Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 20, 2015 10:59 am

- Pode ser.
Mas tenho motivos para isso.
E, mesmo assim, não me oponho a que meu filho namore a sua filha.
- Pois eu me oponho.
Não o quero perto de Natália nem na minha casa.
Diga isso a ele, ou eu mesmo o porei para fora.
Geórgia nunca sentira tanta raiva em sua vida, sentimento com o qual nem estava acostumada.
Ouvir Júlio falar de Régis como se ele fosse um marginal era um absurdo tão grande que ela não conseguiu se conter.
Mas não era de seu feitio irritar-se.
No momento em que percebeu que corria o risco de desequilibrar-se, retrocedeu, fazendo breve oração.
- Não temos o poder de decidir a vida deles - ponderou, um pouco mais calma.
Eles são adultos, têm o direito de escolher o rumo de suas vidas.
E colocar Régis para fora de sua casa não me parece coisa de um homem civilizado como você.
Tocado pela vibração energética da oração, Júlio também se recompôs.
Respirou fundo, sentindo-se presa de sentimentos contraditórios.
Ao mesmo tempo em que gostaria de aproximar-se de Geórgia, sentia imensa repulsa pelo filho dela.
- Desculpe-me, Geórgia, eu me excedi.
Não devia ter dito o que disse, muito menos para você, que sempre foi boa e não merece ser desrespeitada.
- Júlio, pense bem.
Régis pode não ser o rapaz que você sonhou para sua filha, mas é honesto e trabalhador.
E nunca lhe fez nada.
Ele não tem culpa do que me aconteceu.
- Você não entende - choramingou ele.
Ele representa tudo o que eu não pude ser.
- Não. Não compreendo o que diz.
- Olhando para ele, tenho que aceitar minha covardia, meu medo, minha vergonha.
Todas as coisas de que você falou e estão certas.
Se Natália descobrir o que houve entre nós, nunca irá me perdoar.
- Você pretende esconder o seu passado fazendo-a sofrer?
- Não quero fazê-la sofrer.
Quero poupá-la.
- Você quer poupar a si mesmo, segundo suas próprias palavras.
Não faça isso, Júlio.
Você não pode desfazer o que fez, mas ainda é tempo de assumir suas atitudes.
Foi a sua escolha, aprenda a conviver com ela.
Eu mesma nunca lhe cobrei nada.
A cobrança que você faz está aí, dentro de você.
- Você ainda está magoada comigo. E com razão.
- Peço que me perdoe se pareci assim.
Por momentos, pode ser que eu tenha fraquejado.
Mas reconheço que você não teve culpa de nada.
Cada um de nós agiu conforme seu amadurecimento.
Não tenho o direito de lhe cobrar uma atitude que você não podia ter, assim como sei que, de alguma forma, atraí o que me aconteceu.
O magnetismo que exerci sobre os acontecimentos tem uma razão de ser, embora não a compreenda nesse momento.
- Ah! Geórgia, por que as coisas não puderam ser diferentes?
Por que tivemos que passar por tudo isso?
- Nossas opções diante da vida nem sempre estão muito claras.
Acredito que, um dia, todas as verdades se revelarão.
Por isso, precisamos confiar na sabedoria e no amor de Deus.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 20, 2015 10:59 am

- Não sei se conseguiria conviver com isso - confessou ele, com desgosto.
Toda vez que olhar para Régis, me lembrarei de nós dois.
Calou-se, engolindo um soluço.
Geórgia sentiu uma certa piedade por aquele homem transtornado pela culpa e pelo remorso, certa de que, no final das contas, fora ela quem menos sofrera.
Ao menos, tinha o coração limpo, acreditava na vida, tinha fé em Deus.
E Júlio, o que possuía além de um punhado de ilusão?
- Deixe de lado o orgulho - aconselhou ela.
É por causa dele que você não consegue aceitar.
E a culpa não vai fazer diminuir a dor.
Arrepender-se sempre é bom, mas deixar-se paralisar pelo remorso não é produtivo.
- Você fala com sabedoria, mas eu não estou à sua altura.
Por isso, recolho-me à minha condição de homem mundano e aceito minha imperfeição.
Eu ainda dou valor às aparências, sim, porque considero importante ter uma posição de respeito dentro da sociedade.
- O respeito se conquista pelas boas atitudes, pela dignidade, não pelas aparências, que são ilusórias, falsas.
E quando reveladas, produzem resultados avassaladores.
- Gostaria de pensar como você, mas não consigo.
Não quero perder o respeito da minha filha, por isso Régis deve se manter longe dela.
- Sinto muito.
Se você insiste nisso, não posso ajudá-lo. Adeus.
Dessa vez, Júlio não a impediu.
Não tinha mais o que dizer. Sofria imensamente.
Vê-la causou-lhe uma comoção inesperada.
Não fosse aquele filho, arriscaria reconquistá-la.
Por um momento, perguntou-se o porquê de tudo aquilo.
Régis nunca lhe fizera nada, por que tanta repulsa?
Não sabia.
Simplesmente, se acostumara a odiá-lo.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 20, 2015 10:59 am

Capitulo 40

Logo após o carnaval, o clima na casa de Natália era dos mais tensos.
- Você vai voltar comigo para São Paulo! - esbracejava Júlio.
As aulas já começaram, você não tem mais o que fazer aqui.
Você não pode me obrigar a ir - rebateu Patrícia.
Meu lugar é aqui.
- Não era o que você pensava até há bem pouco tempo.
Por que mudou de ideia?
- Gosto de morar com Natália.
E ela não se importa, não é, Natália?
Natália ergueu as sobrancelhas, contrariada por ter sido envolvida na conversa.
- Acho que papai tem razão - ponderou.
Você está perdendo aula.
E, a essa altura, é tarde para encontrar um novo colégio.
- Que nada! - objectou, irritada.
Pagando, papai arranja vaga em qualquer escola.
E vou escolher uma aqui perto.
- O que não entendo é esse seu súbito interesse.
Logo você, que sempre gostou de coisas finas.
Não seria mais lógico ir morar com mamãe na zona sul?
- Não tem nada de bom lá.
Aqui é muito mais divertido.
- Não importa onde é mais divertido - contrapôs Júlio, com veemência.
Você vai embora comigo e pronto.
E se Natália não estivesse com emprego e faculdade, iria também.
- Eu? - espantou-se.
Que novidade é essa agora?
- Em São Paulo você poderia arranjar coisa melhor.
- Está se referindo ao Régis?
O que foi que ele lhe fez para você não gostar dele?
- Nada. Só que você merecia um rapaz à sua altura.
- Também acho - concordou Patrícia, irónica.
Régis é bonito demais para você.
O olhar de reprovação de Natália a fez calar-se.
Júlio, porém, continuou a falar:
- Não sei onde errei com vocês duas.
Minha filha mais velha se apaixonou por um joão-ninguém, e a mais nova está querendo se perder.
O que está acontecendo?
- Deixe de dramas, papai - protestou Patrícia.
Natália e eu estamos apenas querendo viver as nossas vidas.
Você é muito careta, acha que tudo está errado.
- Chega dessa discussão!
Em Natália, não posso mandar, mas em você, Patrícia, mando, sim.
Você vai voltar comigo para São Paulo e pronto!
Encerrada a discussão, Patrícia foi para o quarto, batendo a porta.
Na mesma hora, veio a vontade da droga.
Será que estava se viciando?
Tinha medo de se viciar, contudo Bira lhe garantira que aquilo não aconteceria.
Dera-lhe a coca para cheirar algumas vezes, mas ele mesmo não a usava.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 20, 2015 10:59 am

"Acho melhor resistir", pensou.
"Se usar toda hora, vou acabar me viciando".
Pelas paredes, ainda ouvia partes da discussão entre Natália e o pai.
Aproveitando que eles não prestavam mais atenção a ela, saiu de mansinho.
Ninguém a viu passar pelo corredor em direcção à cozinha.
Abriu e fechou a porta com cuidado, para não atrair a atenção dos dois.
Assim que saiu do elevador, viu Régis pela vidraça da portaria.
Antes que ele apertasse o botão do interfone, ela abriu a porta para ele,
- Olá, Régis - cumprimentou com um sorriso sedutor.
Veio ver a Natália?
- O que você acha?
- Ela está discutindo com papai por sua causa.
- Por minha causa?
- Não sabe que papai não gosta de você?
- E você conhece o motivo?
- Nem desconfio.
Mas, se você quiser, posso descobrir.
Ela disse isso com um olhar malicioso, aproximando dele os lábios em chamas.
Régis a repeliu com impaciência, porém sem agressividade.
- Aonde você vai? - questionou sério.
- Dar uma volta,
- Sozinha?
- Eu nunca ando sozinha.
Mas, se você quiser vir comigo, posso trocar a companhia.
- Vou lhe dar um conselho, Patrícia.
Afaste-se de Bira. Ele é perigoso.
- Bira é um amor.
Me trata feito uma rainha.
- Já vi rainhas mais bonitas do que você acabarem mortas, largadas na sarjeta. É o que quer?
- Quanto drama!
Bira jamais faria isso comigo.
Ele gosta de mim.
- Bira não gosta de ninguém a não ser de si mesmo.
Ele usa as pessoas, está usando você.
Quando enjoar, vai descartá-la.
E, se ele achar que você sabe muito dos negócios dele, vai mandar apagar você.
Quer correr esse risco?
- Não acredito.
Está falando isso porque está com ciúme.
- De você? Não seja ridícula.
- Posso ser ridícula, mas é de mim que Bira gosta.
E você?
O que tem a ver com ele?
- Nada que lhe interesse.
- Imagino que sejam negócios bem mais escusos do que o meu.
Bira me disse que você trabalha para ele.
- Ele está mentindo.
- Será? Minha irmã sabe de sua amizade com ele?
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 20, 2015 11:00 am

- Não tenho amizade com Bira, portanto não há nada que Natália deva saber.
- Nossas vidas são cheias de mistério - ironizou.
Vamos fazer o seguinte:
você não conta o meu segredo, e eu não conto o seu. Ficamos quites
- Não me importo com segredos, mas me importo com você.
Não quero que nada de mau lhe aconteça.
- Por quê? Gosta de mim?
- Você é irmã da mulher que eu amo.
Natália gosta de você, e isso é suficiente para eu me preocupar.
- Quanta gentileza. Mas não precisa.
Dispenso a sua preocupação.
E agora, se me der licença, preciso ir.
Bira está me esperando.
Com seu jeito provocativo, Patrícia passou, roçando de leve o corpo no dele.
Régis queria impedi-la, contudo não tinha mais o que fazer.
De onde estava, ficou olhando-a se afastar.
Em seguida, entrou no elevador para subir.
Tocou a campainha e esperou até que a própria Natália veio abrir.
- Régis! - surpreendeu-se. - O que faz aqui?
- Não posso mais visitar minha namorada?
- É claro que pode - tornou ela, confusa.
- Não vai me deixar entrar?
Natália chegou para o lado, dando-lhe passagem.
Júlio ainda permanecia na sala, agora em conversa mais amena com a filha.
Ao ver Régis, seus ânimos se atiçaram.
Tentou não deixar transparecer a raiva e falou com o máximo de educação que conseguiu:
- O que faz aqui?
- Bom-dia para o senhor também, seu Júlio - disse Régis, com uma pontada de arrogância.
Vim ver Natália.
- A portaria estava aberta? - indagou ela, para esfriar um pouco os ânimos.
Essa gente não tem cuidado.
Na hora em que entrar um ladrão...
- Patrícia abriu para mim - interrompeu ele.
- Patrícia? - espantou-se Júlio.
Ela saiu?
- É o que parece.
- Onde será que essa menina foi?
Ela estava aqui agorinha mesmo!
- Deixe-a, pai - aconselhou Natália.
Ela está aborrecida.
Daqui a pouco passa, e ela volta.
- Vou atrás dela.
O que Júlio queria era evitar um confronto com Régis, temendo que ele estivesse ali por causa de seu encontro com Geórgia.
- Seu pai não gosta mesmo de mim - comentou Régis, que nada sabia da conversa dele com sua mãe.
- Ele está com ciúme.
Sabe como os pais são ciumentos com as filhas.
- Não sei, não.
Acho esse ciúme um pouco exagerado.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 20, 2015 11:00 am

- Você ainda não me respondeu por que veio aqui.
- Estava morrendo de saudade de você.
Não a vi o dia inteiro e queria ver se conseguia me entender com seu pai, mas já percebi que não dá.
- Papai está preocupado com Patrícia.
Ela agora cismou que não vai voltar para São Paulo.
Essa menina é um problema.
- Você sabe quem são as amizades dela?
O tom de voz dele lhe causou estranheza.
Régis falava como se conhecesse factos que ela desconhecia.
- Não - respondeu ela, desconfiada.
Por quê? Você sabe de alguma coisa?
- Não. Perguntei por perguntar.
- Pelo amor de Deus, Régis, se você sabe de alguma coisa errada que Patrícia esteja fazendo, por favor, me conte!
Papai precisa saber.
Contar sobre a amizade dela com Bira era muito perigoso.
Provocaria sérios questionamentos para os quais ele não teria respostas satisfatórias.
E colocaria tudo a perder.
- Não sei de nada - respondeu, tentando parecer firme.
Eu só falei porque Patrícia me parece uma menina ingénua e deslumbrada, que poderia facilmente ser enganada por qualquer malandro.
- Você está me enganando - afirmou ela, categoricamente.
Sabe de alguma coisa e não quer me contar.
- Não é nada disso.
E seu pai não foi atrás dela? - Natália assentiu.
Então, você não tem com o que se preocupar.
- Acho que tem razão.
Estou me preocupando à toa.
Patrícia é desmiolada, mas é boa menina.
Não se meteria em encrencas.
Régis não disse nada.
Abraçou-a com força, temendo que ela sofresse ao descobrir a verdade.
- Minha querida, você nada conhece de mim - afirmou ele, alisando seus cabelos.
Tenho medo de lhe causar alguma decepção.
- Por que está me dizendo isso? - estranhou ela, fitando-o com ar de assombro.
O que está acontecendo?
- Nada. Mas a vida é cheia de surpresas, algumas ruins.
Se algo me acontecer, quero que saiba que a amo muito.
- O que poderia lhe acontecer? - Ele não respondeu.
Por Deus, Régis, está me assustando!
- Não quero assustá-la.
Quero apenas que você esteja preparada para o futuro
- Que futuro?
Não entendo o que você está falando.
- Deixe para lá.
- Não. Quero saber.
Que conversa é essa?
- Nada... É que eu não sou tão bonzinho como você pensa.
- Como assim?
Você é algum marginal, por acaso?
É bandido e está me enganando?
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 20, 2015 11:00 am

- Não. Só que fiz algumas coisas no passado das quais hoje me arrependo.
- Seu passado não pode estar tão longe assim.
Você é muito jovem, portanto, seja lá o que for que tenha feito, foi praticamente no presente.
O que foi? O que você fez?
- Nada. Esqueça.
- Não dá para esquecer.
Você começou a falar, agora termine.
Ele a olhava com desespero, arrependido por ter tocado naquele assunto.
Mas andava agoniado com a pressão de Bira, vendo aproximar-se o momento em que teria de fazer o que ele queria.
Temia que algo saísse errado, que Natália descobrisse seu envolvimento com o traficante, que ele levasse um tiro da polícia.
Era uma actividade arriscada, contudo Bira não lhe deixava escolha.
- Não pense mais nisso - pediu ele, beijando-a levemente nos lábios.
Eu a amo. Haja o que houver, sempre irei amá-la.
- Agora estou realmente assustada.
Se você me ama de verdade, vai confiar em mim e me contar tudo.
Ele hesitou.
Por mais que a amasse, tinha medo da reacção dela.
- Não posso lhe contar - gaguejou ele.
Peço apenas que confie em mim.
Eu jamais faria qualquer coisa que pudesse magoar você.
, - Não estou gostando nada disso, Régis...
- Tenho que ir.
Perdoe-me, Natália, mas preciso ir embora.
Eu a amo. Sempre a amarei.
Com um abraço apertado, despediu-se, deixando-a parada no meio da sala, totalmente atónita.
Saindo do apartamento dela, voou para casa com os olhos rasos d'água.
Bira o procurara de novo na véspera, insistindo na intermediação da venda da droga ainda naquela semana.
Ele estava desesperado, sem saída.
Pressionado, temia por sua vida e pela vida das pessoas que ele amava.
Régis entrou em casa como se estivesse retornando de um enterro.
Logo que o viu, Cléia se assustou:
- O que foi que houve, Régis?
Por que essa cara?
- Nada, não, vó. Está tudo bem.
E mamãe, onde está?
- Foi farmácia e ao mercado.
Não quer me contar o que aconteceu?
- Não foi nada, já disse.
Está tudo bem - ele a beijou na testa.
Não se preocupe.
Sem saber o que fazer, tornou a sair.
Ainda era sábado, mas Bira o pressionava desde a quarta-feira de cinzas.
Precisava dar uma volta para esfriar a cabeça.
Enquanto caminhava, viu Alex no centro da praça, gargalhando com sua turminha de viciados.
Para seu desagrado, Alex o avistou, vindo em sua direcção.
- E aí, sumido? - cumprimentou.
Tudo bem?
- Tudo.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 20, 2015 11:00 am

- Bira está meio chateado com você.
- Problema dele.
- Eu não falaria assim, se fosse você. Bira é um cara legal, está lhe dando um monte de chances.
No seu lugar, eu não as desperdiçaria.
- Óptimo. Peça a ele para tomar o meu lugar.
- O que deu em você, Régis?
Ficou mal-humorado de repente.
É aquela garota? - Ele não respondeu.
Mulher é um problema.
É por isso que não me amarro em nenhuma.
Elas só servem para transar.
Você devia fazer a mesma coisa.
Livre-se dela. Bira agora está com uma guria gostosinha.
Aposto como arranjaria uma igual para você.
- Escute aqui, otário - revidou com fúria, agarrando-o pela gola da camisa.
Nunca mais pense em falar da minha garota outra vez.
E a menina de Bira é só uma criança.
Não quero nada com crianças.
- Tudo bem - tornou Alex, tentando soltar os dedos dele de sua camisa.
Não precisa ficar irritado.
Eu só não compreendo o que deu em você para mudar tanto.
- Mudei, sim, e daí?
Sou outro homem agora.
Não quero mais saber de traficantes.
- Está perdendo uma grande oportunidade.
Não sei por que, mas Bira se amarra em você.
- Ele não se amarra em ninguém.
Ele usa todo mundo, assim como está me usando, como usa você.
Já estou farto disso.
- Devia ter mais cuidado com o que diz. Bira pode ficar sabendo e não gostar.
- Só se você for correndo contar para ele.
Vamos, pode ir.
Não é isso que quer?
Cair nas boas graças do chefão?
- Você pensa que é melhor do que nós, não é mesmo? - retrucou com raiva.
Só porque é modelo, se julga importante.
Pois fique sabendo que você não tem nada de especial.
É só um garotinho arrogante e cheio de pretensões.
Pensa que é muito bom, mas é um marginalzinho disfarçado.
E, no dia em que sua namorada descobrir, adeus paixão.
Por pouco, Régis não acertou um murro na cara de Alex.
Teria mesmo feito isso se não avistasse a mãe passando pelo outro lado da rua, carregando duas sacolas de compras.
Não queria que ela percebesse o que estava acontecendo.
- Suma da minha vista! - disse irritado.
Você não é ninguém para falar assim comigo.
Régis afastou-se de Alex, atravessando a rua em direcção à mãe.
Do outro lado, Alex o fitava com um sorriso irónico nos lábios.
Se continuasse daquele jeito, Régis poderia dar adeus à família.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 20, 2015 11:01 am

Depois que perdesse tudo, se despediria também da vida.
Era assim que Bira trabalhava, e era bem feito.
Régis alcançou a mãe em instantes, tomando as sacolas de suas mãos.
- Com quem estava falando, meu filho? - indagou ela.
- Com Alex.
- Sei que você conhece Alex a vida inteira, mas ele não é companhia para você.
Acho lamentável que ele tenha se entregado ao vício.
- Não se preocupe com isso, mãe.
Alex e eu não somos mais amigos.
- Sinto pena dele, mas não acho que você deva se envolver.
Tenho orado bastante para que ele encontre o caminho certo.
A bondade da mãe encheu Régis de vergonha.
O que ela diria se soubesse?
Mas Régis não era o único que tinha coisas a esconder.
Geórgia também amargava a dúvida se devia ou não contar a ele a verdade sobre seu passado.
Desde que Júlio a procurara, alguns dias antes, vivia imenso conflito.
Cléia a aconselhara a se abrir, contudo não tinha coragem.
- Como está indo seu namoro com Natália? - perguntou.
- Bem - respondeu ele, inseguro.
- Não senti firmeza na sua voz.
Aconteceu alguma coisa?
- Não. É só que o pai dela não gosta de mim.
- Por quê?
- Não sei ao certo.
Parece que tem preconceito contra modelos.
Queria que ela namorasse um doutor.
- Você gosta mesmo dessa moça, não é?
- Eu a amo.
- Você ainda é muito jovem para saber o que é o amor.
- Está enganada.
Meu amor por Natália é verdadeiro.
Parece que a amo há muito tempo.
- Pode ser. Mas, se o pai dela não gosta de você, será que é boa ideia vocês continuarem namorando?
- Não acredito que você vai dar razão a ele!
- Não vou.
Só não quero que você sofra.
- Vou sofrer muito mais se me afastar de Natália.
- Está bem, meu filho.
Não precisa se aborrecer.
- Eu nunca me aborreço com você, mãe.
Amo-a demais.
- Sei disso. Também o amo muito.
É por isso que fico preocupada.
- Se você arranjasse alguém, talvez não se preocupasse tanto.
- Que história é essa agora?
- Sério, mãe!
Você é uma mulher bonita.
E jovem ainda.
Nem parece que tem quarenta e cinco anos.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 20, 2015 11:01 am

- Não precisa espalhar - gracejou ela.
- Você passou a vida inteira cuidando de mim.
Está na hora de pensar um pouco em si mesma.
- Não posso, Régis.
Desiludi-me com a vida, ao menos no que diz respeito à paixão.
- Você amava meu pai?
- Não - disse ela, após alguns minutos.
- Então, por que se envolveu com ele?
Ela não respondeu. Não conseguiu.
Falar de Tácio ainda doía muito.
Queria dizer alguma coisa para satisfazer a curiosidade dele, mas só o que conseguiu extravasar foram lágrimas.
- Não chore, mãe - arrependeu-se ele.
Não queria trazer-lhe lembranças dolorosas.
- Ah! Régis! Se você soubesse o que eu passei...
- Eu sei, compreendo.
Olhe, mãe, desculpe-me.
Que droga, não queria fazê-la chorar!
- Deixe para lá.
- Esqueça o que eu disse, está
Não tem importância.
- Eu o amo, meu filho.
A gente se arrepende de muitas coisas na vida, menos do amor que dá e recebe.
E não me arrependo, nem por um minuto, de ter tido você.
- Eu sei. Você foi muito corajosa.
Criou-me sozinha, só com a ajuda da vovó.
Admiro-a e respeito-a por isso.
Silenciaram, cada qual imerso em seus próprios segredos.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 20, 2015 11:01 am

Capítulo 41

Logo na segunda-feira seguinte, Júlio voltou sozinho para São Paulo.
Seus esforços para levar Patrícia foram todos em vão.
A menina se mostrava irredutível, ele não tinha força com ela.
Por mais que esbracejasse, Patrícia sempre conseguia o que queria.
E ainda contava com o apoio da mãe, que não via nada de mais no facto de a filha estar perdendo dias preciosos de aula.
- Deixe de frescuras, Júlio - dissera Bianca.
Patrícia é inteligente, logo recupera o tempo perdido.
- É, pai, quero ficar no Rio.
Mamãe está vendo escola para mim aqui perto.
Quem não ficou nada satisfeita foi Natália.
A última coisa que desejava era a irmã em sua casa.
Não tinha, contudo, motivos para expulsá-la.
O apartamento era do pai, que acabou cedendo, como sempre fazia.
- Está bem - resignou-se ele.
Já que não tem jeito, pode ficar.
Mas quero-a de volta à escola o mais rápido possível.
- Pode deixar - afirmou Bianca.
Ainda essa semana ela já estará matriculada.
- Acho uma loucura o que vocês dois estão fazendo - protestou Natália.
Trabalho o dia todo, tenho faculdade à noite.
Quem vai ficar de olho em Patrícia?
- Ninguém - ela apressou-se em responder, levemente irritada.
Sei cuidar de mim mesma.
- Sua irmã já não é mais criança - ponderou Bianca.
E depois, eu moro aqui.
Qualquer problema, é só me ligar.
- Por que não vai morar com mamãe, então? - insistiu Natália.
Ela não trabalha, pode cuidar de você.
- Porque não quero - objectou Patrícia, com veemência.
Quero ser independente como você.
E depois, pensei que você gostasse de mim.
- Eu gosto. Mas é que você ainda é menor de idade.
É muita responsabilidade.
- Vai dar tudo certo, querida - intercedeu Bianca.
E você pode me telefonar a qualquer hora.
Ainda sou mãe de vocês duas.
Ficou acertado.
Júlio retornou a São Paulo, e na segunda-feira, embora houvesse perdido vários dias de aula, Patrícia já frequentava uma nova escola.
Finalmente, estava livre para fazer o que quisesse.
Régis também não recebeu bem a notícia.
Vivia um momento de angustiante pressão e a última coisa que desejava era ver Patrícia nas mãos de Bira, manipulada para convencê-lo a agir.
Sentia-se, cada vez mais, premido pelas circunstâncias.
Assim que saiu do estúdio, viu o carro de Bira estacionado no meio-fio.
A contragosto, encaminhou-se para lá.
Para seu alívio, o traficante estava sozinho.
- Cadé a Patrícia? - questionou Régis.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 20, 2015 11:01 am

- Não se preocupe com ela - foi a resposta fria.
Aliás, quero que você pare de importuná-la.
Não gosto que interfiram nas minhas relações amorosas.
- Por favor, Bira, ela é só uma criança.
Já não vou fazer o que você quer?
Por que não a deixa de lado e arranja outra?
Qualquer mulher ficaria louca por você.
- Acontece que eu gosto da menina.
Agora pare com isso.
Patrícia não precisa de babá, nem eu, de conselheiro amoroso.
Meu negócio com você é outro.
E então? Tudo pronto?
- Acho que sim.
- Quantos você conseguiu?
- Quase todo mundo.
Fiquei de olho, joguei umas indirectas e conquistei muita gente.
O pessoal ficou doido para receber a droga sem sair de casa.
- Você falou que é coisa boa?
- Falei.
- Óptimo. Você foi muito eficiente.
Quando poderemos fazer a primeira entrega?
- Isso depende de você.
- Quero que seja para logo.
Acho que amanhã está bom.
- Você vai trazer a coca para mim, aqui?
- Não seja idiota.
Não vou dar bandeira desse jeito.
Se aparecer a polícia, estamos fritos.
Vamos marcar em um lugar seguro.
- Na sua casa?
- Está ficando bobo, Régis?
Na minha casa é que não.
Ou você acha que eu vou arriscar expor meu esconderijo?
- Onde, então?
Bira olhou para o capanga da frente, que assentiu.
Apanhou um papel no porta-luvas, escreveu um endereço e estendeu-o a Régis.
- A que horas?
- Hum... Deixe ver - Bira consultou o relógio.
São dez para as seis.
Acho que à meia-noite está bom.
- Combinado.
Meia-noite, em ponto, estarei lá.
- Até lá então.
E, Régis, não tente me enganar.
Tenho sua avozinha na mira.
Régis desceu do carro, trémulo de medo.
Não temia por si, mas pela vida de seus familiares.
- E então, chefe? - questionou o capanga.
Acha que ele fez o troço direito?
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 20, 2015 11:01 am

- Não confio nele, mas vai fazer, com certeza.
Ainda tenho um trunfo nas mãos.
Os capangas riram debochadamente.
Bira podia não confiar em Régis, mas estava certo de que o prendia pelo medo.
Em pouco tempo, todos os idiotas com quem ele trabalhava estariam em suas mãos também.
Poderia, então, começar seus planos de campanha.
Esperava lançar sua candidatura já nas próximas eleições.
A caminho do ponto de encontro, Régis refazia toda a sua vida, maldizendo o dia em que conhecera Bira.
Mais ainda, a hora em que resolvera ajudá-lo a se livrar da polícia.
Agora, estava preso a ele pelo resto da vida.
Imaginava como faria para que sua família e Natália jamais descobrissem em que ele andava metido.
Chegou ao local cinco minutos antes da hora aprazada.
Mal se percebia movimento na casa abandonada que serviria de encontro.
Era um casarão antigo, numa rua praticamente deserta.
No andar de cima, luzes de vela eram o único sinal de vida.
Régis sentiu um arrepio.
Em uma situação como aquela, alguns meses antes, Bira podia ter sido preso.
Não fosse sua intervenção, a polícia teria concluído seu trabalho, prendendo o traficante e evitando que ele agora tivesse de passar pelo que estava passando.
A passos hesitantes, Régis bateu na porta.
Um dos capangas abriu-a parcialmente, mandando-o entrar.
- Onde está o Bira? - questionou, desconfiado.
- Lá em cima.
Estávamos esperando você.
Iluminando o chão com uma lanterna, o capanga conduziu-o por um corredor comprido.
Régis não estava gostando nada daquilo.
O lugar era ermo, sem vizinhança por perto.
A casa imensa, cheia de salas escuras.
Régis seguiu o outro por uma escadaria sinistra, chegando até o segundo andar, onde novo corredor se estendia.
O capanga conduziu Régis até um quarto amplo, cheirando a mofo e poeira.
Havia muitos anos que ninguém morava ali.
O cómodo estava praticamente desguarnecido de móveis, fazendo ecoar suas vozes no vazio.
Uma mesa de madeira fora colocada bem no centro.
Ao redor, cadeiras de praia haviam sido armadas para dar lugar aos homens do traficante.
- E o Bira? - insistiu Régis, constatando que ele não estava ali.
- Ele já vem. Está resolvendo um probleminha.
Os homens riram ao mesmo tempo, deixando Régis ainda mais desconfiado.
Temia uma armadilha.
Mas por que Bira se daria o trabalho de armar uma arapuca para ele se podia matá-lo em qualquer lugar e a qualquer momento?
Na angústia da espera, mil situações passaram pela sua cabeça.
Os capangas o olhavam com ar enigmático, sem deixar transparecer nenhuma emoção.
Régis começou a impacientar-se.
Um nervoso atroz fez sua testa suar frio.
As mãos também transpiravam, revelando o temor que a situação lhe infligia.
Não sabia o porquê da demora nem o que estava acontecendo.
De repente, uma porta lateral se abriu.
Era um quarto com ligação, de onde surgiu Bira, apertando o cinto das calças.
Atrás dele, veio Patrícia, rindo maliciosamente, a blusa torta deixando à mostra parte de seus seios rígidos.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 20, 2015 11:02 am

- O que significa isso? - indagou Régis, atónito.
O que ela está fazendo aqui?
- Calma - pediu Bira.
Ela está me fazendo companhia.
- Você devia estar em casa - censurou, dirigindo-se à menina.
- Como veio parar aqui?
- Bira me trouxe, ora - esclareceu ela, divertindo-se com o desespero dele.
Natália estava dormindo, nem me viu sair.
- Vá embora - rosnou ele, segurando-a firmemente pelo braço.
Saia daqui imediatamente.
- Me solta! - gritou ela.
Está me machucando.
- O que deu em você, Régis? - enfureceu-se Bira.
Solte a menina.
Um dos capangas se aproximou, forçando Régis a largar o braço de Patrícia.
O homem puxou-a gentilmente, conduzindo-a para fora.
- Aonde a está levando? - questionou Régis, apavorado.
- Preciso falar-lhe em particular - avisou Bira.
Daqui a pouco, ela volta.
- O que está pretendendo?
Não fiz o que você queria?
Por que a trouxe aqui?
- Você é um idiota, sabia?
Acha mesmo que eu precisava disso tudo só para lhe passar umas trouxinhas de coca?
Marquei esse encontro aqui só para lhe mostrar que eu estou no comando.
A menina está nas minhas mãos.
Tenho todas as mulheres da sua vida sob o meu domínio.
Mãe, avó, namorada... e amante.
- Patrícia não é minha amante.
- Não é o que ela diz.
- Ela está mentindo.
- Pode ser.
Patrícia é uma menina tola, mas muito experiente quando se trata de dar prazer a um homem.
Acho que você sabe disso, não?
- Não sei de nada.
Já disse que ela não é minha amante.
- Deixe de bobagens.
Pensa que não sei que você já dormiu com ela?
- Você está sendo irracional.
Se eu houvesse dormido com ela, não precisaria de Natália.
- Natália é boazinha, mulher para se casar.
Mas Patrícia, não.
É mulher só de cama, não de mesa.
Ele riu de si mesmo, saboreando o pânico que nublava os olhos de Régis.
Bira fez um sinal para outro de seus capangas, que se levantou e voltou momentos depois, com Patrícia e o outro sujeito.
- Muito bem.
Agora vamos aos negócios.
Já que está aqui, não precisamos perder a oportunidade de você levar a encomenda, não é? - ele estalou os dedos, e a droga logo apareceu em suas mãos.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 20, 2015 11:02 am

Coisa boa. Seus amigos não vão se arrepender.
No momento em que Bira entregava o pacote a Régis, ele lançou um olhar de desespero a Patrícia, ia gritar para que ela fugisse, mas não teve tempo.
A porta do quarto se escancarou com o pontapé da polícia, parecendo que um batalhão inteiro entrava de armas em punho.
- Polícia! Todo mundo no chão!
Mãos na cabeça! Mãos na cabeça!
A reacção da quadrilha foi inesperada.
Sentindo que nada mais tinham a perder, os homens de Bira responderam com fogo.
Balas espocaram, ricocheteando por todos os lados.
Vidros estilhaçados, cheiro de pólvora queimada, gritos de morte se misturando no caos da guerrilha.
No cómodo, apertado demais para servir de campo de batalha, corpos começaram a tombar, ora da polícia, ora dos traficantes.
Régis só teve tempo de se atirar no chão, protegendo a cabeça com as mãos.
Sentiu que um policial o segurava pelas pernas, tentando puxá-lo para longe do fogo cruzado.
- Não! - esperneava. - Não! Patrícia!
Onde está ela? Patrícia!
Não ouviu mais nada.
Só o que sentiu foi uma ardência nas costas, bem no momento em que erguia o corpo para escapar das mãos do homem que o segurava.
A vista nublou de repente, a respiração tornou-se difícil.
Em poucos segundos, tudo pareceu parte de um sonho.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 21, 2015 10:41 am

Capitulo 42

Era um longo percurso até a ravina seca em que Damien se escondera.
Se quisesse, Tácio poderia ultrapassá-la com facilidade, só usando a força do pensamento.
Uriel havia passado horas ensinando-lhe a fazer isso.
Não queria, porém, intimidar o companheiro.
O lugar estava praticamente deserto.
Os espíritos que ali se refugiavam eram arredios, assustados.
Sempre que alguém aparecia, eles fugiam apavorados.
Demorou um pouco até Tácio alcançar o esconderijo de Damien:
uma caverna pequena, quase imperceptível, perfurada na rocha húmida.
Tão logo entrou, percebeu que Damien não estava por ali.
Resolveu esperar.
Algum tempo depois, Damien apareceu, carregando nas mãos um punhado de coisas sujas e aparentemente apodrecidas.
Reparando melhor, Tácio descobriu que se tratava de restos de trabalhos de magia que ele, provavelmente, recolhera pelas esquinas.
Assim que entrou, Damien deu de cara com ele.
Estacou rapidamente, mas não se deteve no olhar.
Passou por ele, depositou as coisas em cima de uma mesa tosca e sentou-se de costas para ele.
- Por que voltou? - indagou, organizando suas novas posses.
- Vim ver como você está.
- Como achou que eu estaria?
- Na mesma. Por isso estou aqui.
Quero levá-lo comigo.
- Só porque você se bandeou para o lado de lá não quer dizer que tenho que fazer o mesmo - revidou com raiva, agora encarando-o com uma certa fúria.
- Não, claro que não.
Mas eu não me bandeei para o lado de lá.
Fui atacado por Atílio e seu bando.
Tive que fugir.
- Viu só?
Não lhe falei que era perigoso sair por aí sozinho?
- Aconteceu algo inusitado, Damien.
Você nem imagina.
- O quê?
- Entrei na casa de Geórgia.
- Como é que é?
- Entrei na casa dela.
Para fugir de Atílio, conseguiu atravessar aquela barreira energética.
- Não me diga! - tornou, agora interessado.
Como isso foi possível?
- Até agora não compreendi muito bem, mas acho que minha energia se modificou, entrando em sintonia com a da casa.
- Eu devia imaginar uma coisa dessas.
Sabia que você era diferente.
- Somos todos diferentes.
E podemos mudar.
Por que você não muda?
- Eu?! Era só o que me faltava.
Há muitos séculos estou condenado.
Você sabe disso.
- Ninguém está condenado.
Tenho aprendido tantas coisas com Josué.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 21, 2015 10:41 am

Ele é um espírito de muita bondade e sabedoria.
E sabe aquela coisa de ter que reencarnar aleijado ou louco? - Ele assentiu.
- É tudo mentira.
A gente é que escolhe como quer renascer.
- Se fosse assim, ninguém escolheria ser deficiente nem pobre.
- Não é bem assim.
Existe todo um aparato espiritual para nos ajudar a escolher a melhor forma de aprender a lidar com as nossas dificuldades.
Opções nos são apresentadas, e nós escolhemos a que mais convém a nossa consciência.
Aprendi que os que vivem situações difíceis na Terra ainda não conseguiram se perdoar.
- E você acha que eu vou conseguir me perdoar?
Depois de tudo o que fiz em vida e mesmo depois de morto?
- Nós podemos tentar alguma coisa juntos.
Podemos ser irmãos.
Não precisamos reencarnar com nenhuma doença.
Podemos escolher um caminho de mais esforço, com mais luta pela sobrevivência, mas não de sofrimentos físicos ou mentais.
- Você seria meu irmão? - Damien surpreendeu-se.
- Seria, sem problemas.
A descoberta emocionou Damien, que olhou para ele com olhos húmidos.
Tácio sempre o surpreendia.
- Até que não seria má ideia - devaneou.
Voltar à Terra como seu irmão pode ser bom.
- Mas eu quero ser o mais velho.
Senão, você vai querer me dar ordens.
Damien jogou a cabeça para trás e soltou uma gargalhada.
Era a primeira vez em muito tempo que ria com vontade.
- Imagine se alguém ia querer ter nós dois como filhos - duvidou.
- Isso a gente arranja.
Podemos voltar junto de Régis.
O que você acha?
- Eu, hein!
Atílio vai perturbar todo mundo, inclusive nós dois.
- Acho que não.
Atílio está perdendo poder.
E, se você se aliar a nós, acho que conseguiremos vencê-lo.
- A nós? - repetiu surpreso
- A Josué e a mim.
- Você agora virou amigo de Josué?
- Virei. Ele é muito legal, como já lhe falei.
- Legal, sei.
- Por que não acredita?
Acha que eu mentiria para você?
Depois de todos esses anos juntos, ainda não confia em mim?
- Confio - respondeu sem titubear.
Se há alguém nessa vida em quem confio é em você.
- Então? Vamos tentar.
Tenho certeza de que nossos projectos para uma nova vida serão aprovados.
- Você ainda não me respondeu quem serão nossos pais.
Mizael e Natália é que não.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 21, 2015 10:41 am

- Você sabia que Natália é a mesma Nora que Atílio o mandou procurar?
- O quê?
Ela estava ali o tempo todo, perto de nós? - Tácio assentiu.
E eu nem desconfiei.
- Pois é. Nora e Mizael se amam há muitas vidas.
Mas é cedo para retornarmos junto a eles.
Podemos marcar para a geração seguinte.
Que tal sermos seus netos?
- Estranho, Tácio.
Qual é a sua relação com Mizael?
- Sou o pai dele.
- Não. Quero dizer, de outra vida.
Que ligação tem com ele?
- Nenhuma. Conheci-o quando ele nasceu.
Por quê? Isso é importante?
- Acho que não.
Também não conhecia você antes e nos demos muito bem.
- Podemos construir uma vida para o futuro.
O que você acha?
- Pode ser uma boa ideia.
Só não sei o que Atílio pensa disso.
- Deixe Atílio para lá. Ele já era.
- Como assim, já era?
Quando ele souber que vamos ser irmãos, vai fazer de tudo para nos prejudicar.
- Só se permitirmos.
Mas, se nos ligarmos às forças do bem, ele nada poderá contra nós.
- Parece que você já está convencido disso.
A mim, ainda me falta coragem.
- Seu problema é que você se acostumou a temer Atílio.
Se ele fosse tão poderoso assim como você pensa, teria me prendido lá na Terra e já teria mandado buscar você.
No entanto, nada tem feito contra nós.
- E se ele estiver planeando alguma coisa?
Você não acha que ele vai aceitar passivamente a derrota, acha?
Pensa mesmo que ele vai entregar o queridinho dele de mão beijada para o pessoal da luz?
- Ele não tem que entregar ninguém.
Caso ele ainda não tenha percebido, Régis não lhe pertence mais.
Na verdade, nunca pertenceu.
- Por que será que ele mudou tanto?
Atílio o preparou tão bem!
- Atílio não contava com uma coisa fundamental.
Mandou-o para a luz, onde ele teve contacto com a sabedoria que vem de Deus.
Já meio balançado pelas culpas, intimamente desejando se modificar, Mizael retornou à Terra com a semente dos novos valores prestes a brotar em seu coração.
Envolvido, primeiramente, pelo amor da mãe e da avó e, agora, pelo de Natália, foi aos poucos se distanciando de Atílio e de seus planos malignos.
Régis não se harmoniza mais com ele.
Damien estava chorando, surpreso não apenas com a transformação de Mizael, mas com sua própria mudança.
Se antes desejava levar o outro ao fracasso, agora só pensava em ajudar a si mesmo.
- Quero ir com você - afirmou, ainda meio indeciso.
A seu lado, sinto-me fortalecido para enfrentar Atílio e sua horda de assassinos.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 21, 2015 10:42 am

- Não se esqueça de que já pertenceu a essa horda.
E lembre-se: não subestime o inimigo.
Respeite-o, mas não o tema.
- Você está ficando sábio, Tácio.
É Josué quem anda lhe ensinando essas coisas?
- Pode-se dizer que sim.
De resto, a vida aos poucos se encarrega de clarear as verdades.
- E está ficando engraçado também.
São as drogas?
- Não tenho mais sentido necessidade de me drogar.
Faz algum tempo que deixei de lado esse vício. Você sabe.
- Isso é muito bom.
Você tem força de vontade.
- Temos que ter.
Do contrário, o desânimo nos domina.
E você não quer ser dominado por ele, quer?
- Não.
- Então vamos.
Já perdemos muito tempo aqui.
Tácio puxou-o pela mão, mas Damien não se levantou, olhando discretamente para os elementos que havia recolhido.
- O que faço com tudo isso? - indagou.
- Sinceramente, Damien, para que você quer isso?
Não passa de lixo astral, nada que lhe faça bem.
- Tem energia aí.
Pouca, mas tem.
- Você quer continuar mendigando?
Isso são migalhas.
Podemos conseguir energia pura, limpa, reparadora, sem termos que nos humilhar.
Lá onde estou, todo o ar rescende à pureza.
Naturalmente, vamos alimentando nosso corpo de energia límpida.
Vamos, deixe isso aí.
Logo tudo vai se desmanchar mesmo.
Ele hesitou, e Tácio prosseguiu:
- Você fala do meu vício, mas está agindo igualzinho a um viciado.
- Não sou viciado - protestou irritado.
- Então vamos embora.
Largue essa porcaria aí.
É só energia, vai se dissipar.
- Tem razão. Não serve para nada.
Damien deu um esbarrão na mesa, que virou, derramando as coisas no chão.
Aos poucos, a energia condensada dos elementos foi se desprendendo, retornando ao cosmo em forma de átomos astrais.
- Venha - chamou Tácio.
Chegou a minha vez de acolher você.
Com a mão sobre o ombro dele, Tácio conduziu Damien para fora.
Depois de alguns passos, seu pensamento os levou para junto de Josué, que os aguardava num posto de auxílio próximo, certo do sucesso da missão de Tácio.
Antes de esvanecerem no ar, Damien ainda conseguiu ouvir as últimas palavras de Tácio naquele submundo de sombras:
- Vamos embora, irmão.
Foi a última e melhor lembrança que Damien guardou daquela vida.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 21, 2015 10:42 am

Seria preciso passar por um processo de recuperação para reequilibrar o corpo fluídico de Damien, cuja vibração de subtileza permanecia no campo mais denso da matéria astral.
Mas Tácio tinha razão.
O ar ali em cima era mais benéfico, límpido.
Quase um banho de energia pura.
E Josué se mostrava disposto a ajudá-lo a restabelecer a auto-estima e a compreender suas ilusões.
Mais do que tudo, o que estimulava Damien era a esperança de reencarnar como irmão de Tácio.
Só agora se dava conta do quanto aprendera a amá-lo.
Ser irmão dele seria uma experiência gratificante, muito além do que julgava merecer.
No momento, ele e Tácio dividiam o mesmo quarto numa espécie de alojamento.
Tudo era muito claro, limpo, fresco.
Damien estava gostando imensamente daquela nova vida, evitando pensar em Atílio para não cair em depressão.
Ele abriu os olhos em seu leito macio, de lençóis alvos e perfumados.
A cama ao lado estava vazia, sinal de que Tácio havia saído.
Damien espreguiçou-se e olhou pela janela, surpreso com o sol brilhante e morno que se derramava sobre as flores do jardim.
Tudo ali era tão bonito, tão claro, tão diferente do submundo governado por Atílio.
Não se arrependia de ter partido.
Um lugar abençoado como aquele não se comparava às trevas amaldiçoadas em que se permitira aprisionar.
Em poucos instantes, Tácio apareceu.
Sorriu para ele, afagou seus cabelos.
- Como se sente hoje? - indagou.
- Optimamente.
Nunca vou deixar de lhe agradecer pelo bem que está me fazendo.
- Não pense nisso.
Você também me ajudou quando desencarnei.
- Não fiz nada - tornou de olhos baixos, ruborizado.
Acolhi-o por interesse.
- Ainda assim, me acolheu.
Pode não parecer, mas foi a melhor coisa que você podia ter feito por mim.
Você não faz ideia do quanto me ajudou.
Isso nos tornou amigos.
Somos amigos, não somos?
- Por toda vida.
- Viu só? Conquistei o seu amor.
Não é melhor se aliar a pessoas pelo amor do que pelo medo?
- Sem dúvida.
- Muito bem. Mas agora preciso sair.
Vim lhe avisar que tenho que retornar à Terra.
- Porquê?
- Régis foi baleado.
- O quê? Como?
- Num confronto entre a polícia e os traficantes.
- Ele vai sobreviver?
- É o que veremos agora.
Estou indo com Josué e Uriel ao hospital onde ele está internado.
- Quer que eu vá junto?
- Não precisa. Fique e descanse.
Atílio deve estar por perto também, e não queremos provocar uma guerra.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 21, 2015 10:42 am

- Está bem. Mas tome cuidado.
A primeira coisa que Tácio viu quando chegou ao hospital foi Atílio parado ao lado de Régis.
O espírito não se deu conta da sua presença.
Agora vibrando numa frequência superior à do ser das sombras, não era por ele percebido.
Do outro lado do leito, Geórgia e Cléia oravam em silêncio.
Estranhamente, a oração não incomodou Atílio, parecendo mesmo que o confortava.
- O que está acontecendo? - Uriel indagou a Josué.
Atílio parece estar gostando da prece.
- E está - esclareceu Josué.
Mesmo que disso não se dê conta, a sensação de paz que está sentindo vai penetrando todas as suas células astrais, injectando-lhe novas energias.
- Mas ele sempre detestou qualquer coisa que venha do lado divino.
- Atílio pode se julgar perverso e durão, mas é uma entidade humana, tem sentimentos e desejos.
Seu amor por Régis é verdadeiro.
Nesse momento, não está interessado em conduzi-lo pela estrada do crime.
Está mais preocupado em salvar-lhe a vida.
- Não seria melhor para ele que Régis desencarnasse? - questionou Tácio.
A missão que lhe confiou está fracassada.
Tê-lo de volta talvez seja de seu interesse.
- É e não é. Primeiro, porque Atílio não acredita no fracasso.
Segundo, e mais importante, é que o sofrimento de Régis o faz sofrer.
E tem a Natália.
Ele a viu ainda há pouco, tão abalada que tocou seu coração.
Agora venha, Uriel, vamos ajudar como pudermos.
Enquanto Tácio se acomodava a um canto, Josué e Uriel passaram a energizar o ambiente, espargindo no ar folículos de um tom suave de verde, quase translúcido.
Imediatamente, os presentes foram atingidos por uma chuva de esmeralda, que fez dissipar parte do esgotamento nervoso a que vinham sendo submetidos nas últimas horas.
Tocado pelo efeito calmante da luz verde, Atílio começou a chorar.
Um pouco de longe, Josué fez chegar até ele formas energéticas de revitalização.
Percebendo a mudança no astral do ambiente, Atílio levantou a cabeça, certo da presença invisível de espíritos iluminados.
A inquietação o fez recuar em direcção à parede, numa atitude claramente defensiva.
No entanto, não se sentia com ânimo para enfrentar nenhum espírito de luz.
Por isso, de forma inesperada, pousou um beijo delicado na testa de Régis e saiu.
Do lado de fora, os policiais se revezavam na vigília de Régis.
Embora não acreditassem em represálias, o mínimo que podiam fazer era dar àquela mãe a certeza de que o filho não seria atacado por nenhum marginal remanescente da quadrilha de Bira.
Joel entreabriu a porta lentamente, fazendo sinal para que Geórgia saísse.
Ela deixou Régis em companhia da mãe para atendê-lo.
- Como ele está? - indagou, realmente preocupado.
- Ele foi operado, mas os médicos ainda não sabem se vai se recuperar.
Se ele conseguir passar dessa noite, tem boas chances de sobreviver.
- Dona Geórgia, estou aqui em nome da corporação para lhe prestar nossa solidariedade.
Todos reclamam da polícia, mas há no nosso meio bons policiais que dão a vida no cumprimento do dever.
É em nome destes últimos que venho lhe falar e demonstrar nossa eterna gratidão.
Seu filho foi um verdadeiro herói.
Arriscou a vida para colocar na prisão um perigoso traficante, atrás do qual estamos há muito tempo.
Enxugando as lágrimas em um lencinho de papel, Geórgia encarou-o com a dor estampada no olhar.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 21, 2015 10:42 am

Quase sem voz, conseguiu retrucar:
- Será que eu devia mesmo me sentir orgulhosa por isso?
Não quero um filho herói.
Quero um filho vivo.
- Compreendo a sua dor.
Mas ele nos ajudou a desbaratar uma quadrilha perigosíssima de traficantes de drogas.
- Se isso servir para que outras mães não passem pelo que estou passando, então talvez eu sinta algum conforto.
Do contrário, não.
- Seu filho é um rapaz muito corajoso.
E não digo isso apenas pelo risco que correu ao delatar o traficante, mas pela coragem que teve de assumir que foi o responsável pelo fracasso de outra acção da polícia, que levou à morte, inclusive, uma mulher inocente, nossa informante.
- Foi por isso que Régis fez o que fez?
Porque se sentia culpado pela morte da moça?
- Exactamente.
A senhora devia considerar isso como um acto duplo de bravura.
Ela balançou a cabeça.
Conhecia toda a história.
- Ele vai ser preso por isso?
- Não. Apenas eu ouvi essa parte da história e não vou contar a ninguém.
O que Régis fez compensou a inconsequência do passado.
Geórgia silenciou.
Não sabia ao certo o que pensar.
Por mais que a quadrilha de Bira houvesse sido desfeita, havia consequências que não poderiam ser apagadas.
Nada jamais seria como antes.
- Obrigada pelo seu apoio - finalizou Geórgia.
Mas agora preciso voltar para junto do meu filho.
- Está certo. Estarei por perto, se precisar.
Aqui tem o meu telefone.
Geórgia apanhou o cartão que ele lhe ofereceu.
Com um aceno de cabeça, rodou nos calcanhares e voltou para o quarto.
- Vá para casa, mãe - disse ela a Cléia.
Deixe que eu ficarei aqui com ele.
- Não vou deixá-la sozinha.
- Nosso plano de saúde só dá direito a um acompanhante.
- Bom, se é assim, eu vou, mas só quando terminar o horário de visitas.
- Isso vai ser daqui a menos de cinco minutos.
Não se preocupe comigo, vou ficar bem.
Mas vou me preocupar com você se não souber que está no conforto da sua cama.
Você não tem mais idade para esses sacrifícios.
- Não é sacrifício nenhum.
E não sou tão velha assim.
Uma enfermeira apareceu na porta, anunciando o fim do horário de visitas.
- Viu? - prosseguiu Geórgia.
Eu não falei?
Embora contrariada, Cléia foi para casa, não sem antes fazer milhares de recomendações para que Geórgia lhe telefonasse em caso de qualquer alteração.
Acomodada num pequeno sofá embaixo da janela, Geórgia custou a adormecer.
Não parava de pensar na tragédia que havia acontecido.
Pensou em Natália, em Júlio, em Bianca.
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Ave sem Ninho

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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 21, 2015 10:43 am

Não gostava de Bianca, mas, como mãe, podia imaginar o seu sofrimento.
Varou a noite pensando essas coisas, atormentada pelo medo de que o filho morresse.
Depois de tudo o que ela sofrera para que ele nascesse, não poderia perdê-lo.
A toda hora, rezava para que Deus se apiedasse dela e de Régis, permitindo que ele continuasse na vida.
O dia já estava quase amanhecendo quando ela, finalmente, pegou no sono.
Mal havia cerrado os olhos quando uma voz fraca e quase inaudível ecoou ao longe.
Praticamente imperceptível, teria passado despercebida, não fossem os ouvidos treinados de toda mãe para reconhecer a voz de seus filhos:
- Mãe...
Geórgia abriu os olhos, logo se dando conta de que Régis a chamava baixinho.
Ela deu um salto do sofá e aproximou-se dele, segurando-lhe a mão estendida para fora da cama.
- Graças a Deus, Régis!
Você voltou.
- Que lugar é esse, mãe? - prosseguiu ele.
É um hospital?
- Sim.
- Fui ferido? - Geórgia assentiu.
E Bira? Foi preso?
- Ele foi morto.
Junto com todos do seu bando.
- Morto... Como aconteceu?
- Foi uma troca de tiros.
Não se lembra?
- Lembro... mais ou menos...
- Não importa, querido.
Procure descansar.
Acho que não é bom você falar muito.
Melhor chamar o médico.
- Espere um instante. Cadé a Natália?
- Esteve aqui mais cedo, mas precisou ir para casa.
Disse que vai voltar amanhã.
- E Patrícia?
Ela também estava lá.
Geórgia não respondeu.
- Vou chamar o médico - falou laconicamente e saiu.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 21, 2015 10:43 am

Capitulo 43

Dentro do avião, Júlio não parava de chorar.
Devia imaginar que algo assim acabaria acontecendo.
Não devia ter deixado Patrícia sozinha no Rio de Janeiro.
E logo com quem!
Embora não soubesse o que havia acontecido, tinha certeza de que a culpa era toda de Régis.
Corria sangue de viciado em suas veias.
Duvidava muito que ele não fosse viciado também.
Quando finalmente conseguiu chegar à casa de Natália, ela e Bianca choravam abraçadas na sala.
Em sua profunda dor, juntou-se a elas.
- Onde está minha menina? - indagou com voz pungente.
Quero vê-la.
- Ela está no IML21, pai - esclareceu Natália.
O corpo ainda não foi liberado.
Ouvir Natália falar de sua filha como um simples corpo morto lhe causou um desespero insuportável.
- Isso não pode ser verdade. É um pesadelo.
Como uma coisa dessas foi acontecer justo com a minha filha?
Minha pequena Patrícia, tão jovem, tão pura!
- Por favor, pai, procure se acalmar.
Por enquanto, ainda não sabemos de nada.
Um policial ficou de vir aqui conversar connosco.
Estamos aguardando-o.
- Que policial, que nada!
Quero ver a minha filha!
- Não adianta se desesperar - intercedeu Bianca.
Pensa que já não fiz isso?
Pedi, implorei, ameacei.
Ainda devem estar fazendo a autópsia.
- Como é que você consegue falar uma coisa dessas assim, tão friamente?
Será possível que nem a morte da sua filha faz você se emocionar?
- Eu me emociono à minha maneira.
Por que pensa que você é o único que está sofrendo?
Ela era mais minha filha do que sua.
- Isso é que não! - rugiu ele.
Você nunca a amou como eu.
A nenhuma das duas.
Nem a Natália, que é nossa.
Na mesma hora em que falou, Júlio se arrependeu.
Olhou de Bianca para Natália, torcendo, desesperadamente, para que ela não o tivesse ouvido.
Tarde demais.
- O que isso quer dizer? - sondou ela, desconfiada.
Por acaso Patrícia não era filha de vocês?
- Que bobagem, filhinha - intercedeu Bianca, chorosa.
É claro que Patrícia era nossa.
- Por que então papai falou que eu sou de vocês.
Dá a entender que Patrícia, não.
Por acaso ela era adoptada?
- Não.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 21, 2015 10:43 am

- Vocês estão me escondendo alguma coisa.
Patrícia não era sua filha, pai?
É isso? Ela era filha de outro homem?
Com o desespero descendo em forma de lágrimas, Júlio encarou a filha e rebateu amargurado:
- Não quero falar sobre isso agora.
Eu não suportaria... - calou-se, engolindo o pranto.
- Deixe estar, Natália.
Estamos todos abalados, sofrendo.
Natália não disse mais nada.
Em respeito aos pais, achou melhor se calar.
Permaneceu com eles num silêncio torturante, interrompido, de vez em quando, por soluços dolorosos.
- Vou tomar um comprimido e me deitar - informou Júlio, pesaroso.
Não suporto mais essa agonia.
Bianca aguardou até que Júlio se retirasse para conversar a sós com Natália.
Esperou até que o pranto silenciasse, apanhou a mão dela e começou a dizer com tristeza:
- Quero que você saiba, Natália, que sempre amei você e Patrícia.
- Por que está dizendo isso?
- Posso ter sido uma mãe negligente, mas não foi falta de amor.
Depois que Patrícia nasceu, eu simplesmente não consegui mais conviver bem com seu pai e fui me afastando.
- Por quê? O que provocou isso?
- Acho que você já sabe - ela encarou Natália com tristeza e confessou.
Patrícia não era filha de seu pai.
- Você dormiu com outro homem? - Bianca assentiu, em lágrimas.
Quem é ele?
- Você não o conhece.
Nunca mais nos vimos depois que eu engravidei.
- Papai sempre soube?
- Desde que Patrícia nasceu.
- E ainda assim, ele a amou.
Talvez até mais do que a mim.
- Por favor, filhinha, não fique triste.
Seu pai amava vocês duas.
- Não estou triste, não por isso.
Minha tristeza é pela morte da minha irmã.
Sinceramente, mãe, eu até já desconfiava, dadas as diferenças físicas entre nós duas.
Cheguei a considerar a hipótese de adopção, mas, como vocês nunca falaram nada, fiquei na minha.
Não era meu direito questioná-los.
- E agora? Como se sente?
Vai me condenar?
- Quem sou eu para condenar alguém?
A vida é de vocês, não tenho nada com isso.
Se alguém tinha do que reclamar era papai.
Mas, se ele nunca disse nada, não sou eu que vou dizer.
Sempre amei Patrícia como minha irmã.
Isso não vai mudar agora.
Emocionada com a reacção de Natália, Bianca abraçou-se a ela e disse comovida:
- Ah! minha filha, você é uma alma tão nobre!
Por que Patrícia não era como você?
Por que teve que ser sempre tão desajuizada?
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

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