Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Página 8 de 11 Anterior  1, 2, 3 ... 7, 8, 9, 10, 11  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Ir em baixo

Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 16, 2015 10:33 am

Capítulo 31

Mais uma sessão de fotografias, para outra revista de moda.
A carreira de Régis parecia descolar.
Com isso, ele ia afastando, cada vez mais, a possibilidade de se envolver com o crime.
Para Geórgia, foi um alívio.
Temia que suas tendências o levassem por caminhos tortuosos.
Vendo agora o resultado de seu trabalho, sentia-se gratificada por haver cedido à intuição e pago pelo tão sonhado book.
As perspectivas para Régis eram muito boas.
Além da revista, recebera proposta para fazer um catálogo de roupas de inverno e tinha em vista até um comercial de televisão, sem contar o outdoor para uma campanha de praia limpa.
Se ele emplacasse esses trabalhos, estaria feito na carreira.
Régis despediu-se da mãe e da avó, seguindo para o local onde seriam realizadas as fotos.
Assim que pisou na rua, Alex se aproximou.
- E aí, meu camarada? - cumprimentou.
Cada vez mais famoso, hein?
- É. Estou com sorte.
- Bira quer falar com você.
Insiste em lhe dar os parabéns pessoalmente.
- O que o Bira quer tanto comigo?
Já não lhe fiz um favor?
Agora, não tenho mais o que conversar com ele.
- Não fale assim, cara.
O Bira é gente boa e só quer ajudá-lo.
- Ajudar-me em quê?
Não preciso de nada.
Minha carreira está descolando.
- Você sabe que tem muita gente nesse negócio que adora uma carreirinha20, não sabe?
- E daí? Nem todo mundo gosta.
Eu não gosto.
- Mas você podia fazer um outro favor a ele.
Que tal apresentar aos seus colegas o produto do Bira?
- Ficou louco?
Agora que estou me acertando, você quer me ferrar?
- Os negócios não estão indo lá muito bem.
A polícia está apertando o cerco, e a concorrência é grande.
Bira precisa de mais campo.
Não seria nada mau para ele infiltrar-se no meio da moda.
Em troca, ele promete muito dinheiro.
- Não preciso de dinheiro.
Estou ganhando bem agora.
- Não tão bem quanto gostaria.
Sua namoradinha não merece o melhor?
- Escute aqui, Alex, não se meta com ela, está bem?
Deixe-a fora disso.
Ela nada sabe sobre a boca de fumo, Bira ou você.
- Imagine só se soubesse.
Coitada, ia ficar decepcionada.
- Está me chantageando, Alex? É isso?
- Não. Só estou tentando fazer você perceber o que é melhor.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72008
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 16, 2015 10:33 am

- Isso quem decide sou eu.
- Pense bem, Régis.
O Bira não está pedindo nada de mais.
- Não sei de onde ele tirou essa ideia.
Não tenho tantos conhecimentos assim e não acredito que meia dúzia de modelos vão fazer diferença nos negócios dele.
- Não é meia dúzia de modelos.
É a influência que esses caras têm.
- Então, Bira está atrás de poder.
Quer a protecção dos poderosos. É isso?
- Mais ou menos.
Com meia dúzia de pessoas importantes nas mãos, quem se atreverá a combatê-lo?
- Sinto muito, Alex, mas não posso ajudar.
Como disse, não conheço quase ninguém.
Estou nesse negócio há pouco tempo, ainda não fiz contactos importantes.
- Mas vai fazer.
E, quando fizer, Bira quer se assegurar de que estará por perto.
Sem contar a grana, Régis.
Ele está lhe oferecendo uma nota por esse trabalho.
- Quanto?
- Vá conversar com ele.
- Não, sinto muito. Não vai dar.
Régis apressou o passo, deixando Alex para trás.
A proposta até que era tentadora, mas ele não queria se envolver com Bira.
Sabia de gente viciada em seu meio de trabalho, podia aproximá-los, se quisesse.
Contudo, não pretendia ficar nas mãos de nenhum bandido.
E estava apaixonado por Natália.
Além da mãe e da avó, era outra pessoa que ele não gostaria de decepcionar.
As fotos ficaram perfeitas, deixando muito satisfeitos os donos da revista.
Régis aparecia trajando roupas de inverno distintas, além de ternos e casacos de grife.
Tudo muito clássico, muito elegante, já para a próxima estação.
Ele era versátil, ficava bem em qualquer modelo, desde sungas até smokings.
No final, alguns colegas o convidaram para uma festa, onde rolaria de tudo.
Haveria muitas mulheres bonitas, bebida à vontade.
Mesmo louco de vontade de ir, Régis recusou.
Estava mais interessado no encontro que teria com Natália mais tarde.
Mal conseguia conter a ansiedade.
Conhecer o apartamento dela era seu sonho no momento.
Comprou um vinho e flores para Natália e a irmã dela.
Chegou na hora marcada, estendeu-lhe o buquê de rosas vermelhas, que Natália apanhou e cheirou.
Deu-lhe um beijo leve nos lábios, convidando-o a entrar.
Atrás dela, veio Patrícia.
- Régis, esta é Patrícia, minha irmã.
- Muito prazer - cumprimentou ele, dando-lhe dois beijinhos nas faces e oferecendo-lhe rosas amarelas.
Para você.
- Obrigada.
Ela apanhou as rosas, lutando para não deixar transparecer a euforia.
Aquele era o homem mais lindo que ela já vira em toda a sua vida.
Com certeza, merecia uma mulher menos insossa do que Natália.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72008
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 16, 2015 10:33 am

- Trouxe um vinho para o jantar - anunciou ele.
Mas é claro que Patrícia não poderá beber.
- Por que não? - questionou ela.
- Porque você é menor de idade - informou Natália.
E menores não podem beber.
- Papai deixa.
- Ele deixa? - surpreendeu-se a irmã.
- Deixa. Em casa, é claro.
- Pois não devia. É perigoso.
- Que nada, Natália. Deixe de ser careta.
Uma cervejinha, de vez em quando, não mata ninguém.
Natália olhou para Régis em busca de apoio, mas ele deu de ombros.
Aquele era um assunto em que não deveria se meter.
- O jantar está quase pronto - disse ela, para mudar de assunto.
- Faça companhia a Régis, Patrícia.
Vou tirar o assado do forno.
Era o que Patrícia queria.
Esperou até Natália sumir na cozinha para sentar-se junto a Régis no sofá.
- Minha irmã disse que você é modelo - começou ela, fazendo-se de inocente.
Deve ser emocionante.
- É legal.
- E dá um bom dinheiro?
- Não muito, no começo.
Mas espero progredir.
- Não duvido.
Com a sua aparência, qualquer revista vai querer contratá-lo.
- Não é bem assim.
Há outras coisas envolvidas, como postura, disciplina, boas maneiras.
Não é só chegar lá e fotografar.
- Você também vai para as passarelas?
- Por enquanto ainda não fui, mas estou aberto a isso também.
- E eu? Você acha que eu tenho chance de ser modelo?
Meio constrangido, Régis avaliou-a.
Ela era uma menina muito bonita, esguia, extrovertida.
Com um pouco de treino e sorte, poderia chegar lá.
- Chance, você tem.
- Você me acha bonita?
- Acho.
- Eu nunca havia pensado nessa possibilidade, mas agora estou começando a considerá-la.
Será que você poderia me ajudar?
- Posso falar de você lá na minha agência.
Se houver interesse, eu a aviso.
- Posso ir com você para ver as fotos, posso?
Natália sai para trabalhar e eu fico aqui sozinha.
- Pare de aborrecer o Régis - censurou Natália, que vinha chegando com a travessa do assado nas mãos.
Ele anda muito ocupado para cuidar de crianças.
- Não sou criança - irritou-se Patrícia.
E ele não precisa cuidar de mim.
Só queria ver como é uma agência de modelos.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72008
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 16, 2015 10:33 am

- Não tem problema, Natália - falou Régis, para não desagradar Patrícia.
Se ela quiser, posso levá-la comigo um dia.
- Quando podemos ir? Amanhã?
- Por que a pressa? - objectou Natália.
O mundo não vai acabar amanhã.
- Ah! Natália, eu só quero me divertir.
Por favor, Régis, me leve amanhã.
- Amanhã não tem fotos, mas prometo levá-la comigo na próxima oportunidade.
Patrícia não estava nem um pouco interessada em seguir a carreira de modelo ou qualquer outra.
Buscava apenas uma desculpa para aproximar-se de Régis.
Estava encantada com ele.
Durante o resto da noite, permaneceu observando-o.
Cada detalhe dele, de sua roupa, seus gestos, sua voz, tudo lhe agradou.
Seu sorriso era inebriante, os olhos expressivos quase a hipnotizavam.
Não conseguia desviar-se deles.
Quando o jantar terminou, Patrícia não queria acreditar que seria obrigada a despedir-se dele.
Sua vontade era puxá-lo para o quarto e fazer o que Natália não fazia.
Ardia de desejo por ele.
Tinha medo até de se aproximar, tamanho o fogo que a consumia.
- Até logo, Patrícia - despediu-se ele, beijando-a levemente nas faces.
Foi um prazer conhecê-la.
- O prazer foi todo meu - respondeu ela.
E não se esqueça da promessa que me fez.
Vou com você em sua próxima sessão de fotos.
- Não vou esquecer. Pode deixar.
Embora Régis houvesse notado a quentura no rosto de Patrícia, não a associou à febre de desejo que a consumia por dentro.
Mais preocupado com Natália, só para ela tinha olhos.
- Vou levá-lo lá embaixo - anunciou ela.
A essa hora, a portaria deve estar trancada.
Desceram de mãos dadas, Régis sentindo uma felicidade que não pensava existir.
Na portaria, relutava em despedir-se.
- Adorei a noite - comentou ele.
Estar com você é o que mais me deixa feliz.
- Gostou de Patrícia?
- Ela é muito bonita e simpática, mas é pela irmã dela que estou apaixonado.
O coração de Natália estava descompassado.
A cada dia, gostava mais e mais de Régis.
- Acho que também estou apaixonada por você - confessou ela, olhando fundo em seus olhos.
- Está? - ele mal acreditava. - Meu Deus, isso é um sonho?
Será que eu ouvi mesmo o que penso ter ouvido?
Em vez de responder, ela o beijou, permitindo que ele avançasse nas carícias.
- Vamos subir - disse ela.
Quero que fique comigo esta noite.
Não foi preciso repetir o convite.
Régis estreitou-a com amor, puxando-a de volta para dentro do edifício.
No apartamento, Patrícia ainda estava acordada, sentada no sofá diante da televisão.
Não via nem ouvia nada.
Apenas pensava no prazer que gostaria de dar a Régis.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72008
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 16, 2015 10:33 am

Quando a porta se abriu, ela levou um susto.
A última coisa que esperava era ver Régis de volta com Natália.
Eles entraram de mãos dadas, agindo feito dois idiotas.
Régis nem olhou para ela.
Natália apenas piscou o olho e sorriu, indo com ele para o quarto.
Patrícia permaneceu muda em seu assombro.
Não acreditava que Natália fosse dormir com ele justo naquela noite.
Pensou em algo para impedir, mas nada lhe veio à cabeça.
Tudo que dissesse soaria infantil, e ela não pretendia parecer uma criança aos olhos de Régis.
Queria que ele a visse como mulher.
Ao ouvir o barulho da chave rodando na fechadura, Patrícia não aguentou.
Pé ante pé, seguiu em silêncio até a porta do quarto de Natália.
Pelo buraco da fechadura, tinha uma visão parcial de um lado da cama.
A posição da chave impedia que ela visse melhor.
Não conseguia divisar-lhes os rostos, mas acompanhava o movimento das pernas e do corpo.
A visão encheu-a de desejo e raiva.
Devia ser ela deitada ali, não Natália.
Não era justo que a irmã, que sempre fora sem graça, conquistasse o coração de um homem feito Régis.
Furiosa, Patrícia voltou as costas à porta, mas os sussurros e gemidos a paralisaram.
De onde estava, sentia o prazer deles, um prazer que deveria ser seu.
Sem conseguir mais se conter, disparou pelo corredor, de volta à sala.
Na passagem, derrubou o jarro no qual a irmã havia colocado as rosas vermelhas que Régis lhe dera.
Como era de se esperar, o barulho atraiu a atenção de Natália.
- O que foi isso? - espantou-se ela.
- Nada - falou Régis, pondo um dedo sobre seus lábios.
Nada que Patrícia não possa resolver.
Alheios ao que estava acontecendo, continuaram se amando, para desespero de Patrícia, que não conseguiu separá-los.
Vendo que a irmã não aparecia, engoliu a fúria e foi para o quarto.
Trancou a porta e atirou-se na cama, molhando o travesseiro com lágrimas de ódio.
Era tarde da noite quando Régis saiu do estúdio fotográfico, cansado após uma longa sessão de fotos para a campanha de uma marca de perfumes.
Além disso, fora convidado para participar de um comercial de televisão.
Estava eufórico, vendo deslanchar a carreira com que tanto sonhara.
E com que facilidade!
Ao pisar na rua, notou que um carro preto o seguia.
Pelo canto do olho, observou o veículo, rodando praticamente ao seu lado.
Através dos vidros negros, não viu ninguém, embora desconfiasse de quem se tratava.
O carro podia ser novo, mas seu ocupante era seu velho conhecido.
Acostumado a não sentir medo, Régis parou, voltando-se na direcção do automóvel.
Na mesma hora, uma janela se abriu no banco de trás.
Bira botou a cara para fora e, com um sorriso debochado, cumprimentou:
- Olá, garoto. Como está passando?
- Bem - foi a resposta seca.
- Será que nós poderíamos conversar?
- Agora não dá, Bira. Estou cansado.
- É só um minuto.
- Outra hora.
- Que outra hora?
Você não atende o meu chamado.
Está me ignorando.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72008
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 17, 2015 11:31 am

Régis achou melhor entrar no carro, para evitar a polícia.
Bira abriu a porta, permitindo que ele se sentasse ao seu lado.
- Olhe, Bira, não estou ignorando você.
É que agora arranjei um emprego.
- Depois de tudo, vai me abandonar?
- Que tudo? Não temos nenhum compromisso.
- Você me prestou um grande favor.
Eu podia estar preso a essa hora. Quero retribuir.
- Não precisa.
- Faço questão.
Ninguém nunca me serviu tão bem quanto você.
Régis o encarou, sem dizer nada, e Bira continuou:
- Soube que você ficou chateado por eu ter mandado apagar a Gislene.
- Você não precisava ter feito isso.
- Não é assim que as coisas funcionam, Régis.
Meu negócio não é brincadeira e não lido bem com traidores.
Gislene teve o que mereceu.
Mas você é diferente.
É meu parceiro, meu irmão.
- Não sou seu parceiro.
Muito menos seu irmão.
Com uma gargalhada estrondosa, Bira retrucou:
- Você é corajoso, cara.
Admiro isso em você.
Sabe quantos falariam comigo assim? - Régis deu de ombros.
Só você.
E isso porque lhe devo a vida.
Não é pouca coisa, não.
- Se você pensa mesmo assim, se quer realmente me devolver o favor, então deixe-me em paz.
- Vou deixar.
Mas, antes, gostaria que você fizesse uma coisa por mim.
- Assim você não vai me retribuir o favor.
Vai ficar me devendo mais um.
- Que seja. Mas eu preciso de você.
Tem gente graúda no seu meio.
Quero estar em contacto com eles.
- Não vai dar. Não conheço bem essa gente.
Vou lá, faço as fotos e volto para casa.
Não saio com ninguém nem do estúdio, nem da agência.
Bira voltou o rosto para a frente, para que Régis não visse a raiva infiltrada em seus olhos.
- E a sua namorada? - indagou ele.
Como é mesmo o nome dela?
- Ouça aqui, Bira, já tive essa conversa com Alex.
Minha namorada não tem nada a ver com isso.
E, se quiser contar a ela, vá em frente, conte.
Não trabalho para você, não tenho nada a esconder.
- Nem a morte de Gislene?
- Não fui eu que a matei.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72008
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 17, 2015 11:31 am

- Não. Foi a sua língua.
E não se trata apenas da morte de Gislene.
Trata-se de ajudar um traficante a se livrar da polícia.
- Você está me ameaçando - retrucou com raiva.
Não acredito!
Onde está o seu senso de gratidão?
- Não estou ameaçando você.
Quero apenas abrir-lhe os olhos.
Natália é uma boa menina, você não ia querer vê-la envolvida nisso, ia?
Ao ouvir o nome dela, Régis sentiu o perigo que a envolvia.
É claro que Bira mandara investigá-la e, a essa altura, já sabia tudo sobre ela.
Não podia, contudo, demonstrar o seu receio ou Bira o teria nas mãos.
- Já disse que você pode contar-lhe o que quiser - repetiu com irritação.
Não sou homem de ceder a chantagens.
- Pensando bem, é isso mesmo que vou fazer.
Vou convidá-la para dar uma voltinha comigo, conhecer a minha casa, levar um papo com a rapaziada.
Acha que ela gosta de churrasco?
Régis não aguentou.
Agarrou Bira pela gola da camisa, encarou-o com fúria e disparou, ameaçador:
- Não se atreva a tocar nela.
Se eu souber que você encostou um dedo nela...
- O que vai fazer? - interrompeu ele, afastando os dedos de Régis de sua camisa.
Vai me matar? Não seja ridículo, Régis.
Você é só um garoto, um menino metido a homem, mas, ainda assim, um garoto.
- Garoto ou não, não tenho medo de você.
Estou falando sério.
Atreva-se a mexer com ela, e não responderei por mim.
- Natália é uma garota de sorte - ironizou ele, regozijando-se com o ar de dissimulado pavor de Régis.
Como já deu para perceber, sei o nome dela, como sei onde mora, onde trabalha e também sei da irmãzinha que está passando férias em sua casa.
Foi preciso muito esforço para Régis se controlar.
Por pouco não esmurrou Bira até tirar-lhe sangue, mas o capanga no banco da frente não desgrudava os olhos deles.
Furioso, Régis abriu a porta e saltou apressado, mal acreditando no que estava acontecendo.
Como fora se envolver com um tipo daqueles?
Bira não o chamou de volta.
Deu ordens ao motorista para seguir em frente.
- Quer que dê um jeito nele? - indagou o capanga, alisando a arma.
- Ainda não. Vamos esperar um pouco mais.
Ele vai acabar cedendo.
Sei como são essas paixonites de garoto.
Régis chegou em casa transtornado.
Agora, sim, tinha motivos para temer Bira.
Não podia proteger Natália nem Patrícia, ainda mais sem lhe contar do traficante.
Duvidava muito que Natália mantivesse o namoro se soubesse de seu envolvimento com ele.
Maldizia agora o dia em que conhecera Bira e, mais ainda, sua estupidez em contar-lhe sobre as investigações da polícia.
Se não tivesse interferido, Bira agora estaria preso ou morto, de qualquer forma, fora de sua vida.
Sozinho em seu quarto, andava de um lado para outro no escuro, pensando no que fazer.
Se cedesse à chantagem, ficaria nas mãos de Bira para sempre, tornando-se um joguete, manipulado para atender seus desejos.
Sem contar que estaria se arriscando a ser preso também.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72008
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 17, 2015 11:31 am

O que Bira queria era que ele fosse intermediário na distribuição da droga entre seus colegas de trabalho.
Em outros tempos, poderia até considerar a oferta.
Agora, porém, tinha Natália.
Além do mais, não precisava de dinheiro.
E havia ainda a mãe. Sempre houve a mãe.
De tão agoniado, não percebeu alguém à porta, até que ela se abriu.
- Régis? - chamou Geórgia.
- Oi, mãe.
- Posso acender a luz?
- Pode.
A luz inundou o ambiente, revelando a figura preocupada de Geórgia.
Ela entrou em silêncio, aproximando-se dele.
Sem dizer nada, abraçou-o com ternura.
- Não sei o que está havendo com você - disse ela.
Mas, seja o que for, pode me contar.
E, mesmo que não queira me dizer, não faz mal.
Estou aqui para acolher você.
- Ah, mãe...
Ele chorou. Agarrado a ela, deixou o pranto desafogar.
Geórgia permaneceu com ele nos braços, embalando-o como se fosse um bebé.
Régis não dizia nada. Nem precisava.
O sentimento dela era suficientemente grande para lhe dar forças.
- Tudo na vida são escolhas - disse ela.
Até morrermos, e mesmo depois da morte, estaremos diante de várias encruzilhadas.
Seguir pela direita ou pela esquerda é opção da alma.
- Mas e quando a alma não sabe que caminho tomar?
- A alma sabe e sempre acerta.
Quem envereda por caminhos difíceis é o corpo dos desejos.
Se você não se deixar escravizar pelos seus desejos, vai sempre encontrar as respostas certas no seu coração.
- Não é desejo, mãe.
É mais um medo, uma ameaça.
- Garanto que esse medo e essa ameaça tiveram origem quando você desejou alguma coisa. Não foi?
Pensando que tudo acontecera porque ele queria cair nas boas graças de Bira, por quem chegou a nutrir forte admiração, ele assentiu:
- Tem razão. E agora, mãe, o que faço?
- Não quer me contar o que está acontecendo?
Ele queria, contudo, não tinha coragem, ia matá-la de desgosto.
- Deixe isso para lá.
Não quero preocupá-la.
Entrei nisso sozinho, posso sair sozinho também.
- Sozinho ou não, eu nunca vou deixar de me preocupar com você.
Sou sua mãe, quero o seu bem, amo você acima de qualquer coisa.
E dizer para uma mãe que ela não deve se preocupar com seu filho é o mesmo que dizer a uma nuvem para não chover.
Ele riu da comparação, sentindo o quanto a amava.
Ela era a pessoa mais importante da sua vida, alguém que, um dia, talvez só fosse igualada por Natália.
- Você não entenderia - objectou ele.
- Por que não experimenta me contar?
Se eu entender, vou procurar lhe dar um bom conselho.
Se não, vou orar para que você ache o melhor caminho.
Não foi mais possível resistir.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72008
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 17, 2015 11:31 am

Régis tornou a chorar, abraçado a ela. Contou tudo.
Desde o dia em que conhecera Bira até as ameaças a Natália, passando pelo favor que lhe fizera e que culminara com a morte de Gislene.
- Você não sabe como me sinto culpado pela morte dela - confessou.
- Imagino. Mas a culpa não foi sua.
Você não é responsável pela reacção do Bira, mas pela sua própria atitude.
Ainda que ele não a tivesse matado, o que você fez não foi correcto.
- Mas foi a minha atitude que levou à morte dela.
Como não sou culpado?
- Ninguém atrai o que não precisa.
Isso é uma coisa.
Agora, você foi a ferramenta que facilitou a obra.
É bom quando somos instrumentos de causas nobres, quando nos predispomos a salvar vidas, a ajudar.
Mas, quando nos colocamos disponíveis para as forças do mal, temos que reflectir e nos modificar.
- Como?
- Refazendo as atitudes.
Desmanchando padrões de comportamento para dar início a outros.
Em vez de se tornar delator e traficante, esforce-se para ser um homem íntegro.
Você agora tem um emprego, conheceu uma boa moça.
Falta amadurecer o carácter.
- Ah! Mãe, como fui ingrato com você - choramingou ele.
- Você, sempre tão boa, tão compreensiva, não merecia um filho como eu.
- Ninguém tem o que não merece.
E eu não ia querer outro filho além de você.
Nós nos escolhemos por algum motivo, e o principal é sempre o amor.
Se precisávamos aprender a nos amar, creio que conseguimos.
- Ao menos isso é verdade.
Você sabe que eu a amo, não sabe?
- Sei.
- Foi por causa do seu amor que não me envolvi em coisas piores.
Porque não queria desgostá-la.
- Não. Foi por causa do seu amadurecimento.
Eu fui apenas o estímulo, a mola, o mecanismo.
Mas a força que accionou tudo isso foi a sua.
- E agora, mãe?
O que é que eu faço com o Bira?
E se ele fizer algum mal à Natália?
- A situação é mesmo complicada - concordou ela.
Mas sempre há uma saída.
Depois de conversar com Geórgia, Régis se sentiu renovado.
Tinha de haver uma solução.
Ele precisava pensar muito bem no que deveria fazer, principalmente para não colocar Natália em perigo.
Se fizesse o que Bira queria, estaria para sempre em suas mãos.
Se não fizesse, correria o risco de ser morto junto com Natália.
Sem falar na mãe e na avó.
Bira não as havia ainda ameaçado, mas quanto tempo levaria até metê-las no meio daquele rolo?
Eram pessoas importantes para ele, cujas vidas ele não queria arriscar.
Pensando na segurança delas, comprometer-se com Bira não parecia assim tão terrível.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72008
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 17, 2015 11:32 am

Afinal, não era tanta coisa que ele tinha de fazer.
Apenas levar umas trouxinhas de maconha e coca para vender entre os colegas.
Só isso. Nada de mais.
Depois de toda a conversa que tivera com a mãe, não era possível pensar naquilo, mas fora justamente a conversa com a mãe que o fizera resolver-se.
Ela era boa demais, pura, inocente.
E o amava tanto!
Não podia permitir que nada lhe acontecesse.
Preferia antes sacrificar-se, arriscando-se a ser preso.
Pelo amor que tinha a elas, sabia o que devia fazer.

20 Referência à carreirinha de cocaína.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72008
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 17, 2015 11:32 am

Capitulo 32

A poucos dias do desfile das escolas de samba, Patrícia vibrava de excitação.
Pela primeira vez iria desfilar, trajando uma fantasia minúscula, cheia de brilhos.
Era um sonho. Pensava nisso quando o interfone tocou.
Ela deu um salto da cama e correu para a cozinha, mas a irmã já havia atendido.
- Quem é?
- O Régis. Quem mais poderia ser?
Os olhos de Patrícia cintilaram.
Assim que ele surgiu na porta, sua vontade foi de abraçá-lo.
Ela se esforçou para chamar--lhe a atenção, mas a única pessoa que ele conseguia enxergar era Natália. Por enquanto.
Régis beijou Natália longamente, causando um ciúme desmesurado em Patrícia.
Propositadamente, ela empurrou um copo de cima de mesa, fingindo espanto quando ele se espatifou no chão.
- Meu Deus! - exclamou.
Desde que cheguei, não paro de quebrar coisas.
- Não faz mal - falou Natália. - Isso acontece.
Mas limpe, Patrícia, por favor.
Eu já ia entrar no banho.
- Pode deixar que eu ajudo você, Patrícia - falou Régis.
Parecia mentira que Natália os deixaria a sós por uns minutos.
Ela apanhou uma pá de lixo e um jornal para colocar os cacos.
Abaixou-se para catar os maiores, tocando os dedos de Régis a todo instante, fazendo parecer casual, tão casual que ele nem percebeu, deixando-a deveras irritada.
- Você e Natália estão se dando bem, não estão? - perguntou, displicente.
- Muito bem. Adoro sua irmã.
- Que bom.
E ela parece gostar de você também.
- Quero crer que sim.
- Pelo visto, ela agora se acertou.
- Como assim?
Ela sofreu alguma decepção amorosa?
- Ela não lhe contou? - Patrícia fingiu surpresa.
- Não.
- Ai, meu Deus, falei demais.
Deixe para lá, Régis.
Se ela não lhe contou, não vou ser eu a contar.
- Não, pode falar.
Ficará aqui entre nós.
- Jura?
- Juro.
Ela terminou de embrulhar os cacos no jornal e olhou na direcção da porta da cozinha, para ver se Natália não vinha.
- Lembre-se de que me prometeu não contar.
- Tudo bem.
- Na verdade, Régis, Natália não gosta muito de homens.
- O quê?!
- Ela é sapatão.
Régis olhou para ela e desatou a rir.
- Dê um tempo, Patrícia. Invente outra.
- É verdade. Por que acha que ela demorou tanto a dormir com você?
- Ela me pareceu bem feminina quando transamos.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72008
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 17, 2015 11:32 am

- Acho que ela gosta de você - disse, tentando ocultar a raiva.
Ou então não quer que nossos pais descubram, o que é mais provável.
Não é nada de mais.
Ela já fez isso antes, várias vezes.
- Não acredito.
- Pois pode acreditar.
Caso ela não tenha lhe contado, papai está para chegar de São Paulo essa semana, e aposto como ela vai planear um encontro entre vocês, para deixá-lo satisfeito.
Uma raiva surda alcançou o coração de Régis.
Ele não era nenhum idiota.
Era visível o que Patrícia pretendia fazer.
Uma menina invejosa, tentando destruir a felicidade da irmã.
- Sabe de uma coisa, Patrícia? - tornou ele.
Não acredito em você.
E depois, isso não me interessa.
Não sou preconceituoso.
O que importa é o que nós sentimos um pelo outro no momento.
- Acho que você não entendeu.
Natália gosta de transar com mulheres.
Ela está usando você.
- Quem não entendeu foi você.
Falei que não acredito em uma só palavra do que disse.
E, se Natália dormiu ou não com mulheres no passado, é problema dela. Eu não me importo.
Repito:
não sou preconceituoso.
O que me interessa é o que ela sente por mim agora.
E isso nem você nem ninguém vai poder destruir.
Sei que Natália me ama, assim como eu a amo.
- Tudo bem - revidou ela entre os dentes.
Se quiser se enganar, é problema seu.
Mas depois não diga que eu não avisei.
Quando ela largar você por causa de uma garota qualquer, não venha chorar no meu ombro.
- Invejosa - rosnou baixinho.
Você não passa de uma garota fútil e invejosa.
Devia ter vergonha de tentar envenenar a vida da sua irmã, que é tão boa com você.
A vontade de Patrícia foi de agredi-lo, arranhar o seu rosto para enchê-lo de cicatrizes e acabar com sua carreira de modelo.
Era a primeira vez que suas intrigas não surtiam resultado.
Régis não era tolo como os demais.
Pensava com a própria cabeça, tinha intuição aguçada, logo percebendo que ela morria de invejada irmã.
Ia externar seu ódio quando Natália entrou na cozinha.
- Vocês ainda não tiraram esses cacos? - surpreendeu-se.
- Estamos acabando - concluiu Patrícia, atirando o jornal com os cacos no lixo.
Régis deu as costas a ela, aproximando-se de Natália.
Estreitou-a junto ao peito, como se quisesse protegê-la da influência perniciosa da irmã.
- Está tudo bem? - estranhou ela.
- Eu a amo, sabia? - murmurou ele.
Não se esqueça.
Por você, sou capaz de tudo.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72008
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 17, 2015 11:32 am

Um tufão parecia ter passado por eles, tamanha a fúria com que Patrícia saiu da cozinha.
- Acho que ela está com ciúme - observou Natália.
Todo meu tempo livre, passo com você.
Talvez seja melhor dar um pouco de atenção a ela.
- Patrícia não precisa da sua atenção.
Precisa de um namorado.
- Você acha?
- Alguém que a deixe ocupada.
- Mas ela é tão novinha.
- Não se iluda, Natália.
Ela pode ser novinha, mas é bem esperta.
- Por que diz isso?
Você notou alguma coisa?
- Nada. Só que ela está na idade disso mesmo.
, - Nós também - gracejou ela, apertando-se a ele.
Não sou assim tão mais velha do que Patrícia.
- Você é mais madura, mais consciente, mais mulher.
Beijaram-se longamente, acompanhados do olhar perscrutador de Patrícia, que fingia ver televisão.
Em seguida, Natália se afastou, a fim de preparar sanduíches para o lanche.
Régis a ajudou, contrariado por ter de aceitar a presença de Patrícia.
Agora que a conhecia, gostaria que ela fosse embora.
- Venha comer, Patrícia! - chamou Natália, assim que aprontou tudo.
O tempo em que passou sozinha em frente à TV foi suficiente para Patrícia se recompor.
Em vez da atracção que sentira por Régis quando o vira pela primeira vez, o que experimentava agora era raiva.
Ele descobrira quem ela era, desvendara seu segredo, e ela precisava impedir que ele contasse à Natália.
- Quando é que você vai cumprir sua promessa? - sondou ela, dirigindo-se a Régis.
- Que promessa? - tornou ele.
- Já se esqueceu?
Você prometeu me levar para conhecer o estúdio e a agência onde você trabalha.
- Ah! Isso... Qualquer dia desses.
- Não pode ser amanhã?
- Acho que não vai dar.
- Está vendo só, Natália?
Régis está querendo me enrolar.
Prometeu e não quer cumprir.
Ele a fuzilou com o olhar.
Já ia revidar quando Natália interveio:
- Será que não dá mesmo, Régis?
Ia ser bom para ela sair um pouco.
- É, Régis, ia ser bom para mim.
E que companhia seria melhor do que o namorado da minha irmã?
Se pudesse esganá-la, Régis o faria.
Patrícia estava manipulando os sentimentos da irmã para alcançar seu objectivo.
- Por favor, querido, faça isso por mim - pediu Natália, com voz doce.
Eu ia ficar mais feliz sabendo que Patrícia está se divertindo, em segurança, ao seu lado.
- E então, Régis? - insistiu Patrícia.
Qual a sua resposta?
- Está bem. Mas a sessão de fotos começa cedo.
Tenho que estar no estúdio às oito horas.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72008
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 17, 2015 11:33 am

- Tudo bem. Às seis, estarei de pé.
Ficou acertado daquela forma.
Às sete da manhã, Régis passaria por lá para apanhar Patrícia.
Depois do lanche, assistiram um pouco de televisão, até que Régis foi para casa.
Natália acompanhou-o da janela, esperando vê-lo sumir no fim da rua.
Atrás dela, Patrícia também seguia os passos dele, remoendo a raiva por ter sido descoberta, sentindo uma inveja tão grande que se afastou, com medo de que Natália percebesse o que passava em seu coração.
Eram sete da manhã quando Régis tocou o interfone na casa de Natália.
Falou com a namorada, mas não subiu.
Não podia se atrasar.
Patrícia desceu as escadas correndo, tão eufórica que nem quis esperar o elevador.
- Bom-dia, cunhado - cumprimentou, em tom de deboche.
- Bom-dia. Vamos logo.
Saiu andando sem esperar por ela, que precisou apertar o passo para acompanhá-lo.
Tomaram o ónibus, Régis pagou a passagem dos dois, sentando-se com ela num banco à frente.
- Por que o mau humor? - provocou ela.
- Escute aqui, Patrícia, só estou fazendo isso pela sua irmã.
Então, por favor, fique em silêncio e aproveite o passeio.
- Não acredito. Acho que você me trouxe porque gosta de mim.
Do contrário, teria contado tudo a Natália.
- Não contei porque ela não acreditaria e porque não quero lhe dar esse desgosto.
Mas não se iluda.
Farei de tudo para que ela perceba quem você é.
- É mesmo? Cuidado para que eu não faça isso primeiro.
Parecia uma ameaça velada.
Régis encarou-a com desprezo.
Ela não sabia nada da vida dele, não podia prejudicá-lo.
Patrícia o encarava de volta, com olhar divertido, os lábios entreabertos, tentando ser sedutora.
De forma ousada, ela colocou a mão no joelho dele, subindo-a lentamente pela sua coxa.
- Ponha-se no seu lugar, menina - irritou-se, apertando--lhe os dedos.
Não gosto de crianças, muito menos de vadias.
A reacção dele encheu-a de ódio.
Patrícia recolheu a mão, fitando-o com uma fúria quase palpável.
Estava com tanta raiva que seu rosto chegou a se avermelhar.
- Não pense que isso vai ficar assim - revidou colérica.
Ainda vou fazer você vir correndo para mim feito um cachorrinho.
- Vá sonhando.
- Quando Natália o deixar, é de mim que você vai se lembrar.
- Nem que você fosse a última mulher no mundo.
Chegaram ao ponto, onde Régis deu o sinal, cutucando-a para se levantar.
Patrícia saltou na frente, seguida por ele, que vinha de cara emburrada.
No estúdio, foi difícil se concentrar nas fotos.
A presença de Patrícia o incomodava e ameaçava.
Ele a apresentou a todo mundo, sentindo que iria se arrepender.
Patrícia conversou com todos, tentou demonstrar uma simpatia forçada, interesseira.
Ninguém simpatizou muito com ela.
Trataram-na bem por educação, mas não lhe deram muita importância.
Régis deu graças a Deus quando terminou a sessão de fotos.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72008
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 17, 2015 11:33 am

Estava irritado, louco para se livrar de Patrícia.
Após mudar de roupa, chamou-a para irem embora.
- Adorei conhecer seu local de trabalho - comentou ela, como se inexistisse hostilidade entre eles.
Régis não respondeu. Estava assustado, atónito.
Ao alcançar a rua, viu um carro seu conhecido encostado ao meio-fio. Estremeceu.
Não podia ser Bira. Não com Patrícia ali.
Como da outra vez, o vidro traseiro se abriu e o rosto endurecido do traficante surgiu na janela.
- E aí, garoto? - cumprimentou ele. - Como vai?
- Não posso falar agora revidou entre os dentes.
Por mais que ele quisesse, não conseguiu ocultar Patrícia de Bira, porque ela estava parada bem atrás dele.
- Quem é a gatinha? - tornou Bira, encantando Patrícia.
- Uma amiga. Agora, com licença.
Estamos com pressa.
- Sou Patrícia - adiantou-se ela, ignorando a clara preocupação dele.
E você, quem é?
- Bira. Muito prazer.
A mútua simpatia quase fez Régis desmaiar.
Queria arrancar Patrícia dali às pressas, nem que fosse aos tapas.
Ela podia ser uma sem-vergonha atrevida, mas era uma menina, irmã de sua namorada.
A última coisa que ele queria era que ela se envolvesse com um tipo feito Bira.
- Vamos embora - ordenou, puxando-a pelo braço.
- Calma aí! - objectou Bira. - Por que a pressa?
Deixe a menina conversar.
Para aumentar ainda mais o desespero de Régis, Bira saltou do carro.
Assim como acontecera com ele, Patrícia se deixou empolgar pela imponência de seu porte.
- Olhe, Bira, outra hora conversaremos.
Agora tenho que levar a menina para casa.
- Não tem, não - objectou ela, passando na frente dele.
Na verdade, estou de férias, sem compromisso.
- Sério? Que tal então se nós três déssemos uma volta?
- Não vai dar...
Régis não conseguiu concluir a objecção, porque Patrícia já havia se antecipado e entrado no carro.
Bira sorriu maliciosamente, entrando atrás dela.
- Você não vem? - perguntou a Régis.
Não lhe restou escolha.
Régis não deixaria Patrícia sozinha com ele por nada.
Encurralado, sentou-se ao lado de Bira, tentando olhar para Patrícia do outro lado.
Ela, porém, parecia ter perdido completamente o interesse por ele, embevecida com as atenções do traficante.
- Aonde vamos? - perguntou ela, usando de uma inocência forçada.
- Aonde quer ir?
- Hum... Podíamos ir almoçar.
Estou morrendo de fome.
- Ainda não almoçaram, até essa hora? - Bira fingiu indignação.
- Régis não quis me levar - queixou-se ela, fazendo beicinho.
- Então, vou levá-la a um lugar especial. A comida é maravilhosa.
Régis estava enojado.
Patrícia fingia uma infantilidade que não era dela, só porque percebera que era o que agradava Bira.
Este, por sua vez, forçava uma gentileza que não fazia parte de seu temperamento, obviamente, para conquistar a menina.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72008
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 17, 2015 11:33 am

Foram a um restaurante de frutos do mar, mas Régis quase não conseguiu comer.
Patrícia, por outro lado, comia com vontade, divertindo-se com os galanteios de Bira.
- De onde vocês se conhecem? - ela quis saber.
- Da rua - esclareceu Bira. - Somos praticamente vizinhos.
- É mesmo? E o que você faz?
- Sou um homem de negócios.
Mercadoria importada, da mais alta qualidade.
- Que tipo de mercadoria?
- Produtos químicos, em geral.
- Tipo produtos de laboratório?
Ele riu gostosamente, causando calafrios em Régis.
- Pode-se dizer que sim - afirmou ele, fixando um olhar frio em Régis.
Patrícia podia ser tudo, menos tola.
Fingia inocência para agradar Bira, mas imaginava o que ele fazia.
Não tinha certeza se ele era traficante.
Podia ser, como podia traficar armas, ser bicheiro ou coisa parecida.
A única coisa que ela sabia era que o negócio dele era ilícito e devia dar muito dinheiro, a supor pelo seu carrão e as roupas de grife que usava.
Sem contar o monte de ouro pendurado em seu pescoço.
- Está na hora de irmos embora - anunciou Régis, doido para sair dali.
- Régis tem razão - concordou Bira, consultando o relógio.
- Está ficando tarde.
- Podemos nos encontrar de novo?
- Acho que não - objectou Régis.
Bira é um homem ocupado, não tem tempo para perder com crianças.
- Na verdade, Patrícia, eu adoraria - contrapôs Bira, divertindo-se imensamente com a contrariedade de Régis.
- Sério? Quando pode ser isso?
- Por que não me dá seu telefone? Podemos nos falar.
- Está certo. Quer anotar meu celular?
Aumentando a contrariedade de Régis, Bira e Patrícia trocaram telefones.
Ele não podia acreditar que aquilo estivesse acontecendo.
Natália jamais o perdoaria por envolver a irmã com um traficante, mas ele nada podia fazer.
Bira era perigoso, e Patrícia, inconsequente.
Na porta da casa de Natália, os dois saltaram.
Bira abraçou Patrícia, beijou-a nas faces.
Régis assistia a tudo sem dizer nada, paralisado pela sua impotência.
- Mande um abraço a sua mãe e sua avó por mim - finalizou Bira, piscando um olho para ele.
Outra hora, voltaremos a nos falar.
Ele se foi, deixando Régis apavorado, trémulo, temendo, mais do que nunca pela vida das pessoas de quem mais gostava.
Não sabia mais o que fazer.
Era uma pressão quase irresistível, um medo atroz de perder quem amava.
- Você ficou louca? - ele quase gritou, apertando o braço de Patrícia.
- Solte-me. Está me machucando.
- Tem ideia do que você fez?
Sabe quem é esse cara?
- Não é amigo seu?
- Não se faça de cínica, idiota!
Ele é um traficante de drogas.
É com esse tipo de gente que quer se envolver?
- E daí? Não tenho nada a ver com o que ele faz.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72008
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 17, 2015 11:33 am

- Não seja estúpida, Patrícia.
Quando alguém se envolve com um traficante, tem tudo a ver com o que ele faz.
- É assim com você, Régis?
Está envolvido com ele?
- De uma certa forma, sim, mas estou lutando para que ele me deixe em paz.
- O que ele quer de você?
- Nada que lhe interesse.
- Você usa drogas? É viciado?
- Não uso drogas. Detesto qualquer tipo de droga.
E aconselho você a ficar longe disso também.
- Já experimentei maconha na escola. Até que foi legal.
- Você não sabe o que está dizendo.
Quer estragar sua vida?
- Não exagere, Régis. Achei Bira muito simpático.
Não creio que me fizesse algum mal.
- Idiota. Bira a usará até não precisar mais.
Depois, vai mandar alguém dar sumiço em você.
- Não acredito. Bira é simpático, gentil, um verdadeiro cavalheiro.
- Pelo amor de Deus, menina, escute o que estou dizendo.
Afaste-se de Bira. Ele é perigoso, do tipo que manda matar.
- Só tem um jeito de você fazer eu me afastar dele.
- Qual?
- Transando comigo.
- O quê?!
- É isso mesmo que você ouviu.
Transe comigo, e ficarei longe dele.
Se recusar, não apenas dormirei com ele, como contarei tudo a Natália.
E não estou falando de mim.
Estou falando de você.
Não sei se ela gostaria de saber que o namoradinho perfeito dela está comprometido com um traficante.
- Você não seria capaz.
- Acha mesmo que não?
Experimente não fazer o que eu quero.
- Cachorra! - rugiu ele, empregando considerável esforço para não a esbofetear.
Ela sorriu de um jeito diabólico.
Deu as costas a ele e entrou no prédio.
Faltava pouco para Natália chegar, o suficiente para uma transa rápida.
- Você vem ou não vem? - indagou ela, parada na portaria.
- Nosso tempo está acabando.
Por um momento, Régis quase cedeu.
Encurralado, achava que não tinha outro jeito.
Deu dois passos em direcção a ela, resignado ante a inevitabilidade do destino.
Ao se aproximar, mudou de ideia.
O sorriso de vitória dela o encheu de raiva.
- Faça o que quiser - sussurrou com revolta.
Não vou me vender a você.
Nem teve tempo de assistir à mudança na fisionomia dela, que passou do triunfo ao ódio em questão de segundos.
Régis rodou nos calcanhares e quase correu pela rua.
Queria afastar-se dela o mais rápido possível.
Sabia que estava colocando sua felicidade em jogo, mas ao menos naquele momento não podia ceder.
Não queria. Em nome do amor que sentia por Natália, não se deixaria chantagear por ninguém.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72008
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 17, 2015 11:33 am

Capitulo 33

Atílio parecia desesperado.
Mandara vários soldados atrás de Damien e Tácio, mas ninguém conseguira encontrá-los.
Não fazia a menor ideia de onde eles estavam, o que o deixava atónito, preocupado.
Como fora imprudente!
Tão logo percebera uma certa dificuldade em ler alguns dos pensamentos de Damien, devia ter detectado seus planos de traição.
- Não é possível - disse ele a um de seus comandados.
- Damien tem que estar em algum lugar.
- Já procuramos em tudo.
A cabana dele está abandonada.
Parece que ele e Tácio fugiram.
- E largaram Mizael à própria sorte.
É por isso que meu plano está ruindo.
Sem a influência deles, Mizael está se deixando tomar pela influência da mãe.
Isso não pode acontecer.
Foram anos de um projecto muito bem calculado.
Mas agora tudo parece perdido.
- Quer que mande alguém ocupar o lugar de Damien?
Temos bons soldados aqui que ficariam honrados em assumir essa tarefa.
- Não. Não confio em mais ninguém.
Eu mesmo vou cuidar desse assunto.
- O senhor?
- Não me agrada muito me afastar daqui, mas é preciso.
Não posso abandonar Mizael depois de haver-lhe prometido apoio.
Sem mim, ele vai se perder.
E depois, vai me acusar.
Atílio falava como se sua protecção fosse a única coisa que manteria Mizael longe do caminho da luz.
Não compreendia que essa escolha pertence ao próprio espírito, não é um fracasso provocado por ninguém.
É, sim, uma vitória sobre as tendências malignas, uma conquista da alma, incapaz, portanto, de gerar arrependimentos ou cobranças.
Uma vez superada a índole daninha, o espírito não retorna mais ao mal.
Preparou-se para partir.
Fazia tempos que não ia à superfície, de modo que estava inseguro.
Habituado a transitar no submundo das sombras, tinha medo de se deparar com coisas com as quais não soubesse mais lidar.
Ainda assim, foi-se.
Mizael merecia aquele sacrifício.
Depois de colocar Mizael de volta no eixo, cuidaria de Damien e Tácio.
Chegou à porta da casa de Régis, o máximo aonde poderia ir.
Logo na entrada, percebeu o cinturão energético que havia anos protegia a residência.
Olhou para os lados, mas nem sinal de seus dois comandados.
Régis também não estava por ali.
Andando de um lado para outro, aguardou.
Quando, finalmente, Régis apareceu, Atílio partiu atrás dele, impressionado com a sua aparência física.
Ele se tornara um homem realmente atraente.
"Como sempre" pensou.
"Mizael nunca aceitaria um corpo feio."
Caminhando a seu lado, auscultou-lhe os pensamentos, surpreendendo-se com o avanço da situação.
As coisas estavam muito piores do que ele imaginava.
Além de ter dispensado a amizade do traficante, trabalhava honestamente e tinha até uma namorada.
Não era possível.
- Mizael - chamou.
Pode me ouvir?
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72008
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 17, 2015 11:34 am

Régis não lhe registava a presença.
Fazia muitos anos que Atílio não assediava ninguém.
Não estava mais acostumado ao contacto com os vivos, sentia-se incomodado com a energia vital que circulava ao redor do mundo.
O que subtraía dessa energia era proveniente de feitiços e sacrifícios, nunca do contacto directo com a vida física.
Ele parou na portaria de um prédio, Atílio parou com ele.
Régis tocou o interfone, receoso, à espera de uma reacção adversa de Natália.
Podia ter telefonado, mas sabia que tinha de enfrentar pessoalmente a situação.
Assim que a porta do apartamento se abriu, Atílio sentiu um torpor indefinível, uma angústia inenarrável.
Ficou parado na entrada, sem conseguir se mover.
Régis passou para o lado de dentro, mas ele recebeu na cara a porta que se fechou.
Estava paralisado, atónito, incrédulo.
Seria aquilo mais uma ironia do destino, que tentava desmanchar seus planos usurpando seus entes queridos?
Recuperado do susto, Atílio atravessou a porta para uma sala de visitas lindamente decorada.
O ambiente suave o perturbou, quase causando sua expulsão.
Não percebia a presença de dois espíritos de luz, que, advertidos do encontro, tinham partido para a casa de Natália.
Josué e Uriel assistiam ao desenrolar dos acontecimentos com serenidade e confiança.
- Não é possível - comoveu-se ele, perscrutando a mente de Natália.
Procurei-a por todo lugar.
Como não imaginei que você estaria aqui? Nora...
Ao pronunciar o nome dela, desabou em prantos.
Sentia-se mais perdido do que nunca.
Não conhecia direito Geórgia, embora tivesse ouvido falar de sua grandeza espiritual.
Nora, contudo, ele conhecia bem.
Reconhecia a nobreza de sua alma só de olhar para ela.
E agora, o que iria fazer?
Se o apelo de Geórgia já era difícil para Mizael resistir, que diria de Nora?
Que armadilha era aquela que o mundo lhe armava, colocando em lados opostos as pessoas que mais amava?
Pretendia afastar qualquer obstáculo do caminho de Mizael, mas não podia lutar contra Nora.
Tudo estava perdido.
- Por que não desiste de vez desse projecto insano? - ouviu alguém dizer.
Aterrorizado, Atílio pensou em fugir, mas suas pernas grudaram ao chão, tal qual acontecera com Damien alguns anos antes.
Na mesma hora, a figura diáfana de Josué se fez visível diante dele.
- Quem é você? - esbracejou.
O que faz aqui?
- Sou amigo de Geórgia.
Por meu intermédio, ela conheceu Régis, ou Mizael, como preferir chamá-lo.
- É você o responsável por tudo isso?
- O responsável pela vida é Deus.
E cada um, pela parcela que recebeu.
- Não me venha com joguinhos de palavras.
Não estou interessado na sua filosofia barata.
Solte-me agora, eu exijo!
- Não posso soltá-lo, porque não o estou prendendo.
Na verdade, foi o seu medo que o paralisou.
- Mentira! Não tenho medo de nada.
Muito menos de um fantasminha feito você.
- Fantasminha? - Josué sorriu.
Já me chamaram de muitas coisas, mas essa foi boa.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72008
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 17, 2015 11:34 am

- Dê o fora, velhote. Esses dois não são problema seu.
- E são problema de quem? Seu?
- Vocês são todos uns covardes!
Fingem-se de bonzinhos para nos fazer cair em suas esparrelas.
Quem lhe deu autorização para interferir nos meus planos?
- Você não acha que essa sua arrogância não combina com o seu estado?
Para alguém se impor com tanta veemência, deveria ao menos ser senhor da sua vontade.
- O que está dizendo?
Que besteira é essa?
- Você não consegue nem se mover.
Como pensa que pode me dar ordens?
- Canalha! - vociferou.
Está se aproveitando de mim porque me prendeu com cordas invisíveis.
Solte-me e lhe mostrarei com quem está lidando!
Josué fez como ele pediu.
Com a força do pensamento, desfez o elo mental que o prendia ao chão.
Sentindo-se livre, Atílio avançou para ele.
Ao tentar acertá-lo, porém, uma surpresa.
Seus braços formigaram intensamente, caindo inertes ao longo do corpo.
- O que é isso? - esbracejou.
Mais uma de suas mágicas covardes?
- Não fiz nada - esclareceu Josué bondosamente.
Isso é só o resultado do contacto da sua energia densa com nosso campo de luz, que a faz desmanchar devido ao desfazimento da crosta de sujeira astral grudada em seu corpo fluídico.
- Bruxo! - gritou. - Deixe-me em paz!
Liberte-me, vamos!
- Não o estou prendendo, já disse.
E não se desespere.
O que você sentiu foi o resultado ínfimo de uma limpeza energética.
Imagine essa sensação em seu corpo inteiro.
Atílio estava mais aturdido do que nunca.
Julgava-se tão poderoso, mas perdia para um velho fraco e aparentemente inofensivo.
Subitamente, Natália o atravessou, carregando uma bandeja de suco e biscoitos.
À passagem dela, ele sentiu um arrepio frenético, quase uma dor.
- O que está acontecendo? - gritou ele.
Não compreendo.
- Tenha calma.
Você apenas experimentou um pouco da energia dela.
Não se sente bem?
- Quero ir embora daqui.
Não devia ter vindo.
Sabia que isso não ia acabar bem.
- Pense na oportunidade que está recebendo.
Você pode partir comigo daqui, ir para um lugar melhor, mais tranquilo, onde terá a oportunidade de refazer sua vida.
- Foi isso que fez a Damien e Tácio?
- Damien e Tácio não estão comigo, mas espero vê-los em breve.
- Mentiroso! Você só quer nos enganar.
É uma cilada para nos escravizar, fazer-nos retornar ao mundo como aleijados ou dementes, tudo para satisfazer seus prazeres mórbidos.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72008
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 18, 2015 2:18 pm

- Você não acredita, realmente, nisso.
Está se comportando como criança porque sabe que, daqui para a frente, não poderá mais se iludir com o poder.
Você não tem poder algum.
- Tenho muito mais do que você imagina.
Pode ser que você saiba de truques que eu desconheço, mas sou o rei na minha cidade.
- Será?
O que dirão seus súbditos quando souberem que você está preso aqui pela fraqueza da sua vontade?
- Não tenho medo das suas ameaças.
- Sei que não.
E, se não quer mesmo ir embora comigo, então sugiro que volte para o seu reino.
Aqui não é mais o seu lugar.
Josué se tornou invisível, dando a Atílio a oportunidade de fugir.
Não adiantava insistir para salvá-lo, se ele não queria ser salvo.
- E agora? - indagou Uriel.
- Penso que Atílio já percebeu que está perdendo.
- Você acha que Régis vai finalmente se acertar?
- Vamos orar para isso.
Mesmo livre da influência dos espíritos das sombras, existe a tendência que ele tem que vencer.
- Natália é uma boa influência. Mas Patrícia...
- Patrícia é mais uma iludida.
Oremos por ela também.
De mãos dadas, os dois espíritos rezaram pelo sucesso daquelas almas.
Renovaram a energia do ambiente, um pouco perturbada pela presença de Atílio, e partiram.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72008
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 18, 2015 2:18 pm

Capitulo 34

Natália desligou o telefone e voltou para junto de Régis, apanhando um biscoito da bandeja em cima da mesinha.
- Era o meu pai - anunciou ela.
Vai chegar de São Paulo amanhã.
- Ele vai ficar aqui, na sua casa?
- Vai. Os hotéis estão todos lotados, e a casa da minha mãe não é lá uma opção muito boa.
Eles estão se divorciando.
- Entendo.
- Você vai gostar de conhecê-lo.
Ele fez cara de dúvida e mudou de assunto:
- E Patrícia, onde está?
- Foi à praia com mamãe.
- Você não quis ir?
- Só se você fosse comigo.
- Não gosto de praia.
Detesto ficar torrado e todo ardido.
Natália riu, acariciando seu rosto.
- Para isso é que inventaram o protector solar.
Ele riu também, beijando-a com amor.
- Tive uma ideia - falou ele.
Já que vou conhecer o seu pai amanhã, vou levá-la hoje para conhecer minha mãe e minha avó.
O que acha?
- Sério, Régis? Eu adoraria!
- Então vamos.
- Agora?
Você não vai nem avisá-las?
- Não precisa.
Elas vão adorar a surpresa.
Saíram às pressas.
Fora uma ideia repentina, uma vontade louca de inserir Natália em sua família.
Tinha certeza de que a mãe e a avó gostariam muito dela.
Como sua casa não era longe, logo a alcançaram.
- Oi, vó - cumprimentou ele.
Trouxe alguém para conhecer você. - Cléia levantou os olhos da tábua de passar roupas para encarar Natália, parada atrás de Régis.
- Quem é essa mocinha linda? - perguntou ela, estudando bem as faces de Natália.
- Minha namorada - respondeu Régis, satisfeito.
O nome dela é Natália.
- Finalmente! Ouvimos muito falar de você.
- Régis também fala muito bem da senhora - disse Natália.
E de dona Geórgia.
- Minha mãe não está? - quis saber Régis.
- Foi ao mercado, mas não se demora.
Efectivamente, dez minutos depois, Geórgia entrou.
Achou Natália muito bonita e simpática.
Deram-se muito bem, conversaram, contaram histórias e conheceram-se.
Natália passou a tarde com eles.
Régis mostrou a Natália seu book e várias fotos.
Alugou um DVD, ouviram música, passearam de mãos dadas.
- Vou fazer um jantar para apresentá-lo ao meu pai - anunciou Natália.
Quero que você sinta pela minha família o que estou sentindo pela sua.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72008
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 18, 2015 2:18 pm

- Tomara que ele goste do futuro genro dele.
Natália abraçou-o emocionada.
Era a primeira vez que ele falava em casamento, e ela sentia que era sincero.
Quando Régis a deixou em casa, passava da meia-noite.
O dia fora perfeito, maravilhoso.
Ele achava que nada podia estragar sua felicidade, a não ser o Bira.
Logo que Natália subiu, percebeu que o carro dele os seguia.
Estacou, olhando para os lados, com medo de que Natália os visse.
Como não havia ninguém por perto, ele mesmo abriu a porta do carro e entrou.
- Será que dá para parar de me seguir? - irritou-se.
- Você ainda não me deu a resposta.
- Já, sim.
Só que não foi a resposta que você queria.
- Então, por que não me diz o que eu quero ouvir?
- Não entendo, Bira.
Você diz que é grato por eu ter lhe salvado a vida, no entanto não para de me pressionar.
Que gratidão é essa?
- Se eu não fosse grato, você já estaria morto.
Ninguém fala comigo do jeito que você fala.
E só permito isso porque você salvou a minha vida.
- Quer dizer então que agora sou eu que devo ser grato a você por me permitir viver?
- Não entendo você, Régis.
Poucos dias atrás, você daria tudo para ingressar no meu bando.
Sei disso porque Alex me contou.
Mas agora você mudou, me evita, finge que não me vê.
Por quê? - Ele não respondeu.
É por causa da Gislene?
- Você está se tornando repetitivo.
Já disse que não gostei de você ter matado Gislene.
- Faz parte do negócio.
E, se você quiser me substituir um dia, vai ter que se acostumar com isso.
- Como é que é? - indignou-se.
Substituir você?
- Ninguém vive para sempre.
Quero alguém ao meu lado para me representar quando for preciso e para me ajudar com os negócios.
Alguém de confiança.
E ninguém pode ser de mais confiança do que o cara que salvou a minha vida.
- Você está me oferecendo um emprego?
- Exactamente.
- Agradeço muito, mas, caso não tenha percebido, eu já tenho um emprego.
E não estou me saindo assim tão mal.
- Você não está entendendo.
O emprego que estou lhe oferecendo é uma continuação do que você hoje exerce.
Régis balançou a cabeça, indignado.
O que Bira lhe propunha era um disparate.
- Você quer que eu use dos meus conhecimentos como modelo para infiltrar você no meio.
Já disse que não dá.
Não conheço tanta gente assim.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72008
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 18, 2015 2:19 pm

- Conhece, sim - afirmou ele, dando um tapinha no joelho de Régis.
E eu já estou ficando impaciente.
Lembre-se de que você tem muito a perder, a começar pela futura cunhadinha.
Que garota gostosa!
- Você não se atreveria.
Patrícia é só uma criança!
- Posso lhe assegurar que ela é tudo, menos criança.
- Está me dizendo que já transou com ela?
Como? Quando?
- Isso não vem ao caso nem eu estou falando que sim.
Meu negócio com você é outro.
Como ia dizendo, além da sua futura cunhadinha, tem a namorada, a mamãe, a vovó...
Olhe só quanta gente frágil disponível para uma bala perdida.
- Você não pode estar falando sério.
Depois do que fiz por você, ainda se atreve a me ameaçar?
- Você continua não entendendo.
O que você fez por mim está mantendo sua gente viva.
Quando quero uma coisa, costumo ir lá e pegar.
Não sou de ficar esperando nem de dar chances.
Só faço isso porque é você.
E a quem quer enganar, Régis?
Você não é o cara bonzinho que quer parecer.
Sei muito bem que você andou metido em besteiras, junto com aquele viciado do Alex.
- Isso foi no passado.
Agora tomei jeito.
Estou apaixonado...
Ele deixou escapar sem querer, mas Bira não perdeu a oportunidade:
- Apaixonado, não é?
Por que as mulheres sempre estragam tudo?
Você devia ser como eu.
Devia usá-las e depois descartá-las quando não interessassem mais.
- Não sou assassino! - rugiu com raiva.
- Nem eu. Nunca matei ninguém.
Tenho pessoas que fazem isso por mim.
E depois, não são todas que mando matar.
Ao contrário, sou até generoso.
Costumo dar um carro a cada uma das minhas ex-namoradas, desde que não saibam muito da minha vida nem me traiam, como fez a Gislene.
- Chega, Bira, não quero mais saber da sua vida.
Só o que quero é que você me esqueça.
- Então, o que está esperando?
Faça o que estou pedindo e não o aborrecerei mais.
- Você não quer só uma vez.
Quer que eu trabalhe para você.
Nunca vai me deixar em paz.
- No começo, pode ser que você estranhe, mas depois vai gostar, eu prometo.
Quando vir a grana entrar, vai mudar de ideia.
Olhe só para mim.
Pendurado de ouro até o pescoço, carrão do ano, uma mansão lá na comunidade, com segurança particular e tudo.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72008
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 18, 2015 2:19 pm

Mulheres à vontade, roupas de grife, festas de arromba, com uísque importado.
Dá para recusar um vidão desses?
Realmente, a proposta não deixava de ser tentadora.
Uma vida como aquela era tudo com que Régis sempre sonhara, contudo não estava mais interessado.
Natália jamais aceitaria casar-se com um bandido.
Sem contar o desgosto que causaria à mãe e à avó.
Tudo isso pesava na hora de fazer uma escolha, mas o principal mesmo era que ele já não sentia mais afinidade com o crime.
Não pretendia passar o resto da vida fugindo nem se escondendo.
Queria gozar sua liberdade com a tranquilidade dos que nada deviam, mas Bira parecia disposto a não permitir.
- Muito bem, Bira - falou por fim.
Farei como me pede.
Dê-me apenas um tempo para escolher as pessoas certas.
Não quero correr o risco de oferecer a droga a alguém careta.
- Tenho uma lista de nomes para você - ele afirmou, apanhando uma folha de papel da pasta que o capanga do banco da frente lhe estendeu.
Tenho o maior interesse nessas pessoas, gente cheia da grana e influente.
São elas que garantirão o meu próximo passo.
- Que próximo passo?
- Eu não lhe contei? - Ele meneou a cabeça.
Quero me eleger vereador.
Se não estivesse sentado, Régis teria caído para trás.
Podia esperar qualquer coisa, menos aquilo.
Agora compreendia tudo.
Bira não estava propriamente interessado em mais uma área de expansão da droga.
Queria ter nas mãos pessoas influentes para apoiá-lo em sua futura campanha política, e ele se tornara marionete naquele jogo de poder.
- Tudo bem, Bira, dê-me a lista.
A agência fecha na sexta e só reabre na segunda-feira depois do carnaval.
Dê-me o número do seu celular.
Ligarei para você assim que tiver uma posição.
- Sábia decisão, Régis.
E parabéns.
Você acabou de salvar a vida da sua avó.
Régis saltou do carro arrasado.
Então a avó seria a primeira vítima de Bira.
Depois, se não conseguisse o que queria, talvez escolhesse a mãe e, por último, Natália.
Ele não podia permitir.
Vendo-se sem saída, Régis apertou a lista na mão e chorou, temendo pelo seu destino.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72008
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Conteúdo patrocinado


Conteúdo patrocinado


Voltar ao Topo Ir em baixo

Página 8 de 11 Anterior  1, 2, 3 ... 7, 8, 9, 10, 11  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Voltar ao Topo

- Tópicos similares

 
Permissão deste fórum:
Você não pode responder aos tópicos neste fórum