Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

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Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 05, 2015 10:42 am

Virando o jogo
Mónica de Castro

Espírito Leonel

Capítulo 1

Parecia que muitos anos haviam-se passado desde a primeira vez em que trafegara por aquelas ruas.
Passagens obscuras, vielas malcheirosas, becos assustadores projectavam sombras indistinguíveis nas paredes nuas.
O lugar era horrível.
Já nem se lembrava mais de como fora parar naquele submundo.
Ali era seu lar.
Mizael caminhava de cabeça baixa, pensando na vida que levara até então.
Tudo o que fizera fora cometer crimes: roubar, matar, estuprar.
Não sabia fazer outra coisa.
Por mais que compreendesse que era errado, todo o seu corpo vibrava quando sentia escorrer nas mãos o sangue dos inocentes.
Era algo que o enchia de prazer, era o alento que lhe dava ânimo.
Pena que, algumas vezes, reconhecia, na intimidade do ser, uma insinuação de cansaço.
Ouviu um ruído estrondoso e olhou para o céu, sem conseguir vê-lo.
Havia tantas nuvens pesadas que só o que pôde distinguir foi uma massa disforme de vapor gris.
Em algum lugar por detrás daquele teto de chumbo, provavelmente, o sol devia brilhar.
Apressou o passo.
Queria chegar logo à casa de Atílio.
A reunião fora marcada às pressas, ele não sabia do que se tratava.
Intuía que era algo importante, do contrário, Atílio não teria mandado o maltrapilho do Damien à sua casa com tanta pressa.
Quando lá chegou, logo notou uma movimentação nervosa.
Todos entravam e saíam atarantados, vestindo uniformes negros, carregando armas pesadas.
Era comum, em grandes operações, aquele alvoroço no bando.
A quadrilha de Atílio era muito competente no que fazia.
Bandidos e assassinos, todos tinham uma missão a cumprir.
Poucos eram os que falhavam, e Mizael nem gostava de pensar no que acontecia aos que não cumpriam bem suas tarefas.
- Até que enfim! - exclamou Damien, logo que o viu entrar.
Mais um pouco e Atílio mandaria buscá-lo pelos cabelos.
- Não enche, feioso - rebateu Mizael, irritado.
Damien apertou os punhos, doido de vontade de acertar um murro na cara de Mizael.
Mas não podia.
Ele era intocável, o preferido do chefe.
Pessoa da mais alta confiança, tinha praticamente todos os poderes que Atílio atribuíra a si mesmo.
- Você pensa que tem o rei na barriga, não é? - disse Damien com raiva.
Só porque é o queridinho do chefão acha que é melhor do que todo mundo?
- Por que não dá o fora, palhaço?
Ou prefere que eu lhe dê uma lição?
- Um dia, isso vai mudar.
Atílio ainda há de ver quem você é.
- Quem eu sou não lhe diz respeito.
Você tem apenas que obedecer.
A Atílio e a mim.
- Você pode enganar Atílio e os outros, mas a mim não engana.
Conheço tipos como você.
- Devo sentir medo de você? - desdenhou.
Ponha-se no seu lugar, verme, ou sou capaz de esmagá-lo com meus punhos.
Saia da minha frente, asqueroso.
Ande! Chispe!
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Ave sem Ninho

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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 05, 2015 10:42 am

Engolindo a raiva, Damien se afastou.
Até a chegada de Mizael, ele e Atílio eram como irmãos.
Realizaram muitas acções juntos, envolvendo-se em roubos, assassinatos e muito mais.
Não havia quem não os temesse.
Foram anos dedicados ao crime, sempre escapando da polícia, ludibriando a justiça.
Mas o cerco foi apertando, até o dia em que não lhes restou alternativa a não ser fugir e refugiar-se ali.
O local não era dos mais agradáveis.
Era sujo, feio, fedorento, mas pelo menos ficava fora do alcance de vigilantes e soldados.
De repente, Mizael apareceu.
Ele não fazia parte do bando original, mas conquistou a confiança de Atílio tão logo chegou.
Tinha um jeito arrogante, frio, audacioso.
Muito diferente dele, que, apesar de corajoso, era também servil.
Mizael, não.
Obedecia sem se mostrar subserviente.
Mizael não se juntou ao bando de imediato.
Atílio já o conhecia, seus feitos no mundo do crime eram famosos.
Mandou chamá-lo à sua presença, ofereceu-lhe um lugar na quadrilha.
Mizael não só recusou, como também o desafiou.
Queria tomar seu posto de poder.
Atílio deu ordens para que ninguém os interrompesse e trancou-se com ele em seu gabinete.
Horas depois, quando saíram, já não havia mais animosidade entre eles.
Pareciam velhos conhecidos.
Aos poucos, Mizael foi subindo na hierarquia do bando, impressionando o chefe com suas façanhas inteligentes, audazes, intrépidas.
Mizael não tinha medo de nada.
Nunca tivera nem medo de morrer.
• Com a projecção de Mizael, Damien começou a decair.
Era bom para executar planos, contudo, não sabia planeá-los.
Mizael, por sua vez, era excelente estrategista.
Seus planos sempre surtiam efeito.
Tanto que Atílio passou a confiar mais nele do que em qualquer outro.
Dizia que Mizael o havia conquistado pela inteligência.
Havia algo mais naquela amizade.
Damien sabia, sentia uma energia diferente fluindo entre eles.
Uma camaradagem além do normal, uma simpatia tão forte que levava Atílio a defender Mizael em qualquer situação, justificando cada um dos raros erros que cometia.
Essas lembranças só faziam aumentar o ódio de Damien por Mizael.
Relegado a segundo plano, Damien foi obrigado a aceitar se transformar no capacho de Atílio e do próprio Mizael.
Por tudo isso, tinha motivos mais do que suficientes para odiá-lo e não acreditar nele.
De longe, Damien observava cada passo de Mizael, mordendo os lábios para conter a fúria.
Mizael entrou calmamente na sala de Atílio, passando no meio dos comparsas que bajulavam o chefe.
Muitos o olharam com antipatia, outros com medo.
- Mandou me chamar? - indagou ele, aproximando-se de Atílio.
Atílio estudava um documento e levantou os olhos quando ouviu sua voz.
O sorriso que lhe deu poderia parecer gutural a quem não o conhecesse, mas Mizael sabia que aquele era um gesto cortês.
- Sente-se - ordenou Atílio.
Tenho algo muito importante a lhe dizer.
Sem nem desconfiar do que se tratava, Mizael sentou-se defronte dele.
A um olhar de Atílio, todos foram embora.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 05, 2015 10:42 am

Quando o último comparsa fechou a porta, Atílio encarou Mizael e começou a falar:
- Temos estado juntos por muitos anos, não é mesmo?
- Sim.
- Durante todo esse tempo, sei o quanto você me foi leal.
- É verdade.
- Tão leal que é o único em quem confio para executar a missão que tenho em mente.
- Missão? - interessou-se.
Do que se trata?
- É uma missão especial e muito perigosa.
Não sei se você vai gostar.
- Por que não?
- Você terá que nos deixar por uns tempos.
- Deixar vocês? - surpreendeu-se.
Não compreendo.
- Você já deve ter notado que o mundo está mudando.
E creio que, daqui para a frente, as mudanças serão ainda maiores.
A situação no Oriente Médio1 anda complicada.
A coisa lá está preta.
- E daí? O que temos com isso?
Não vá me dizer que quer se juntar ao Saddam Hussein!
- Deixe de besteiras, Mizael!
Não é nada disso, por óbvio.
Mas você tem que convir que ele é uma inspiração.
- Inspiração para quê?
Por acaso vamos virar terroristas?
- É claro que não.
Quero apenas que você perceba que, em todas as partes do mundo, há gente interessada na solidificação do poder.
Como nós.
Temos que conquistar nosso lugar no mundo através da força.
- Tudo bem. Mas como?
- Aí é que você vai entrar.
O momento é propício a novas e ousadas acções.
- Que tipo de acções?
- Acções inesperadas, que surpreendam o inimigo em sua mais pura inocência.
- Por acaso você está planeando alguma guerra? - espantou-se.
Ficou maluco?
Há muitos soldados por aí, bem armados e dispostos a tudo para nos deter.
- E daí, Mizael?
Desde quando isso foi problema para nós?
Mas não se preocupe.
Não é a uma luta armada que estou me referindo.
• - Continuo sem entender.
- Você, que é tão inteligente, não conseguiu ainda descobrir?
- Sou inteligente, mas não sou adivinho.
Não vejo o que mais podemos fazer além do que já fazemos.
Como disse, só nos falta uma associação com o terrorismo.
- Terrorismo é coisa lá para os Estados Unidos.
Não funciona no Brasil.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 05, 2015 10:42 am

E depois, não seguimos ideologia alguma.
Não, Mizael, não quero nada com esses fanáticos.
Refiro-me a uma infiltração.
- Mas nós já fazemos isso!
Quantos de nós temos influência até sobre políticos e juízes?
- Não é desse tipo de infiltração que estou falando.
Já foi o tempo em que só uma acção silenciosa surtia resultados.
Precisamos de uma investida mais efectiva.
Uma guerra está sendo preparada para o futuro e não podemos ficar de fora.
- Essa guerra a que você se refere não é uma luta armada, certo? - Atílio assentiu e Mizael continuou:
- Se não vamos vencer o inimigo pela força, então, só pode ser pela inteligência.
É isso?
- Mais ou menos.
Precisamos nos expandir para além desses horizontes, ter uma actuação mais efectiva.
- Muito bem.
O que quer que eu faça?
- Vai me obedecer sem questionar?
Uma imperceptível hesitação trespassou o coração de Mizael, mas ele manteve a postura firme e afirmou categoricamente:
- Você sabe que sim.
Seja qual for a missão que eu tenha que desempenhar, estarei pronto para ela.
- Excelente!
Não esperava outra coisa de você.
- E então?
Vai ou não me dizer do que se trata?
Atílio fixou nele os olhos naturalmente ofuscados pela ira e disparou sem rodeios:
- Você vai reencarnar.

1 Refere-se à guerra Irão-lraque, entre 1980 e 1988.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 05, 2015 10:42 am

Capítulo 2

A estrada era de lama, mas perfeitamente visível naquele mundo de sombras.
Por onde passavam, Josué e Uriel iam derramando uma luz branca, bastante suave, sobre o caminho, de forma a iluminá-lo sem espantar nem intimidar os habitantes daquela parte do submundo astral.
- Tem certeza de que é por aqui? - indagou Uriel, um pouco assustado.
- Certeza absoluta - confirmou Josué.
E você não precisa ter medo.
Nada vai nos acontecer.
- Devíamos ter trazido a polícia astral, você não acha?
- Para quê?
Para assustá-los ainda mais?
Ninguém aqui está sendo perseguido.
- Esse lugar é horrível - lamentou o outro, reparando nos seres aparentemente dementados que vagavam por ali.
O que leva esses espíritos a viverem assim?
- Culpa, orgulho, medo, ódio, inveja... muitas coisas.
- Pensei que o umbral fosse reservado aos maus, corruptos, assassinos e coisas do género.
- O umbral não é reservado para ninguém.
Cada um desses espíritos escreveu a própria sorte.
- Como?
- Pela semelhança de vibração mental e emocional, o que dá forma ao pensamento.
O ambiente plasmado é o resultado do somatório dos muitos pensamentos e sentimentos desprendidos pelos espíritos.
A matéria resultante dos pensamentos de ódio, por exemplo, pode se agrupar para formar uma ravina árida, assim como pensamentos de amor plasmariam um jardim.
- Não há punição em ser enviado para cá?
- A punição, quem impõe é o próprio espírito, na medida em que é ele quem cria os pontos de magnetismo que o atraem para cá.
Isso é só mais uma ilusão gerada pela mente doentia, porque todo mal, seja ele qual for, é uma doença instalada na alma.
Criada a ilusão, o espírito se aprisiona a ela, ou porque não acredita merecer coisa diferente, ou porque é tão empedernido que ignora a existência de um mundo melhor.
- Até quando ele permanece nessa ilusão?
- Até ganhar compreensão e perceber que não precisa estar aqui.
Veja, chegamos.
Do ponto onde estavam, avistaram uma espécie de ilha em meio ao lamaçal, onde uma luzinha muito fraca tornava visível o corpo de um homem todo vestido de negro.
Sem passagem para alcançar a ilhota, Josué não viu outro jeito senão levitar.
- Vamos bem devagar, quase tocando a água - avisou.
Não queremos incomodar os outros.
- Não podemos levar mais alguns? - sugeriu Uriel, penalizado com um grupo de mulheres maltrapilhas, cheias de feridas, que os olhavam com olhar de súplica.
- Elas não querem realmente ir - esclareceu ele.
Pensam em sair, mas a vontade não é verdadeira.
Tanto que, se você lhes estender a mão, ao invés de virem com você, tentarão puxá-lo para elas.
Sua crença interior fará explodir sentimentos como a inveja, o ódio, a violência.
Mas não se preocupe.
No momento certo, elas pedirão ajuda.
Em silêncio, Uriel endereçou-lhes uma pequena oração, que fez surgir sobre suas cabeças uma luminosidade calmante.
Elas não viram a luz se acender, mas conseguiram se aquietar e adormeceram.
- Muito bem - elogiou Josué.
Quando nada podemos fazer, sempre resta a oração, que, ao contrário do que muitos imaginam, é muita coisa.
De mãos dadas com Uriel, Josué ergueu o corpo subtilmente, apenas alguns centímetros acima do lamaceiro.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 05, 2015 10:43 am

Atravessaram-no rapidamente, sem chamar a atenção de ninguém.
Em poucos segundos alcançaram a pequena ilha, onde um homem jazia adormecido, envolto em claridade bruxuleante.
Quando os dois pousaram junto a ele, o espírito abriu os olhos, levantando-se de um salto.
- Não é possível! - exclamou impressionado.
Não é que vocês vieram mesmo?
- Viemos atendendo ao seu chamado - respondeu Josué, fixando nele os olhos penetrantes.
Em que podemos ajudá-lo?
O outro desviou o olhar, temendo que os olhos de Josué lessem o interior de sua alma.
Estava confuso, sem saber como agir.
Pela primeira vez em muitos séculos, via-se diante de espíritos de luz.
- Eu... - balbuciou, tentando encontrar as palavras certas.
Pensei se não poderiam me ajudar a sair daqui.
- É o que você quer? - continuou Josué, perfurando a mente do espírito, que assentiu incomodado.
Tem certeza?
Por pouco ele não desistiu, com medo de ser desmascarado.
Mas não podia, tinha ordens a cumprir.
Atílio ficaria muito decepcionado se ele desse para trás.
Haviam ensaiado aquele momento muitas vezes, treinando a mente para ocultar a verdade.
Mas agora, frente a frente com aquele espírito de uma simplicidade tocante, sentia-se inseguro, impressionado com seu imenso poder.
- Como se chama? - era a voz de Uriel.
- O quê? - tornou espantado.
- Seu nome.
- É Mizael.
- Muito bem, Mizael - falou Josué, ainda como se estivesse lendo em sua mente.
Por que quer sair daqui?
Uriel olhou-o espantado.
Parecia-lhe óbvio o motivo pelo qual um espírito gostaria de sair daquela treva assustadora.
Contudo, conhecia Josué havia bastante tempo para não questionar suas atitudes.
- Eu... - gaguejou Mizael.
Estou cansado daqui.
Só o que vejo é miséria, sofrimento, maldade.
Não quero mais viver assim.
- E o que pretende quando sair?
- Gostaria de reencarnar - afirmou ele, agora com uma segurança que julgara perdida.
Quero uma nova chance, uma oportunidade para me modificar e corrigir os meus erros.
- Pode ser que você consiga essa oportunidade, mas os erros a que você se refere somente serão reformulados mediante sua vontade de agir conforme o bem.
- É... é isso que quero.
- Tem certeza?
- Absoluta.
O tempo em que vivi aqui me levou ao arrependimento de meus actos.
Se reencarnar, talvez consiga uma melhora.
- Quais foram esses actos, exactamente?
- Eu matei, roubei, estuprei, entre delitos menores.
Quando desencarnei, continuei a serviço do mal.
Ingressei numa horda de espíritos malignos, que actuam na esfera terrena inspirando bandidos, traficantes, policiais, juízes, agentes do governo, funcionários públicos e políticos corruptos.
Estamos em toda parte onde o crime tenha condições de se desenvolver.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 05, 2015 10:43 am

- Sei. E agora quer mudar?
- Isso mesmo.
Cheguei à conclusão de que isso é errado.
- O que o levou a pensar assim?
- Reflexão e arrependimento.
De que valem anos de poder nas sombras se não posso ser feliz?
- Você não se julga feliz?
Com aquelas perguntas, Josué levava Mizael a reflectir sobre suas atitudes, mesmo que ele não quisesse.
Ao falar sobre seus crimes, ia deles tomando consciência.
- Estou preso a minha própria imagem - desabafou ele, com cautela, mas sinceridade.
O que fui em vida determinou meu destino aqui.
Quando morri, apenas troquei de lugar, mas continuei agindo conforme sempre agia, só que agora com mais liberdade, sem medo de ser capturado pela polícia da matéria.
É claro que os soldados do astral, por vezes, também me perseguiam.
Mas fui esperto, sempre fugi deles.
- Desculpe-me dizer isso, Mizael, mas você não me parece muito arrependido.
Sinto até um certo orgulho nas suas palavras.
- Você tem razão, em parte.
Eu fui orgulhoso, mas não quero mais ser assim.
Será que não tenho direito a uma nova chance?
- Todos têm direito a uma nova chance, mas você deve ficar sabendo que esta será sua última.
- Como assim?
Quer dizer que, se eu não obtiver sucesso, estarei condenado para sempre?
Não poderei mais reencarnar?
- Não neste planeta.
Há alguns anos que os seres da Terra estão recebendo essa última chance.
Todos, sem excepção, terão direito à derradeira tentativa.
O planeta se prepara para uma grande transformação, que será sentida com mais intensidade logo nos primeiros anos do próximo milénio.
A humanidade está alcançando um grau de maturidade espiritual que favorece a modificação planetária, elevando a Terra a um lugar de renovação interior e exterior.
Os que não acompanharem essas mudanças, por seu magnetismo próprio, serão atraídos para um mundo primitivo, onde, através do trabalho árduo, terão que aprender a construir as civilizações, dando início às primeiras raças de outro planeta.
Mizael assustou-se.
Atílio não havia lhe falado nada sobre outros planetas.
- Que mundo é esse? - questionou preocupado.
- Existem mundos distantes, em outras galáxias, em situação ainda menos avançada do que o nosso.
Assim como nos primórdios da vida na Terra, necessitam de seres que patrocinem o seu desenvolvimento, já que os nativos estão em estágio ainda muito rudimentar de inteligência.
Um desses mundos, cuja atmosfera espessa formará um campo magnético capaz de atrair espíritos em igual densidade fluídica, foi reservado para receber os imigrantes da Terra.
Esses espíritos, ao desencarnar, perderão a sintonia com o campo energético do planeta, sentirão um rompimento em seus corpos, que não mais tolerarão a proximidade do envoltório atmosférico da Terra.
De forma natural e gradativa, permanecerão adormecidos até que esse novo mundo esteja em condições de recebê-los, dando-lhes a oportunidade de desenvolver suas faculdades intelectuais e morais nas primeiras eras de outro planeta.
- Primeiras eras?
Na idade da pedra, você quer dizer?
- Isso, eu não sei.
Cada mundo tem sua própria história, seu ritmo próprio de crescimento.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 05, 2015 10:43 am

O progresso vai depender dos que lá encarnarem, assim como aconteceu com a Terra, que já recebeu os habitantes de outros planetas em condições de evoluir2.
- Você está me assustando.
- Por quê?
Não pense que você terá como fugir desse facto.
Todos os que você conhece passarão por isso, a não ser que prefiram saltar a reencarnação e seguir directamente para esse outro mundo.
- Não tenho a menor intenção de virar homem de Neanderthal3 - afirmou acabrunhado.
- Nem deve.
Pelo que pude perceber, você é um ser bastante inteligente.
Não gostaria de contribuir com a sua inteligência para a melhora deste mundo?
- Não sei.
Acho que você está indo longe demais.
Não pensei em nada disso.
Só o que quero é sair daqui e uma oportunidade de me modificar.
É um assunto meu comigo mesmo.
- Parece que você não me entendeu.
Todos que reencarnarem estarão usufruindo essa última chance, quer queiram, quer não.
Não é uma escolha pessoal, é uma necessidade mundial.
Você pode viver a sua vida como bem quiser, mas eu tenho o dever de alertá-lo sobre isso.
Mizael estava realmente preocupado.
Aquela novidade o deixara com medo.
Não queria virar homem das cavernas.
Contudo, tinha um dever a cumprir.
E quem garantia que aquele espírito estava falando a verdade?
Ele podia estar tentando enganá-lo para que fizesse o que ele queria.
- Tudo bem, chefe - falou, com uma certa ironia.
Vou arriscar.
Sem dizer nada, Josué estendeu a mão para ele.
Com a outra, segurou a mão de Uriel, espantado demais para falar.
Em uma fracção de segundos, esvaneceram no ar, mas Mizael ainda teve tempo de registar o olhar indecifrável de Josué, cujo sorriso enigmático não permitia desvendar o futuro.

2 Para maior compreensão, ler Os Exilados da Capela, de Edgard Armond.
3 Habitante da Europa e do oeste da Ásia, entre 300.000 e 29.000 anos atrás, aproximadamente.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 05, 2015 10:44 am

Capítulo 3

No caminho de volta do trabalho, Geórgia pensava nos problemas da escola pública em que leccionava.
Sem verbas para a reforma, as aulas eram ministradas em salas sem reboco nem pintura, cheirando a mofo, as carteiras quebradas, os banheiros danificados.
Em meio a tudo isso, as crianças compareciam à escola de olho, principalmente, na merenda, muitas vezes a única refeição que faziam o dia inteiro.
Geórgia amava seu trabalho.
Desde pequena, indagada sobre a profissão que gostaria de seguir, não hesitava em dizer que queria ser professora.
Como gostava de crianças, escolheu a classe de alfabetização, na qual poderia ensinar logo as primeiras letras.
Amava o jeito como os pequenos encaravam as novidades, suas ideias ingénuas, sua curiosidade natural pela descoberta da leitura.
Geórgia procurava incentivá-los como podia.
Comprava livrinhos baratos, em feiras, para mostrar às crianças, mantinha sempre cheia a caixa de lápis de cor e não descuidava da arrumação da sala, tentando mantê-la asseada, com desenhos pregados em murais espalhados pelas paredes, para esconder os buracos e descascados.
Aproximava-se da esquina de sua rua quando foi abordada por Júlio, amigo de infância e namorado de muitos anos.
- Olá, minha linda - cumprimentou ele, dando-lhe um leve beijo nos lábios.
Como foi o seu dia?
- Mais ou menos.
A escola está ruindo, e fica cada vez mais difícil manter as crianças em sala.
Quando chove, alaga tudo.
- A directora ainda não conseguiu a verba?
- Está uma dificuldade.
Estamos fazendo o possível para manter a escola funcionando.
Tenho medo de que, se não conseguirmos o dinheiro, tenhamos que fechar.
- Não fique assim, minha linda.
Sei que tudo irá se resolver.
- Você é um amor, Júlio.
Sempre me apoiando.
Também acredito que as coisas irão melhorar, de uma maneira ou de outra.
Acho que a vida sempre actua para nos favorecer.
- Eu não iria tão longe - gracejou ele.
Você e suas filosofias espirituais.
Vai entender...
- Adoro ler sobre as coisas do espírito.
Você devia ler também, ia lhe fazer bem e o ajudaria a compreender melhor a vida.
- Não tenho tempo - ele a estreitou com amorosidade e concluiu:
- Mas ainda tenho um tempo antes de voltar ao trabalho.
Quer almoçar comigo?
- Vamos almoçar lá em casa.
Mamãe não vai se incomodar.
Abraçadinhos, caminharam juntos até a casa de Geórgia, onde Cléia acabara de colocar a mesa.
A mãe de Geórgia ficara viúva fazia quase dois anos e, desde então, vivia exclusivamente para a filha.
O marido, aposentado da Rede Ferroviária Federal, deixara-lhe uma pensão razoável, com a qual, somada aos vencimentos de Geórgia, iam vivendo.
Júlio, por sua vez, estudante de economia e caixa num banco privado, não via a hora de ser promovido a tesoureiro.
Seu nome era um dos mais cotados para o cargo, ao qual concorria com mais outros dois colegas.
Tinha certeza, contudo, de que os anos de esforço no banco seriam recompensados, pois o gerente já lhe adiantara que suas chances eram grandes.
- Depois que for promovido, podemos nos casar - afirmou ele, segurando a mão de Geórgia e olhando de soslaio para Cléia.
Cléia serviu o almoço e sentou-se com eles.
Como de costume, fizeram uma oração de agradecimento, para só então começarem a comer.
- Acho muito justo - disse por fim, ante o olhar ansioso dos jovens.
Geórgia já vai fazer vinte e um anos.
Está mais do que na hora.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 05, 2015 10:44 am

- Quer dizer então que você concorda? - exultou a filha.
- Por que não haveria de concordar?
Você e Júlio estão namorando há bastante tempo.
Não esperaria outra coisa de vocês.
- Oh! Mãe!
- Minha promoção deve sair até o final desta semana - afirmou Júlio.
Seu Anselmo praticamente me garantiu que será minha.
- Muito merecido, meu filho - concordou Cléia.
Você é um rapaz trabalhador e honesto.
Sempre deu o sangue por aquele banco.
E vocês pretendem marcar a data para quando?
- Depois da minha formatura.
Talvez lá para março.
Isso nos dará tempo de alugar uma casa e preparar o enxoval.
Cléia fitou a filha com uma certa decepção.
- Pensei que vocês fossem morar aqui.
A casa é grande e posso ceder o meu quarto para vocês.
Eu me ajeitaria muito bem no de Geórgia.
- Sei que a senhora gostaria que ficássemos juntos - disse Júlio.
Mas queremos ter o nosso cantinho.
- E vamos morar por aqui, mãe - prometeu Geórgia.
Você não vai ficar sozinha.
- Está certo, desculpem-me.
Que tolice a minha.
Não levem em conta o que eu disse.
Sei que vocês querem e merecem ter a casa de vocês.
Podem contar comigo para o que for preciso.
- Eu sabia, dona Cléia.
A senhora é maravilhosa!
- Sei, sei. Agora comam.
Daqui a pouco acaba a hora do seu almoço e você não deve se atrasar, para não prejudicar a promoção.
- Ainda bem que a agência fica aqui perto - disse Geórgia.
Assim podemos passar mais tempo juntos.
Terminado o almoço, Júlio voltou ao banco, deixando Geórgia ocupada com suas aulas.
Lá chegando, foi recebido por Anselmo, que o chamou à sua mesa.
- Meus parabéns, rapaz - foi logo dizendo, estendendo--lhe a mão.
Sabia que o cargo seria seu.
- A resposta já veio? - surpreendeu-se.
Fui promovido?
- A partir de agora, você é o mais novo tesoureiro da agência.
- Tão rápido!
Pensei que a directoria ainda fosse estudar um pouco mais as nossas fichas.
- Sabe o que é, Júlio?
Você era o mais cotado mesmo.
Está terminando a faculdade, e um diploma de economia é sempre bem-vindo.
O João não tem experiência, e o Tácio está se divorciando.
- E daí? O que isso tem a ver?
- Nada, a princípio.
Só que a cabeça dele ficou muito tumultuada, e não queremos pessoas desorientadas nem desatentas no trabalho, não é mesmo?
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 05, 2015 10:44 am

- Ele foi mandado embora?
- Ainda não.
Estou tentando lhe dar uma chance.
Mas ele faltou ontem e hoje chegou atrasado.
Se continuar assim, não terei saída a não ser dispensá-lo.
Júlio silenciou.
Não lhe parecia correcto dispensar o colega só porque estava enfrentando problemas pessoais, contudo, achou melhor não se envolver.
Ainda bem que sua vida pessoal melhorava a cada dia, ainda mais agora, com a perspectiva do casamento.
- Geórgia e eu vamos nos casar - afirmou de repente, para agradar o chefe.
- Não me diga!
Você faz muito bem.
Ganha a promoção e logo ajeita a vida.
Muito bem, meu rapaz.
O casamento é a melhor maneira de manter a cabeça de um homem centrada no trabalho.
Desde que ele não se envolva em aventuras, é claro.
Embora Júlio não concordasse com aquela posição, não disse nada.
Não era boa ideia contrariar Anselmo.
Ao contrário, queria estar de bem com ele.
- Também penso assim - mentiu.
Geórgia e eu somos pessoas conservadoras, muito ligadas à família.
Dificilmente o senhor irá me ver de cabeça virada por causa de problemas pessoais.
E o meu casamento, se Deus quiser, há de ser para sempre.
- Assim é que se fala, Júlio.
Mostra que você é digno, tem carácter.
Depois, com os filhos, sua felicidade estará completa.
- Realmente.
Geórgia é louca por crianças.
- Ainda bem.
Evitará de acontecer com você o que aconteceu com o Tácio.
- Como assim?
- Ele está se divorciando porque descobriu que a mulher o traiu - confidenciou.
Um absurdo. Coisa de gente à toa.
Por causa disso, ficou desnorteado.
É no que dá deixar a mulher solta, sem filhos para ocupá-la.
- O senhor acha que a mulher deve cuidar só da casa e dos filhos?
- É o desejável, porém, nos dias de hoje, concordo que nem sempre é possível.
Mas acho que as mulheres não deviam escolher profissões que as afastem muito tempo do lar.
Criança precisa da mãe.
- Geórgia é professora.
- Profissão ideal para uma mulher, você não acha?
- Acho - falou sem convicção.
- Bem, hora de trabalhar.
Por enquanto, até que um novo caixa seja designado para o seu lugar, você exercerá as duas funções. Tudo bem?
- Tudo bem.
- Acha que dá conta?
- É claro.
Eu já vinha, informalmente, fazendo o serviço de tesoureiro desde que o Roberto se demitiu.
- Muito bem.
Confio em você para essa nova tarefa.
Quanto ao casamento, faço questão de lhe dar um presente à altura.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 05, 2015 10:44 am

- Não precisa, seu Anselmo.
A promoção era tudo o que eu mais desejava.
- Nada disso. Você merece.
Geórgia é a moça ideal para se casar.
Você fez boa escolha.
Disso Júlio não tinha dúvidas.
Geórgia era sossegada, prestativa, amiga, meiga, leal...
Podia passar o dia enumerando as qualidades dela.
Teriam uma vida perfeita.
Apesar de tudo, sentiu pena de Tácio.
Júlio não achava que ele merecesse ser despedido justo no momento em que talvez mais precisasse do trabalho.
Mas não ousou contrariar Anselmo.
Era lamentável que Tácio perdesse a promoção e o emprego, no entanto, mais lamentável ainda seria se ele se visse na mesma situação.
Pelo menos Geórgia era uma moça direita, recatada, jamais lhe daria o desgosto de envolver-se com outro homem.
Aquela humilhação, tinha certeza de que nunca iria passar.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 05, 2015 10:44 am

Capítulo 4

Com a proximidade das festas de fim de ano, um churrasco de confraternização foi marcado num clube próximo, contando com a participação de todos da agência.
Na hora do amigo-oculto, a troca de presentes seguiu tranquila e engraçada, com as pessoas fazendo mímica para adivinhar quem era o sorteado.
Depois das brincadeiras, Júlio foi sentar-se à sombra de uma mangueira, com seu pratinho de plástico recheado de carne e farofa.
Procurou Geórgia com os olhos, mas ela conversava com Bianca sobre as melhores lojas onde comprar seu enxoval.
A irmã de Bianca se casara recentemente, e ela fora uma das responsáveis pela organização do chá de panela e da festa.
Distraía-se admirando a namorada quando Tácio se aproximou sem fazer barulho, segurando na mão trémula uma latinha de cerveja.
Júlio só percebeu sua chegada quando ele se sentou a seu lado à mesa de madeira.
- Tudo bem, Júlio? - indagou, visivelmente embriagado.
-Tudo - foi a resposta lacónica, carregada de constrangimento.
- Não tive ainda tempo de parabenizá-lo pela promoção.
- Hã... obrigado.
- Com certeza, foi merecida -Tácio o encarava, embaraçando-o cada vez mais.
Acho que você a mereceu muito mais do que eu.
- Não se trata disso, Tácio.
- Você mereceu essa promoção, sim.
Ao passo que eu, só o que consegui foi um aviso prévio.
- O quê?! - surpreendeu-se.
- Você não sabia?
- Não.
- Pois é.
Seu Anselmo me botou na rua porque disse que eu estava sendo relapso.
Relapso, eu, imagine...
Depois de quase vinte anos de trabalho, pela primeira vez cheguei atrasado uns dias e faltei a outros.
E isso porque estou atravessando problemas pessoais.
- Sinto muito, Tácio.
Foi uma injustiça.
- E ele ainda queria me aplicar uma justa causa.
Desídia, disse ele.
Mostrou-me os atrasos e faltas injustificadas, ameaçando-me.
Fiquei nervoso.
Imagine um homem como eu, com quase quarenta anos, ser despedido por justa causa.
Já vai ser difícil arranjar outro emprego com a minha idade.
Com essa mancha no meu currículo, então, seria impossível.
- Sei que é lamentável, mas pelo menos ele lhe deu o aviso prévio.
Não o deixou na pior.
- Ele me deu o aviso prévio?!
Não, meu caro, creio que você não compreendeu.
Ele me forçou a dar o aviso prévio para a empresa.
- Mentira!
- Não é mentira.
Fui forçado a pedir demissão para não levar a justa causa.
Ele fez tudo certinho, o desgraçado.
Me deu um monte de advertências e uma suspensão, lembra? - Júlio assentiu.
Depois, afirmou que já estava bem armado para a justa causa.
Minha única saída foi pedir demissão.
E, para me humilhar ainda mais, está me fazendo cumprir o aviso prévio.
- Sinto muito.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 05, 2015 10:45 am

- Sente? Por que sentiria?
Você ganhou a promoção, vai se casar com uma moça linda.
Eu, por outro lado, estou na pior.
Minha mulher me deixou por um garotão de vinte e três anos, surfista, o cabelo dourado de parafina.
Sem contar as dívidas.
Ela quis comprar roupas novas, sapatos, um aparelho de som e uma televisão, e o idiota aqui abriu um crediário na Mesbla4 para ela.
Em meu nome, apesar de ela trabalhar.
E não é só. O maior sonho dela era ter um anel de diamantes.
Lá fui eu para o centro da cidade comprar o tal anel na joalharia que ela escolheu, parcelado em doze vezes, um caminhão de juros!
E tudo isso para quê?
Para ela aproveitar com o playboyzinho, que nem ao menos trabalha.
E agora, Júlio, me diga:
sem emprego, como vou fazer para pagar tudo isso?
- Por que não conversa com seu Anselmo e pede para ele voltar atrás?
- Pensa que já não fiz isso?
Por que acha que vim a esse churrasco idiota?
Para me confraternizar com meus futuros ex-colegas de trabalho? Não.
Vim para ver se conseguia convencer seu Anselmo a rasgar o tal aviso prévio.
Sabe o que ele me disse? - Júlio meneou a cabeça.
Que já está consumado.
Não depende dele.
Foi uma decisão da directoria.
Sei que é mentira.
Se ele quisesse, poderia voltar atrás.
Tácio entornou a cerveja de um só gole e começou a chorar, causando mais constrangimento ainda em Júlio, misturado com piedade.
Imaginava o que faria sem emprego naqueles tempos difíceis, em que arranjar trabalho era quase impossível, principalmente num mercado fechado para os mais velhos.
- Eu lamento, Tácio.
Se tiver alguma coisa que eu possa fazer para ajudar...
- Tem.
- O quê?
- Você pode falar com seu Anselmo.
Sei que ele o admira, tem você na mais alta conta.
Talvez, vindo de um empregado exemplar feito você, ele mude de ideia.
- Eu?! Ele não vai me ouvir.
- Vai, sim.
- Não posso fazer isso, Tácio.
Seu Anselmo é uma pessoa de difícil trato.
- Está certo - falou desanimado.
Eu devia saber que é assim que funciona.
Cada um que cuide de si, não é mesmo?
Quando estamos bem, os outros que se danem.
- Não é isso.
É que acabei de ser promovido.
Não sei se cairia bem um pedido desses com tão pouco tempo de promoção.
- Não sabe se cairia bem?
Que diabo de covardia é essa?
- Por favor, Tácio, não me peça isso.
Olhe, se está precisando, posso lhe emprestar uma quantia...
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 05, 2015 10:45 am

- Não quero o seu dinheiro! - bradou, levantando-se, agora bastante alterado.
Nem sua piedade, nem suas migalhas.
Estou lhe pedindo um favor.
Será que você não pode me fazer um favor?
Tácio falava alto, gesticulando freneticamente, logo chamando a atenção dos outros.
Pensando que eles brigavam, muitos se aproximaram, tentando contornar a situação.
- Vamos lá, gente, parem com isso - pediu um.
- Deixem disso - falou outro.
- Calem a boca! - esbracejou Tácio, completamente alterado pela bebida.
Seus hipócritas!
Todos vocês são uns falsos, mentirosos!
Estão com peninha do velho desempregado aqui, é?
- Ninguém está com peninha - afirmou um colega.
- Não estão?
Pensam que não sei o que falam pelas minhas costas?
Coitado do corno, chifrado pela mulher e ainda por cima desempregado!
O silêncio foi geral.
Muitos nem sabiam que Tácio fora traído pela mulher.
Apesar de Anselmo ser partidário da fofoca, não era com todos que tinha intimidade para tocar no assunto.
Até então, o gerente permanecera neutro, observando de longe os acontecimentos.
Mas, quando Tácio tentou esmurrar um dos colegas, achou que já era hora de intervir:
- Chega, Tácio! Acabou!
A partir de hoje, você não precisa mais voltar à agência.
Está dispensado do cumprimento do resto do aviso prévio.
Aguarde em casa o telegrama, marcando dia e hora para homologar sua rescisão.
Era a humilhação final.
Tácio teve vontade de esganar Anselmo e os colegas.
Ninguém lhe deu apoio, muito menos Júlio, que chegou a virar o rosto para o outro lado.
Tácio encarou-o com ódio, direccionando seu olhar febril para Geórgia que, assustada, grudara-se ao braço do namorado.
- O que está acontecendo? - sussurrou ela ao ouvido dele.
Júlio não respondeu.
Apertou a mão dela, instintivamente tentando protegê-la da chuva de ódio do outro.
- Vá embora, Tácio, já falei! - continuou Anselmo.
Ou quer que mande colocá-lo para fora?
Dois homens parrudos, que trabalhavam como seguranças no banco, já se haviam postado ao lado de Tácio, apenas aguardando um sinal de Anselmo para agir.
- O quê? - esganiçou-se ele.
Vai mandar estes brutamontes me expulsarem?
Vai usar de violência para não ouvir a verdade?
Os seguranças saíram arrastando Tácio em direcção ao portão do clube.
Foi um horror.
Ele gritava, esperneava, chutava a esmo, tentando se desenvencilhar de seus captores.
Não conseguiu.
Enquanto era levado para fora, todos permaneceram estáticos, mudos de assombro, assistindo à cena inusitada que jamais imaginariam presenciar naquele dia de confraternização.
- Você vai ver, Júlio! - ainda o ouviram praguejar.
Espere até sua linda noivinha começar a lhe botar chifres!
Corja de bandidos! Safados! Canalhas...!
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 06, 2015 12:00 pm

A voz de Tácio foi sumindo, à medida que era levado pelos seguranças para fora do clube.
Atravessado o portão, os dois o empurraram com brutalidade, e ele caiu de rosto no chão.
Ao começar a erguer-se, um filete de sangue escorria de seu nariz que, com o baque, parecia ter-se quebrado.
Ao ver o resultado inesperado, os homens hesitaram, fazendo menção de ir em sua direcção, mas Tácio não lhes deu tempo.
Levantou-se, cambaleando em razão da bebida, e disparou, trôpego, pela calçada.

4 Loja de departamentos, hoje extinta.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 06, 2015 12:00 pm

Capítulo 5

Fazia um lindo dia de sol na cidade astral, onde as flores, mais perfumadas e coloridas do que as cultivadas no mundo físico, enchiam o ar de um aroma e uma luminosidade sem igual.
Da janela de sua sala, coberta por uma forração branca e suave, Josué fitava alguns recém-chegados, imaginando o destino que caberia a cada um.
Ao ouvir batidas na porta, disse sem se virar:
- Entre.
" Sem tempo para cumprimentos ou explicações, Uriel entrou apressado, falando aos borbotões:
- Mizael está dando trabalho de novo.
Agora cismou que quer uma pinga.
Como dissemos que aqui não temos essas coisas, ficou incontrolável.
Empurrou os enfermeiros e saiu batendo a porta.
Está perambulando por aí, sabe-se lá para onde foi.
- Não se preocupe - confortou Josué.
Ele não vai longe.
Tem uma missão a cumprir.
- Missão? Como assim?
Voltando-se para ele, Josué convidou-o a sentar.
- Mizael pensa que é esperto e que não sei o que lhe vai no coração.
- E o que seria?
- O espírito a quem ele deve obediência o incumbiu de reencarnar para auxiliar na propagação das forças contrárias à luz do bem.
Pensa que, fazendo retornar à Terra um ser maligno, conseguirá disseminar ainda mais a violência e o terror, com os quais pretende solidificar seu poder.
- Meu Deus, Josué! - horrorizou-se. - Isso é terrível.
Precisamos impedir.
- Impedir? Não.
Se pudéssemos impedir toda criatura ignorante e seduzida pela ilusão do mal de reencarnar, como permitiríamos que ela crescesse?
- Mas Josué, o que ele pretende é daninho.
- É claro que é.
Quantos seres daninhos você conhece que habitam hoje o orbe?
E a nenhum deles foi negada essa chance.
- Mas é diferente.
Eles vão iludidos, pensando que vão se modificar.
Quando chegam lá, os prazeres os envolvem a tal ponto que se esquecem do compromisso.
- Alguns, sim.
Outros partem daqui certos de que darão continuidade à vida desregrada e sem limites que levavam antes.
Desses, alguns reincidem na ilusão.
Outros são surpreendidos por factores inimagináveis e realmente se modificam.
- Que factores?
- O amor, a bondade, a fé.
Sem saber que estão preparados, são tocados por eles.
- Você está dizendo que há espíritos que reencarnam deliberadamente pensando em fazer o mal?
- Exactamente.
É instintivo, eles não aprenderam a revelar sua verdadeira natureza, que é sempre boa.
- Mas e as pessoas que cruzarem seus caminhos?
Não serão prejudicadas por eles?
- Cada um determina seu destino, que a todo instante pode ser modificado.
Mas, para aqueles que ainda acreditam que sofrer é a única forma de purificação, faz-se necessário que algo ou alguém provoque uma situação que leve ao sofrimento.
Para cada obra, uma ferramenta adequada, ou então, nada se realiza.
Assim é tanto para as boas obras como para as desagradáveis.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 06, 2015 12:01 pm

Quando duas ou mais pessoas se envolvem em situações de adversidade que levam à violência ou ao desgaste emocional, nem sempre estão ligadas
por liames pretéritos de inimizade.
Às vezes, só o que se quer é dar vazão aos instintos perniciosos, o que leva muitas pessoas a aceitar infligir o mal a outrem, tornando-se ferramentas na construção da dor.
Embora não haja laços anteriores unindo o suposto agressor à suposta vítima, corre-se o risco de esses laços surgirem, caso falte ao ofendido a compreensão de suas próprias escolhas.
- E você acha que Mizael será um desses?
- Vejo nele uma grande possibilidade de enveredar pela senda dolorosa do crime, já que é esse o seu objectivo.
Mas também reconheço uma chance para o amor.
- Como?
- Se você reparou bem, houve momentos, quando o resgatamos daquele submundo, em que ele se impressionou com a nossa conversa e titubeou em seus propósitos.
Isso demonstra que, lá no fundo, em algum lugar de sua essência, ele está pronto para fazer cintilar a centelha que recebeu de Deus.
Ou, em outras palavras, para fazer brotar em si mesmo a semente da regeneração.
- É. Ele disse mesmo que queria se modificar.
- Embora o fizesse pensando que nos enganava, na verdade, estava enganando a si próprio, pois foram de sua boca que saíram as palavras de reflexão.
- Mizael vai reencarnar provavelmente num meio que facilitará o ingresso no crime.
Quem terá forças para dissuadi-lo desse intento?
- Ninguém.
Só ele mesmo poderá modificar suas tendências.
Todavia, como lhe falei, há uma chance para o amor.
- Não estou entendendo muito bem.
Quem o amará tanto a ponto de levá-lo a querer mudar de vida?
- Primeiramente, sua mãe.
Mais tarde, a mulher por quem se apaixonar.
Uriel já ia retrucar com outra pergunta quando a porta se abriu num rompante.
Mizael entrou carrancudo, chutando uma poltrona à sua passagem.
- Mas que droga! - bufou.
Que lugar é esse que não tem nada de bom para a gente beber?
- Tem água fresca e límpida - esclareceu Josué.
É tudo de que você precisa, já que, de verdade, não precisamos de nada.
- Não fale por meio de charadas, por favor - rebateu mal-humorado.
Não compreendo essa baboseira.
A um olhar de Josué, Uriel saiu sem ser notado, fechando a porta em silêncio.
- Você sabe que é livre para fazer o que quiser - disse Josué.
Mas lembre-se de que a sua liberdade está limitada pelo direito do próximo.
Chutar e xingar lhe é permitido, se é de seu agrado.
Contudo, aqui é minha casa, e é meu direito ser respeitado em meus limites.
Mizael abaixou os olhos, envergonhado.
Havia tanto poder no olhar e nas palavras daquele homem que era difícil confrontá-lo.
- Desculpe - falou acabrunhado.
- Não precisa se desculpar.
Basta agir com educação e respeito, ao menos na presença daqueles para quem tais formas de comportamento têm valor.
- Ou seja, que eu guarde a minha rispidez para os boçais da treva de onde saí.
- É você quem está dizendo - fez uma pausa e prosseguiu:
- Soube que você fugiu.
Quer falar sobre isso?
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 06, 2015 12:01 pm

- Não.
- Tudo bem.
Então, o que o traz aqui?
Era quase impossível mentir para Josué, o que levava Mizael a um esforço supremo para ocultar-lhe suas reais intenções.
Segundo parecia, Josué não as captara.
- Quando é que vou reencarnar? - perguntou de supetão, irritado por depender de Josué para voltar ao mundo.
Lendo-lhe os pensamentos, Josué logo esclareceu:
- Você deve se perguntar por que os seres das trevas não conseguem fazer reencarnar seus discípulos.
Mizael sentiu um estremecimento, enquanto ouvia, paralisado, as elucidações do outro:
- Porque esse conhecimento é nosso.
A divindade suprema, que detém a sabedoria e o poder sobre todas as coisas, não permite que espíritos das sombras, por mais inteligentes que sejam, descubram esse mistério.
- Por quê? - interessou-se Mizael, mesmo sem querer.
- O verdadeiro poder pertence a Deus.
O resto é ilusão.
Espíritos menos esclarecidos, encarnados ou não, julgam-se poderosos porque aprenderam a dar forma às criações do próprio orgulho.
Esse poder é efémero, uma enganação dos sentidos.
Todo aquele que se aproveita da força e do medo para alcançar objectivos torpes e egoístas se distancia do verdadeiro poder.
Mas o que age conforme a sabedoria divina, mesmo sem saber, alimenta dentro de si uma parcela do poder de Deus, com a qual pode se impor no mundo, porque essa imposição será sempre na direcção do bem.
Mizael estava abismado.
Parecia que Josué, em alguns momentos, conhecia o mais profundo de seu íntimo.
Como então não descobrira o que ele pretendia?
Ou será que já sabia e fingia não saber?
- Você não pode negar o poder das trevas - defendeu inseguro.
- O poder das trevas é tão grande, que mesmo os mais empedernidos, com o tempo, fatalmente migrarão para a luz.
O contrário não se dá.
Era verdade, ele sabia.
Contudo, não queria admitir e prosseguiu com suas indagações:
- Você ainda não me esclareceu por que o conhecimento da reencarnação não pode ser descoberto pela treva, já que o mundo inteiro parece um grande inferno.
- Não é verdade.
O mundo é um lugar bonito, cheio de cor e luz.
O que falta é a humanidade reconhecê-las em si mesma, mas isso é o que está prestes a acontecer.
Quando o ser humano realmente descobrir o seu poder, alimentado por ideias e sentimentos nobres, fará brotar de dentro de si a verdadeira iluminação.
- Muito bonito o que você diz, mas nada esclarecedor.
- Você quer porque quer saber o segredo da vida, não é mesmo?
Depois de tudo o que falei, ainda não compreendeu?
- O quê?
- A inabalável força do mundo é o amor, e este não é facilmente encontrado na treva.
Somente seres que vibram essa energia poderosa é que são capazes de elaborar os mecanismos da vida.
Apenas o amor incondicional por todas as criaturas coloca o espírito em posição de criar novos corpos para uma nova existência.
E, como lhe falei, tal sentimento é praticamente desconhecido no lugar de onde você veio.
- Então é isso? - desdenhou.
O segredo é o amor?
- Existe todo um laboratório genético voltado para a formação da vida, seja ela mineral, vegetal, animal ou hominal.
Esse laboratório é operado por espíritos que têm domínio da ciência da matéria, tanto densa quanto subtil.
- Mas então existe um laboratório.
Foi o que pensei.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 06, 2015 12:01 pm

- Não é um laboratório comum, e as práticas ali realizadas não podem ser ensinadas.
Só os que já alcançaram, por mérito próprio, o amor puro e incondicional é que conseguem manipular máquinas e engrenagens.
Para todos os outros, serão instrumentos inertes.
- Você consegue, se quiser?
- Não. Ainda não alcancei a elevação moral necessária.
Falta-me o amor, indistintamente, por toda a humanidade.
Cada vez mais abismado, Mizael silenciou.
Se um espírito da envergadura de Josué ainda não dispunha de poder e conhecimento suficientes para operar o maquinário da reencarnação, então, seria mesmo impossível para ele ou Atílio empreender tal operação.
Tudo o que ele dissera levara Mizael à mais profunda reflexão sobre suas intenções.
Atílio se julgava tão poderoso, mas jamais conseguira o domínio da vida.
Por mais que tentasse, em seus subterrâneos, reproduzir essa táctica, faltava-lhe o elemento principal, que era o amor.
Questionava-se onde estaria, realmente, o poder.
- Voltando à minha pergunta - tornou Mizael, temendo a reacção de Atílio caso ele fracassasse.
Quando vou reencarnar?
- Muito bem.
Queria mesmo falar sobre isso com você.
Infelizmente, não consegui ainda encontrar alguém que se disponha a recebê-lo como filho.
- Como é que é?
- Você sabe que precisa de pais para nascer, um homem e uma mulher.
- Engraçadinho.
É lógico que sei.
- Pois é. Acontece que ninguém quer ser seu pai ou sua mãe.
- Como isso é possível?
- Parece que você coleccionou muitos inimigos.
- E daí? A reencarnação não serve de reajuste?
Então não seria uma óptima oportunidade para me reconciliar com meus desafectos?
- Desde que eles queiram.
Mas, no momento, todos já estão vivendo as próprias vidas, têm outros planos.
- Não é possível!
Alguém tem que sobrar.
- Não sobrou ninguém.
Também, há quanto tempo você desencarnou?
- Eu? Sei lá.
Acho que há bastante tempo.
- Você não sabe, mas eu sei.
Faz exactamente cento e vinte e sete anos que você deixou a Terra.
- Tanto assim?
- É. E nesse tempo, como era de se esperar, seus antigos conhecidos refizeram suas vidas, com novos propósitos de existência.
No momento, não sobrou ninguém para repartir planos com você.
- Ora essa, mas que coisa!
Como faço então?
- Tem um jeito, mas não sei se será de seu agrado.
- Que jeito?
- Você pode ser gerado num estupro.
- Estupro?! - horrorizou-se.
Eu, hein!
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 06, 2015 12:01 pm

- Não sei por que o espanto.
Quantas mulheres você já estuprou em vida?
Quantas pensa que deixou grávidas e quantas dessas fizeram aborto?
E os filhos que, porventura, você deixou órfãos no mundo?
- Nunca havia pensado nisso.
- Pois pense.
Para você, seria uma óptima oportunidade, inclusive, de sentir o que eles sentiram.
- Não quero sentir nada.
Não me interessa.
- Será que não?
Não será válida essa experiência, para que você nunca mais pense em estuprar?
- O que você está me propondo é uma espécie de punição.
- Se você pensa assim, então é melhor não ir.
Eu apenas sugeri porque acho que, no seu caso específico, é o jeito mais fácil de aprender.
- Por que no meu caso específico?
- Não me leve a mal, mas você é um espírito empedernido, que ainda não compreende a liberdade de escolha.
E esse pôde ser um bom momento para começar a exercitá-la.
- Óptimo. Se tenho liberdade de escolha, prefiro outra pessoa.
- Não tem ninguém.
Mas você pode esperar mais alguns anos, até que alguém desencarne e entre em acerto com você.
- Não quero esperar.
Já esperei muito.
- Então, Mizael, lamento, mas a única opção é essa.
- Conheço a mulher que será estuprada?
- Não.
- E o estuprador?
- Também não.
- Ainda por cima me arruma uma família de estranhos.
- Do que está reclamando?
Na sua posição, devia dar-se por satisfeito de ainda encontrar alguém disposto a recebê-lo, mesmo nessas condições.
- O homem, o estuprador, o que acontecerá com ele?
- Não vai ficar com ela, se é o que quer saber.
- E a mulher concorda com isso?
- Concorda. E você tem sorte.
Ela é uma moça amorosa, muito digna e carinhosa.
Você estará em boas mãos.
- Se é assim, por que ela escolheu essa experiência tão ruim?
- Por razões que, no momento, não lhe dizem respeito.
Então, Mizael? Qual a sua resposta?
Você é livre para aceitar ou não, mas seja breve, porque há outros na fila.
Assim como você, muitos espíritos desejam reencarnar e ficariam gratos por essa oportunidade.
- Tem mais gente querendo voltar? - Ele assentiu.
- Assim?
- O que você acha?
Muitos estão ansiosos para viver a última chance da qual lhe falei.
A proposta não era das melhores.
As circunstâncias, desastrosas.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 06, 2015 12:01 pm

Contudo, não tinha jeito.
Ou ele aceitava, ou seria obrigado a retornar para junto de Atílio, porque ali é que não iria ficar.
E Atílio ficaria furioso.
Talvez até o expulsasse do bando.
- Está bem, então.
Se essa é a única maneira, concordo.
- Óptimo. Vou agora mesmo cuidar dos preparativos.
Precisaremos marcar um encontro entre você e seus pais, para acertarmos tudo, inclusive a data do estupro.
- Você vai acertar tudo? - indignou-se.
A mulher vai ser estuprada com hora marcada?
- Exactamente. Do contrário, como poderíamos preparar você para se ligar ao óvulo fecundado?
- Estou achando essa história um absurdo, mas enfim...
- Só uma coisa.
Eles podem desistir no último minuto.
- Desistir? Como assim?
- O ser humano tem liberdade de escolha, e a todo momento pode optar por melhores caminhos.
Se eles desistirem dessa experiência, a sua também perecerá.
- Devo então torcer para que eles se ferrem?
- Deve torcer para que o melhor aconteça.
Seja o que for.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 06, 2015 12:02 pm

Capítulo 6

Ao contrário da cidade em que Mizael se encontrava, o astral habitado por Atílio quase nunca tinha luz.
O clima era sempre sombrio, cinzento, fúnebre.
Mesmo assim, ele estava acostumado ao ambiente, que considerava adequado ao seu temperamento forte.
Logo que Damien entrou, ele soltou os papéis que segurava e fitou-o com olhos vermelhos.
- Mandou me chamar, chefe? - indagou Damien.
- Recebi uma mensagem de Mizael - falou ele, um tanto ou quanto desatinado.
Não sei como, mas ele conseguiu direccionar suas ondas mentais para cá e eu as captei.
- E aí?
- Ele vai reencarnar em breve.
Pelo que compreendi, será fruto de um estupro.
Melhor assim.
Vai deixá-lo com mais raiva.
Damien soltou uma gargalhada sem vontade e retrucou:
- O que quer que eu faça, chefe?
- Precisamos descobrir quem serão os pais dele.
Mizael contou que eles têm a opção de desistir, o que não posso permitir.
- Quer que eu os influencie?
- Isso mesmo.
De agora em diante, esta será sua incumbência.
Descobrir quem são essas pessoas e garantir que a mulher seja estuprada.
Depois, quando ela engravidar, quero que cuide para que nada de mau lhe aconteça.
Mizael tem que nascer.
- Por que é tão importante que ele reencarne?
Já tem tanta gente no mundo fazendo maldade!
E nós estamos infiltrados em toda parte.
Isso não basta?
- Dei a Mizael uma missão especial.
Ele vai chefiar uma rede de narcotráfico, para enfraquecer cada vez mais a vontade humana de resistir ao mal.
Com isso, vamos dominando o mundo aos poucos.
- Será que ele vai conseguir?
Acho que tem muita gente brigando pelo poder lá na Terra, principalmente as quadrilhas de traficantes.
- É por isso que você não vai sair do lado dele.
Não somos os únicos a enviar soldados.
Muitos outros chefões da treva conseguem mandar subordinados.
Mas Mizael é especial.
Com a sua inteligência e audácia, poderá conquistar muito poder.
Por isso, a sua função também é importante, Damien.
Temos que garantir que o nosso bando seja o mais temido no nosso mundo.
Do lado de cá, a luta pelo poder também é grande.
Quem tiver mais comandados, encarnados ou desencarnados, será o grande poderoso, senhor da treva, rei dos subterrâneos astrais.
É esse título que almejo para mim, como muitos outros também o ambicionam.
Ser temido e respeitado por todos os comandantes, das diversas hordas das sombras.
Ser rei.
Quem não quer?
- É isso mesmo, chefe.
O senhor, que é o mais poderoso de todos, vai conseguir.
Tenho certeza.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 06, 2015 12:02 pm

- Isso vai depender do sucesso do nosso plano.
Prepare-se, pois em breve Mizael se comunicará comigo novamente, informando-me dos nomes e do paradeiro dos pais.
Agora vá.
Deixe-me a sós para pensar em meu futuro de glórias.
Com um aceno de cabeça, Damien se despediu.
Atílio nem percebeu o seu gesto, por isso não respondeu.
Damien se ressentia de tudo o que acontecia entre Mizael e o chefe.
Era para ele que Mizael mandava as mensagens.
Tudo bem que ele não dominava completamente a arte da telepatia, mas isso porque Atílio desistira de ensinar-lhe, desde que Mizael aparecera.
Conseguia ler pensamentos, mas só.
Se tivesse domínio daquela técnica, poderia livrar o chefe da desagradável tarefa de ser surpreendido com as mensagens de Mizael.
Seria ele o mensageiro das boas notícias, crescendo em importância e respeito.
Mas aquilo tudo era um sonho.
Mizael se gabava de sua inteligência tanto quanto Atílio a reconhecia.
Ninguém, talvez nem mesmo o chefe, tinha um intelecto tão aguçado.
Como detestava Mizael, por isso e por muitas outras coisas!
A ele cabiam todas as glórias.
Enquanto Damien tinha de se contentar com as migalhas que o chefe deixava.
Mizael se refastelava com o resultado das pilhagens astrais e os presentes que recebia de encarnados que o contratavam para trabalhos de magia.
Mizael era o encarregado da elaboração dos planos.
Damien os executava.
E os executava bem, só que ninguém reparava nem reconhecia.
Apenas Mizael aparecia.
Como isso o irritava!
Se pudesse, faria algo a fim de que Mizael fracassasse em sua missão, só para que o chefe reconhecesse seu valor.
Quem sabe assim não seria ele o eleito para, numa oportunidade futura, retornar ao planeta na posição de rei do narcotráfico?
Depois que Damien saiu, Atílio se entregou às próprias reflexões.
Quando Mizael chegou ao bando, num primeiro momento, tentou provocá-lo.
Depois, ao se recordar de que haviam sido irmãos em outra encarnação, aceitou-o com facilidade.
Atílio ainda se recordava daquela vida... havia quanto tempo?
Pelo que lembrava, sua última encarnação se encerrara por volta de 1730, época em que vivera com Mizael.
Atílio era um homem arrogante, sempre fora. Irascível, orgulhoso, implacável.
Nunca amara ninguém, a não ser um irmão mais moço, que criara como se fosse seu filho.
Por isso, ao descobrir que Mizael se apaixonara pela mulher que ele desejava, Atílio abriu mão dela.
Fora o único gesto de renúncia que tivera em toda a sua vida.
Mizael desencarnou e voltou ao mundo, mas ele permaneceu na treva, onde aos poucos iniciava seu processo de ascendência dentro da hierarquia astral.
Mais tarde, quando Mizael retornou de sua última encarnação, Atílio acolheu-o novamente como o irmão que sempre fora.
Auxiliara-o a se lembrar dos factos e tudo ficara bem.
Nunca mais pensaram ou falaram na mulher que fora amada por ambos e que nenhum deles jamais pôde ter.
Agora, estranhamente, Atílio pegava-se pensando em Nora.
Há muito não tinha notícias dela, mas imaginava que ela devia estar bem longe daquele lugar.
Nora sempre fora uma boa moça, tão boa que não conseguira suportar as crueldades de Mizael.
Por mais que o amasse, ao descobrir que sua fortuna provinha do sangue de inocentes, rejeitou sua proposta de casamento e sumiu no mundo.
Aquelas eram lembranças estranhas, perdidas na passagem dos muitos séculos.
Pelos cálculos de Atílio, deviam estar em algum momento entre 1983 e 1985.
Era tempo demais para permanecer em um mesmo lugar.
Mas o poder das trevas é inebriante, quem o conquista reluta em largá-lo.
Do outro lado do astral, Mizael também pensava em Nora.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 06, 2015 12:02 pm

Tal qual Atílio, imaginava que havia muito a esquecera.
Na verdade, não a tinha esquecido.
Deixara sua lembrança adormecida em algum lugar de sua mente.
De uma hora para outra, porém, a imagem de Nora surgiu em seus pensamentos, causando-lhe uma inquietação desconcertante, uma saudade incontrolável.
A todo momento, pegava-se pensando nela, imaginando o que teria sido feito de sua vida.
Em alguns dias, tudo estava programado.
Mizael surpreendeu-se com a aura de tranquilidade e amor de sua futura mãe, tentando reconhecer nela possíveis traços de Nora.
Não conseguiu.
Se ela e Nora fossem a mesma pessoa, nada mais havia que ele pudesse identificar.
Quanto ao pai, não simpatizou com ele, embora procurasse não dizer nada que lhe desagradasse, com medo de que ele mudasse de ideia.
Pouco havia se passado desde a reunião em que Mizael conhecera seus futuros pais.
Em breve, Josué o levaria às portas do laboratório, onde ele seria entregue aos espíritos responsáveis por moldar seus futuros corpos físico, astral e mental.
Dali, partiria para uma espécie de adormecimento, no qual, aos poucos, os átomos de seu actual corpo fluídico seriam remodelados para se adaptar ao novo físico do bebé.
Nesse processo, a memória seria elevada ao corpo causal, que contém o registo de todas as experiências vividas pelo espírito.
Tudo isso fora explicado a Mizael, para que ele não se assustasse no momento da preparação nem se deixasse perturbar por apreensões ou medo do fracasso.
Por mais que soubesse que já havia passado por aquele momento outras vezes, parecia a primeira vez.
Pensando nessas coisas, caminhava de um lado para outro pelos jardins que circundavam o alojamento que lhe fora destinado.
Tudo ali era tão limpo, claro, refrescante.
Tão diferente do submundo invisível em que vivera desde sua última encarnação.
Mas não era para ele.
Não podia se deixar seduzir por aquele bem-estar ilusório.
Seu mundo era outro.
Ele não fora feito para a paz
Era um homem de acção e guerra.
- Mesmo um homem de guerra pode lutar pelo bem.
A voz soou atrás dele.
Uma voz feminina, suave, envolvente Mizael virou-se apressado, embasbacado com a linda jovem vestida de amarelo parada diante dele.
- Perdão, mocinha - balbuciou ele, estudando seu rosto desconhecido, mas, de alguma forma, familiar.
O que foi que disse?
- Disse que mesmo um homem de guerra pode lutar pelo bem.
- Por que diz isso?
- Não era em que estava pensando?
Que era um homem de acção e guerra?
- É feio ler o pensamento dos outros - aborreceu-se.
Não lhe ensinaram isso aqui?
- Tem razão, perdoe-me.
Mas é que você pensava tão alto que ficou difícil não ouvir - Mizael estava encantado.
Tão encantado que não queria dizer nada que a afastasse dele.
Sentiu uma espécie de formigamento, algo comum em momentos de grande emoção.
- Conheço-a de algum lugar? - perguntou ele, olhando-a com desconfiança e ansiedade.
- Quem sabe?
- Acho que a conheço - afirmou hesitante.
Mas não é possível que você seja quem estou pensando.
Está tão diferente...
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