Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 08, 2015 11:14 am

- Cuide-se.
E trate logo de sair dessa cama.
- Obrigada.
Júlio acompanhou-a até a porta, doido para livrar-se dela.
Bianca também não via a hora de ir embora, levando consigo seus pensamentos críticos.
Nada a surpreendera tanto quanto a reacção de Geórgia.
O estupro fora inevitável, imprevisível, mas justificar o que o delinquente fizera não era nada lógico.
Só se o estupro não fora bem como Geórgia contara.
Júlio dissera que a haviam encontrado desfalecida perto de uma boca de fumo.
Será que ela era viciada?
Ou, quem sabe, não gostava de fumar um baseado de vez em quando?
Na certa, fora isso mesmo. Júlio estava fora, viajando a semana toda.
Sozinha, sentindo falta de sexo, resolveu se consolar na maconha.
Foi à boca de fumo, encontrou o malandro dando sopa, levou uma cantada.
Mas, na hora do vamos ver, deve ter batido um remorso, e ela desistiu.
Só que o sujeito, excitado com a perspectiva do sexo fácil, não aceitou, forçou a barra e acabou se excedendo.
Sim, devia ser isso.
Geórgia, com aquela cara de santinha, devia ser da pá virada.
Ela fazia questão de sempre parecer a boazinha, mas o que Bianca sabia dela afinal? Nada.
O conhecimento que tinha da outra era supérfluo, só se encontravam em festinhas do banco.
Coitado do Júlio.
Agora compreendia por que ele se esforçava tanto para manter o estupro em segredo.
No fundo, devia ter a mesma desconfiança, mas, por amor, preferia acreditar na versão de Geórgia.
Logo ele, um homem tão correcto, respeitador dos valores morais, fora se apaixonar justo por uma irresponsável feito Geórgia.
A história fora montada na cabeça de Bianca, dando a Geórgia julgamento e condenação.
No fundo, Bianca criara uma situação fictícia bem de acordo com sua própria personalidade.
Fizera uso da maconha algumas vezes e se deitara com muitos homens.
Inconscientemente se recriminando pelo que fizera, apontava o dedo para Geórgia e transferia para ela a censura que gostaria que alguém lhe endereçasse.

10 Estação de trem Central do Brasil.
11 Quanto mais pura a cocaína, maior a possibilidade de overdose.
Nesse caso, a quantidade necessária varia entre as pessoas, situando a dose fatal entre 0,2 e 1,5 grama.

12 Muitos dos delírios causados pelo uso da cocaína e outras drogas provêm do contacto com o mundo astral, já que a substância, tóxica para o organismo, rompe as camadas energéticas protectoras, aguçando a sensibilidade e, consequentemente, propiciando a percepção do universo subtil.
Infelizmente, o uso contumaz das drogas, associado a processos de desequilíbrio do ser humano, magnetiza espíritos menos esclarecidos, com os quais o viciado passa a conviver regularmente.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 08, 2015 11:15 am

Capítulo 11

Damien não compreendia como alguém podia ser tão burro.
Então Tácio não via que se tornara escravo do vício?
Só os espíritos altamente ignorantes se deixavam levar por aquela ilusão.
Assim como os chefões do tráfico não costumavam se drogar, os espíritos mais maliciosos também não o faziam.
Incentivavam os otários encarnados a aderir ao uso das várias substâncias entorpecentes e facilitavam o acesso de espíritos de viciados, para que extraíssem a essência volatizada e, assim, experimentassem a sensação de que se drogavam também.
Com isso, mantinham-nos aprisionados, usando-os como joguetes para a realização de suas tarefas infames.
Quando Tácio abriu os olhos, não se encontrava mais em sua casa.
Não reconheceu o lugar em que estava.
Era um catre sujo, numa espécie de enxovia.
Sentiu um formigamento pelo corpo, uma agitação fremente o assaltou.
Era falta da droga, só podia ser.
Angustiado, pôs-se a caminhar de um lado para outro, buscando uma saída, quando a porta se abriu e Damien apareceu.
- Que idiotice, hein? - zombou ele.
Como é que você foi fazer uma coisa dessas?
- Perdão, mas eu o conheço?
- Não se lembra de mim?
Tácio puxou pela memória, até que confirmou:
- Você é o cara que me acompanha e às vezes some, não é?
- Engraçado - riu ele.
Mas é isso mesmo.
Me chamo Damien.
- Por que faz isso?
E onde estou?
- Calma, uma coisa de cada vez.
Damien desembrulhou um pacotinho que trazia oculto nas mãos, dele retirando um punhado de pó branco.
- O que é isso? - indagou Tácio, sentindo a garganta áspera e passando a língua pelos lábios.
- O que você acha que é?
- Coca?
- Exactamente.
Mas venha logo, antes que ela se evapore.
Mesmo sem entender, Tácio obedeceu.
Estava ávido para cheirar.
Depois da inalação, seu corpo relaxou, trazendo a já tão conhecida sensação de euforia.
- Sente-se melhor? - perguntou Damien.
- Muito melhor, obrigado.
E agora, se não se importa, pode me dizer onde estou?
,- Você é mesmo um idiota, não é?
Não se lembra do que fez?
A lembrança ressurgiu com violência, levando-o a desabar sobre o catre.
- Geórgia... o estupro...
Estou preso?
- Mais ou menos.
- Que tipo de cadeia é essa?
- Seguinte: você morreu.
Tomou uma overdose de coca e desencarnou.
- Eu o quê?
- Morreu, e eu o trouxe para cá, para minha cabana.
Não adianta chorar, porque sabe que é verdade.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 08, 2015 11:15 am

- Mas há pouco você me deu uma carreirinha para cheirar.
Como isso é possível?
- A carreirinha, como você chama, tive que apanhar de uns trouxas que se drogavam lá na Terra.
Não é física, é só a essência da droga.
Quando percebi que você estava acordando, corri lá e apanhei esse fluido, voltando às pressas antes que ele se dissipasse.
- Meu Deus!
- Se você sentisse essas palavras com a força com que as pronunciou, não estaria aqui.
- Minha vida toda se foi - lamentou-se.
E agora? O que vou fazer?
- Você há de convir que uma vida do jeito daquela que você levava não serve para nada.
Acho que está muito melhor agora.
- Eu não queria morrer.
- Se não quisesse, não teria feito o que fez.
- Eu não fiz nada.
Se tomei uma overdose, foi sem querer.
- Conversa!
Ninguém morre sem querer.
A alma escolhe, meu amigo, mesmo que à nossa revelia.
E você escolheu ir embora daquele jeito.
Quem mandou se sentir culpado?
- Pobre Geórgia - arrependeu-se verdadeiramente.
O que foi que eu fiz?
- Não se lamente.
Na hora, não foi bom?
- Nem consigo me lembrar.
- Foi bom.
Eu sei porque também estava lá e aproveitei.
- Aproveitou como?
- Vou ensinar tudo a você.
Você vai trabalhar comigo.
Atílio me mandou escolher alguém para me ajudar, e escolhi você.
- Ajudar em quê?
- Você não estuprou a moça? - Tácio assentiu, apalermado.
Pois agora vai me ajudar a cuidar dela.
- Cuidar dela, como?
- Ela vai ter um filho, imbecil.
- Um filho?
Eu vou ser pai?
- Dá para parar de repetir tudo o que eu falo?
Você deu o sémen, só isso.
Quem vai criar o menino é ela.
- Vou ter um menino?
- Não, idiota, não vai. Ela vai ter.
Você já morreu, não pode mais ser o pai da criança.
- Você disse que quer que eu o ajude a cuidar dela. Como?
- Vou explicar.
Isso aqui é como um quartel.
Tem general, capitão e tudo mais.
Você é como um soldado raso, e eu sou seu superior.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 08, 2015 11:15 am

O general é o Atílio, que você, provavelmente, nunca vai ver, porque ele não lida com a ralé.
Atílio é quem dita as ordens por aqui.
Ele as transmite a mim e a outros na minha posição, e nós tratamos de executar o que ele manda.
No momento, o que ele quer é que eu tome conta para que nada de mau aconteça a Geórgia e ao bebé.
Para isso, deu-me liberdade de escolher uns criados.
E eu escolhi você.
- Se ele quer que cuidemos de Geórgia e da criança, então, ele deve ser uma boa pessoa.
- Boa pessoa? - ironizou, às gargalhadas.
Deixe só Atílio saber disso.
Escute bem, otário, e aprenda.
Ele não é boa pessoa.
Ninguém aqui é. Nem você.
- Não sou mesmo...
- É claro que não - reafirmou Damien, cujo interesse era manter o sentimento de culpa de Tácio, para que ele não pensasse em sair dali.
- Foi isso que mereci por ter estuprado Geórgia?
- E por ter se viciado e tomado uma overdose.
Agora chega de conversa!
Precisamos trabalhar.
Se você me servir direitinho, vou protegê-lo e ensiná-lo a sugar, pessoalmente, a coca dos encarnados.
Senão, vou entregá-lo para servir de escravo.
- Como isso é possível?
- Sabe os trabalhos de magia?
- Magia? Tipo macumba?
- É. Tem uns que são barra pesada, e quem os executa, realmente, é a escória feito você.
O chefão, que é quem faz o trato, fica com o pagamento.
A gente, a quem são passadas as ordens, recebe uma parte, e você, que faz todo o trabalho sujo, fica com os restos.
Entendeu?
- Mais ou menos.
- Tudo bem, com o tempo você aprende.
Agora venha, vou tirá-lo daqui.
Atílio me deu permissão para levá-lo comigo.
- Esse Atílio...
Ele sabe quem sou eu?
- É impossível esconder alguma coisa de Atílio.
Ele sabe quem você é, o que fez e tudo o mais.
Por isso me deixou ficar com você, confiando em que eu o transformarei em um bom soldado.
Não vá me decepcionar, ou vai virar sugador de bosta.
- O que é isso?
- É como chamamos a escória que suga os restos dos restos dos restos dos trabalhos de que lhe falei.
É quem fica com a parte podre do lixo.
Mas não se preocupe.
Se fizer direitinho o que eu mandar, você terá até chances de crescer aqui.
E o pagamento é bom: coca fresquinha todo dia.
Depois de acomodar Tácio em sua cabana, Damien foi prestar contas a Atílio.
Era fundamental que, todos os dias, ele fizesse um relatório.
Atílio ficou satisfeito em saber que ele conseguira capturar o estuprador.
A ligação energética do pai da criança ajudaria a romper a aura brilhante que circundava a mãe, já que Mizael encontraria mais afinidade com as vibrações de Tácio.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 08, 2015 11:15 am

- Só não quero que o deixem se viciar - alertou.
Não quero a mente de Mizael comprometida com os efeitos deletérios da cocaína ou de qualquer outra droga.
- Não se preocupe, Atílio, isso não vai acontecer.
- Cuidado! O pai dele é viciado e continua sendo aqui.
Não o deixe extrair essência do pó perto de Mizael nem permita que ele lhe transmita nem sequer um mínimo desejo de experimentar qualquer droga.
Queremos que muitos se viciem, mas não Mizael.
- Já entendi, chefe.
- Só mais uma coisa.
A garota está noiva, não está?
- Sim. De um moço chamado Júlio.
- E vai se casar?
- É o que parece.
- Que tal o rapaz?
- Não é uma pessoa ruim, mas é bajulador, ambicioso e preocupado com as aparências.
- Quero que você trabalhe junto a ele.
Faça o que for possível para que ele não impregne Mizael de lições de moral.
- Acho que isso não será difícil.
O cara é moralista, mas só da boca para fora.
Por dentro, o que quer é subir na vida.
- Óptimo! Já chega a mãe que arranjaram.
Quanto mais conseguirmos aproximar o pai do nosso lado, mais próximos estaremos do sucesso.
- Entendi, chefe. Deixe tudo comigo.
Garanto que ficará satisfeito com o meu trabalho.
Atílio não deu resposta.
Não tinha muita paciência para Damien, que era tão bajulador quanto o tal de Júlio.
Mas ele o servia bem.
Morria de medo de ser reduzido a nada, da tão temida segunda morte13.
Era com essa ameaça que o mantinha preso e fiel a ele.

13 A segunda morte ocorre pela desintegração do corpo astral ou perispírito, quando o ser se eleva a dimensões tão subtis que dele já não mais necessita, ou quando o perde nas esferas inferiores, transformando-se numa massa condensada de energia na qual permanecem, em estado latente e de semi-inconsciência, todos os atributos do ser que antes foi.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 08, 2015 11:16 am

Capítulo 12

Depois de acomodar Geórgia em casa e se certificar de que ela ficaria bem, Júlio partiu para o trabalho, temendo o que poderia encontrar.
Pedira a Bianca que não dissesse nada, mas reconhecia que aquilo tudo era uma fofoca e tanto.
Chegou acabrunhado, sem muito alvoroço, indo directo ocupar seu lugar na tesouraria.
Alguns colegas sorriram para ele, outros perguntaram se estava tudo bem.
- E aí, Júlio? - indagou alguém.
Como vai a Geórgia?
- Está melhor agora, obrigado.
Teve alta do hospital e está em casa, com a mãe.
- Que coisa isso, não?
Mas o que foi que houve, realmente?
- Foi... um assalto.
- Assalto? - Júlio assentiu.
Que coisa horrível!
E prenderam o bandido?
- É claro que não. Ele fugiu.
- Que pena...
Depois disso, não se tocou mais no assunto.
Havia muito trabalho a fazer.
Anselmo esperava que ele encerrasse aquela história e se concentrasse em seus afazeres.
Júlio trabalhava com afinco, tentando não pensar no que faria se a polícia descobrisse o estuprador.
O normal seria que ele desejasse que prendessem o homem que estuprara sua noiva, mas havia muitas coisas em jogo, e prender o sujeito não restabeleceria a dignidade de Geórgia.
Nos dias subsequentes, o assunto já havia morrido, ninguém mais se interessava pelo incidente.
Ele chegou cedo, como sempre, logo se envolvendo nos problemas que tinha a resolver.
No dia anterior, um cliente o informara de que, ao conferir o dinheiro do saque, recebera uma nota a menos.
O saque havia sido efectuado no caixa de Bianca, deixando-o transtornado.
Não havia ainda levado o caso a Anselmo.
Queria primeiro se certificar da veracidade da informação.
Podia ser que o cliente houvesse se confundido ou, então, que tivesse contado errado.
Era um senhor de uma idade já avançada, muito passível de cometer erros daquela espécie.
Pensava nisso quando a própria Bianca se aproximou.
- Você viu isso? - perguntou ela, atirando um jornal em cima da mesa.
Na mesma hora, Júlio reconheceu a foto de Tácio, deitado no chão, de costas, olhos vidrados, sem expressão.
Ergueu as sobrancelhas, fitou Bianca sem entender e leu a notícia:
- Encontrado ontem o corpo de um homem em seu apartamento, já em avançado estado de putrefacção.
O mau cheiro atraiu a atenção dos vizinhos, que chamaram a polícia e os bombeiros.
O homem foi identificado como Tácio Batista Ramos, 42 anos, desempregado.
A polícia suspeita de overdose de cocaína...
- Meu Deus! - exclamou Júlio.
Coitado do Tácio!
- É realmente uma pena - concordou Bianca.
Mas, enfim, foi ele quem buscou isso.
- O que foi que houve? - era Anselmo que chegava, notando o jornal nas mãos de Júlio.
- Foi o Tácio - esclareceu ele.
Encontraram-no morto.
Parece que tomou uma overdose de cocaína.
- Bem feito! - disse Anselmo, com desprezo.
É no que dá se meter com o que não deve.
Ainda bem que o mandei embora a tempo.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 08, 2015 11:16 am

- Você não tem pena? - contrapôs Júlio.
- Nenhuma. Ele teve o que mereceu.
Onde já se viu, um drogado?
E eu nunca desconfiei.
- Acho que ele não se drogava quando trabalhava aqui.
Deve ter começado depois.
Eu bem que notei algo estranho nele, mas não sabia o que era.
Provavelmente, o efeito da droga.
- Deixe para lá.
Um viciado a menos no mundo.
E agora, voltem ao trabalho
Apesar de não concordar com o comentário de Anselmo, Júlio não o contradisse.
Não queria que ele soubesse o quanto lamentava o ocorrido com Tácio.
Por mais que ele próprio houvesse buscado seu fim, ninguém merecia passar por aquilo.
Sentiu uma pontada de remorso, achando que poderia tê-lo ajudado, mas a única ajuda que Tácio queria era dinheiro, na certa, para se drogar.
- Quer ir almoçar? - indagou Bianca, mais tarde.
Até que seria uma boa ideia almoçar com ela, para averiguar a história do sumiço do dinheiro.
Júlio ligou para Geórgia, avisando que não almoçaria em sua casa naquele dia.
Foi com Bianca a um restaurante de comida caseira, onde seus colegas costumavam comer.
Não queria que ninguém imaginasse o que não deveria.
- Como está a Geórgia? - interessou-se ela.
- Melhorando - ele fitou Bianca, em dúvida sobre o que deveria falar.
Gostaria de lhe agradecer por não ter contado nada a ninguém.
Seria muito embaraçoso para mim.
- Ora, não foi nada. É para isso que servem os amigos.
Prometi guardar segredo e não sou de quebrar promessas.
Ele agradeceu com um sorriso, sentindo a encruzilhada em que se metera.
Em dívida com Bianca, como poderia formalizar uma acusação de furto contra ela?
Talvez o homem estivesse enganado, só podia ser isso.
Na certa, não sumira dinheiro nenhum.
Ele esperaria mais alguns dias para ver o que ia acontecer.
Se ninguém falasse mais nada, daria o episódio por encerrado.
- Vamos torcer para que ela não esteja grávida - prosseguiu Bianca.
- Como é que é? - indignou-se ele.
Grávida?
- É possível, não acha?
Ou o cara usou camisinha?
- Bianca! - horrorizou-se.
Como pode dizer essas coisas?
- Não quero chocá-lo, mas é uma possibilidade que você deve admitir e para a qual deve estar preparado.
- Isso não pode acontecer.
Não vai acontecer.
- Como é que você sabe?
Por acaso Geórgia tem algum problema que a impeça de engravidar?
- Não... que eu saiba, não.
- Então, meu amigo, sinto lhe dizer, mas vocês correm esse risco.
- Não! Jamais!
Isso é impossível!
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 08, 2015 11:16 am

-- Não é impossível.
Acho que vocês já deviam começar a pensar no que fazer, caso isso aconteça.
Júlio não respondeu.
Não podia sequer conceber aquela ideia.
Tornar-se pai do filho de um estuprador era inimaginável.
Nessa hora, Damien entrou com Tácio.
Foi fácil encontrar Júlio no restaurante, bastando seguir suas ondas mentais, algo que ele aprendera a fazer.
Só o que não conseguia era a telepatia à distância como a que Atílio mantinha com Mizael.
- Lá está ele - apontou Damien, puxando Tácio para lá.
- E quem é a gostosa que o está acompanhando?
- É a Bianca. Trabalha na agência.
- Vamos ver que tipo de pessoa ela é.
Não foi difícil para Damien perscrutar a mente de Bianca, mesmo porque sua aura cor de chumbo indicava, possivelmente, mentira e egoísmo.
Logo descobriu o uso esporádico da maconha, os muitos homens com quem se deitara, os pequenos e imperceptíveis furtos que cometia quando ninguém estava olhando.
- Essa é das nossas - felicitou-se Damien.
Pode ser que nos seja útil.
- Como você sabe disso?
- Venha cá, que lhe mostro. - Tácio aproximou-se.
- Agora olhe bem entre os olhos dela.
Concentre-se. Feche seus olhos por uns instantes.
Agora abra-os.
Qual a cor que você vê ao redor dela?
Tácio esforçou-se, mas não viu nada.
Por insistência de Damien, continuou o exercício, até que, da terceira vez, conseguiu.
- Vejo um cinza escuro! - animou-se.
Consegui?
- Viu só? É apenas uma questão de treino.
Agora venha, não podemos perder a conversa deles.
- Não posso permitir que Geórgia dê à luz uma criança nessas circunstâncias - Júlio ia dizendo.
E acho que nem ela vai querer.
Tácio lançou a Damien um olhar de interrogação.
O que será que ele queria dizer com aquilo?
- Vamos ouvir - ordenou Damien, lendo a pergunta em seu pensamento.
- Como você pensa em impedir? - prosseguiu Bianca.
Vai obrigá-la a tirar? Isso é crime.
- Ouvi dizer que, em casos de estupro, o aborto é autorizado por lei.
Ao lado deles, Damien quase deu um soco em Júlio.
Aborto, nem pensar!
Atílio ficaria furioso se algo assim acontecesse.
Mizael garantira que a determinação da mulher era forte, que ela aceitaria o filho, sem pensar em abortá-lo.
Era só o que faltava, agora, aquele paspalho do noivo atrapalhar tudo.
Embora fosse esse o desejo secreto de Damien, ele não ousava sequer pensar, temendo que Atílio descobrisse.
Tinha de fazer o que o chefe lhe pedira, a qualquer custo.
- Será que ela vai abortar o meu filho? - imaginou Tácio, penalizado.
- Ouça bem, idiota - irritou-se Damien.
Ele não é seu filho.
No momento, tem que ser filho daquele palhaço ali.
E se isso não acontecer, não apenas eu, como você também irá pagar muito caro.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 08, 2015 11:16 am

- Eu?! Não tenho nada com isso!
- Você estuprou a menina sob o meu comando e agora depende de mim.
Lembre-se de que fui eu que o salvei.
Você me deve isso.
Se eu falhar, você irá comigo.
Tácio chorou de mansinho.
Arrependia-se de tudo o que fizera em vida.
Da fraqueza na separação, do vício, do estupro.
Arrependia-se até de ter se deixado envolver por aquele espírito odiento que se julgava seu dono.
Queria impedi-lo, mas faltavam-lhe forças para resistir.
- Não quero que ela aborte - murmurou.
Bem ou mal, é o meu filho que ela carrega.
Por mais que você diga que não, eu sou o pai dele.
Posso não estar mais vivo para acompanhar o seu crescimento, mas quero o melhor para ele.
- O melhor para ele? - desdenhou Damien.
E o que seria isso?
- Quero que ele estude, trabalhe, se case com uma moça decente.
E, principalmente, que nunca se envolva com drogas.
A gargalhada que Damien soltou foi tão grande que o assustou.
Tácio se encolheu, enquanto o outro revidava com azedume:
- Você é mesmo muito estúpido.
Já reparou no lugar em que vivemos?
Por acaso é algum paraíso, nós parecemos defensores da moral e dos bons costumes?
Por que pensa que Atílio quer tanto proteger o menino?
- Não sei.
Não havia pensado nisso.
- É claro que não.
Se tivesse colocado a cabeça para funcionar, veria que os planos de Atílio para ele não podem ser nobres como você pensa.
Estudo? Trabalho?
Casamento? Drogas?
Você acertou numa coisa:
nas drogas, mas não como está pensando.
Atílio não quer que Mizael se transforme num viciado.
Ele vai chefiar o tráfico.
É esse o plano grandioso de Atílio.
- Mizael?
- Seu filho.
Você deve ter conversado com ele lá em cima.
Damien se referia ao astral onde fora marcado o encontro entre ele, Geórgia, Júlio e Mizael.
Havia se esquecido completamente.
- É mesmo - lembrou-se, por fim.
Conheci o rapaz, mas não lhe prestei muita atenção.
Disseram-me que eu não precisaria cuidar dele, por isso, concordei.
- Viu no que deu? - ironizou.
Vai ter que cuidar dele, mesmo assim.
Júlio e Bianca se levantaram para voltar ao trabalho, fazendo cessar a conversa entre os espíritos.
Saíram, mas não foram seguidos.
Satisfeito com o que descobrira, Damien retornou com Tácio.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 08, 2015 11:17 am

Capitulo 13

Logo após o trabalho, Júlio correu à casa de Geórgia, louco para estreitá-la em seus braços.
A conversa com Bianca o deixara perturbado, temeroso do futuro.
Achou melhor não pensar mais no assunto.
Geórgia não estava grávida.
Não podia estar.
- Boa-noite, dona Cléia - cumprimentou ele, sentando-se na cozinha para um café.
Onde está Geórgia?
- No banho. Ela já vem.
Júlio colocou o jornal que Bianca lhe dera sobre a mesa, apanhando uma das deliciosas rosquinhas que Cléia acabara de assar.
- Dona Cléia, ninguém faz rosquinhas como a senhora - elogiou, saboreando-a.
- Deixe disso, meu filho.
Você é suspeito para falar.
Geórgia entrou na cozinha, de camisola e penhoar, caminhando vagarosamente por causa da dor nas costelas.
Ele se levantou, solícito, beijou-a nos lábios e ajudou-a a sentar-se.
- Como está, minha linda?
- Estou bem.
Um pouco cansada, mas melhorando.
Acho que, na próxima semana, poderei voltar ao trabalho e ao curso.
- Não acredito que você vai continuar com o curso.
- É claro que vou.
O curso não tem nada a ver com o que houve.
- Mas, Geórgia, é perigoso!
- Vai deixar de me acompanhar?
- É claro que não!
- Então, não tem perigo algum.
Não vou prejudicar o futuro de minha carreira por causa desse incidente.
- Não foi um incidente.
Foi um acto criminoso.
- Por falar nisso, aquele detective esteve aqui outra vez - comentou Cléia.
Queria saber se Geórgia se lembrava de mais alguma coisa.
- Disse a ele que não... - informou ela, parando de falar subitamente, ao dar de cara com a foto de Tácio estampada no jornal.
Espere um pouco. Quem é esse?
Com o periódico nas mãos, ela lia avidamente a notícia.
- É o Tácio - declarou ele.
Não se lembra dele?
Foi quem fez aquele escândalo no churrasco.
Morreu de overdose, coitado.
Geórgia estava lívida.
Deixou cair o jornal sobre a mesa, olhou de Júlio para a mãe, com um assombro mudo.
Seus olhos marejaram, ela pensou que fosse desmaiar, agora se dando conta da sensação de familiaridade que sentira ao vê-lo.
- O que foi, minha filha? - estranhou Cléia.
Está sentindo alguma coisa?
- Júlio! - exclamou ela.
Foi esse o homem que me estuprou!
- O quê? Tem certeza?
- Estava escuro, mas lembro que achei o seu rosto familiar, embora não conseguisse me lembrar de onde o conhecia.
Pensei que talvez já o tivesse visto por ali.
Mas agora, vendo sua foto no jornal, não tenho dúvidas.
Foi ele mesmo.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 09, 2015 10:54 am

- E agora? - indagou Cléia, apanhando o jornal de cima da mesa para olhar a foto de Tácio.
O que faremos?
- Vamos à polícia - decidiu Júlio, rapidamente.
Geórgia precisa contar isso ao delegado.
Toda a compaixão que Júlio sentira ao ver a foto de Tácio no jornal transformara-se em ódio e depois em euforia.
Em outras circunstâncias, poderia apenas odiá-lo.
Se vivo estivesse, o próprio Júlio se encarregaria de uma vingança.
Morto, porém, Tácio lhe facilitaria as coisas.
Júlio estava certo de que a morte dele poria um fim às investigações da polícia.
Sem contar que tivera o merecido fim.
Fora um acto de vingança, só podia ser.
A intenção de Tácio era atingi-lo por intermédio de Geórgia.
E conseguira.
O ódio que Júlio sentiu do ex-colega naquele momento foi imenso.
Depois de pensar rapidamente na solução para aquele problema, veio a revolta.
Ele fora amigo de Tácio, chegara a se arrepender de não tê-lo ajudado mais.
E era essa a paga que recebia.
- Maldito! - rosnou, ainda experimentando vários tipos de sentimento ao mesmo tempo.
Ainda bem que está morto, pois do contrário, eu mesmo o mataria.
- Não diga isso - objectou Geórgia.
Acha que eu ia querer que meu noivo se transformasse em assassino?
Tácio é um pobre coitado, perdeu a vida por causa da droga.
O que precisamos é rezar por ele.
- Nunca mais repita uma barbaridade dessas! - vociferou.
Proíbo-a até de pensar nele.
Aquele canalha merece o inferno, não suas orações.
- Você não sabe o que está falando - ponderou Cléia.
- Está com raiva, o que é compreensível, porque Geórgia é sua noiva e você conhecia o sujeito.
Mas não faz bem alimentar o ódio no coração.
Envenena a alma, ao passo que o perdão purifica e liberta.
- Perdão? - protestou Júlio.
Isso é alguma piada?
Perdoar o cafajeste que fez isso a Geórgia?
Nunca!
- Júlio está nervoso, mãe.
Quando a raiva passar, verá que temos razão.
- Não vai passar - corrigiu ele.
E muito me admira você, Geórgia, não estar com ódio dele.
Fico até feliz que ele tenha morrido, e você devia sentir o mesmo.
- Não é da minha natureza odiar - contestou ela.
- Nem da minha!
Mas o que ele fez não tem perdão.
Foi abominável, uma covardia!
Ele mereceu aquela overdose, e espero que o diabo o tenha carregado para o inferno!
- Cruz-credo! - benzeu-se Cléia.
Pare com essas heresias.
- Tudo bem, dona Cléia, perdoe-me.
Acho que me excedi.
Mas é que não compreendo como vocês podem perdoar e rezar por esse monstro.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 09, 2015 10:55 am

- O perdão faz bem à alma, como disse minha mãe - esclareceu Geórgia.
E a compaixão que sentimos pela ignorância dele é algo natural, está em nossa forma de pensar e sentir.
Não podemos evitar.
- Vocês são muito boas - reconheceu ele, abraçando Geórgia com cuidado, para não a machucar.
Tanta bondade não tem lugar nesse mundo.
- A bondade tem lugar em qualquer mundo - corrigiu Cléia.
Se todos se esforçassem para disseminar o bem, não haveria tanta gente desequilibrada por aí.
Acho que a senhora tem razão, mas a realidade que vivemos não é essa.
O mundo é um lugar de gente má, interesseira, egoísta.
Temos que aprender a nos defender.
- Temos que aprender a compreender e modificar isso.
Todo mundo tem uma centelha boa dentro de si.
Só precisa de um incentivo para deixá-la brilhar.
- Suas palavras me emocionam, e Deus sabe o quanto eu gostaria de acreditar nelas, mas não é assim que sinto.
O que vejo são pessoas querendo comer umas às outras, num mundo onde o que importa é o poder.
Veio a palavra mágica, com a qual Júlio magnetizava as forças das sombras.
Assim como Atílio e muitos outros, o que ele almejava era o poder.
Em escalas diferentes, mas, ainda assim, o poder.
Júlio queria subir na vida, tinha ambição, o que era saudável dentro dos limites competitivos da vida.
Todavia, suas aspirações iam além do desejo da conquista pessoal.
Ele queria impor-se, ser respeitado, temido.
- Não é assim que eu penso - discordou Geórgia.
O que importa é o amor, e o poder sem ele exercido nada mais é que ilusão dos vaidosos e ignorantes.
Júlio sentiu um choque percorrer o seu corpo.
O pensamento de Geórgia contradizia seus ideais, ia de encontro a todos os seus planos para o futuro.
Mas ele a amava tanto!
- Não vamos brigar, minha linda - pediu emocionado.
Estamos todos abalados com os acontecimentos.
- Tem razão - concordou ela.
Tudo isso irá passar com o tempo.
- Sente-se bem para ir à delegacia?
- Acho que sim, se você me acompanhar.
- É claro.
Vou ligar para o delegado e informar que iremos lá.
Tenho certeza de que você será logo atendida.
Como era de se esperar, o inquérito foi arquivado após os esclarecimentos de Geórgia.
Algumas investigações ainda se seguiram, apurando que Tácio era frequentador assíduo da praça onde tudo acontecera.
Inclusive, naquele dia, fora visto por algumas pessoas circulando pelo local, lá permanecendo mesmo após o início da ventania.
O inquérito estava encerrado, Tácio, sepultado e, com ele, a verdade sobre o que havia acontecido a Geórgia.
Depois de tudo resolvido, Júlio sentiu um alívio sem igual.
Parecia que várias toneladas de chumbo haviam sido retiradas de seus ombros.
Estranhamente, pegou-se ansioso para contar a novidade a Bianca.
Foi com esforço que, no dia seguinte, teve de aguardar a hora do almoço para conversar com ela.
- Você parece muito animadinho hoje - observou ela.
- Aconteceu alguma coisa?
- Não sei se animadinho é a palavra certa.
Mas aconteceu algo muito importante.
- Quer me contar?
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 09, 2015 10:55 am

- Não via a hora.
Entre o alívio e a revolta, Júlio contou a Bianca o que acontecera.
Foi uma surpresa.
- O Tácio, hein! - espantou-se.
Quem diria?
- Sei que é errado, mas fiquei aliviado em ver essa história acabar.
- Não ficou com raiva dele?
- Muita. Mas ele está morto, tudo se acabou.
- E como Geórgia reagiu?
- Com aquelas besteiras de sempre.
Que ele era um coitado e tinha que rezar por ele.
Falou que o perdoava e coisa e tal.
- Não compreendo a Geórgia.
Francamente, Júlio, essa reacção dela foi inesperada.
Que mulher perdoa o homem que a estuprou?
- Provavelmente, nenhuma.
Mas Geórgia não é uma mulher qualquer.
- Mesmo assim, é muito esquisito.
E ela nem quis acusá-lo.
Será mesmo que não o reconheceu?
- Foi o que ela disse.
- E você não acha estranho ela ter sido estuprada logo pelo Tácio?
- Como assim?
- Quero dizer, o cara solta uma piadinha para ela no dia do churrasco.
E depois a ataca. Não é estranho?
- Que piadinha?
Não me lembro.
- Ah! Ele falou alguma coisa sobre ela lhe colocar chifres.
- Ele estava com raiva.
- É claro. Mas talvez a piada não tenha sido à toa.
- O que a faz pensar assim?
- Bem... - hesitou, de forma estudada.
Tácio até que era um cara bem apessoado, pintoso, cheio de charme.
De repente ele pensou que poderia conquistar Geórgia, entende?
Chamá-la para sair, essas coisas.
- Não acredito!
Geórgia jamais aceitaria.
- É claro que não.
Mas ele era muito insistente.
Você sabia que ele me cantou diversas vezes?
- Sério?
- Não transei com ele porque não quis - mentiu, já que o oposto é que havia sucedido.
Fora Tácio quem nunca se deixara seduzir pelas insinuações de Bianca.
Não achei certo, pois ele era casado.
- Não sabia que Tácio tinha dado em cima de você.
- Pois é. Quem garante que ele não deu em cima de Geórgia também?
- Não. Ela me teria falado.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 09, 2015 10:55 am

- Pode ser que ela não quisesse preocupá-lo.
Ou indispô-lo com Tácio.
Ou então... - calou-se propositadamente.
- O quê?
- Nada.
- Nada, não.
Você ia dizer alguma coisa.
- Não era nada.
- Pode falar, Bianca, o que foi?
- Não quero envenenar o relacionamento de ninguém.
- Como assim?
- Geórgia é sua noiva e ama você.
Logo, não tem sentido o que pensei.
- O que você pensou?
Que Geórgia gostou das cantadas de Tácio?
- Percebi uma troca de olhares estranha no churrasco.
Na hora, não fiz mau juízo, achei que era bobagem.
Mas agora...
- O quê?
Ela deu de ombros e insinuou, maldosa:
- Você mesmo disse a Geórgia que não passasse pelo meio da praça.
Por que será que ela resolveu tomar aquele caminho justo no dia em que você não estava com ela, e logo pelo lugar em que Tácio a esperava?
- Você acha que eles marcaram um encontro lá?
Bianca deu de ombros e Júlio continuou:
- Isso é impossível! Ela foi estuprada!
Durante alguns segundos, ela o encarou com ar de dúvida, até que retrucou falsamente:
- Tem razão, Júlio. E quer saber?
Geórgia jamais faria isso com você.
Não marcaria nenhum encontro com aquele marginal.
- Por certo que não.
E ela só o reconheceu ao ver a foto dele no jornal.
- É isso mesmo.
Que besteira a minha.
Não ligue, Júlio, por favor.
Foi só uma desconfiança idiota.
Geórgia o ama, não o trairia com o Tácio nem com ninguém.
Bianca mudou de assunto, levando Júlio a uma desconfiança atroz.
Não era possível que Geórgia tivesse marcado um encontro com Tácio enquanto ele estava fora.
Realmente, pensando bem, tudo era muito esquisito.
Geórgia afirmara que estava muito escuro para reconhecer o homem.
Mesmo assim, ao ver a foto no jornal, tinha certeza de que era Tácio.
Como ter essa certeza se estava tão escuro? Pior.
Por que não queria colaborar com a polícia na identificação do agressor?
A partir daquele dia, Júlio ficou inquieto, desconfiado.
Era muita coincidência ela ser estuprada justo pelo Tácio.
Não, devia ser um acto de vingança dele.
Provavelmente, fora isso.
Mas Geórgia o conhecia, não teria se esquecido de sua fisionomia tão facilmente depois do escândalo que ele aprontara.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 09, 2015 10:55 am

E por que ela resolvera passar pelo meio da praça, mesmo sabendo que era perigoso, justo nos dias em quem ele não a acompanhara?
Não era possível. Geórgia jamais o trairia.
Bianca estava enganada, não a conhecia.
Mesmo assim, deixou-o suficientemente preocupado a ponto de esquecer que, na véspera, outro cliente o havia procurado para dizer que havia recebido dinheiro a menos no caixa de Bianca.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 09, 2015 10:55 am

Capítulo 14

Sentada na sala de espera do consultório da ginecologista, em companhia da mãe, Geórgia aguardava a vez de ser atendida.
Tinha ainda muitas dores nas costelas, embora o rosto não apresentasse marcas dos pontos.
Fora isso, sintomas bastante reveladores lhe trouxeram uma preocupação extra, ameaçando-a com o fantasma de uma gravidez indesejável e dolorosa.
A médica entregou-lhe a requisição do exame, que ela fez logo na manhã seguinte.
À tarde, já tinha o resultado nas mãos.
Sua reacção imediata foi o pranto.
Não podia acreditar que aquilo era verdade.
- E agora, mãe? - desesperou-se.
O que vou fazer?
- Não sei, minha filha - Cléia abraçou-se a ela, em lágrimas.
Vamos orar e pedir a Deus que nos oriente.
- Júlio jamais irá aceitar uma coisa dessas.
- Você não teve culpa.
Ele vai entender.
- Ah! mãe...
- Deus há de nos dar forças.
Vocês vão criar essa criança com amor.
Ela não vai nem saber que foi fruto de um acto de violência.
Após o trabalho, Júlio foi à casa de Geórgia, como sempre fazia.
Ao chegar, encontrou-a na sala com a mãe, chorando, segurando nas mãos uma folha dobrada.
- O que foi que houve? - quis saber ele.
- Vocês precisam conversar - anunciou Cléia, deixando-os a sós.
Ele se aproximou de Geórgia, que enxugava os olhos em um lencinho de papel.
Tomou-lhe a mão húmida, levou-a aos lábios.
- O que está acontecendo, minha linda? - perguntou ele, estranhando o abatimento em seu rosto.
- Aconteceu uma coisa...
- O que é?
- Tome - ela estendeu-lhe o papel.
Leia.
Mesmo antes de ler, Júlio já sabia do que se tratava.
Temendo o conteúdo do papel, desdobrou-o com lentidão, como se desejasse retardar ao máximo aquele momento de angústia.
Enchendo-se de coragem, leu em silêncio.
As lágrimas afluíram em abundância, provocando uma dor tão pungente que ele pensou que não fosse resistir.
- Você está grávida - constatou com pesar.
É meu?
Ela meneou a cabeça e contestou com angústia:
- Não.
- Tem certeza?
Ela assentiu.
- Como pode ter certeza?
- Pelo tempo de gestação.
Coincide com a data do estupro.
Você estava viajando, e fazia uns dias que não transávamos.
Júlio jogou a cabeça para trás, suspirando dolorosamente.
- Tudo bem - disse.
Ouvi dizer que, nos casos de estupro, o aborto é permitido.
- Aborto? - repetiu atónita.
- Não se preocupe, vai dar tudo certo.
Soube que nem precisa de autorização do juiz.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 09, 2015 10:56 am

A gente pega o inquérito, leva ao médico e informa que foi estupro.
Ele não vai questionar, e em pouco tempo você estará livre desse feto indesejável.
- Você não está entendendo - falou ela, andando nervosamente pela sala.
Não quero fazer um aborto.
- Não quer? - surpreendeu-se ele.
Como assim?
- Não quero. É uma criança que tenho aqui.
Um ser vivo inocente que precisa nascer.
- Ficou louca? - berrou ele, reparando que ela repousava a mão na barriga como se quisesse protegê-la.
Pelo amor de Deus, Geórgia, perdeu o juízo?
Isso não é uma criança.
É uma aberração!
- Não fale assim - choramingou ela, sentindo o desespero se aproximar.
A criança não tem culpa.
- E eu tenho?
Por acaso fui eu que estuprei você?
- Podia ser seu filho.
- Mas não é!
Você mesma disse, com todas as letras, que não é meu.
- Mas pode ser.
Podemos criá-lo com amor.
- Eu jamais criaria o filho de outro homem com amor.
Ainda mais do jeito que foi.
Filho de Tácio, drogado e estuprador.
De jeito nenhum!
- Júlio, por favor, pense bem.
Nós nos amamos, e a criança não tem culpa do que me aconteceu.
Ela nem precisa saber que nasceu de um estupro.
- Mas acontece que eu sei.
E por mais que quisesse, jamais poderia amá-la.
- Não seja intransigente.
- Intransigente?
Pode ser que para você seja natural criar o filho de outro, como muitas coisas absurdas parecem naturais para você.
Mas para mim não é.
- Não quero fazer o aborto, não quero.
- Você tem que escolher.
Ou tira esse feto, ou me perde para sempre.
- Você não pode estar falando sério.
- Estou.
Esse filho não é meu, não tenho nada com isso.
Não o quero em nossas vidas.
- Isso é impossível, pois ele já é parte da minha.
Está dentro de mim, é parte do que sou...
- Cale essa boca! - esbracejou ele, assustando-a pela primeira vez na vida.
Não repita uma indignidade dessas!
- Mas é verdade.
Não posso negar o que a própria ciência afirma.
- Não me venha com essa de ciência.
Assuma, pelo menos, que você quer ficar com essa criança.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 09, 2015 10:56 am

- Eu quero.
Estou lhe dizendo isso desde o início.
- Por quê?
Porque é filho de Tácio?
- Como assim?
- É isso, Geórgia?
Você e Tácio se envolveram?
- O que está dizendo, Júlio?
Não acredito.
Você pensa que Tácio e eu...
- Não sei o que pensar.
- Se essa infâmia passou pela sua cabeça, então acho melhor você ir embora.
Não temos mais o que conversar.
Na mesma hora, ele se arrependeu do que dissera.
Correndo para ela, abraçou-a, enchendo seus cabelos de lágrimas.
- Perdoe-me, Geórgia, por Deus.
Não sei o que me deu para falar isso.
É que é tão difícil... E eu a amo tanto!
- Também o amo e, acredite-me, não era isso o que eu queria.
Se é difícil para você aceitar o filho de outro homem, imagine para mim, que fui vilipendiada e ultrajada.
Mas não posso fazer o aborto.
Acredito que, por um motivo que desconhecemos, esse ser escolheu nascer assim.
E nós, de alguma forma, aceitamos recebê-lo.
Temos que lhe dar essa chance.
- Você e suas fantasias.
Ninguém, em sã consciência, escolheria um destino desses.
Não acredito nessas bobagens de espíritos e reencarnação.
Para mim, tudo não passa de um acaso do destino, como um atirar de dados cujo resultado é imprevisível.
- Está enganado, Júlio.
Mesmo nos dados, o resultado é o previsto pelo universo.
Não há coincidências nem acasos.
Tudo é obra do Criador.
- O Criador não nos pediria uma coisa dessas.
Compreenderia nossos motivos e nos perdoaria pelo aborto.
- Nisso eu acredito, pois Deus é amor em essência, e o amor tudo entende e perdoa.
Mas também acredito em escolhas.
E, se Ele nos deu essa oportunidade, por que não podemos escolher o caminho do amor?
- Esse não é o caminho do amor.
É o do sofrimento.
Amor seria se esse filho fosse meu.
- Ele pode ser seu.
Basta você querer.
- Não posso.
- Se nós adoptássemos uma criança, você não a amaria?
- É diferente. A adopção é voluntária.
Essa criança, não.
Foi imposta a você, está sendo imposta a mim.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 09, 2015 10:56 am

- Por favor, Júlio, pense bem.
Nós nos amamos.
- Ponha-se no meu lugar, Geórgia.
O que está me pedindo vai além das minhas forças.
Você me pede que eu aceite e compreenda.
No entanto, não quer compreender nem aceitar meus motivos.
Por que a sua vontade há de prevalecer sobre a minha?
- É do meu corpo que estamos falando.
- E do nosso futuro.
Não posso mandar em você ou no seu corpo, mas posso decidir o que é melhor para mim.
- É sua última palavra?
- Sim, é.
- Não acredito.
- Pois pode acreditar.
- Por favor, Júlio, amo você.
Não quero perdê-lo.
- Se não quer, já sabe o que fazer.
Ele fez menção de sair, mas Geórgia tentou impedi-lo:
- Não se vá ainda.
Não saia daqui assim.
- Lamento, Geórgia, mas não temos mais o que conversar.
Você já conhece a minha opinião.
Nosso futuro agora está em suas mãos.
Ele nem se despediu adequadamente.
Sem beijos nem abraços, nem carícias.
Simplesmente abriu a porta e saiu.
Estava confuso, transtornado, sem saber em que pensar ou acreditar, ao contrário de Geórgia, firme em sua crença no valor da vida.
Ela sabia que, por mais que o amasse, não conseguiria fazer o aborto.
Podia não ser o seu sonho, mas era seu filho que crescia dentro dela.
Assim que Júlio saiu da casa de Geórgia, Damien e Tácio se juntaram a ele, lendo em seus pensamentos o desejo de interromper a gravidez.
O aborto não fazia parte dos planos.
Ao contrário, os espíritos desejavam incentivar Júlio a permanecer junto a Geórgia para dar apoio ao menino, sem estragá-lo com baboseiras de moral nem doutrinas espiritualistas que só pregam o bem.
- Ele quer que ela tire o meu filho! - indignou-se Tácio.
- Isso não vai dar certo - divagou Damien.
Atílio vai ficar uma fera se isso acontecer.
- Você disse que ela estava disposta a não abortar!
- É, mas ele a está pressionando.
Não contávamos com isso.
- E agora? E se ele a convencer?
- Não sei.
Não quero nem pensar na reacção de Atílio.
- Por que não vamos lá tentar impedi-la?
- Será que você é tão estúpido que ainda não percebeu?
Tácio fez cara de bobo.
- Olhe para lá, idiota!
Olhe para a casa dela.
Vê aquela luminosidade toda?
Pois é. Aquela é uma casa protegida da luz, logo nós não podemos entrar.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 09, 2015 10:57 am

- Não podemos nem tentar?
- Quer tentar?
Muito bem, vá em frente.
Após uma rápida olhada no ambiente ao redor, Tácio experimentou avançar.
Deu alguns passos em direcção à casa até alcançar a barreira energética que a circundava, erguida ali pelas orações e as boas vibrações derramadas por Geórgia e Cléia.
Tácio tentou ultrapassar a barreira, contudo não conseguiu.
Parecia mesmo se tratar de um muro de tijolos.
- O que está tentando fazer?
Tácio ouviu uma voz suave, vinda do lado de dentro.
- Quem está aí? - retrucou assustado.
Apareça!
- Está falando com quem? - indagou Damien, que não ouvira nada.
- Não sei. Parece que tem um cara lá dentro.
- Fuja! - gritou Damien instantaneamente, certo de que só podia ser um espírito de luz.
É uma armadilha!
Corra! Desapareça?
Tácio, contudo, permaneceu imóvel, vendo surgir da luminosidade um ser radiante, vestido em uma túnica tão alva e esvoaçante que lhe pareceu um pedaço de nuvem.
- Quem... quem é você? - perguntou atónito, paralisado de admiração.
- Eu me chamo Josué.
Antes mesmo que Josué pudesse terminar, Tácio foi puxado para trás.
Enchendo-se de coragem, Damien correra em direcção a ele e o arrastara dali.
- Ficou louco? - perguntou, assim que alcançaram os limites de sua cidade.
- Por quê?
- Nunca mais fale com aquela gente, se quiser sobreviver.
- Como assim?
Não estou entendendo.
Que gente, e sobreviver como, se já estou morto?
- Você é muito burro, mas vou lhe explicar mesmo assim.
Aquele pessoal de branco não está com nada.
Leva a gente daqui, com promessas de sossego, paz e amor.
Depois, sabe o que fazem connosco? - Tácio meneou a cabeça.
Levam-nos de volta à Terra em encarnações de dor e miséria.
É por isso que nasce tanta gente aleijada, cega e miserável.
Porque fizeram muitas coisas erradas e estão sendo punidas.
Agora imagine você, um estuprador, viciado, suicida.
Já pensou no tamanho do seu castigo?
- Eu... não sabia disso.
- Pois agora já sabe.
Os antigos viciados são levados a encarnações de loucura, retardo mental, esquizofrenia e coisas do género.
É horrível.
Você quer isso? Quer?
- Não.
- Então, tome cuidado.
Esses espíritos têm uma lábia fenomenal.
Prometem mil coisas.
Lá em cima, até somos bem tratados.
Mas na volta... é como lhe falei.


Última edição por Ave sem Ninho em Seg Nov 09, 2015 11:03 am, editado 1 vez(es)
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 09, 2015 10:57 am

Damien deliberadamente o apavorava, para que ele não pensasse em ir embora.
Ele mesmo tinha medo de sair dali e ser obrigado a enfrentar suas atitudes.
Achava realmente que seria compelido a uma reencarnação dolorosa por conta de seus crimes passados.
Não sabia que as encarnações atendem às necessidades de evolução, sim, mas que podem ser programadas sem dor, bastando, para tanto, o despertar da consciência e o perdão verdadeiro.
- Se é assim, por que Mizael aceitou ir para lá?
- Mizael é diferente.
Tem um plano a seguir.
- Mas, pelo visto, ninguém o obrigou a ser aleijado nem nada. Por quê?
Damien não sabia o que dizer.
Realmente, não havia pensado nisso.
Repetia para Tácio o que Atílio e o próprio Mizael sempre diziam.
Pensando bem, não via sentido no que acontecera a Mizael, que enganara todo mundo e ia reencarnar cheio de projectos criminosos.
Como ele conseguira, não sabia, mas então, nem sempre os espíritos das trevas eram punidos com o sofrimento.
Não compreendia e, por não compreender, resolveu deixar para lá.
Se perguntasse a Atílio, ele se enfureceria, acusando-o de traição.
- Acho melhor você não tocar mais nesse assunto - aconselhou a Tácio.
Se não quiser que o próprio Atílio mande puni-lo.
Tácio estranhou.
O que Damien dizia não fazia sentido.
Ele falava em punições e castigos, no entanto não era o que percebera até então.
Ao contrário, o astral lá de cima parecia compreensivo e amoroso, ao contrário do tal Atílio, que mantinha a obediência de todos através do medo.
- Quero voltar - afirmou Tácio.
Quero ver o que Júlio está fazendo.
- Tudo bem - concordou Damien.
Desde que não seja para a casa de Geórgia, podemos ir.
Nunca mais quero chegar perto daquele lugar.
Encontraram Júlio em companhia de Bianca, a quem ele havia telefonado após deixar Geórgia.
Os dois estavam num barzinho, bebendo chope e comendo batatas fritas.
- Parece até que você adivinhou - comentou ele.
Geórgia está mesmo grávida.
- Eu não adivinhei.
Sou mulher, já passei por isso.
- Você já engravidou? - Bianca assentiu.
E tirou?
- Tirei. Sou muito jovem para estragar a vida.
- Eu nunca fui a favor do aborto, mas no caso de Geórgia é diferente.
O filho é daquele crápula do Tácio.
Tácio olhou para Damien com raiva e tristeza ao mesmo tempo.
Não gostava de ser xingado, mas reconhecia que fora ele o responsável pela revolta de Júlio.
- Qual a justificativa que ela deu para não abortar? - prosseguiu Bianca.
- Sei lá. Ela quer ficar com o bebé, que é um ser inocente.
Eu até concordo que ele não tem culpa de nada, mas não consigo aceitá-lo.
- Não se culpe, Júlio.
Você está coberto de razão.
Eu, no lugar de Geórgia, não pensaria duas vezes.
Já teria tirado aquilo logo nos primeiros sintomas da gravidez.
- Ainda tem isso.
Daqui a pouco, vai ser tarde para o aborto.


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Ave sem Ninho

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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 09, 2015 10:58 am

- E aí? Você vai criar a criança?
- De jeito nenhum!
- Então, o que vai fazer, já que vai se casar com Geórgia?
- Não sei - respondeu com voz rouca.
Saindo dali, Júlio foi caminhando a esmo pelas ruas, imaginando o que faria para convencer Geórgia a abortar.
Sentiu-se encurralado, sem apoio de ninguém.
Não podia contar nem com Cléia, que também era contra o aborto.
- Vá lá e faça as pazes com ela - sugeriu Damien, o mais insistentemente que conseguia.
Você não gosta dela?
Olhe que aborto é crime, hein?
E se não acreditarem no estupro?
Júlio não recebia as palavras de Damien.
Estava tão convencido de que a única saída era o aborto que não escutava sugestões diferentes.
Preocupava-se agora com o tempo.
Temia que, ao finalmente conseguir convencer Geórgia, fosse tarde demais.
- Deixe de ser besta, homem! Você a ama.
O que é que tem de mais criar o filho de outro?
A criança não tem culpa.
Parcialmente, Júlio captou o que ele dizia, mas apenas a parte de que a criança não tinha culpa.
Não tinha, mas ele também não.
Júlio estava irredutível, e Damien não sabia mais o que fazer para tentar convencê-lo.
Era irónico. Muitas vezes intuíra mulheres e homens a interromper a gestação de inimigos que eles não desejavam que nascessem.
Via-se agora na posição oposta, falando coisas que talvez um ser de luz dissesse.
Foi quando Tácio resolveu intervir.
Passou à frente de Damien e soprou ao ouvido de Júlio:
- Esqueça Geórgia.
Você não precisa se casar com ela.
Se ela quer tanto o bebé, que fique com ele.
Você é livre e pode partir para outra.
A sugestão foi mais bem-aceite, ganhando força na mente de Júlio.
Notando que a ideia de Tácio fora mais eficaz do que a sua, Damien tornou a investir:
- É isso mesmo.
Onde já se viu criar o filho de outro homem?
Deixe-a. Ela e a mãe podem cuidar sozinhas da criança.
Ou então, ela pode encontrar um outro otário que o faça.
Não precisa ser você, que não tem nada com isso.
Na cabeça de Júlio, aquela era a solução.
Ele iria sofrer, é claro, mas sofrimento maior seria conviver diariamente com aquele ser infame.
- Muito bem - elogiou Damien, depois que Júlio foi se deitar.
Você foi esperto. Continue assim.
- Obrigado - respondeu Tácio, timidamente.
Dali, Damien foi prestar contas a Atílio.
Sem revelar a ideia de Tácio, inflamou o peito e informou:
- Não precisamos mais nos preocupar com Júlio.
Consegui impedir que ele pressionasse Geórgia para o aborto, levei-o...
- Óptimo - interrompeu Atílio, desinteressado dos métodos de Damien.
Ele não vai mais dar trabalho?
- Não - balbuciou o outro, decepcionado por não poder contar a estratégia que ele atribuía a si mesmo.
Consegui afastá-lo...


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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 09, 2015 10:58 am

- Volte para o lado deles - cortou de novo, rispidamente.
Não descuide de Mizael um minuto sequer.
Naquele momento, Damien pensou que odiava Atílio quase tanto quanto detestava Mizael.
Fora procurar o chefe com a certeza de que ele aprovaria seu plano, elogiando sua astúcia.
Mas Atílio nem sequer o deixara falar.
Damien saiu da sala de Atílio com a mente mais pesada do que de costume.
Precisou de muito esforço para engolir a desonra.
Pena que deixara Tácio na Terra, ou poderia descontar nele sua revolta.


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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 09, 2015 10:58 am

Capítulo 15

Para Geórgia, a decepção maior foi a reacção de Júlio.
Imaginava que ele não receberia bem a notícia da gravidez, contudo não pensou que ameaçasse deixá-la.
Após uns instantes de discussão, de revolta, de recusa, achava que ele acabaria aceitando.
Não era assim que as pessoas agiam quando se amavam?
- Júlio não me ama - disse ela à mãe.
Se me amasse, teria aceitado.
A gravidez não foi culpa minha.
- Procure compreendê-lo, minha filha.
Ele está confuso.
De uma hora para outra, tem que ser pai de uma criança que não é sua, fruto de um estupro.
Não deve ser fácil.
- Pensei que o amor superasse essas coisas.
- Supera. Você vai ver.
Daqui a pouco ele vai mudar de ideia e procurá-la.
- Tenho minhas dúvidas.
Ele parecia irredutível.
- Ele vai mudar de opinião.
Sei que Júlio é contra o aborto e vai acabar sendo razoável.
Estou orando por vocês.
- Você entende por que não posso interromper a gravidez, não entende?
- Entendo-a melhor do que ninguém.
- Engraçado, mãe, sei que essa criança foi gerada num acto de violência.
A notícia da gravidez deixou-me revoltada, a princípio cheguei a odiá-la.
Mas a mudança foi muito rápida.
Agora, começo mesmo a amá-la.
Acha isso possível?
- Só quem divide a vida com uma criança é que sabe o que é isso.
- Não poderia tirá-la.
Mesmo que perca Júlio para sempre, não farei o aborto.
- Assim é que se fala, minha filha.
Júlio não vai deixar você, mas, ainda que isso aconteça, estarei sempre ao seu lado.
E essa criança só lhe trará alegrias, você vai ver.
Apesar de todo apoio da mãe, Geórgia chorou abraçada a ela.
Temia pelo futuro, seu e de seu filho.
Ao mesmo tempo em que já o amava, sentia um certo perigo rondando-o, uma ameaça invisível, intocável.
O que seria?
- Geórgia pressente o carácter de Mizael e o plano maquiavélico de propagação do mal para conquista do poder - esclareceu Josué, que a visitava constantemente, acompanhando a gestação.
- Coitada! - apiedou-se Uriel.
Pensa que o filho será do bem, mas tem uma grande chance de não ser.
- Como tem de ser.
Tudo vai depender dos exemplos que ele escolher seguir.
- Ainda bem que ela se manteve firme no propósito de não abortar - comentou ele.
Tudo teria sido em vão.
- Realmente.
- Josué, me responda uma coisa.
- O que é?
- Por que as consequências do aborto são tão terríveis?
Será ele um crime tão hediondo que provoca anos de sofrimento até que chegue o perdão?


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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 09, 2015 10:59 am

- Essa é uma ideia equivocada do ser humano.
É claro que o aborto não é um acto de amor.
Ao contrário, é egoísta.
Mesmo em casos de estupro, como os de Geórgia, ou para livrar a criança de uma vida de misérias, ou quando se sabe que terá uma má-formação
qualquer.
Tudo isso são desculpas para justificar a fraqueza e o egoísmo dos pais.
- Mas então, se é assim, a ideia não é tão equivocada.
- Quando um ser decide reencarnar, ele conta com a autorização dos pais.
Quando há o risco de aborto, ele sabe disso, mas aceita mesmo assim, com a esperança de que o instinto materno mude a ideia da mãe, principalmente, ou do pai.
- E se não mudar?
- Por qualquer motivo, há um rompimento do compromisso.
Mas compromisso não é sinónimo de amor.
Quando existe amor, todas as dificuldades são enfrentadas, assim como faz Geórgia.
Se não há amor, o aborto acontece por várias razões, como aquelas de que lhe falei antes.
Mas aprenda uma coisa, Uriel: ninguém é culpado por não ter ainda aprendido a amar.
- Então, ninguém é culpado por abortar?
- Culpado, culpado, não.
A falta de amor leva a esse gesto.
Isso traz culpa, que atrai a dor, provocando a falta de perdão recíproco.
Nem o filho perdoa a mãe, nem a mãe perdoa a si mesma.
Se o perdão não começa pela própria pessoa, então nenhum desafecto irá perdoá-la.
- Você quer dizer que ninguém é punido por abortar?
Não estarão essas mulheres no umbral?
- Algumas, mas não por punição, e sim por falta de perdão.
Atormentadas pelo desequilíbrio, muitas mulheres entregam-se à culpa, gerando forte sintonia com o astral inferior, para onde são atraídas, lá permanecendo por acharem que é o que merecem.
A qualquer momento, contudo, podem sair.
- O que fazer então, Josué?
Como essas mulheres podem evitar esse magnetismo?
- Exercitando o auto perdão, acima de tudo.
Reconhecendo que são falíveis, que não são perfeitas e, por isso mesmo, alvos fáceis para a ilusão.
E redefinindo suas atitudes ou seja, não praticando mais o aborto ou, para aquelas que não estão mais em condições de engravidar, reconhecendo, verdadeiramente, que não mais o fariam.
- Você fala em auto perdão.
Mas e se o espírito abortado não perdoar a mãe?
- Ele só não perdoará a mãe se ela não perdoar a si mesma.
Culpa atrai culpa, como violência atrai violência e perdão atrai perdão.
A partir do momento em que a mãe compreender e aceitar os motivos de seu gesto, seu campo energético se transformará, sem abrir espaço para cobranças.
A primeira cobrança que o ser humano faz é dele mesmo.
Quando isso deixa de acontecer, ninguém mais tem motivos para cobrar.
Do que adianta cobrar um níquel do homem se ele sabe que nada deve?
Agora, se ele se sentir devedor, ou vai pagar, ou fugir, ou permitir que o acusem.
- Por que será que as pessoas agem assim?
- Por obscuridade espiritual.
Muitos anos de reafirmação de certas crenças que acabaram impregnadas na mente humana, inclusive como colectividade.
E orgulho, principalmente.


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