Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 19, 2015 8:41 pm

— Aonde vai? — indagou Gláucia, contrafeita.
A conversa está tão agradável.
— Preciso partir. Tenho uma reunião logo mais.
Fique mais um pouco, aproveite o ar puro e fresco deste bosque.
Judite está quase chegando.
Aproveite alguns minutos para reflectir sobre a sua última vida.
Quem sabe, logo, logo, factos de um passado distante não vão surgir à mente?
Fique atenta.
Ele apanhou a mão de Gláucia e beijou-a, num gesto de cavalheirismo à moda antiga.
Em seguida, apanhou uma rosa e lhe deu.
— Fique com isso.
Quando ele se afastou por completo, ela esboçou um sorriso, aspirou o perfume da rosa e emocionou-se.

9 Para entender melhor o entendimento do perdão a que Miriam se refere, ler O Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo X, "Bem-aventurados os misericordiosos", em especial os itens 5 e 6.
Utilizamos a tradução, enriquecida de notas explicativas, feita pelo professor José Herculano Pires (1914-1979), publicada pela Lake – Livraria Allan Kardec Editora.
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Ave sem Ninho

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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 19, 2015 8:42 pm

Capítulo Dezassete

Sarajane desceu do carro último tipo.
Estava moída.
Saíra com um engenheiro da empresa concorrente a fim de arrancar informações úteis a Lucas.
Depois de passar três horas no motel, ela conseguiu alguma informação.
Que homem sujo, Deus me livre!
Preciso de um banho, urgente.
Ela falou e fechou o portão com o controle.
Ouviu um barulho estranho e o cachorro da vizinha veio em disparada, passando por entre as pernas dela.
Sarajane tomou um susto e se recompôs rapidamente.
— Cãozinho xereta.
O que será que estava fazendo no meu quintal?
Imediatamente ela correu até os fundos e notou que uma parte da terra estava remexida.
Chegou mais perto e viu que parte da mão de Eneida estava à vista.
Faltava um dedo.
— Cãozinho sapeca!
Será que ele apanhou o dedo da coitadinha?
E agora, como saber?
Ela caminhou até o portão, procurando olhar para cada canto.
Nada. Não encontrou o dedo.
Sarajane deu de ombros, foi até debaixo do tanque e apanhou um saco de terra.
Abriu-o e despejou tudo sobre o jardim, cobrindo a mão de Eneida.
— Será que vai demorar muito para ficar só no osso?
Pensei que a decomposição ocorresse de forma mais rápida.
— Sarajane? Sarajane, é você?
- Sim, titio. Está acordado a essa hora?
— Estou com sede.
Ela foi até o tanque, apanhou um copo sujo e colocou sob a torneira.
Depois levou até o quartinho.
— Aqui está.
Coriolano olhou para o copo com desconfiança.
— Posso beber? — perguntou, enquanto apagava o cigarro.
— Por que pergunta, tio?
Claro que pode.
— Não colocou nada na bebida?
— Não. Claro que não.
— É que da outra vez...
Sarajane o cortou com doçura na voz:
— Tio, como implica comigo, não?
Ainda acredita que eu coloquei algo em sua bebida no outro dia?
Imagine. Eu nunca faria uma coisa dessas. Nunca.
— Bom...
- Vamos, pode beber.
Coriolano levou o copo até a boca e tomou um gole.
Percebendo que se tratava de água mesmo, sorveu o líquido com vontade.
- Estou com muita sede.
Pode me trazer mais um pouco?
— Claro.
Ela apanhou o copo e foi até o tanque.
Encheu um balde e o trouxe junto.
— Vou deixar esse balde para poder encher o copo à vontade.
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 19, 2015 8:42 pm

— Quanta gentileza! Obrigado.
— De nada, titio.
Por acaso percebeu o cachorro da dona Justina fuçando aqui no nosso quintal?
— Sim. Ele rosnava e latia bastante.
Fez bastante barulho.
Será que remexeu no nosso lixo?
— Pode ser.
Ela saiu e Coriolano perguntou:
— Será que pode me esquentar alguma coisa?
Estou morrendo de fome.
— A essa hora? Fome?
— É tarde e não jantei ainda.
— Esqueci de lhe dar o jantar.
Deixe que vou esquentar alguma sobra de comida.
Ela saiu, foi até a cozinha e abriu a geladeira.
Havia uma tigela de arroz.
Ela apanhou a tigela e cheirou.
Fez uma careta pavorosa.
Em seguida jogou sobre uma panela suja, levou ao fogão e esquentou de qualquer jeito.
Levou o prato para o tio e ordenou:
— Coma tudinho, hein?
Vou tomar um banho e depois volto para também lhe dar um bom banho.
— Hoje não. É tarde.
— Está bem — e se retirou.
Coriolano coçou a cabeça.
— O que será que se passa com essa menina?
Ela está me tratando tão bem!
O que a preocupa tanto?
De facto, ela estava preocupada.
Tinha certeza de que o cachorro bisbilhoteiro havia arrancado o dedo de Eneida.
Sarajane subiu a escada, apanhou uma toalha limpa e entrou no banheiro.
— Preciso ver isso com o Lucas.
Esse corpo precisa sumir.
Logo o cheiro pode ficar mais forte e a futriqueira da dona Justina poderá desconfiar.
Mas depois penso nisso.
Preciso dar um banho nesse pedaço de carne arrebatador — disse, enquanto passava as mãos pelo corpo de maneira sensual.
Durante o banho veio a ideia.
Antes de dormir, Sarajane enviou uma mensagem de texto para o celular de Lucas.
No dia seguinte, às oito da manhã, um caminhão-betoneira da construtora encostou na rua e, em menos de uma hora, concretaram o quintal.
— Não pode pisar durante um dia inteiro, senhorita.
- E depois?
— Com essa mistura que o doutor Lucas mandou fazer, só um terramoto para arrebentar esse chão — respondeu o funcionário, crente de que fizera um óptimo trabalho.
Sarajane sorriu.
Deu-lhes uma boa gorjeta, e os rapazes foram embora felizes da vida, sem desconfiarem de nada.
A moça deu tchauzinho para eles e fechou o portão.
Coriolano gritou do quartinho:
— Preciso de banho.
— Hoje não, titio.
O quintal foi cimentado e não podemos pisar nele ou deixar cair água.
Vê se passa o dia jogando sabão para Santa Clara.
Dizem que, se você joga sabão para esta santa, ela faz a chuva parar na hora.
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 19, 2015 8:42 pm

— E o meu café?
— Esqueci.
Sarajane foi até a cozinha, abriu o forno, apanhou o pacote de pão de forma.
Arrancou duas fatias completamente mofadas.
Limpou as bordas, passou margarina e encheu um copo de leite.
Levou para Coriolano e sorriu.
- A gostosinha aqui vai trabalhar.
— Estou sentindo muita fome.
Deixe um pouco mais de pão.
— Não. Olha a dieta!
Não pode ingerir tanto carbohidrato.
Quando eu voltar, se estiver bem, trago comida da rua, pode ser?
— Verdade?
- Conta comigo, tio.
Sarajane saiu apressada.
Apanhou o carro e foi costurando o trânsito e assustando os pedestres.
Adorava irritar as pessoas.
Era divertido para ela viver dessa forma.
Como fora filha de uma mãe viciada, sem nunca saber quem fora o pai,
Sarajane cresceu num ambiente pobre e insalubre.
As drogas fizeram a mãe perder o emprego, os móveis, a casa, tudo.
As duas foram viver na casa do tio por um tempo, depois aconteceu o acidente de carro que matou a mãe e deixou Coriolano com graves sequelas.
Sarajane, depois do acidente, ficou meio abestalhada.
Mesmo assim voltou a estudar, repetiu muitos anos e por fim concluiu o curso de secretariado.
Era uma menina estranha, esquisita mesmo, mas fascinava os homens.
Tinha o dom de deixá-los doidos com suas artimanhas e peripécias sexuais.
Chegou ao escritório no instante em que Lucas tentava lhe mandar uma mensagem de texto.
Ela subiu de elevador e, quando chegou ao andar, empurrou uma moça que queria entrar.
Sarajane gargalhou com o tombo da moça e correu até a sala dele.
- E então?
— Deu tudo certo, Lucas.
Os rapazes fizeram uma camada assim grossa — fez um gesto — e cobriram todo o quintal.
Agora ninguém arranca a pobrezinha de lá. Nunca mais.
Daqui a trezentos anos, quando algum arqueólogo for escavar o quintal, vai se maravilhar com a descoberta de uma ossada.
— Será que ninguém vai mesmo desconfiar?
— Não. Fique sossegado.
Está tudo sob controlo.
— O velho continua saindo com a periguete.
Tem como arrumar um jeito de aprontarmos alguma armadilha para essa Lívia cair feito um peixe na rede a fim de afastá-la de meu pai?
— Acho difícil, Lucas.
— Podemos criar fotos comprometedoras.
Os programas de computador hoje fazem milagres!
— Não creio.
Seu pai está muito apaixonado.
— Levantou a ficha dela?
Sarajane fez que sim:
— Puxei tudo. Ela é mais limpa que água sanitária.
Não tem nada que possamos fazer.
A família é correctíssima.
— Não pode ser! Temos de armar alguma coisa.
Que tal disparar um e-mail com fotos comprometedoras dela?
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 19, 2015 8:42 pm

Imagine fotos íntimas rodando o mundo?
- Isso acontece de minuto em minuto.
As pessoas não ligam mais — considerou Sarajane.
Essas armações a que você se refere são do tempo do onça, coisa antiga.
Esses clichés não funcionam mais nos dias de hoje.
- Eu preciso afastar essa biscate da vida do meu pai.
- Isso é fácil, né, Lucas?
- Não sei o que fazer.
— - Matar.
— O que disse, Sarajane? Não entendi.
Ela passou a língua sobre os lábios carnudos e vermelhos.
— Eu disse que a única solução é matar essa mulher.
Simples, fácil, sem contra-indicações.
— Matar?
— Nada de planos mirabolantes, de ideias grandiosas, de armações descabidas.
Para que perder tempo em arquitectar um plano se pode matar a periguete?
- É?
- É. Acompanhe o meu raciocínio.
— Estou pronto. Diga.
— Você contrata um matador profissional e manda encher ela de bala.
Não tem um monte de procurador, juiz e advogado que é morto assim neste país?
Pois faça o mesmo.
Aí, sim, você pode plantar provas falsas, induzir a polícia a acreditar que essa mulher tinha ligações com o tráfico de drogas, coisas assim.
Lucas viu o sol se abrir à sua frente.
— Você é incrível, Sarajane.
Tem ideias fantásticas!
— Eu sei — gabou-se.
E então, posso pesquisar preço para resolvermos logo essa questão?
— Fique à vontade.
Mas, cuidado — ele abaixou o tom de voz —, não use os telefones da empresa, tampouco o seu particular.
Compre um celular pré-pago para fazer as ligações pertinentes ao assunto em questão.
Use dinheiro e identidade falsa.
Eu posso lhe conseguir uma, se quiser.
Sarajane lembrou-se da identidade de Eneida.
— Não vai ser necessário.
Eu tenho uma aqui comigo.
— Brilhante! Fantástico!
Lucas estava radiante.
— Deixe comigo, chefinho — ela abriu a bolsa e tirou um papel.
— O que é isso?
— Ontem saí com o engenheiro da concorrente.
Aqui está o que me pediu.
- Sua eficiência me alegra o coração — Lucas abriu a gaveta da escrivaninha, pegou um talão.
Preencheu um cheque rapidamente e entregou-o a ela.
Tome, por mais esse serviço.
Sarajane nem abriu o cheque, apenas o apanhou e colocou na bolsa.
— Obrigada, chefinho.
— Não há de quê.
— Agora, deixe-me ir para a minha sala.
Tenho muita coisa para fazer.
Bem que podia ter um catálogo on-line de matadores, não?
Facilitaria minha busca.
Os dois gargalharam e não perceberam as sombras escuras que dançavam em volta deles e se alimentavam de seus pensamentos sórdidos.
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 20, 2015 8:11 pm

Capítulo Dezoito

O casamento de Débora e Régis ocorreu num dia claro de domingo.
Armando alugou uma chácara destinada a eventos a poucos quilómetros da capital e Iara contratou uma empresa de paisagismo para compor um lindo cenário.
Tudo simples, mas extremamente elegante.
Havia trinta convidados.
Seis mesas para cinco pessoas cada e uma maior, para os noivos e respectivos pais, compunham a festa.
Régis convidou um amigo juiz para celebrar a união.
Débora estava linda.
Usava um vestido branco de corte recto, confeccionado em puro algodão, próprio para dias quentes.
O cabelo estava preso num elegante coque.
Nada de véu. Segurava um buquê redondo de rosas amarelas.
Régis vestia um conjunto desportivo em tons claros.
Depois de assinarem os papéis, os noivos receberam calorosos abraços dos convidados.
Todos sentaram-se às mesas e o bufé contratado começou a servir deliciosas iguarias.
Tudo correu de maneira agradável e, logo que foi servido o almoço, Débora e Régis pegaram o carro e partiram para o aeroporto de Viracopos, ali perto.
Pegariam um avião para Salvador e voltariam depois de dez dias.
Armando finalmente cedeu.
Abraçou a filha, emocionado.
— Desculpe tanta implicância.
Agora, vendo esse rostinho feliz, sei que você ama seu marido.
— É bom entender que a diferença de idade não impede que o amor aconteça.
Ainda estamos muito presos a conceitos antigos e arraigados.
Amo Régis e fico feliz que agora tenha percebido isso.
— Percebo sim.
Fui um tolo e...
Débora pousou delicadamente o dedo nos lábios do pai.
- Nada de tristeza ou de cobranças.
Tudo passou e mudamos para melhor.
De que adianta remexer sentimentos que não nos fazem bem?
— Você é incrível, minha filha.
— Lembra-se de quando li Poliana e passamos a fazer o "jogo do contente"?
- Como poderia esquecer?
Você adorava brincar com todo mundo.
Sempre falou palavras bonitas, arrancou a tristeza de muita gente e alegrou centenas de corações.
— Então, vamos brincar.
Hoje é dia de alegria e nossas vidas mudaram.
Eu sou uma mulher casada e feliz.
Você tem uma esposa amorosa e precisa dedicar-se a esse casamento.
Por que não viaja com mamãe?
— Agora não posso.
A minha gerente e o meu sócio vão viajar.
Não posso largar o escritório.
Débora sorriu, alegre.
— Quando voltarmos de viagem eu tomo as rédeas do escritório e você vai viajar com mamãe. Promete?
— Prometo.
Abraçaram-se e beijaram-se.
Débora despediu-se do pai e foi ter com a mãe.
Armando enxugou os olhos com as costas da mão.
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 20, 2015 8:11 pm

Estava muito emocionado.
Aproximou-se de Régis e, ao cumprimentá-lo, não conteve o pranto.
— Obrigado por tudo — disse Régis, também emocionado.
Meu grande amigo transformou-se em meu sogro!
Ambos riram. Armando pediu:
— Cuide bem da minha menina.
— Fique tranquilo, meu amigo.
Eu amo a sua filha mais que tudo neste mundo.
Prometi amá-la e respeitá-la, viver ao lado dela na saúde e na doença.
Até que a morte nos separe.
— Fui duro e implicante.
Somos amigos desde sempre.
Você foi meu padrinho de casamento.
Sempre imaginei Débora ao lado de um rapaz jovem como ela.
— Eu sou jovem! — protestou Régis.
Os cabelos ficaram brancos, a pele perdeu um pouco do viço, mas a minha cabeça, o meu coração e o meu vigor ainda permanecem jovens.
Débora fez renascer em mim o rapaz que há tempos eu abandonara.
— Entendo. Iara tem feito o mesmo por mim, por nós.
A nossa relação melhorou sobremaneira.
Vivemos como namorados.
— Isso é o que vale: o amor, mais nada.
Quando deixarmos este mundo, meu amigo, levaremos as alegrias e as tristezas.
— Desejo levar mais alegrias do que tristezas.
— Pois então faça o seguinte: não tenha vergonha de ser feliz.
Abraçaram-se mais uma vez e Débora chamou:
- Amor, estamos atrasados. Vamos.
Régis acenou para Armando, entrou no carro, deu partida e algumas horas depois ele e Débora estavam no voo que os levaria para uma agradável lua-de-mel.
Foi mais no fim da festa, depois que a filha e o genro partiram, que Iara pôde dar uma atenção maior à sua amiga Jussara.
Elas se falavam ao telefone, mas não se viam fazia um bocado de tempo.
— Estou tão feliz por esse casamento! — exclamou Jussara.
— Eu também.
— Casamento com amor é outra coisa.
— A minha garotinha se casou.
Pode uma coisa dessas, Jussara?
— O tempo corre célere, amiga.
Eu vi Débora nascer, peguei essa menina no colo e agora ela está casada.
Aliás, muito bem casada, diga-se de passagem.
- Quem diria que ela iria se casar com o melhor amigo do pai dela?
Como a vida é mágica, interessante.
Régis nunca se envolveu a sério com mulher que fosse.
Houve uma época em que eu, por ter uma mentalidade estreita, achava que ele fosse gay.
— Eu também — Jussara riu, humorada.
Dei em cima dele e nada.
E olha que, naquela época, eu era uma moça bem bonita.
— E ele estava se guardando, sem ter consciência, para a minha menina. Quem diria!
— Quando há amor de verdade, a diferença de idade desaparece por completo.
Jussara fitou um ponto indefinido.
Voltou ao passado. Iara a cutucou, chamando-a para a realidade:
— Ei, viajou para onde?
Jussara balançou a cabeça.
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 20, 2015 8:11 pm

- Estava me lembrando daquela história minha com o Novaes.
- Desenterrando um assunto desses, Jussara?
Faz tanto tempo que essa história acabou.
— É que eu tinha a mesma idade de Débora quando me apaixonei.
E, se me lembro bem, Novaes devia ter a idade de Régis.
Iara pousou sua mão sobre a da amiga:
— Você viveu o que tinha de viver.
Vamos deixar o passado em seu devido lugar, lá atrás.
— Tem razão.
- E você, minha querida, me conte tudo.
Jussara olhou para os lados, baixou o tom de voz e falou:
- Decidi fechar e vender a pizzaria.
— Por quê?
Você se esforçou tanto para o negócio dar certo, Jussara.
— Sei disso.
— Investiu tanto dinheiro...
- Sim. Usei tudo o que minha mãe deixara na poupança.
Aí é que está o problema.
Eu investi muito dinheiro e não vi nada de retorno.
Para piorar a situação — os olhos de Jussara estavam marejados —, Cirilo pegou todo o dinheiro das aplicações e até da poupança.
Sacou todo o dinheiro, não deixou nem um centavo!
— Mas não era você quem assinava os cheques e fazia os pagamentos?
- Era.
— Você cuidava das contas.
Sempre foi organizada, metódica.
Controlava as contas com mão de ferro.
— Cirilo sabia a senha, Iara.
— Você sempre me disse que mudava a senha com regularidade!
- É. Entretanto, eu anotava a senha num caderninho.
Também, é tanta senha: para o banco, para o computador, para o cartão de crédito — justificou Jussara.
Eu tinha mania de anotar tudo.
— Cirilo achou o caderno.
- Achou e levou.
Pegou-me desprevenida.
Sabia que ele até adulterou um cheque e rapou o dinheiro de outra conta?
Estou sem um tostão.
— Santo Deus, Jussara!
— Estou quebrada, Iara. Literalmente quebrada.
O que farei da minha vida?
Estou com cinquenta anos de idade.
Sinto-me desesperada...
Jussara falou e abraçou-se a Iara.
As lágrimas corriam insopitáveis.
— Chi! Não fique assim.
Tudo se resolve.
— Será? Estou me sentindo tão frágil.
— É natural, você está abalada emocionalmente.
— Bem que você havia me alertado.
Não segui meu instinto e me liguei a um homem horrível.
— Agora já passou, Jussara.
— Se pudesse voltar no tempo, eu jamais teria me envolvido com Cirilo, ou com Novaes, ou com qualquer outro homem!
- Mas se envolveu.
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 20, 2015 8:12 pm

E aprendeu uma grande lição: você é sua melhor amiga.
— Não sou. Fui burra.
- Claro que não!
Deixou-se levar pela insegurança, acreditou que estava ficando velha.
- E não estou?
O tempo está passando, amiga.
— O corpo envelhece naturalmente.
Não podemos brigar com o tempo.
— Estou arrasada.
Não quero mais viver.
— Vai viver, sim, e muito — Iara procurava tranquilizá-la.
Vamos conversar com Armando.
Ele é contador e vai poder apurar direitinho os movimentos contáveis, ver se dá para você fazer algum dinheiro com a venda de móveis e utensílios, por exemplo.
Fique calma.
Não pense em nada agora.
- Enquanto o Cirilo estava arrumando as malas, peguei o celular dele.
Fui directo nas ligações e encontrei numa sequência o telefone daquelas "amigas".
— De novo, isso, Jussara?
- Não aguentei.
Liguei para uma delas.
- E?
— Uma mulher atendeu, toda dengosa.
— O que você fez?
— Fiquei muda, sem saber o que fazer.
Desliguei o telefone e o atirei contra a parede.
Depois o Cirilo quis tirar satisfações.
Eu me fiz de boba e disse que nem sabia onde estava o celular.
- Você passou por muita decepção num dia. só.
- E sabe o que o desgraçado falou para mim, Iara?
— O quê?
- Que nunca mais queria ver a minha cara.
Falou assim, com desdém, como se eu fosse um ser repugnante.
Depois, apanhou uma mala, uma sacola, subiu na moto e sumiu. Para sempre.
— Não pense nisso agora, Jussara.
Tivemos um dia de festa, não entre nessa sintonia.
Deixe Cirilo seguir a vida dele.
Procure manter seu coração limpo de ressentimentos.
— Não quero mais amar ninguém nesta vida.
Iara a abraçou com ternura e emendou:
- Será que você amou de verdade, alguma vez?
Jussara não respondeu.
Armando aproximou-se e Iara contou-lhe por alto o que havia acontecido.
— Que maçada!
— Estou sem dinheiro para pagar os meninos da entrega, estou sem um tostão.
— Fique sossegada, por agora — tornou Armando, voz amável.
Vamos dormir aqui na chácara e você volta connosco amanhã.
— Não quero atrapalhar.
- Não vai atrapalhar nada — disse Iara.
Vamos terminar de nos despedir dos convidados e descansar.
Depois, vamos sentar na varanda e relembrar os velhos tempos.
O que me diz?
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 20, 2015 8:12 pm

Armando insistiu:
- Fique e esqueça seus problemas.
Ao menos poderá ter uma noite tranquila de sono.
— Vou tentar.
- Óptimo — comemorou Iara.
— Obrigada — disse Jussara, emocionada.
Vocês são meus melhores amigos.
Justina despertou sentindo enjoo, mais uma vez.
Levantou-se, a cabeça girava, o corpo doía.
- Mas você não comeu nada de mais ontem — retrucou Eriberto.
Tomamos chá com torradas.
O de sempre. O que aconteceu?
— Não sei. Tive pesadelos horríveis.
Estou com dor de cabeça.
— Também sinto um pouco de dor de cabeça, Justina.
Meu sono anda agitado.
Parece que há gente no quarto.
— Tenho a mesma sensação, querido.
— Estranho...
— Farei um pedido especial para nossa filha hoje.
Quem sabe Miriam vem e faz uma limpeza energética do ambiente?
— Não gosto de mexer com os mortos.
— Nossa filha não morreu! — protestou Justina.
Miriam continua viva.
— Será?
— A vidente não disse na televisão?
— Disse o quê, Justina?
— Que os mortos continuam vivos em algum lugar?
— Mas você é católica.
- E daí?
— Como pode dar trela para uma vidente?
— Porque faz mais sentido pensar que morremos e continuamos vivos numa outra dimensão.
Dá uma sensação boa.
E sei que os mortos vivem para nos agradar.
A vidente ensinou a fazer uma simpatia para manter uma alma presa em casa.
— Será que funciona?
— Tem que ser feito durante sete dias seguidos.
É só acender uma vela, escrever o nome da pessoa e a data em que ela morreu, colocar num prato com água benta e pedir para o reino dos mortos permitir que esse ente querido permaneça em contacto directo connosco.
Eriberto sentiu um calafrio percorrer-lhe o corpo.
— Deus me livre e guarde, Justina!
Não somos dados a esse tipo de influência.
— Não custa nada tentar.
Só precisamos ir à igreja apanhar um pouco de água benta.
— Não acha melhor a gente ir até um centro espírita?
Pelo menos teremos informações mais claras.
Os espíritas entendem de morte, de espírito, alma penada...
Justina o cortou com secura.
— Nada de centro espírita.
Acha que eu vou me enfiar num lugar desses?
Eu tenho classe. Sou inteligente.
— Está se deixando levar pelas crendices de uma vidente que atende por telefone e resolve todos os nossos problemas. Nada confiável.
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 20, 2015 8:12 pm

— Confiável ou não, ela prometeu que esse ritual funciona mesmo.
De verdade!
Justina estava redondamente enganada.
Sabemos que nunca é bom seguir simpatias ou rituais que envolvam os desencarnados.
Um encontro saudável com desencarnados só pode ocorrer de duas formas: por sonho, quando nosso espírito se liberta do físico e reencontra entes queridos que se foram, ou dentro de um centro espírita, cujo recinto está devidamente preparado para esse intento, por meio da incorporação ou cartas psicografadas.
Infelizmente, o nosso planeta está infestado de espíritos perdidos, desequilibrados, que nem ao menos têm consciência de que não fazem mais parte deste mundo, por agora, e precisam de orientação e auxílio.
Muitos, ainda presos aos hábitos do mundo, afeiçoam-se por encarnados a fim de conseguir suprir as necessidades físicas que tinham no mundo, seja para ter novamente o prazer de aspirar a fumaça de um cigarro, comer alguma comida de que gostava ou beber.
Quem está ligado no bem, firme em seus propósitos, jamais vai ter essas companhias ao lado, visto que elas se aproximam de mentes invigilantes, de pessoas dependentes das tentações do mundo.
As tentações acabam por representar velhos problemas não solucionados que carregamos ao longo desta vida ou de outras.
Não importa a origem. Importa que precisamos aprender a resistir a eles, porque é assim que eles perderão a força e acabarão por completo.
Lutar e reagir nos torna mais fortes e, por conseguinte, aptos a vencer.
Justina e Eriberto não percebiam estar rodeados de espíritos em total desequilíbrio.
A mania que Justina tinha de "chamar" o espírito da filha para as refeições ou mesmo para solucionar os seus problemas do dia a dia acabava por atrair hordas de espíritos cujo objectivo era instalar-se na casa dela e absorver suas energias vitais.
Por isso ela estava se sentindo cansada e enjoada.
Era por isso também que tinha pesadelos constantes.
O seu corpo físico estava começando a somatizar toda aquela energia negativa.
De duas uma: ou Justina mudava seu jeito de entender os assuntos espirituais, abrindo a mente para reavaliar crenças e mudar posturas, ou então, muito em breve, ficaria doente.
- Nós vamos rezar, Justina.
— Não. Vamos terminar esse ritual.
Pegue a chave do carro e vamos até a igreja.
— Aproveitamos e rezamos.
- Negativo, querido.
Vamos apanhar um pouco de água benta e voltar.
Preciso da ajuda da minha filha.
Eriberto baixou a cabeça, consternado.
Não estava gostando das ideias disparatadas da esposa.
Justina andava nervosa, não falava coisa com coisa, levantava da cama no meio da madrugada, gritando com o vazio e suando em bicas.
Então, ele fechou os olhos e fez uma prece em favor da esposa, à sua maneira.
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 20, 2015 8:12 pm

Capítulo dezanove

No dia seguinte, Armando sentou-se com Jussara e, depois de checar os extractos dos bancos e todas as contas da pizzaria, decretou:
— Sinto informá-la.
— A situação é grave, Armando?
— Sim. Cirilo deixou os saldos do banco no vermelho.
Não sobrou uma aplicação, uma conta de poupança, nada.
- E?
— Você está quebrada, minha amiga.
Jussara deixou que as lágrimas dessem livre curso.
- Tantos anos me dedicando a esse negócio e o perdi assim, da noite para o dia.
— Você tem duas motos e o salão, que é próprio.
— Mas só sobrou isso!
Eu moro em cima deste disque--pizza.
Se vender o salão, para onde vou?
Para a rua?
- Não se preocupe — tornou Iara.
Vamos ajudá-la.
— Não posso viver na casa de vocês.
— Não é isso.
Eu e Armando conversamos — ela piscou para o marido — e decidimos que vamos apoiá-la no que for preciso e no que estiver ao nosso alcance.
- Já me ajudam.
Só de estarem aqui, ao meu lado, não tenho como agradecer.
Não me sinto só.
— Não é só isso — interveio Armando.
Você precisa de um lugar para morar, para recomeçar a vida.
— Nós temos o apartamento em Santos — Iara apressou-se em dizer.
Usamos poucas vezes.
Poderá ficar lá o tempo que quiser.
— Não é justo.
- Não tem escolha, Jussara — disse Armando, voz firme.
Agora é momento de manter a cabeça fria, recolher os cacos e recomeçar.
— Como se fosse fácil.
- A situação está aí.
Precisa aceitá-la, resignar-se e fazer o que tem de ser feito.
— Não sou mulher de me resignar.
- Não confunda resignação com passividade - emendou Iara.
A resignação é aceitar o que não se pode mudar.
Há situações na vida em que não temos o que fazer.
É o caso de uma doença em família, por exemplo.
De que adianta não aceitar a situação?
Fugir do problema não o resolve.
Precisamos enfrentá-lo e, assim, nos tornamos mais firmes.
— E a passividade — completou Armando — é ficar parado e não fazer nada.
Você ao menos está fazendo alguma coisa para tentar sair dessa situação.
— Qual é o primeiro passo? — indagou Jussara, insegura.
— Vender o salão o mais rápido possível.
Depois vamos pagar os funcionários, saldar as dívidas bancárias, pagar os impostos atrasados.
Com tudo acertado e pago, poderei me incumbir de fechar sua empresa.
Isso leva alguns anos, mas meu escritório vai fazer isso para você sem custo.
Vou acompanhar pessoalmente o encerramento da sua firma.
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 20, 2015 8:12 pm

— Não sei como agradecê-los.
— Nem precisa — disse Iara.
Vamos para casa, comemos alguma coisa, amanhã você volta e faz a sua mudança.
- Tem certeza de que não vão usar o apartamento da praia?
Iara riu, humorada.
— Tenho. Usávamos o apartamento quando as meninas eram pequenas.
Depois as idas começaram a se espaçar e hoje acho óptimo que você vá morar ali.
Promete que vai cuidar direitinho dele?
— Prometo.
— E depois poderá pensar em começar de novo.
— Com essa idade?
— Idade não é factor limitante, Jussara.
A cabeça da gente é que cria essa limitação.
Você pode estar mais enrugadinha por fora, mas por dentro é a mesma moça de trinta anos atrás.
— Nunca considerou voltar a praticar enfermagem? — indagou Armando.
— Não sei.
Fiquei com tanto trauma por causa daquela paixão que enterrei essa vontade.
— Você sempre foi óptima profissional.
Lembro-me de que cuidou de minha tia Hilda com tanto carinho —tornou Armando.
— Tem tanta gente precisando dos cuidados de uma boa enfermeira, Jussara.
Tudo tem remendo na vida, minha amiga.
O negócio é ter confiança em si, acreditar ser capaz de realizar as mudanças necessárias para uma vida mais prazerosa e feliz.
Você é dona do seu sucesso!
- Mas estou fora do mercado há muito tempo.
— Pois vá se reciclar — sugeriu Armando.
Nós podemos ajudá-la também nisso.
Pagamos um curso para você se reciclar, conhecer novas técnicas de enfermagem e voltar a trabalhar.
- Não sei se estou pronta.
— Novaes faz parte do passado — salientou Iara.
O bom disso tudo é que a partida de Cirilo deu novo gás à sua vida.
- Obrigada pela força, Iara.
É como uma irmã para mim.
Ela abraçou a amiga e depois abraçou Armando.
- E você sempre foi o amigo de todas as horas, desde os tempos de adolescência.
— Sempre serei grato a você, Jussara.
Tudo o que lhe fizer não será nada perto do que me fez.
— O que fiz de tão importante, além de cuidar de sua tia Ilda?
Cuidei da sua tia porque gostava dela e da profissão.
Ele deu uma risadinha.
— Apresentou-me Iara.
Foi graças a você que conheci a mulher da minha vida.
Abraçaram-se novamente.
A amizade deles era de longa data e estava fortalecida pelos elos do verdadeiro amor.
Andrei estava ansioso com o jantar.
- Calma, papai.
Parece que seu coração vai saltar pela boca — tornou Luciano.
— Sei, meu filho, mas estou muito nervoso.
Sinto-me um adolescente.
— Isso é bom.
Você está apaixonado!
— Não fica triste?
- Eu? Por que ficaria, papai?
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 20, 2015 8:13 pm

- Por conta da sua mãe...
Luciano balançou a cabeça para os lados.
— Mamãe morreu faz tempo.
O tempo passou e o senhor merece ser feliz.
- Fiquei muito abalado com a morte de Judite.
Eu não poderia, nem queria, me relacionar com outra mulher.
O tempo foi passando, eu fui me envolvendo cada vez mais na sua criação e de seu irmão, atirei-me nos negócios e esqueci do amor.
— Aí, Lívia surgiu em sua vida e abriu a caixinha do amor!
Andrei riu. Um sorriso encantador.
— Abriu a caixa e apoderou-se do meu coração.
Estou vivendo um momento mágico da minha existência.
— Fico feliz por você, papai.
Lívia vai fazê-lo muito feliz.
- Será que ela vai aceitar o meu pedido de casamento?
— Claro que vai. Ela o ama.
- Disso não tenho dúvida.
- Nada de ansiedade ou insegurança.
O momento é de alegria.
- Tem razão.
Andrei ajeitou a gravata, checou os últimos preparativos.
Foi até outra sala e comunicou um dos criados:
- Está tudo em ordem?
— Sim, doutor Andrei.
O queijo feta, o carneiro assado com batatas, está tudo pronto.
- E o moussaká?
Por favor, quero que a beringela e a carne moída sejam gratinadas somente quando a convidada chegar.
— Sem dúvida, doutor.
- Pode servir o mézede (10), por favor.
— Sim, doutor.
Andrei sorriu satisfeito com a eficiência dos seus empregados, aproximou-se de uma bandeja sobre uma cómoda e apanhou dois copos e uma garrafa de uísque.
Pegou os cubos de gelo no baldinho ao lado e preparou um drinque para ele e Luciano.
Levou para o filho.
— Façamos um brinde.
Luciano apanhou seu copo e brindaram.
— À felicidade! — falou Andrei.
— Ao amor! — disse Luciano.
Bebericaram o uísque e, depois de estalar a língua no céu-da-boca, Luciano agradeceu:
- Obrigado por convidar Magali.
- Obrigado por quê? Estão sempre juntos.
— Ela é uma boa amiga.
— Gosta dela, não?
— Sim. Mas de uma maneira diferente.
— Como assim, diferente? — perguntou Andrei, interessado.
— Gláucia foi a única namorada que tive.
Eu me afeiçoei e acostumei-me com a presença dela, afinal ficamos juntos durante sete anos.
Depois Gláucia morreu, veio a descoberta de que ela havia inventado uma gravidez e fiquei preso na raiva por muito tempo.
Passei a prestar um pouco mais de atenção aos meus sentimentos.
Eu a amava de verdade?
- Amava? — indagou o pai.
— Não sabia ao certo.
Então passei a sair com Magali.
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 20, 2015 8:13 pm

Daí veio a amizade com Débora e Régis.
Passei a notar a relação deles, o carinho que um tem pelo outro, o sentimento de cumplicidade que ambos irradiam quando estão juntos.
Logo depois, o senhor conheceu Lívia e passei a notar em ambos os mesmos sinais de cumplicidade e intimidade que vejo em Débora e Régis.
— É o amor, filho.
— Não era o que sentia por Gláucia.
E sinto que ela também não me amava.
Estávamos presos ao comodismo, aos padrões da sociedade, cegos de ilusão.
Depois que ela morreu, foi como se um véu fosse arrancado de meus olhos e eu passasse a enxergar os factos e a vida de outra forma.
— E sua amizade com Magali?
— O que tem?
- Fale-me um pouco sobre essa relação tão bonita — instigou Andrei.
Luciano terminou de beber e seus olhos brilharam.
— Magali é uma companhia muito agradável.
Ao lado dela, não sinto as horas passarem.
Conversamos sobre tudo, temos opiniões diferentes acerca de muitos assuntos, mas cada um convence o outro com seu ponto de vista.
Gostamos de fazer os mesmos passeios, somos confidentes.
Depois que dona Ivete foi para Londrina e ela ficou sozinha, passamos mais tempo juntos.
Eu me preocupo com o bem-estar dela.
Conforme Andrei ouvia o relato de Luciano, uma certeza formava-se em sua mente:
seu filho estava apaixonado por Magali e não sabia.
"Creio que a noite de hoje será muito importante para Luciano."
Ele também terminou seu copo de uísque, consultou o relógio e disse:
— Está quase na hora de Lívia chegar.
Cadé seu irmão?
- Lucas disse que tinha uma reunião, mas chegaria a tempo para o jantar.
Parece que agora a ficha caiu e ele quer conhecer a futura madrasta.
— Nunca quis participar dos nossos encontros.
Lívia sente que ele jamais vai aceitá-la.
— Com o tempo, Lucas vai acabar se acostumando.
— Não sei. Estou preocupado com seu irmão.
Ouço comentários negativos sobre ele no trabalho.
Parece que a única criatura do universo com quem ele se relaciona bem é Sarajane.
— Que eu saiba, ele não tem amigos.
- Vocês não saem mais juntos?
- Não, papai. Quando comecei a sair com Magali, deixei de frequentar a noite.
O Lucas adora uma balada, uma rave.
— Isso me preocupa.
— Lucas não é de beber, não fuma.
- Tem o pavio muito curto. Não gosto disso.
Ainda poderá se meter numa grande encrenca.
Continuaram conversando e Lucas apareceu pouco depois.
Cumprimentou Andrei e Luciano a distância.
- Por que estão tão bem-vestidos?
— Esqueceu-se do jantar? — perguntou Andrei.
- Que jantar, pai?
— Não se faça de sonso.
Lucas sabia, sim, mas queria irritar Andrei.
— Esqueci. Mas aqui estou.
— Não. Vá tomar banho e se arrumar — sentenciou Andrei.
Lucas cheirou as axilas.
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 20, 2015 8:13 pm

- Não estou fedido.
Posso me sentar à mesa.
—“Apa pa pa pa! (11)" — gritou Andrei.
Vá se arrumar agora.
— Por quê?
— Porque ainda sou o dono desta casa.
Eu mando. Suba já e vá se arrumar.
Você tem vinte minutos.
E "ai" de você se não descer no prazo.
- Vai fazer o quê?
Bater em mim? — provocou Lucas.
Andrei teve uma sacada de génio.
— Não. Se passar dos vinte minutos, a cada minuto extra vou passar um imóvel para o nome do seu irmão.
- Está maluco, pai?
— Atrase e verá. Começa agora — Andrei consultou o relógio.
Vinte minutos.
Lucas subiu as escadas feito um maluco.
— Papai, você foi genial! — parabenizou Luciano.
- É a única maneira de manter seu irmão na linha.
Um dos empregados veio anunciar a chegada de Magali.
Luciano sorriu e foi até a porta de entrada para recebê-la.
Impressionou-se com tanta beleza.
Magali usava um vestido longo de seda na cor azul royal.
Os cabelos estavam soltos e balançavam delicadamente sobre os ombros.
A maquilhagem era leve e ela estava radiante. Muito charmosa.
— Como está bonita!
— Obrigada.
Cumprimentaram-se e Luciano lhe estendeu o braço.
Magali apoiou-se nele e seguiram até a saleta contígua à sala de jantar.
Andrei fez elogios parecidos.
- Está muito elegante, Magali.
— Obrigada, doutor Andrei.
— Por favor, me chame de Andrei.
O doutor fica só para as relações profissionais.
— Aceita uma bebida?
Sei que não bebe, mas gostaria de um coquetel de frutas, um suco? — perguntou Luciano.
- Um suco, pode ser.
Luciano fez sinal para um dos empregados e pediu o suco.
Lucas desceu em menos de vinte minutos, barbeado, de banho tomado, perfumado, com a vasta cabeleira negra penteada e elegantemente vestido.
Ele podia ser um verme, mas se vestia de maneira sofisticada e requintada.
Cumprimentou Magali com um beijo rápido e encarou Andrei, preocupado:
— E agora, pai?
— Agora o quê?
Pediu:
-Não vai passar nada no nome de Luciano, vai?
Como pode pensar só nisso?
Eles iam iniciar uma pequena discussão, mas Luciano pediu:
-Vamos manter um grau de civilidade esta noite.
- Está certo — concordou Lucas.
Vou me comportar.
Finalmente vou conhecer a vad... — ele fingiu um pigarro para não falar um palavrão -, vou conhecer a namorada do pai.
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 20, 2015 8:13 pm

— Trate-a com respeito — ordenou Andrei.
Afinal, ela será sua madrasta logo, logo.
Lucas respirou fundo, procurando forçar um sorriso.
Precisava ocultar a raiva que tentava dominá-lo.
Fechou os olhos, respirou fundo, matou alguns carneirinhos e, como em um passe de mágica, estava sorridente.
— Quer mais um suco, Magali?
— Não, obrigada.
O relógio do hall deu oito badaladas e um dos empregados anunciou:
— Senhorita Lívia Salgado Telles Bueno.
Andrei sentiu um friozinho na barriga.
Luciano apertou levemente o ombro do pai, transmitindo-lhe força.
Lucas meteu as mãos no bolso das calças.
Estava apreensivo e queria conhecer a "usurpadora", segundo suas palavras.
Lívia entrou e o ambiente foi contagiado por sua beleza e jovialidade.
Ela cumprimentou Andrei, depois Luciano.
Foi apresentada a Magali e surgiu entre ambas uma simpatia natural, aflorando genuíno sentimento de amizade.
Lucas estava no canto da sala e observava tudo a distância.
Mediu Lívia da cabeça aos pés.
"O velho ainda tem bom gosto", pensou.
E continuou observando-a.
"Engraçado. Eu conheço essa mulher de algum lugar."
Lucas forçou a memória e, num relance, lembrou-se de Lívia.
A cena veio forte em sua mente.
"Então é ela? Aquela vadia?"
Andrei conduziu Lívia pela mão até chegarem a Lucas.
Lívia estava preocupada com a calda do vestido e olhava para o chão.
Ao chegar próximo de Lucas, seus olhos se cruzaram e ela também se lembrou dele.
— Lívia, esse é meu outro filho, Lucas.
Lucas procurou ser gentil e ocultar o sentimento ruim.
Lívia mexeu a cabeça para cima e para baixo, indignada.
Lucas estendeu a mão e Lívia afastou-se um passo.
Andrei não entendeu.
— O que foi?
Ela não mediu palavras.
Disparou:
— Esse é o cafajeste que tentou me pegar à força, anos atrás.
Lembra-se da história que lhe contei?
E da minha amiga que apanhou naquela mesma noite?
Andrei engoliu em seco.
Claro que se lembrava.
Num dos momentos de intimidade, estirados na cama e trocando confidências, Lívia lhe contara sobre uma noite, anos atrás, em que saíra para encontrar uma amiga de faculdade em um bar e tivera um momento tenso quando Lucas a puxou pelo braço.
Foi na noite da festa de despedida de solteiro de Luciano.
Lívia ainda tinha viva a memória daquela noite horrível.
Cada detalhe vinha com uma força incontrolável.
- Que delícia de perfume!
Passou no corpo todo?
- Babaca! Só tem essa cantada chinfrim na lista?
Entra no Google e procura outras melhores.
— Gostei de você.
Tem atitude. Eu a quero.
— Como?
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 20, 2015 8:13 pm

— Quero você.
Vamos entrar e vamos para um lugar reservado.
— Quem disse que eu vou entrar no bar com você?
— A festa é minha.
Se não quiser entrar comigo, não entra nem por decreto.
— Problema seu. Engula o bar.
Tem mais quatro bares só neste quarteirão.
Ela fez um gesto obsceno com o dedo, rodou nos calcanhares e foi caminhando até outro estabelecimento, menos movimentado.
Lucas foi atrás e puxou-a pelo braço, com força.
- Escute aqui.
- Que é isso? Está me machucando — ela gritou e tirou o braço bruscamente das mãos dele.
— Mulher nenhuma fala comigo nesse tom.
- Pois agora encontrou uma que fala. Idiota!
Ela rodou nos calcanhares e Lucas a puxou de novo.
Dessa vez a garota cravou as unhas grandes sobre o braço dele, rodopiou sobre o corpo esguio e ágil.
Deu um chute que pegou em cheio os miúdos do rapaz.
Lucas deu um urro de dor, colocou as mãos no baixo-ventre e caiu de joelhos.
— Desgraçada!
- Babaca. Dez vezes babaca!
- Ainda te pego...
Foi mais forte que ela.
No instinto, Lívia levantou a mão e plaft!, meteu um tapa na cara de Lucas.
- Isso é para você nunca mais se meter a besta com mulher que seja.
Andrei a amparou nos braços.
- Calma, Lívia.
Você pode ter se confundido.
— Não sou de me confundir.
Nunca fui abordada de maneira tão baixa e vulgar em toda a minha vida.
Lucas ainda sentia o rosto quente pelo tapa.
Fingiu um sorriso:
- Está enganada.
Você me confundiu com algum outro.
— Não. Jamais esqueceria seu rosto.
E, naquela noite, coincidentemente, a minha amiga foi atacada por um troglodita.
A sorte é que tanto eu quanto ela demos queixa na polícia e entregamos material de DNA que tínhamos na ponta dos dedos.
— Você não pode me obrigar a fazer esse exame. Sabe disso.
— Não tenho pressa.
Ainda vou pegar você.
— Está me ameaçando?
Eu processo você por danos morais — rebateu Lucas, irónico.
- Não tem coragem — desdenhou Lívia.
Homem que pega à força e bate em mulher é fraco e covarde.
— Tem certeza do que diz? — interveio Andrei, assustado.
— Tenho. Infelizmente seu filho é um desequilibrado.
Anda solto nas ruas aterrorizando garotas indefesas.
Sabe-se lá se não cometeu outras sandices.
Lucas deixou a ironia de lado e ficou branco como cera.
Lembrou-se de Eneida.
"Se ela descobrir sobre Eneida, estou frito!", reconheceu em pensamento.
Lívia meneou a cabeça e foi categórica:
- Desculpe, Andrei, mas não posso ficar.
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 20, 2015 8:13 pm

- Por favor, Lívia.
O jantar foi preparado especialmente para você.
— Sei disso.
— Então...
- É que estou chocada.
Jamais pensei que fosse reencontrar esse homem.
Mil desculpas. Não posso me sentar à mesa ao lado desse rapaz.
Ela se despediu de todos com um aceno e foi embora.
Andrei estava triste, muito triste.
- Você fez isso a ela? — questionou, numa voz irritadiça.
- Mas quê...
- Seja sincero uma vez na vida, Lucas, e me diga a verdade.
Você tentou mesmo pegar Lívia à força e machucou a amiga dela? — Andrei o pegou pelo braço e começou a sacudi-lo.
Lucas explodiu.
Desenvencilhou-se do pai à força.
Estava tão transtornado que disparou em grego:
— Astodialo! (12)
E saiu em disparada.
Foi derrubando tudo o que encontrava pela frente.
Alcançou o jardim, pegou um dos carros na garagem, mandou abrir o portão e saiu feito um demónio, acelerando e cantando os pneus.
O clima ficou tenso e pesado. Magali e Luciano procuraram fazer de tudo, mas Andrei ficou num canto, amuado.
Não sabia o que pensar ou fazer.
Tinha medo de perder Lívia.
— Ela não pode me deixar.
Não agora!

10 Antepasto servido com pão grego para acompanhar uma bebida antes da refeição.
11. De jeito nenhum, em grego.
12 Vão para o inferno, em grego.
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 20, 2015 8:14 pm

Capítulo Vinte

Gláucia havia se recuperado das toxinas astrais que seu perispírito absorvera.
Depois de tanta raiva que Luciano destilara sobre ela, foi necessário um bom tratamento que combinava passes e ervas aromáticas para livrá-la desses miasmas.
Judite tornara-se companheira constante.
— Como pode?
Não vivemos juntas nesta última encarnação e temos tantas afinidades!
— Porque tínhamos planos distintos.
Para aliviar minha consciência, assumi o casamento com Andrei.
Ambos nos comprometemos a dar vida a Luciano e Lucas.
— Se estivesse na Terra e tivesse me casado com Luciano, adoraria tê-la como sogra.
— Eu sabia que minha permanência no planeta seria curta.
Você também sabia disso.
Quer dizer, seu espírito reencarnou sabendo que ficaria pouco tempo no mundo.
— Depois desses anos, prefiro estar deste lado.
— É natural, Gláucia.
O mundo espiritual é a nossa verdadeira casa.
A Terra é só um local de aprendizado, aonde vamos para experienciar situações, resolver velhos conflitos, aprender a desapegar-se de crenças e posturas enferrujadas e inúteis.
A cada novo ciclo reencarnatório, nosso espírito fica mais forte, mais lúcido e assim alcançamos mais facilmente o equilíbrio e a paz mental.
- Eu nem me lembro que fui morta.
— Melhor não pensar nisso.
— Pode me responder algo que me intriga? — perguntou Gláucia.
— O quê?
- Quem me matou vai ficar impune?
- Não sabemos.
A lei dos homens é falha, mas a lei de Deus não é.
Um dia todos nós teremos que reparar o mal que fizemos aos outros e a nós mesmos.
Não se trata de pagar por dívidas do passado.
Nosso espírito possui em sua essência uma característica fantástica.
— Qual seria? — perguntou Gláucia, interessada.
— Nosso espírito não consegue progredir enquanto não faz as pazes com aqueles com os quais teve dissabores, conflitos, brigas.
— Deixei de me preocupar em saber quem me ceifou a vida.
Aprendi, a duras penas, que só acontece o que Deus permite.
— Deus, sem dúvida alguma, só permite o que é melhor para nós — completou Judite.
Estou muito feliz com o seu progresso.
Você está aprendendo rápido.
— Os cursos e as palestras têm me ajudado sobremaneira a mudar minha maneira de enxergar a vida — tornou Gláucia.
Fiquei impressionada com os ensinamentos sobre a Lei do Retorno. (13)
Judite considerou:
- Em relação ao seu malfeitor, digamos assim, nada pode ser feito a não ser orações pela melhora dele.
Infelizmente, pelas próprias atitudes, vai sofrer um pesadelo infernal.
Mas isso é assunto dele, não seu.
- Ele vai ser punido?
— Cada um é responsável por aquilo que pratica.
Deus não cobra nada.
É a nossa alma que é tremendamente exigente.
Entraram no bosque, procuraram um banco e sentaram-se de maneira confortável.
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 21, 2015 9:46 pm

Judite apanhou uma flor de rara beleza e, enquanto alisava delicadamente as pétalas, disse:
- Tudo é provocado pelo uso constante do seu poder de crença.
Nós temos uma capacidade natural de impressionar a mente, que transforma essa crença em realidade, dando a cada um a chance de experimentar seus momentos, agradáveis ou não, e até mesmo de atrair amigos e inimigos.
— Lembrar-me do passado clareou minha mente e aquietou meu espírito.
— Ao menos entendeu por que tinha certa aversão por Iara e Débora.
— Sim.
Gláucia fechou os olhos, e algumas lembranças —as mais marcantes — vieram fortes à mente...
Sua memória retornou ao Brasil do século dezoito, na cidade de São Salvador da Bahia de Todos os Santos.
Gláucia era filha de Armando e Judite.
Depois que Judite morreu, seu pai casou-se com uma cortesã viúva que tinha duas filhas.
Iara era mãe de Débora e Magali.
Desde o início, Gláucia deu-se bem com Magali.
A amizade foi instantânea.
Assim como ela e Débora se estranharam desde o início.
Débora era uma menina pedante, voluntariosa, cheia de quereres.
Gláucia passou por um período de muitas privações.
Iara e Débora a atormentavam por qualquer coisa e abusavam de sua ingenuidade.
Os anos passaram e, já adultas, Magali ficou noiva de Luciano, rico fazendeiro envolvido na comercialização de cana-de-açúcar e algodão.
Gláucia precisava fugir de casa.
Não suportava mais os maus-tratos de Iara e Débora.
Armando havia morrido e não tinha deixado herança.
Desesperada, ela perambulou pelas ruas da capital e sede administrativa da Colónia. (14)
No porto da cidade conheceu Loukás, um jovem grego ambicioso, mas sem um vintém nos bolsos.
Loukás era casado com Lívia, moça simples, porém de elevada espiritualidade.
Como espiritualidade não colocava comida no prato e Loukás odiava o batente, uniu-se a Gláucia e tornaram-se amantes.
No astral, Judite incitava a filha a cometer todos esses desatinos.
Judite acompanhava todos os seus passos e dava-lhe dicas para enriquecer de maneira fácil.
Gláucia e Loukás passaram a ambicionar cada vez mais dinheiro e viram em Luciano a solução de seus problemas.
Loukás fingiu ser um rico mercador, criou uma falsa empresa e, com alto poder de sedução, convenceu Luciano a ser seu sócio.
Na apólice de seguro, caso Luciano morresse, constava uma cláusula em que Loukás receberia uma grande quantia em dinheiro.
Alguns dias antes do casamento de Luciano e Magali, Gláucia e Loukás contrataram um matador.
O homem fez o serviço.
Loukás recebeu o dinheiro do seguro e fugiu com Gláucia.
Ele tinha apreço por uma menina que conhecera nas ruas de Salvador.
Sarajane era uma menina maluquinha, meio abobada, que se deitava com os homens em troca de um prato de comida.
Era conhecida como a "louca do Pelourinho".
Loukás se afeiçoara à menina e, sob as asas dele, Sarajane cometia todo tipo de desatino.
Logo, a moça ganhou um pedaço de terra e, orientada por Loukás, passou a cultivar algodão em terras baianas.
Ricos, Gláucia e Loukás partiram para Pernambuco e adquiriram grandes glebas de terra para o cultivo da cana-de-açúcar, o produto que dava bom lucro à Coroa, além de colaborar no fortalecimento da colonização da colónia portuguesa do Brasil.
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 21, 2015 9:46 pm

Loukás tornara-se rico dono de engenho.
Havia, naquela época, os "homens livres" que vendiam cana aos donos de engenhos em Pernambuco.
Um desses mercadores, sentindo-se passado para trás numa negociação, foi tirar satisfações com ele.
Os dois brigaram, e Loukás acabou sendo morto.
Viúva, Gláucia tornou-se a senhora do engenho e praticava todo tipo de crueldade com seus colonos.
Certo dia, foi morta numa emboscada.
Reencontrou Loukás no umbral e passaram muitos anos doentes e tristes.
Xenos era um antigo e grande amor de Gláucia e, de forma paciente, esperou que ela perdoasse a si mesma e aos demais desafectos para viverem juntos no plano astral.
Lívia, abandonada pelo marido, recomeçou a vida na Região Sul e conheceu o jovem capitão André.
Gláucia abriu os olhos, sentindo bem-estar.
— Oh, Judite, sinto-me tão mais leve depois dessas revelações do passado!
Parece que meu espírito vai flutuar.
— Pode ser difícil aceitar a verdade, mas é ela quem nos arranca das amarras da ilusão e promove a lucidez do espírito.
— Perdoo a mim e todos a quem ofendi.
— O bem é o veículo que nos guia pelo mundo físico e astral.
É ele que nos permite permanecer em harmonia e comunhão com o universo.
— Melhorei muito, mas ainda ficou presa em mim a vontade de casar.
— Mesmo?
— Hum, hum. Sei que o casamento é algo da Terra, um ritual que ocorre de várias maneiras, porque no planeta vivenciamos muitas culturas.
Eu tenho em mim uma vontade louca de entrar na igreja, subir ao altar, ter uma dama de honra que leve as alianças...
Não sei explicar, eu tenho esse desejo muito forte em mim.
Eu só queria casar...
— Houve outras situações em que você desejou isso e não aconteceu.
Seu espírito ficou carregado de desejo e...
— E o quê? — perguntou Gláucia.
— A única forma de extinguir o desejo é realizá-lo.
— Como?
— Fazendo-o acontecer.
Gláucia riu.
— Imagine! Estamos numa outra dimensão, num outro mundo.
Aqui os espíritos não se casam, não há padre, tampouco igreja.
— Lembre-se que aqui podemos criar tudo o que quisermos, para o bem ou para o mal.
O poder de realizar está em nossas mãos.
Um friozinho percorreu o corpo de Gláucia.
— Será que poderei realizar esse desejo?
— Creio que sim.
— Mas não tenho com quem me casar!
— Mesmo? — provocou Judite.
Às vezes o amor está ao nosso lado e não percebemos.
Gláucia deu um gritinho de emoção e levou a mão à boca:
— Xenos!
Judite abriu largo sorriso.
- Agora começa a entender por que ele está sempre ao seu lado e a quer tão bem?
Gláucia enfim compreendeu o amor de Xenos.
Suas memórias voltaram a um passado distante, nos tempos da Grécia Antiga, e ela se viu ao lado dele, amando-o e respeitando-o.
Depois apareceu uma sucessão de vidas, e ela percebeu que havia séculos amava o mesmo espírito.
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 21, 2015 9:47 pm

Eles se desencontravam por conta dos projectos reencarnatórios distintos.
Por conta do livre-arbítrio, os espíritos nem sempre caminham lado a lado em todas as encarnações.
- Xenos é o meu amor!
- Por certo, querida.
O amor que Xenos tem por você é puro.
Gláucia estava muito emocionada com as lembranças do passado e exultava com a possibilidade de realizar com Xenos o sonho de casar-se.
Judite investigou meticulosamente a mente e o coração de Gláucia:
— Continua sendo a menina que quer casar...
Gláucia ouviu a voz atrás de si e reconheceu Xenos.
— Você!
Ela se levantou e o abraçou.
— Xenos, tenho tanta coisa para lhe contar!
Xenos sorriu e Judite levantou-se.
— Preciso ir. Tenho alguns afazeres.
Depois que ela se despediu e retirou-se, Xenos sentou-se no banco.
Entregou uma rosa branca para Gláucia.
Ela aspirou o perfume adocicado e agradeceu, emocionada.
— Obrigada.
— Trouxe essa rosa de outra aldeia.
Lá as rosas crescem de acordo com o pensamento positivo das pessoas.
— Ela é linda. As pétalas são grandes, macias.
Obrigada, mesmo.
Nunca recebi flores quando estava viva.
- Um pecado. Falta de cavalheirismo.
Toda mulher em qualquer lugar do mundo gosta de receber flores.
Vamos fazer um trato?
- Sim!
— A cada viagem que eu fizer, trarei um ramalhete de flores para você. O que acha?
— Lindo. Simplesmente lindo, Xenos.
Você é um homem nobre, alma sensível.
Acabei de recordar algumas vidas e vi você...
Ele exultou:
— Então apareci?
— Como não poderia aparecer?
Você sempre foi o anjo que me conduziu ao longo de tantos séculos!
Xenos emocionou-se.
Apertou-a contra o peito e sentiu o perfume de seus cabelos.
- Gláucia, eu a amo tanto!
- Por que não ficamos juntos?
O que ocorreu?
Você estava em vidas minhas muito antigas.
Depois não estava mais presente.
- Não estava presente encarnado.
Mas como espírito estava sempre ao seu lado.
— Prometa-me uma coisa?
— Claro, o que quiser.
— Nunca mais vamos nos separar.
Ele a fitou e fecharam os olhos.
Seus lábios se encontraram e eles se beijaram com amor.
Permaneceram abraçados por muito tempo, sem nada dizer, aproveitando a companhia um do outro.
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 21, 2015 9:47 pm

Gláucia estava mudada.
O convívio com Judite e Xenos transformara a vida dela para melhor.
Agora, estava longe de ser aquela menina petulante, mimada, birrenta e de génio forte.
Aprendera que conviver com boas pessoas só pode gerar e extrair o melhor de nós.
Xenos beijou a mão da jovem e comentou:
— Judite me contou que você recordou-se de uma encarnação distante.
— É. Não sei ao certo se foi minha última encarnação na Terra, mas foi a que marcou significativamente o meu espírito.
— Você reencarnou mais duas vezes depois daquela vida em Salvador.
— Mesmo?
Será que um dia vou me lembrar?
— Naturalmente.
— Oh! Xenos.
Sinto que o amo tanto!
— O sentimento ficou represado em seu coração por muito tempo.
Nós nos amávamos, mas houve uma época em que a vaidade e o orgulho cegaram-na por completo.
— Por que não me fez enxergar a verdade?
Por que não me fez voltar a amá-lo?
— Porque esse exercício competia a você, não a mim.
Há coisas que não podemos fazer pelo outro.
Nem sempre o planeamento reencarnatório é feito com todos os que queremos bem.
O processo ocorre para ampliar a nossa lucidez, fortalecer o nosso espírito e nos trazer esclarecimento, conforto e paz.
Cada encarnação é uma etapa decisiva para aprimorar o nosso grau de evolução.
— Será que teremos chance de reencarnar juntos, depois de tantas vidas separados?
— Pode ser. Assumi compromissos aqui no astral que me impedem de reencarnar, por agora.
Mas tudo é possível.
Xenos fechou os olhos e divagou por um momento.
Ao abrir as pálpebras, viu certa tristeza no semblante de Gláucia.
— O que a faz triste?
- Não estou triste.
— Não é o que parece.
— É que eu tenho tanta vontade de me casar!
— E por que não nos casamos?
— Sério?
— Por que não?
— Tenho vontade de me casar de acordo com os costumes assimilados em nossa cultura.
Adoraria usar véu, grinalda...
E assim, Gláucia passou a relatar a vontade que tinha de realizar esse sonho tão antigo.
Xenos escutava com atenção e sentia um prazer indescritível por estar ao lado de sua amada.

13 Para entender melhor como ocorre a Lei do Retorno, comentada por Gláucia, sugerimos a leitura do livro Acção e reacção, de Francisco Cândido Xavier, ditado pelo espírito André Luíz, em especial os capítulos 1 "Luz nas sombras" e 2 "Comentários do instrutor". Utilizamos a 16ª edição da FEB.
14 Salvador foi capital do Brasil de 1549 a 1763.
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 21, 2015 9:47 pm

Capítulo Vinte e Um

O dia estava raiando quando Régis despediu-se de Débora.
— A que horas passo para levá-la ao médico?
— Só depois do almoço — disse ela.
Por que está tão ansioso?
— Porque hoje você vai fazer um ultra-som morfológico e vamos finalmente descobrir o sexo do bebé.
Régis passou a mão sobre o ventre levemente avolumado da esposa.
Débora estava grávida de cinco meses e era chegado o momento de fazer a ultra-sonografia para identificar o sexo da criança.
- Vai ser menina — sentenciou Débora.
- Que nada! Vai ser menino.
Você vai ver! Aposto um doce.
- Eu aposto todo o meu amor — tornou ela.
— Está muito convincente.
— Tenho sonhado com uma menininha linda.
Sei que vamos ter uma menina.
— Não vou mais abrir a boca.
Só depois do exame.
Régis a beijou com delicadeza nos lábios e foi para o trabalho.
Débora espreguiçou-se e caminhou até a varanda do apartamento.
O dia estava nascendo e o sol, timidamente, se apresentava.
Ela sorriu e resolveu dar uma caminhada.
Quando se casou e mudou para o novo apartamento, Débora quis levar junto seu cachorro, Bolinha.
Régis afeiçoara-se ao cachorrinho e Bolinha vivia muito feliz no novo lar.
— Bolinha — ela chamou.
Acorde, vamos.
O cachorro nem se mexeu.
Adorava o aconchego de sua caminha.
Débora proferiu a palavra mágica:
- Passear!
Em poucos minutos estavam na rua.
Levando Bolinha pela coleira, dobrou a quadra, andou alguns quarteirões até chegar a um parque.
Deixou Bolinha divertir-se na natureza.
Logo ele fez amizade com outro cachorrinho, também muito simpático.
A dona o chamou:
— Totó, vamos.
Chega de brincadeiras por hoje.
Estou velha e não aguento o seu pique.
O cachorro nem dava trela.
Brincava com Bolinha e ficaram assim, até que Débora apareceu e também chamou:
- Está na hora de irmos embora, Bolinha.
Venha pôr a coleira.
Justina apressou o passo e pegou Totó no colo.
Sorriu para Débora.
— Esses bichinhos são inteligentes, mas impossíveis.
Adoram uma arte, uma brincadeira.
— Eles gostam de estar ao ar livre.
Ficam muito presos em casa.
— Tem razão.
O seu cachorrinho é muito fofo.
Qual o nome dele?
— Bolinha. E o da senhora?
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

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