Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 06, 2015 12:02 pm

- Quem não muda através dos anos?
Você também não me parece o mesmo, embora eu saiba que é.
- Você me conhece?
Quem é você?
Aproximando os lábios do ouvido dele, num sopro delicado e morno, ela sussurrou com doçura:
- Nora.
Virou-lhe as costas lentamente, deixando-o aturdido, sem acção, uma infinidade de pensamentos contraditórios atravessando seu cérebro.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 06, 2015 12:02 pm

Capítulo 7

Geórgia ainda tentava compreender o ocorrido no churrasco de confraternização do banco.
Não conhecia Tácio nem sabia de sua história.
Impressionara-a o episódio, sentira uma piedade natural por aquele homem que, aparentemente, sofria.
- Deixe isso para lá, minha linda - pediu Júlio.
Tácio estava desequilibrado.
- Isso eu percebi. Mas por quê?
- Ele descobriu que a mulher o traía e perdeu o emprego.
- Coitado!
- Também tenho pena, mas não posso fazer nada.
Quis emprestar-lhe dinheiro, porém ele recusou.
- Será que não podemos convidá-lo para sair?
Talvez, conversando, consigamos levar-lhe um pouco de conforto.
- Você tem cada ideia, Geórgia!
Tenho pena do Tácio, mas não sou babá de marmanjo.
- Não é uma questão de ser babá.
É de ser solidário.
- Não dá. O Tácio é muito orgulhoso, não vai aceitar.
Nem eu tenho jeito para isso.
- Às vezes, só o que as pessoas precisam é de um pouco de atenção.
- Que ele já teve demais com o escândalo que aprontou.
Não houve quem não comentasse.
E agora, todo mundo no banco já sabe que ele é corno.
- Não fale assim.
- Mas é verdade - ele aproximou-se e pousou-lhe um beijo suave nos lábios, acrescentando com ardor:
- Não vejo a hora de nos casarmos e termos o nosso cantinho.
- Também eu. Amo-o demais.
- Você não faria isso comigo, não é?
- Isso o quê?
- Trair-me.
- É claro que não.
- Mesmo se você se apaixonasse por outra pessoa?
- Se eu me apaixonasse por outra pessoa, o que não creio ser possível, você seria o primeiro a saber.
E você? Faria o mesmo por mim?
- Eu nunca vou me apaixonar por outra.
Nunca vou deixar você.
- Mesmo que eu fique velha e gorda?
- Mesmo assim.
Nada neste mundo me faria deixar você.
Nada. Você é a mulher que eu amo.
Jamais faria como a mulher do Tácio, que o trocou por um garotão.
Eu nunca a trocaria por garotinha alguma.
Nós vamos envelhecer juntos.
Beijaram-se apaixonadamente, certos de seu amor recíproco.
- Agora vou voltar para o trabalho - anunciou ele.
Minha hora de almoço terminou.
- Está certo.
Não se esqueça de que hoje começo aquele curso de educação infantil.
- Não vou me esquecer.
Irei buscá-la à saída.
Não quero você andando sozinha à noite, principalmente porque tem que passar por aquela praça de maconheiros.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 06, 2015 12:03 pm

Júlio deixou-a a contragosto.
Amava-a tanto que não queria se separar dela.
Pensava em Tácio, em como estaria se virando para levar avante a vida.
Nesse mesmo instante, Tácio experimentava, pela primeira vez, uma carreirinha de cocaína.
Nunca fora ligado em drogas, contudo, diante das circunstâncias, talvez o ajudassem.
Inalada a substância, atirou-se na cama, à espera de que algo acontecesse.
Menos de dois minutos depois, foi acometido por uma sensação de euforia que o deixou aceso.
Levantou-se rapidamente, sentindo-se bem-disposto, revigorado em suas energias.
Assim estimulado, saiu para a rua, caminhando de peito estufado, seguro de si.
Ao cruzar com pessoas do sexo oposto, sentiu o desejo aflorar, chegando mesmo a soltar piadinhas sem graça para as mulheres.
A cada resposta indignada, o desejo aumentava, levando Tácio a ansiar, desesperadamente, por uma noite de sexo.
O pouco dinheiro que lhe restara gastou quase todo comprando cocaína.
Remexendo nos bolsos, conseguiu juntar alguns trocados.
Não sabia se seria suficiente para bancar uma garota de programa, mas precisava desesperadamente de sexo.
O jeito era se virar na Vila Mimosa5.
Tomou um ónibus lotado, enrolando para ficar parado perto da porta traseira, por onde entravam os passageiros.
Ao chegar à Praça da Bandeira, preparou-se para saltar.
Quando o motorista abriu a porta, desceu correndo as escadas, empurrando uma senhora que vinha subindo, quase derrubando-a ao chão.
A carreira foi tão inopinada que o trocador não teve reacção.
Mesmo que desejasse, não conseguiria alcançar o homem, ainda mais com o ónibus cheio daquele jeito.
Deixou para lá.
Aquela não era uma prática incomum, e ele não era pago para correr atrás de malandro.
Tácio atravessou correndo a avenida de alto movimento, até chegar à Vila.
Lá, escolheu a esmo uma boate, onde logo uma mulher começou a provocá-lo.
Sem maiores rodeios, subiu com ela para o quarto, surpreendendo-se quando ela lhe ofereceu outra carreirinha de coca.
Pensou em recusar, mas o efeito da dose anterior começava a se dissipar, fazendo retornar a depressão, ainda mais intensa do que antes.
Com medo de cair novamente naquele estado de melancolia incontornável, não teve dúvidas.
Aceitou a oferta da moça e com ela se drogou novamente.
Logo a euforia se fez sentir, o vigor reacendeu com mais intensidade, induzindo-o ao sexo animal e sádico.
Tácio fez coisas com as quais jamais havia sonhado, batendo na menina com uma certa violência, que o deixava ainda mais excitado.
Ao terminar, sentia-se satisfeito, completo, ainda eufórico sob o efeito da droga.
A moça não reclamou, acostumada a clientes brutos.
Ele pagou e foi embora, sem haver trocado uma única palavra com ela durante todo aquele tempo.
A caminho de casa, o efeito da cocaína foi aos poucos desaparecendo, fazendo ressurgirem os problemas.
Tácio não tinha agora nem mais um tostão.
Precisava desesperadamente de dinheiro para pagar as contas, o crediário, o aluguer, o condomínio.
Pensar em sua miséria deixou-o ainda mais nervoso, e logo veio a ideia.
E se experimentasse só mais um pouquinho da droga? Melhor não.
Embora tivesse certeza de que não se viciaria, preferiu não arriscar.
Anselmo já devia ter ligado para marcarem a data da homologação de sua rescisão contratual.
Será que ele ia aguardar até o término do prazo do aviso prévio para fazer isso?
Se fosse assim, ele ainda teria que aguardar mais umas duas semanas.
Como faria para sobreviver, se nem o salário do mês Anselmo lhe pagara?
Pensando em Anselmo, a raiva o consumiu.
Agora livre do efeito da droga, viu a irritação aumentar, misturando-se a momentos de depressão em que só o que sentia era vontade de morrer.
Sem se dar conta, caminhando a esmo, alcançou a agência bancária onde trabalhara.
Como era fim de expediente, logo seus ex-colegas começaram a sair.
Tácio nem sabia o que o mantinha ali, mas o facto é que uma curiosidade mórbida de ver os inimigos, como agora chamava Júlio e Anselmo, o fez ficar.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 06, 2015 12:03 pm

Parado na porta do banco, olhava fixamente para dentro, preocupando, inclusive, os seguranças que o haviam posto para fora do clube.
Viu Bianca passar, com seu corpo bem feito e provocativo, arrependendo-se de não ter dado em cima dela, acreditando em fidelidade.
Para quê? Bianca bem que lhe lançava uns olhares significativos, mas o idiota, por causa da esposa, fingia não perceber.
Um pouco mais tarde, Júlio surgiu em companhia de Anselmo, cochichando e gargalhando alto.
Na certa, falavam dele, riam pelas suas costas, achincalhando seu nome, chamando-o de corno.
Júlio foi o primeiro a vê-lo e hesitou.
Anselmo, por sua vez, não estava com disposição para aturar fracassados.
Deu um tapinha nas costas de Júlio, entrou em seu carro e foi embora.
A Júlio não restou opção senão falar com Tácio.
Como o caminho de sua casa ficava na direcção em que o outro estava, não teve como evitar passar perto dele.
Júlio fez um cumprimento com a cabeça, seguindo adiante na esperança de não ser seguido.
Foi exactamente o que Tácio fez.
- Não fala mais com os amigos? - indagou.
- Eu falei, Tácio.
É que estou com pressa, Geórgia está me esperando.
- Vocês vão se casar? - Júlio assentiu.
Quando?
- Em maio.
Mas ficaremos noivos mês que vem.
- Que bonito - ironizou.
Vou ser convidado?
Já arrependido de ter comentado sobre o casamento e o noivado, Júlio tentou desconversar:
- Perdoe-me, Tácio, mas estou realmente com pressa.
Outra hora a gente se fala.
Tácio rilhou os dentes de ódio, sentindo uma ânsia quase incontrolável de cocaína.
Estranhou aquela necessidade premente em tão pouco tempo de uso, mas não era possível que estivesse viciado.
Não tão depressa.
Contudo, a vontade foi aumentando, levando-o a desejar apenas mais uma carreirinha. Só mais uma.
Podia parar quando quisesse.
Sem que percebesse, começava a se encaminhar para o vício.
- Você pode me emprestar uns trocados? - pegou-se perguntando a Júlio, que já se afastava.
O outro estacou e abriu a carteira, dela retirando algumas notas.
Estendeu-as para Tácio, que as pegou sem contar.
- É tudo que tenho - informou Júlio.
- Valeu, cara. Você me salvou.
Embora não tivesse culpa de nada, Júlio se sentia culpado por ter conseguido a promoção, enquanto Tácio fora despedido.
Ele realmente estava numa pior.
Tinha dívidas para saldar e nenhum salário.
Se Anselmo ao menos fizesse aquela homologação...
Mas o gerente, com raiva, tornara-se irredutível.
Só faria a homologação ao final do aviso prévio.
De posse do dinheiro, Tácio correu até a boca de fumo, lá conseguindo uma dose razoável de coca.
O entorpecente deixou-o aparentemente mais firme em suas convicções, levando-o a crer que seus problemas financeiros seriam facilmente resolvidos.
Era cima da mesa, as contas do mês se amontoavam, o carnê do crediário escondia-se embaixo da papelada.
Nada foi pago. Nada importava.
Tácio sentia-se forte e poderoso, como se coisa alguma no mundo pudesse atingi-lo.
Não demorou muito para Tácio procurar Júlio novamente.
Esperou-o na hora da saída, como já se tornava seu costume.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 06, 2015 12:03 pm

Anselmo, para variar, despediu-se com seu usual tapinha nas costas de Júlio e entrou em seu carro, como se Tácio fosse um desconhecido.
Aos poucos, Tácio foi-se desligando de Anselmo, centrando-se mais em Júlio, de quem sempre obtinha alguns trocados para o consumo da droga.
Júlio procurava não negar, pensando que o dinheiro servia para Tácio sobreviver até que saísse a homologação.
Finalmente, o dia tão aguardado chegou.
Com o dinheiro da rescisão nas mãos, Tácio sentiu-se o todo-poderoso.
Era bem menos do que ele esperava, mas daria para saldar algumas dívidas.
Em casa, apanhou as contas de luz, gás e telefone, além do condomínio.
Estavam todas atrasadas, tinha de pagá-las antes que começassem os cortes.
Com as contas na mão, desceu no elevador.
Precisava de um banco para pagar tudo, mas não queria utilizar-se daquele em que trabalhara.
Uma raiva surda o atingiu.
Tinha ódio de bancos.
Se pudesse, não pisaria mais numa agência bancária enquanto vivesse.
Pensando bem, por que tinha de gastar tudo no banco?
Quem o obrigava a pagar as contas? Ninguém.
Aquele dinheiro poderia ter melhor uso se ele o gastasse em coisas que lhe dessem prazer.
E, naqueles tempos, o único prazer que encontrava estava nas carreiras de cocaína.
Sim, era isso.
Deixaria as contas para depois de satisfeita a vontade, que, sem que Tácio reconhecesse, ia se transformando em vício.
O dinheiro que ganhara durou pouco tempo, assim como não demorou muito para Tácio novamente procurar Júlio.
Esperou-o na saída do banco, sem ligar para a evasão de Anselmo.
- Oi, Júlio.
- Oi, Tácio.
Como estão as coisas?
- Vão indo.
- Espero que você tenha conseguido se reequilibrar com o dinheiro da rescisão.
- Você está brincando, não é?
Aquele dinheiro não deu para nada.
- Como assim?
- Esqueceu-se de que Anselmo me fez pedir demissão?
Isso reduziu o valor da minha indemnização e me impossibilitou de levantar o Fundo6.
- Ao menos você não ganhou a justa causa - arriscou Júlio.
- Eu não merecia a justa causa - rebateu com ira.
Mas deixe isso para lá.
Não foi para discutir questões trabalhistas que vim aqui.
O que gostaria é de saber se você me pode emprestar mais algum.
- De novo?
- Estou duro, cara.
As contas engoliram aquela miséria que recebi.
- Olhe, Tácio, está ficando difícil.
Não ganho tanto assim para ficar emprestando.
Compreendo a sua situação, mas preciso juntar dinheiro para o casamento.
- Ora, vamos, Júlio, só dessa vez.
Prometo que será a última e que lhe pagarei assim que puder, com juros e correcção.
Mesmo contrariado, Júlio assentiu.
Sacou de novo a carteira e esvaziou-a nas mãos de Tácio.
- Lembre-se bem, é a última vez - alertou.
- Obrigado.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 07, 2015 11:23 am

Dali, Tácio correu novamente à boca de fumo e de lá seguiu para a Vila Mimosa.
Precisava desesperadamente de sexo.
Depois de buscar Geórgia no curso, Júlio seguiu para a casa dela, ainda preocupado com a atitude de Tácio.
- Boa-noite, dona Cléia - cumprimentou, sentando-se à mesa da cozinha.
- Boa-noite, meu filho.
Aconteceu alguma coisa?
- É o Tácio. Já lhe falei dele.
- Ele lhe pediu dinheiro de novo?
- Isso mesmo.
- E você deu?
- O que poderia fazer?
O homem está na pior.
- Dar dinheiro a ele não vai ajudar.
O que ele precisa é procurar outro emprego.
- Também acho, mas ele já passou um pouco da idade.
- E daí? Isso não é justificativa para ficar pedindo.
- Não seja tão intransigente, mãe - censurou Geórgia, com serenidade.
Não sabemos o que vai no coração dos outros.
- Isso é. Mas não me parece certo um homem da idade desse Tácio pedir dinheiro ao Júlio.
Se fosse seu pai, estaria engraxando sapatos na cidade, em vez de ficar reclamando da vida e explorando os outros.
- Nem todo mundo é como papai.
As pessoas têm suas fraquezas.
Não devemos julgar ninguém.
- Está certo, estou julgando e não devia.
Mas você acha correcto o Júlio ficar sustentando vagabundo?
Geórgia suspirou e não disse mais nada.
Não adiantava discutir com a mãe quando ela já tinha uma ideia formada.
No fundo, ela não deixava de ter uma certa razão.
Tácio devia mesmo procurar outro emprego, e o papel de Júlio seria o de incentivá-lo, não de prover seu sustento.
Emprestar dinheiro era até compreensível, mas o que Tácio estava fazendo virara exploração.
- Eu nem me lembro direito desse Tácio - divagou Geórgia.
Vi-o apenas uma vez no churrasco.
- Ele está horrível, você nem queira saber.
Emagreceu, vive com os olhos fundos e vermelhos.
Deve ser o sofrimento,
- Sofrimento, sei - rebateu Cléia.
Ele deve andar é bebendo para afogar as mágoas.
E isso não resolve.
- Sua mãe tem razão, Geórgia.
Não vou mais emprestar dinheiro a Tácio.
Precisamos juntar tudo o que temos para montar nossa casa.
- Isso mesmo - elogiou Cléia.
Cuidem da vida de vocês, que é o mais importante.
Vou rezar por Tácio, para que ele consiga se acertar na vida.
Decidido a não mais dar dinheiro a Tácio, Júlio sentiu um certo alívio.
Nos dias que se seguiram, Tácio não o procurou, levando-o a pensar que cumpriria sua promessa.
Todavia, na semana seguinte, ao sair do trabalho, lá estava ele de novo, ainda mais magro do que antes, uma hostilidade irreconhecível no olhar.
- Você está bem? - preocupou-se Júlio, assim que ele o abordou.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 07, 2015 11:23 am

- Estou - rilhou os dentes.
Na verdade, Tácio não estava nada bem.
A companhia de luz cortara sua energia.
O gás havia muito se fora, mas não o incomodara tanto, já que ele quase não comia, satisfazendo-se com biscoitos e refrigerantes.
O proprietário do apartamento ameaçava mover uma acção de despejo, cobrando os alugueis e o condomínio em atraso.
Por isso, nada podia estar bem.
Mas ele não queria dividir aqueles problemas com Júlio.
Precisava desesperadamente da coca, e Júlio era o único que poderia ajudá-lo.
- Que bom - falou Júlio.
Olhe, estou com um pouco de pressa e não posso conversar agora.
- Preciso de dinheiro - rosnou, apertando o braço do outro.
- Não posso mais emprestar - afirmou Júlio, evitando seu olhar.
- Por quê? Você tem.
- Não tenho, não.
O que possuo é pouco e estou juntando para meu casamento.
- Não seja idiota!
Para que quer se casar com uma vagabundinha que daqui a pouco irá lhe botar um belo par de chifres na testa?
- Não chame Geórgia de vagabunda! - irritou-se, puxando o braço com violência.
E não é só porque a sua mulher o traiu que todas as outras vão fazer a mesma coisa.
Tácio soltou uma gargalhada nervosa, acrescentando com uma ferocidade até então desconhecida:
- Você pensa que sua Geórgia lhe é fiel?
Pois duvido muito que seja.
Aposto como se deita com outros homens sem você saber.
Tácio descontava em Júlio sua frustração pelo casamento brutalmente rompido.
Sob o efeito da droga, extravasava a fúria, o desespero o consumia.
Precisava de mais.
- Vá embora, Tácio - disse Júlio, contendo-se para não lhe acertar um soco.
Não temos mais nada a conversar.
- Não! Preciso de dinheiro.
- O dinheiro acabou.
Vá arranjar um emprego, que é a melhor coisa que você pode fazer.
- Você me deve isso! - exasperou-se.
Tomou o meu lugar no emprego.
- Não lhe devo nada.
A promoção foi minha por merecimento.
Ninguém mandou você fazer besteira.
- Que besteira eu fiz?
Minha mulher me traiu.
Tive culpa?
- Não me interessa. E fim de papo.
Tenho mais o que fazer.
- Você não vai me deixar assim.
Exijo que me empreste mais dinheiro.
- Emprestar?
Que empréstimo o quê, se você nunca me pagou?
- Só dessa vez - suplicou ele, mudando o tom de voz.
É a última, prometo.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 07, 2015 11:23 am

- Você já me prometeu isso antes.
E olhe você aqui de novo.
Irritado, Júlio virou-lhe as costas.
Não tinha mais por que continuar com aquela conversa.
Afastava-se quando sentiu as mãos de Tácio sobre seus ombros, puxando-o violentamente de volta.
- Você não pode ir embora assim - falou.
Preciso de dinheiro.
- Solte-me, Tácio. Acabou!
Como Tácio não soltava, ao contrário, apertava seus ombros com mais e mais força, Júlio não viu outra saída a não ser desferir--lhe um murro na face.
Nada de muito violento, mas devido ao estado lastimável em que o outro se encontrava, foi o suficiente para jogá-lo ao chão.
- Isso não vai ficar assim - Tácio ameaçou.
Você ainda há de me pagar por essa humilhação.
Sem dar resposta, Júlio rodou nos calcanhares, desatando pela rua quase a correr.
Pensou que Tácio o seguiria novamente, mas ele nada fez.
Júlio nem olhou para trás, seguindo às pressas para casa.
Tácio queria muito ir atrás dele para dar-lhe uma lição, mas todo seu corpo se ressentia com a falta da droga.
Uma fissura cada vez mais premente o afligia, levava-o quase à loucura.
Em desespero, viu afastar-se sua última esperança de obter dinheiro para satisfazer uma necessidade que ele não assumia como vício.
Cada vez mais aturdido, Tácio voltou para casa, pensando em como arranjar dinheiro.
Entrou às cegas, tacteando em busca do interruptor.
Em vão, pois estava sem luz.
Abriu a persiana, permitindo que a luminosidade do fim de tarde penetrasse no ambiente.
Olhando ao redor, deu de cara com o antigo aparelho de som, já que o novo, a mulher levara.
Para que precisava daquilo se já nem tinha mais energia para ligá-lo?
Sem nem pensar, passou a mão nele e saiu, directo para a boca de fumo.
Não conseguiu muito num aparelho velho, mas o suficiente para saciá-lo por algumas horas.
Ao menos até decidir sua próxima acção.
Na saída do curso, Geórgia aguardava a chegada de Júlio.
Estava adorando as aulas.
Era um curso de educação infantil à luz da teoria de Piaget7.
Tinha esperanças de, mais tarde, ingressar na faculdade de pedagogia e, futuramente, conciliar a escola pública com um emprego no Centro Educacional Jean Piaget8.
Júlio não se demorou.
Apanhou-a pela mão, seguindo com ela para casa, não era longe.
O problema é que tinham de passar por uma praça muito perigosa, transformada em boca de fumo e ponto de encontro de maconheiros.
A praça era mal cuidada, escura, o mato crescia no lugar do jardim.
Para passar por ela, havia duas possibilidades: um caminho maior, contornando-a, ou o caminho mais curto, atravessando-a e cruzando com viciados e traficantes.
No momento em que contornavam a praça, Tácio ergueu os olhos para o traficante que acabara de lhe vender a droga, vendo, por cima de seu ombro, duas figuras passando pela calçada do outro lado.
Imediatamente reconheceu Júlio e Geórgia.
Tácio apanhou o pacotinho com a coca e esgueirou-se para o ponto mais escuro da praça, onde a lâmpada do poste fora quebrada para encobrir acções ilícitas.
De lá, observou os dois, centrando a atenção na moça.
Ela era linda, o corpo esbelto bem ajustado ao jeans, os seios despontando sob a camiseta de malha simples.
Na mesma hora, o desejo o consumiu.
Precisava urgentemente acalmar o apelo do sexo.
Ainda sob o efeito da carreirinha que cheirara antes de sair de casa, sentiu a ejaculação espontânea.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 07, 2015 11:23 am

Não havia ninguém por ali para saciar sua fúria sexual, apenas a noiva de Júlio, cuja visão, por si só, levava-o ao auge da excitação.
Na calçada, alheios à presença de Tácio, o casal de enamorados seguia seu rumo tranquilamente
- Estou amando o curso, Júlio - ela comentou.
- Que bom, minha linda!
Você é muito inteligente, vai longe.
- Estou pensando em fazer faculdade de pedagogia depois de nos casarmos.
O que você acha?
- Acho óptimo - afirmou ele, lembrando-se dos conselhos de Anselmo, que o valorizaria ainda mais ao saber que sua esposa pensava em crescer na carreira do magistério.
- Podemos ter filhos mais tarde?
- Mais tarde quando?
- Depois que eu terminar a faculdade.
- Ah, Geórgia, não sei.
E se demorar muito?
- Não vai demorar.
Quatro anos, no máximo.
É o tempo de nos firmarmos profissionalmente e podermos dar aos nossos filhos uma condição melhor de vida.
O que você acha?
- Por esse lado, você tem razão.
- Então, tudo bem?
- Tudo bem.
Ele a abraçou fortemente, causando inveja em Tácio.
- Vá aproveitando - rugiu ele para si mesmo.
Mais dia, menos dia, essa felicidade vai acabar.
Com o peito transbordando de despeito, inveja e outros tantos sentimentos daninhos, Tácio saiu de seu esconderijo, ofegante do prazer que sentira só de olhar para Geórgia.
Ainda era tempo de buscar alívio na Vila Mimosa.
De nada adiantaria voltar para casa se nem tinha luz e o senhorio vivia batendo à sua porta.
Até um oficial de justiça o procurara, levando uma citação para responder à acção de despejo, que ele ignorou.
Que a acção corresse à revelia, assim como à sua revelia corriam as desgraças de sua vida.

5 Famosa zona de meretrício do Rio de Janeiro, iniciou suas actividades na área do Mangue, estando agora situada na Praça da Bandeira.
6 Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS).
[O pedido de demissão não está entre as causas autorizadas pela Lei 8.036/90 para levantamento dos valores depositados.

7 Jean Piaget (1896/1980) - especialista em psicologia evolutiva e epistemologia genética, filósofo e biólogo, considerado a maior autoridade no estudo do comportamento cognitivo.
8 http://www.jeanpiaget.com.br.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 07, 2015 11:24 am

Capítulo 8

Damien abriu a porta da sala de Atílio e entrou com cuidado, para não o irritar.
Fechou a porta, sentou-se à sua frente e esperou.
Atílio vivia analisando relatórios que seus sequazes lhe enviavam regularmente, atento aos movimentos do mundo.
Não podia descuidar um minuto, ou perderia o poder com que tanto sonhava.
Quando terminou de ler o último relatório, soltou a papelada e encarou Damien.
- Você nem imagina como estamos progredindo.
Nossos companheiros têm feito um excelente trabalho junto aos encarnados.
- Não poderia ser diferente, chefe, contando com a sua astúcia.
Atílio reconhecia os indícios da bajulação, mas não rebateu.
Tinha em mente outros interesses.
- Muito bem. E o seu relatório?
- Estamos avançando.
Já contactamos o casal, e tudo parece perfeito.
Nenhum dos dois dá mostras de que pretende desistir.
- Óptimo. Mas nem por isso descuidem deles.
Mantenham guarda dia e noite.
- Bom, isso é um pouco mais complicado do que parece, o homem é fácil, mas a moça...
O que tem ela?
- Nunca vi uma aura tão radiante.
- Desde quando você vê aura?
Sua visão estreita só consegue enxergar coisas sujas.
- Para o senhor ver - rebateu ele, engolindo a raiva pela humilhação.
Se eu, que nunca vejo nada, consegui perceber a aura da moça, imagine o quanto ela é especial.
- Conversa! Não acredito nisso.
Todo mundo pode ser corrompido.
Ela tem milhares de defeitos, só que ocultos.
Trate logo de descobrir.
- O senhor não entendeu. Não posso.
A sua aura nos cega, nos afasta.
Nenhum de nós conseguiu se aproximar.
- Que coisa! - irritou-se.
Será que tem algum espírito de luz colado nela e vocês não vêem?
- Pode ser.
- Ou será que é incompetência mesmo?
- Se não acredita em mim, por que não vai pessoalmente verificar?
- Está me desafiando? - rugiu Atílio, nesse momento parecendo mais alto e intimidador do que de costume.
- Em absoluto - Damien se encolheu.
Estou apenas tentando chamar sua atenção para o facto de que essa menina está fora do nosso alcance.
- Isso não é bom - ruminou ele após alguns minutos.
Uma pessoa assim pode comprometer nossos planos.
- Como?
- Luz é sinal de uma coisa:
elevação moral e espiritual, o que dificulta a propagação do poder.
Tenho medo dessa influência sobre Mizael.
- O senhor acha que a luz dela pode comprometer a missão de Mizael? - ele quase exultou, no fundo torcendo pelo fracasso do rival.
- Não sei.
É possível que ela nos crie algum tipo de embaraço.
Mas Mizael é forte, saberá resistir.
- Será, senhor?
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 07, 2015 11:24 am

- Você vai estar lá para garantir isso.
Não permita que ele fraqueje, que se deixe envolver pela energia que mais tememos, porque é a que mais atrapalha os nossos planos.
- Que energia é essa?
- O amor, idiota!
Podemos não gostar, reclamar e até menosprezá-lo.
Mas eu não sou tolo nem ingénuo.
Conheço o poder do amor genuíno.
Agora vá, tenho coisas importantes para fazer.
- Sim, senhor.
Quando Damien se preparava para sair, Atílio lançou sobre ele um olhar glacial que o paralisou.
- Tenha cuidado, Damien.
Escolha bem de que lado quer estar.
Quem é contra Mizael é também contra mim.
Um temor fez arrepiar seus pelos astrais.
Seria possível que Atílio houvesse descoberto o que ele sentia?
- Eu... não compreendo, senhor...
Não sou contra Mizael.
Muito menos contra o senhor.
- Óptimo! Que continue assim.
Dessa vez, Damien saiu sem titubear, morrendo de medo de deixar visíveis seus pensamentos.
É claro que Atílio sabia que ele detestava Mizael.
Só não acreditava que ele tivesse coragem suficiente para traí-los.
E não tinha. Se pudesse, Damien destruiria Mizael, mas jamais Atílio.
Ele andava estranho, escabreado.
Damien daria tudo para saber o que passava pela cabeça dele.
Não era algo que Atílio quisesse admitir.
Nem gostava de pensar em suas desconfianças.
Mas alguma coisa naquele plano parecia fora de lugar.
A confiança que depositava em Mizael era total, contudo sentia-se inquieto.
Era uma espécie de medo, uma sensação de perda irrevogável, definitiva.
Seria possível que Mizael estivesse se deixando seduzir pelo lado da luz?
Sem contar que agora dera para cismar com Nora.
Há tanto tempo não a via que, por vezes, esquecia-se de seu rosto.
Ela agora devia ter outra aparência, pois uma pessoa como Nora não ficaria anos a fio em um lugar só.
Tinha certeza de que ela já devia ter reencarnado ao menos umas duas vezes.
Atílio conhecia os mecanismos do destino, que tratava de aproximar pessoas com antigos elos de afecto.
E se algo semelhante acontecesse com Mizael?
Ele já ia ser filho de uma mulher iluminada.
O que seria dele se, além da mãe, tivesse também uma mulher com o coração repleto de luz? Não.
Aquilo não podia acontecer.
Nora desaparecera, não se prestaria a sofrer ao lado de Mizael novamente.
Ele possuía o maior poder. Ele iria vencer.
O pensamento insistente de Atílio alcançou a mente confusa de Mizael, dando-lhe uma vaga impressão dos acontecimentos.
Se ele pudesse veria, do lado de fora das muralhas da cidade, uma pequena aglomeração de formas-pensamento tentando penetrar a barreira energética que a guarnecia.
Como não era possível, permaneciam vagando a esmo, até se dissolverem.
Nada disso passava despercebido a Josué, que conhecia bem o significado daquelas formas.
E, se Atílio mandava ondas mentais para serem captadas por Mizael, era óbvio que Mizael também as sentia.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 07, 2015 11:24 am

Os espíritos de luz, contudo, não permitiam que elas chegassem ao seu destino, de modo que apenas eles tinham acesso aos pensamentos de Atílio.
E mesmo as poucas mensagens que Mizael enviava só passavam pelo filtro energético quando assim era permitido.
Dali, nenhum pensamento entrava ou saía sem autorização ou controle.
Mesmo assim, a onda emocional que acompanhava os pensamentos de Atílio alcançava, embora com menor intensidade, o corpo fluídico de Mizael.
Ele andava inquieto, arredio, assustado.
Parecia temer uma ameaça invisível que nunca chegava.
Josué encontrou-o vagando sozinho pelas proximidades da muralha, atraído para lá pelas formas-pensamento que se chocavam contra ela e desapareciam.
Embora não as visse nem soubesse de sua existência, pressentia uma presença no ar.
- Tudo bem com você? - perguntou Josué, acercando-se com cuidado.
- Sinto-me estranho, irrequieto.
Será que é porque vou reencarnar?
- É possível.
Muitos espíritos se sentem assim, com medo do que os aguarda na matéria.
- Você acha que é isso?
Medo do fracasso?
Ele deu de ombros e retrucou:
- Pode ser.
- Não tenho medo de fracassar.
Sei que vou conseguir o que desejo
- E o que, exactamente, você deseja? - questionou Josué, encarando-o de forma penetrante.
O olhar de Josué, como sempre, o incomodou.
Sentia-se desvendado por ele.
Mesmo assim, abaixou os olhos e respondeu com uma naturalidade que não sentia:
- Você sabe.
Quero levar uma vida normal, trabalhar, ser um bom chefe de família.
- Você ainda não me contou que profissão escolheu.
- Hum... Deixe ver...
Gostaria de ser um bom administrador.
Não era exactamente mentira, já que, segundo ele, liderar o tráfico de drogas requeria uma boa dose de conhecimentos em administração.
Josué compreendia os seus motivos, apiedando-se da ilusão do poder que ele, como muitos outros, alimentava cegamente.
- Você tem um intelecto muito aguçado - afirmou Josué.
Vou orar para que saiba utilizá-lo em benefício do seu aprimoramento.
Mizael não respondeu.
O que poderia dizer àquele espírito que, embora nada falasse, parecia tudo saber?
- Tem algo que gostaria de perguntar - Mizael mudou de assunto.
Onde está Nora?
O olhar de compreensão do outro deu-lhe a certeza de que Josué sabia de quem ele estava falando.
Com um sorriso enigmático, as mãos juntas sob a manga da túnica, arrematou:
- No momento oportuno.
Não ficou para esperar resposta.
Simplesmente esvaneceu no ar, deixando Mizael embasbacado com sua falta de atenção.
Irritado, deu as costas à muralha e caminhou de volta a seu alojamento, procurando Nora em todos os jardins por onde passava.
Aquele era o dia que ele há tanto aguardava.
Finalmente, seria levado ao tão misterioso laboratório para reagrupamento de seus átomos astrais e modelação do novo corpo fluídico, que acompanharia a forma física tão cuidadosamente planejada e seleccionada entre as possibilidades genéticas de seus pais.
Estava ansioso, com medo de sofrer ou sentir dor.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 07, 2015 11:24 am

Josué lhe assegurou que não sentiria nenhum desconforto, apenas uma leve perturbação decorrente da transição de planos e dos novos rumos de vida decididos.
- Posso desistir? - indagou ele, em sua última conversa.
- Pode, e sua mãe irá abortar.
- E se ela me abortar voluntariamente?
- O aborto, muitas vezes, é um risco que o espírito deve assumir para reencarnar.
Mas sua mãe nos garantiu que não o fará e acredito nela.
- Está certo.
Estou um pouco nervoso, mas estou pronto.
- O nervosismo é natural.
A hora do estupro está próxima, assim como o momento em que se formará o ténue liame que o ligará à sua mãe.
- Meu corpo vai se colar ao dela?
- Não. Você permanecerá aqui, no leito do laboratório, até que se complete a gestação.
Esse liame, que é um cordão fluídico, vai diminuindo à medida que a gravidez avança.
No momento do nascimento, ele se romperá parcialmente, dando a você uma nova individualidade, distinta da de sua mãe, mas que só se completará por volta de seus sete anos de vida.
- É como um cordão umbilical?
- Exactamente.
Assim como o cordão físico leva alimento da mãe para o bebé, o cordão fluídico leva o alimento que empreenderá a troca de energias entre vocês.
- Não tem uma história de cordão prateado?
Onde é que ele entra?
- O cordão prateado é outro liame, também finíssimo, mas que serve para ligar seu corpo astral ao físico, enquanto perdurar a vida na matéria.
Ele surgirá no momento em que seus corpos se unirem.
- Muito bem. Tudo combinado.
Estou pronto.
- Só mais uma coisa antes de partirmos.
Tenho uma surpresa para você.
- Uma surpresa?
Josué chegou para o lado, dando passagem à linda jovem que Mizael encontrara poucos dias antes.
- Nora! - exclamou ele, completamente aturdido.
Por onde esteve?
Procurei você feito um louco.
- Em minha própria cidade astral.
- Você não mora aqui?
- Não.
- Nora vive em uma esfera um pouco acima da nossa - esclareceu Josué.
- Não me diga! Mas conte-me.
Por onde andou, o que tem feito?
Faz muito tempo que desencarnou?
- Não muito.
Tive outras vidas depois daquela em que quase nos casamos.
Mas nunca me esqueci de você.
- Nem eu. Eu a amava de verdade.
Pena que você não conseguiu entender a minha... - ele ia dizer profissão, mas calou-se envergonhado, fitando Josué com espanto.
- Isso tudo ficou no passado - cortou ela.
Podemos planear outro futuro.
- Como assim?
- Embora eu não precise, escolhi reencarnar para vivermos o que não conseguimos viver naquela época.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 07, 2015 11:24 am

- Jura? Você faria isso por mim?
- Faria por nós, pois também o amo e quero ter a oportunidade de desenvolvermos juntos esse amor.
- Ma! posso acreditar.
Nada me deixaria mais feliz!
- Só tem uma coisa - ela mudou de tom, falando com seriedade acima do normal.
Como da outra vez, não vou tolerar que você enverede pelo caminho do crime.
Você continua livre para fazer suas escolhas, mas eu também tenho liberdade para fazer as minhas.
- Como assim, Nora?
- Sabemos de tudo o que acontece aqui - intercedeu Josué.
Você é esperto, Mizael, mas ainda está muito distante da sabedoria divina.
Seus planos de crime na Terra são conhecidos por nós.
Ele abriu a boca, estupefacto, e retrucou embaraçado:
- Vocês sabem?
Durante esse tempo todo, sempre souberam?
Josué assentiu.
- Se é assim, por que permitiram?
Por que estão me dando essa chance se sabem o que pretendo?
- Como você poderá crescer se nós não lhe dermos um crédito?
- Não é possível.
Acha mesmo que eu mereço esse crédito?
Que vou me transformar?
- Não sei.
Mas tem uma chance, como todos os que voltam com ideias iguais ou piores do que a sua.
- Não posso acreditar que isso esteja acontecendo.
Passei esse tempo todo aqui fazendo papel de idiota.
- Por que diz isso?
Não conseguiu o que queria?
- Mas vocês sabem! - afirmou ele, incrédulo.
De tudo?
- Tudo. Seus planos para ingressar no crime e no tráfico de drogas, com a cooperação de Atílio.
- Conhecem Atílio?
- Por certo.
- Fui ludibriado! Deixem-me ir embora.
Não quero mais participar dessa farsa.
- Farsa? Quem de nós finge ser algo que não é?
- Vocês estão me mandando de volta à Terra porque acham que vão me manipular para que eu vire bonzinho.
Querem que eu sirva de cobaia para seus estudos de regeneração?
- Você não é mais especial do que ninguém para se tornar objecto de estudos.
É como todos os outros que por aqui passaram com a mesma ilusão que você.
A todos, demos o mesmo tratamento, a mesma atenção, as mesmas esperanças.
Muitos retornaram bem-sucedidos, modificados em sua essência.
Outros continuaram na mesma.
E você não pode ser tão ingénuo a ponto de imaginar que ninguém descobriria seus propósitos torpes.
Você desconfiava que eu sabia e aceitou minha ajuda mesmo assim, porque, no fundo, o que realmente quer é uma chance de se modificar.
- Você está errado.
Só o que pretendo é viver a minha vida do jeito que eu quiser.
- Mizael - era a voz doce de Nora.
Ouça o que Josué está dizendo.
Ninguém vai tentar demovê-lo de seus projectos.
Suas atitudes dependem só da sua consciência.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 07, 2015 11:25 am

- Vocês não vão tentar me impedir?
- Não - afirmou Josué categoricamente.
Você tem liberdade de escolha, mas se aprisionará às consequências das que forem malfeitas.
- Isso é problema meu!
- Por certo.
- Quero estar com você de novo, Mizael - declarou Nora.
Para vivermos a vida que não tivemos oportunidade de viver.
Não sabe que eu o amo?
O destino nos separou porque fizemos escolhas incompatíveis, mas nada impede que agora façamos coincidir nossos propósitos.
Ele olhou para ela, sentindo retornar a força do sentimento que uma vez os unira, esquecendo-se de Josué por alguns momentos.
- Você estaria disposta a me seguir?
- Você estaria disposto a mudar em nome do nosso amor?
- Você está jogando com as palavras, Nora.
Sempre desejei estar com você.
- Pois essa é a nossa chance.
O que lhe peço é uma mudança de atitude que só trará benefícios a você.
- O que me pede é quase impossível.
Não é da minha natureza ser bonzinho.
- Você fala tanto em ser bonzinho.
Mas o que é ser bonzinho para você?
- Sei lá!
Ser puxa-saco, amiguinho, solícito, subserviente, fazer tudo o que os outros querem.
- Ser bonzinho é agir com amor.
Apenas isso.
Será que você não é capaz de amar?
- Amo você. Só.
- Já é um começo.
- Não faça isso comigo, Nora, pelo amor de Deus.
Perdê-la novamente me traria uma dor insuportável.
- Não tem que ser assim.
Podemos ser felizes juntos.
- Está se esquecendo de Atílio.
Tenho um compromisso com ele.
- Atílio não descansará até que você cumpra o que lhe prometeu - alertou Josué.
Mas o poder que ele pensa ter não é nada comparado ao poder do amor.
- Amor, amor - desdenhou.
É só nisso que sabe falar?
- Isso não é o mais importante? - replicou Nora.
Não é o que todos querem?
- O que eu quero é poder.
- Já conversamos sobre isso - tornou Josué.
Mas, pelo que percebo, você não acreditou em mim.
Mizael não disse nada, impacientando-se com aquela conversa.
Tinha vontade de desistir e fugir dali, de volta ao seu submundo de sombras, mas a presença de Nora o paralisava, deixando-o cada vez mais confuso, inseguro.
- Vou reconquistá-la - avisou ele, segurando a mão dela.
Volte comigo e tudo farei para ficarmos juntos.
- Você sabe o que tem que fazer - disse ela.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 07, 2015 11:25 am

- Você vai?
- Vou. Daqui a alguns anos, estarei de volta.
- Seremos felizes então.
Vai ser fácil, você vai ver.
- Não tão fácil, mas, se assim fosse, não valeria a pena.
Mizael não entendeu o último comentário dela, mas não teve tempo de perguntar, porque Uriel entrou apressado, dizendo com euforia:
- Está na hora!
- Do estupro? - surpreendeu-se Mizael.
- Ainda não.
Mas já está tudo pronto no laboratório para recebê-lo.
Se você não for agora, não terá tempo de se preparar, e há outros pretendentes aguardando.
- E então? - perguntou Josué.
Você vai ou não?
Ele hesitou pouquíssimos minutos antes de responder:
- Eu vou. Mas vai ser do meu jeito.
E você vai ser minha.
- Você sabe o que tem que fazer, Mizael - disse Nora.
Se reincidir no crime, me perderá de novo.
- Não vou perdê-la.
A última frase dele tinha duplo sentido.
Mizael queria que Nora achasse que ele não a perderia porque se esforçaria para mudar, quando o que ele pensava era que ela seria dele a qualquer custo.
Os dois, contudo, sabiam a verdade.
Ao lado de Josué e Uriel, ele seguiu a caminho do laboratório.
Parados na porta, Uriel foi o primeiro a dar-lhe um abraço fraterno.
- Boa sorte! - desejou de coração.
- Obrigado.
- Estaremos orando por você - falou Josué.
Sabe que pode contar connosco sempre que precisar, mesmo quando as hordas de Atílio o estiverem envolvendo.
- Obrigado - disse ele, mais para ver-se livre de Josué do que pensando em procurá-lo.
E adeus.
- Até breve - acrescentou Josué, abraçando-o também.
Ao se virar para a rampa de acesso ao laboratório, Mizael sentiu o que realmente era medo.
Havia tantas programações para sua vida que temeu não dar conta de tudo.
As incumbências de Atílio eram as que mais o estimulavam, mas as ponderações de Josué o haviam balançado.
E, para completar, Nora surgira para dividir seu coração entre o amor e o poder.
Não era uma disputa justa.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 07, 2015 11:25 am

Capítulo 9

Júlio e Geórgia acabavam de sair do cinema, comentando sobre o filme enquanto caminhavam.
- Achei a história engraçada - disse ele.
Uma bobeira, mas divertida.
- Já pensou se houvesse fantasmas9 assim? - gracejou ela.
Seria um horror!
Chegaram à porta da casa de Geórgia e pararam.
Júlio levou a mão da namorada aos lábios e disse com uma certa tristeza:
- Bom, minha linda, tenho que ir.
Viajo cedo amanhã.
- A que horas sai o seu voo?
- Às sete e meia.
Terei que madrugar no aeroporto.
- É melhor você ir dormir.
- Estou preocupado com você, Geórgia.
Não quero que volte sozinha à noite por aquela praça.
- Deixe de bobagens, Júlio. Sei me cuidar.
- Ali fica cheio de marginais.
Acho melhor você dar a volta pelo outro lado da calçada.
- Tudo bem, se vai fazer você se sentir mais tranquilo.
Apesar de ter que dar uma volta maior, não me custa nada.
- Obrigado.
Não me perdoaria se algo lhe acontecesse.
- Nada vai me acontecer.
Vá sossegado para o seu congresso e volte correndo.
Estarei aguardando você.
A despedida foi demorada, mas não teve jeito.
A contragosto, Júlio separou-se de Geórgia.
Passaria a semana toda em São Paulo, num congresso de gestão financeira para o qual Anselmo o indicara, alertando-o de sua importância se desejasse, no futuro, concorrer a uma promoção para a área financeira do banco, onde trabalharia com empréstimos e financiamentos.
Uma oportunidade que não poderia perder, principalmente agora que iria casar-se e constituir uma família.
Fazia algumas semanas que Tácio acompanhava a rotina de Geórgia, vendo-a passar pela calçada da praça sempre acompanhada de Júlio.
Postado debaixo do poste sem luz, punha-se a cobiçá-la, a cocaína lhe subindo à cabeça, provocando a imediata erecção.
Era um desejo tão intenso que não podia controlar.
Dali, corria à Vila Mimosa, descarregando nas meninas o ardor de sua fúria.
A vida de Tácio estava um caos.
Não tinha mais luz nem gás no apartamento e havia duas acções contra ele: da financeira e do proprietário.
Não respondera a nenhuma delas.
Com tudo o que estava acontecendo, onde arranjaria dinheiro para pagar um advogado?
Não possuía nada de valor que pudesse penhorar para saldar suas dívidas.
Os poucos móveis e utensílios que tinha haviam sido quase todos vendidos para comprar cocaína.
Enquanto não era condenado, ia vivendo, até que o pusessem na rua.
Aí então pensaria no que fazer.
Talvez virasse mendigo, talvez assaltante.
Não, nem isso poderia ser, já que não tinha condições nem de comprar uma arma.
Podia puxar carros. Sim, era isso.
Os toca-fitas estavam em alta, davam sempre um bom dinheiro.
Não lhe importava onde iria dormir.
O que não podia era ficar sem a droga.
Estava pensando assim quando avistou, do outro lado da rua, Geórgia, que caminhava sozinha.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 07, 2015 11:25 am

No princípio, pensou que se tratasse de uma ilusão causada pela droga, mas depois se certificou de que não era.
Realmente, o que via era a noivinha de Júlio, toda gostosa em seu jeans apertado.
O desejo de sempre retornou com toda fúria.
Passou a língua nos lábios, imaginando que era o corpo de Geórgia.
Estranhou vê-la passar sozinha, imaginando se não teria brigado com o namorado.
Queria desesperadamente tocá-la, contudo ela estava longe, inacessível.
Consultou os bolsos, à procura de alguma migalha, mas eles estavam vazios.
Naquele dia, teria de se virar sozinho, o que fez ali mesmo, já que não tinha nem dinheiro para correr à Vila Mimosa.
Na outra noite, o mesmo aconteceu, como na seguinte e na próxima.
Ela vinha sozinha, do outro lado, fora de seu alcance.
Junto a ele, Damien quase desesperava, vendo perder-se a oportunidade de induzir o outro ao acto criminoso.
Até que, na sexta-feira, a sorte pareceu obrar a seu favor.
Pouco antes da hora de Geórgia passar, um vendaval atingiu a cidade, fazendo escurecer o céu com a ameaça de chuva.
A ventania levantava areia, arrastava folhas, sacudia as árvores com fúria.
Os olhos de Tácio ardiam com a poeira, quase levando-o a desistir.
Todos os outros haviam ido embora, deixando a praça praticamente deserta.
Apenas ele permanecia, como presa de um desejo insano.
Geórgia despontou na rua em frente, paralisando todos os seus músculos.
Inesperadamente, em vez de dar a volta na praça, ela atravessou a rua correndo, preparando-se para cruzá-la, provavelmente para encurtar o caminho e escapar da tempestade que se aproximava.
Olhou de um lado a outro, para ver se havia algum suspeito por perto.
Não viu ninguém.
Nem Tácio, que se ocultara nas sombras.
Sentindo-se segura, Geórgia avançou.
Prometera a Júlio que não andaria por ali, mas não tinha tempo de dar a volta se quisesse chegar em casa antes da chuva.
Geórgia tentou passar o mais longe possível dos arbustos descuidados, procurando traçar uma linha recta até o outro lado.
De longe, Tácio a acompanhava, sedento, ávido.
Em seus pensamentos, um torvelinho de ideias infames o assaltava.
Tão infames que ele não se reconheceu.
Queria muito transar com ela, contudo nunca usara de força para dormir com ninguém.
A seu lado, impaciente, Damien não dava trégua.
Sabia que aquela era a oportunidade que esperava.
Tácio não devia deixar passar a única chance de ter sob seu corpo, o corpo jovem de Geórgia.
- Veja como ela é gostosa, apetitosa - estimulava Damien.
- Imagine-se transando com ela, beijando sua boca, tocando seus seios, seu sexo.
Tácio passava a língua nos lábios, imaginando as cenas que Damien descrevia, seguindo-a, imperceptível.
Ele ouvia a voz do espírito, contudo não sabia de onde vinha.
Chegava a vê-lo em alguns momentos, mas sua mente confusa não o distinguia.
Ele queria e não queria colocar as mãos em Geórgia.
Seria bem feito para Júlio, um castigo pela humilhação, uma prova da infidelidade dela, mas também uma covardia.
Temendo perder a presa, a um sinal de Damien, o espírito de uma mulher se aproximou.
Parecia meio demente, maltrapilha, drogada feito Tácio, mas executou bem suas ordens.
Colado a Tácio, o espírito pôs-se a acariciá-lo, excitando-o ainda mais.
A respiração ofegante, o corpo ardendo de um desejo descomunal, doentio, Tácio não conseguiu mais se conter.
De um salto, cortou a frente de Geórgia, que soltou um grito de pavor.
- Aonde vai, gatinha? - perguntou ele, os olhos caídos, a boca constantemente humedecida pela língua ávida de prazer.
- Com licença, moço - pediu ela, sentindo o pânico se avizinhar, maldizendo-se por ter mudado de caminho.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 07, 2015 11:26 am

- Por que a pressa?
Alguém a espera?
Apesar de aquele rosto lhe parecer familiar, Geórgia não o reconheceu.
Estava escuro, não conseguia enxergar direito, mas teve a sensação de que já o havia visto antes.
Devia ser um dos muitos desocupados que vagabundeavam por ali.
Pensando nisso, sentiu medo.
Encolheu-se toda, apertou a bolsa e retrucou, tentando aparentar naturalidade:
- Eu... sim, meu noivo me espera.
Olhe, ele vai vir me procurar se eu me atrasar.
- Faz uma semana que a vejo passar por aqui sozinha.
Tem certeza de que tem um noivo?
- Por favor, moço, deixe-me ir.
- Vou deixar.
Depois de conversarmos.
- Não posso conversar.
Logo, logo, vai chover.
Geórgia preferiu não falar mais nada.
Deu um passo à frente e tentou passar por ele, mas não teve tempo.
Com extrema força, Tácio agarrou-a pelos punhos, virando-a rapidamente e enlaçando-a por trás.
- Solte-me! - gritou ela.
Socorro! Socorro!
O uivo do vento impedia a propagação do som, de forma que ninguém a ouviu gritar.
A fragilidade dela, a certeza de que executava um acto de covardia contra uma menina que nada tinha a ver com seus problemas o fizeram hesitar.
Sabia que não era certo o que estava fazendo.
Por pouco não a soltou.
Mas as investidas de Damien e do espírito da mulher, aliadas aos efeitos da droga, transformavam seu desejo em uma espécie de loucura insaciável.
Tácio não pensou em nada, não viu mais nada.
Deitou Geórgia no chão com violência e arrancou-lhe o jeans com uma habilidade extrema.
Ela se debatia, tentando se soltar, gritando feito louca.
Para silenciá-la, Tácio desferiu-lhe vários murros no rosto, sem pensar que a estava machucando.
Geórgia não desmaiou, mas sentiu o corpo esmorecer, os sentidos afrouxarem, levando-a a uma semi-inconsciência, forte o bastante para paralisá-la, mas insuficiente para que ela não percebesse o que estava acontecendo.
Jogada ao chão, sem se mover, Geórgia deixou-se subjugar pela criatura que se deitara sobre ela.
Não parecia um homem.
Por vezes, era como se um monstro a possuísse, com suas garras de fogo a ferir-lhe a carne.
O vaivém do corpo dele sobre o dela não lhe causou apenas dor, mas uma humilhação sem precedentes, uma espécie de mutilação do ser, cindido pela figura grotesca de um torturador sem alma.
Por diversas vezes, ele a possuiu, insaciável, brutal.
Quando por fim a largou, ela já não distinguia nada ao redor.
Dolorida, machucada, aviltada, cerrou os olhos, sentindo-se desfalecer.

9 Referência ao filme Os caça-fantasmas, de 1984.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 07, 2015 11:26 am

Capítulo 10

Tácio nem se recordava de como chegou em casa.
Lembrava-se de ter violentado a noiva de Júlio, mas o horror que se seguiu apagara sua memória.
Como fora capaz de um acto daqueles?
Desesperado, corroído pelo remorso, atirou-se no soalho, chorando angustiado.
Jamais poderia perdoar-se pelo que fizera.
Como se deixara levar pelos instintos, a tal ponto que perdera o controle sobre si mesmo?
Aturdido, atirou-se sob o chuveiro, pensando que a água fria pudesse lavar sua consciência.
Em vez disso, trouxe-lhe uma clareza estupenda.
A todo instante, Tácio via e revia o corpo ferido e ultrajado de Geórgia, sentia na boca o sal de suas lágrimas, ouvia seu pranto desesperado.
Em outros tempos, Tácio teria criticado, com horror, um crime como aquele.
Agora, via-se autor da mesma infâmia que teria condenado.
Quando saiu do chuveiro, a mente estava límpida, livre dos efeitos deletérios da droga.
Desacostumado da liberdade, fruto da ausência da coca, Tácio buscou-a novamente.
Abriu a gaveta, segurou a trouxinha, preparou a carreira.
Com o canudo improvisado, abaixou-se para cheirá-la, quando uma onda de arrependimento atingiu-o em cheio.
Atormentado pela culpa, virou a mesinha, espalhando o pó pelo chão.
Sentou-se, abraçando os joelhos, chorando desconsolado.
Por que fizera aquilo, por quê?
E se Geórgia o tivesse reconhecido?
Se contasse a Júlio o que ele fizera, o que lhe aconteceria?
Seria preso, viraria mulherzinha dos outros presidiários na cadeia.
Ou pior, Tácio poderia matá-lo,
O medo da punição só fez aumentar seu remorso.
De uma forma ou de outra, acreditava que ela viria, em qualquer caso, causando-lhe dor.
Mas a dor não seria tão intensa quanto a que ele, momentos antes, infligira naquela moça inocente.
A solução seria fugir, mas fugir para onde?
Não tinha família nem amigos, nem ninguém.
Não tinha para onde ir.
Tinha de ficar e enfrentar.
Mas enfrentar como?
Tácio delirava, a confusão mental o consumia.
O jeito era aliviar a tensão com a coca.
Engatinhando, foi ao encontro da gaveta virada, à procura do pó.
Não havia nenhum.
Esparramara a última trouxinha que lhe restava.
Em pânico, esfregou a palma da mão pelo chão, lambendo-a na esperança de ter arrastado um pouco da coca.
Mas o pó que veio era, em sua maioria, de sujeira, e a pouca droga ali misturada não foi suficiente para transmitir-lhe o efeito desejado.
O que fazer?
Precisava, desesperadamente, de uma cheirada.
Nada mais lhe restava para vender.
De seu, só o que tinha era o corpo.
A ideia lhe trouxe desgosto, Tácio não gostava de homens.
A fissura, no entanto, era maior.
Depois de alguns minutos de hesitação, enxugou as lágrimas, vestiu-se e saiu.
Não conhecia muito os redutos gays, contudo ouvira histórias de lugares onde tudo acontecia.
O banheiro da Central10 era um deles.
Não tinha dinheiro nem para o ónibus, mas acabou conseguindo uns trocados depois de amedrontar um casal de velhinhos com a sua figura assustadora.
Foi mais fácil do que ele imaginara.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 08, 2015 11:12 am

Logo de cara, um sujeito fortão o abordou, confundindo-o com um michê.
Em troca de uma boa quantia, fez tudo o que o homem lhe pediu.
Estava tão desesperado pela coca que nem conseguiu esperar até chegar em casa.
O próprio sujeito lhe indicou um traficante por ali, perto da Central.
A muito custo, Tácio conseguiu se controlar para não cheirar no meio da rua.
Com a droga no bolso, partiu desabalado para casa.
Assim que entrou, preparou a carreira avidamente.
Como o dinheiro fora bastante, comprou cerca de meio grama, disposto a cheirar tudo de uma só vez.
Ao aspirar a droga pura11, sentiu-a directamente em seu cérebro.
Pensou que uma euforia fortificante o retiraria da depressão, mas, para sua surpresa, não foi o que aconteceu.
Primeiro veio uma agitação desconhecida, voraz, inquietante.
Um suor frio humedeceu rapidamente toda a sua pele, enquanto visões estranhas desfilavam diante de seus olhos.
Um homem encostado na parede, braços cruzados, olhava para ele sem qualquer expressão.
Junto a ele, uma mulher rota, maltrapilha, presenteou-o com um sorriso desdentado.
Tácio estremeceu.
Julgava-se vítima de um delírio, sem saber que entrara em contacto directo com o astral a seu redor.
Ali, deu de cara com Damien e sua criada.
Não o conhecia, contudo, ele não lhe parecia estranho12.
Damien o seguira desde o momento do estupro, curioso para saber o que aconteceria com ele.
De repente, a respiração de Tácio pareceu descompassar.
Batidas aceleradas davam a impressão de que o coração estava prestes a disparar peito afora.
Em poucos segundos, Tácio perdeu o controle e desabou no chão, a boca espumando, repetidos espasmos sacolejando seu corpo.
Uma dor aguda, inenarrável, trespassou o seu peito, levando o coração a desistir de bater e, com ele, Tácio a desistir de viver.
Ao contrário de Tácio, Geórgia não desistia da vida.
Recobrados os sentidos, não conseguiu se levantar, permanecendo quieta, com medo de se mover e sentir mais dor.
Esperou a chuva, que não veio, até que o vento se acalmou e, com essa quietude, caiu num torpor reconfortante.
Enquanto isso, Cléia se preocupava.
As horas se passavam, e nada de Geórgia aparecer.
A todo instante consultando o relógio, pôs-se a rezar, presa de inexplicável apreensão.
Em dado momento, não conseguindo mais se conter, foi para o portão, na esperança de vê-la chegar.
Em vez dela, Júlio apareceu de táxi, ainda carregando a mala de viagem.
- Júlio, por Deus, Geórgia não chegou ainda em casa - ela se apressou em dizer.
Estou morta de preocupação.
- O quê?
- Ajude-me, por favor. Vamos à polícia.
- Que polícia, que nada - disse ele, largando a mala do lado de dentro do portão.
Vou procurá-la eu mesmo.
- Vou com você.
Cléia fechou a porta e correu com Júlio para a rua.
No caminho, pediu auxílio a uns rapazes da vizinhança, que se dispuseram a ajudar.
- Vamos refazer o caminho daqui até o curso - orientou ele.
Dadas as instruções, cada um partiu em uma direcção.
Júlio, aflito, seguiu com Cléia pelo meio da praça.
Embora fosse sexta-feira, a ventania espantara os frequentadores da boca de fumo, que aos poucos começariam a retornar.
Júlio tinha de ser rápido, se quisesse encontrar Geórgia antes que o lugar enxameasse de marginais e viciados.
Caminhando pela praça feito louco, Júlio gritava o nome de Geórgia.
A seu lado, Cléia não fazia nada além de rezar.
Estava tão aflita que a voz embargava toda vez que pensava em pronunciar o nome da filha.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 08, 2015 11:13 am

De qualquer forma, suas orações iluminaram o local onde Geórgia jazia, semi-inconsciente, e os olhos maternos de Cléia foram instintivamente direccionados para lá.
Foi um choque ver o corpo nu da filha todo machucado.
Ela soltou um grito agudo, atraindo a atenção dos demais.
Júlio, mais próximo, foi o primeiro a chegar, quase desmaiando ante a visão lastimável de sua Geórgia.
Pensando rapidamente, tirou a camisa e cobriu o seu corpo da melhor forma possível.
Os outros rapazes vieram correndo, mas se afastaram ao perceber que ela estava desnuda.
Em meio à choradeira, Júlio ergueu-a delicadamente no colo, levando-a em direcção a sua casa.
- Ela tem que ir ao hospital - ouviu alguém dizer.
Júlio não sabia como, mas, de uma hora para outra, estava dentro de um táxi, ao lado de Cléia, levando Geórgia para o hospital.
Ela foi atendida na emergência, onde Cléia e Júlio não puderam acompanhá-la.
- O que foi que houve com a minha filha? - choramingou Cléia.
Eu bem que avisei para ela não passar por aquela praça.
Tiveram de aguardar muito tempo até que uma médica aparecesse para lhes dar notícias.
A revelação de que Geórgia fora estuprada causou angústia em Cléia e revolta em Júlio.
- Não foi só o estupro.
Ela foi brutalmente espancada, teve duas costelas quebradas e levou quatro pontos no rosto.
- Minha Nossa Senhora! - evocou Cléia.
Júlio lutava para manter a calma.
Mesmo porque precisava ser forte para confortar sua futura sogra.
- Ela está consciente?
- Está, sim.
- Podemos vê-la?
- Podem. Avisei que vocês estão aqui, e ela pede para primeiro falar com a mãe.
Depois, você pode entrar.
A contragosto, Júlio foi obrigado a conter a impaciência e aguardar.
Esperava que Geórgia não pensasse que aquele estupro mudaria algo entre eles.
O amor que sentia por ela estava acima daquelas coisas.
Mesmo assim, por uma ínfima fracção de segundos, imaginou o que diria Anselmo se soubesse do ocorrido.
Com seu moralismo exacerbado, na certa, colocaria em dúvida a isenção de Geórgia.
E para ele seria um desconforto ouvir os comentários maldosos de Anselmo ou de qualquer outro.
Pensando nisso, achou melhor ocultar a verdade.
Ninguém na agência precisava saber.
Um telefonema foi suficiente para Anselmo permitir que Júlio faltasse naquele dia.
Ele informara o chefe de que Geórgia havia sofrido um acidente e estava no hospital.
Anselmo lamentou o ocorrido, perguntou se estava tudo bem e ofereceu-se para ajudar.
- Não é preciso - dissera Júlio.
Ela agora está passando bem.
Precisa de repouso, mas vai se recuperar.
- Em que hospital ela está?
Quero mandar-lhe flores.
Júlio deu o nome do hospital, acreditando que Anselmo lá não compareceria.
E não compareceu.
Em seu lugar, mandou Bianca, com quem Geórgia se dava bem.
Bianca chegou abraçada a um ramalhete de rosas brancas.
Deu o nome de Geórgia, subindo directo a seu quarto.
Bateu na porta, e Cléia atendeu.
- Pois não? - indagou, solícita.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 08, 2015 11:13 am

- Aqui é o quarto da Geórgia?
- É, sim. Você é amiga dela?
- Mais ou menos.
Sou colega de trabalho do Júlio.
Vim prestar solidariedade em nome de todos da agência.
- Muita gentileza de vocês - emocionou-se Cléia, dando passagem a Bianca.
Pode entrar, mas em silêncio, porque ela está dormindo.
- A senhora é a mãe dela?
- Sou.
Ao olhar para Geórgia, Bianca levou um tremendo susto com sua aparência.
Ela estava muito machucada, cheia de hematomas, respirando com dificuldade.
- Jesus! - exclamou.
Que tipo de acidente ela sofreu?
- Você não sabe? - Bianca meneou a cabeça.
Então vou deixar que ela mesma lhe conte.
Agora, com licença.
Vou pedir à enfermeira um jarro para colocar essas flores.
Logo que Cléia saiu, Júlio entrou, levando imenso susto ao ver Bianca sentada no sofazinho embaixo da janela.
- Bianca... - balbuciou.
O que faz aqui?
Disse que não era para ninguém vir.
- Anselmo me mandou trazer umas flores.
A mãe de Geórgia foi buscar um jarro para colocá-las.
- Olhe, agradeço muito a preocupação de vocês, mas não precisava - protestou ele, com ar ansioso.
E agora, acho que você já pode ir.
- Por que a pressa?
Gostaria de falar com Geórgia.
- Não se preocupe, direi que você esteve aqui.
- O que é que há, Júlio?
Por que não quer que ninguém a veja?
- Quem foi que disse isso?
- Não precisa dizer.
Basta ver como você está agindo.
Ele olhou para ela como quem não vê saída.
Puxando-a pelo braço, levou-a para fora.
- Posso confiar em você?
- Pode.
Cléia passou de volta com as flores e sorriu para eles, entrando no quarto rapidamente.
Assim que a porta se fechou, Júlio esclareceu:
- Geórgia foi estuprada.
- Meu Deus! - horrorizou-se ela, cobrindo a boca com a mão.
Como foi isso?
- Na sexta-feira, quando voltei de viagem, dona Cléia me chamou preocupada.
Em breves palavras, Júlio narrou tudo o que havia acontecido.
- E você quer manter isso em segredo?
- É o que eu gostaria, porque pode ser embaraçoso para Geórgia - afirmou ele, ocultando que também se sentia constrangido.
- Tem razão.
- Mas o caso é que esteve aqui um detective.
A direcção do hospital teve que informar a polícia, e fomos avisados de que haverá um inquérito.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 08, 2015 11:13 am

- Então, sua ideia de manter o acontecido em segredo não vai adiantar.
- Vai, se você não disser nada.
Quem, lá na agência, frequenta a polícia?
- Ninguém.
Mas não saiu no jornal?
- Sair, saiu.
No jornal de ontem, na página policial.
Só que nós não permitimos que divulgassem nem o nome, nem a foto de Geórgia.
- Ainda assim, essas coisas acabam sendo descobertas.
- Vou fazer de tudo para que isso não aconteça.
Por isso é que peço sua ajuda.
Não conte a ninguém.
- Não vou contar.
Pode confiar em mim.
Se fosse comigo, também não gostaria que ninguém soubesse.
- Obrigado, Bianca.
Você é uma boa amiga.
E agora, gostaria de falar com ela?
- Se possível.
Geórgia já estava acordada, tomando a sopa que a enfermeira acabara de trazer.
Sorriu quando Bianca entrou, agradeceu as flores.
- Você não precisava ter-se dado todo esse trabalho - falou pausadamente, para não provocar dor.
-Trabalho nenhum. Ficamos preocupados com o seu acidente.
- Júlio lhe contou o que aconteceu? - Ela assentiu.
Mas estou bem agora.
- Ainda bem que está num bom hospital.
- Geórgia tem plano de saúde - comentou Cléia.
É fundamental nos dias de hoje.
- Você me parece bem melhor - observou Júlio, alisando--lhe os cabelos.
- E estou. Quando será que poderei ir embora?
- O médico falou hoje à noitinha.
Estamos só esperando que ele apareça para lhe dar alta.
- Sério? Até que enfim!
Nada como a minha casa.
À medida que Geórgia ia falando, Bianca a observava.
Esperava encontrar uma moça deprimida, acabrunhada, sem vontade de conversar.
Em vez disso, Geórgia parecia até bem falante, dado o estado em que se encontrava.
- Aquele policial esteve aqui de novo - informou ela a Júlio.
Na hora em que você foi telefonar.
- E aí?
- Queria saber se eu me lembrava da fisionomia do agressor.
- O que você disse?
- Que não.
Mas a verdade é que ele não me era estranho.
Sei que já o vi em algum lugar, só não me lembro onde.
- Será?
- Estava escuro, posso ter-me confundido.
Mas que ele me pareceu familiar, isso pareceu.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 08, 2015 11:14 am

- Não pense nisso, querida - aconselhou Júlio, que não tinha interesse em que ela identificasse o sujeito, para evitar que o caso chegasse até a Justiça.
O que importa agora é que passou.
Não vale a pena alimentar desejos de vingança.
- Não acho que seja vingança Geórgia ajudar a prender o criminoso - objectou Cléia seriamente.
Quem escolhe o caminho do crime tem que assumir as consequências.
O que ele fez não é certo.
E depois, vai evitar que ele faça isso com outras moças.
- Embora concorde com a minha mãe, não sei se tenho forças para lidar com isso.
Não quero ter que ir à delegacia fazer nenhum reconhecimento.
Não desejo mal a ele.
Na verdade, até o perdoo, porque acho que ele agiu por instinto e ignorância.
Mas não conseguiria ficar diante dele novamente.
- Você o perdoa? - indignou-se Bianca.
Geórgia, como pode?
O homem violentou você, espancou-a, quase a matou, e você diz que o perdoa?
Eu jamais perdoaria quem fizesse isso comigo.
Torceria para que o atirassem na cadeia e jogassem a chave no mar.
- Pois somos diferentes, então.
Não acredito que alguém que conhece as verdades de Deus aja dessa forma.
O homem que me fez isso é um iludido, um fraco, um ignorante das coisas do espírito.
- E daí? Isso não justifica.
- Não, mas atenua.
No fundo, é um pobre coitado, uma alma perdida, atormentada.
Mamãe e eu temos rezado por ele.
- Vocês o quê? - até Júlio se espantou.
- Temos rezado por ele, sim - reforçou Cléia.
Veja minha filha.
Está bem cuidada, junto da família, cercada de amigos.
E aquele infeliz?
Aposto como está sozinho, carente de pessoas que verdadeiramente lhe queiram bem.
O que ele fez foi um atentado contra as leis da natureza.
Caberá a ele, no futuro, restabelecer a desarmonia que provocou.
Para Geórgia, contudo, é diferente.
Ela, depois disso, com certeza será uma pessoa melhor do que já era antes.
- Não compreendo - indignou-se Bianca.
Eu jamais seria a mesma depois de uma coisa dessas, de tanto ódio que ficaria.
E, se rezasse por alguma coisa, seria para que um caminhão passasse por cima dele quando menos esperasse.
Uma troca de olhares entre Cléia e Geórgia foi suficiente para estabelecer o silêncio.
O rumo da conversa estava lhes fazendo mal.
Bianca percebeu que havia se excedido, mas não se desculpou.
Seguindo a trilha do orgulho, manteve-se calada.
- Bom, acho que já está na hora de Bianca voltar ao trabalho - anunciou Júlio.
Diga a Anselmo e a todos que agradecemos muito a visita e as flores.
Amanhã estarei lá.
- Óptimo. Estimo as melhoras, Geórgia.
E foi um prazer conhecê-la, dona Cléia.
-- O prazer foi todo meu. Obrigada.
Bianca deu dois beijinhos no rosto de Geórgia, sorrindo sem jeito.
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