Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 13, 2015 10:41 am

Havia alguma coisa errada, ele intuía.
Precisava descobrir, e ninguém melhor do que a mãe para lhe contar.
Esperou até que ela chegasse do trabalho para interrogá-la.
Logo nas primeiras perguntas, os olhos de Geórgia encheram-se de lágrimas.
Vendo que o assunto lhe fazia mal, Régis retrocedeu, devolvendo aos pensamentos as desconfianças que o assaltavam.
Sua curiosidade não era maior do que o medo de machucar a mãe, por isso, durante um tempo, ocultou a frustração e não tocou mais no assunto.
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Ave sem Ninho

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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 13, 2015 10:42 am

Capitulo 24

Com uma diferença de quatro anos, Natália e Patrícia tinham interesses distintos em épocas iguais.
Enquanto Natália ganhava corpo e formas de mulher, perdendo a inocência que Júlio tanto admirava, Patrícia mantinha a aparência pueril da infância, coisa que mais o atraía nas filhas.
Tinha medo de que, crescendo, as meninas se tornassem mulheres iguais à mãe.
Ele gostava das duas, contudo não podia negar que Patrícia era sua preferida.
O temperamento de ambas era muito diferente.
Natália, apesar de mais doce, era muito sincera, demonstrando claramente o que sentia.
Já Patrícia era dissimulada, fingindo gostar das mesmas coisas que Júlio só para agradá-lo e, com isso, permanecer na liderança do afecto.
Apesar de amar as filhas, Bianca não fazia o estilo maternal.
Desde o nascimento de Patrícia, com a rejeição de Júlio, levava uma vida fútil, gastando tudo que podia, dormindo com todo tipo de homens.
Como Júlio também tinha seus casos, o casamento era apenas de aparências, uma espécie de satisfação à sociedade e uma forma de se manterem perto das meninas.
Júlio jamais abriria mão de ficar com elas e sabia que Bianca insistiria na guarda para não perder a pensão.
E ainda havia a divisão de bens, um património que ele conseguira reunir durante aqueles anos todos de casamento: um apartamento na zona sul da cidade, um carro do ano e alguns poucos milhares na poupança.
Quando Natália completou quinze anos, Júlio e Bianca fizeram questão de presenteá-la com uma bonita festa de debutante, embora ela preferisse uma viagem ao Nordeste.
Tratava-se de manter a imagem de família bem estruturada, conservadora, abastada.
Coisas para as quais Natália, efectivamente, não ligava, mas que enchiam os olhos de Patrícia.
Logo que viu a irmã vestida em seu lindo vestido branco de festa, Patrícia experimentou um sentimento que a acompanharia por toda a vida e com o qual não sabia lidar.
A inveja deu uma espetada em seu coração, levando-a, instantaneamente, a desejar o que Natália possuía.
- Quando você fizer quinze anos, vai ganhar uma festa ainda mais bonita - prometeu Júlio.
- Vai demorar muito - queixou-se ela.
Quero uma festa agora
- Agora não vai dar, meu bem.
Mas vou lhe comprar um vestido lindo. O que você acha?
- Mais bonito do que o de Natália?
- Natália já é uma moça e usa coisas diferentes.
Vou lhe comprar o mais bonito para a sua idade.
- Quero ficar mais bonita do que ela.
- Você não precisa - confidenciou ele, apertando seu queixinho.
Você já é naturalmente a mais bonita.
Patrícia sentiu o peito inflar.
Tudo o que mais queria era ser melhor do que Natália.
As duas meninas eram lindas, alegres, extrovertidas.
Só que Natália possuía o coração puro, ao passo que Patrícia nascera com tendências daninhas que era preciso controlar.
No dia da festa, ambas pareciam duas princesas.
Natália, com seu vestido branco cintilante, os cabelos soltos sobre os ombros, maquilhagem leve, porém iluminadora.
Tudo para realçar ainda mais seu brilho natural.
Patrícia, por sua vez, brigava com a mãe para deixá-la parecida com a irmã.
Seus longos e belos cabelos encaracolados foram cuidadosamente ajeitados para esparramar-se sobre as espáduas, qual finíssima cascata ondulante.
O vestido era verde-água, fazendo um contraste impressionante com sua pele morena e sedosa.
Ela queria usar uma maquilhagem extravagante, chamativa, mas a mãe não deixou.
- Você não quer parecer uma boneca de pano, quer?
Patrícia meneou a cabeça, com raiva.
Tinha certeza de que Natália estava mais bonita do que ela.
Ao entrarem no salão de festas, todos os olhos se voltaram para Natália.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 13, 2015 10:42 am

Patrícia vinha logo atrás, recebeu muitos elogios, mas não se contentou.
Queria ser o centro das atenções.
- Ninguém me dá bola - reclamou com o pai.
Não é justo. Estou mais bonita do que ela.
- É claro que está - confortou Júlio.
Só que hoje é o aniversário da sua irmã.
Por isso, todo mundo está olhando para ela, e não para você.
Quando for a sua vez, vai ser o contrário.
Mesmo emburrada, Patrícia teve de se conformar.
Acabou distraindo-se com os primos e os amigos, correndo pelo salão, dançando, esbarrando nas mesas.
Esqueceu-se um pouco de Natália, até que a Valsa do Imperador18 começou a tocar.
Patrícia procurou o pai com o olhar.
Lá estava ele, no centro do salão, pronto para dançar a valsa com Natália.
Imediatamente, seu coração transbordou de inveja.
Queria ela estar nos braços dele.
A irmã, naquele momento, era a usurpadora da sua felicidade.
Rapidamente, o despeito a dominou.
Patrícia largou as brincadeiras, circulando o salão, olhos fixos no pai e na irmã.
Aos poucos, outros casais se juntaram a eles, acompanhando-os na valsa.
Patrícia não tinha par.
Só os mais velhos podiam dançar. Não era justo.
Parada em uma das extremidades do salão, viu o rapaz que Natália estava namorando, à espera de que Júlio a passasse para os braços dele.
Como quem não quer nada, aproximou-se, a ideia montada na mente.
- Oi, Bruno - cumprimentou, parando ao lado dele.
- Oi - respondeu ele, sem muito interesse.
- Natália está linda, não está?
- Ela é maravilhosa - embeveceu-se, sem desviar os olhos dela.
- Pena que só goste de meninas.
- Como assim?
- Ela não lhe contou? - ele meneou a cabeça.
Natália é lésbica.
- O quê?!
- Não é assim que se chamam meninas que gostam de meninas?
- O que está dizendo, Patrícia? Ficou maluca?
- Você não sabia? - ela fingiu surpresa.
Ai, meu Deus, por que fui contar?
Jurava que você era amigo dela e estava só prestando um favor, para que nossos pais não desconfiassem de nada.
- Não é possível.
Como você sabe disso?
- Eu descobri.
Peguei-a aos beijos e abraços com uma amiga da escola.
E nem sabia que meninas podiam beijar meninas.
- Não é verdade - balbuciou ele, atónito.
Ela me beijou e tudo, disse que gosta de mim.
- Eu e minha língua comprida - choramingou Patrícia, fingindo arrependimento e pânico.
Ela me fez jurar segredo e agora vai querer me matar.
Como pude ser tão boba?
Jurava que você sabia de tudo.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 13, 2015 10:42 am

E, se meus pais descobrirem, vai ser pior.
Ela nunca mais vai falar comigo.
E eu adoro a Natália.
Vai ser horrível ficar sem falar com ela.
- Não se preocupe, não direi nada.
O jovem estava no auge da confusão.
Podia jurar que Natália gostava dele.
Será que ela fingia tão bem assim?
Talvez fosse melhor esclarecer as coisas, mas prometera a Patrícia que não a colocaria em uma situação difícil.
Nesse momento, Júlio entregou-lhe a filha, para que ele dançasse com ela.
Bruno tomou-a nos braços, observando-lhe a fisionomia doce, sentindo sua feminilidade contagiante.
Em meio à valsa, ele tentou beijá-la, mas ela se esquivou, olhando para ele com ar de recriminação.
Não ficava bem beijarem-se no meio do salão, diante dos olhares atentos dos pais.
Na cabeça dele, ela o rejeitava simplesmente porque ele não lhe agradava.
Durante o resto da noite, Bruno permaneceu arredio, vendo segundas intenções em todos os gestos de Natália com as meninas.
Ela nem desconfiou.
Continuava rindo e conversando com as colegas, animada demais com a festa para perceber a perturbação do garoto.
Só no dia seguinte, quando ela ligou para ele, foi que notou que havia algo errado.
Encontrou-o na escola, tentou falar com ele, mas Bruno sempre se esquivava.
Por fim, no final da semana, conseguiu abordá-lo:
- O que foi que houve, Bruno?
Fiz alguma coisa de que você não gostou?
Ele a olhou com uma certa impaciência.
Não gostava de ser enganado.
- Deixe para lá, Natália - desconversou ele.
Não estou com raiva nem nada.
Só não quero mais sair com você.
- Por quê?
O que foi que eu fiz?
- Você sabe.
Sem esperar resposta, Bruno rodou nos calcanhares e foi embora, deixando-a abismada, sem entender.
Ela ainda tentou telefonar algumas vezes, mas ele mandava dizer que não estava.
Na escola, continuava evitando-a, até que ela desistiu. Também tinha o seu orgulho.
Em casa, ela andava acabrunhada, triste, sem muito ânimo para conversar.
Tanto Bianca quanto Júlio perceberam e foi este o primeiro a se interessar:
- O que foi que houve, minha filha?
Por que anda tão triste?
- Nada.
- Nada, não.
Alguma coisa aconteceu.
- Brigou com o namorado? - disse Bianca.
- Não é bem isso - disse ela, as lágrimas já se insinuando.
Foi o Bruno.
Está estranho, me evitando.
Não sei o que fiz.
- Você não fez nada - rebateu Bianca.
Os homens são todos iguais.
Não prestam desde meninos.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 13, 2015 10:42 am

Júlio olhou-a com irritação, tentando ignorar suas provocações.
- Deixe Bruno para lá.
Você é uma menina linda; aposto como há muitos rapazes atrás de você.
Bruno é um bobão, não a merece.
- É isso mesmo - incentivou Bianca.
Não ligue para ele.
Se arranjar outro, logo você o esquece.
Natália não estava bem certa.
Podia esquecê-lo, mas doía--lhe não saber o motivo de sua indiferença.
Considerava injustas as evasivas dele.
Se ela fizera algo que o desgostara, ele devia lhe falar, dar-lhe uma chance de se explicar.
Era com uma satisfação mórbida que Patrícia acompanhava esses factos.
Ver a irmã triste dava-lhe indescritível prazer.
- Por que Bruno brigou com você? - perguntou ela, com aparente inocência.
- Ele não brigou.
- Mas então, por que ele não vem mais aqui?
- Não sei. Deixe isso para lá.
Você ainda é muito pequena para entender.
Não era.
Patrícia não só compreendia tudo, como era capaz de arquitectar planos eficientes para atrapalhar a felicidade de Natália e, com isso, promover a sua.
Ao menos era essa a ilusão que ela alimentava.
Achava que, roubando a alegria da irmã, ela seria mais feliz.
Não sabia que, quando alguém perde a alegria, ela não se transfere para mais ninguém.
Os namorados seguintes de Natália tiveram fim parecido.
A moça não compreendia por que seus relacionamentos não davam certo.
Sempre que se interessava muito por alguém, ele desaparecia.
Só ficavam aqueles por quem não tinha muito interesse.
Julgava não ter sorte com os homens, sem saber que Patrícia cuidava de envenenar todas as suas relações.
Na maioria das vezes, deixava escapar, sem querer, que a irmã estava interessada em alguma menina ou que havia saído com um amigo mais íntimo.
Instaurados o ciúme e a dúvida, eles terminavam o namoro.
Como Natália era ainda muito jovem, não tivera tempo de ter muitos namorados, de forma que não deu para desconfiar das fofocas de Patrícia.
Ingénua, também não percebia as artimanhas da irmã, que sempre arranjava um jeito de deixá-la mal ou afastá-la do pai.
No domingo, dia de sol, Júlio acordou mais tarde do que de costume.
As filhas haviam ido à praia com Bianca, mas ele preferiu não ir.
Gostava de ficar em casa e aproveitar a manhã para dormir, luxo que não podia se dar nos dias de semana.
Sentou-se à mesa da cozinha para tomar café e ler o jornal.
Não conseguiu.
A cabeça cheia de novidades não se centrava nas notícias.
Bianca ainda não sabia, mas ele recebera uma proposta irresistível.
Uma promoção para a directoria executiva do banco, só que em São Paulo, onde ficava a sede.
Sabia que seria difícil convencer a mulher a se mudar do Rio de Janeiro, mas ele não podia recusar aquela oferta.
Era a realização de toda uma vida, tudo por que sempre trabalhara.
O cargo deveria ter sido oferecido a Anselmo, um homem mais velho, mais experiente.
Mas Anselmo metera os pés pelas mãos.
Defensor da moral e dos bons costumes, acabou se envolvendo com uma estagiária do banco, flagrado no almoxarifado em pleno acto sexual.
Foi uma vergonha.
Só não ganhou a justa causa, com que ele antes ameaçara tantos empregados, porque a directoria do banco quis evitar o escândalo.
O facto, contudo, chegou aos ouvidos da mulher, que acabou se divorciando.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 13, 2015 10:42 am

Anselmo ficou arrasado, sofrendo as consequências de tudo aquilo que recriminara a vida inteira.
Agora, perto da aposentadoria, com dificuldades para encontrar novo emprego, vendia sanduíche natural na praia para conseguir pagar as cotas faltantes da previdência, até se aposentar.
Apesar da pena que sentia de Anselmo, Júlio não deixava de agradecer-lhe a oportunidade que lhe dera.
Não fosse a sua imprudência, ele teria de esperar ainda alguns anos para galgar àquela posição ou, quem sabe, nunca chegaria até ela.
Por isso é que sabia que não poderia recusar a promoção.
Mesmo que Bianca não o acompanhasse, teria de aceitar.
A mulher já não lhe fazia mesmo falta.
Viviam um casamento de aparências.
Sentiria saudade apenas das filhas.
Natália e Patrícia eram seu maior tesouro, principalmente a caçula.
Até já se esquecera de que ela não era sua filha de verdade.
Por mais estranho que pudesse parecer, a afinidade que tinha com a menina tornava sem importância o facto de ela não ser sangue do seu sangue.
A partir do momento em que aceitou Patrícia em seu coração, Júlio se desligou definitivamente de Bianca.
Ela que tivesse os homens que quisesse, desde que não arranjasse outros filhos.
Por sorte, Bianca fizera a ligadura de trompas logo após o nascimento de Patrícia, evitando, assim, surpresas desagradáveis.
E ele não aceitaria criar outra criança que não fosse sua.
Com Patrícia fora diferente.
Ele se afeiçoara à menina, que nada tinha a ver com as sandices da mãe.
Assim como o filho de Geórgia nada tinha a ver com a violência do pai.
Patrícia lhe mostrara que era possível aceitar o filho de outro homem, gostar dele como se fosse seu próprio.
O que dizer do filho de Geórgia?
Ele não sabia, talvez nunca descobrisse.
Com Bianca, não fizera a mesma pressão para que abortasse.
Pensou que fosse detestar a criança, contudo amava-a muito mais do que qualquer outra pessoa.
Teria ele sido capaz de amar também o filho de Geórgia?
Quando elas chegaram da praia, Júlio já havia preparado o almoço.
Não era de seu feitio cozinhar, mas se saía bem com a macarronada.
Famintas, sentaram-se à mesa para comer, ainda de biquíni.
- Está uma delícia, pai - elogiou Natália.
- Você é muito boazinha - gracejou ele.
Está mais ou menos.
- Você não faz nada mais ou menos - objectou Patrícia.
Tudo que faz é maravilhoso.
Aquele era o momento.
Ele soltou o garfo no prato, olhou de uma para outra e começou a falar:
- Muito bem, se tudo o que faço é maravilhoso, então tenho uma notícia maravilhosa para dar.
As três o encararam ao mesmo tempo, à espera da notícia.
Vendo seus olhares ansiosos, sentiu a coragem se esvair, até que Bianca o cutucou e falou com irritação:
- Não vai contar o que é, não?
Para que o suspense?
- Fui promovido - falou de chofre.
- Que maravilha! - exclamou Bianca, já pensando nas jóias que poderia comprar.
A quê?
- Director executivo.
- E paga bem?
- Muito bem.
- Legal, pai - disse Natália. - Parabéns!
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 13, 2015 10:43 am

- É, pai, parabéns! - repetiu Patrícia.
- Só tem um probleminha - comentou ele.
- Que probleminha? - perguntou Bianca.
- Vamos ter que nos mudar para São Paulo.
Foi um silêncio geral.
Todas pararam de mastigar ao mesmo tempo, encarando-o com espanto.
- Eu não vou - afirmou Bianca.
Não vou mesmo.
- Ora, vamos, Bianca, não é tão ruim assim.
Vou ganhar mais do que o dobro do que estou ganhando hoje.
- Eu vou, papai - disse Patrícia.
Vou para qualquer lugar com você.
- Gostaria que fôssemos todos juntos - retrucou, esperançoso.
- Nada disso - insistiu Bianca.
Não saio daqui de jeito nenhum.
- Quer que eu recuse a promoção?
- Não. Só acho que não precisamos nos mudar.
Você pode pegar a ponte aérea.
- Todo dia?
- Você vai na segunda de manhã e volta sexta à noite.
Muita gente faz isso.
- É muito cansativo e dispendioso.
- Então, pode vir de quinze em quinze dias.
Ou uma vez por mês.
Não me mudo do Rio por nada.
Não vou trocar a praia por um monte de fumaça.
- Não é bem assim, mãe - contrapôs Natália.
Existem coisas boas em São Paulo, assim como o Rio também tem poluição.
- Pois, quando aparecerem as coisas boas, pode me chamar.
De resto, fico por aqui.
- Lamento que você pense assim, Bianca - ponderou Júlio.
Há anos sonho com essa promoção.
Não posso simplesmente recusá-la só porque minha mulher não quer se mudar.
- Eu não disse para você recusar.
Acho apenas que tenho o direito de não querer sair da minha casa.
- Você é quem sabe.
A escolha é sua, mas eu vou.
- E nós? - tornou Patrícia, agarrada ao pai.
Quero ir aonde você for.
- Se sua mãe deixar... - divagou ele, fitando Bianca discretamente.
- Tem graça você querer tirar minhas filhas de mim - retrucou Bianca, com medo de perder a boa vida caso as meninas se mudassem dali.
- Ah, pai - choramingou ela, encarando Bianca com raiva.
- Você vai vir nos fins de semana? - quis saber Natália.
- Vai ficar muito puxado.
Talvez venha de quinze em quinze dias ou uma vez por mês, como sugeriu sua mãe.
- Por mim, tudo bem - concordou Bianca.
- E vocês, meninas? - ele dirigiu-se às filhas.
O que dizem?
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 13, 2015 10:43 am

Natália concordou, mas Patrícia não queria se separar do pai.
- Não quero - disse ela, aos prantos.
Vou morrer de saudades.
- Também vou ficar com saudades de vocês.
Mas olhe, papai vai lhe trazer um presente toda vez que voltar.
- Que tipo de presente?
- O que você quiser.
- Quero um vídeo game.
- Muito bem. Que seja.
Um vídeo game.
- E um notebook.
- Vá devagar, querida.
Uma coisa de cada vez.
Ela se agarrou a ele, realmente triste com a sua partida.
- Vai me ligar todo dia? - pediu ela, queixosa.
- Com certeza.
- Pode me comprar um celular?
Para poder falar com você quando eu quiser?
- Está bem.
- Não tem graça gastar dinheiro com celular para uma criança - opôs-se Bianca.
- Deixe, mãe - intercedeu Natália.
Vai fazer bem a Patrícia.
- Só posso comprar um - anunciou Júlio, olhando para a outra filha.
- Não faz mal, pai, o meu ainda está bom - falou Natália.
Dê um para ela.
Júlio sentiu um certo remorso.
Um celular não custava tão caro assim.
Podia comprar dois, se quisesse, mas aí teria de dar a Patrícia um aparelho mais barato.
Finalmente, Júlio conseguiu ajeitar as coisas.
Como o divórcio estava em seus planos, trataria de não aumentar o património enquanto estivesse casado.
Bianca podia ficar com o apartamento do Rio, que agora lhe parecia pequeno, simples demais para suas ambições.
Separar-se das filhas é que seria o mais doloroso, mas era por uma boa causa.
Com o tempo, esperava que elas fossem morar com ele, diminuindo o custo de uma possível pensão.
Daí a dois meses, Júlio embarcou para São Paulo.
Lá, abriu uma caderneta de poupança em nome de Patrícia, com o seu CPF, sem o conhecimento de Bianca, só por precaução, para que ela não ficasse de olho grande no seu dinheiro.
Nela efectuava depósitos vultosos, para sacar antes de a filha completar dezoito anos, mas depois do divórcio.
Vinha ao Rio de quinze em quinze dias, como programado, trazendo presentes cada vez mais caros para Patrícia e Natália.
Para Bianca, uma coisinha ou outra, nada de especial, já amadurecendo a ideia do divórcio.

18 Valsa de Johann Strauss.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 13, 2015 10:43 am

Capitulo 25

O maior desejo de Régis passou a ser descobrir tudo sobre sua origem.
Durante a infância, pouco se incomodara com aquilo, mas depois que Alex o alertara, vivia pensando em como seria seu pai.
As tentativas de descobrir tudo com a mãe nunca surtiam efeito.
Seus olhos marejados faziam-no sentir-se culpado pela curiosidade, e ele sempre retrocedia.
Agora, porém, estava decidido.
Já não era mais criança, tinha o direito de saber.
Passava das dez horas quando ele saiu do quarto.
A mãe e a avó estavam na sala, assistindo a um DVD.
Ele se sentou ao lado delas, fingindo prestar atenção ao filme.
Agora seria mais directo, sem lhe dar tempo de se desmanchar em lágrimas.
- Mãe - chamou. - Posso lhe fazer uma pergunta?
- É claro, meu filho. O que é?
- O que foi que houve com o meu pai?
A pergunta deixou-a desconcertada.
Era a primeira vez que ele a abordava daquela maneira.
Geórgia olhou para Cléia, que evitou encará-la.
- Seu pai morreu, já disse.
- Morreu de quê? Quando?
Ele era jovem? E por que vocês não se casaram?
Geórgia deu pausa no DVD e olhou para ele.
- Por que quer saber isso agora? - indagou, preocupada.
- Por que não?
Estou crescido, acho que é meu direito.
Fitando Cléia de soslaio, Geórgia disse com cautela, esforçando-se para conter as lágrimas:
- Seu pai era um homem muito doente.
- Que doença ele tinha?
Era algo contagioso?
- Não.
- Era o quê?
Algum tipo de câncer?
Geórgia olhou novamente para a mãe, em busca de ajuda.
Um olhar imperceptível de Cléia a estimulava a falar sobre o passado.
Ela nunca pensara em mentir para Régis, mas era-lhe difícil falar sobre coisas que haviam lhe causado tanta dor.
- Talvez você não goste de saber.
- Por quê?
É algo tão terrível assim?
- Mais ou menos - disse ela, escolhendo as palavras com cautela.
Na verdade, seu pai... seu pai era viciado em drogas.
Morreu de overdose.
A revelação escapou subitamente, um desabafo que havia muito oprimia o peito de Geórgia.
O quê?! - indignou-se Régis.
Como é que você foi se meter com alguém assim?
- Eu não sabia - foi a desculpa que ela logo arranjou.
- Como vocês se conheceram?
- Num churrasco.
- Ele era casado?
- Não. Estava se divorciando.
A mulher dele o largou por outro.
Nesse ponto, ela estava chorando, mas Régis fingiu não notar.
Não daquela vez.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 13, 2015 10:43 am

- Não entendo você, mãe - tornou com uma certa revolta.
Vive se fazendo de certinha e foi se envolver justo com um viciado.
Ela não disse nada, as lágrimas não permitiam.
Cléia, contudo, se adiantou:
- Não se apresse em julgar sua mãe, Régis.
Você não faz ideia do que ela passou para ter você.
- Pois então me contem.
O que foi que houve?
Geórgia não conseguia falar.
Um medo atroz de que ele a acusasse quase paralisou seu coração.
Cléia queria contar-lhe sobre o estupro, mas Geórgia a fizera prometer que não diria nada.
Não queria que Régis se tornasse ainda mais revoltado do que já era.
- Régis, por favor - suplicou ela.
Deixe o passado onde está.
- O passado é meu também.
Você não tem o direito de me esconder nada.
E não é você que vive se gabando de nunca mentir para mim?
- Não estou mentindo.
- Está me ocultando algo.
As duas estão. O que é?
Tenho o direito de saber.
- Não há mais nada para saber, Régis - esclareceu Cléia.
Essa é a vida da sua mãe, não sua.
Há coisas no passado que somente a ela dizem respeito.
- Você não entende, mãe - ele ajoelhou-se ao lado dela, segurando-lhe as mãos.
É horrível não conhecer sua própria história.
As pessoas fazem comentários maldosos, Alex até insinuou que meu pai era casado e que não me registou por causa disso.
- Não foi por isso
- Eu sei, acredito em você.
Mas existe algo que você não quer me contar, e é isso que me deixa louco.
Só posso pensar que tem a ver com o meu nascimento.
- Deixe sua mãe em paz, Régis - disse Cléia.
Ela já sofreu demais.
- Por quê? O que houve que a fez sofrer tanto?
Fui eu?
- É claro que não - contestou Geórgia.
Você é meu maior tesouro.
- Então, o que foi?
Do que teve que abrir mão para ficar comigo?
Com um suspiro doloroso, Geórgia fitou Cléia por uns momentos.
- Pare com isso, Régis - censurou Cléia.
Está fazendo sua mãe sofrer.
- Não tem importância - falou Geórgia, visivelmente abalada.
Ele tem razão, mãe.
Se quer saber a verdade, é o que lhe direi.
Geórgia estreitou-o com amor, deixando que ele se envolvesse mais uma vez naquela onda energética e poderosa.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 14, 2015 11:27 am

Ante o olhar ansioso de Cléia, Geórgia revelou:
- Eu era noiva quando conheci seu pai.
Envolvi-me com ele, engravidei.
Depois que ele morreu, meu ex-noivo quis aceitar-me de volta, mas com a condição de que eu abortasse você.
Régis não sabia o que realmente sentia:
se revolta porque ela traíra o noivo ou se alegria porque ela abrira mão do casamento para que ele pudesse nascer.
Descobriu que o facto de estar vivo era muito mais importante.
Além do mais, ainda que quisesse, não poderia revoltar-se contra a mãe.
- O cara foi um otário - desdenhou ele.
Perdeu uma mulher maravilhosa feito você.
- Ele teve seus motivos.
- Imagino. Não queria ser chamado de chifrudo.
- Isso agora não importa mais - afirmou Cléia.
Sua mãe não aceitou e você nasceu.
- E não me arrependo, nunca me arrependi, nem por uma fracção de segundos, por ter escolhido você.
Não há homem no mundo que pague a felicidade de ter um filho.
Você é o que existe de mais importante na minha vida.
Essas palavras o emocionaram.
Régis abraçou-a com ternura, beijou-a nas faces.
- Eu a amo, mãe - disse com sinceridade.
E você também, vovó.
São as únicas pessoas no mundo que merecem o meu amor.
- Não diga isso - objectou Geórgia.
Há muitas pessoas no mundo que merecem ser amadas.
- Não conheci nenhuma
- Isso é porque você é ainda muito jovem.
Espere só até conhecer uma garota.
Desde esse dia, Régis deixou a mãe em paz.
Com o tempo, vendo que ele não reagia, Alex também deixou de provocá-lo, voltando seus interesses para outras coisas.
Sem que Geórgia ou Cléia soubessem, Régis prosseguia envolvendo-se em tudo que não devia.
Estimulado por Damien, matava aulas e gostava de se dar bem.
Saía de lanchonetes sem pagar, pulava o muro de estádios para assistir a shows, passava a mão nas garotas.
Contudo, por mais que Alex insistisse, não se interessava por drogas.
O efeito da maconha que fumara fora suficiente para que ele nunca mais experimentasse nada.
Acompanhava o amigo à boca de fumo, tinha contacto com viciados, mas não se envolvia com eles.
E, depois de saber que o pai morrera de overdose, tomou horror às drogas.
Tão logo concluiu o ensino médio, Régis deixou a escola.
Por mais que a mãe insistisse, não conseguiu convencê-lo a prestar vestibular.
Seu objectivo era ganhar dinheiro.
Gostava de frequentar a boca de fumo, atraído que era pela malandragem.
Costumava acompanhar Alex só pelo facto de que se sentia bem entre malandros e bandidos.
- Você não devia cheirar isso - disse ele a Alex, vendo-o preparar uma carreira de cocaína.
Depois, quando quiser largar, não vai conseguir.
- Virou meu pai agora, é?
Deixe de ser trouxa.
Você é que é um frouxo, com medo de se viciar.
- Tenho medo mesmo, e daí?
Não quer dizer que seja frouxo.
Só não quero ficar dependente de um pó.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 14, 2015 11:27 am

- Tudo bem, então não se meta.
Vá cheirar uma florzinha.
Dando de ombros, Régis se afastou.
No momento em que ia iniciar o primeiro passo, uma figura imponente chamou sua atenção.
Caminhando pelo meio da praça, vinha uma figura singular.
Um homenzarrão com cara de mau, porte atlético, no pescoço um cordão grosso, de ouro maciço, em que se destacava pesado medalhão.
Anéis extravagantes, igualmente de ouro, guarneciam dois de seus dedos da mão direita, na qual também havia uma pulseira de ouro ilustrando-lhe o pulso.
Do outro lado, um relógio caríssimo, tudo de ouro.
Era a primeira vez que o chefão do tráfico da região passava por ali.
Sua aparência majestosa impressionou Régis, que, de algum lugar de sua mente, extraiu a lembrança de Atílio.
Foram apresentados.
Bira, o traficante, não lhe prestou muita atenção.
Estava mais interessado na mulher que conhecera e que morava por ali.
Por isso fora até lá, para impressioná-la com seu galanteio de machão.
Tudo isso era acompanhado de perto por Damien e Tácio.
Durante anos a fio, os dois espíritos não desgrudaram de Régis, mas, enquanto Damien o incentivava ao crime, Tácio o fazia lembrar-se da mãe, desestimulando-o na surdina, sem saber que seus conselhos eram ouvidos por Damien.
Não podendo desobedecer às ordens de Atílio, Damien permitia que Tácio levasse Régis pelo caminho do fracasso nos seus planos anteriores.
Quando notou a proximidade de Bira, Damien exultou.
Cutucou Tácio a seu lado e apontou para ele com o queixo, olhando rapidamente para o outro lado, como se aguardasse a chegada de alguém.
A mulher, de nome Gislene, apareceu pouco depois, rebolando as ancas para atrair a atenção dos homens.
Bira se desfez num sorriso malicioso.
Saiu de perto dos garotos e foi ao encontro dela.
De onde estava, Régis o observava, fascinado com seu porte altivo.
- Vai ser mais fácil do que imaginei - comentou Damien.
- Como assim?
- Você não reparou? - Tácio meneou a cabeça.
O traficante é a cara do Atílio.
- É?
- A cara é exagero. Mas lembra muito.
E Mizael, é claro, inconscientemente percebeu isso também.
Não vai ser difícil aproximá-lo de Bira.
- O que você pensa em fazer?
- Sei dessa mutreteira - ele apontou para a moça.
E não vai ser nada mau se Mizael descobrir.
- Não estou entendendo nada.
- Não precisa.
Basta me acompanhar.
Damien fazia o possível e o impossível para bem cumprir as ordens de Atílio.
Nem por um momento sequer pensou em desobedecer-lhe ou sabotá-lo.
Esmerava-se para fazer o melhor, preocupado com o sucesso de sua missão.
O fracasso, deixava a cargo de Tácio.
Depois que Bira saiu com ela, Damien sumiu, levando Tácio com ele.
Por ora, nada podia fazer.
Mais tarde, seria hora de agir.
Ele tudo faria para que seu plano saísse certinho.
Teve o cuidado de sincronizar os acontecimentos, tomando conta de Bira e de Régis.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 14, 2015 11:28 am

Em sua ânsia de começar a ganhar dinheiro, Régis escolheu a carreira de modelo.
Aproveitaria o que possuía de melhor: a fisionomia e o corpo.
Para iniciar-se na profissão, tinha de divulgar sua aparência e seu potencial.
Precisava, com urgência, de um book de estilo, mas conseguir isso não era nada fácil.
Confeccionar algo que valesse a pena custava caro, e ele não tinha um tostão sequer.
O jeito era apelar para a mãe.
- Isso não vai dar certo, meu filho - objectou ela.
Você escolheu uma profissão ingrata.
Sabe como é esse meio.
- Deixe de preconceito, mãe.
O cara lá da agência de modelos disse que eu tenho tudo para me dar bem.
Só preciso de um book legal.
- Mas é muito caro.
- Por favor, mãe, é para o meu futuro.
E eles aceitam pagamento parcelado.
Você pode dar dez cheques pré-datados.
- Está bem, Régis.
Vou ver o que posso fazer.
Pagar por aquele book seria um desequilíbrio no orçamento doméstico.
Sem contar que aquela não era uma profissão do agrado de Geórgia, que pensava em ver o filho formado.
Régis, porém, estava decidido.
Acreditava em seu futuro como modelo.
Faltava--lhe apenas arranjar dinheiro para o book.
- É a nossa chance - comentou Damien, assim que Régis deixou a mãe e ganhou a rua.
- Como assim? - questionou Tácio.
- Você vai ver.
Damien se colou a Régis, que ia ao encontro de Alex.
Quando os dois se encontraram, veio a sugestão imediata:
- Alex pode lhe arranjar um financiamento.
Ele conhece gente importante.
A princípio, Régis rejeitou a ideia, ainda focado em Geórgia.
Acompanhou o amigo até a boca de fumo, onde ele foi comprar cocaína.
Lá estava Bira novamente, gargalhando com os garotos, exibindo seu jeito de malandro.
Não era comum que Bira parasse por ali.
Só quando Gislene demorava é que ele saltava para cumprimentar a rapaziada.
Quando Gislene apareceu, Bira foi-se com ela, deixando Régis cada vez mais fascinado.
Nada sabia do traficante, mas o admirava em silêncio.
Tinha até medo de pensar naquela admiração, tentava resistir-lhe, voltando os pensamentos para outras coisas.
Mas a interferência de Damien mantinha em alta aquela simpatia.
Certa noite, Régis havia acabado de sair de um baile funk em companhia de Alex e duas garotas, para onde haviam ido por sugestão de Damien.
Pensavam em ir a um motel, mas ele estava desanimado, um pouco alto da bebida.
- Vamos pegar um táxi - sugeriu Alex, completamente chapado.
As duas garotas também estavam drogadas, para desagrado de Régis.
Não gostava de dormir com viciadas, não tinha paciência para suas crises nem seus acessos de riso.
- A essa hora vai ser difícil achar um táxi - comentou Régis.
- Vamos pegar um ónibus - sugeriu a acompanhante de Alex.
- É isso aí - concordou Alex.
Estamos longe à beça de casa.
Não dá para ir a pé.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 14, 2015 11:28 am

- Não vamos para o motel? - queixou-se a outra, fazendo beicinho.
- Não vai dar.
Mas podemos ir à praça lá perto de casa.
Tem uns cantinhos maneiros para namorar.
- Na praça? - decepcionou-se a menina.
- Por mim, está tudo bem - falou a outra, tentando abraçar Régis, que a repeliu com irritação.
O que há? Não gosta de mim?
- Dê o fora - falou ele, cada vez mais irritado.
Não gosto de mulher chapada.
- Qual é, cara? - revidou ela, mal se sustendo em pé.
Você é careta, é?
Régis não respondeu.
Empurrou-a para o lado, atravessando a rua em direcção ao bar da esquina, para onde Damien desviara sua atenção.
- Aonde você vai, Régis? - perguntou Alex, puxando-o pelo braço.
- Vou embora.
- E a menina?
- Fique com ela.
Sem paciência, Régis entrou no bar e puxou uma cadeira.
Estalou os dedos, chamando o garção.
Pediu uma cerveja e relaxou.
O dinheiro que tinha era pouco, ainda proveniente da mesada que a mãe lhe dava.
Era um absurdo um homem feito ele depender da mãe para tudo.
Tinha de arranjar dinheiro.
Precisava de um emprego, mas não gostava de nada.
Detestava a prisão dos escritórios, a arrogância dos chefes.
Devia haver um jeito mais fácil de conseguir dinheiro sem correr o risco de se envolver com a polícia.
Não podia dar esse desgosto à mãe.
O book seria a solução.
Régis estava certo de que teria futuro na carreira de modelo.
O problema era que a mãe não só não tinha dinheiro, como não concordava com a sua escolha.
Queria que ele se formasse, que trabalhasse engravatado como os idiotas sem personalidade que circulavam pelo centro da cidade.
Eram esses seus pensamentos quando uma voz de mulher os interrompeu.
Vinha de uma mesa mais atrás, onde um casal conversava à meia-voz.
Régis não queria se voltar para encará-los, mas o nome que a ouviu pronunciar fez arrepiar sua pele, aguçando seus sentidos.
- Estou com medo - dizia ela.
E se o Bira descobrir que fui eu?
- Ele não vai - contrapôs o homem, visivelmente irritado.
Não vá dar para trás agora.
- Não se esqueça do que me prometeu, Joel.
Quero a minha liberdade.
- Não é bem assim, Gislene.
Liberdade é com o juiz.
Mas o promotor concordou em aliviar a sua barra e processá-la apenas por furto simples, para dar uma satisfação aos donos da loja que você roubou, entende?
- Vou ser presa?
- Provavelmente, não.
Uma restrição de direitos, talvez, mas vai ficar na rua, para continuar vadiando, como sempre.
Agora, para isso, você tem que nos ajudar a prender o cara.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 14, 2015 11:28 am

E aí? Como vai ser?
Descobriu ou não?
Seguiu-se um minuto de silêncio, no qual Régis mal respirava.
Não acreditava que estivesse ouvindo a confissão daquela traidora.
Ela e o homem, provavelmente um policial, estavam planeando dar um flagrante em Bira, e ele era o único que podia impedir.
Fingindo desinteresse, tomou um gole da cerveja, ouvidos colados na outra mesa.
- Descobri - revelou ela, de forma quase inaudível.
- E quando vai ser? - questionou Joel, quase eufórico.
Onde?
- Num armazém abandonado lá em Vila Kennedy, no sábado, à meia-noite.
- Sábado para domingo? - Ela assentiu.
Tem certeza?
- Absoluta.
Ouvi quando Bira combinou tudo ao celular.
- Óptimo! E onde, exactamente, fica esse armazém?
- Sabe a quadra da escola de samba? - Ele assentiu.
Então, à esquerda, três ruas abaixo...
Ela deu a informação díreitinho.
Só não deu o endereço por escrito porque não sabia, mas o que dissera era suficiente para levar a polícia até lá e dar o flagrante em Bira.
Assim como o policial, Régis sentia a excitação da descoberta.
Pouco depois, levantaram-se para ir embora.
Joel se despediu do garção com um aceno de cabeça, demonstrando que ambos já eram conhecidos ali.
Régis pensou em perguntar algo ao garção, mas teve medo de que ele alertasse o policial.
Alguns minutos após a saída deles, Régis pagou a conta e se foi, levando na mente a preciosa informação.
Não sabia se contava ou não ao Bira, mas achava que devia.
Não podia assistir passivamente a uma emboscada como aquela.
Por outro lado, se contasse o que sabia, corria o risco de envolver-se com a quadrilha de Bira e matar a mãe de desgosto.
Precisava tomar uma decisão rapidamente.
Não havia ninguém em quem pudesse confiar.
Alex ainda era capaz de correr na sua frente e revelar tudo, só para cair nas boas graças de Bira.
Régis não podia contar com ele.
- Isso não vai dar certo - arriscou Tácio, andando ao lado de Régis junto com Damien.
Ele pode até ser morto.
- Não seja tonto! - bradou Damien.
Acha que eu colocaria Mizael em risco?
O tal do Bira é que está com os dias contados, e Mizael vai ser o seu sucessor.
- Como foi que você armou tudo isso?
Você sabia?
- Mais ou menos.
Atílio me deu a dica de Bira.
Tão logo ele soube onde Mizael iria reencarnar, começou a procurar alguém que pudesse introduzi-lo no tráfico.
Bira era criança na época, mas Atílio vislumbrou seu futuro.
Inteligente como é, programou o encontro, deixando o resto por minha conta.
Mas fui eu que descobri Gislene e fui eu que levei Mizael até aquele baile ridículo, porque sabia que era ali que o policial iria se encontrar com ela.
- Vocês são diabólicos - comentou Tácio, assustado.
- No sentido exacto da palavra - Damien gargalhou.
Atílio vai ficar muito satisfeito comigo.
Vou agora mesmo contar-lhe o que consegui.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 14, 2015 11:28 am

Esquecendo-se do outro, Damien desapareceu.
Tácio ficou silencioso, pensativo, seguindo Régis pelas ruas escuras.
Era uma longa caminhada até sua casa, tempo suficiente para que Tácio, às escondidas de Damien, tentasse alguma intervenção.
- Não faça isso, meu filho - aconselhou timidamente.
Você vai se encrencar.
Quer ser preso?
Pior, quer ser morto?
Bandido tem vida curta.
Mais dia, menos dia, acorda com a boca cheia de formiga.
A advertência de Tácio foi parcialmente percebida por Régis, vindo na forma de um temor indizível.
O medo passou a acompanhá-lo, entornando em sua mente as cenas de horror que Tácio ia lhe transmitindo, desde Geórgia visitando-o na prisão até seu corpo perfurado de balas, jogado na sarjeta.
- Se você não disser nada, vai fazer a coisa certa - prosseguiu Tácio.
Sua mãe vai ficar satisfeita.
As imagens foram fortes, apavorantes.
Será que o que sabia compensava todos os riscos?
Ou seria melhor contar tudo à mãe e impressioná-la para que ela, julgando-o muito correcto, finalmente se decidisse a pagar o seu book?
Enfim, com um sorriso enigmático, entrou em casa, já sabendo o que deveria fazer.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 14, 2015 11:28 am

Capitulo 26

A vida de Júlio em São Paulo corria melhor do que no Rio.
Tinha liberdade, não precisava fingir um casamento perfeito.
Com o óptimo salário que passou a ganhar, alugou um apartamento na Vila Nova Conceição, de onde tinha uma vista parcial e deslumbrante do Parque do Ibirapuera.
Sua intenção era comprar um imóvel de luxo ali mesmo, com o dinheiro que vinha juntando em nome de Patrícia, mas ainda não podia.
Não antes do divórcio.
O sábado amanheceu cinzento e frio, mas Júlio não se incomodou, feliz por não ter de sair da cama logo cedo.
A seu lado, a bela morena que conhecera num bar na noite anterior dormia preguiçosamente, completamente nua.
De leve, tocou sua pele lisa, pronto para despertá-la com beijos e carícias.
Não teve tempo.
No mesmo instante, a campainha estridente do interfone fez esvanecerem suas intenções.
Pensou em atender rapidamente e voltar para a cama antes que a mulher abrisse os olhos, para ele mesmo ter o prazer de acordá-la.
De um salto, vestiu o roupão e correu à cozinha, segurando o interfone com irritação:
- O que é?
- Doutor Júlio - era a voz do porteiro - desculpe incomodar, mas achei que o senhor gostaria de saber que suas filhas acabaram de subir...
Mal ele terminou de falar, foi a vez de a campainha da frente se esganiçar.
Júlio quase fez o aparelho se soltar da parede, tamanha a violência com que desligou.
E agora? Não dava tempo de acordar a mulher, de cujo nome nem se lembrava, e mandá-la embora.
Não podia deixar as filhas esperando.
Talvez conseguisse se arrumar e sair com elas para um café da manhã caprichado, antes que a moça despertasse.
Pensando nisso, bateu a porta do quarto e correu para a da frente.
Olhou pelo olho mágico e, fingindo surpresa, abriu esbaforido.
- Minhas filhas! - exclamou de forma artificial.
Que surpresa! Por que não me disseram que vinham?
- A ideia era essa - anunciou Patrícia.
Por que está ofegante?
- Eu estava no banheiro. Vim correndo.
- Está sozinho? - tornou ela, reparando nas duas taças e na garrafa de vinho sobre a mesinha.
- Ah! Estou, claro.
Foi um amigo que veio me visitar ontem.
- Espero que não estejamos incomodando - observou Natália.
- Desde quando meus dois tesouros me incomodam?
Sabem do que mais?
Vamos sair e tomar café da manhã.
Tem uma confeitaria nova aqui perto que dizem que é maravilhosa.
Por que vocês não largam as malas no quarto e damos um pulo lá?
- Boa ideia - concordou Natália.
Estou mesmo faminta.
- Eu também - acrescentou Patrícia.
- Óptimo! - exclamou, entrando no corredor com as duas atrás.
Vou mudar de roupa e já volto.
Como os dois quartos ficavam frente a frente, Júlio parou na porta do seu, esperando que as meninas entrassem no que ele montara especialmente para elas.
Inútil. Na mesma hora, a bela morena apareceu sonolenta, atraída pelo barulho no corredor.
Praticamente despida, envolta em uma toalha de banho que mal lhe encobria as pernas, fixou em Júlio um olhar interrogador.
- O que significa isso? - exaltou-se Patrícia, encarando a outra com fúria.
Quem é essa vagabunda?
O que ela está fazendo nua no seu quarto, pai?
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 14, 2015 11:29 am

Desconhecendo os detalhes da vida de Júlio, a mulher também se assustou.
- Eu... - embaraçou-se.
Já estava de saída. Com licença.
Voltou rapidamente para o quarto, enquanto Patrícia continuava a extravasar sua indignação:
- Era só o que me faltava, papai! Francamente!
Então vem para São Paulo sozinho para ficar livre e dormir com outras mulheres?
- Não se trata disso, minha filha.
- Ah! Não? Trata-se de que, então?
Não vai querer nos convencer de que ela é sua empregada, vai?
- Calma, Patrícia - intercedeu Natália.
Papai tem a vida dele e não temos o direito de interferir.
- Interferir? Como pensa que mamãe se sentiria se descobrisse uma coisa dessas?
- Sua mãe não liga a mínima para mim - defendeu-se ele.
Vocês sabem disso tão bem quanto eu.
A porta do quarto tornou a se abrir, e a mulher passou por eles sem dizer nada.
Saiu sem nem se despedir, para alívio de Júlio.
- Dormindo com vagabundas - censurou Patrícia.
Isso não se faz.
- Deixe papai em paz, Patrícia - ponderou Natália.
Ele e mamãe são adultos, podem cuidar da vida deles.
- Sua irmã tem razão - concordou Júlio.
Sua mãe e eu não devemos satisfação de nossos actos.
Importante é o que sentimos por vocês.
- Você quer se divorciar dela?
- Tenho pensado nisso, na verdade.
- Mamãe também - esclareceu Natália.
Na verdade, foi por isso que viemos.
Ela quer o divórcio.
Foi uma agradável surpresa para Júlio.
Nunca imaginou que Bianca quisesse, um dia, se divorciar.
- Você acha que ela arranjou alguém? - questionou Patrícia, interrompendo seu espanto.
- Não sei. É possível.
Mas fico aliviado que ela tenha decidido assim.
Podemos fazer as coisas amigavelmente.
Sua mãe e eu, há muito, nos distanciamos.
- Você vai ter que pagar pensão a ela?
- Provavelmente - respondeu contrariado.
Sua mãe não trabalha, muito embora eu pense que não há nada que a impeça de fazê-lo.
- Posso vir morar com você? - pediu Patrícia.
- Sua mãe não vai permitir.
- Vai, sim - contestou Natália.
Ela nos disse que éramos livres para escolher.
- Sério? O que a fez mudar de ideia?
O silêncio de Natália deu a entender que ela sabia que a mãe tinha outro homem.
Júlio sentiu uma certa raiva pela traição, mas foi muito rápida.
No fundo, era melhor assim, pois de que outra maneira ele conseguiria que ela abrisse mão da pensão de Patrícia?
- Quero vir morar com você, papai - reafirmou Patrícia. -
Por mim, já está decidido.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 14, 2015 11:29 am

- Tem certeza? - indagou ele.
- Absoluta.
- E você, Natália?
- Não sei. Tenho a faculdade...
- Aqui tem óptimas universidades.
- Eu sei. Mas é que gosto de morar no Rio.
- Muito bem.
Vou começar a procurar um bom colégio para Patrícia.
Se tudo correr bem, no início do ano você já pode se mudar.
- Isso!
Patrícia atirou-se ao pescoço do pai, beijando seu rosto várias vezes.
Ele a afagou com carinho, feliz por poder, finalmente, tê-la a seu lado.
Agora, sim, compraria o tão sonhado apartamento, sem ter de dividi-lo com Bianca.
Teria a filha, o divórcio e o dinheiro.
Terminado o fim de semana, as meninas retornaram ao Rio.
Natália conversava com a mãe na sala, pondo-a a par das decisões e propostas de Júlio para o divórcio, quando o telefone tocou.
Depois que Natália desligou, Bianca notou a palidez em sua fisionomia.
- O que foi?
Que cara de espanto é essa?
- Ligaram do hospital.
Vovó teve um AVC19.
- Mais essa agora.
Ligue para seu pai.
Ele vai ter que vir para cuidar da mãe dele.
- Papai vai demorar a chegar.
Vamos lá, mãe, ela está sozinha.
Você sabe que papai não tem irmãos e vovô já faleceu.
- Ah, não, Natália! Odeio hospitais.
E depois, sua avó me detesta.
- Isso não importa.
Ela está internada, precisa de nós.
- Eu não vou.
Vá você, que é neta.
- Será que Patrícia gostaria de me acompanhar?
- Patrícia não está.
Saiu com as amigas.
E duvido muito que ela queira perder o fim de semana no hospital.
- Está bem, então. Eu vou.
Não posso deixar minha avó sozinha.
Infelizmente, quando Natália chegou ao hospital, a avó havia acabado de desencarnar.
Segundo informaram, morreu tranquila, sem dor nem agonia.
Foi um certo alívio para ela, que agora tinha de providenciar o funeral.
Ligou para o pai, que já estava a caminho do aeroporto.
No hospital, Natália cuidava de tudo, já que Patrícia, com a desculpa de que precisava confortar a mãe, não apareceu.
Ela escolheu a urna, coroa de flores, tudo o que foi necessário.
Faltava o pagamento, única coisa que Júlio realmente precisou fazer quando chegou.
- Vejo que a minha menina cuidou de tudo - elogiou, embora com pesar.
- Fiz o que pude.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 14, 2015 11:29 am

- Pobre mamãe.
Devia ter-lhe dado mais atenção quando era viva.
- Agora não adianta lamentar, pai.
Ela se foi, mas você pode rezar por ela.
- Sim. Não vou esquecer a missa de sétimo dia nem a de mês, nem a de ano.
- Você não está triste?
- Um pouco.
Meu relacionamento com seus avós esfriou muito quando conheci sua mãe.
Eles não se davam lá muito bem.
Após o funeral, Júlio precisou ficar um tempo no Rio para cuidar do inventário.
Não havia muito que fazer.
Ela possuía apenas o apartamento de três quartos em que morava, do qual ele herdara metade após a morte do pai.
Agora, ficara com tudo.
- O que vai fazer com aquele apartamento? - indagou Bianca.
- Vender, é claro.
Mas nem adianta ficar de olho grande.
Bens de herança não entram na partilha do divórcio.
- Como você é mesquinho! - fingiu-se ofendida.
- E as coisas dela? - indagou Natália, para romper o clima de animosidade.
Quando vai começar a mexer?
- Ainda não pensei nisso - declarou Júlio.
Preciso voltar a São Paulo com urgência.
Já me demorei demais por aqui.
- Se você quiser, posso fazer isso para você - ofereceu-se Natália.
- Sério? - Ela assentiu.
Olhe que não é um trabalho dos mais agradáveis.
Sabe como é mania de velho, vai juntando tudo.
- Deixe comigo.
Diga-me apenas o que fazer com cada coisa.
- Se tiver alguma jóia, é minha - adiantou-se Patrícia.
- É para dividir - contrapôs Bianca.
Por que você tem que ficar com tudo?
Natália e eu também queremos.
- Não quero nada - contestou Natália, aborrecida.
- Não quer mesmo? - surpreendeu-se Patrícia.
Melhor!
- Vocês parecem urubus em cima da carniça - observou Natália, com uma certa irritação.
Vovó ainda nem esfriou no caixão e já estão discutindo sobre a herança dela.
- Onde ela está, não vai precisar de nada - comentou Bianca.
- Natália tem razão - concordou Júlio.
Não acho adequado minha mulher e minha filha ficarem brigando pelas jóias de mamãe.
É falta de respeito.
As duas se calaram, envergonhadas.
Ficou acertado que Natália daria início à limpeza na casa da avó na semana seguinte.
- Olhe lá, hein, Natália! - alertou Patrícia.
Não vá nos enganar e esconder as jóias para você.
- Não me julgue por você - aborreceu-se Natália.
Não tenho olho grande em nada que é dos outros.
E se está desconfiada, vá você desfazer os armários.
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Ave sem Ninho

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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 14, 2015 11:29 am

- Eu, não! Detesto cheiro de velho e de defunto.
- Deixe disso, Patrícia - falou Júlio, escondendo a vontade de rir.
Aqui está, minha filha, o endereço do antiquário que consegui.
Dizem que é muito bom, pega as coisas em consignação.
É só você ligar para ele, que ele irá fazer uma avaliação das coisas.
O que for vendável e ninguém quiser ele manda apanhar.
- Você vai vender tudo que era da vovó? - surpreendeu-se Patrícia, e ele assentiu.
E quem vai ficar com o dinheiro?
- Não havia pensado nisso - respondeu Júlio.
Mas já que é Natália quem vai ter todo o trabalho, nada mais justo que fique com ela.
- Ah! Não, pai, isso é que não!
Natália está de olho grande, quer tudo para ela.
- Eu?! - defendeu-se a outra.
Pois até agora fui a única que não pediu nada.
- Chega, meninas! - intercedeu Júlio, sem saber como fazer para ser justo e, ao mesmo tempo, não desagradar Patrícia.
Vamos primeiro vender as coisas.
Depois, pensaremos a respeito do destino do dinheiro.
Depois da aula, Natália partiu para a casa da avó.
Tinha poucas lembranças dali, já que não costumavam muito visitá-la.
O apartamento lhe agradou imensamente.
Era amplo, arejado, tinha um astral excelente.
Ao contrário do que o pai pensava, a avó não coleccionava bugigangas.
Suas coisas, muito bem arrumadinhas, eram, na maioria, úteis.
É claro que havia lembranças: fotos antigas, souvenirs de viagens, cartas de amor trocadas entre ela e o avô, uma cristaleira repleta de coisas bonitas, móveis aparentemente novos.
Além dos cristais e da louça, Natália não encontrou antiguidades.
As jóias nem eram tantas assim, de forma que colocou tudo numa caixa e levou para casa.
A mãe e a irmã ficaram fascinadas, dividindo entre elas as peças de ouro.
- Já terminou tudo? - questionou Bianca.
- Ainda não. Comecei pelo quarto.
Juntei algumas sacolas de roupa e sapatos.
- Isso tudo é lixo.
Pensei que ela tivesse mais jóias.
- O que tem está aí.
- Você não pegou nada escondido, pegou? - sondou Patrícia.
- Eu, hein! Desde quando você passou a desconfiar de mim?
Já disse que não quero nada.
A ideia já se havia formado na cabeça de Natália.
Ela não queria nada daquilo, a mãe e a irmã podiam se matar para ficar com tudo.
Mas havia uma coisa que a interessara: o próprio apartamento.
As duas teriam um ataque quando soubessem o que ela estava planeando.
No dia seguinte, telefonou para o pai da casa da avó.
Não queria que Bianca e Patrícia ouvissem a conversa.
- Oi, pai, sou eu.
- Tudo bem, minha filha?
Algum problema com as coisas da sua avó?
- Não, está tudo óptimo.
Mas, pai, gostaria de lhe pedir uma coisa.
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Ave sem Ninho

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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 14, 2015 11:29 am

- O que é?
- Será que você podia não vender o apartamento?
- Por quê? Quer morar nele?
- Você acertou, é isso mesmo.
- Não acredito!
É um apartamento grande e velho, nem suíte tem.
E fica no subúrbio.
- Não me importo com isso.
Gostei daqui, a rua é calma e o apartamento está todo reformado.
Pelo visto, vovó havia comprado móveis novos.
- Pense bem, Natália.
Você não está acostumada.
E depois, como irá se sustentar?
- Pensei se você não poderia me ajudar no começo.
O condomínio é barato e posso trabalhar.
- Mas, filha, você nunca morou sozinha.
- Sou maior de idade, muito responsável.
Ah, vamos, papai, deixe!
Ele é perfeito para mim.
Não agradava muito a Júlio permitir que a filha morasse perto de Geórgia.
Fazia anos que não a via nem sabia se ela ainda morava por lá.
No entanto, não tinha motivos para não permitir.
E talvez fosse até bom manter o apartamento, que ficava em uma área bastante valorizada.
, - Está bem - concordou por fim.
Se é o que você quer, podemos ficar com ele.
- Oh! Papai, obrigada!
Vai dar tudo certo, você vai ver.
Era grande a euforia de Natália.
Adorara o apartamento e a rua arborizada.
A vizinhança era tranquila, tinha um comércio local sortido, condução para todos os lados.
Perfeito para uma universitária sozinha.
E permitiria que ela saísse de casa.
Patrícia estava praticamente de malas prontas para se mudar para São Paulo no fim do ano, e a mãe não se incomodava com nada que não fossem seus próprios prazeres.
Seria o melhor para todos.

19 Acidente vascular cerebral.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 14, 2015 11:30 am

Capitulo 27

O armazém abandonado em Vila Kennedy estava às escuras.
Desde cedo, a polícia montou guarda nas cercanias, vigiando a movimentação no local.
Algumas pessoas entraram, outras saíram, mas Bira ainda não havia sido identificado.
- Ele só vai chegar na hora - advertiu Joel.
Temos que esperar.
- Você tem certeza de que ela deu a dica certa? - questionou o capitão.
- Absoluta. Gislene tem medo de mim, não ia arriscar a vida por uma mentira.
De binóculos, alguns homens tomavam conta do armazém, que tinha todas as entradas vigiadas.
Alguns minutos antes da meia-noite, um carro preto parou em frente ao portão e três homens saltaram.
Carregavam uma mochila, aparentemente pesada.
Abriram o portão, em seguida, a porta do armazém.
Algumas luzes se acenderam lá dentro, colocando os policiais em alerta.
- É ele - afirmou Joel. - Veja só.
Pelo porte, só podia ser o Bira.
Pouco depois, outro carro parou.
Mais três homens saltaram, levando o que parecia ser uma bolsa de viagem.
- Acha que a droga está ali? - sondou um soldado.
- Só pode.
A porta do armazém foi fechada, iniciando-se uma movimentação suspeita no interior.
Os homens da polícia se colocaram a postos, fazendo silêncio geral.
A um sinal do capitão, avançaram.
Em poucos segundos, estouraram o armazém.
A porta foi ao chão com estrondo, soldados entraram por todos os lados, correndo entre corredores formados por velhas estantes de ferro.
Em pouco tempo, alcançaram uma sala central.
Com um pontapé, escancararam a porta, surpreendendo-se com o que viram.
Bem no meio da sala, uma mesa fora montada.
Sobre ela, várias velas acesas circundavam um bolo de padaria.
Ao redor, alguns homens corriam atarantados, soltando gritinhos de pavor.
Vassouras voaram, velas se esparramaram pelo chão.
Um dos sujeitos, rendido pela polícia, dava chiliques de pânico:
- Ai, meu Deus, o que é isso?
Por favor, seu guarda, não nos mate!
Não fizemos nada.
- O que significa isso? - balbuciou o capitão, irado.
- Não sei de nada - choramingou outro rapaz.
Só nos deram uma grana para fazer a limpeza e acender as velas para uma festa.
- Quem pagou? - rugiu Joel, agarrando um moço pela gola da camisa.
- Não sabemos - respondeu um outro.
Um cara, não o conhecemos.
Ele simplesmente chegou, nos deu o dinheiro e nos mandou para cá.
- Quem trouxe vocês?
- Um sujeito, sei lá.
Não o conheço, já disse.
- Vimos dois carros pretos parando aqui na frente.
Quem estava dirigindo?
- Não sei, não sei! - desesperou-se o primeiro garoto.
Eles só nos deram dinheiro, nos apanharam de três em três.
Fizemos o que mandaram.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 14, 2015 11:30 am

- E os traficantes? - rugiu o capitão.
Onde estão o Bira e o outro malandro?
- Não sei nada de traficantes.
Pelo amor de Deus, seu guarda, não somos bandidos.
Os caras chegaram até a gente, pensamos que queriam uma transa.
Um deles pegou o dinheiro, esfregou na nossa cara.
Perguntou se estávamos interessados num serviço fácil.
"É claro que estamos", dissemos.
Aí ele falou que era para limpar esse armazém, colocar as velas ao redor do bolo e aguardar, que uns caras viriam para uma festa com a gente.
- E você? - Joel indagou ao de porte atlético, que ele havia confundido com Bira.
- Foi a mesma coisa. Não sei de nada.
Estava curtindo a noite e uns caras apareceram.
Fizeram a mesma coisa comigo.
Me ofereceram dinheiro, e eu topei.
Disseram que era para primeiro fazer a limpeza em um lugar onde haveria uma festa.
Achei estranho, mas concordei.
A gente não discute quando o dinheiro é muito.
Pensei que fosse algum tipo de festa surpresa, sabe?
Marcaram de me buscar onde eu fazia ponto.
Fui lá e esperei.
Quando entrei no carro, havia mais dois caras lá dentro - ele apontou para outros dois do grupo.
É só o que sei.
- Quantos caras eram?
- Dois.
- Como eles eram?
- Sei lá. Eram uns tipos comuns.
- Como estavam vestidos?
- De calça jeans e camisa preta.
- Os dois?
- Sim.
- Usavam alguma coisa especial? - Ele meneou a cabeça.
- Um cordão, relógio?
- Nada.
Joel e outros policiais se afastaram do bando trémulo.
- Acha que eles estão dizendo a verdade? - indagou.
- Acho que sim - respondeu o capitão.
Eles estão se borrando de medo.
- Se a gente apertar, talvez eles nos dêem uma boa descrição dos sujeitos.
- De que isso iria adiantar?
Pelo visto, os caras fizeram tudo direitinho.
São tipos comuns, sem nada especial que os pudesse identificar.
E depois, não é crime pregar uma peça em seis bichas afectadas.
- Maldição! - esbracejou Joel.
Gislene estava certa de que a transacção iria ocorrer hoje.
- E ia. Isso me parece coisa de delator.
Alguém descobriu o plano e deu com a língua nos dentes.
- Mas quem? Gislene?
Será que ela deu para trás?
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 14, 2015 11:30 am

- Não sei. Tudo é possível.
- E agora, capitão?
O que faremos?
- Nada. Voltamos à estaca zero.
Vamos liberar os caras e começar tudo de novo.
Ligue para Gislene e marque um encontro para o mais breve possível.
- Se ela ainda estiver por aí, capitão.
Temo pelo que possa acontecer a ela.
Se Gislene nos traiu, o Bira vai dar um jeito de sumir com ela.
Se não, alguém contou ao Bira, e ela vai sumir de qualquer maneira.
Os seis rapazes foram liberados, deixando enorme sensação de frustração em Joel e nos outros policiais.
Realmente, eles não sabiam de nada.
Tudo se passara exactamente como eles narraram.
Na véspera, Bira mandara dois comparsas escolher seis homossexuais para o serviço, tomando o cuidado de apanhar alguém que fosse fisicamente parecido com ele, ao menos no porte.
Assim fizeram.
Em diferentes partes da cidade, elegeram as vítimas.
Por cem reais, tinham de fazer um serviço simples: limpar um armazém, colocar o bolo, as velas ao redor e esperar a chegada de vários homens para uma festa.
No dia marcado, cada um recebeu um casaco preto com capuz, com a orientação de puxá-lo sobre o rosto o máximo que pudesse.
Dois carros participaram da operação, cada qual levando três pessoas, como se fossem três do bando de Bira e três do vendedor da droga.
Deixados no armazém, os rapazes não desconfiavam de nada.
Foram ao local designado, encontraram a mesa.
Enquanto uns varriam o chão e tiravam pó, outros ajeitavam as velas e o bolo.
Estavam assim entretidos quando ouviram um barulhão se aproximando pelo corredor.
Pensaram que fossem as pessoas chegando adiantadas para a festa, espantando-se terrivelmente quando os policiais surgiram, derrubando tudo.
Da laje de uma casa vizinha, um dos comparsas de Bira assistia à cena.
Reconheceu os carros, viu quando a polícia chegou.
Ouviu a barulheira da falsa prisão, rindo da esperteza do chefe.
Na verdade, a ideia partira do sujeito que ninguém conhecia e que levara a notícia a Bira.
Assim como acontecera com Atílio, Bira se impressionara sobremaneira com a inteligência de Régis.
Todo aquele plano fora ideia dele.
Na véspera, quando Bira estacionou o automóvel para esperar Gislene, foi Régis que encontrou.
Antes que a moça aparecesse, ele entrou no carro do traficante, implorando para que ele ouvisse o que tinha a dizer.
- Você é muito atrevido, rapaz - protestara ele, visivelmente aborrecido.
Saia, vamos!
Tenho mais o que fazer.
- Por favor, Bira, é importante.
Mande o motorista dar a volta no quarteirão.
É tempo mais do que suficiente para lhe contar tudo.
Ouça-me e não vai se arrepender.
Curioso, Bira fez como Régis pediu.
Ao final da primeira volta, Bira mandou o motorista dar outra, até ouvir toda a história.
- Isso é impossível - divagou ele.
Gislene não seria louca de me trair.
- Louca ou não, o facto é que traiu.
Segundo entendi, o promotor prometeu aliviar a barra dela na Justiça, de acusá-la de um crime mais leve em troca dessa informação.
- Se isso for verdade...
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