você criou, você pode também destruir essa forma mental.
Mas siga por ora o seu rumo.
Ampare seu marido.
Continue com os estudos semanais.
Cultive boas atitudes, bons pensamentos, e seja cada vez mais você.
É disso que Sam precisa.
Eu agora tenho de ir.
Sam está acordando.
Fique em paz, minha amiga. Até mais.
— Adeus, Agnes.
Espero encontrá-la novamente.
Você sempre me faz muito bem.
Não sei de onde a conheço, mas adoro quando está perto de mim.
Anna estava radiante.
Sentia um calor percorrer seu corpo, o peito leve.
Pensou:
"Meu Deus! Eu nunca ouvi nada a esse respeito antes.
Ela fala de uma maneira tão clara mas tão contraditória.
Este mundo em que vivo é muito diferente dos conceitos de Agnes.
Por mais que tente, acredito que só no mundo dela esses conceitos sejam válidos.
A vida aqui é muito dura, muito cruel.
E ainda por cima podemos ser atacados por espíritos. Haja treino!"
Sam espreguiçou-se.
Estava bem-disposto, pois Agnes, antes de partir, aplicara-lhe um passe.
Assustou-se ao ver Anna ajoelhada no chão, catando cacos de vidro.
— O que aconteceu?
Estava numa soneca tão boa que nem ouvi você derrubar nada.
Você se machucou, meu amor?
— Não, querido.
Eu vim tomar um pouco de água na varanda.
Ao ver você dormindo, resolvi voltar, tropecei e derrubei o copo.
Não me machuquei, fique tranquilo.
Estou com vontade de preparar um chá e depois deitarmos, o que acha?
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 08, 2015 8:19 pm

Sam levantou-se tal qual menino sapeca.
Com um sorriso malicioso, abraçou a esposa pelas costas.
— Então vamos ter chá no quarto?
Vamos beber antes, durante ou depois?
Anna entrou na brincadeira.
Virando-se para o marido, tentou fazer cara de brava:
— Sam Lewis, não acredito no que me fala. Sou uma mulher casada!
— Hum. Adoro mulheres casadas. São experientes...
Em tudo. Que tal irmos logo com o chá para o quarto?
— Deixe eu terminar de pegar os cacos, aí então vamos.
— Deixe os cacos aí.
Ninguém vai pisar, afinal não temos convidados.
Para tristeza dos dois, Adolph estava chegando.
— Olá, pessoal.
Vim para um cafezinho.
Anna olhou para o marido com uma cara de "não-sei-o-que-dizer".
Sam levantou-se e foi cumprimentar o amigo:
— Ora, Adolph, seja bem-vindo.
Estávamos aqui pegando uns cacos de vidro.
Não tínhamos mesmo nada para fazer.
Nessa hora Sam olhou para Anna e deu-lhe uma piscada e um sorriso malicioso.
Adolph, muito esperto, percebeu a situação.
— Ah, pensando melhor, eu havia me esquecido.
Fiquei de passar na casa de Mark e Emily.
Estão interessados em juntar-se a nós nos estudos.
Desculpem-me, estou atrasado.
Amanhã passo por aqui.
Tenham uma boa noite.
Adolph virou-se e seguiu o caminho de casa.
Anna olhou meio ressabiada para Sam:
— Será que ele percebeu algo?
Ai, Meu Deus, que coisa feia, Sam.
— Que coisa feia, nada.
Estamos juntos e nos amamos, ora.
Adolph é um óptimo sujeito, e me conhece muito bem.
Ele deve ter percebido algo e nos deixou para continuar com a história do chá.
Sam abraçou Anna pela cintura e foi conduzindo-a até o quarto.
Antes, apagaram as lamparinas da casa e trancaram as portas.
Entregaram-se a uma noite de amor inesquecível.
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 08, 2015 8:19 pm

Capítulo 14

Adolph chegou em casa pensativo.
O amor que vira saltar dos olhos de Sam e Anna, minutos antes, fez com que se lembrasse de Helène.
Seus pensamentos estavam todos voltados para a única mulher que amou em toda a sua vida.
Abriu a cristaleira, pegou uma taça e uma jarra de licor e sentou-se no sofá.
"Ah, Helène, quanta saudade...
Como queria que você estivesse aqui comigo.
Vejo Sam e Anna, Mark e Emily, todos apaixonados, e penso em nós dois juntos.
Por que me abandonou?
Será que você sentia ciúme da minha amizade com Augusto e Carlos?
Mas não, isso não pode ser.
Eles também sumiram.
Perdi meus melhores amigos, perdi você.
Por que tenho de passar por isso, Senhor?
Por quê?"
Ele estava se sentindo completamente só, mesmo rodeado pelos casais amigos.
Sentia muita falta de Helène.
Eles combinavam perfeitamente.
Parecia que tinham sido feitos um para o outro.
Um amor que surgiu tão logo a viu naquele cabaré.
Depois de anos represando os sentimentos, deixou que as lágrimas lavassem toda a dor que ia em sua alma
Como sentia a falta de Helène!
Mas agora já era tarde.
Devia estar casada com um nobre qualquer.
Acreditava nunca mais poder reencontrá-la.
Talvez numa outra vida, quem sabe.
Esse último pensamento deixou-o mais triste ainda.
Mudar-se para o Brasil seria uma maneira de poder tentar esquecer essa grande paixão.
Chorando, dizia em voz alta:
— Nunca mais! Nunca mais me apaixonarei.
Nunca mais quero amar alguém na vida.
Nunca mais quero me entregar, nunca mais!
Foi deitar-se. Jogou-se na cama sem tirar as roupas.
Embalado pelo sofrimento, adormeceu.
Todos os domingos, nos últimos tempos, os cinco amigos se reuniam, ora na casa de um, ora na casa de outro.
Passavam a manhã inteira juntos, preparando o almoço.
Depois de comer, iam para o jardim ou para a varanda e conversavam sobre os planos da mudança para o Brasil.
Adolph queria que tudo fosse feito o mais rapidamente possível:
— Bem, pessoal, minha parte já está feita.
Temos mais dois meses para nos desfazermos de nossas coisas.
O vapor parte em 21 de junho.
Vou entregar a casa ao novo proprietário nesse dia.
Só levarei minhas roupas.
Emily também estava ansiosa:
— Eu e Mark também conseguimos vender nossas casas com as mobílias por um bom preço.
O filho do Dr. Lawrence vai ficar com a agência de correios.
Só estamos dependendo do aval do governador.
Mark já conseguiu a licença, não é, meu bem?
— Isso mesmo, querida.
Daqui a vinte dias o governador vai mandar um representante para cá.
Ao invés de licença, consegui uma aposentadoria precoce.
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 08, 2015 8:20 pm

O facto de me tornar manco ajudou na decisão.
E o próprio governador acredita que um manco não possa exercer o cargo de xerife.
Sam começou a rir da maneira como Mark falava:
— Meu amigo, é a primeira vez que vejo alguém agradecer por ter ficado com um defeito no corpo.
Você fala de uma maneira tão engraçada que às vezes me dá até vontade de ficar manco também.
Todos riram ao mesmo tempo.
Anna interrompeu-os:
— Sam, como ousa falar desse jeito?
Respeite o nosso amigo.
— Não se preocupe, Anna - disse Mark.
Estou tão acostumado com isto aqui que não me perturbo mais.
Esta deficiência na perna me trouxe muito mais alegrias do que tristezas.
Para mim, foi uma maneira de parar e reflectir sobre a minha vida.
Quando se fica doente por um ou dois dias, você geralmente reclama de tudo.
Mas em trinta dias não há como não pensar em nada.
Para mim foi uma grande lição.
Pude reflectir sobre o que quero na vida e aproveitei também para devorar o "Livro dos Espíritos".
Não tenho do que reclamar, só tenho a agradecer.
Todos se emocionaram com as palavras de Mark.
Adolph pegou a taça de vinho e levantou-se da cadeira:
— Proponho um brinde à coragem com que Mark vem enfrentando a sua situação, e um brinde também à nossa partida. Saúde!
Os outros se levantaram, pegaram suas taças e também falaram bem alto:
— Saúde!
— Sam - perguntou Mark —, como fica a pendência da sua casa?
Você já acertou a venda?
— Não, resolvi não a vender.
Eu e Anna conversamos muito e decidimos que não venderemos a casa, por enquanto.
Mesmo que eu me habitue com o Brasil, quero manter aqui a minha residência.
Quem sabe, passar umas férias, matar saudade...
Eu tenho muito dinheiro, a venda da casa não iria significar uma grande soma mesmo.
— Mas a sua casa é maravilhosa.
É um palacete.
Vale uma fortuna - disse Emily.
— Eu sei, Emily, mas, perto do que tenho, não vai fazer muita diferença.
Norma está precisando de emprego, o Dr. Lawrence não a quer mais morando nos fundos lá da farmácia.
Ele vai fazer uma reforma e aumentar o estabelecimento.
Norma vai morar aqui e tomar conta da casa, como governanta.
A hora que qualquer um de nós sentir saudade, é só vir para cá. O que acham?
— Bem, Sam - disse Mark —, eu acho que você tem o direito de fazer o que quiser.
Se Anna concordou, acho que está perfeito.
Eu não tenho intenções de voltar para a América.
Eu e Emily poderíamos vender uma casa só e deixar a outra, mas não queremos mais voltar.
Temos um sentimento de que não vamos mais querer sair do Brasil.
E ainda mais associando meus sonhos com a casa que Adolph comprou.
Mark percebeu que falara demais.
Ele não queria comentar o assunto.
Adolph, percebendo a expressão meio embaraçada do amigo, com tranquilidade perguntou:
— Você sonhou com a casa que eu comprei, Mark?
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 08, 2015 8:20 pm

Mark estava meio hesitante, mas sentiu segurança suficiente para falar:
— Ora, vocês são meus amigos.
Não tenho nada a esconder.
Afinal de contas, vamos todos morar juntos, viver numa espécie de comunidade, e não posso ficar escondendo o que vem ocorrendo comigo.
Emily perguntou:
— O que vem ocorrendo, meu amor?
Você está com algum problema e não quer me contar?
O que está havendo?
— Calma, querida - começou Mark a rir.
Não tem nada a ver com doença.
Quando Adolph foi em casa naquele dia para nos falar sobre a mudança para o Brasil, eu já estava reflectindo muito sobre a minha vida, o que eu tinha construído, o que eu queria dali para frente, etc.
Adolph interrompeu a conversa:
— Os sonhos estão relacionados com a súbita emoção que você teve ao ver aquela gravura?
— Isso mesmo. Desde pequeno, eu tenho tido alguns sonhos marcantes.
Mas há um sonho que acontece com frequência.
Sonho que estou sentado numa sala grande, atrás de uma escrivaninha, onde me vejo nervoso, brigando com algumas pessoas.
Eu saio dessa sala e vou para o mato, andando por horas.
Quando vou chegando em casa de novo, eu vejo essa casa toda imponente, grande, bonita, e me dá uma sensação de poder, de riqueza, de posse.
E como se tudo aquilo fosse meu.
E eu sempre acho que vão tirar a casa de mim, não sei por quê.
Eu me vejo, no sonho, admirando, observando e apreciando cada detalhe de sua construção.
E a gravura que você me trouxe, Adolph, é idêntica a essa casa do sonho.
Só as cores são diferentes, mas é a mesma.
Não me pergunte como eu sei.
Eu só sinto que é a mesma.
— Então - disse Adolph —, os sonhos sobre os quais você nos disse naquele dia eram esses?
E eu e Emily achávamos que você estivesse um tanto alucinado.
Meu amigo, desculpe-me.
Levantou-se e foi abraçar Mark.
Emily também foi abraçar o marido.
— Querido, perdoe-me também.
Não sabia que você tinha esses sonhos.
Você nunca falou nada.
— Nunca falei porque tinha medo de que todos me tomassem por louco.
Assim que começamos a estudar, eu comecei a perceber que os sonhos significavam mais do que eu pensava.
Tenho trinta e dois anos, não sou mais tão garoto, mas ainda sinto que posso fazer muitas coisas.
Sabe, naquela noite em que estudávamos o livro dos espíritos, fiquei fascinado com as perguntas relacionadas a sonhos.
Lembrei-me dos sonhos com aquela casa e sinto que tenho alguma ligação com ela.
Quem sabe desde pequeno eu já sabia que iria morar lá?
Esse livro explica que nós podemos ter tanto conexões com o passado como também com o futuro.
Vai ver, eu tive uma premonição.
— Sabe, Mark - falou Sam —, concordo com você.
Eu e Anna temos estudado bastante ultimamente e confesso que muitas das coisas relacionadas à tragédia de minha vida fazem sentido no livro.
Não vou dizer que acredito em tudo, ou que me conformei com a situação, mas senti um conforto muito grande quando li o trecho referente à morte de crianças.
É esclarecedor, e o que mais me deixa fascinado é a maneira lógica com que as respostas são dadas.
Parece que as regras da vida sempre foram essas, mas nós não percebíamos.
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Ave sem Ninho

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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 08, 2015 8:20 pm

— Concordo com você - respondeu Adolph.
Toda a humanidade acreditou, por muito tempo, na vida após a morte.
Isso sempre foi natural desde o princípio dos tempos.
Recebi cartas de alguns colegas meus de Londres que estão começando a fazer escavações no Egipto, à procura de templos, múmias e outras preciosidades arqueológicas.
E, segundo consta, a crença da civilização egípcia na vida após a morte era verdadeira.
Acredito que essas escavações vão poder nos mostrar como as antigas civilizações viviam, como as pessoas pensavam, o modo de vida, as crenças.
Poderemos olhar para nós mesmos, daqui para frente, como uma continuidade de todas essas civilizações perdidas, que deve ter desaparecido por motivos que uma hora também descobriremos.
Há muitas provas que nos fazem acreditar na reencarnação, não acham?
— Olhe - falou Sam —, o que também é fascinante, embora seja triste, é a manipulação que a igreja exerceu sobre nossa cultura nos últimos séculos.
Não sei bem o que possa ter havido, mas o poder da igreja é muito forte e impede que tenhamos uma visão mais ampla acerca dos assuntos espirituais.
Eu parei de acreditar nessa igreja depois que li de um amigo de meu pai, há alguns anos, um relatório muito antigo sobre a Inquisição.
— E o que é a Inquisição? - perguntou Emily.
— Inquisição - respondeu Sam — foi uma maneira que a igreja adoptou para punir pessoas que não pensavam de acordo com os dogmas impostos por ela.
Quem cultuasse um outro deus, uma deusa, uma outra religião, ou que acreditasse em espíritos, era enforcado ou queimado vivo.
Antes, é claro, a igreja confiscava todos os bens dos condenados.
— Mas, Sam - continuou Emily —, então quer dizer que o amigo do seu pai, por ter um relatório, fazia parte da Inquisição?
— Não, absolutamente.
O avô desse amigo do meu pai havia sido morto pela Inquisição.
O relatório que ele tinha nada mais era do que a condenação de seu avô.
Ele foi morto na Espanha, muitos anos atrás.
Foi condenado por cultuar uma outra divindade.
Ou seja, as pessoas não tinham liberdade nem para escolher seu deus.
E a igreja confiscou todas as suas propriedades.
Eu sei que ainda hoje existem alguns países no mundo que mantêm a sombra da Inquisição bem viva.
Espero que as condenações tenham diminuído e que as pessoas voltem a ter a liberdade de cultuar o que quiserem.
— Eu também acho - disse Adolph.
E, falando em Inquisição, de certa maneira ela ainda está viva.
— Como assim? - perguntou Sam, aturdido.
Pensei que as condenações tivessem acabado há anos.
— Mais ou menos - respondeu Adolph.
Por eu estar me correspondendo com amigos em Paris, e pelo facto de eles estarem estudando essas questões espirituais, fiquei sabendo que recentemente, na Espanha, uma grande quantidade de livros de Kardec foi interceptada pela igreja e queimada em praça pública.
— Não posso acreditar numa barbaridade dessas - interveio Sam.
A igreja não tem o direito de fazer isso.
— Mas fez. Centenas de exemplares do "Livro dos Espíritos" foram queimados.
A alegação da igreja foi de que esse livro ia contra os dogmas cristãos.
Mas essa atitude brutal da igreja acabou surtindo um efeito positivo.
— Como assim? - perguntou Mark, confuso.
Se a igreja não permitiu que a população tivesse contacto com o livro, por que isso surtiu algum efeito positivo?
— Porque as pessoas, ao verem os livros sendo queimados, ficaram chocadas com a atitude da igreja e fizeram protestos em Barcelona.
Ou seja, essa atitude da igreja fez com que as pessoas percebessem o quanto estavam sendo passivas, o quanto estavam se deixando levar por conceitos impostos, impedindo-as de serem livres para pensar.
Todos menearam a cabeça em sentido afirmativo.
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 08, 2015 8:20 pm

Adolph continuou:
— Por essa razão é que eu estou me afastando da igreja e me aprofundando nos estudos metafísicos e espirituais.
Não quero saber de religiões ou dogmas.
Quero ser livre para pensar e estudar o que quiser.
Somos únicos e diferentes.
Cada um é responsável por aquilo que faz. Isso é fascinante, porque nos dá poder e responsabilidade ao mesmo tempo.
— Como assim? - perguntou Anna.
— Veja bem:
a partir do momento em que você se sente responsável por si, que você leva sua vida de acordo com a sua vontade, com o seu arbítrio, você não precisa mais culpar ninguém no mundo pelas suas tristezas e fracassos.
Tampouco cultuar deuses e santos pelas graças obtidas.
Tudo acontece através de você.
Você é quem dirige sua vida.
Os outros são meros espectadores, que às vezes contribuem no espectáculo.
Mas percebo que as pessoas estão nas nossas vidas porque nós também somos responsáveis por atraí-las no nosso caminho.
— É - falou Mark —, confesso que ainda tenho muito que aprender.
Adolph levantou-se rapidamente da cadeira e, passando a mão pela cabeça, perguntou a todos:
— Pessoal, o que acham de nos reunirmos cada dia na casa de um e estudarmos com afinco as leis da vida?
Todos gritaram ao mesmo tempo:
— Óptimo!
Adolph continuou:
— Até à hora de nosso embarque, em junho, devo receber mais alguns livros sobre reencarnação e poder do pensamento.
Quero estudá-los para me tornar um bom médium.
— Médium? - perguntou Emily, intrigada.
— Médium é a pessoa que tem sensibilidade suficiente para perceber o mundo físico e o mundo astral, além de servir como intermediário entre esses dois mundos.
De certa forma, Emily, todos nós somos médiuns.
Mas uns têm mais sensibilidade que os outros.
— Quer dizer, então - tornou Anna —, que teremos material para estudar tudo isso?
Todos aqui vão acreditar nos espíritos?
— É o que parece - respondeu Adolph.
Assim que chegarmos ao Brasil, iremos marcar algumas tardes na semana só para esses estudos, sem interrupções.
Sinto que precisamos estudar cada vez mais, há muito que aprender.
Continuaram conversando sobre mais alguns assuntos.
Todos estavam ansiosos com a viagem para o Brasil.
Era uma experiência nova, única.
Com excepção de Adolph, todos iriam sair da América pela primeira vez.
No íntimo, sabiam ser aquela data, 21 de junho, um novo marco em suas vidas.
Agnes estava feliz com a conversa.
Também já havia feito sua parte até agora.
Mais dois meses e todos estariam embarcando para o Brasil.
Estava na hora de ficar um pouco afastada dos colegas encarnados.
Precisava avisar Apolónio de que tudo estava em ordem, aparentemente.
E aproveitaria para visitar Roger, o avô de Sam.
Roger estava de férias escolares, já estava fazendo o curso de "desapego" havia dois anos.
Mais um ano de estudos e estaria apto para ingressar na universidade que havia em sua colónia.
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 08, 2015 8:21 pm

[b]Capítulo 15/[b]

O céu parecia uma tela de pintura.
Seu azul era suave e vivo.
Surgiam no horizonte os primeiros raios de sol.
A cidade astral Encantada ficava bem em cima da divisa de Minas Gerais com o Rio de Janeiro.
Essa colónia tinha o nome de Encantada pela sua beleza.
Era uma das colónias com o maior número de bosques floridos, entre todas as colónias espirituais ligadas ao Brasil.
Fundada por volta de 1500, foi uma das primeiras a receber europeus que desencarnavam.
Antes do descobrimento, as colónias eram praticamente todas indígenas.
Como os índios estavam há muito tempo no Brasil, não havia ainda colónias que pudessem receber os desbravadores que aqui chegavam.
O plano espiritual começou a fazer algumas modificações nas colónias para recebê-los.
Agnes e Júlia estavam estabelecidas em Encantada há cem anos, embora tivessem contribuído na época de sua fundação.
Receberam autorização para estabelecer núcleos de trabalho por ali.
Roger, em suas horas de folga, dedicava-se ao estudo da língua portuguesa.
Em sua memória só tinha o conhecimento do inglês e do francês.
Ainda não possuía os mecanismos mentais que Agnes e Júlia possuíam, de poder se comunicar em qualquer idioma.
Logo, Sam, Anna, Emily, Mark e Adolph estariam falando fluentemente o português, devido à utilização desse idioma em suas últimas vidas.
As casas da colónia Encantada eram lindas.
Todas eram brancas, com enormes jardins, rodeados por frondosas árvores e lindas flores.
Agnes e Júlia moravam juntas numa dessas casas, próximas aos departamentos de assuntos reencarnatórios.
Era um dos edifícios mais movimentados.
Lá eram dadas informações sobre os espíritos encarnados, ofereciam-se cursos de reciclagem, ensinavam-se métodos e práticas para que seus habitantes pudessem se comunicar com os encarnados no Brasil.
Agnes e Júlia já haviam tratado de permitir que seus amigos encarnados fizessem uma tranquila viagem até o Brasil.
Agora elas precisavam cuidar de suas vidas no astral.
Júlia comentou:
— Eu preciso ficar mais um tempo aqui no departamento.
Há algumas informações nas fichas dos rapazes e das garotas às quais eu ainda não havia prestado atenção.
Agnes, com seu sorriso habitual, respondeu:
— Não, Júlia. Eu havia omitido certas informações a fim de que você não pudesse interferir na história deles.
Veja que agora você pode compreender o porquê das situações trágicas, bem como da união do grupo.
— Concordo. São informações preciosas.
Caso eu tivesse acesso a elas antes, confesso que não teria condições de permanecer junto a esse grupo.
Por sorte sinto-me mais impessoal no momento, o que me permite estar a par de todo o passado deles e poder contribuir da melhor maneira.
— Perfeito, Júlia.
Enquanto você fica aí se deliciando com o passado de nossos amigos encarnados, eu vou ter com Roger. Até mais.
— Até mais, querida.
Agnes retirou-se da secção de arquivamento onde Júlia se encontrava.
Cruzou um enorme corredor, repleto de pessoas, num vaivém organizado e silencioso.
Desceu as escadas de mármore branco, chegou à enorme recepção, dotada de paredes de vidro, permitindo que a luz do sol iluminasse todo o ambiente durante o dia.
Jardins de flores bem cuidadas davam o toque final à beleza da recepção.
Agnes, mesmo conhecendo e passando por aquele departamento várias vezes na semana, sempre se encantava com a beleza do prédio.
Deu um breve suspiro, cumprimentou alguns conhecidos que estavam no saguão e dirigiu-se para o pátio externo.
O pátio era cercado por belos jardins, cheios de flores perfumadas.
Havia também um lago central, uma linda fonte e bancos de ferro.
Num desses bancos estava Roger.
Agnes foi ao seu encontro.
— Meu querido, como está?
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 08, 2015 8:21 pm

Roger estava imerso em seus pensamentos, olhando para as estátuas que cercavam o lago.
Respirou profundamente e soltou o ar bem devagar.
Esboçou um largo sorriso e voltou-se para Agnes:
— Minha querida amiga, que saudade! Como anda?
— Muito bem, obrigada.
Mas noto que você está bem calmo.
O que tem se passado?
— Ora, Agnes, depois de dois anos estudando o desapego, você queria o quê?
Que eu voltasse a ser o mesmo velho Roger de sempre? Impossível.
Esse curso mexeu muito comigo, mudei muito.
Agora eu quero mais é cuidar de mim, nas trilhas da luz.
— Quem te viu, quem te vê...
Fico muito feliz de saber que o curso o ajudou.
— Se me ajudou?
Eu renasci com esse curso.
No começo me senti inseguro.
Afinal de contas, eu não sabia bem o que iria estudar.
Depois, conforme fui aprendendo e praticando, entrei na fase do remorso...
— O que é perfeitamente natural - comentou Agnes.
— Bem - continuou Roger —, os instrutores me ajudaram muito.
Depois, quase no final, percebi o quanto eu me prendia às pessoas, o quanto eu dava do meu poder aos outros.
Nossa, Agnes, como é fácil nos influenciarmos pelos comentários alheios, deixando de seguir a vontade de nossa alma!
— Sei bem o que você me diz, meu amigo.
E vim aqui lhe dizer que, pelo facto de ter tirado excelentes notas, ter se dedicado, você ganhou o direito de reviver algumas vidas passadas.
— Eu sempre quis saber sobre minhas outras vidas.
Saber se fui importante, se fui uma pessoa de renome na Terra.
E com esse curso percebi que nada disso importa.
Agradeço o fato de poder ter acesso às outras encarnações, mas confesso que só vou fazer isso para poder entender como criei certos condicionamentos mentais que perduraram até há pouco tempo.
Não me importa mais saber o que eu fui, mas como eu criei certas formas-pensamentos que me jogaram no vale da dor e do apego. Graças a Deus, a curiosidade já se foi.
Agora eu quero ficar comigo, centrado.
Quero ter o máximo de equilíbrio pela eternidade afora.
— Roger, você mudou mesmo!
Eu sabia que iria conseguir.
Fico muito feliz por estar mais tranquilo.
E o facto de você descobrir os véus do seu passado só vai ajudar a compreender a história de seu neto e dos amigos dele.
Você verá que tudo está certo, que a vida não erra nunca.
— Sim, a vida não erra nunca.
Ela é poderosa, está sempre presente, estejamos encarnados ou desencarnados.
Talvez este seja o maior tesouro que Deus nos tenha dado: a vida.
— Isso mesmo, Roger, a vida.
Ficaram por mais algumas horas conversando sobre os mecanismos fantásticos que a vida utiliza para fazer com que possamos sempre estar diante da verdade.
Roger havia mudado bastante.
Não era mais o velho homem preocupado com as tragédias de seu neto.
Estava mais novo, aparentando a jovialidade que seu espírito demonstrava depois de se libertar das amarras do apego, das inseguranças que tinha por não acreditar em si, por não usar seu poder em benefício próprio.
Sentia-se um novo homem.
Os cabelos, antes brancos, voltaram a ser loiros.
A pele, antes branca como cera, estava bronzeada, brilhante.
Até suas roupas eram mais jovens, mostrando que aquele espírito estava, mais do que nunca, do lado da luz.
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 08, 2015 8:21 pm

Capítulo 16

Um apito estridente soava a cada três minutos, informando aos viajantes atrasados que dentro em breve o vapor partiria.
A movimentação no porto de Miami era enorme.
Centenas de homens da tripulação carregavam baús e malas para dentro do navio.
Outras centenas de pessoas estavam à beira do cais, balançando seus lenços, dizendo adeus aos viajantes.
A proa do navio estava repleta de gente também.
Choros, acenos, adeus, alguns alegres, outros tristes.
Todos se despediam de seus parentes e amigos.
Mais um apito, agora mais longo, informava que o navio começava sua rota rumo à América do Sul.
Adolph, Sam, Anna, Mark e Emily não tinham amigos que estivessem no cais do porto.
Haviam feito um jantar de despedida duas semanas antes em Little Flower, onde reuniram alguns conhecidos.
Iriam sentir saudade do Dr. Lawrence, que ultimamente havia se tornado o pai de todos.
Como o seu filho ficara com a agência do correio que pertencia a Emily, prometeu que sempre mandaria notícias.
Após o jantar de despedida, foram de trem para Miami, de onde sairia o navio para o Brasil.
Mark e Emily já haviam recebido o dinheiro pela venda de suas casas e móveis.
O dinheiro da aposentadoria de Mark seria depositado em uma conta num banco de San Francisco e seria administrado por seus irmãos que lá moravam.
Adolph não vendeu propriedade alguma, pois a casa onde residia era de seu pai.
Antes de partir, comunicou a seus pais, que estavam na Europa, que iria alugá-la e que o dinheiro do aluguer seria depositado numa conta bancária em San Francisco, também administrada pelos parentes de Mark, segundo uma procuração feita pelo próprio Adolph.
Sam e Anna venderam algumas propriedades, ficando apenas com o palacete, que ficaria aos cuidados de Norma, e um sobrado no centro da cidade.
O aluguer desse sobrado iria directo para as mãos de Norma, para que ela pudesse manter o palacete.
Tudo acertado.
Os corações trepidando.
Por mais que desejassem mudar de país, a sensação do novo trazia-lhes desconforto.
Pensar em mudar de país tinha sido muito fácil, mas concretizar o pensamento os deixava inseguros.
O que encontrariam pela frente?
Iriam se adaptar ao novo mundo?
Foi assim que Adolph, Sam, Anna, Mark e Emily desceram o Atlântico.
Durante trinta dias, esses foram os pensamentos que povoaram suas mentes.
Na primeira manhã da primavera, o navio atracou no cais do Rio de Janeiro.
A beleza das praias, da vegetação tropical e dos morros era magnífica.
O céu era de um azul lindíssimo.
O sol se punha no horizonte com toda a sua força, reflectindo seu brilho nas águas da baía de Guanabara.
Todos os viajantes correram à proa para apreciar a estupenda beleza.
Alguns enchiam seus olhos em lágrimas de puro êxtase.
Adolph olhou à sua volta e gritou para seus companheiros:
— Meus amigos, bem-vindos ao Brasil!
Que a partir de hoje nossas vidas sejam recheadas de tantas belezas quantas essas à nossa frente.
Que nossos caminhos sejam trilhados com o mesmo brilho que estamos agora recebendo deste sol.
Sam, Anna, Mark e Emily responderam em uníssono:
— Viva!
O cais do porto estava repleto de pessoas, algumas aguardando os viajantes do navio, outras esperando embarcações que traziam artigos vindos da Europa.
O que mais impressionava os recém-chegados era a quantidade de negros:
mulheres negras acompanhando senhoras e senhoritas impecavelmente vestidas; negros acompanhando senhores elegantes com seus casacões, luvas, cartolas e bengalas.
Cavalos, charretes, carruagens misturavam-se ao vaivém dos trabalhadores do porto e dos transeuntes.
Muitas pessoas ficaram ali espremidas, na ponta do cais, para ver quem estava chegando.
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Re: A Vida Sempre Vence - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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