Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 18, 2015 2:19 pm

Capitulo 35

Desde que se casara, poucas foram as vezes em que Júlio visitara a mãe.
Falava com ela ao telefone, ia buscá-la para o aniversário das netas, para passar o Natal com eles, e só.
Ela e Bianca nunca se deram bem, desculpa que ele usava para não ter de retornar aos lugares de sua juventude.
Seu antigo bairro estava cheio de lembranças dolorosas.
A agência bancária em que iniciara sua carreira ainda funcionava no mesmo lugar, com pessoas agora estranhas.
Ninguém mais dos velhos tempos continuava ali.
Soubera por conhecidos que Anselmo conseguira pagar o tempo que faltava para a aposentadoria vendendo sanduíches na praia e agora morava de favor na casa de um parente.
Ele tivera melhor sorte.
Mais forte que tudo era a lembrança de Geórgia.
Não sabia o que fora feito dela.
Perdera contacto com a vizinhança, e, sempre que a mãe falava nela, ele desviava o assunto ou saía de perto.
Não sabia nem se ela ainda morava por ali ou se havia se casado.
Sentiu um ímpeto irresistível de passar diante da casa dela e deu ordens ao motorista do táxi para parar do outro lado da rua.
A casa parecia a mesma, pintadinha de branco com as janelas azuis, como sempre fora.
O jardim continuava bem cuidado, bem típico de Cléia.
Mas não havia ninguém à vista.
Antes que alguém aparecesse, Júlio mandou o taxista seguir adiante, virando a esquina para a casa da filha.
- Papai! - exclamou Natália, abraçando-o efusivamente.
- Que saudade!
- Também senti muita saudade sua - respondeu ele, beijando-a no rosto.
Como estão as coisas?
- Óptimas! Estou cuidando direitinho da casa da vovó.
- Pelo visto, você é muito caprichosa, como sua avó era.
- Adoro morar aqui.
E ainda bem que o apartamento é grande.
Tem um quarto para você e outro para Patrícia.
- Onde está sua irmã, por falar nisso?
- Saiu. Vai à praia todos os dias com mamãe.
- Sua mãe não muda, não é mesmo?
- Deixe-a, pai. Ela é feliz assim.
- Ela está me enrolando com o divórcio.
Não entendo por que não resolvemos logo isso.
- Acho que ela está com medo.
- O único medo que ela tem é de ficar sem nada.
- Você não vai deixar o apartamento para ela?
- Vou. Mas não quero lhe pagar pensão.
Estou lutando por isso.
Sua mãe é jovem, pode trabalhar.
- Acho que você deveria pensar bem a respeito.
Mamãe já passou dos quarenta anos.
Não é fácil arranjar emprego nessa idade.
- Por que ela não vai viver com um de seus casinhos?
Para que um homem, se ele não pode nem sustentá-la?
- Você está ganhando bem, pai.
Não acha que valeria mais a pena pagar a pensão e ficarem amigos?
Ele não respondeu.
Por ele, Bianca não veria um tostão do seu dinheiro e ele não fazia questão de ser amigo dela.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 18, 2015 2:19 pm

- Sua irmã me disse que você está namorando - desconversou.
- É verdade.
- Disse-me que o rapaz é modelo.
- Pelo visto, Patrícia lhe deu o serviço completo.
- Mais ou menos.
Ela está preocupada com você.
- Comigo? Por quê?
- Cá entre nós, minha filha, esse negócio de modelo não é trabalho para ninguém.
- Que preconceito bobo, pai.
É uma profissão como outra qualquer.
- Essa gente vive metida com drogas, farras e bebidas.
Não quero a minha filhinha envolvida nesse meio.
- Isso é uma injustiça.
Há pessoas desequilibradas em qualquer meio social ou profissão.
E Régis não é assim.
Ele não se droga e só bebe socialmente.
Também não é de farras.
Passamos os fins de semana juntos, vamos ao cinema, ao barzinho, à boate, ao teatro.
Coisas altamente inofensivas e normais.
- Tem certeza?
- Absoluta. Você poderá constatar pessoalmente.
Marquei um jantar aqui em casa hoje, para você conhecê-lo.
Depois, reuniremos as famílias.
- Nossa! Já está assim?
Como estou atrasado!
- A mãe e a avó dele são pessoas maravilhosas.
Você vai gostar delas, tenho certeza.
Dona Geórgia ainda é jovem e está solteira - finalizou ela, piscando o olho maliciosamente.
- Dona Geórgia? - surpreendeu-se.
- É o nome da mãe dele.
Tem que ver, pai, que mulher bonita!
Nem parece mãe de um rapaz de vinte e um anos.
Criou Régis só com a ajuda da mãe, sabia?
Dona Cléia também é fantástica.
Você e dona Geórgia podiam se conhecer melhor.
O que você acha?
Não, estou brincando.
Dona Geórgia é muito séria, não ia gostar de um mulherengo feito você.
Júlio não ouvia mais nada.
Era como se um zunido agudo bloqueasse sua audição, torturando sua mente.
Como podia ser?
Que brincadeira era aquela?
Uma peça de mau gosto do destino?
A última pessoa que Júlio pensaria encontrar namorando sua filha era o filho de Geórgia.
Era muita coincidência.
Um acaso macabro, pérfido, daninho.
Horrível demais para ser verdade.
Sim, talvez fosse isso.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 18, 2015 2:19 pm

Talvez aqueles nomes fossem apenas coincidências.
Devia haver muitas Geórgias no mundo, filhas de pessoas chamadas Cléia...
A emoção foi demais para Júlio.
Não era um sonho nem brincadeira. Era real.
Naquele lugar, um rapaz de vinte e um anos, filho de Geórgia e neto de Cléia só podia ser quem ele pensava que era.
Só não entendia como aquilo fora acontecer justo com a sua filha.
- Pai! Pai! - ele ouviu, ao longe, uma voz o chamar.
O que foi que houve?
Você está chorando?
As lágrimas desciam e ele nem percebeu.
Não ouvia, não via, não sentia nada.
De repente, era como se as emoções fossem roubadas de seu coração.
Só um vazio muito grande contaminando seu peito.
- Vou me deitar - anunciou ele.
Não estou me sentindo muito bem.
- Quer ir ao médico? - tornou ela, preocupada.
Tem uma emergência pertinho daqui.
- Não, minha filha, estou bem. Deve ser o calor.
Você mandou instalar o ar condicionado?
- Nos três quartos - confirmou ela. - Como você pediu.
- Óptimo. Então, vou descansar um pouco.
Mais tarde, conversaremos.
Natália ajudou-o a se acomodar.
Ele estava pálido, trémulo, suando frio.
Devia ser o calor, realmente.
Ela ajeitou a cama para ele e ligou o ar refrigerado.
- Está bom? - perguntou ela, testando a temperatura.
- Perfeito. Não se preocupe comigo, Natália.
Mais tarde estarei melhor.
- Está bem. Descanse.
Desfarei sua mala depois.
- Não se preocupe com isso.
Faça o que tiver que fazer, não se prenda por minha causa.
- Certo. Se eu precisar sair, deixarei alguma coisa pronta para você comer.
É só esquentar no micro-ondas.
Ela o beijou na testa e saiu, fechando a porta com cuidado.
Não compreendia aquela reacção do pai, que nunca fora dado a mal-estares.
Enfim, podia ser que a vida em São Paulo o estivesse deixando desacostumado com o calor.
Júlio não conseguiu dormir.
Queria afastar-se de Natália para poder pensar melhor.
Alguma coisa tinha de ser feita para impedir aquele namoro.
Não queria que sua filha se casasse com o fruto de um estupro.
Perguntava-se se Régis sabia.
Talvez Geórgia houvesse lhe contado, talvez não.
De qualquer forma, ele não servia para Natália.
Por meio de Régis, feridas não cicatrizadas seriam remexidas, trazendo de volta toda a dor do passado.
O destino lhe pregava uma peça de muito mau gosto e algo precisava ser feito.
Falar com Natália não surtiria efeito.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 18, 2015 2:20 pm

A experiência lhe dizia que, quanto mais se tentava afastar duas pessoas, mais elas se tornavam próximas.
O jeito era apelar para o bom senso de Geórgia.
Geórgia não devia saber que Natália era filha dele.
Imaginava qual seria sua reacção ao descobrir.
Assim como ele, ela teria mil motivos para desejar impedir aquele namoro.
Sim, a solução seria procurá-la.
Em sua ilusão de menina fútil, Patrícia sentia-se uma princesa, a quem nenhum desejo podia ser negado.
E Régis era o que ela mais desejava naquele momento.
Depois do desprezo com que a tratara, Patrícia precisava conquistá-lo para depois rejeitá-lo.
Só assim se sentiria satisfeita e vingada.
Não tinha a menor ideia de como faria para conseguir seu intento, mas precisava de uma solução rápida.
Foi quando Bira apareceu.
O traficante era atraente, másculo, respeitado por todos na região.
Um homem de verdade.
Patrícia não precisava de dinheiro, mas adorava a vida de emoção que ele levava.
Queria participar daquela vida, ter um lugar em seu coração.
Por isso, mentira à irmã na véspera, dizendo que ia à praia com a mãe, quando, na verdade, fora ao encontro de Bira.
Patrícia não pensou duas vezes quando ele a seduziu.
Achava que o tinha nas mãos só pelo tom de sua voz ao telefone.
Bira estava louco por ela, esmerou-se para agradá-la.
Isso deixaria Régis louco.
Vira como ele ficara no outro dia, quando Bira a cobrira de atenção.
Agora, sabendo que ela praticamente se tornara amante dele, Régis não mais a ignoraria.
Naquele domingo, mesmo sabendo que o pai viria de São Paulo, Patrícia saiu cedo para a casa da mãe.
Iriam à praia e, na volta, Bianca a levaria para casa, junto com sua fantasia de carnaval.
Faltavam dez minutos para as sete da noite quando ela abriu a porta da cozinha.
- Você demorou - observou Natália, contrariada.
- A praia estava uma delícia. Você devia ter ido.
- Domingo tem muito trânsito. E Régis detesta praia.
- Não sabe o que perderam.
- Mamãe trouxe você?
- Trouxe.
- Por que ela não subiu?
- Estava com pressa, sei lá.
E cadé o papai?
- Está se arrumando - informou Natália, cuidando do jantar.
Vá tomar o seu banho e venha me ajudar.
- Ah! Natália, detesto cozinhar.
Não sei fazer nada,
- Não precisa cozinhar.
Basta me ajudar a arrumar a mesa.
Régis vem jantar aqui em casa para conhecer o pai.
- É? - ela mal conseguiu conter a euforia. - Está certo.
- O que é isso nessa bolsa?
- Minha fantasia. Ficou linda!
- Posso ver?
- Vou experimentar depois do banho.
- Então, vá logo.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 18, 2015 2:20 pm

- Vou falar com papai primeiro.
Ela bateu à porta do quarto, atirando-se no pescoço dele quando ela se abriu.
- Que saudade, pai!
Pensei que você não viria.
- Imagine se eu perderia o desfile da minha filhinha.
- Você vai ao desfile?
- Vou. Consegui um lugar no camarote da directoria do banco
Vou vê-la pessoalmente.
- Vai levar Natália e Régis com você?
- Não, vou sozinho.
Infelizmente, o convite que arrumei foi só para um.
- Que pena. Mas pelo menos, você vai.
- Depois do carnaval, acho bom você voltar para casa comigo.
Já perdeu uma semana de aula.
- Ah, pai, a vida só começa depois do carnaval.
E estou pensando em me mudar para cá.
- O quê?
- É isso mesmo que você ouviu.
Acho que vou voltar para o Rio.
Quero morar com a Natália.
- Você está falando besteira.
Sua irmã trabalha e estuda.
- E daí? Sei me virar sozinha,
- Mas só tem um ano que você se mudou para São Paulo!
E o colégio? Como pensa que vou arranjar uma transferência assim, de uma hora para outra?
- Se não arranjar, não faz mal.
Volto a estudar ano que vem.
- E se atrasar um ano? Nem pensar!
- Tudo bem, pai, sei que você vai dar um jeito.
É isso que eu quero. Já está decidido.
Júlio suspirou profundamente.
Não conseguia negar nada a Patrícia.
Depois de todo o trabalho que tivera para levá-la para São Paulo, não compreendia por que ela queria voltar às pressas para o Rio.
Mal sabia ele que seus interesses eram outros.
Patrícia só queria ficar por causa de Régis e Bira.
Não era possível ir para São Paulo, onde não tinha nada, e deixar a irmã com aquele namorado divino.
Régis tinha de ser dela, e Bira a ajudaria a conquistá-lo.
- Já falou com Natália? - tornou Júlio.
- Ainda não. Mas tenho certeza de que ela vai concordar.
E depois, alguém precisa ficar por aqui para pôr um freio nela.
Você acha certo ela ficar trazendo o namorado para dormir aqui?
- Sua irmã faz isso?
- Faz.
Por mais que Júlio soubesse que Natália se transformara em mulher, era-lhe difícil aceitar que sua filha já dormia com homens.
Ainda mais se o homem era o filho de Geórgia.
- Pensando bem, talvez seja uma boa ideia.
Mas precisamos falar com ela antes.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 18, 2015 2:20 pm

- Deixo isso com você, está bem?
Afinal, esse apartamento é seu.
Tenho tanto direito a ele quanto Natália.
Com um beijo, saiu.
Deixou a sacola com a fantasia no quarto e foi para o banho.
Demorou-se o mais que pôde, para não ter de ajudar Natália com a mesa.
Detestava qualquer serviço doméstico.
Para isso, o pai tinha empregada.
Do banheiro, ouviu o interfone tocar, sinal de que Régis havia chegado.
Fechou a torneira, antegozando o momento em que faria sua entrada triunfal.
Natália recebeu Régis na porta da sala.
Ele a beijou suavemente nos lábios, com medo de desgostar seu futuro sogro.
Quando Natália o apresentou a ele, Régis estendeu-lhe a mão com cortesia, recebendo dele um cumprimento frio.
Sentaram-se no sofá, onde Natália havia servido uns canapés que ela mesma preparara.
Régis elogiou seu dom para a culinária, esperando que o pai dela fizesse o mesmo.
Júlio, porém, não se mostrava nada simpático.
- Então, você é modelo - disse em tom glacial.
- Sou, sim, senhor.
- E isso é uma profissão?
- É.
- Quantos anos você precisou estudar para ser modelo?
- Pai! - censurou Natália, espantada com a atitude dele.
- Na verdade, não é preciso muito estudo para ser modelo - esclareceu Régis.
Mas quanto mais inteligentes formos, mais respeito obteremos na carreira e mais chance de sucesso teremos.
"Boa resposta", pensou Natália, olhando para ele com orgulho.
Régis podia não fazer faculdade, mas era muito inteligente.
- Para que, exactamente, serve a inteligência nessa profissão? - insistiu Júlio, para desespero de Natália, que o fuzilava com os olhos.
- Temos que ter carisma, ser simpáticos, bem falantes.
Não adianta nada ser bonito e falar errado com os publicitários, por exemplo.
Nosso dom para o diálogo deve ser natural, precisamos nos relacionar bem com todo mundo, e, se você não é uma pessoa inteligente, pode ter problemas nessa hora.
Clareza de raciocínio e facilidade de comunicação são fundamentais.
Sem contar a disciplina.
Não somos vagabundos fazendo figura bonita.
Temos que respeitar os horários, as regras, os contratos.
É uma disciplina meio rígida, porém, compensadora.
Júlio não sabia como rebater.
Limitou-se a balançar a cabeça, pensando em algo para dizer.
Como não encontrou, resolveu mudar de assunto:
- E seus pais? O que acham disso?
- Meu pai morreu.
Moro com minha mãe e minha avó, e elas são totalmente a favor.
- Seu pai morreu? De quê?
- Ele era doente - respondeu acabrunhado.
- Que tipo de doença ele tinha?
Sentindo-se encurralado, Régis evitou encará-lo.
Mordeu o canapé, para pensar no que fazer.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 18, 2015 2:20 pm

Por fim, resolveu ser sincero:
- Desculpe-me, senhor, mas não gosto de falar sobre isso.
- É, pai, deixe de ser indiscreto - censurou Natália.
Você nunca foi assim.
- Desde que não esteja em jogo a vida da minha filha.
Mas, se você traz um sujeito para dormir em minha casa com você, tenho todo o direito de interrogá-lo.
Régis quase engasgou com o canapé, ia responder alguma coisa, mas Natália interveio:
- Isso não se faz, pai.
Está deixando Régis sem graça.
Sou maior de idade e você me deu o apartamento para morar.
Posso fazer o que quiser da minha vida.
- Por certo - concordou Júlio, meio aborrecido.
Mas isso não me impede de querer o melhor para minha filha.
Ou será que não devo me preocupar com você?
- Deixe, Natália, eu compreendo - intercedeu Régis.
Seu pai está preocupado, o que é plenamente compreensível.
Mas posso assegurar-lhe, seu Júlio, que tenho pela sua filha o maior respeito.
- Estou vendo.
- Amo-a de verdade.
Futuramente, pretendo casar-me com ela.
"Mas nem que os oceanos sequem!", ele pensou, porém disse outra coisa:
- Casamento é coisa séria.
Vocês são duas crianças.
- Por isso falei: futuramente.
Estou no início da carreira, e Natália ainda está na faculdade.
Contudo, nada nos impede de fazermos planos para o futuro.
- Sei. E sua mãe concorda com isso?
- Ela pensa mais ou menos como o senhor.
Acha que somos muito jovens e podemos esperar.
- Pelo menos ela tem juízo.
Falando em mãe, o que a sua faz?
- Ela é pedagoga.
Trabalha na Secretaria de Educação.
- Ela fez faculdade? - admirou-se.
- Fez - respondeu Régis, estranhando a pergunta.
- Sua mãe fez faculdade. Quem diria?
- O que tem de mais, pai? - replicou Natália.
Você fala como se fosse algo do outro mundo uma mulher fazer faculdade.
Mesmo naquela época, já era uma coisa normal.
- É claro, minha filha. Que bobagem a minha.
Mas conte-me mais sobre sua mãe, rapaz. Ela é feliz?
- Feliz? - espantou-se. - Acho que sim.
- Não se casou?
Quero dizer, depois que seu pai morreu?
- Não.
- Vocês ainda moram na mesma casa?
- Como assim?
O senhor conhece a nossa casa?
Por muito pouco, Júlio não se delatou.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 18, 2015 2:21 pm

A conversa levava sua mente ao passado, fazendo-a divagar nas reminiscências da juventude.
- Conhecer a sua casa? - repetiu ele, atónito.
É claro que não. De onde tirou essa ideia?
Só perguntei isso porque minha mãe morou anos nesse apartamento.
Queria saber se vocês também moram aqui há muito tempo.
- Desde sempre. Nasci neste bairro.
- Compreendo...
A palavra morreu nos lábios de Júlio, tornada muda pelo espanto do que ele agora via.
Seguindo seu olhar, Natália e Régis tiveram a mesma visão surpreendente.
Patrícia havia acabado de entrar na sala, vestindo a fantasia com que desfilaria na escola de samba, de salto alto, toda maquiada.
Era uma roupa sumária, transparente, cheia de paetês.
Uma pequena tanga e um bustiê, encimados por um manto diáfano.
Ela entrou na sala como se pisasse na passarela.
Estendeu os braços, mostrando a transparência cintilante da capa, e deu várias voltas pela sala, exibindo as formas perfeitas, o corpo quase despido por debaixo do traje minúsculo.
Mesmo sem querer, Régis sentiu o efeito daquela visão.
Patrícia estava deslumbrante, sensual, revelando a mulher sedutora por cima da imagem de menina.
Ele prendeu o fôlego, temendo desviar os olhos da estonteante figura.
Todos estavam atónitos, embasbacados, paralisados de espanto.
Até que, de repente, o grito enérgico de Júlio quebrou o feitiço do momento:
- Patrícia! O que significa isso?
- Minha fantasia - anunciou ela, de forma displicente e atrevida.
É assim que vou desfilar na Portela.
- Isso lá são trajes de menina?
Pensei que você fosse desfilar com uma fantasia decente.
- Não sou menina - queixou-se.
E minha mãe deixou.
- Isso só podia ser coisa de Bianca.
Vá já trocar essa roupa!
Não vê que nem fica bem você aparecer assim na frente do namorado da sua irmã?
- O que é que tem?
Régis só tem olhos para Natália. Não é, Régis?
Régis não respondeu.
Estava com Patrícia em seu limite.
Simplesmente apertou a mão de Natália, olhando-a com ar de paixão, como a dizer-lhe que nada daquilo o impressionava.
O impacto que Patrícia lhe causara fora só físico, momentâneo.
Cada vez mais a desprezava pela sua falta de senso e de respeito.
Nem viu quando Patrícia se foi.
Altamente aborrecido, Júlio levantou-se do sofá e arrastou-a de volta ao quarto pelo braço.
Régis e Natália ficaram a sós, tentando entender por que a noite dera errado.
- Acho melhor eu ir embora - comentou Régis.
Seu pai não gostou de mim e sua irmã quer chamar a atenção.
- Por favor, Régis, não vá.
Fiz tudo com o maior carinho, para você e meu pai se conhecerem.
- Eu sei, querida, mas está na cara que seu pai não simpatizou comigo.
Acho que é preconceito, por eu ser modelo.
- Ele vai se acostumar. E Patrícia é só uma criança.
Você mesmo disse que ela quer chamar a atenção.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 18, 2015 2:21 pm

Júlio reapareceu em seguida, envergonhado.
Deixou Patrícia no quarto, proibindo-a de voltar à sala, com medo de despertar a cobiça de Régis.
Ele já dormia com Natália.
Júlio não suportaria se seduzisse também Patrícia.
- Perdoe-me pela minha filha - balbuciou ele.
Não sei o que deu nela.
- Patrícia é muito mimada, isso sim - disse Natália, com uma certa irritação.
Você a deixa fazer tudo o que quer.
- Eu não sabia que ela ia vestir essa fantasia.
- Não estou falando disso.
Você é permissivo demais, não lhe dá nenhum correctivo.
Sempre foi assim, desde que éramos pequenas.
- Acho melhor eu ir andando - anunciou Régis, sentindo-se mal em presenciar aquela discussão em família.
- Também acho - concordou Júlio.
Não foi uma boa ideia esse jantar, minha filha.
Bem se vê que vivemos em mundos totalmente diferentes.
Você não devia ter vindo se enfiar aqui, nesse subúrbio.
- Essa foi a casa da sua mãe!
O lugar onde você foi criado.
- Nossa realidade agora é outra.
Régis pertence a este lugar. Você, não.
- Não acredito! - esbracejou ela.
Não é meu pai que está falando.
- Por favor, Natália, não briguem por minha causa - pediu Régis, cada vez mais constrangido.
- Não tenha essa pretensão, rapaz - rebateu Júlio, com desdém.
Você não tem essa importância toda.
Não passa de um namorico de estação.
- Pai! - objectou Natália, com veemência.
- Estou de saída - anunciou Régis, cerrando os punhos para não acertar um murro na face de Júlio.
- Régis, espere! - chamou Natália, seguindo atrás dele.
- Não se incomode, minha querida.
Ligue-me quando seu pai voltar para São Paulo.
Não quero ser motivo de desavenças em família.
Saiu, deixando Natália aos prantos no corredor.
Sua vontade era voltar e estreitá-la nos braços, mas não queria ficar perto de Júlio.
Por pouco não o esmurrara.
E Patrícia também merecia uma lição.
- Estou mudado mesmo - disse para si.
Em outros tempos, teria partido a cara daquele otário.
Alcançou a rua, dando graças a Deus por ter saído dali.
Amava Natália, não permitiria que o pai ou a irmã dela os separasse.
Contudo, dividir com eles o mesmo ambiente era demais.
Não entendia bem por que Júlio não simpatizara com ele.
A única explicação que encontrou foi sua carreira de modelo.
Mas ele estava errado em seu julgamento.
Régis agora era uma pessoa decente, não tinha nada de que se envergonhar.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 18, 2015 2:21 pm

Capitulo 36

Finalmente, Tácio e Damien reuniram coragem para aparecer.
Desde que haviam fugido do covil de Atílio, haviam permanecido escondidos em uma ravina árida no submundo astral.
Por ali havia poucos espíritos, fugitivos como eles, seres atormentados que oscilavam entre a culpa e o desejo de se modificar.
Todos tinham algo em comum: o medo.
- Quero ver o meu filho - anunciou Tácio, cansado de ficar sentado sem fazer nada.
- Você acha que é prudente? - contrapôs Damien.
- Nós já fugimos.
O que pode nos acontecer?
- Atílio deve estar louco à nossa procura.
- Será que você ainda não se convenceu de que Atílio se impõe pelo medo?
O poder dele é só uma ilusão criada para atemorizar os trouxas.
- Pode ser. Mas ele tem um exército.
E se mandar nos prender novamente?
- Não entendo você.
Está aqui há bem mais tempo do que eu e parece que não aprendeu nada.
- E desde quando você é o sabichão?
- Desde que fugi daquela masmorra e percebi que somos nós que criamos a nossa prisão.
Ninguém pode contra nós, a não ser que permitamos.
E não estou mais disposto a permitir que me escravizem.
Sozinho, estou me libertando dos meus grilhões.
Aconselho você a fazer o mesmo.
- Muito esperto.
Mas ainda estamos aqui, escondendo-nos de Atílio.
Cadé a sua coragem?
O olhar de Tácio para Damien foi de vitória.
Vencera o medo acreditando em seu poder.
Sabia que, se não permitisse, Atílio não poderia mais ameaçá-lo.
- Você tem razão, sabia? - retrucou confiante.
Não sou um covarde.
Quero ver o meu filho e é o que vou fazer.
- Deixe isso para lá.
Atílio deve ter mandado alguém nos espionar.
Assim que dermos as caras, vai mandar nos prender.
- Será possível? - irritou-se.
Não adianta eu falar, que você não se convence.
Pois fique aí você, atolado no medo. Eu vou ver o meu filho.
E quero ver se Atílio ou alguém vai me impedir.
Ante o olhar atónito e apavorado de Damien, Tácio esvaneceu no ar.
Não aguentava mais se esconder.
Tinha lá os seus arrependimentos, mas não podia permitir que a culpa o paralisasse a ponto de não fazer nada para impedir a queda de Régis.
Ele era seu filho, sentia que lhe devia isso como forma de compensar a violência que lhe impusera antes mesmo de nascer.
Chegou à Terra pouco depois do anoitecer.
A rua em que Régis morava fervilhava com pessoas voltando do trabalho e de seus afazeres diários.
Parado em frente à casa do filho, esperou.
Logo Geórgia surgiu, causando-lhe uma comoção diferente.
Havia muito não se detinha em Geórgia, sentindo-se tão culpado pelo que lhe fizera que nem se atrevia a aproximar-se.
Ela passou por ele sem notar sua presença.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 19, 2015 11:39 am

Entrou em casa como se ninguém estivesse ali.
Além de Tácio, um outro espírito espreitava.
A mando de Atílio, não desgrudava os olhos da casa de Régis.
Assim que Tácio apareceu, ele logo partiu rumo ao seu covil.
- Tácio voltou - anunciou, satisfeito por ter sido ele a levar a notícia.
Está parado à porta da casa de Mizael.
- Sozinho? - indagou Atílio.
- Sim, senhor.
- E Damien?
- Nem sinal dele.
- Covarde. Está se escondendo.
Tácio, pelo visto, tem mais coragem.
- Quer que junte um pessoal para prendê-lo?
- Não. Farei isso pessoalmente.
Atílio precisava vencer o medo.
Afinal, era poderoso, não podia deixar-se dominar por um espírito inferior.
Se não enfrentasse Tácio, perderia o respeito de seus comandados, que logo tratariam de enfrentá-lo.
Se percebessem que ele estava fraquejando, alguém se atreveria a tentar derrubá-lo e assumir a posição de líder.
Trazer Tácio e Damien de volta funcionaria como a reafirmação de seu poder.
Atílio apareceu bem ao lado de Tácio, que levou um susto ao vê-lo.
A imponência de Atílio provocou um certo temor em Tácio, que quase correu.
Mas ele sabia que, se não o enfrentasse, ficaria para sempre em suas mãos.
Tinha de dar um basta naquela situação.
Mesmo assim, não disse nada, permanecendo na defensiva.
- Onde está Damien? - indagou Atílio, com voz assustadora, à qual Tácio não respondeu.
Você ouviu o que eu disse?
- Ouvi - tornou ele, após alguns segundos.
Mas não sei onde ele está.
- É mentira. Os dois fugiram juntos.
Covardes! - Tácio permaneceu em silêncio.
Não diz nada, covarde?
- Não tenho o que lhe dizer.
- Volte comigo agora mesmo e seu castigo será leve.
Se resistir, acabarei com sua forma astral, devolvendo-o a um limbo de tormentos.
- Sabe de uma coisa, Atílio? - revidou Tácio, encarando-o firmemente agora.
Não creio que você tenha esse poder.
- Atreve-se a me desafiar? - retorquiu irado.
- Não o estou desafiando.
Apenas não acredito mais no poder que você se atribui.
Você não é nenhum mago das trevas para operar magias mirabolantes.
Não passa de um espírito fútil, enganado pela ilusão do poder.
- Você tem coragem ou é muito burro.
Ainda não decidi qual dos dois.
- E você fala demais e pouco age.
Até agora, não o vi cumprir nenhuma de suas ameaças.
Atílio fervia de ódio.
Não imaginava que um viciado insignificante feito Tácio fosse capaz de desafiá-lo.
Precisava fazer alguma coisa.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 19, 2015 11:39 am

Seus soldados o observavam, à espera de uma reacção eficaz.
Pensando nisso, avançou para ele, braços estendidos para esganá-lo.
Tentou passar as mãos ao redor de seu pescoço, mas Tácio segurou-as com força, impedindo-as de tocá-lo.
Atílio ficou apavorado.
Nunca ninguém o superara em força física.
O medo paralisa os tolos, e era isso que permitia que Tácio fizesse o que queria.
Percebendo que não conseguiria sozinho dominá-lo, Atílio lançou mão de seu poder de mando.
A um olhar seu, os espíritos que o acompanhavam avançaram na direcção de Tácio.
Cegos ainda pelo dever de obediência que o medo lhes impunha, nem sequer questionaram o porquê do fracasso da investida do chefe.
Para eles, Tácio era uma ameaça que devia ser contida, e eles estavam ali para proteger Atílio.
Muitos avançaram sobre ele.
Eram em maior número, causando espanto em Tácio.
Ainda segurando os punhos de Atílio, encarou-o.
O outro o olhava com chispas de fogo no olhar, um sorriso mordaz desenhando a ameaça em seus lábios.
O medo derivou da prudência.
Reconhecendo estar em desvantagem, Tácio empurrou Atílio para trás e correu na direcção da casa, com os soldados em seu encalço.
Foi uma cena inusitada.
Sem perceber, Tácio atravessou o cinturão energético ao redor da casa de Geórgia, saltando para a varanda.
Nem se deu conta de que estava lá dentro, surpreendendo-se ao ver os soldados recuarem.
Alguns tentaram atravessar a muralha, sendo arremessados para trás com a mesma força com que investiam contra ela.
- Não é possível! - esbracejou Atílio.
Não pode ser!
Como ele conseguiu isso?
Os soldados estacaram atónitos, olhando para Atílio em busca de orientação.
O líder não sabia o que fazer.
Sentia-se impotente, vencido, humilhado.
Jamais poderia imaginar que Tácio passaria para o outro lado, atravessando um caminho por onde não poderiam segui-lo.
- Saia daí, covarde! - Atílio gritou.
Enfrente-me como homem!
Tácio não respondeu.
Vendo que os soldados haviam sido detidos pela barreira energética, percebeu que a havia atravessado.
Olhando ao redor, viu que estava praticamente dentro da casa de seu filho.
Bastava atravessar uma parede. Foi o que fez.
Deu uma última olhada para Atílio, não de provocação, mas de vitória, e passou para o outro lado.
Dentro de casa, surpreendeu-se ainda mais.
Após tantos anos, jamais imaginou penetrar naquele ambiente.
Pensou que se sentiria mal ali, mas não.
A atmosfera límpida revigorou suas forças, causando-lhe um bem-estar que nunca julgou existir.
- Seja bem-vindo - falou alguém mais adiante.
Tácio olhou na direcção da voz.
Quem ali estava era Josué, em companhia de Uriel.
Sem medo, aproximou-se, embora meio acanhado.
- O que foi que houve? - sondou timidamente.
- Você não sabe? - Ele deu de ombros.
Não percebeu que atravessou a protecção energética que, por anos, o manteve afastado?
- Isso eu percebi.
O que não compreendo é como consegui fazê-lo.
- Só você não vê o quanto se modificou.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 19, 2015 11:39 am

- Sou um condenado - falou ele, ajoelhando-se diante de Josué.
Tudo isso é culpa minha.
Geórgia perdeu o noivo, nunca foi feliz.
E meu filho é quase um marginal.
- Geórgia não perdeu o noivo, porque ele nunca lhe pertenceu.
Ninguém pertence a ninguém, essa é mais uma ilusão do ser humano, ainda preso aos desejos do mundo.
E quem foi que disse que ela nunca foi feliz?
À sua maneira, é feliz, sim.
Seu filho, por outro lado, não é quase um marginal.
Quase foi, é verdade. Agora, porém, está se endireitando.
- Do jeito que você fala, parece que eu não tive nada a ver com isso.
- Você foi a ferramenta.
Colocou-se à disposição da vida para realizar a obra divina, manifestada nos projectos de cada um.
- Por que eu?
- Porque era o que você queria.
Em sua ignorância, julgando satisfazer os desejos, aceitou participar desses eventos.
- Por quê?
- Digamos que foi uma forma de vingança pela rejeição.
- Vingança? Rejeição?
Não compreendo.
- Mais uma ilusão, meu amigo.
Rejeitado por Geórgia em outra vida, você acreditou que merecia tê-la, ainda que à força.
- Eu fiz isso? - Josué assentiu.
Mas por que Geórgia foi aceitar uma coisa dessas?
- Porque ela, por sua vez, sentia-se culpada por tê-lo acusado de um crime que você não cometeu.
Achou que lhe devia isso.
Naquele momento, a lembrança desabou sobre a mente de Tácio.
Viu-se um rapaz pobre em outra vida, em meados do século XIX, cortejando Geórgia, que o desprezava.
Secretamente, Geórgia amava outro rapaz e dormiu com ele, numa época em que virgindade era sinónimo de virtude.
Depois de conseguir o que desejava, o rapaz sumiu de sua vida, casando-se com outra.
Desesperada, com medo de ser mal vista pela sociedade, Geórgia resolveu usar Tácio para limpar seu nome.
Fingindo-se apaixonada, Geórgia convidou-o para um passeio nos jardins de sua casa.
Parados sob uma amoreira, beijavam-se sofregamente.
Estimulado pela atitude dela, Tácio começou a despi-la, surpreso com o facto de que ela rasgava as próprias roupas.
Deitado sobre ela, não pensava em nada.
Desejava apenas poder extravasar a paixão e o desejo.
Subitamente, ela o empurrou para o lado.
Tácio caiu, atónito, enquanto Geórgia se cobria com os trapos de roupa.
Aos gritos, desatou a correr feito louca, toda desgrenhada, a pele avermelhada do contacto com ele.
Logo atraiu a atenção de seus pais.
Vendo-a naquele estado, os pais chamaram a criadagem, que não custou a encontrar Tácio, tentando vestir-se às pressas para fugir.
Indagada sobre o ocorrido, Geórgia inventou que estava passeando pelo jardim quando foi assaltada por aquele homem, que rasgou suas roupas e a violentou.
Por mais que Tácio negasse o ocorrido, as evidências eram por demais comprometedoras.
Até sangue havia, já que Geórgia se encontrava nos últimos dias de seu período menstrual.
Tácio foi preso e condenado a doze anos de prisão.
Ao sair, levava no coração imenso rancor contra Geórgia.
Durante anos, esteve à sua procura, sem encontrá-la.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 19, 2015 11:40 am

Os pais haviam conseguido casá-la com um viúvo de posses, penalizado com seu infortúnio.
Desde então, nunca mais se viram.
- Agora me lembro - anunciou Tácio, após a rememoração espontânea.
Guardei tanto ódio por tanto tempo!
E para quê? De que adiantou?
- Você guardou rancor, e Geórgia, culpa.
Nenhum dos dois precisava passar por isso, mas enfim...
A alma escolhe caminhos tortuosos na ignorância do amor.
- É verdade. Mas e Régis?
Onde entra nessa história?
- Não entra.
Geórgia aceitou recebê-lo porque queria ajudá-lo.
E você não se importou em ser o pai, já que não pretendia criá-lo.
- Veja só. E agora me preocupo tanto com ele.
- Ainda bem.
Ele o ajudou a despertar o amor que você escondia aí dentro.
Viu como a vida é perfeita?
Ao ajudar alguém, todos acabam se ajudando.
Tácio olhou ao redor, procurando por Geórgia e Régis.
Tinha lágrimas nos olhos e o coração cheio de amor.
- Não quero mais continuar nas sombras - confessou ele.
Estou cansado. Sei que não devia ter me drogado, mas acho que consegui me livrar do vício.
Desejo uma nova chance para corrigir os meus erros.
- Não fale assim.
Você terá uma nova chance para reequilibrar sua vida.
- Não terei que vir aleijado ou demente?
- Não. Que ideia!
De onde tirou isso?
- Foi o que me disseram lá naquele submundo onde eu estava.
- Não é bem assim que as coisas funcionam.
Se o seu grau de culpa e falta de perdão for grande a ponto de você desejar se punir, ninguém poderá impedi-lo.
Basta você saber que não precisa.
Existem outras formas de harmonização com a vida.
- Quero encontrar essa outra forma.
Você me ajuda?
- É claro.
- E o meu filho?
- Ele está indo muito bem.
Ainda não está totalmente livre das tentações daninhas, mas o sucesso só depende dele.
- Não posso fazer nada?
- Pode acompanhar e aconselhar sem interferir.
- Já tenho feito isso.
- Muito bem. Quer vir connosco, então?
De mãos dadas com Josué e Uriel, Tácio preparou-se para partir.
Em seu coração, o amor pelo filho reluzia, inatingível.
Mas seus pensamentos permaneciam ligados a Damien.
O que seria do amigo depois que ele se fosse?
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 19, 2015 11:40 am

Capitulo 37

Júlio não estava nem um pouco em clima de carnaval. Irritado com a fantasia indecente de Patrícia e aborrecido com o namoro indesejável de Natália, achava que sua família havia se desestruturado.
- Mamãe chegou! - exclamou Patrícia, ansiosa pela chegada da mãe, que a levaria ao desfile.
Júlio olhou para ela com impaciência.
Não queria que ela fosse, contudo não tinha como evitar.
Antes que ele repetisse os protestos que vinha fazendo havia dias, Patrícia correu a abrir a porta para Bianca.
A mulher estava mais vulgar do que nunca, causando um certo desconforto em Júlio.
- Como vai, queridinha? - indagou ela, beijando as faces da filha.
- Posso ir pronta, mamãe, posso? - retrucou ela, ansiosa.
- Como assim?
Papai não deixa eu sair de casa com a fantasia.
Quer que eu me vista lá.
- Você vai sair vestida lá de casa.
Na concentração, não dá.
Tem gente que se troca na frente de todo mundo.
- Vocês vão para lá de ónibus? - intercedeu Júlio, que remoía a raiva.
- Vamos pegar um táxi.
- Viu, papai? Não tem problema nenhum.
- Vá logo apanhar suas coisas - pediu Bianca.
Depois que Patrícia saiu, Júlio censurou-a com irritação:
- Onde você está com a cabeça para permitir que Patrícia desfile daquele jeito?
Ela vai ficar quase nua!
- Deixe de besteiras, Júlio.
A menina é linda.
- Por isso mesmo.
Todo mundo vai querer passar a mão nela.
- Bobagem. Eu estarei por perto.
Vou vigiá-la.
- Isso é o que mais me preocupa.
Ainda acho mais fácil ela vigiar você.
- Engraçadinho. Mudando de assunto, a audiência do divórcio foi marcada.
Você vai?
- O que você acha?
- Está doido para se livrar de mim, não é mesmo?
- Tanto quanto você para se livrar de mim.
- O apartamento vai ficar comigo, você sabe.
- Foi o combinado.
- E a pensão?
- Não creio que você precise.
- Eu preciso e você vai continuar a me dar. Não tem jeito.
Júlio suspirou profundamente, tentando não se aborrecer.
Por sorte, Natália voltou do mercado, desviando a atenção de Bianca.
- Filhinha! - falou ela, abraçando a moça.
- Oi, mãe. Chegou há muito tempo?
- Não. Estava aqui conversando com seu pai enquanto sua irmã se veste.
E o namorado?
Quando é que vamos conhecê-lo?
Natália olhou para Júlio discretamente.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 19, 2015 11:40 am

Desde o fracasso do jantar da outra noite, não conseguira ainda conversar com o pai, que mudava de assunto sempre que ela tocava no nome de Régis.
- Outro dia - respondeu ela, vagamente.
Enquanto Bianca tagarelava sem parar, Júlio desligou-se da conversa.
Seus pensamentos se voltaram para Régis e, por extensão, para Geórgia.
Sentiu uma vontade louca de vê-la, de falar com ela.
Geórgia era tão diferente de Bianca!
Uma moça tão bonita e correcta.
Meiga, honesta, digna.
Por que não se casara com ela?
Porque ela estava grávida daquela aberração.
Não fosse o filho bastardo, estariam hoje casados, Natália seria filha deles, e Patrícia... não existiria.
Não, de Patrícia não poderia abrir mão.
Ela era seu maior consolo naquele mar de insatisfação.
Novamente, a ideia de falar com Geórgia sobre o namoro dos filhos assomou em seus pensamentos.
Era a melhor saída, senão a única, para evitar que uma desgraça acontecesse.
Sim, faria isso. Conversar com Geórgia era uma excelente opção.
Ela sempre fora ponderada.
Com certeza, teria pronta a solução para aquele problema.
Agora certo de que deveria procurá-la, Júlio não quis mais adiar o encontro.
Naquela noite, quando Natália saísse com Régis, ele iria à sua casa para uma conversa definitiva.
- Vamos? - ele ouviu a voz mimada de Patrícia, que vinha com a fantasia pendurada num cabide.
- Isso é um absurdo! - disparou Júlio, completamente transtornado.
- Uma menina de quinze anos vestida como uma vadia!
- Não amole a garota, Júlio - objectou Bianca.
Ela vai ficar linda. Será um sucesso na avenida.
- Ela não vai.
Não vou permitir que minha filha seja confundida com uma piranha qualquer.
Patrícia não passa de uma criança.
- Não sou criança! - protestou ela, veemente.
E você não pode me impedir.
- Pare com isso, Júlio - falou Bianca, secamente.
Está parecendo um velho bobo.
É carnaval, todo mundo se veste desse jeito.
E depois, você já tinha concordado.
Mandei até fazer fantasia para a menina.
Não vá agora estragar tudo.
Vamos embora, Patrícia.
Patrícia deu um passo, aproximando-se de Júlio.
- Não se preocupe, papai - disse, beijando-o no rosto.
Vai dar tudo certo. Sei me cuidar.
- Tenho medo de que algo lhe aconteça.
- Não vai acontecer nada.
É só um desfile. Depois, volto para casa.
- Você não falou que ia? - lembrou Bianca.
Patrícia disse que tinha até comprado o ingresso.
- Desisti - confessou ele, que não queria deixar o apartamento livre para Natália e Régis.
- Por quê?
- Como você disse, sou um velho bobo.
Prefiro ficar em casa e assistir pela televisão.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 19, 2015 11:40 am

- Vai perder o dinheiro do ingresso?
- Não me importo.
Pode levar e dar para alguém, se quiser.
- Então me dê - pediu Bianca.
Tenho uma amiga lá do salão que está doida para ir.
Vou ligar para ela agora mesmo.
- Vamos, mãe - impacientou-se Patrícia. - Está quase na hora.
- Calma, meu bem.
Ainda é cedo. Temos muito tempo.
Bianca falou com a tal amiga pelo telefone, desligando em seguida.
Júlio apanhou o convite e entregou-o a ela, louco para ficar sozinho.
Não suportava nem olhar para a fantasia de Patrícia.
- Até logo, papai - Júlio não respondeu.
Tchau, Natália.
- Tchau.
Elas saíram. Natália foi para a janela observá-las, Patrícia rebolando em cima do salto alto como se já estivesse desfilando.
Ainda não havia esquecido seu exibicionismo.
Patrícia achava que não havia feito nada de mais, embora Natália não concordasse com isso.
Sabia que fora propositada, só para chamar a atenção de Régis.
Por sorte, ele não lhe dera a menor atenção.
- Sua mãe não devia ter permitido essa indecência - comentou Júlio, ainda irritado.
Mas sua mãe é outra indecente.
- Deixe, pai. É carnaval, muita gente vai estar igual a ela.
- E você? Vai sair com o Régis hoje de novo?
- Vamos jantar e depois ao cinema.
Não gostaria de vir connosco?
- Não, obrigado.
Prefiro ficar por aqui e assistir um filme na TV.
- Por que está evitando o Régis, pai?
O que foi que ele lhe fez?
- Nada. Acho que vou descansar um pouco.
Era assim que Júlio vinha procedendo desde a noite do jantar.
Natália não sabia mais o que fazer.
Régis, por sua vez, não insistia, aumentando, cada vez mais, a distância entre eles.
À noite, Natália se aprontou para esperar Régis.
Ele gostava de carnaval, mas decidiu não pular para ficar com ela.
Natália, por sua vez, nunca fora muito de folia, preferindo viajar.
Naquele ano, porém, como o pai e a irmã estavam com ela, não tinha podido se ausentar.
Quando o interfone tocou, Júlio sabia que era ele.
Depois que Natália desceu, acompanhou-os da janela.
Assim que se afastaram o suficiente, saiu também.
Caminhou lentamente em direcção à casa de Geórgia, atrasando o passo, com medo do encontro.
Parado em frente ao portão, hesitou em tocar a campainha.
Tinha vergonha de encará-la, mais ainda, de enfrentar Cléia, que sempre o tratara como um filho.
Achou melhor atravessar a rua para vigiar a casa do outro lado.
Permaneceu imóvel, olhos grudados na janela, à espera de um movimento.
Após muitos minutos, Geórgia apareceu para fechar as cortinas.
De longe, encoberto pela escuridão, Júlio não conseguiu distinguir o seu rosto.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 19, 2015 11:40 am

Sabia, porém, que era ela.
A janela gradeada não lhe permitia uma visão mais nítida, mas ele não tinha dúvidas.
Geórgia continuava a mulher linda que sempre fora.
No peito, o coração deu mostras de uma excitação acima do normal.
Um palpitar descompassado tornava irregular sua respiração, enquanto um suor frio escorria pelo seu rosto.
Estava com medo, mas tinha de falar com ela.
Demorou um pouco a decidir-se.
Por fim, saiu do esconderijo na penumbra e atravessou a rua.
A passos vacilantes, abriu o portãozinho que levava à varanda.
Subiu os degraus que havia mais de vinte anos não pisava.
Tocou a campainha e aguardou.
Ouviu passos do lado de dentro.
Por instantes, eles se detiveram à porta, provavelmente porque alguém olhava pelo olho mágico.
Segundos depois, a porta se abriu, revelando a presença de Geórgia, lívida, assustada, incrédula.
- Júlio! - espantou-se.
O que está fazendo aqui?
Num primeiro momento, ele não conseguiu falar.
Entre a vergonha e a ansiedade, permaneceu encarando-a, sentindo que as palavras se atropelavam, na tentativa de saírem todas ao mesmo tempo.
Em vez de falar, foram seus olhos que se manifestaram.
Brilhantes de lágrimas, em seu silêncio, exprimiram toda sua angústia.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 19, 2015 11:41 am

[b]Capitulo 38 /[b]

Durante o jantar, Régis mal conversava com Natália.
Pensava em seu último encontro com Bira.
O traficante se mostrava irredutível, pressionando-o cada vez mais.
Seu prazo até o fim do carnaval estava se esgotando, de forma que ele não tinha saída.
Quanto mais pensava, mais se angustiava.
Agora não tinha como voltar atrás.
- O que você tem? - questionou Natália, notando seu distanciamento.
- O quê? Nada.
Estava apenas pensando no meu trabalho.
- Por quê? Alguma coisa errada?
- Pelo contrário.
Além do comercial, recebi uma proposta de desfile.
- Que maravilha!
- Só que é fora do Brasil.
- Onde?
- Na Espanha.
- Você vai aceitar?
- Não sei.
Não gostaria de ficar longe de você.
- Você pode ir e voltar.
Vou continuar aqui, esperando você.
- Não gostaria de ir comigo?
- Não posso. Tenho faculdade e trabalho.
Mas não me importo que você vá.
- Se eu for, e não estou dizendo que vou, vai ser pelo tempo suficiente para cumprir o contrato e voltar.
- Não se apresse, querido.
Se eu escolhi namorar um modelo, tenho que ir me acostumando a essas coisas.
Ele a beijou com carinho.
Amava-a cada vez mais, sentia-se grato a ela por ajudá-lo a reavaliar suas atitudes, acreditando que podia ser um homem íntegro.
Um pensamento odioso para Atílio, que agora resolvera, ele mesmo, tomar a dianteira na condução de Mizael.
- Demorei tempo demais - disse para si mesmo.
Mizael foi contaminado por essas bobagens de integridade.
Isso não existe! - gritou ele, tentando fazer com que o pensamento do rapaz captasse suas sugestões.
Você não nasceu para ser íntegro.
Nasceu para conquistar poder!
Onde está seu pendor para o tráfico?
Atílio presenciou novo beijo do casal, sentindo-se incomodado pela onda de amor que emanava deles.
- Perdi-a outra vez - ele prosseguiu em seu monólogo, referindo-se a Natália.
De novo, tenho que abrir mão para que você seja dele.
Isso não seria difícil, se vocês não resolvessem me trair.
Você está me traindo, Mizael, ouviu bem?
Isso é traição!
À medida que Atílio se enfurecia, Régis parcialmente captava suas vibrações.
Uma curiosidade súbita e violenta de saber o que aconteceria caso ele fizesse a vontade de Bira despontou em seu coração.
Não seria divertido ter nas mãos aquelas pessoas que se julgavam tão importantes?
- Olhe só! - continuou Atílio.
Agora sim, estamos falando a mesma língua.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 19, 2015 11:41 am

O que está esperando para fazer a vontade de Bira?
Você vai ser o maioral, não ele.
Como a influência não era suficientemente forte para deixar Régis confuso, a ideia de aliar-se a Bira desanuviou-se de sua mente, agora centrada em Natália.
Não. Decididamente, não queria ter nada a ver com o traficante.
Queria ser um homem decente.
Uma luz rósea envolvia o casal, empurrando Atílio para longe, bloqueando seu acesso aos pensamentos de Régis.
A luz foi se intensificando a tal ponto que ele não aguentou mais.
Incomodado, deu as costas aos dois e sumiu praguejando.
Sem de nada saber, Natália continuava a conversa:
- Por que não vamos lá para casa depois do cinema?
Podemos assistir o resto do desfile na televisão.
Talvez consigamos ver Patrícia.
- Tem certeza de que você faz mesmo questão de ver sua irmã na televisão?
- Não. Mas ela faz.
- Não tenho nada com a vida de vocês, mas você não acha que Patrícia exagera?
Ela ainda é uma criança.
- Também penso assim, mas papai é um frouxo.
Ele a deixa fazer o que quer.
Agora está lá, aborrecido porque ela vai sair quase pelada na escola de samba.
Régis não queria contar-lhe sobre as coisas que Patrícia fazia, para não preocupá-la.
Todavia, precisava fazer alguma coisa para que ela não se perdesse nas mãos de Bira.
- Você não acha que seria melhor ela voltar para São Paulo?
- Pois é. Só que agora ela não quer mais.
Inventou que quer morar comigo.
- O quê? Essa não!
- Papai não quer deixar.
Ela está matriculada num colégio em São Paulo e está perdendo aula.
Mas papai não tem força com ela.
Aposto como Patrícia vai conseguir o que quer.
- Não tenho nada contra sua irmã, mas ela morar com você não é uma boa ideia.
Vai lhe dar muito trabalho.
Ela é menor de idade e você não é a mãe dela.
- Eu sei. Não quero isso, mas papai é que tem que impedir.
- E sua mãe?
- Ela mesma é que não fará nada.
Mamãe acha graça em tudo que Patrícia faz.
Na verdade, não quer esquentar a cabeça.
Sei que gosta de nós, mas quer viver a vida dela.
Deu graças a Deus quando saímos de casa.
- Você pode vir morar comigo - sugeriu ele, de forma apaixonada
- É claro que não posso.
Você mora com sua mãe e sua avó.
Imagine se eu teria o desplante de aparecer de mudança na sua casa.
Podemos nos casar.
- Ainda é muito cedo.
- Somos maiores, trabalhamos, somos independentes.
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Ave sem Ninho

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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 19, 2015 11:41 am

- Mais ou menos.
O que eu ganho não dá para me sustentar.
Papai me manda dinheiro todo mês para complementar as despesas.
- Posso fazer isso no lugar dele.
Estou ganhando bem agora.
Tenho até pensado em me mudar para a Barra.
Você poderia ir comigo.
- Vai deixar sua mãe e sua avó?
- O problema é esse.
Não quero deixá-las e elas não querem ir.
Mas são a favor de que eu viva a minha vida.
- Pense um pouco mais, Régis.
Quando me casar, quero que seja para sempre.
- Será para sempre comigo.
Eu a amo. Só se você não me amar.
- Você sabe que o amo.
Contudo, há outras coisas envolvidas.
Maturidade é uma delas.
- Tudo bem, Natália, não quero pressioná-la.
Basta você saber que eu quero me casar com você.
Hoje, ano que vem, não importa.
Só o que quero é que estejamos juntos.
- Ficaremos juntos, eu prometo.
Mas, por enquanto, não.
Quero que tenhamos certeza do que estamos fazendo.
- Você é quem manda.
Régis não podia deixar de dar-lhe razão.
Não tinha dúvidas de que a amava, contudo precisava antes resolver aquela pendência com Bira.
A última coisa que queria era Natália envolvida com o traficante.
E ainda havia Patrícia.
Temia pela vida dela, mas também tinha medo do que ela poderia fazer contra ele.
No momento, Patrícia não estava nem um pouco preocupada com Régis.
O que agora sentia por ele estava mais próximo do orgulho ferido do que da paixão.
Bira, sim, era um homem de verdade, não um garotinho.
Tudo bem que Régis era lindo de morrer, mas Bira tinha presença.
- Aonde você vai? - indagou Bianca, vendo que Patrícia se preparava para sair.
- Falar com um amigo.
- Agora? Está quase na hora de sairmos.
- É só um minuto.
Vestida em sua fantasia azul e branca, Patrícia foi ao encontro de Bira.
Entrou no carro dele, satisfeita com o efeito que provocou no traficante.
Ele a alisou, excitado, beijou-a com ardor, soltando-a a contragosto.
- Você está muito gostosa - elogiou.
A mina mais linda da avenida
Ela riu gostosamente, perguntando com euforia:
- Você vai estar lá, não vai?
- Não perderia isso por nada.
- E aí? Trouxe o que me prometeu?
- É claro. Não achou que eu ia deixar você de fora desse barato, achou?
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 19, 2015 11:41 am

Olhando para os lados com cuidado, por detrás do vidro fumê, Bira sacou uma trouxinha do bolso.
O comparsa do banco da frente entregou-lhe um espelho, um cartão de crédito e um canudinho de papel.
Rapidamente, preparou uma carreirinha de cocaína, entregando a Patrícia o canudo.
- Experimente - incentivou.
Não tenha medo.
- Vou ficar doidona?
- É para isso que serve, não é?
Um pouco insegura, Patrícia experimentou.
A sensação de euforia foi imediata.
Sob o efeito da droga, julgou-se capaz de qualquer coisa.
Nos braços de Bira, sentia-se poderosa, uma rainha.
Amaram-se rapidamente, no banco do carro, sem se importar com a presença dos capangas,
- Chefe, acho melhor acabar com isso - disse um deles, vendo pelo retrovisor uma patrulha se aproximar.
- Vá - ordenou ele, abrindo a porta para ela.
Mais tarde nos encontraremos.
Patrícia saiu meio zonza, desacostumada com os efeitos da coca.
Até então, a única droga de que fizera uso fora a maconha e assim mesmo, esporadicamente.
Pisou no chão, hesitante, ajeitando a fantasia meio amassada.
O carro da polícia passou ao lado, mas nenhum dos policiais prestou atenção ao automóvel de Bira.
Só tinham olhos para o corpo exuberante de Patrícia.
Foi uma bela jogada mandá-la sair quando a polícia se aproximou.
O resultado foi o esperado.
Diante de um muiheraço feito Patrícia, quem é que ia prestar atenção a três barbados?
Ela agora estava em suas mãos.
Iniciá-la no vício era um truque que ele utilizava para manter as garotas presas a ele.
Fissuradas pela droga, faziam tudo o que ele queria.
E Patrícia, ainda por cima, serviria de escudo contra a resistência de Régis.
Só esperava que ela não seguisse os passos de Gislene.
Sentiria muito se tivesse de mandar matá-la.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 19, 2015 11:41 am

Capitulo 39

Parado na porta da casa de Geórgia, Júlio não sabia o que dizer.
Ensaiara as palavras, contudo elas se atropelavam.
Vê-la deixou-o desconcertado.
Ela estava ainda mais bonita do que ele se lembrava ou imaginara.
Vendo que ele não se decidia, ela repetiu a pergunta:
- O que faz aqui, Júlio?
Antes de responder, ele ouviu a voz de Cléia:
- Quem é, minha filha?
- Um amigo - respondeu ela, passando para o lado de fora e fechando a porta atrás de si.
Muito bem, Júlio, vai me dizer ou não por que veio aqui?
- Eu... - balbuciou ele. - Precisava lhe falar.
- Depois de tantos anos, não imaginava que você ainda tivesse algo a me dizer.
Ele não respondeu.
Seus pensamentos rodavam em torvelinho.
Queria falar de Régis, no entanto sentia aflorar a velha paixão.
- E então? - prosseguiu ela.
Estou esperando.
A que devo sua visita?
- Geórgia, por favor, não me leve a mal.
Eu tinha que vê-la.
- Por quê? Não vá me dizer que está arrependido, depois de tantos anos.
- Não se trata disso.
Quero dizer, não sei se estou arrependido.
Antes de ver você, pensava uma coisa.
Agora, estou confuso.
- Não estou entendendo, Júlio.
Você está casado, tem uma família.
Por que veio me procurar?
- E você?
Também se casou?
- Não interessa.
- Sei que você não se casou. Por quê?
- O que você está pretendendo, afinal?
Aparece aqui, depois de vinte anos, com perguntas infantis.
O que deu em você?
- Precisava vê-la, já disse.
- Por quê?
Vai me dizer que se divorciou e quer me compensar por tudo o que fez?
- Não foi isso que vim lhe dizer, mas essa é uma verdade.
- Era só o que me faltava, Júlio.
- Você está linda - comentou ele embevecido, alheio ao espanto dela.
Mais do que nunca.
- Pare com isso.
Não quero mais ouvir essa baboseira.
E não me leve a mal, mas é muito atrevimento seu aparecer aqui assim, de repente, falando coisas sem sentido.
- Você me odeia, não?
- Não. Mas também não quero me aproximar de você.
Seja o que for que veio me dizer, não me interessa.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 19, 2015 11:42 am

- Eu a fiz sofrer tanto assim?
Geórgia olhou-o abismada.
Não compreendia o que ele estava fazendo.
Só podia pensar que Bianca houvesse lhe dado o fora e ele agora corria para ela, na tentativa de reaproximar-se para não ficar sozinho.
- Olhe, Júlio, não sinto raiva de você.
Na verdade, não sinto nada.
O que se passou entre nós está acabado.
Ficou enterrado no passado.
Quer saber se custei a me refazer?
Custei. Mas o meu filho me deu forças.
E, agora que estou refeita, não preciso de você para bagunçar a minha vida.
- Você ainda se importa comigo.
Se não se importasse, não teria medo de que eu bagunçasse a sua vida.
- Você está confundindo as coisas.
Disse que você poderia bagunçar a minha vida, não os meus sentimentos.
Tenho um filho que nada sabe sobre o passado.
Por enquanto, gostaria de deixar que as coisas permanecessem assim.
Ela lhe deu as costas, colocando a mão na maçaneta para abri-la.
Júlio, porém, percebendo que ia perdê-la, segurou-a pela outra mão e falou emocionado:
- Conheci o seu filho.
Na verdade, foi para falar dele que vim até aqui.
Ela estacou assustada.
Voltou-se para ele lentamente, tentando imaginar o que ele queria dizer.
- O que isso significa?
- Conheci Régis.
É um bonito rapaz.
- Como ousa se aproximar do meu filho?
Depois de tudo o que fez, que direito tem de tocar no nome dele?
- O direito de pai.
- Pai? - indignou-se.
Que absurdo é esse agora?
Régis nunca foi seu filho.
- Talvez você não saiba, mas Régis está namorando a minha filha.
Foi como se uma montanha inteira desabasse sobre ela.
Geórgia sentiu uma tonteira absurda, que a obrigou a sentar-se no degrau para não cair.
- Sua filha? - repetiu atónita.
Natália é sua filha?
- Vejo que a conhece.
- Não é possível.
Isso é alguma brincadeira?
- Não é brincadeira. É facto.
Assim como você, fiquei surpreso e contrariado.
- Contrariado?
- Acho que esse namoro não é do interesse de nenhum de nós dois.
Por isso, vim procurá-la.
Talvez você me ajude a separá-los sem que precisemos lhes contar sobre nossa relação.
- Não acredito!
Pensa mesmo que eu faria isso?
Caso você não saiba, Régis e Natália estão apaixonados.
Eles se amam!
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 19, 2015 11:42 am

- Eles não podem ficar juntos.
- Por que não?
- Você ainda pergunta?
Depois de tudo, seria um desastre.
- Por quê?
Porque o pai dele era um estuprador que morreu de overdose?
Porque você foi preconceituoso o bastante para não aceitar criar o filho desse homem?
Porque não me amou o suficiente para respeitar minha decisão?
Ou porque não quer admitir que é fraco, covarde e fútil?
- Geórgia, por favor, precisamos ser racionais.
- Quem não está sendo racional é você.
Quer interferir no destino de dois jovens para acobertar sua covardia.
- Não posso acreditar que você concorda com esse namoro.
- Não tenho que concordar nem discordar.
Eles se escolheram.
Não é problema meu.
- Seja razoável, Geórgia.
Esse namoro não pode dar certo.
- Você ainda não me apresentou um bom motivo para que não dê certo, além do seu preconceito, da vergonha, do medo.
Você me abandonou, Júlio.
Foi a sua escolha, e eu aceitei.
Agora assuma o que fez.
Não me peça para interferir na relação deles só para proteger a sua imagem. Não farei isso.
- Só você não vê que eles vão ser infelizes.
- Você está sendo egoísta.
Está pensando em si mesmo, nos seus valores distorcidos.
O que aconteceu entre nós não tem nada a ver com eles.
- Minha filha não vai se casar com um rapaz de origem obscura - falou entre os dentes, tentando conter a raiva.
Ela merece alguém à altura, um homem formado, de boa família.
- Você está querendo dizer que minha mãe e eu não somos uma boa família?
- Não é isso.
Você entendeu errado.
O que quis dizer foi uma família completa, bem constituída.
- Como a sua?
Você e Bianca são felizes?
Vivem bem?
Dão bons exemplos a suas filhas?
- Isso não vem ao caso.
- Por quê? Porque se trata de você?
Você é diferente de mim, das outras pessoas?
Pois fique sabendo que a minha família é completa e bem constituída sobre valores morais sólidos.
E a sua? Se sua moral continua como antes, então sou eu quem deve temer que meu filho entre para a sua família.
- Calma, Geórgia.
Não vim aqui para brigar.
- Não estou brigando.
Estou sendo sincera.
Considero-o um homem fútil, sem valor moral algum, preocupado com as aparências, cheio de preconceitos e ilusões.
- Você está me julgando.
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