Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 10, 2015 11:18 am

O ser humano acha que sabe tudo, não aceita que é falível.
Isso é o mais difícil: reconhecer que errou.
- Você mencionou o erro.
Pensei que estivéssemos trabalhando para abolir essa ideia.
- Não se pode abolir o que existe.
O que pretendemos é mudar a concepção que se faz do erro.
O erro serve para nos mostrar onde está a nossa imaturidade.
Ele não é fatal, não traz punições nem deve ser entendido como justificativa para a dor.
É apenas uma característica simples do homem.
Um sinalizador, que se revela através da culpa.
Depois que a culpa nos mostra onde está o erro, ela não tem mais valia.
Devemos então trabalhar pela nossa transformação, para fazer da amorosidade o leme de nossas vidas.
Só assim o ser humano será feliz.
O diálogo no invisível foi interrompido pelo soar da campainha, atraindo a atenção dos espíritos.
Já sabendo de quem se tratava, Josué silenciou.
A chegada dele era esperada, de forma que os espíritos permaneceram na casa de Geórgia para transmitir-lhe vibrações de coragem.
- Como vai, Júlio? - indagou Cléia, dando-lhe passagem.
- Vou bem, dona Cléia.
Ele entrou e sentou-se no sofá ao lado de Geórgia, que abriu largo sorriso quando o viu.
- Que bom que você veio - disse ela, beijando-o nos lábios.
Tive medo de que não me procurasse mais.
Cléia já havia sumido pelo corredor, deixando os dois sozinhos.
- Reflecti muito sobre nossa conversa do outro dia - começou ele.
E vim aqui lhe dizer que minha decisão quanto ao aborto permanece a mesma.
No entanto, penso que encontrei uma outra solução. Não é a que mais me agrada, mas pode ser uma saída.
- Como assim? - interessou-se ela, curiosa.
Que solução?
- Estou disposto a cuidar de você durante toda sua gravidez - ela se animou, mas ele a conteve com um gesto.
Desde que, ao final, você dê a criança para adopção.
- O quê?! - indignou-se ela, presa de inenarrável decepção.
- Perdeu o juízo, Júlio?
Acha mesmo que eu enfrentaria nove meses de gravidez para depois entregar a criança a estranhos?
- Pense bem, Geórgia.
Sei que você não quer tirar o bebé porque é contra o aborto.
Eu também sou.
Mas a adopção me parece adequada.
Daremos à criança a chance de nascer e ser criada por uma família que realmente a ame.
- Não acredito no que estou ouvindo - contestou ela, vertendo lágrimas de frustração e revolta.
Não pode ser, Júlio, você não entende.
Eu amo essa criança.
Não posso me livrar dela, seja de que jeito for.
- Geórgia, por favor, seja razoável.
- Você me pede para abrir mão do meu filho e quer que eu seja razoável?
Pelo amor de Deus, Júlio!
Não faça isso comigo!
Não vê que não posso me livrar dele?
Que já o amo mesmo antes de nascer?
E amo você também.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 10, 2015 11:19 am

Quero que você seja o pai dele ou dela.
Sei que você pode.
Por favor, compreenda.
Você não me ama?
- Você sabe que a amo, mas é assim que tem de ser.
- E se eu não concordar?
Júlio titubeou, em dúvida sobre o que dizer.
A presença de Josué, de certa forma, tolhia sua determinação.
Mesmo assim, prosseguiu, hesitante:
- Você sabe.
- Vai me deixar?
- Não tem outro jeito.
Você fez a sua escolha, eu fiz a minha.
Enquanto você estiver com a ideia fixa de ficar com essa aberração aí - apontou para a barriga dela - não me considere mais seu noivo.
Mas, se me ama de verdade, livre-se dela, antes ou depois do parto, e poderemos nos casar como havíamos planejado.
- Não posso - desabafou ela, inaudível.
- Não se precipite, Geórgia.
Pense com cuidado.
- Não posso.
Estou dizendo que não posso.
Não me peça mais isso, por favor.
Está me fazendo sofrer muito mais do que o estupro.
Ele engoliu em seco, angustiado, louco para estreitá-la e, ao mesmo tempo, fugir correndo dali.
Se pudesse, arrancaria a criança de seu ventre ou de seus braços, mas sabia o quanto Geórgia era determinada.
- É sua última palavra? - ele quase suplicou.
,- Sim.
- Então, não temos mais nada a conversar.
Você tomou a decisão por nós dois.
- Júlio, não... - implorou ela, a voz engolida pelos soluços.
- Eu o amo.
- Sinto muito - afirmou ele, lutando para sustentar a decisão.
- Não temos mais nada para conversar.
Saiu, deixando-a onde estava no sofá, braços estendidos, o pranto a consumir suas forças.
Aquele era o adeus que ela tanto temia.
Sabia que Júlio não voltaria atrás, ela também não.
Assim que a mãe chegou, atraída pelos soluços altos de Geórgia, teve certeza de que se enganara a respeito de Júlio.
Cléia estreitou-a com amor, amparando seu corpo para transmitir-lhe forças, juntamente com Josué e Uriel, encarregados de espalhar energias fortificantes.
- Ele quer que eu dê o meu filho, mãe - desabafou ela.
Que o entregue para adopção.
- Não chore, minha filha.
Tudo vai acabar bem.
Deus não há de nos desamparar.
Disso, ela não duvidava.
Junto com o amor da mãe, era o que a fortalecia.
A dor da separação era imensa.
Júlio fora seu primeiro e único namorado.
Desde crianças, falavam em se casar.
Era uma decepção que ela teria de enfrentar e superar.
Confiava também no amor da criança que estava gerando.
Ela seria seu bálsamo, uma luz em sua vida sombria.
Por ela, sentia que tudo valia a pena.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 10, 2015 11:19 am

Capítulo 16

Logo que chegou à agência na manhã seguinte, Júlio procurou Bianca com os olhos.
Já ia se encaminhando em sua direcção quando Anselmo o deteve.
- Preciso falar com você - disse aborrecido.
Júlio seguiu-o até sua mesa, louco para encerrar o assunto e contar a Bianca que rompera o noivado com Geórgia.
Anselmo mandou-o sentar-se, encarando-o com olhar de zanga.
- Alguma coisa errada? - estranhou Júlio.
- Não sei.
Você é quem irá me dizer.
- Dizer o quê?
- Posso saber por que você não me contou que está sumindo dinheiro do caixa de Bianca?
- Gomo é que é?
- É isso mesmo.
Ontem, depois que você saiu, fui procurado por um cliente que me trouxe uma reclamação bastante desagradável.
- Que reclamação? - ele gelou.
- O cliente disse que recebeu o dinheiro de Bianca, mas que só percebeu que estava errado quando foi fazer o pagamento a uma pessoa, que o contou e deu pela falta de uma nota.
Júlio permaneceu em silêncio, o corpo todo trémulo, vendo seu futuro no banco ruir, enquanto Anselmo prosseguia irritado:
- Mas essa não foi a primeira vez.
Houve outras, em que ele pensou ter se enganado.
Colocou o dinheiro na gaveta, foi tirando as notas, anotando as retiradas mentalmente, até que ficou faltando uma.
Ele pensou que se havia enganado, mas agora teve certeza de que não, já que a pessoa a quem ele pagou ficou furiosa.
E tem mais.
Ele disse que contou a você.
Por que não tomou providências?
Por que não me disse nada?
Sou o gerente desta agência, você é meu subordinado, é seu dever me colocar a par de tudo o que acontece aqui dentro.
Ainda mais de um facto sério como esse.
Ou será que pretende destruir a reputação do banco?
- Posso falar um instante? - pediu Júlio, pensando rápido.
- Tem algo a dizer? - duvidou Anselmo.
- É claro que eu sabia o que estava acontecendo.
Fui procurado não apenas por um, mas por vários clientes.
- E não fez nada?
- Calma, Anselmo, por favor.
O que você queria que eu fizesse?
Que acusasse Bianca sem provas?
E se ela fosse à polícia dar queixa de mim?
Lá ia eu preso por calúnia.
Isso é muito sério.
- Hum... sei.
E o que foi que você fez?
- Não sei se tem notado que tenho saído com ela para almoçar.
- Todo mundo tem notado.
- Faço isso para ver se descubro alguma coisa.
- E descobriu?
- Ainda não.
Ela é esperta, evasiva.
Não deixa escapar nada.
- Você devia ter me contado.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 10, 2015 11:19 am

- Tive medo de que você a despedisse e depois descobríssemos que estávamos errados.
Não é interesse nosso que ela vá à Justiça, é?
- Pouco me importa.
Todo mundo vai mesmo.
- Mas eu achei que era importante evitar isso.
Daí porque tive uma ideia que pensei em colocar em prática antes.
- Que ideia?
- Ia falar com você, pois preciso do seu consentimento, só que você foi mais rápido e me chamou.
- Que ideia? - repetiu zangado.
- É a seguinte.
Júlio contou o plano improvisado na hora para surpreender Bianca.
Não lhe agradava fazer aquilo com ela, contudo seu emprego estava em jogo.
E depois, ela devia ter pensado primeiro antes de desviar o dinheiro.
- Gostei - disse Anselmo, para alívio de Júlio.
Vá fazer isso agora mesmo.
Esquecendo-se momentaneamente de Geórgia, Júlio entrou na tesouraria, apanhando um maço de dinheiro que acabara de receber da central, ainda envolto na cinta de papel.
Cuidadosamente, soltou a cinta, apanhou uma nota de outro maço e colocou-a ali, tornando a colar a cinta.
Na hora da distribuição do dinheiro pelos caixas, entregou aquele maço a Bianca.
Todos os caixas eram obrigados a contar o dinheiro assim que o recebiam.
Foi o que Bianca fez.
Rompeu a faixa e pôs-se a contá-lo com dedos ágeis, acostumados ao manuseio das cédulas.
Sua surpresa ao constatar que havia uma nota a mais foi imensa.
Era muita sorte.
Um erro da agência centralizadora que ninguém nunca iria perceber.
Bianca olhou para os lados, certificando-se de que ninguém a observava.
Sentindo-se segura, rapidamente amassou a nota extra e atirou-a na lata do lixo, sem que seus colegas vissem.
Guardou o dinheiro na gaveta, abriu o caixa e começou a atender os clientes.
Júlio viu quando ela deixou escapulir a nota para dentro da lixeira.
Sem que ela notasse, estava parado atrás dela, fora de suas vistas.
Esperou até que ela terminasse de atender o primeiro cliente e deu ordens para que fechasse o caixa e o seguisse.
- Aconteceu alguma coisa? - ela perguntou.
Júlio fitou-a penalizado.
Queria dizer-lhe que estava sendo obrigado a tomar aquela atitude, contudo não era possível.
Anselmo já os aguardava na tesouraria, para uma reunião a portas fechadas.
- Muito bem, Bianca, onde está o dinheiro? - Anselmo foi logo interrogando.
- Que dinheiro? - ela se fez de desentendida.
- O que você tirou do maço de cédulas que acabou de receber para abrir o caixa.
- Não tirei dinheiro algum.
- Tirou, sim,
- Não tirei. Pode verificar o caixa, que não vai dar diferença nenhuma.
- Não vai porque Júlio colocou uma nota a mais no seu lote.
Nota essa que você, deliberadamente, ocultou, em vez de entregá-la ao tesoureiro.
- Eu não fiz isso! - esbracejou ela.
- Fez, sim.
- Podem me revistar.
Não tem nada comigo.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 10, 2015 11:19 am

- Você atirou a nota no lixo - informou Júlio, a contragosto.
Eu vi.
- Você o quê?
- Vi tudo, Bianca, não adianta tentar nos enganar.
Vi você contar o dinheiro e deixar cair uma nota amassada na lixeira.
A nota que eu pus lá.
Bianca abaixou os olhos para que ninguém visse a carga de ódio que os turvava.
Empalideceu, fez que ia desmaiar.
Depois, vendo que não tinha jeito, escondeu o rosto nas mãos e desabafou:
- Eu sinto muito.
Estava desesperada, não sabia o que fazer.
Minha mãe tem câncer, precisa de tratamento urgente.
Foi o desespero que me levou a agir assim.
- Sei que é mentira - falou Anselmo.
Sua mãe vai muito bem.
Você roubou dinheiro do banco de propósito, e não foi a primeira vez.
Sei que tem desviado dinheiro dos clientes.
- Foram muitas reclamações contra você - confirmou Júlio.
Isso nos levou a investigá-la
- Você me armou uma armadilha! - Bianca rosnou entre os dentes.
Mesmo depois de eu haver prometido guardar o seu segredo.
- Isso não tem nada a ver - Júlio cortou rapidamente.
Minha vida pessoal não está em jogo aqui.
- Não me interessa o segredo de Júlio - mentiu Anselmo, para não fortalecer a chantagem de Bianca.
O que importa é o seu furto.
Posso dar-lhe uma justa causa, sabia?
E é o que vou fazer se você não pedir demissão.
- Está me ameaçando como fez com o Tácio, não é?
Foi desse jeito que o mandou embora.
- Isso não vem ao caso.
Tácio pisou na bola, assim como você.
Não sei o que acontece com esta agência, onde todo mundo me dá problemas.
- Todo mundo, não - objectou Júlio.
Não é por causa de dois maus funcionários que você vai generalizar.
- É isso mesmo.
Tenho que valorizar os bons, que não é o seu caso, Bianca.
Então, vai pedir demissão ou encarar a justa causa?
- Eu tenho escolha?
- Você pode recorrer à Justiça, se quiser.
Mas tenho testemunhas, inclusive os clientes lesados.
- Aceite a oferta - aconselhou Júlio.
Vai ser melhor para você sair com o nome limpo.
- Quanta bondade! - ironizou.
- Não sei por que essa ironia - contrapôs Anselmo.
Foi você quem furtou. Assuma o seu acto.
- Está certo - concordou com raiva.
Não tenho opção.
Mas fique sabendo, Júlio, que isso não vai ficar assim.
O que sei de sua noivinha...
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 10, 2015 11:20 am

- Não me ameace, Bianca - objectou ele.
Você não tem nada contra mim.
E, infelizmente, Geórgia nem é mais minha noiva.
Os olhares de surpresa dela e de Anselmo foram genuínos.
Rompido o noivado, o segredo já não tinha mais importância.
Seria verdade?
Bianca não teve como ficar para descobrir.
Anselmo já lhe empurrava um pedido de demissão para ela assinar, tal como fizera com Tácio.
Mesmo contrariada, Bianca engoliu o orgulho e assinou.
- Pode ir para casa.
Não precisa cumprir o aviso prévio.
Amanhã você será informada da data da homologação.
Passar bem!
Ela saiu furiosa.
Anselmo não permitiu nem que fosse apanhar sua bolsa, mandando Júlio buscá-la.
De posse da bolsa, acompanhou-a até a saída.
- Você me paga, Júlio!
Ainda vai se ver comigo.
- Psiu! Fique quieta! - ordenou ele.
Não vê que fui obrigado?
Vá para casa e aguarde, que irei procurá-la.
Vamos resolver isso juntos.
- Como?
- Espere por mim.
Ele a empurrou para fora, voltando para a agência com rapidez.
Anselmo agora vistoriava a lata de lixo, de lá retirando a cédula amassada.
Levantou-a para que todo mundo visse, sumindo depois com Júlio atrás.
O rapaz oscilava entre o alívio, o remorso e o medo.
Não estava ainda seguro.
Rompera o noivado com Geórgia ainda confiante de que ela acabaria fazendo o aborto e o procuraria.
Não podia permitir que Bianca estragasse tudo, contando a verdade a Anselmo.
A qualquer custo, iria impedir.
Júlio não podia esperar muito para procurar Bianca e tentar silenciá-la.
Por isso, assim que saiu da agência, passou em sua casa.
Interfonou-lhe, pedindo que fosse encontrá-lo embaixo do prédio.
- Vamos sair daqui - pediu ele.
Precisamos de um lugar mais calmo para conversar.
Tomaram um ónibus para o Leblon, onde se sentaram à mesa de um barzinho defronte ao mar.
- Muito bem - falou Bianca, mal contendo a ansiedade e a raiva.
Aqui estou. Qual vai ser a desculpa esfarrapada que você vai me dar?
- Não quero que pense que fiz aquilo por vontade própria.
Anselmo me obrigou.
- Como?
- Ele descobriu sobre você e sobre o meu silêncio.
- Como assim, o seu silêncio?
Você já sabia?
- Desconfiava.
E se não disse nada antes, foi porque me importo com você.
Ele afagou a mão dela por cima da mesa, deixando-a mais à vontade.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 10, 2015 11:20 am

- Como foi que Anselmo descobriu?
- Da mesma forma que eu.
Um cliente o procurou e fez queixa de você.
- Que droga! A culpa é sua, Júlio.
Você devia ter me avisado que já sabia.
Eu teria tomado mais cuidado.
- Eu sei, desculpe-me.
- E acho que você podia ter desanuviado as desconfianças, de Anselmo.
Sem provas, ele não poderia me despedir por justa causa.
- Ele não me deixou opção.
Meu emprego estava ameaçado.
- Ah, é? Você não pode ser mandado embora, mas eu posso?
- Não é bem assim.
Eu apenas queria assegurar-me de que teria como cuidar de você.
- Cuidar de mim como?
- Você não percebe? - tornou com voz melíflua, os olhos lúbricos vidrados nela.
Como dois desempregados poderiam ficar juntos?
Iam sobreviver de quê?
- Isso é uma cantada?
- Garota esperta - finalizou ele, puxando-a pelo queixo para um beijo, que ela correspondeu sem titubear.
Vamos sair daqui.
Há tempos estou louco por você.
Júlio pagou a conta e chamou um táxi, que os levou ao motel mais próximo.
Amaram-se feito loucos, alheios à presença de Damien e Tácio, que não perdiam nada daquele encontro, inebriados com a energia do sexo, alternando-se para sentir o que Júlio sentia.
Quando terminaram, Bianca estava satisfeita, mas Júlio experimentava a dor do remorso.
Tentou afastar o sentimento ruim com a justificativa de que fazia aquilo por Geórgia, para preservar seu emprego, esperando que ela realizasse o aborto.
- Há quanto tempo você sente isso por mim? - perguntou Bianca, a cabeça pousada no peito dele.
- Há algum tempo.
Tanto que terminei tudo com Geórgia.
- Você terminou com ela por mim? - espantou-se.
- De uma certa forma, sim.
Pressionei-a para que ela abortasse aquele filho indesejável que não é meu, mas ela se recusou.
Insisti, fiz de tudo, e nada.
Geórgia está irredutível, acho mesmo que se pegou de amores pela criança.
Então pensei: por que ficar aqui perdendo meu tempo com uma mulher que não me ama se posso começar de novo com outra pessoa?
- Mentira!
- Não é mentira, é sério.
Quando cheguei ao trabalho hoje, fui procurá-la para contar tudo.
Mas Anselmo foi mais rápido e me forçou àquele teatro.
Foi só por isso que concordei.
Já que escolhi romper com Geórgia e arriscar com você, não podia ficar desempregado.
Tive que fazer uma escolha.
Não me agradaria perder o emprego e depender de você para pagar a conta do motel.
Prefiro ser eu a fazer isso.
Ele mentiu de forma tão convincente que Bianca não hesitou em acreditar, mesmo porque fazia algum tempo que andava interessada nele.
- Se é assim, perdoo você pela armadilha que me aprontou.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 10, 2015 11:20 am

- Não foi porque quis, eu juro.
Agora entendo.
Só tem uma coisa.
- O quê?
- E se Geórgia fizer o aborto e pedir para voltar?
O que você vai fazer?
- Nada - mentiu ele novamente.
Geórgia me decepcionou muito.
Hoje penso se ela realmente não gostou do que lhe aconteceu.
- Eu bem que tentei alertá-lo, mas você não quis me ouvir.
- Deixe isso para lá.
O que importa agora somos nós dois.
E não se lamente pela perda do emprego.
Enquanto estivermos juntos, você não precisará se preocupar com nada.
- Até parece que o que você ganha vai dar para me sustentar.
- Não digo sustentar, mas podemos sair tranquilamente, sem você ter que se preocupar em pagar a conta.
Bianca beijou-o com ardor, convidando-o novamente para o sexo.
Em seu íntimo, Júlio recriminava-se a si mesmo pela mentira, mas era por uma boa causa.
E depois, surpreendera-se com Bianca.
Ela era ousada, divertida, inteligente.
Tinha senso de humor, era extrovertida.
Bem diferente de Geórgia.
Se não amasse tanto Geórgia, bem que podia apaixonar-se por Bianca.
A pergunta de Bianca lhe voltou à mente.
Se Geórgia fizesse o aborto, talvez desse um jeito de ficar com as duas.
Ao menos até que encontrasse um meio de terminar com Bianca sem que ela levasse a público seu segredo.
O que ele mais desejava era receber um telefonema de Geórgia, convidando-o para ir a sua casa.
Saberia assim que ela escolhera o aborto.
O telefonema, contudo, não vinha, deixando-o cada vez mais desanimado e mais próximo de Bianca.
Tudo no trabalho retomara a normalidade.
Um novo caixa fora contratado para o lugar de Bianca, que deixara de ser assunto entre os colegas.
Alguns dias depois, Anselmo chamou Júlio à sua mesa.
- O que foi, Anselmo?
- Nada de mais.
Queria apenas lhe fazer uma pergunta.
- Diga lá.
- Que segredo é esse que Bianca ameaçou revelar naquele dia?
Ele gelou.
Pensava que Anselmo houvesse esquecido o comentário, contudo devia saber que aquilo jamais aconteceria.
Anselmo adorava uma fofoca.
- Não foi nada - disfarçou.
- Não quero me meter na sua vida particular, mas olhe o que aconteceu com o Tácio.
Por causa da mulher, perdeu o emprego, a dignidade e a vida.
- Isso não tem nada a ver comigo e Geórgia
- Tem certeza?
- Tenho.
- Fico mais aliviado assim.
Anselmo foi obrigado a conter a curiosidade, já que não podia obrigar Júlio a falar nem tinha o direito de se intrometer em sua vida.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 10, 2015 11:20 am

Júlio sabia disso, mas sentiu a pressão sobre si.
Quanto mais mantivesse Bianca perto dele, mais longe Anselmo estaria de descobrir seu segredo.
Companheiros invisíveis eram agora presença constante ao lado de Júlio.
Aonde ele ia, lá iam juntos Damien e Tácio.
Principalmente quando se encontrava com Bianca, os dois não desgrudavam dele, saciando o desejo de sexo através das sensações de Júlio.
- Você tem me servido bem, Tácio - elogiou Damien.
Por isso, vou deixá-lo mais livre.
A partir de hoje, você poderá sozinho se virar junto aos viciados.
Não precisa mais de mim para acompanhá-lo nem para apanhar a droga para você.
- Sério?
- Sério. As coisas estão correndo bem agora.
Parece que Geórgia não vai mais voltar com Júlio, que, por sua vez, não terá acesso nenhum à criança.
Só uma coisa, nem pense em fugir.
Se você não voltar, virei atrás de você, e nem queira imaginar o que vou fazer.
E não fale com ninguém.
- Não sou criança, Damien.
Não preciso de conselhos para não falar com estranhos.
- Você é feito uma criança, sim.
Não fosse por mim, estaria agora lá em cima, penando nas mãos dos bonzinhos.
Lembre-se:
não fale com eles.
Se vir algum ser iluminado, fuja.
- Pode deixar.
Para Tácio, foi uma alegria ver-se livre de Damien, ao menos nos momentos em que buscava a essência da cocaína.
Damien o deixou na praça onde costumava obter a droga, partindo em seguida para seu reduto astral.
Na hora do usual relatório, Damien deixou Atílio a par dos acontecimentos:
- Nossa empreitada foi um sucesso.
Tiramos Júlio do caminho de Geórgia de uma vez por todas.
- O que quer dizer com isso?
- Que Júlio rompeu o noivado.
Chegamos até a aproximá-lo de outra garota, muito mais afinada com a gente.
- Idiota! - rosnou Atílio.
Não percebe o que fez?
- Não... - balbuciou ele.
Pensei que, com Júlio fora do caminho, Mizael não teria problemas para nascer.
- Para nascer, talvez.
Mas agora me diga:
quem é que vai segurar aquelas duas na hora das rezas e das lições de moral?
Júlio não gosta de rezar nem tem a moral elevada para afastar nossas investidas.
Agora, Geórgia e Cléia, sozinhas, sem freio, farão do menino um poço de virtudes, mantendo aquela aura clarinha ao redor da casa.
E nós, sem uma quebra na vibração do astral superior, teremos dificuldade de nos aproximar, deixando Mizael muito mais vulnerável às influências moralistas das duas.
Como pensa que iremos penetrar na casa dela sem um rombo na protecção energética, rombo esse que Júlio ajudaria a criar?
- Atílio, perdoe-me... - gaguejou, aturdido.
Não pensei nisso.
A ideia foi de Tácio, e eu pensei que fosse boa.
- Não pense. Você não serve para pensar.
Mandei você impedir o aborto. Só isso.
Será que é tão difícil para você cumprir uma ordem?
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 10, 2015 11:20 am

- Fui atrás da cabeça de Tácio e...
- E deu tudo errado.
Quero que você encontre Tácio e que tratem de reaproximar aqueles dois.
- Temo que isso seja impossível.,
- Saia daqui! - rosnou Atílio, apertando o cabo do chicote com fúria.
Damien saiu arrasado, contendo a fúria com dificuldade.
Da outra vez, tentara contar a Atílio que haviam estimulado Júlio a romper o noivado, mas ele não lhe dera oportunidade de falar.
Agora sentia-se no direito de ficar irritado, e ele é que tinha de consertar as coisas.
Pensando que fizera um grande negócio, Damien quase estragara o plano todo.
Tudo porque se deixara levar pelas ideias idiotas de Tácio.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 10, 2015 11:21 am

Capítulo 17

A decepção de Geórgia só não foi maior do que o amor que sentia pela criança.
Era estranho afeiçoar-se assim a um ser com que jamais sonhara, fruto da violência.
No entanto, era o que sentia, não podia negar.
À medida que os dias iam se passando, o avanço da gravidez tornava impossível o aborto.
Geórgia esperava, com isso, fazer Júlio mudar de ideia.
Vendo que não tinha jeito, que tirar a criança colocaria sua vida em risco, ele se conformaria, aceitando-a e ao bebé.
Precisava apenas ter paciência e aguardar.
- Está sendo tão difícil, mãe! - confessou ela a Cléia.
- Mas o pior não é a gravidez, é a incompreensão de Júlio.
Pensei que ele me amasse mais.
- Tenha calma, minha filha - Cléia procurava confortar.
- Estou calma, porque sei que ele vai voltar.
Quando se convencer de que não tem jeito, vai nos aceitar, a mim e ao bebé.
- Acho que você não devia ficar se iludindo.
Se Júlio fosse voltar, já o teria feito.
- E se eu telefonar para ele?
Não gosto de ficar insistindo nem sou mulher de correr atrás de ninguém, mas talvez ele esteja esperando que eu o procure.
- Se isso vai fazê-la sentir-se melhor, então telefone.
Mas cuidado. Não vá se decepcionar ainda mais.
Geórgia apanhou o telefone e discou o número da casa de Júlio, mas a mãe dele a informou que ele ainda não havia retornado do trabalho.
- Pode avisar que eu liguei? - pediu ela.
Desligou. Eram quase dez e meia da noite, hora em que Júlio costumava estar em casa.
Talvez estivesse em alguma reunião até mais tarde no banco.
Sim, devia ser isso.
Nos outros dias, ela aguardou um retorno dele, que não veio.
Quando saía para a escola, ficava à espera de vê-lo passar, como às vezes ele fazia de manhã cedo, antes de ir para o trabalho.
Nunca o via, porém.
Ou ele mudara de horário, ou a estava evitando de propósito.
Mesmo na saída do curso, que, com esforço, conseguira recuperar, ela não o via.
Era a mãe que sempre estava lá, com a desculpa de que saíra para comprar pão, hábito pouco comum às dez da noite.
Júlio recebeu o recado, contudo não telefonou.
A mãe dele morria de pena de Geórgia.
Gostava da moça, não compreendia o que dera no filho para repudiá-la tão drasticamente, de uma hora para outra.
Ele estava louco para ligar, mas o facto é que passara a noite com Bianca, só retornando no dia seguinte.
Depois, perdeu a vontade.
Queria e não queria falar com ela.
Aos poucos, Bianca ia tomando o lugar de Geórgia em sua vida.
Não que a amasse, mas Bianca era como ele, ao contrário de Geórgia, cheia de escrúpulos e ideias estranhas.
Mesmo assim, se Geórgia tirasse aquela criança, voltaria correndo para ela.
Na segunda vez que Geórgia ligou, conseguiu encontrá-lo em casa.
Foi ele mesmo quem atendeu, sentindo o coração disparar quando ouviu a voz dela:
- Alô, Júlio, tudo bem?
No começo ficou mudo, mas logo recuperou o controle:
- Tudo bem, Geórgia, e você?
Seguiu-se um silêncio breve, até que ela respondeu:
- Sinto sua falta - ele não disse nada, e ela repetiu:
- Sinto sua falta, Júlio.
Preciso de você.
- Fez o que lhe pedi? - rebateu ele, com uma frieza controlada.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 10, 2015 11:21 am

- Júlio, por favor, pare com isso.
Você sabe que eu não posso.
- Então, não temos mais nada a conversar.
- Não seja tão intransigente.
Você me ama, sei que me ama, assim como eu também amo você.
- Amor não tem nada a ver com isso.
É uma questão de dignidade.
- É orgulho, Júlio.
Você pensa que estará violentando seu amor-próprio se aceitar o filho de outro homem.
Mas não é nada disso.
O comentário dela irritou-o sobremaneira.
Se era orgulho, era porque ele era um homem de princípios.
- Não quero mais falar sobre isso, Geórgia.
E por favor, só me procure depois que fizer o aborto.
- Isso não é mais possível.
A gestação já ultrapassou o sexto mês.
Júlio ficou mudo, imaginando-a com uma barriga imensa, recheada com o fruto de outro homem.
O pensamento lhe causou repulsa, tanta que não conseguiu mais continuar a conversa.
- Lamento, Geórgia, tenho que desligar - desculpou-se.
- Tchau.
Geórgia ouviu o clique do telefone, sentindo os olhos arderem com as lágrimas.
Colocou o fone no gancho e chorou.
- Ele não quis vir, não foi? - constatou Cléia.
- Ele nem falou comigo direito.
Como pode, mãe?
Uma pessoa que eu amei toda a minha vida.
Pensei que o conhecesse, mas agora vejo que me enganei com ele.
Júlio não me ama de verdade.
Podia gostar de mim ou estar acostumado com nossa relação de infância, mas isso não é amor
- Se é assim, minha filha, não é melhor que ele se afaste de vez?
Já pensou que ele pode se ver compelido a aceitar essa criança e depois rejeitá-la?
Deus sempre faz acontecer o melhor.
Acredite nisso.
Ela acreditava.
Contudo, não tinha como frear o impulso do coração, que sempre acelerava na direcção de Júlio.
Mas a mãe tinha razão.
Se Júlio rejeitasse a criança depois do casamento, seria muito pior.
Júlio enxugou as lágrimas, oscilando entre a compaixão e a repugnância.
Uma curiosidade mórbida o assaltou, levando-o a desejar ver a barriga estufada de Geórgia.
Mal conseguiu trabalhar no dia seguinte, preso à ideia fixa de vê-la, nem que fosse de longe.
Em casa, chegou a levantar o fone do gancho, mas desistiu de telefonar.
Tinha de vê-la pessoalmente.
- Isso mesmo - incentivou Tácio a seu lado, sob a vigilância furiosa de Damien.
Vá lá e veja com seus próprios olhos como ela está bonita.
- E dê um jeito de voltar para ela - gritou Damien, irritado.
- Vai ser melhor para você e para todo mundo.
Quando Júlio ia saindo, o interfone tocou.
Era Bianca, com quem havia marcado de ir ao cinema.
Tinha até se esquecido.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 10, 2015 11:21 am

- Já estou descendo - avisou.
Ao sair do elevador, ela o esperava de braços cruzados, batendo o pé no piso de mármore.
- Isso não se faz, Júlio? - queixou-se, aborrecida.
Estou esperando você há mais de uma hora.
Perdemos o filme.
- Não deu para sair - desculpou-se, tentando evitá-la.
Minha mãe não está se sentindo muito bem.
- Conversa fiada.
Conheço muito bem essa história de mãe.
Eu mesma já matei a minha uma porção de vezes.
Júlio estava impaciente, seguindo o desejo súbito, quase incontrolável, de dar uma espiada em Geórgia.
- Agora não posso conversar - cortou rispidamente.
Vá para casa. Depois eu ligo para você.
Deu-lhe um beijo frio nos lábios, empurrou-a para o lado e saiu.
A casa de Geórgia não ficava longe, de forma que ele foi a pé.
Mas não foi sozinho.
Desconfiada, Bianca saiu atrás dele.
Ele dobrou a esquina, parando em frente à casa da ex-noiva.
Ali, Tácio e Damien se juntaram a ele.
Júlio tentou ver através das cortinas, mas não conseguiu.
Não havia movimento algum na sala.
Talvez ela estivesse no quarto, cuja janela dava para a lateral. Mas nada.
À excepção do quarto de Cléia, todas as luzes estavam apagadas.
Estimulado pelos espíritos, Júlio atravessou a rua, andando de um lado para outro, tentando imaginar onde ela estaria.
Na esquina, oculta atrás de um carro estacionado, Bianca não tirava os olhos dele, morta de ciúme.
Nunca estivera na casa de Geórgia, mas não precisava ser nenhum adivinho para saber que era ela quem morava ali.
Júlio olhou o relógio, constatando que faltavam quinze minutos para as dez.
De repente, a porta da frente se abriu, e Cléia apareceu.
Trancou a porta, ganhando a rua em direcção à maldita praça.
Júlio não a seguiu. Não precisava.
Pelo horário e o trajecto, Cléia só podia estar indo ao curso buscar Geórgia.
Cerca de meia hora depois, as duas apareceram.
Foi um choque para ele.
Geórgia carregava uma barriga imensa e parecia feliz.
Vinha conversando com a mãe, sorrindo e alisando o ventre a todo instante.
A visão encheu-o de ódio.
Ela estava muito bem, alegre, bonita.
Nem parecia ter sido vítima de um estupro.
Muito menos dava a impressão de sofrer por carregar na barriga o fruto de seu algoz.
Por mais que quisesse, Júlio não conseguiu se conter.
Assim que elas chegaram ao portão, ele se aproximou.
- Boa-noite, dona Cléia - cumprimentou, esforçando-se ao máximo para manter a calma.
Será que posso conversar com Geórgia?
- Boa-noite, meu filho.
Fiquem à vontade.
Vou me preparar para dormir.
- Não quer entrar? - indagou Geórgia, ansiosa, logo que a mãe fechou a porta.
- Não. Prefiro ficar aqui fora.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 10, 2015 11:21 am

Era a primeira vez em anos que Júlio se recusava a entrar na casa dela, o que lhe pareceu um mau sinal.
Geórgia permaneceu onde estava, sem dizer nada, sentindo explodir o peito que a presença dele enchia de esperanças.
- Parece que você está mesmo decidida a não abortar - disse ele friamente.
- Você não acha que agora é tarde demais?
- Mesmo que não fosse, você não o faria.
Nunca pensou em fazê-lo.
- Foi o que lhe disse desde o começo.
- Pensei que você mudaria de ideia.
- Você devia me conhecer melhor para saber que isso não aconteceria.
Devia saber que o meu respeito pela vida me impede de matar.
- Não me parece que você sinta apenas respeito pelo que está aí.
- O que está aqui é o meu filho.
Quer você goste ou não, sou a mãe dele.
Ele carrega os meus genes...
- E os de Tácio! - berrou ele, assustando-a e fazendo-a proteger o ventre.
Não precisa segurar a barriga.
Não vou fazer nada contra você ou o seu precioso filhinho.
- Por favor, não grite.
Estamos na rua.
- Por que você foi fazer isso comigo, Geórgia, por quê?
Eu a amava tanto!
- Amava?
Quer dizer que não me ama mais?
- Não é isso. Mas é que essa... coisa que você carrega aí colocou uma barreira entre nós dois.
- Quer saber, Júlio?
Acho que você nunca me amou.
E a barreira quem colocou foi você, com o seu orgulho, o seu preconceito, a sua intolerância.
- Não é verdade.
Dei-lhe todo o meu apoio depois do estupro.
Mas isso - apontou para a barriga dela - é demais para qualquer homem.
- Se pensa assim, o que veio fazer aqui?
- Não sei. Queria vê-la.
Mas a mulher que tenho diante de mim é uma estranha.
Não é minha Geórgia.
- Não sou sua, e é você o estranho.
O homem que conheci a vida toda conseguiu me surpreender com tanta intransigência.
- Não se trata disso.
Tudo bem, você não pode mais abortar, mas ainda temos uma chance.
Você pensou a respeito da adopção?
Você pode até ganhar uma grana, se quiser...
Júlio nem percebeu quando ela lhe voltou as costas.
Só notou que ela o havia deixado falando sozinho quando ouviu o estrondo da porta batendo.
- E agora? - questionou Tácio, que não perdia nada da conversa.
O que vamos fazer?
- Não sei, imbecil, não me pergunte - rebateu Damien, aborrecido.
Se você não tivesse tido aquela ideia brilhante de afastá-los, não estaríamos passando por isso.
- Você está tentando colocar a culpa em mim, mas tinha gostado da ideia.
- Acontece que Atílio não gostou.
E a culpa é toda sua.
Quem manda ser tão estúpido?
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 10, 2015 11:21 am

Tácio e Damien seguiam atrás de Júlio, que já se aproximava do local onde Bianca se escondera, irritados com o fracasso do encontro entre ele e Geórgia.
- O que vocês estão fazendo é inútil - soou uma voz conhecida atrás deles.
Junto com a voz, um clarão os inundou, alcançando até Júlio e Bianca, ainda atrás do carro.
- Você de novo? - espantou-se Damien.
- Não precisam ter medo de mim - esclareceu Josué.
Não vim lhes fazer mal.
- O que você quer? - sondou Damien, estranhamente sentindo as pernas paralisadas.
- Primeiramente, oferecer-lhes ajuda.
- Que tipo de ajuda? - arriscou Tácio, fitando Damien de soslaio.
- Não fale com ele! - berrou Damien, irado.
Você é fraco, não sabe resistir!
- E você é tão forte que não consegue nem se mover, muito embora não esteja preso em coisa alguma - falou Josué.
- Eu... É diferente...
Não sei que tipo de mágica é essa que vocês usam e que nós não conhecemos.
- Não é mágica.
Esse é o verdadeiro poder.
Você está preso pela minha vontade e pela sua fraqueza.
- Eu não disse? - desdenhou ele.
Não disse a você, Tácio, que eles não são nada do que dizem ser?
Que tipo de espírito prende os outros com cordas invisíveis?
- Não há cordas invisíveis.
Assim como a minha vontade o prendeu, a sua pode soltá-lo.
Com os olhos chispando, Damien fez força para soltar-se, mas não tinha fibra moral suficiente para se sobrepujar ao poder de Josué.
- Solte-me - rugiu. - Eu exijo.
- Só depois de ouvir o que vou lhe dizer.
Ao lado deles, Tácio estava louco para perguntar da ajuda, mas não tinha coragem de enfrentar Damien, muito embora achasse que aquele espírito era muito mais poderoso do que ele.
Tão poderoso que lhe deu medo.
Ele bem seria capaz de forçá-lo às terríveis punições de que Damien tanto falava.
- O que você quer? - rilhou Damien, entre os dentes.
Diga logo e vá embora.
- Primeiramente, como eu ia dizendo, venho oferecer-lhes ajuda.
A transposição de níveis energéticos é simples e depende exclusivamente da vontade.
Aquele que quiser me seguir será bem-vindo.
- Não estamos interessados - adiantou-se Damien, fuzilando Tácio com os olhos.
- Muito bem.
A outra coisa é que vocês não estão em condições de intervir no futuro de Mizael e Geórgia.
Ela e Júlio não vão se casar.
- Quem decidiu isso? Você?
- Não. Eles mesmos.
É o melhor para todos é que isso não aconteça.
Por isso, não adianta vocês insistirem.
Seus esforços cairão no vazio.
Contra o poder de Deus, tudo não passa de ilusão.
Diga isso a seu chefe.
Na mesma hora em que ele esvaneceu, as pernas de Damien se soltaram.
Estranho que apenas ele fora preso.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 11, 2015 10:33 am

Tácio permanecera solto, embora sem se mover.
- Estou de saco cheio desse cara! - desabafou Damien, com raiva.
Já é a segunda vez que ele aparece para nos atrapalhar.
Vamos embora.
Sumiram também.
Só então Josué se foi, já que não havia partido de verdade.
Apenas tornara-se invisível para observar o que eles iriam fazer.
De volta à sua cidade astral, foi ao encontro de Nora.
Ela já o aguardava, junto a Uriel.
- E então, Josué, como foi lá na Terra? - indagou ele.
- Muito bom. Nosso Mizael está próximo de nascer.
- O corpo fluídico dele já está praticamente colado ao da mãe - informou Nora.
Em breve, estará definitivamente ligado ao seu próprio físico.
- Isso mesmo. E você, Nora?
Como está se sentindo?
- Um pouco ansiosa.
Aguardar dois anos me parece um pouco demorado, mas o que fazer?
Não tem jeito.
- A paciência é uma virtude. Cultive-a.
- Sim, Josué, constantemente.
- Você não terá problemas em voltar ao mundo.
Está preparada, é segura de si, muito determinada e boa.
Será outra luz na vida de Mizael.
- O que ele fez para merecer essas bênçãos?
A mãe é uma criatura muito iluminada.
A avó, também.
E eu o amo imensamente.
- Ele mereceu porque existe, lá no mais fundo de sua alma, a vontade de fazer brotar o amor que existe dentro dele.
Vocês o estimularão a extravasar o amor em vez da rebeldia que ele pensa que deve ter.
- Não será uma tarefa das mais fáceis - observou Uriel.
- Mas perfeitamente possível e viável.
A divindade não conhece o impossível.
Para Deus, todas as coisas são realizáveis.
- Mesmo que o indivíduo não esteja pronto?
- Quando ele não está pronto, não recebe a incumbência.
De uma maneira ou de outra, em mais ou menos tempo, ele estará preparado.
Mas não é apenas ele que me preocupa.
- Quem mais?
- Atílio. Ele, mais do que todos, vive cercado de ilusões.
Sua fome de poder é tão grande que ele não consegue enxergar mais nada no mundo.
Fará de tudo para conseguir o que quer.
- Por que será que ele é assim? - quis saber Uriel.
- Acho que a culpa é minha - informou Nora.
- Não é verdade - contestou Josué.
Atílio é desse jeito porque pensa que é da natureza dele.
Mas ninguém é naturalmente mau.
Os desvios de conduta são adquiridos pela ilusão do poder, do dinheiro, do orgulho, do prazer.
Deus, contudo, não criou seres imperfeitos, porque a natureza divina é a perfeição.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 11, 2015 10:33 am

E nós, feitos da mesma centelha, não podemos ser imperfeitos.
A imperfeição humana é somente um estágio, uma forma de conquistar excelência por méritos próprios.
Ninguém chega ao plano divino sem luta, sem esforço, sem trabalho, sem a transformação que decorre da conjugação de todos esses factores.
- Atílio, contudo, não pensa assim.
- Ele ainda acredita no poder para a conquista de valor.
É uma ilusão, uma das muitas que destroem o ser humano.
- E o que você pensa em fazer para mudar isso?
- Mostrar a ele que as forças do bem estão acima de todo e qualquer exército de trevas.
- Tudo bem - falou Nora.
Mas onde é que eu entro nisso?
- Embora ele pressinta sua proximidade, pensando em você constantemente, ainda não sabe que você está aqui e que pretende reencarnar junto de Mizael.
Você é nosso trunfo.
Contra você, ele não terá coragem de agir,
- Será?
- Conheço o amor.
Atílio a ama tanto quanto ama Mizael.
Não foi por outro motivo que renunciou a você.
Esse talvez tenha sido seu único gesto de amor.
E é a esse gesto que temos que nos apegar.
- Uma pergunta - pediu Uriel.
Você disse que o gesto de Atílio mostra que há uma chance para o amor.
- Exactamente.
- Isso acontece com todo mundo?
Quero dizer, todo ser humano possui um germezinho, por menor que seja, capaz de fazer brotar o amor?
- Todos, sem excepção, possuem em si essa semente, já que fomos feitos à imagem e semelhança de Deus, e Ele é amor em essência.
Qualquer pessoa, por mais cruel, violenta ou empedernida que possa parecer, carrega consigo o germe do amor.
Fazer brotá-lo é uma tarefa que pode levar tempo, mas sempre acontece.
Todos nós já passamos por estágios de maior ignorância, em que nossas atitudes beiravam ou se afundavam na selvajaria.
Hoje, mediante méritos pessoais, conseguimos sair do universo das sombras e passar para o lado onde a vida é feita de luz
- Mas nem todos terão essa chance neste planeta, não é?
, - Infelizmente, não.
Caberá aos mais embrutecidos a construção de um novo mundo, a partir de estágios primitivos semelhantes aos dos primórdios da Terra, para desenvolvimento das primeiras raças que lá habitarão.
Por isso é que repito: essa é a última chance da humanidade.
De uns anos para cá, todos têm recebido esse alerta ao reencarnar.
- E quem está há muito tempo sem reencarnar?
- Para os que, como Atílio, persistem na treva e ainda não se dispuseram a voltar, a questão é mais delicada, já que podem decidir quando o planeta não estiver mais em condições de os receber.
Terão então que partir directamente para outro mundo.
Fora uma conversa elucidativa, apesar da preocupação de Nora com os seres que amava.
Faria de tudo para ajudar Mizael, mas, quanto a Atílio, tinha suas dúvidas.
Achava mesmo que ele jamais se modificaria.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 11, 2015 10:34 am

Capitulo 18

Ao passar pelo local onde Bianca se escondera, Júlio viu-a em pé, braços cruzados, olhando-o de cara feia.
Ele deu uma parada breve, fitou-a com desdém e indagou irritado:
- Está me seguindo?
- Eu... não pude resistir.
Quis saber aonde você ia.
- Agora que já descobriu, está satisfeita?
- Por que veio aqui, Júlio?
Pensei que você tivesse dito que haviam terminado.
- E terminamos.
- Então, por que veio?
Ele não respondeu.
Subitamente, a irritação transformou-se em desejo.
Ainda amava Geórgia, mas aquele ventre avolumado não lhe despertava atracção.
Bianca, contudo, vestia uma saia mínima e uma blusa decotada.
Sem dizer nada, ele a puxou para si, beijando-a avidamente, explorando seu corpo com mãos ligeiras.
- Vamos lá para casa.
Estou sozinho.
Bianca tinha o poder de fazê-lo esquecer-se de Geórgia quando estavam se amando.
A partir daquele dia, Júlio resolveu não mais pensar na ex-namorada.
Estava consumado, não tinha mais jeito.
Seria impossível que ela abortasse a criança, assim como não lhe parecia provável que ela o desse para adopção.
O melhor que tinha a fazer agora era esquecer.
Geórgia que fosse feliz com seu filho bastardo.
Ao mesmo tempo em que Júlio se deliciava na cama com Bianca, Geórgia chorava no ombro da mãe.
Tinha imaginado que, vendo o estágio avançado da gravidez, ele mudaria de ideia e ficaria com ela.
Mas Júlio ainda insistia na adopção.
- Ele não disse nenhum absurdo - contestou Cléia.
- Muitas mães fazem isso.
Ainda é melhor do que abortar ou jogar o bebé no lixo.
- Mãe! - horrorizou-se.
- É verdade.
Muitas mães ainda não sabem que podem dar seus filhos para adopção sem serem punidas por isso.
Não é o ideal, mas é preferível ao aborto e ao abandono.
- Você tem razão, mas eu já havia dito a Júlio que não faria isso.
- Não pense mais nisso, minha querida.
Júlio preferiu seguir o caminho dele.
Você não está só.
Estou ao seu lado e irei ajudá-la sempre.
- Ah! Mãe, não sei o que seria de mim sem você.
, Abraçaram-se, transmitindo a Mizael, dentro da barriga da mãe, aquelas ondas energéticas de amor.
O início da gestação fora confuso, levando ao feto vibrações de medo e insegurança.
Apesar de toda a programação, Mizael não sabia bem o que o aguardava, já que não possuía nenhuma relação pretérita com sua futura mãe.
Aos poucos, porém, sentindo intensificar-se a transfusão de energia de amor, ele foi-se aquietando, até que seu espírito alcançou serenidade suficiente para um nascimento tranquilo.
Mizael veio ao mundo três meses depois, cercado de carinhos e atenção.
Josué, Uriel e Nora estavam presentes, mas Damien e Tácio, por mais que quisessem, não conseguiram penetrar no quarto da maternidade nem espiar o berçário, guarnecido por espíritos encarregados de proteger os recém-nascidos.
Até Atílio quis ver o menino, porém não se atreveu a sair do astral inferior, com medo de perder a moral, caso sua entrada fosse barrada e ele não conseguisse vencer os guardiões.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 11, 2015 10:34 am

Assim que a enfermeira trouxe o bebé, Geórgia ajeitou-o no colo, os olhos abarrotados de lágrimas de emoção.
A seu lado, junto aos espíritos amigos, Cléia admirava o netinho.
- Como ele é lindo! - emocionou-se Geórgia, alisando-lhe a cabeça e os dedinhos.
Olhe só, mãe, que gracinha o meu filho.
- Lindo mesmo.
Parece-se com você.
- Ah, mãe, não invente.
Ele ainda não se parece com ninguém.
- Você já pensou no nome que vai lhe dar? - indagou a enfermeira, encantada com o bebezinho.
- Régis. Meu rei.
- Ele parece mesmo um príncipe. Parabéns!
- Obrigada.
Naquela noite, Josué aguardava Geórgia e Cléia para uma conversa.
Quando elas adormeceram, retirou-as do físico e levou-as até a praia, onde poderiam conversar e aproveitar para reabastecer-se de energia.
- Lembra-se de mim? - indagou ele.
- É claro - afirmou Geórgia.
Esse é o Josué, mamãe.
Foi ele quem nos apresentou ao Régis.
- Isso mesmo - concordou Josué.
Até aqui, tudo correu bem, graças, principalmente, ao esforço de vocês duas.
- Como assim? - perguntou Cléia.
- Vocês são pessoas boas, cultivam bons pensamentos e não fortalecem os sentimentos daninhos.
- Não sei bem se isso é verdade - contrapôs Geórgia.
Passei por coisas que me trouxeram revolta, tristeza, raiva, indignação e sei lá mais o quê.
- Você seria uma santa se não sentisse nada disso, o que não é o caso.
Mas o importante não é não sentir, pois isso é impossível.
Todo mundo possui um corpo emocional, logo as emoções são parte inseparável do ser humano.
E ter apenas sentimentos nobres, que é o objectivo final das reencarnações, não é coisa que se alcance tão rapidamente.
É preciso aperfeiçoamento constante.
Os sentimentos perniciosos estão aí para serem sentidos e vivenciados.
Sem eles, não se aprende, não se cresce.
Mas tais sentimentos não devem ser fortalecidos.
Devemos reconhecê-los, aceitá-los e transformá-los.
Quando não os alimentamos, eles se enfraquecem e se modificam.
Se, ao contrário, os ficarmos remoendo, falando sobre eles, insistindo em relembrá-los, revivendo cenas e situações ruins, vamos lhes dando forças, até que eles nos dominem, transformando-nos em pessoas amargas, ranzinzas, irascíveis, desanimadas, depressivas.
- Nós não somos assim - afirmou Cléia.
Não somos mesmo.
Sempre ensinei Geórgia a cultivar bons sentimentos e orar quando coisas ruins acontecem.
É assim que vamos nos fortalecendo.
- E é assim que pretendo criar o meu filho - acrescentou Geórgia. - Com amor.
- É só do que ele precisa - concordou Josué.
Vocês sabem que os ataques do invisível serão muitos.
Estejam preparadas.
, - Não se preocupe, Josué.
Vamos nos manter sempre em oração.
- Enquanto Régis for pequeno, estaremos junto a vocês.
Mas, depois dos sete anos, isso será mais difícil, pois ele estará pronto para assumir sozinho sua própria identidade.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 11, 2015 10:34 am

Dessa idade em diante é que sua atenção será mais necessária.
Ele terá uma tendência natural para tudo que for inadequado.
- Estaremos atentas - falou Cléia.
- Sei que estarão, mas não poderão viver a vida dele.
Repressão também não adianta.
O que funciona é compreensão e amor.
- Não nos esqueceremos.
- E mais uma coisa.
Não permitam que a protecção energética ao redor de sua casa seja abalada.
O comportamento rebelde de Régis poderá abrir uma brecha para os espíritos das sombras, que tentarão, a todo custo, manter a influência sobre ele.
- Não se preocupe connosco - disse Geórgia.
Há muito estamos preparadas.
- Você foi muito corajosa em aceitar um filho que não faz parte da sua história.
- Não fazia. Ele agora iniciou uma história nova para mim.
Sei que seremos felizes e que ele aprenderá a nos amar.
- Tenho certeza.
Bem, está na hora de ir.
Cuidem-se bem e, sempre que precisarem, não hesitem em chamar por mim.
- Não hesitaremos. Adeus.
No dia seguinte, apenas Geórgia guardava uma leve impressão do sonho.
Lembrava-se de que estivera numa praia em companhia da mãe e de um desconhecido.
Não se recordava do que haviam conversado, mas teve uma sensação de confiança no futuro.
Cléia, por sua vez, nada retivera daquele encontro.
Nem sequer se lembrava de que havia sonhado.
Somente quando Geórgia teve alta do hospital foi que Damien viu o menino.
Tácio, principalmente, morria de curiosidade de conhecer seu filho, o que foi possível graças à momentânea e imperceptível abertura no véu energético que os circundava, empreendida por Josué.
Queria, com isso, provocar uma reacção positiva em Tácio.
Os dois se aproximaram com desconfiança.
Enquanto Tácio corria para espiar a criança, Damien olhava de um lado para outro, temendo dar de cara com Josué a qualquer momento.
Dada a enorme diferença vibracional entre os dois espíritos, Josué não era visível, ao passo que tudo podia ver de Damien e Tácio.
Somente quando ele retraía um pouco o seu padrão energético é que os espíritos mais ignorantes conseguiam vê-lo.
- O que será que aquele velhaco está aprontando? - perguntou-se Damien, sem perceber Josué junto a ele.
Tácio, contudo, não lhe deu atenção, embevecido com o bebezinho adormecido no colo de Geórgia.
Ela e Cléia entraram no táxi, mas os dois não as seguiram.
- Ele não é uma gracinha? - gabou-se Tácio.
Parece comigo.
- Deixe de ser besta!
Venha, vamos embora.
Já vimos o suficiente.
Como sempre fazia, Damien correu a dar as notícias a Atílio, ansioso pelas novidades.
- E então? - questionou, assim que o outro entrou.
- Como está indo Mizael?
- Soube que ele agora se chama Régis.
- Régis? - repetiu com ironia. - Nada mais apropriado14.
Mas o rei aqui sou eu.
Ele apenas me serve.
- Devemos chamá-lo de Régis a partir de hoje?
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 11, 2015 10:34 am

- Não. Régis foi o nome que a mãe escolheu e irá aproximá-lo dela, afastando-o de nós.
Quero que o chamem sempre de Mizael, para que ele não se esqueça de quem realmente é.
- Como o senhor quiser.
- E como anda a questão com Júlio?
Damien tremeu.
- Nós fizemos o possível, chefe... - balbuciou, aterrado.
Mas os espíritos lá de cima estão interferindo.
Fui informado de que Júlio não vai se casar com Geórgia.
O olhar de ódio que Atílio lançou a Damien foi como uma pedrada.
O espírito sentiu-se tonto, desnorteado.
Subitamente, uma dor lancinante trespassou seu corpo, como se chibatas invisíveis o açoitassem com brutalidade.
Cambaleou para um lado, entortando até o chão, e ouviu um grito agonizante, assustando-se ao perceber que fora ele mesmo quem gritara.
Deitado de bruços, sentia as vergastadas sobre suas costas, levando-o a encolher-se e a gemer, sem coragem de reagir.
Percebeu, então, a ponta tríplice do chicote de Atílio caindo sobre ele.
- Não aguento mais a sua incompetência! - rugiu Atílio, desferindo um golpe atrás do outro.
Devia acabar com você!
- Por favor, chefe, perdoe-me - choramingou Damien, cada vez mais aterrorizado.
Não foi culpa minha.
A ideia foi do Tácio, e daquele Josué...
- Cale essa boca! - vociferou, levando Damien ao auge do terror.
Ser inútil, imbecil!
As vergastadas continuaram por muito tempo, até que, exausto, Atílio deixou cair a chibata.
A seus pés, o corpo fluídico de Damien transformara-se em uma massa irreconhecível, quase disforme.
- Levante-se! - ordenou ele, voz tonitruante.
Não é hora de ser aniquilado ainda.
A um toque de Atílio, um vigor bruxuleante percorreu as células imateriais de Damien, que conseguiu reunir forças suficientes para manter unidos os átomos astrais de seu corpo.
- Saia daqui! - Atílio tornou a rugir.
Já falhou em uma missão.
Se acontecer novamente, não terei tanta piedade de você.
- Não irei falhar - afirmou Damien, trémulo de pavor.
- Saia, já disse.
Não aguento mais olhar para a sua cara nojenta.
Engolindo a raiva e o medo, Damien saiu todo trôpego.
O corpo não doía tanto, já que a dor nem era física.
A humilhação, contudo, jamais seria esquecida.

14 Régis (latim): real, do rei, conforme Dicionário de nomes de bebés, Edições PBQ.
Em outra vertente, tem origem germânica, significando "que aconselha o rei".
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 11, 2015 10:34 am

Capitulo 19

Desde a última noite na porta de casa, Geórgia não tivera mais notícias de Júlio.
Concluíra o curso, estava agora de licença, quase não saía.
Queria muito falar com ele, informar que o bebé havia nascido.
- Para quê, minha filha? - objectou Cléia.
Se ele não aceitava antes, não vai ter mudado agora, que é irreversível.
Melhor deixar Júlio para lá.
- Será que eu já não tenho nenhuma chance? - insistia ela.
Pode ser que, vendo essa coisinha linda, ele mude de ideia.
- Duvido muito.
Júlio não é bem aquilo que pensávamos que fosse.
Criamos uma imagem que não lhe pertencia realmente.
A você, resta agora aceitar e respeitar a escolha dele.
Ninguém pode obrigá-lo a ser pai, se ele não quiser.
E ele não quer.
- Tem razão - concordou ela, em lágrimas.
Preciso esquecê-lo.
O problema era exactamente esse.
Esquecer Júlio não seria tão fácil.
A notícia do nascimento do menino deixou Júlio abalado.
Tinha ainda esperanças de que ela o desse para adopção.
Com o passar dos dias, porém, começou a desanimar.
Como Geórgia não o procurava, era óbvio que não considerava a hipótese.
Aos poucos, Júlio foi deixando de pensar nela.
Lamentava o destino que tiveram, desejava que ela fosse feliz com o filho, mas longe dele.
Tinha Bianca para consolá-lo.
Poucos meses após o nascimento de Régis, Júlio surpreendeu-se ao ver Bianca na porta do banco.
Ele a olhou contrariado, com medo de que Anselmo o repreendesse.
Apressou o passo, puxou-a pelo braço e dobrou a esquina rapidamente.
- Já disse para não aparecer mais aqui.
Anselmo pode ficar aborrecido.
- Anselmo não manda em mim, e a rua é pública.
E você devia assumir que estamos juntos.
Ainda mais agora que teremos que nos casar.
Casar?! Que história é essa?
Ficou louca?
- Louca, não. Grávida.
- O quê?
- Isso mesmo.
Estou grávida de quatro semanas.
Anime-se, Júlio, nós vamos ter um filho!
E esse será todinho seu.
- Não é possível.
Como isso foi acontecer?
- Você não sabe?
- Você disse que estava tomando pílulas.
- As pílulas também falham - mentiu ela, que há tempos deixara de tomar anticoncepcional, na esperança de engravidar e forçá-lo ao casamento.
- Não posso me casar agora - tornou desnorteado.
Muito menos ter um filho.
Foi um banho gelado.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 11, 2015 10:35 am

Uma decepção indescritível.
Depois do incidente com Geórgia, Bianca tinha certeza de que Júlio ficaria feliz em saber que seria pai de verdade.
- O que está dizendo, Júlio? - indignou-se.
Que vai fazer comigo o que fez com Geórgia
Abandonar-me e ao meu filho?
Só que esse é seu, não de um estuprador.
É seu. Seu filho!
Ele a olhou com desgosto.
Não sabia o que soaria pior:
assumir que estava namorando uma ladra ou abandonar a namorada grávida.
As duas hipóteses lhe pareciam absurdas.
- Pensei que você me amasse - continuou Bianca, toda chorosa.
Que fosse ficar feliz com nosso filho.
- Não se trata disso - ele tentou contornar.
É que a notícia me pegou desprevenido.
Não sei o que fazer.
- Temos que nos casar.
Meus pais não vão aceitar a filha grávida e sem marido.
- Tem razão - concordou ele, temendo um escândalo da parte dela.
- Você tem que ir lá em casa falar com eles, explicar a situação.
- Eles já sabem?
- Ainda não.
Queria que você estivesse junto.
- Está certo, mas dê-me um tempo.
Não faça nada ainda.
Espere até o fim da semana, quando então lhes contaremos.
- Quer dizer então que você aceita? - exultou.
Vai mesmo se casar comigo?
- É uma solução.
Agora, vá para casa.
Você não deve ficar andando por aí nesse estado.
- Que estado?
Não estou doente, estou grávida.
E no comecinho ainda.
Veja, nem dá para notar a barriga.
- Certo, não dá.
Vamos, vou levá-la.
Ele a acompanhou até em casa, despedindo-se na portaria.
Por essa ele não esperava.
Nunca lhe passou pela cabeça que Bianca pudesse engravidar, mesmo porque confiava que ela estivesse tomando os cuidados necessários.
Ela dissera que a pílula falhara.
Seria verdade?
Verdade ou não, era um facto, estava acontecendo.
Sua maior preocupação era Anselmo.
Com aquela mania de falso moralista, iria recriminá-lo, chamando-o de irresponsável.
Poderia até colocá-lo de lado, ignorando seu nome para futuras promoções.
E se Bianca fizesse algum escândalo na porta do banco, aí sim, poderia dizer adeus à sua carreira.
Pior: ao seu emprego.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 11, 2015 10:35 am

De repente, Geórgia já não parecia mais um segredo que devesse ocultar.
Bianca é que o preocupava agora.
Ele precisava cuidar de Anselmo antes de tomar uma decisão a respeito.
No dia seguinte, chegou acabrunhado à agência e foi procurá-lo.
Como ele ainda não havia chegado, sentou-se para esperar.
Anselmo chegou pouco depois, espantando-se com a presença de Júlio.
- Aconteceu alguma coisa? - perguntou preocupado.
- Aconteceu. Na verdade, preciso de um conselho.
- Do que se trata?
É algo relacionado ao trabalho?
- Não. Diz respeito à minha vida pessoal.
Era do que Anselmo mais gostava.
Conhecer a intimidade de cada um.
Dava-lhe um prazer mórbido estar por dentro dos problemas pessoais dos empregados, principalmente das questões conjugais e amorosas.
- Muito bem. Se eu puder ajudar...
O que foi que houve?
- É o seguinte. Sabe a Bianca?
- O que tem ela?
- Bem, você sabe como ela é gostosa, não sabe?
- E daí?
- Diria mesmo que é irresistível.
E tem um charme...
- Está querendo me dizer que transou com ela? - ele gargalhou.
Se é isso, fez muito bem.
Bianca é o tipo de mulher que só serve para a cama.
Desde que você não pense em se casar com ela, está tudo bem.
Júlio empalideceu.
Não contava que Anselmo se adiantaria e emitiria um julgamento tão rápido.
- Aí é que está - prosseguiu ele, sentindo uma vergonha fenomenal.
Bianca engravidou.
- Engravidou? - espantou-se, chegando a cadeira para a frente.
E é seu?
- Ela diz que é.
- Meu amigo, isso é um golpe.
Bianca sai com todo mundo.
O filho pode ser de qualquer um.
- Duvido muito.
Faz tempo que ela só transa comigo.
- Como é que você sabe?
Ela pode estar enganando você e agora quer fazê-lo de trouxa, para assumir o filho de outro.
Não caia nessa.
- Não acredito que Bianca esteja saindo com outro.
Sou homem, conheço essas coisas.
Ela está caidinha por mim, fica em casa me esperando.
Sempre que a procuro, ela está à minha disposição.
- Essa não, Júlio. Não acredito!
Como é que você, um rapaz inteligente, foi cair nessa?
- Ela dizia que tomava pílulas.
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Re: Virando o jogo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 11, 2015 10:35 am

- E você acreditou.
Ora, ora, quanta ingenuidade!
Foi terminar com Geórgia para cair na lábia de Bianca.
Onde já se viu?
- Na verdade, Anselmo, acabei me envolvendo com Bianca justamente porque estava passando por um momento difícil com Geórgia.
Bianca me deu apoio, aproveitou-se de minha fragilidade para me seduzir.
- O que houve entre você e Geórgia realmente?
Você nunca chegou a me contar.
Não era hora de mentir, mas de buscar apoio.
Confessar a Anselmo seus problemas devia conferir-lhe algum crédito, pois o gerente se sentia importante e valorizado quando alguém lhe fazia confidências.
- O que vou lhe contar agora é muito pessoal - disse ele à meia voz, levando Anselmo a aproximar ainda mais a cadeira.
- Gostaria de poder contar com a sua discrição e, mais ainda, com a sua compreensão.
- Mas é claro, meu amigo!
O que foi que houve?
- Lembra-se de quando Geórgia foi assaltada?
- Lembro.
- Bem, a verdade é que não foi um assalto.
Foi um estupro.
Ele ergueu as sobrancelhas, impressionado, enquanto Júlio prosseguia:
- E quem a estuprou foi o Tácio.
- O quê?!
O Tácio, que trabalhou aqui?
- Esse mesmo. Mas isso não é o pior.
Desse estupro resultou uma gravidez.
- Não me diga!
- Espero que você não me julgue um fraco, Anselmo, mas, por amor a Geórgia, acobertei o estupro.
- Fez bem. Eu teria feito o mesmo.
Sem contar a vergonha.
Estimulado pela surpreendente atitude compreensiva de Anselmo, Júlio continuou:
- Só não pude aceitar a gravidez.
Descobri que o estupro dá direito ao aborto e insisti para que Geórgia o fizesse.
Diante de sua recusa, sugeri a adopção, que ela também rejeitou.
Em vista disso, não tive escolha senão romper o noivado.
Pode parecer cruel, mas não dava para criar o filho de outro homem, ainda mais nessas circunstâncias.
- Por que não me contou isso antes, meu rapaz? - retrucou Anselmo, aparentemente penalizado.
Eu teria lhe dado apoio e você não precisaria buscar consolo na cama de uma rameira.
- Tive medo da sua reacção, de que você não me considerasse digno do cargo que me confiou.
- Uma coisa não tem nada a ver com a outra.
Sua vida pessoal não interessa ao banco, desde que não interfira no trabalho.
- Você não teria me colocado na geladeira?
- Por causa disso, não.
Não é problema meu.
Anselmo não dizia a verdade.
Só por causa do estupro, nada faria.
Mas, se Júlio aceitasse aquela gravidez espúria, teria uma decepção tão grande que jamais tornaria a indicá-lo para qualquer outra promoção.
- Não pensei que você fosse compreender - prosseguiu Júlio.
- Pois me julgou muito mal.
Sou seu amigo, acima de tudo.
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