Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 21, 2015 9:47 pm

— Totó.
— Que graça! — Débora aproximou-se do cachorro e passou delicadamente as mãos sobre o focinho.
Oi, Totó.
O cachorro pulou do colo de Justina para os braços de Débora.
Justina desculpou-se:
— Ele não é dado assim.
Nunca vi Totó ter essa liberdade.
Ele gostou de você.
— Eu também gostei dele, não é, Totó? — Débora falava com voz infantil:
— Que cachorrinho mais lindo!
Justina notou a barriguinha saliente e perguntou:
— Está grávida?
— Estou. De cinco meses.
— Oh, que lindo!
Ter um filho é a experiência mais sublime que uma mulher pode ter — Justina falou e seus olhos marejaram.
Débora não percebeu.
Colocou Totó no chão e acariciou o ventre.
— Se Deus quiser, vou ter uma menina.
Justina não segurou o pranto.
Débora assustou-se.
— Minha senhora, desculpe.
Falei algo que não deveria?
- Não, minha querida. Não.
— Quer um copo de água?
— Não. Estou bem — Justina procurou se recompor.
"Mal conheço a moça e já caí no choro?
A mocinha vai achar que sou louca", pensou.
Débora a levou até um banco e se sentaram.
Os cachorrinhos vieram atrás.
A jovem pegou dois ossinhos da sacola e deu a eles.
Bolinha e Totó ficaram brincando ali ao lado, chupando e mordendo os ossinhos.
- Desculpe-me pela fraqueza — disse Justina.
— A senhora não deve se desculpar por nada.
Tenho certeza de que teve um motivo muito forte para se emocionar.
- É.
Débora consultou o relógio e sorriu.
— Tenho tempo para conversarmos um pouco mais.
Quer me contar o que a aflige?
Justina fez que sim com a cabeça.
— Vou lhe contar a minha história...
E, assim, contou sobre o casamento com Eriberto, o nascimento da filha, o casamento de Miriam e sua morte prematura.
Depois falou do ex-genro e, conforme Justina lhe participava dos detalhes, Débora tentava ocultar o susto.
Não precisou de cinco minutos de conversa para saber que Justina era a mãe de Miriam e avó de Gláucia.
"E agora, o que faço?" - ela perguntou para si.
"Se eu disser a essa mulher que sou filha de Armando e Iara, ela é capaz de me bater."
Débora teve muita vontade de contar a verdade a Justina, mas temia a atitude da velha senhora.
Ela estava grávida e não era prudente revelar-se a Justina nesse momento.
Pretextou que tinha de se preparar para o ultra-som e despediu-se.
- Adorei conhecê-la.
Você não disse seu nome.
— Débora.
Justina mal se lembrava do nome da meia-irmã de Gláucia e também nunca a vira.
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 21, 2015 9:47 pm

- Foi um prazer conhecê-la, Débora.
É menina atenciosa, simpática.
Venho todas as manhãs ao parque.
Totó acostumou-se com o lugar.
— Farei o possível para nos encontrarmos.
Pode acreditar que adorei conhecê-la de verdade.
— Quer conhecer meu marido?
Débora fez sim com a cabeça e acompanhou Justina até um banco.
Eriberto estava lendo o jornal. Justina cutucou.
- Eriberto, deixe-me apresentar uma nova amiga.
Ele baixou o jornal com as mãos e ergueu o rosto.
Sorriu e levantou-se.
— Olá.
— Bom dia. Meu nome é Débora.
— Ela não é uma graça, Eriberto?
— Sim, uma moça muito bonita.
Ele olhou para o ventre avolumado e Débora respondeu:
— Sim, estou grávida de cinco meses.
Ele se lembrou da gravidez de Justina e estremeceu.
Fechou e abriu os olhos.
Depois, encostou a mão sobre a barriga dela e disse:
- Que você tenha uma linda menina!
Justina moveu a cabeça de um lado para o outro:
— Imagine, Eriberto.
Como pode dizer uma coisa dessas?
— O que foi que eu disse?
- Que ela vai ter uma menina.
Débora nem sabe ainda o sexo da criança!
— Perdão — ele se desculpou.
— Não fique acabrunhado, seu Eriberto — ajuntou Débora com amabilidade e baixou a voz:
— Eu também gostaria de ter uma menina. Segredo nosso.
Eriberto sorriu matreiro, deu uma piscadinha e despediram-se.
No trajecto de volta para casa, Débora dizia para si:
— A vida é sábia... mas muito engraçada!
Justina puxou a coleira e perguntou:
— O que ela lhe disse?
— Nada. Segredo.
Justina sentiu ciúme.
— Eu a conheci primeiro.
Agora já está de segredinhos com ela?
— Ela lembrou tanto o jeito de nossa filha!
— Contei a Débora sobre Miriam.
Ela se emocionou e me disse palavras tão bonitas!
Disse que acontece só o que Deus permite e Ele só permite o melhor.
Disse que um dia vai me ensinar o "jogo do contente".
Eriberto deixou uma lágrima escorrer pelo canto do olho.
— Essa menina é especial.
Não sei por que, mas senti grande bem-estar ao lado dela.
— Eu também, meu velho.
Justina desequilibrou-se.
Eriberto segurou-a nos braços e apanhou a coleira.
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 21, 2015 9:48 pm

— O que foi?
— Tontura, de novo.
Justina parou por instantes e recuperou os movimentos.
— Precisamos ir ao médico.
Vou marcar uma consulta.
— Nada. Estou ficando velha, só isso.
— Mas precisa se cuidar.
— Ora, não preciso de tantos cuidados.
— Precisa, sim.
Só tenho você no mundo, Justina.
Não suportaria perdê-la. Não agora.
Ela se emocionou e passou delicadamente a mão sobre o rosto do marido.
— Eu o amo tanto, Eriberto.
Ele pigarreou e sentiu uma emoção sem igual.
Procurou dar outro rumo à conversa.
— Não se encontra mais meninas como essa Débora.
Nos dias de hoje, essa moçada não tem o mínimo de respeito por nós.
Somos tratados como máquinas velhas e que não servem para mais nada.
— Débora é diferente, Eriberto.
É moça culta, fina, educada.
Tratou-me com respeito, deu-me atenção.
Ela deve ter pais maravilhosos.
— Para você ver como ainda tem gente que educa bem os filhos.
— Ela deve ter uma família estruturada.
É recém-casada, está esperando um filho.
E sabe que Totó atirou-se nos braços dela?
Eriberto iria responder que se ele fosse um cachorro se atiraria nos braços de Débora, mas procurou não enciumar a esposa.
Tornou, amável:
- Claro! A menina é de uma simpatia sem igual.
— Sinal de que ela é boa pessoa — considerou Justina.
Outro dia ouvi no rádio que os bichos têm muita sensibilidade e percebem quando uma pessoa é boa ou má.
Se é má, eles saem correndo.
— Depois que a menina, quer dizer, que o bebé nascer, vamos convidá-la para frequentar a nossa casa?
Moramos numa casa bonita, ampla, com jardim.
Imagine esse bebé brincando no nosso quintal?
Justina assentiu.
Comoveu-se:
— Como nossa Miriam fazia quando pequenina.
- Não fique triste, minha querida.
Miriam deve estar num lugar muito bom, porque ela era muito boa.
Morreu porque tinha de morrer.
— Tenho pensado muito nisso, meu velho.
Lembra quando fomos à igreja buscar água benta para — ela baixou a voz — fazer aquele ritual?
— Se me lembro.
Ainda bem que não fizemos nada.
Graças a Deus encontramos dona Hilda.
— Eu não gostava muito de encontrá-la porque ela é espírita e eu sempre tive uma visão preconceituosa em relação às pessoas que se dizem espíritas.
— Também tinha outro conceito.
Mas a conversa de dona Hilda clareou-nos a mente e aliviou o nosso coração.
Depois que ela nos ensinou a fazer o Evangelho no Lar, nunca mais tivemos noites ruins de sono, calafrios percorrendo o corpo...
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 21, 2015 9:48 pm

— É, Eriberto. Nossa casa parece estar mais "limpa".
O ambiente ficou mais leve.
— Saber que só o corpo de carne de nossa filha foi enterrado, ter a certeza de que Miriam continua viva em espírito e de que vamos nos reencontrar me conforta e tranquiliza.
— E não podemos nos esquecer do que ela falou sobre o perdão — emendou Justina.
Tenho pensado muito sobre isso.
— Gostaria de reencontrar Armando.
Será que ele e Iara moram na mesma casa?
— Creio que não, Eriberto.
— Não fomos ao enterro de Gláucia.
— Estávamos ainda muito magoados com tudo o que havia nos acontecido.
Depois que passou um tempo, comecei a pensar que Iara e Armando podem estar sentindo o mesmo que nós.
Eles também perderam uma filha.
— É mesmo, Justina.
O que me diz de tentarmos localizar o endereço deles?
— Boa ideia, meu velho.
Podemos pedir ajuda para Débora.
- Por que para ela?
— Porque essa moçada é antenada, conhece tudo quanto é tecnologia.
Ela pode acessar um computador e tentar procurar.
Outro dia escutei no rádio que a gente consegue qualquer informação pela internet. Uma maravilha.
— Bem, assim teremos motivo para estreitar os laços de amizade com essa moça.
Chegaram a casa deles e Totó correu para o quintal.
Eriberto disse:
- Mudando de assunto, esqueci de comentar.
- Sobre?
— Sabe que encontrei um pedaço de carne podre embaixo do tanque?
— Um pedaço de carne podre?
Não pode ser. Somos tão limpos.
— Muito estranho.
Ontem fui tirar roupa do varal porque ameaçou chuva.
Deixei cair a cestinha de pregadores no chão e, quando fui juntá-los, apanhei sem querer esse troço.
— Tudo o que Totó pega na rua, ele leva para debaixo do tanque — respondeu Justina.
Não foi assim com os chinelos do seu Aderbal, com a dentadura da dona Ismênia, com...
Eriberto meneava a cabeça:
— Mas era uma coisa estranha, escura e fedida.
— Cadé? Deixe-me ver.
— Negativo. Joguei aquilo no lixo.
O caminhão passou na nossa rua nesta madrugada.
Justina deu de ombros e Eriberto considerou:
- Vai ver Totó remexeu em algum saco de lixo, encontrou um pedaço de carne e trouxe para casa.
— Pode ser.
— Justina.
- Diga, meu bem.
— Estou com uma vontade de comer aquele bolo de carne recheado que só você sabe fazer!
— Hoje é um dia especial, porque conhecemos uma menina especial.
Vou já para a cozinha preparar nosso almoço.
Vá para a varanda terminar de ler seu jornal.
Eles deram um selinho e cada um foi para suas actividades.
Jamais iriam imaginar que o pedaço de carne podre que Eriberto encontrara e jogara no lixo era o dedo de Eneida...
Sarajane comprou o celular e o chip.
Ao preencher o formulário, a vendedora pediu o documento de identidade, e ela entregou o RG de Eneida.
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 21, 2015 9:48 pm

Sarajane tinha os cabelos mais para o louro, Eneida tinha os cabelos crespos e escuros.
A vendedora nem checou.
Estava mais preocupada em sair para almoçar com o vendedor da área de electrodomésticos.
— Assine aqui, faz favor — dizia, enquanto piscava para o vendedor, do outro lado da loja.
Sarajane assinou, apanhou o pacote e saiu, ganhou a rua e entrou no carro.
Abriu o pacote, introduziu o chip.
Chegou atrasada ao escritório.
A construtora Yos tinha uma recepção com duas atendentes e dois seguranças.
Uma das recepcionistas fez careta:
— A protegida do director chega a hora que bem entende.
É muito folgada essa aí — disse a outra.
Sarajane sorriu, encostou seu crachá no visor e passou pela catraca.
Foi até o lavatório, lavou as mãos e sorriu para a imagem no espelho.
- A vingança é um prato que se come frio.
Gargalhou e saiu.
Pegou o elevador e, quando chegou ao andar, correu até a sala de Lucas.
— E então? — indagou ele, ansioso.
— Tudo certo. Comprei o celular.
Agora é só acertar com o pistoleiro.
- Fale baixo, Sarajane.
- Ninguém escuta. Não se preocupe.
- Veja se consegue fechar negócio.
- Vou começar hoje. Trouxe um netbook.
Preciso da senha para captar sinal da internet.
Lucas abriu uma gaveta, pegou um papel e anotou.
- Aí está a senha para você se conectar à rede sem fio.
— Obrigada.
Ela pegou o papel, saiu, foi até sua mesa.
Abriu e ligou o netbook, colocou a senha da rede sem fio e conectou-se à internet.
Começou a fazer suas pesquisas e era mais de seis da tarde quando pegou o elevador para ir embora.
Sarajane desceu, passou pela recepção e as duas atendentes ainda estavam lá.
Começou a chover.
Ela convidou:
— Querem carona?
As duas olharam-se com desconfiança.
Mas a chuva apertou e elas moravam bem longe.
Precisavam pegar ónibus, metro e trem.
- Vamos, decidam.
Não posso esperar começar uma enchente.
Senão vamos as três dormir aqui.
— Melhor a gente aceitar — disse uma.
— Que custa? — ajuntou a outra.
Sarajane sorriu e elas a acompanharam até o carro.
Acomodaram-se no veículo e agradeceram.
— Desculpe pela indelicadeza de hoje — falou a que estava atrás.
Sarajane a encarou pelo espelho retrovisor.
— Que indelicadeza?
— Fui grossa com você.
— Imagine, nem percebi.
Foram conversando e elas pediram para Sarajane deixá-las no Terminal Princesa Isabel, no centro.
A moça passou pelo terminal e foi indo, indo, até que as duas começaram a se preocupar.
— Para onde está nos levando? — perguntou uma delas, já assustadíssima.
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 21, 2015 9:48 pm

— Está tarde.
A chuva ainda está forte e gostaria de comer um lanche.
Querem ir comigo?
Assim me fazem companhia.
Ah, e detalhe: eu pago!
— Está bem — disseram as duas em uníssono.
Sarajane atravessou a Marginal do rio Tietê e foram parar numa lanchonete do outro lado da cidade, quilómetros e quilómetros de distância do terminal e da casa das recepcionistas.
- Eu pago o lanche.
Depois as deixo no terminal.
Combinado?
— Claro.
— Vou ao banheiro.
Estou apertada. Com licença.
Quando Sarajane se afastou, a outra disse:
— Ela é legal, né?
— Se é. E a gente aqui falando mal da pobrezinha.
Acomodaram-se numa mesinha, de costas para os banheiros, e fizeram seus pedidos.
Sarajane saiu de fininho, pegou o carro, deu partida e sumiu.
A chuva apertou e ela riu:
- Esqueci de dizer a elas que a rua dessa lanchonete enche de água.
As pobrezinhas vão dormir sobre a chapa de hambúrguer.
Vão chegar ao trabalho amanhã cheirando a gordura!
Isso é o máximo!
Gargalhou e começou a fazer algo que adorava quando chovia:
passar com o carro sobre as poças de água próximo ao meio-fio, de preferência onde havia ponto de ónibus com bastante gente.
Sarajane afundava o pé no acelerador e era um banho de água nos pobres coitados, que mal conseguiam se proteger.
Ela nem ligava para os impropérios.
Olhava pelo retrovisor e se contorcia de prazer ao ver as pessoas encharcadas de água.
— Ai, que delícia!
Como gosto de chuva!
Enquanto isso, as duas recepcionistas ficaram presas e ilhadas na lanchonete.
Dormiram próximo da chapa, pois a noite estava muito fria.
Uma hora e meia depois, Sarajane estava em casa.
A tromba-d'água tinha passado.
Só uma garoa fininha insistia em cair.
Coriolano choramingava.
- O que foi, titio?
— Estou com dor. Muita dor.
Esse machucado — apontou para uma das pernas — não cicatriza.
— O que posso fazer?
- Preciso ir ao médico.
— Não. Nada de médico.
Choveu bastante e há muitos pontos alagados na cidade.
Vou apanhar um comprimido para aliviar a dor.
— Estou com cólica também.
— Já volto.
Sarajane foi ao banheiro, apanhou uma pastilha para cólica.
Desceu, encheu um copo de água e levou até o quartinho.
Ela sentia tremendo bem-estar.
Tentava imaginar como as meninas chegariam em casa.
— Quero chegar cedo amanhã para ver a carinha delas.
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 21, 2015 9:48 pm

Coriolano engoliu a pastilha e bebeu um pouco de água.
— Obrigado.
- De nada, titio.
— Está mudada, tem me tratado melhor.
O que aconteceu?
— Não mudei.
- Sabe, você me lembra muito sua mãe.
Sarajane sentiu um estremecimento.
Sua mente havia bloqueado boa parte do passado.
E a palavra "mãe; accionara a chave para abrir essa caixa-preta.
- Não fale mais.
— Por quê? Sua mãe era bonita.
Sarajane deu um grito e tapou os ouvidos.
— Não quero lembrar!
Não quero lembrar! — saiu correndo e trancou-se no quarto.
Coriolano sorriu com ar triunfante.
— Agora vou inverter esse jogo...
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 21, 2015 9:49 pm

Capítulo Vinte e Dois

Jussara procurava se readaptar à nova vida.
Vendera o salão, pagara os funcionários, os impostos, cobrira os débitos no banco.
Estava se preparando para mudar para Santos e recomeçar.
O que iria fazer numa cidade que mal conhecia?
— Trabalhar num quiosque, talvez — disse para si, enquanto embalava seus pertences.
O passado voltava com força à sua mente e ela tentava espantá-lo com as mãos.
— Xô, passado. Não quero lembrar.
Mas as imagens insistiam em voltar.
Era como se estivesse dando um sinal, querendo dizer alguma coisa para Jussara.
Ela rebatia:
- Por que fui me envolver com aquele médico?
Arruinei a minha vida profissional por conta de uma paixonite, por conta de um caso.
Ela falava alto para tentar diminuir o remorso que a corroía.
Afinal, Jussara graduara-se em enfermagem com a nota mais alta da turma.
Tinha talento natural para lidar com pacientes doentes e difíceis.
Seu jeito materno de ser cativava a todos.
Jussara arrumava somente namorado-encrenca.
Todos os rapazes que cruzavam seu caminho lhe deixavam uma ferida emocional, uma dor, uma mágoa, um sentimento ruim.
Cansada de sofrer, dedicou-se à enfermagem e esqueceu os relacionamentos afectivos.
Um dia cruzou com doutor Novaes no corredor do hospital e foi uma paixão fulminante.
Novaes era bem mais velho e Jussara acreditava que, ao se relacionar com um homem mais velho, não passaria pelo mesmo que passara com rapazes da sua idade.
Ela ainda se recordava das palavras de Iara:
— Cuidado. Ele é casado.
— E daí? É só um caso bobo.
Mas não era.
Jussara tentara enganar a si mesma, tentara ludibriar seu coração.
Apaixonou-se perdidamente e embarcou numa paixão louca.
Não demorou muito para que os colegas de trabalho percebessem o envolvimento.
Dois meses depois, a mulher de Novaes estava na porta do hospital fazendo escândalo.
Jussara foi obrigada a se demitir e nunca mais quis saber de hospital, enfermagem e médicos.
Passou a ter trauma da cor branca.
Nas festas de fim de ano usava roupas claras, mas tinha pavor de voltar a usar branco.
- Meu Deus! Ajude-me a encontrar uma solução.
Estou tão perdida.
Mas sei que com Sua ajuda tudo vai se resolver.
Eu quero confiar que terei um futuro melhor.
Juro que quero.
Começou a meditar sobre os acontecimentos mais significativos de sua vida, como aqueles balanços que costumamos fazer no fim de ano.
Abriu a última gaveta do armário com força acima do habitual, o gavetão saiu do trilho e caiu.
- Ai! E agora?
Jussara foi encaixar a gaveta nos trilhos quando escutou um barulhinho de metal.
Passou a mão por debaixo da gaveta e notou algo enroscado.
Puxou o que parecia um fio dourado.
Ao ver aquilo na mão, deu um grito de susto.
— O colarzinho de Gláucia!
O que está fazendo aqui?!
Imediatamente, um arrepio percorreu-lhe o corpo.
Jussara sentiu medo.
Medo do que começava a se afigurar em sua mente.
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 21, 2015 9:49 pm

Ela meneou a cabeça violentamente:
— Não é possível!
Cirilo não estaria envolvido na morte de Gláucia. Isso não!
Largou tudo e foi até a cozinha.
Ligou para Iara.
— Olá, amiga.
Tudo pronto para a mudança?
— Iara, precisamos conversar.
— Que voz é essa?
Aconteceu alguma coisa?
- Aconteceu.
Armando está em casa?
— Acabou de chegar.
— Estou indo para a sua casa. Agora!
Iara desligou o telefone preocupada.
— Com quem estava ao telefone, querida? — perguntou Armando.
— Jussara.
— Está pronta para mudar?
O carreto vai passar amanhã cedo para levar a mudança para a praia.
— Não é isso. Jussara estava aflita, muito aflita.
— Em relação à pizzaria e aos impostos está tudo em ordem.
Não sei o que poderia afligi-la.
O interfone tocou e Iara atendeu.
— Jussara chegou.
Iara e Armando foram para a sala e esperaram.
Jussara entrou trémula, pálida.
Mantinha uma das mãos fechada.
— O que aconteceu, amiga? — indagou Iara.
— Cirilo apareceu? — perguntou Armando.
Jussara mexeu a cabeça para os lados.
— Não — ela respirou fundo e disse:
— Enquanto estava arrumando as malas para a mudança, abri uma gaveta e encontrei isso — abriu a mão.
Iara não entendeu e Armando deu um passo para trás, aterrado.
— Esse é o colar que dei de presente para Gláucia quando ela completou quinze anos — balbuciou.
— É mesmo — ajuntou Iara.
Como apareceu na sua casa?
— Não sei. Fiquei branca quando vi.
Armando considerou:
— De acordo com o testemunho de Magali, esse colar foi arrancado de Gláucia no momento em que o ladrão disparou os tiros contra ela.
Iara olhou para o marido e voltou o olhar para Jussara.
Todos fizeram a mesma pergunta:
— Será?
Luciano apanhou Magali na casa dela.
Buzinou e ela saiu, com um sorriso encantador.
Estava radiante.
— Por que essa alegria toda?
Só porque me viu?
Ela riu mais ainda e disse:
— Estou contente, muito contente.
— Posso saber o motivo dessa felicidade?
Ele engatou a marcha e ela respondeu:
- Mamãe me ligou hoje cedo.
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 21, 2015 9:49 pm

— Dona Ivete! Como anda a nossa andarilha?
- Nem te conto! Anda feliz da vida.
Arrumou emprego, está trabalhando em uma confecção, em Blumenau.
Conheceu um senhor viúvo e... — ela fez suspense.
— Conte-me logo, Magali.
— Eles engataram namoro.
Minha mãe está trabalhando e namorando!
Se me contasse isso um ano atrás, eu daria gargalhadas e acharia um delírio completo.
— As pessoas mudam.
Sua mãe sofreu um choque de realidade.
- Mamãe acreditava que papai iria voltar para casa.
Alimentou esse desejo por anos.
Quando descobriu que ele não mais voltaria, tomou uma atitude.
— Uma sábia atitude.
Admiro muito a sua mãe.
— Ela acordou para a vida.
Havia se abandonado por completo.
— Fico feliz que ela esteja bem.
— Uma preocupação a menos.
Falei também com Carlinhos.
Amanda está grávida. Vou ser titia!
— Parabéns! Parece que hoje é um dia de felicidades!
— Muitas. Quando estamos voltados para o bem, a nossa vida só pode ser abençoada.
— Concordo.
— Como está seu pai?
— Inconsolável.
— Lívia não fala com ele?
— Não. Disse que só há uma maneira de eles reatarem.
— Qual é? — perguntou Magali, interessada.
— Que papai interne Lucas.
— Uma atitude extrema, não?
- Não sei, Magali.
Depois daquela noite, Lucas anda muito estranho.
Não dorme mais, e, quando dorme, o sono é agitado, pesado.
— Pode ser espiritual.
— Também acho, mas meu pai não acredita muito nisso.
— É verdade que Lívia teria provas para incriminar Lucas?
- Lívia é uma moça de bem.
Ela não mentiria sobre essas provas.
— Então... seu irmão é um doido varrido!
É uma ameaça à sociedade.
- Sim, Magali. E não sei o que fazer.
Estou entre a cruz e a espada.
Papai não me ouve, está preocupado em reatar com Lívia.
Lucas também não me escuta.
Quando começo a falar, ele desconversa e se afasta.
— E se conversarmos com a secretária dele?
— Sarajane?
- Essa mesma. Ela não é unha e carne com seu irmão?
— Parece que saiu de férias.
Não a vejo no escritório faz dias.
- Ligue para ela.
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 22, 2015 8:48 pm

- Posso tentar. Creio que não vai ajudar.
O melhor seria meu irmão se render e deixar que a gente pague um bom tratamento médico.
— Tratamento médico combinado com tratamento espiritual.
Continuaram conversando e chegaram ao restaurante.
Luciano havia reservado uma mesa afastada.
Sentaram-se e ele revelou:
— Ontem sonhei com Gláucia.
Magali se emocionou.
— Verdade? Fala sério?
— Hum, hum.
— O que aconteceu?
— Ela me disse que está bem e feliz.
- Graças aos céus! Eu oro por ela todos os dias.
Sinto tanta falta dela... — e deixou uma lágrima escapar.
Luciano pegou um lenço e passou delicadamente sob os olhos dela.
— Não fique assim.
— É emoção. Hoje só tive notícias boas:
mamãe ligou e está namorando, Carlinhos vai ser pai e Gláucia apareceu para lhe dar notícias.
O que mais pode acontecer de bom?
Luciano pigarreou e pousou suas mãos sobre as dela.
— É por isso que reservei esta mesa.
— Não estou entendendo.
— Antes de sonhar com Gláucia, havia tomado uma decisão.
— Qual?
— Que a partir de hoje eu iria enterrar o passado definitivamente e começar nova vida.
Não iria mais pensar no meu relacionamento com Gláucia.
Ao deitar-me ontem à noite, fiz uma prece sentida ao Alto.
Pedi para esquecer os dissabores e pedi perdão a Gláucia.
— Perdão? Você?
— É, Magali. Fui muito duro com ela.
Não deveria vibrar tanto ódio.
Não sei... se estivesse no lugar dela, será que não teria feito o mesmo?
— Sempre lhe disse que ela não agiu por mal.
— Não mesmo.
Daí adormeci e sonhei com ela.
— Sonhou?
Ele fez sim com a cabeça e relatou:
— Gláucia estava linda, com um vestido clarinho, a pele corada, os dentes sempre brancos e perfeitos.
Os cabelos estavam soltos e havia uma rosa enfeitando os cabelos.
Na hora senti medo.
Pensei que ela fosse me xingar, dar o troco por conta dos meus pensamentos negativos contra ela, cobrar-me alguma satisfação. Mas não.
Ela abriu um sorriso e disse estar feliz.
Que agora podia seguir seu caminho e que eu também estava livre para seguir o meu.
— Que lindo! — Magali enxugou os olhos com as costas das mãos.
- Acordei hoje sem ter mais dúvidas quanto à minha decisão.
— Posso saber qual é?
Luciano a fitou nos olhos e disse, voz embargada:
— Magali, quer ser minha namorada?
O susto combinado à grande emoção foi tamanha que, se a cadeira não tivesse encosto, Magali teria ido ao chão.
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 22, 2015 8:48 pm

Capítulo Vinte e Três

Débora estava ao telefone com Iara quando, de repente, sentiu enjoos muito fortes.
— Vamos ao hospital — disse Iara.
— Não é necessário, mamãe. Logo passa.
Vou entrar no oitavo mês.
Você já passou por essa situação. É natural.
— Não é. Estou preocupada.
— Ora, mãe.
Iara foi incisiva:
— Régis pediu para que eu tomasse conta de você.
— Meu marido é preocupado por natureza.
- Ele foi viajar. Você está sozinha.
— Mãe, menos!
Régis foi a uma reunião no Rio de Janeiro.
No fim da tarde já estará de volta.
- Não interessa.
Vamos ao hospital.
— Mas...
- Nada de "mas", Débora. Sou sua mãe e ainda tenho autoridade.
Esteja pronta em vinte minutos.
Débora desligou o telefone.
Um minuto depois, Régis ligou no celular dela.
— Sua mãe me ligou.
— Não acredito!
Acabamos de falar ao telefone.
— Ela disse para eu reforçar, disse que você não quer ir ao hospital.
- Porque não precisa, amor. Estou bem.
É que essa menininha — ela passou delicadamente a mão sobre o ventre volumoso — não para de se mexer.
Acordei cansada e com um pouco de enjoo.
— Já liguei para o médico. Está esperando você.
Disse que tem um parto programado e vai consultá-la no hospital.
— Quanta preocupação!
- Você vai trazer nossa princesa ao mundo.
Quero que você fique bem.
— Mas, Régis...
Não adiantou. Régis também foi categórico.
Embora a gravidez estivesse correndo bem, ele era pai de primeira viagem.
Não estava acostumado com os enjoos, indisposições, cansaços e outras mudanças no comportamento de Débora.
Alguns minutos depois, Iara buzinou e Débora entrou no carro.
— Sua aparência não está boa.
Está muito inchada para o meu gosto.
— Claro, mãe. Engordei quinze quilos.
Queria que eu estivesse como?
- Eu sou mãe, eu sei.
Você precisa passar pelo médico.
Quando ele disser que está tudo bem, daí eu vou acreditar.
Débora meneou a cabeça para os lados e sorriu.
— Você e meu marido são terríveis.
— Queremos o melhor para as nossas meninas, para você e para essa coisa fofa que virá ao mundo — apontou para o ventre de Débora.
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 22, 2015 8:48 pm

Passava do meio-dia quando Débora foi liberada.
Iara ficou assinando alguns papéis na recepção e a moça ficou observando as pessoas que chegavam e saíam, tentando perscrutar a mente das pessoas.
— Interessante — ela disse em voz alta.
Até que seus olhos reconheceram aquele senhor.
Débora franziu o cenho e caminhou até a poltrona em que ele estava sentado.
Eriberto estava com as mãos sobre o rosto, desorientado.
Débora aproximou-se e tocou levemente em seu ombro.
Eriberto tirou as mãos do rosto e levantou-se de um salto.
Abraçou-se a Débora e começou a chorar.
- O que aconteceu, seu Eriberto?
— Justina não passou bem à noite, sentia formigamento no lado esquerdo do corpo, tontura, mal conseguia ficar em pé.
Senti que era algo sério e a trouxe imediatamente para o hospital.
Ela teve um acidente vascular cerebral — e começou a chorar.
Débora também chorou.
- Eu encontrei dona Justina há duas semanas, no parque. Estava tão bem.
- Ela estava diferente.
Eu insistia para irmos ao médico e ela não quis.
Se eu fosse mais duro...
— Não, seu Eriberto.
Não pode culpar-se.
Ainda bem que correu para cá.
— Sim. Os médicos me disseram que o tempo é factor crucial para que a minha Justina tenha uma boa recuperação.
Iara estava logo atrás e reconheceu Eriberto.
Ela engoliu em seco.
Sabia que Débora o conhecera, assim como Justina, e conversaram como Débora poderia revelar a eles, de maneira menos traumática, ser filha de Armando.
E agora estava frente a frente com o homem, numa situação delicada.
Eriberto estava tão transtornado que não a reconheceu.
E nem a reconheceria.
Eles haviam se visto num relance, muitos anos atrás.
Débora simplesmente apresentou Iara como "minha mãe". E ponto.
Iara tinha tido uma tia que sofrera um acidente vascular cerebral três anos antes, e perguntou, preocupada:
— Os médicos informaram se foi um AVC isquémico ou hemorrágico?
— Esquémico. Entupimento do vaso sanguíneo.
Justina está na UTI e recebeu medicação anti-trombática para desfazer o coágulo e permitir a passagem de sangue para o cérebro.
Agora preciso esperar até a noite para saber se minha esposa vai ficar com sequelas.
— Eu vou ficar com o senhor.
- De forma alguma. Olhe esse barrigão!
Aqui não é ambiente para uma mulher grávida.
- Sozinho não pode ficar.
— Débora tem razão.
Vamos até a lanchonete da esquina.
Aposto que o senhor não come nada desde ontem à noite.
- Estou sem fome.
- Mas precisa se alimentar, seu Eriberto.
Quando dona Justina voltar para casa, precisará estar com saúde para cuidar dela.
Vamos tomar um café, comer um pãozinho.
— Vamos lhe fazer companhia — tornou Iara.
— Os médicos podem me chamar.
— Não, dona Justina está na UTI.
Qual será o horário permitido para visita?
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 22, 2015 8:48 pm

— Três da tarde.
Débora consultou o relógio.
- É pouco mais de meio-dia.
Temos tempo. Vamos.
Débora passou o braço pelas costas de Eriberto e apoiou a mão sobre o ombro.
Iara ia logo atrás e estava estupefacta.
"Não vai dar para esconder por muito mais tempo", pensou.
Sarajane tinha mania de frequentar redes sociais via internet.
Tinha um monte de amigos, mas não conhecia pessoalmente um que fosse.
Eram todos amigos virtuais.
E o perfil dela só tinha dados falsos: ela mentira no nome, na idade, na profissão...
Usava a rede para poder matar hora no trabalho e se divertir, fazendo-se passar por uma mulher que, talvez, ela gostaria de ser e não era.
Marcava o encontro e não aparecia.
Dava número de telefone errado.
Dentre esses amigos virtuais, Sarajane reconheceu o perfil de Cirilo.
— Veja só: o moço da roda de pagode.
Ele tinha amigos barras-pesadas.
Não vai ser difícil Cirilo conseguir o que quero...
Sarajane procurou na agenda e encontrou o número dele.
Ligou e ele demorou a se lembrar dela, pois estava numa situação de penúria.
Envolvera-se com drogas pesadas e não enxergava mais caminho de volta, para livrar-se do vício.
Empolgada, ela recordou-se de que, depois da noite na roda de pagode, saíram mais uma, duas, três vezes.
Os encontros tornaram-se cada vez mais constantes e eles passaram a dormir juntos uma vez por semana.
Sarajane comprava droga para Cirilo e ele foi se abrindo.
Contou sobre uma cena que não lhe saía do pensamento, principalmente nos momentos em que estava sóbrio:
- Eu vi a morte de perto.
- Tentaram matar você?
— Não. Eu... eu...
— Fala logo, amorzinho.
- Eu dei carona para um colega barra-pesada. Assaltante.
— E daí? — indagou Sarajane, curiosa.
- Ele assaltou e matou a filha da amiga da minha mulher.
- E você com isso?
— Juro que nunca fiz mal a uma mosca, gata.
O Siderval estava metido com tráfico de drogas, foi me dando pó...
— Também, com esse nome!
Até eu me drogaria — eles riram e Sarajane concluiu:
— Você se encheu de cocaína e não conseguiu pagar.
— Não consegui. Pedi prazo e tudo.
Jussara, minha mulher na época, desconfiou e trocou a senha do banco.
Mas a burra deixou tudo anotado num papelzinho que guardava num livro de poesias.
— Que mulher fantástica a sua — comentou irónica.
Sei. Continue. Estou gostando.
— Daí ele disse que zerava minha conta de pó se eu fizesse um favor.
Lembra-se daquela noite em que você me encontrou na roda de pagode?
— Lembro. Você saiu mais cedo...
— Foi naquela noite que aconteceu tudo, Sarajane.
O Siderval me obrigou a sair da festa.
Depois roubou uma moto e obrigou-me a dirigir e levá-lo para uma "volta".
Senão me matava.
— Por isso você não voltou mais.
Pensei que queria me dar o cano.
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 22, 2015 8:49 pm

— Longe disso, gata.
Eu gosto de você.
— E — Sarajane prosseguiu — assaltaram a menina e pluft!
Ela morreu. É isso?
- Não! Siderval assaltou.
Ele matou. Eu só dirigi a moto roubada.
— Não deixa de ser cúmplice.
— Não fale assim, gata.
Estou me borrando de medo.
— E a moto que vocês usaram?
- Ele parou num matagal, jogou gasolina sobre a moto e ateou fogo.
Depois me deu uma grana para a condução.
— Onde se encontra o tal Siderval?
— Morreu num tiroteio.
— Então você está livre.
Por que o medo? — questionou Sarajane.
— Porque ele matou a garota, pegou a bolsa e, na hora de se despedir, quando queimou a moto, me deu o dinheiro da condução mais o colar que arrancara dela.
Eu não atinei na hora.
Depois do enterro da garota, minha mulher falou sobre o colar roubado, e eu, com muito medo, o escondi numa gaveta.
Acredita que não achei mais o colar?
Tenho medo de que minha mulher o tenha encontrado.
- Fica assim não, amorzinho.
Vem cá que vou deixar você soltinho.
Eles se beijaram e se atracaram na cama.
Uma hora depois, Sarajane teve uma ideia.
- Já sei o que você pode fazer. Sumir de casa.
— Como? Não tenho para onde ir.
— Eu ajudo você.
E, além do mais, você não sabe a senha do banco?
- Não. Não seria justo roubar a Jussara.
— Como não? Quer saber — ela deu um tom fingido e carregado na voz —, eu tenho certeza de que sua esposa está com esse colarzinho e vai entregar você e o colar para a polícia.
— Está louca? Claro que não!
— Vai, sim.
Sou mulher, sei do que somos capazes.
Cirilo coçou a cabeça, apreensivo.
- E agora?
— Vocês são casados?
- Não no papel.
— O que é que está esperando para pegar o dinheiro da conta, rapar tudo e desaparecer no mundo?
Eu ajudo você.
- Ninguém dá ajuda de graça, gata.
— Não mesmo.
Um dia ainda eu vou lhe cobrar...
O tempo passou, Sarajane o reencontrou na internet e, diante de um homem mais envelhecido e castigado pelas drogas, disse à queima-roupa:
— Vim lhe cobrar a ajuda.
Sarajane falou sobre a possibilidade de Cirilo lhe arranjar um matador, visto que ele tinha amigos barras-pesadas.
Contou por cima sobre o desejo de Lucas tirar Lívia do caminho e finalizou:
— Se conseguir um bom pistoleiro, eu lhe dou casa e uma grana preta para você se entupir de pó pelo resto da vida.
O vício de Cirilo chegara ao ponto de ele não conseguir controlar sua vontade.
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 22, 2015 8:49 pm

Virara escravo do pó.
Ele pensou, pensou e tomou a decisão: iria ajudar Sarajane.
Afinal, ele sacara todo o dinheiro que Jussara tinha no banco e torrara tudo com cocaína, vendera a moto e agora estava experimentando o crack.
Numa tarde, desesperado, ligou para Sarajane.
— Preciso de grana.
— Encontrou o rapaz para me fazer "aquele" serviço?
— Ainda não. Mas se a gente se encontrar hoje e me der um adiantamento...
- Pode ser. Meu chefe está no meu pé.
Preciso resolver logo esse assunto.
Encontre-me naquele hotelzinho no centro.
Às onze da noite.
"E se ele estiver doidão?", pensou Sarajane.
"Melhor eu levar aquele spray de pimenta na bolsa.
Preciso me prevenir.
Sou uma menina indefesa."
Às onze da noite, Cirilo chegou alterado ao hotel.
Sarajane já estava no saguão com as chaves e subiram.
Entraram no quarto e ele perguntou, nervoso:
— Trouxe uma grana?
- Sim. Mas é a última vez que lhe trago algum dinheiro.
Precisa me arrumar urgente um conhecido que me faça esse servicinho.
- Está difícil.
- Não tem nenhum amigo viciado que mataria por um punhado de pó, ou de crack?
— Amanhã eu vejo isso. Vamos deitar.
Cirilo acordou na madrugada sentindo um desejo atroz por droga.
Começou a ter uma crise de abstinência e cutucou Sarajane.
Ela dormia a sono solto.
Ele se levantou de um salto, vasculhou a bolsa dela, apanhou todo o dinheiro e saiu, desesperado em saciar seu vício.
Na manhã seguinte, Sarajane acordou, tacteou a cama. Ninguém.
Abriu os olhos e não encontrou Cirilo deitado ao seu lado.
Levantou-se, apanhou a bolsa sobre a mesinha, revirada.
Levou as mãos à cabeça e mordeu os lábios:
- E não é que Cirilo me passou a perna?
Por que fui me envolver com um drogado?
Ela falou e gargalhou.
Depois de se recompor e se arrumar, considerou:
— Lucas não vai gostar nadinha disso. Paciência.
Preciso ir até a minha casa para me arrumar melhor.
Depois verei o que fazer.
Sarajane foi para casa, encontrou Coriolano tomando sol.
- Bom dia, titio.
— Não dormiu em casa esta noite.
— Trabalhei até tarde.
Coriolano coçou a cabeça.
Apanhou o cigarro sobre um banquinho e acendeu.
Deu uma tragada longa e soltou a fumaça.
— Não pode fumar, titio.
Faz mal à sua saúde.
— Vem aqui, quero conversar com você.
Sarajane aproximou-se e Coriolano fez um gesto largo com a mão.
- Aproxime-se.
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 22, 2015 8:49 pm

- Não posso. A sua ferida...
— Não é contagiosa.
A respiração dela alterou-se.
Uma imagem veio à sua mente e Sarajane deu um grito:
- Não!
Depois, nem se arrumou direito.
Apanhou a bolsa, entrou no carro e, no meio do trajecto, já estava melhor.
Ligou o rádio e começou a cantarolar as músicas que tocavam.
Entrou na empresa com ar triunfante e cumprimentou as recepcionistas.
- Oi, fofas. Bom dia para vocês.
Uma não respondeu.
A outra, mais enfezada, atravessou o balcão e foi para a briga.
— Escuta aqui — disse, com raiva.
Não esquecemos o que você nos aprontou.
- Eu?! — perguntou Sarajane surpresa.
Estava ausente há semanas, fazendo trabalho externo.
- Não se faça de besta.
Até hoje tenho pesadelos com aquela noite.
— Não sei do que está falando — disse Sarajane.
Depois, aproximou o nariz dos cabelos da menina e perguntou:
— Ainda com cheiro de chapa de hambúrguer?
Eu tenho um produto fantástico e...
A menina não aguentou e explodiu de raiva.
Pulou para cima de Sarajane e ela se deixou bater.
Os seguranças correram para apartar.
Sarajane aproveitou o momento, sacou da bolsa a lata de spray de pimenta e mirou no rosto da menina.
— Isso é para você não se meter comigo, fofa.
A recepcionista começou a gritar.
— Ela me cegou, ela me cegou...
Sarajane ajeitou a saia e comentou com um dos seguranças:
— Vocês viram!
Ela veio até mim e me atacou.
Eu só me defendi.
- Pode subir, senhorita.
Vamos levar a moça para o distrito.
A moça protestou:
- Não é possível!
Ela aprontou comigo e...
— Nada disso. A senhorita tumultuou o ambiente.
Nós vimos quando atravessou o balcão e agrediu Sarajane.
As câmaras — apontou para o alto e para os lados — são prova de que Sarajane é inocente.
A recepcionista bufou de raiva.
Começou a chorar e a outra colega foi prestar consolo.
Sarajane pegou o elevador.
— Ai, como adoro quando meu dia começa assim, com grandes emoções.
Ela guardou o spray na bolsa e passou a língua sobre os lábios.
Chegou até sua sala e Lucas estava lá, parado.
— Meu pai anunciou oficialmente que vai pedir a mão de Lívia.
— Coisa antiga. Ainda se pede a mão em casamento?
- Pois é, Sarajane.
— O doutor Andrei pode mudar de ideia.
— Qual nada. O velho anda todo meloso, é Lívia para cá, Lívia para lá.
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 22, 2015 8:49 pm

— Ué, ela não ia ficar com seu pai na condição de você se tratar?
Lucas deu um sorriso triunfal.
— Eu finjo que estou frequentando sessões três vezes por semana.
Levo atestado para casa e tudo.
Meu pai e a periguete pensam que eu estou me tratando.
Estou fingindo muito bem.
— Eu o admiro tanto, Lucas.
Queria ser como você.
— Mas é. Temos muita afinidade.
- Afinidades à parte, lamento informar, mas o rapaz com quem estava saindo não vai conseguir alguém para fazer o serviço.
— E agora?
- Vou devolver o dinheiro que você me deu.
Mas está difícil. Se ao menos tivesse anúncio em classificado de jornal:
"Mato seu desafecto e parcelo o pagamento", ficaria mais fácil.
— Estou desesperado.
— Por que não faz o serviço você mesmo?
— Como assim?
— Ora, Lucas, você é um homem de palavra, digno.
Se eu fosse seu pai, entregaria a construtora para você cuidar.
É muito competente.
Ele estufou o peito:
— Sei disso. Você também, mas eles não.
Meu pai não confia em mim.
Luciano tampouco.
— Você pode fazer o serviço.
Empurre-a da escada. É o mais fácil.
Tiro também. Com tanta bala perdida por aí, você pode se dar bem.
Vamos — ela o encorajava —, mate Lívia.
Eu escondo a arma para você, assim como escondi aquele corpo lá em casa, sob quilos de concreto.
Lucas balançou a cabeça para cima e para baixo.
— Você é espectacular, Sarajane.
— Eu?!
— Sim. Sempre me dando ideias maravilhosas.
— Que nada, Lucas.
Faço isso para o seu bem-estar.
Ele sentiu uma pontada na cabeça.
— Essa dor ainda vai me matar.
— Quer um comprimido?
Eu pego uma aspirina para você.
Sarajane saiu da sala.
Com a mente doente, não captava a energia ao redor.
Mas se ela pudesse ver...
Lucas andava de um lado para o outro e as dores estavam ficando cada vez piores.
Um espírito irritadiço estava praticamente grudado nele.
- Desgraçado! Agora que encontrei você, não vou mais perdê-lo de vista.
Eneida estava colada a Lucas, e não iria desgrudar dele tão cedo.
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 22, 2015 8:50 pm

Capítulo Vinte e Quatro

Quando se descobriu desencarnada, Eneida foi acolhida num postinho de socorro astral a fim de obter apoio e sustentação que iria ajudá-la a recomeçar sua vida naquele plano.
Recebeu a visita de uma tia por quem ela sentia muita afeição.
Todavia, ao relembrar seus últimos momentos na Terra, sentiu tremendo mal-estar e, imediatamente, um ódio surdo tomou conta de seu ser.
— Perdoe e esqueça — sugeriu a tia.
Com o tempo, vai entender o porquê de ter passado por tal experiência.
Muitas vezes nosso espírito necessita passar por experiências muito fortes para limpar-se do passado e dar um passo maior na escala de evolução.
— Não, tia.
Eu não concordo com isso.
Não quero entender nada.
Só quero vingança.
— Quem perdoa tira o peso da vingança.
Pense melhor, Eneida.
Mas ela não pensou, não concordou e não aceitou permanecer no posto de socorro.
Mentalizou Lucas com toda sua força e de maneira imediata foi atraída até ele.
Lucas estava sentado num bar, bebendo e conversando com amigos.
Eneida aproximou-se e lhe deu um tapa na cara.
Lucas sentiu leve torpor e acreditou ser efeito da bebida.
Em seguida, Eneida não desgrudou mais dele.
Era triste acompanhá-lo nas noites.
Lucas continuava agressivo e machucava suas parceiras.
Eneida revoltou-se mais ainda e passou a protegê-las.
Cada vez que Lucas saía com uma menina, Eneida usava sua força mental para prejudicar o encontro.
Até o momento em que a aproximação dela ficou tão constante, que Lucas, de vez em quando, a via pelo espelho do banheiro.
— Isso é bobagem — ele dizia.
Depois passava a mão pelo espelho e a imagem sumia.
As dores de cabeça começaram a se tornar constantes e fortes, a ponto de ele gemer de dor.
Tentou ir a especialistas, mas os exames não acusavam nada.
Tudo normal.
Eneida acompanhou a conversa dele com Sarajane.
Indignou-se em saber que Lucas estava prestes a cometer novo assassinato.
— Quem pensa que é?
Deus? — indagou, irritada.
O espírito de Eneida deu uma pancada tão violenta na cabeça de Lucas que ele sentou-se na cadeira, atordoado.
Sarajane lhe trouxe uma aspirina.
Lucas engoliu o comprimido, bebeu um pouco de água, mas a dor não passou.
Concentrou-se em seu objectivo: destruir Lívia para não ver o património de seu pai ser dividido.
— Minha parte ninguém tasca! — bramiu, enquanto dava um murro sobre a mesa.
- De nada vai adiantar perder as estribeiras, tolo.
Acha que agora pode apagar todos aqueles que atrapalham seu caminho?
Acha que pode matar e não pagar por isso?
Não vou deixar — rebateu Eneida.
Judite apareceu na sala e Eneida deu um passo para trás.
— Eu já estou acostumada a perambular por aqui —gritou.
Esse homem é meu.
Não vou dividir com ninguém.
— Não tem problema, Eneida.
Não estou interessada em obsediar o rapaz.
- Como sabe meu nome?
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 22, 2015 8:50 pm

— Sabendo. Agora me diga:
de que adianta atormentá-lo?
— Oras, de que adianta?
Eu quero que ele morra.
— E vai adiantar alguma coisa ele vir para o nosso lado?
Acredita que vai estar em paz com sua consciência?
- Ele tirou a minha vida.
— Lucas ultrapassou todos os limites, sei muito bem.
Mas não acha melhor deixar que a própria consciência dele torne-se seu algoz?
— Não. Eu preciso me vingar.
- Vai trazer sossego ao seu coração?
- Não sei, mas ele vai pagar na mesma moeda.
— Para que fazer isso, Eneida?
Para entrar num ciclo de reencarnações em que ambos terão de se enfrentar?
Para que deixar mais ajustes de contas para o futuro?
Não arrume confusão.
Você é boa, tem um bom coração.
Eneida estava com os olhos marejados.
— Ele me tirou a vida.
— Aconteceu com você o mesmo que fez com ele.
— Impossível. Está falando isso porque quer que eu me afaste dele.
— Não. É porque sua essência foi corrompida anos atrás.
E, depois de muito sofrer, seu espírito pediu para retornar por um curto período, pois desejava se readaptar à vida no mundo terreno.
— Não — Eneida falava num tom mais brando, como se estivesse ficando fraca.
- Sua estadia no planeta deveria ser curta e você poderia adoecer.
O seu espírito, na ânsia de queimar etapas e desenvencilhar-se dos inimigos do passado, atraiu esse desencarne.
Eneida ajoelhou-se.
- Estou fraca. A minha mente embaralhou.
Eu me vejo homem, mercador, vendedor de cana-de-açúcar.
Judite aproximou-se e colocou a mão sobre a testa de Eneida.
— O que mais você vê, Eneida?
— Eu me aproximo de um senhor de engenho muito rico.
Fazemos negócios, ele não quer me pagar.
Eu entro em desespero e o mato.
— Tem certeza do que vê?
— Sim, sim — disse Eneida.
Agora ficou claro.
Eu também matei!
- Olhe para Lucas.
Veja se você lembra-se dele.
Não precisou de muito para Eneida ver em Lucas o senhor de engenho que assassinara séculos atrás.
Ela meneou a cabeça freneticamente:
— Eu matei Loukás!
Eu matei Loukás!
— É verdade.
— Oh, meu Deus!
Como fui capaz de cometer um desatino desses?
— Seu espírito quis provar esse remédio amargo.
Agora você está livre para seguir seu caminho, sem ódio, sem mágoas.
Não terá mais sua consciência acusando-a de nada, pois você está quite com o universo.
— E se eu permanecer aqui ao lado dele?
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 22, 2015 8:50 pm

— Você é dona de sua vida.
Deus não pune, não obriga, não machuca.
Deus só deixa acontecer segundo as nossas escolhas.
Se escolher ficar ao lado de Lucas e atormentá-lo, induzi-lo à morte, vai permanecer ligada a ele pelas amarras do ódio.
Amarras só são desfeitas quando uma das partes cede.
Caso contrário, poderá levar séculos para o acerto.
- Se eu for embora, não vou mais encontrá-lo em meu caminho?
- Por que deveria?
Se ambos estiverem transformados e ligados na força do bem, não vejo problema.
- Mas ele pode continuar a cometer desatinos.
— Deixe-o. Lucas terá de responder por todos os seus crimes.
Não somos Deus. Não cabe a nós julgá-lo.
Cabe a mim e a você seguir nosso caminho, não nos deixando corromper pela maledicência.
Por isso — Judite pousou sua mão sobre a de Eneida — venha comigo e recomece sua nova vida, sem máculas no seu espírito.
Sua tia a espera. Venha.
Eneida fez sim com a cabeça.
— Ainda não consigo perdoar Lucas.
— Não se importe com isso agora.
Seu espírito precisará de tempo para reciclar as ideias, rever posturas, desenvolver novos hábitos e potenciais.
Quando estiver pronta, o perdão virá naturalmente.
Agora venha comigo.
Antes, Judite pousou delicado beijo na fronte de Lucas.
— Uma pena, querido.
Não posso fazer mais nada.
Você se comprometeu com outros espíritos empedernidos, duros, insensíveis.
Quando quiser ajuda, de verdade, estarei por perto.
Ela apanhou a mão de Eneida e desapareceram.
Lucas levantou-se da cadeira sem dor de cabeça.
— Essa aspirina que Sarajane me deu é tiro e queda.
Estou óptimo!
Ele remexeu alguns papéis, saiu da sala e passou pelo corredor.
A porta da sala estava semi-aberta e Andrei estava virado de costas para a porta.
Falava ao celular e Lucas encostou o ouvido.
— Claro, Lívia, entendo.
Se temos tanto trabalho assim, que tal irmos para a praia?...
Sim... Vamos de helicóptero...
A casa é magnífica, de frente para o mar...
Maresias tem praias lindas.
Sim... Combinado...
Também amo você... Até mais.
Lucas andou pé sobre pé e cruzou o corredor.
Passou por Sarajane e lhe estalou um beijo na bochecha.
— A sorte está do meu lado.
Sarajane não entendeu.
Deu de ombros e continuou navegando na internet.
Lucas pegou o elevador, desceu até a garagem, apanhou o carro e sorriu com as ideias sórdidas que se formavam em sua mente:
- Eles vão para a praia no fim-de-semana.
A casa da praia tem escada.
Será o lugar ideal para acabar com essa periguete.
Gargalhou e, envolto em sombras escuras, saiu do edifício cantando os pneus.
Justina recebeu alta do hospital numa quarta-feira, perto da hora do almoço.
Débora fez questão de acompanhar Eriberto até a casa dele.
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 22, 2015 8:50 pm

— Não, menina! Logo seu bebé vai nascer.
Preocupe-se com sua gestação.
— Não preciso me preocupar com nada, seu Eriberto.
Só vou acompanhá-los até em casa.
— Não sei como agradecê-la.
Eu e Justina estamos velhos, não temos parentes próximos.
- Eu tenho um sobrinho que mora em Porto Velho.
Se tem família, não pode me ajudar
— Mas eu posso. Moro perto.
Depois que o bebé nascer, vou poder passar muitas tardes ao seu lado.
— Você é a neta que não tive.
- Mas o senhor teve uma neta.
— Gláucia era boa menina, no entanto, não gostava de nossa companhia.
Preferia as amiguinhas de rua, sempre saía com as coleguinhas.
Pouco ficava connosco.
Depois da adolescência ela rareou as visitas, pretextando colégio, faculdade, provas, trabalho, trânsito... foram tantas as desculpas que praticamente perdemos o contacto.
A enfermeira trouxe Justina, prostrada numa cadeira de rodas.
O único sinal típico do AVC era a paralisia facial do lado esquerdo.
Notava-se o desvio da boca para o lado direito.
No geral, o aspecto de Justina era bom.
Débora aproximou-se da cadeira, abaixou-se com dificuldade, até onde a barriga permitia e beijou Justina no rosto.
- Aqui estou, dona Justina.
Vou levá-la para casa.
Justina mexeu a cabeça para cima e para baixo e esboçou um sorriso.
O médico considerou:
- Dona Justina sofre de disartria, distúrbio da fala, que se apresenta como dificuldade em alto grau de articular as palavras.
No começo não entenderão patavinas, mas com o tempo vão se acostumar e começarão a entender o que ela quer dizer.
Atenção para não deixá-la nervosa.
Dona Justina precisa ficar à vontade.
Se ela não conseguir falar, não force.
— E o que mais, doutor? — perguntou Débora.
— O mais importante agora é a reabilitação.
Tenho certeza de que dona Justina vai reconquistar e melhorar as habilidades comprometidas.
Marquei o fisioterapeuta e o fonoaudiólogo.
Eriberto fazia sim com a cabeça, tentando entender a árdua jornada que seria sua vida dali para a frente.
O médico chamou Débora num canto.
- Você é neta deles?
Débora sorriu.
— Sou.
- Seu Eriberto tem idade, não aguentará carregar dona Justina no colo.
Ele precisa só estar ao lado dela, dando-lhe carinho e atenção.
Seria recomendável contratarem uma cuidadora.
Melhor se puderem contratar uma com conhecimento de enfermagem, porque ela poderá administrar os medicamentos, cuidar do banho e da alimentação, além de outros cuidados que um paciente como dona Justina necessita.
- Pode deixar, doutor.
Seu Eribe... quer dizer, vovô tem condições de pagar pelo serviço desses profissionais.
O médico passou uma lista de exames e medicamentos para Eriberto.
Débora acompanhou a ida de Justina até a casa.
Uma das salas foi adaptada como quarto, pois Justina não subiria mais as escadas.
Depois de tudo ajeitado e quando Justina estava descansando na cama, Débora foi até o jardim e pegou o celular.
- Alô, Jussara?
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 22, 2015 8:51 pm

— Oi.
- Sou eu, Débora.
— Onde você está, menina?
Sua mãe está preocupada!
- Estou bem.
Está gostando da praia?
— Mais ou menos.
Quer dizer, a cidade é linda, não existe orla mais bonita que a de Santos... arrumei um emprego num salão aqui perto.
Acho que vai dar para pagar as despesas.
Mas sinto tanto a falta de vocês!
— Quer voltar para São Paulo?
— E eu lá posso?
Vou viver onde?
— Consegui um emprego para você de enfermeira.
Com casa, comida e carteira assinada. O que me diz?
Jussara desligou o celular com os olhos cheios de água.
Colocou o telefone na bolsa, atravessou a avenida e encostou num quiosque.
- Por favor, vocês podem tomar conta da minha bolsa por um minuto?
A menina que atendia no quiosque prontamente pegou a bolsa e guardou.
- Depois eu volto e você me prepara um sanduíche, pode ser?
- Sim, dona — respondeu a menina.
Pode dar sua volta, sossegada.
Jussara pisou na areia, arrancou os sapatos e correu até as águas.
Entrou no mar com a roupa do corpo.
Mergulhou e, ao sair, agradeceu:
- Obrigada, meu Deus! Obrigada.
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 22, 2015 8:51 pm

Capítulo Vinte e cinco

A tarde chegava ao fim quando o helicóptero pousou.
Andrei desceu e pegou na mão de Lívia.
Abaixaram a cabeça e caminharam com rapidez até poderem esticar o corpo em segurança, longe das hélices.
Andrei fez sinal para o piloto e ele subiu com o helicóptero.
Depois que o barulho cessou, Lívia disse, olhos brilhantes:
— A casa é linda, Andrei.
E a vista é espectacular.
— Sabia que iria gostar.
Agora vamos, os empregados prepararam uma surpresa para você.
— Surpresa? — perguntou Lívia.
- Nosso fim-de-semana será cheio de surpresas.
Eles entraram na casa e a criada apresentou-se.
— Meu nome é Vera, senhorita.
Vou acompanhá-la até seu quarto.
— Obrigada.
Andrei deu um selinho em Lívia.
- Vou subir daqui a pouco.
Preciso de um drinque.
— Vou me arrumar e já desço.
Ela acompanhou Vera até o quarto.
Lívia sorriu e agradeceu.
Fechou a porta e sorriu feliz.
— Que lugar mais fantástico!
Como sou feliz por ter conhecido um homem como Andrei!
Ela começou a desabotoar a blusa quando escutou um ranger de portas.
Vera desceu as escadas e perguntou a Andrei:
— Posso preparar a mesa, doutor?
- Sim, Vera.
Antes vou levar Lívia para dar uma volta na praia — ele consultou o relógio e disse:
— Creio que vamos jantar por volta das oito e meia, pode ser?
- Sim, senhor.
E colocarei três pratos à mesa, certo?
— Como três pratos?
Sou eu e Lívia.
— Seu Lucas chegou um pouquinho antes e me disse que vai jantar com vocês.
Andrei deixou o copo de uísque cair e espatifar-se no chão.
— Lucas está aqui?!
— Sim. Chegou e disse que iria descansar.
Pediu para não ser incomodado.
Andrei sentiu o sangue gelar.
- Aconteceu alguma coisa, doutor Andrei?
Ele pousou as mãos sobre os ombros de Vera:
— Por favor, vá lá fora e, sem alarde, diga ao segurança que doutor Andrei chama.
— Não entendi.
— Só diga isso:
"Doutor Andrei chama".
É um código de pedido de socorro.
Vera começou a tremer.
Rodou nos calcanhares e foi ao encontro do segurança.
Andrei olhou para as escadas e subiu os degraus numa rapidez incrível.
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 22, 2015 8:51 pm

Foi até o quarto de Lucas e estava vazio.
Então caminhou até o seu dormitório e, devagar, girou a maçaneta, abriu a porta.
- Ah, o velho apareceu.
Veio resgatar a mocinha! — gritou Lucas, voz alterada.
— Filho, o que está fazendo?
- Protegendo nosso dinheiro, nosso património.
Lucas estava com uma arma apontada para Lívia.
— Por favor, vamos conversar.
— Negativo.
Se der um passo, eu atiro. Para matar.
— Vamos conversar — sugeriu Lívia.
— Cale a boca! — Lucas vociferou.
A vadia não tem direito a falar.
A periguete tem de manter a boca fechada.
Mais um pio e eu meto uma bala nessa sua cara perfeita.
— Filho, largue essa arma.
— Não.
— Se é dinheiro que você quer, eu passo tudo em seu nome. Tudo.
- Ah, o velho truque da transferência de bens.
Acha que eu vou cair nessa?
— Eu juro. Passo tudo em seu nome.
Chamarei um advogado agora.
Faço o que você quiser, mas não machuque Lívia.
— Não vou machucá-la, vou matá-la.
Lívia não movia um músculo.
De olhos bem abertos, fez uma sentida prece.
Andrei tentou argumentar, mas em vão.
Lucas não mudava de ideia.
— Se você atirar nela, vai preso.
E, se for preso, não vai poder usufruir do nosso dinheiro.
— Hã?
— Sim, filho — Andrei procurava ganhar tempo.
Se matar Lívia, irá para a cadeia.
— Gente rica não fica presa neste país.
Você me ajuda a fugir para o exterior, pai.
Temos exemplos aos montes, todos os dias.
- Vai desgraçar sua vida.
Se matar Lívia, não vou ajudá-lo em nada.
Terá de arcar com fiança, processo, tudo.
Quer ir para a cadeia?
Vai deixar de fazer viagens, trocar de carro, gastar com bebidas e mulheres?
Vamos, filho, pense bem.
Lucas reflectiu por instantes.
Estava tão atormentado e rodeado de sombras que mal conseguia concatenar os pensamentos.
Apontou para Lívia e meneou a cabeça:
— Adeus, querida. Morra.
Antes de apertar o gatilho ouviram um estampido seco.
Lívia gritou e correu para os braços de Andrei.
O segurança chegou na hora e atirou.
Lucas deu um passo para trás e tombou o corpo para a frente.
Em segundos caiu sobre si mesmo.
Sarajane embicou o carro na garagem e, ao descer, avistou a lixeira do vizinho, com caixas de pizza.
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

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