Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 23, 2015 8:21 pm

Foi até lá, xeretou e havia dois pedaços.
Apanhou a caixa, assoprou para espantar as formigas que andavam sobre a cobertura e trouxe o embrulho para casa.
Foi até o quintal, Coriolano sorriu, enquanto fumava seu cigarro.
— Chegou cedo.
— Lucas foi viajar e me deixou sair mais cedo — ela chegou mais perto e disse:
— Olha o que eu trouxe para o titio: pizza!
— Que delícia!
Sarajane abriu a caixa e pegou o pedaço de pizza.
Ainda tinha uma formiga.
Ela tirou com o dedo e entregou ao tio.
— Sobrou lá do escritório.
Aniversário de um gerente.
Coriolano pegou o pedaço e mordeu.
Sentiu um gosto estranho, azedo.
Cuspiu imediatamente.
— O quê? Esta pizza está estragada!
De onde veio isso?
— Do escritório, titio.
Coriolano estava no limite.
— Se eu pudesse levantar, lhe daria uma surra, sua fedelha!
— O senhor nunca falou comigo nesse tom, titio.
— Tantos anos me tratando mal.
Não acha que já chega?
— Chega de quê?
— De me punir.
Sarajane virou o corpo e caminhou para a cozinha.
Coriolano fez um esforço danado para empurrar sua cadeira de rodas.
— Eu não matei sua mãe.
- O que foi que disse?
— Que eu não matei Suellen. O acidente...
Sarajane o interrompeu com secura.
— Pare de falar.
Não quero recordar o acidente.
Não quero!
- Mas precisamos conversar.
Eu preciso que você me perdoe.
Nesse meio tempo, Eriberto estava no jardim preparando a ração de Totó, e escutou parte da conversa.
Preocupou-se, e seu instinto sugeriu que ligasse para a polícia.
Foi o que ele fez.
Coriolano implorou:
— Eu quero me redimir.
Sei que tenho culpa no cartório, mas não aguento mais.
Estou preso nesta cadeira há mais de quinze anos.
Temos de ter essa conversa, nem que eu lhe pague um psiquiatra.
— Não preciso de psiquiatra.
Não sou maluca.
- Você está louca, Sarajane, precisa de tratamento especializado.
A palavra "louca" soou como um alerta.
Uma porta do passado se abriu e Sarajane se viu pequena, com uns sete anos de idade na casa de Coriolano.
A mãe levara ela até lá.
"— Você vai ter de cuidar dela."
"— Não tenho condições."
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 23, 2015 8:21 pm

"— Ela é novinha, não tenho com quem deixar.
Preciso tratar do meu vício.
Cuide dela, Coriolano, ou vou contar à polícia sobre suas sandices."
As cenas vieram embaralhadas e Sarajane viu, aterrada, a briga entre Coriolano e Suellen.
Daí vieram as cenas vivas do acidente de carro e sua mente começou a girar.
Coriolano encostou a mão nela e Sarajane gritou:
— Não encoste em mim!
Não encoste em mim!
— Só quero conversar...
Sarajane entrou na cozinha, abriu a gaveta e pegou uma faca afiada.
Correu até o quintal e, com as duas mãos presas à faca, gritou:
— Morra, seu porco imundo!
No instante em que ela ia cravar a faca em Coriolano, a polícia chegou e Sarajane foi presa em flagrante.
Eles a algemaram e ela não soltou um pio.
Ficou muda e assim ficaria por um longo tempo.
Um dos policiais ajudou Coriolano a entrar na ambulância.
— O senhor é forte!
Sofreu maus-tratos esses anos todos.
Não sei como está vivo.
- Nem eu — respondeu Coriolano —, nem eu.
Coriolano foi hospitalizado.
Seu estado de saúde não era dos bons.
As pernas estavam bem machucadas e a circulação da perna com a ferida começava a ficar comprometida e, associada à diabetes alta, iniciara a formação de grande necrose.
Um dos médicos foi categórico:
— Teremos de amputar uma das pernas.
— Não tem jeito, doutor?
— Não.
Os enfermeiros estavam indignados.
— Como pode uma sobrinha tratar um tio como se fosse um animal? — protestava um.
- Meu Deus!
Como tem gente ruim neste mundo - dizia outro.
— Essa sobrinha deveria ser linchada.
— Também acho.
Viu por que devemos ter pena de morte neste país? — dizia outro, em estado colérico.
Nos noticiários da semana não dava outra matéria:
todos queriam tentar entender como uma pessoa aparentemente normal — como Sarajane demonstrava ser — seria capaz de praticar tantas crueldades a uma pessoa idosa.
Multidões foram às ruas pedir punição severa.
Quando a polícia descobriu uma grande quantia de dinheiro na conta bancária da jovem, advogados puseram-se à disposição de Coriolano para lhe representar nos tribunais e tomar posse do dinheiro.
Começaram a surgir boatos de que Sarajane estivesse ligada ao tráfico de drogas.
Para agravar o quadro e aproveitando o momento "caça às bruxas" a que Sarajane foi submetida, Coriolano, para se vingar de anos de maus-tratos, inventou que a sobrinha mandara cimentar o quintal para esconder uma grande quantidade de drogas.
Os policiais invadiram a casa com britadeiras e encontraram o corpo de Eneida.
A partir daí, a vida de Sarajane ruiu de vez.
Foi necessária protecção policial dentro da cadeia.
As detentas queriam matá-la.
Enfim, o mundo inteiro caiu, impiedoso, sobre Sarajane.
Ela não teve direito a defesa.
As provas contra ela eram muitas.
E, depois que amputaram a perna de Coriolano e ele foi encaminhado para uma casa de saúde, ela virou o monstro, e ele, o santo.
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 23, 2015 8:22 pm

Capítulo Vinte e Seis

O segurança de Andrei metera uma bala de borracha em Lucas.
A dor foi tamanha que ele desmaiou.
E não teve escapatória.
Foi preso em flagrante, sem direito a fiança.
O delegado mandou fotografá-lo e tirar as impressões digitais.
Em seguida, colheu as amostras para o exame de DNA que Lívia tanto esperava.
Com essas provas, Lucas não tinha como escapar.
Passaria anos na prisão.
E, depois, com a mente perturbada e na companhia de tantos desafectos desencarnados, ficaria muitos anos num sanatório para doentes mentais.
Durante um bom tempo, os assuntos que mais davam ibope eram o filho do empresário preso em flagrante e o monstro que maltratava o tio.
Mas, como o tempo corre e as notícias perdem força rapidamente, logo foram esquecendo a história de Lucas.
Andrei mudou-se para Mónaco e Lívia foi com ele.
Passou os negócios para Luciano e, longe dos holofotes, os jornais perderam interesse por ele ou Lucas.
O casamento de Andrei e Lívia foi celebrado de acordo com a tradição grega, com uma linda festa na ilha de Mikonos.
Algum tempo depois, Luciano pediu a mão de Magali e anunciaram o casamento.
Ivete avisou que chegaria uma semana antes para ajudar a filha nos preparativos da cerimónia e da festa.
No aeroporto, Magali estava aflita.
— O que acontece, meu bem? — perguntou Luciano.
— Faz tempo que mamãe partiu, assim como num rabo-de-foguete.
Não sei como ela vai estar.
— Dona Ivete mudou bastante o jeito de ser.
Trabalha, tem um companheiro.
- Mas vai reencontrar meu pai, a esposa dele e o filho dele.
Não sei como ela vai reagir a essa cena.
— Entendo. Bom, estaremos alerta!
Enquanto o avião não aterrava, Magali grudou-se no pescoço de Luciano.
— Amo você.
— Eu também — devolveu ele, com um beijo.
Abraçaram-se e ela perguntou:
— Como está Lucas?
Continua matando carneirinhos?
— Na mesma.
Afirma, a cada hora, que papai ficou de passar todos os nossos bens no nome dele e que está esperando o advogado.
— Não teve melhora.
— Em relação a isso, não.
Mas devo muito a você pela melhora espiritual de Lucas.
- Não fiz nada.
— Como não? Abriu minha mente e me provou que Lucas estava sendo obsedado por uma horda de espíritos.
Ele não dormia, não comia, era constantemente sedado.
Depois que você sugeriu o grupo de médiuns para dar passes em Lucas toda semana, ele melhorou sobremaneira.
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 23, 2015 8:22 pm

- Na verdade, a terapia de passes foi ideia de Débora.
— Esse é mais um motivo de eu tê-la convidado para ser nossa madrinha.
Uma mulher cutucou Magali.
- Oi.
Magali abriu um sorriso:
- Posso ajudá-la?
Precisa de informação?
- Não reconhece a própria mãe, Magali?
Magali deu um passo para trás.
Não podia acreditar no que via.
- Mamãe?!
Ivete e ela deram um abraço daqueles que recebemos quando reencontramos alguém de quem gostamos muito e estamos muito saudosos.
Em seguida, ela cumprimentou Luciano.
Ela estava mesmo diferente.
Mais magra, cabelos louros.
Parecia outra mulher, remoçada e feliz.
— Deixe-me apresentar meu companheiro. Esse é João.
João cumprimentou Magali e Luciano.
Era um senhor distinto, na casa dos sessenta anos, bem-apessoado e com um sorriso cativante.
Luciano ajudou João com as malas e foram caminhando para o estacionamento.
Magali não parava de elogiar a mãe.
— Mãe, não posso crer!
Que mudança maravilhosa, radical!
— Aprendi muito com João.
— Gostei dele também.
Pareceu-me bem simpático. E bem bonito.
— Está muito bem conservado.
— Muito me alegra estar aqui para o meu casamento.
Vamos nos divertir e... — o sorriso de Magali desfez-se.
Ivete perguntou:
— O que foi?
— Nada.
— Algum problema com Luciano?
— Não. Ao contrário.
Estamos muito felizes.
— Então o que é?
— Sabe, mãe, é meu casamento.
Eu só tenho um irmão, você e papai.
Convidei Carlinhos e Amanda.
— E convidou seu pai? — completou Ivete.
- Até o altar.
- Nada mais justo.
- Não tem problema?
— Claro que não.
Filha, aprendi tanta coisa desde que parti!
João é espiritualista e abriu minha mente, serenou meu coração.
Hoje sou outra pessoa.
Magali abraçou a mãe, aliviada.
Elas entabularam conversação e, quando estavam próximo do carro, Ivete considerou:
— Uma coisa é certa:
ninguém gosta de ficar perto de alguém que só se queixa, que vê maldade em tudo, que está sempre na defensiva, como se o mundo estivesse tão-somente interessado em prejudicá-la.
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 23, 2015 8:22 pm

— Entendo.
— Descobri que não sou tão importante assim para os outros.
— O que foi que disse?
Eu a amo, mamãe.
Você é importante para mim.
- Getúlio é seu pai.
Creio que ele deva conduzi-la
- Eu também a amo — ajuntou Ivete — e estou lhe dizendo a verdade.
Os outros estão mais interessados em cuidar de suas vidas, não se importando com nossos problemas.
Percebi que só sou o centro do universo para mim mesma, dentro do meu mundo interior.
É responsabilidade minha, portanto, tornar este mundo melhor, manifestar gratidão a mim mesma pelas conquistas que já fiz e encarar os pontos fracos que preciso melhorar.
Magali estava agradavelmente surpresa com tamanha mudança.
E, antes que pudesse concatenar os pensamentos, para ter certeza de que aquilo era verdade ou não, beliscou o próprio braço.
Ivete concluiu:
- Depois, aprendi com João a confiar na vida e acreditar que tudo acontece para o nosso melhor.
Magali comoveu-se sobremaneira.
Aproximou-se da mãe e abraçou-a com tanta ternura que Ivete também não conteve as lágrimas de felicidade.
Em seguida deram-se as mãos e entraram no carro, cada uma contando suas novas experiências de vida, enquanto Luciano e João, no banco da frente, conversavam sobre os finalistas do campeonato brasileiro de futebol.
Cirilo afundou-se no vício e, certa noite, foi preso tentando assaltar um caixa electrónico.
Preso em flagrante, foi encaminhado para a casa de detenção.
Encontraram na carteira de Cirilo o número de Jussara.
Ligaram e ela foi à delegacia.
Jussara ficou penalizada com o estado de Cirilo.
Bem magro, olhos fundos, expressão abobada, sujo e barbudo.
Não se assemelhava ao homem que conhecera e por quem se apaixonara anos atrás.
Entabularam uma conversa tensa:
— Preciso que me tire daqui, Jussara.
— Como?
— É isso que escutou.
- Foi preso em flagrante e, cá entre nós, cadé o meu dinheiro?
Use-o para pagar um bom advogado.
- Não tem dinheiro algum.
Torrei tudo na compra de drogas.
Se Cirilo falava a verdade ou não, Jussara acreditou.
O estado dele era lastimável e, se tivesse com algum dinheiro, ela saberia.
— Não posso ajudá-lo. Você me tirou tudo.
Tive de vender o salão para pagar funcionários e fechar a pizzaria.
Fui morar de favor num apartamento emprestado por Armando e Iara.
Agora estou trabalhando e, graças a Deus, tenho casa, comida e um salário decente.
— Então pode me ajudar.
— Você precisa de tratamento, Cirilo.
Se quiser se livrar das drogas, posso procurar alguma clínica.
Mas só quando você sair da prisão.
— Por que veio até aqui?
Para tripudiar sobre mim?
Sentiu-se vingada? — tornou, colérico.
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 23, 2015 8:22 pm

— Não. Vim aqui por causa disso — Jussara abriu a bolsa e apanhou o colar.
Mostrou a Cirilo:
— O que isso estava fazendo lá em casa?
Cirilo se fez de bobo.
— Não sei o que é.
— Claro que sabe.
É o colar que Gláucia usava na noite em que foi assassinada.
Assassinada! Sabe o que significa isso, Cirilo?
— Não me acuse!
Não tenho nada a ver com a morte de Gláucia.
- Ah, não tem?
— Não!
— E o que fazia esse colar perdido no fundo do meu armário?
Vamos, diga. Ou então eu chamo o delegado e...
Cirilo desesperou-se:
- Está bem, está bem! Eu conto.
— Fala.
Ele esfregava as mãos, nervoso.
— Eu me envolvi com um traficante da pesada.
Fiquei devendo dinheiro ao Siderval.
Uma noite, ele apareceu num churrasco e me ameaçou:
ou eu dava carona para ele praticar um assalto ou então ele me matava.
Escolhi a primeira opção.
Ele montou na garupa e saímos pela cidade.
Ele praticou um assalto aqui, outro ali, arrombou um carro.
No fim da madrugada me fez encostar na porta do bar.
Foi Siderval quem ameaçou Gláucia e a matou.
Juro que não fiz nada. Eu juro...
— E onde está esse traficante, esse desgraçado?
— Morreu numa troca de tiros com a polícia.
- Tem certeza?
— Estou falando a verdade...
Cirilo começou a chorar descontroladamente.
O remorso corroía seu espírito.
Logo passou a crise de abstinência.
Seu corpo estremeceu todinho e ele teve uma convulsão ali na frente dela.
Jussara respirou fundo, levantou-se e meneou a cabeça:
— Que Deus tenha piedade de você! Adeus.
Ela saiu da delegacia batendo o salto.
— Como pude me envolver com esse canalha um dia? — dizia para si.
Revoltada, ela apanhou um táxi e foi para a casa de Iara.
Conversou com Armando, relatando a ele tudo o que Cirilo lhe contara.
— Cirilo jurou que não matou Gláucia — concluiu.
Armando fechou os olhos e passou a mão no rosto.
— Desculpe-me trazer o assunto à tona, Armando.
Mas precisava saber a verdade.
— O caso foi encerrado por falta de provas.
Se Cirilo jura que o assassino morreu... bem, o que eu posso fazer?
- Será que, passada a crise de abstinência, Cirilo contaria tudo isso ao delegado? — perguntou Iara.
- Pode ser.
Eu não gostaria de cavoucar esse assunto - tornou Armando.
É meu direito escolher.
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 23, 2015 8:22 pm

— Tem toda razão, Armando.
Façamos o seguinte:
amanhã eu vou com a Iara até a delegacia.
- Não. Lá não é ambiente para vocês.
— Queremos ajudar a solucionar o caso — ajuntou Iara.
— E por acaso minha Gláucia vai voltar?
Elas não responderam.
Depois de uma pausa longa, Iara disse:
— Converse com Cirilo, meu amor.
Ao menos você poderá escutar a verdade.
— Jussara me contou a verdade - respondeu Armando, sério.
Eu já sonhei com minha filha.
Seu espírito está bem.
Para que ir atrás de vingança ou de justiça?
Se o assassino morreu, acabou.
Não! Meu instinto diz para não mexermos mais com isso.
É assunto morto e enterrado.
Armando levantou-se impaciente e foi para o banheiro.
Trancou-se e sentou-se no vaso.
Cobriu o rosto com as mãos e deixou que o pranto lavasse sua alma.
- Filha! Ô, minha filha. Quanta saudade!
Quero tanto um sinal, uma luz.
Não acho que devo ir atrás do seu assassino.
Tenho certeza de que ele morreu e deve estar muito perturbado em outra dimensão.
Convença a Iara de que não devemos mais mexer com esse assunto. Por favor!
Gláucia estava ao lado de Armando.
Comovida e olhos marejados, pousou sua mão sobre o coronário dele.
Aos poucos, uma luz suave e violeta saiu das mãos dela, recebendo a energia e passando para todo o corpo dele.
Armando foi serenando aos poucos.
Fez uma prece de agradecimento, levantou-se, lavou o rosto e, ao sair do banheiro, encontrou Iara e Jussara com as fisionomias consternadas.
— O que aconteceu?
Iara falou:
— Ligaram da delegacia.
Cirilo teve um ataque cardíaco e morreu.
Armando fechou os olhos.
— Recebi o sinal!
Obrigado, meu Deus.
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 23, 2015 8:23 pm

Capítulo Vinte e Sete

Débora deu à luz uma linda menina.
Rechonchuda, pele branquinha e cabelos ruivinhos, era uma fofura sem igual.
Um mês depois do nascimento, ela e Régis foram visitar Justina.
Eriberto a recebeu de braços abertos e emocionou-se ao ver a pequena.
- Ela é muito linda.
Como pôde fazer uma menina tão bonita com um marido tão feio? — brincou.
— Feio? O pai dessa criança é um pedaço de mau caminho, seu Eriberto.
— Estou de brincadeira.
Vocês fazem um belo casal e agora formam uma linda família.
Que Deus os abençoe!
- Obrigada.
— Como está dona Justina? — perguntou Régis.
— Progrediu pouco, mas progrediu.
Os médicos dizem que ela não vai ter uma melhora assim tão grande.
A fala ficou mesmo bem comprometida.
- As sessões de fono vão ajudá-la — contrapôs Débora.
— Sim, mas Justina tem idade.
Não sou pessimista, mas realista.
Enfim, o que importa é que minha velha está viva.
Apresenta um quadro estável e é paparicada o tempo todo por Jussara.
- Jussara é um encanto de pessoa — tornou Débora.
- Uma mulher especial — emendou Régis.
— Estou muito feliz — respondeu Eriberto.
Foi graças a você que Jussara veio para cá.
— Juntei o útil ao agradável, seu Eriberto.
Sabia que vocês iriam adorar Jussara.
No fim, vocês ganharam uma filha.
- E você é como uma neta para mim.
— E ganhou uma bisneta — acrescentou Régis.
Eriberto embalou a menina e Jussara apareceu no corredor.
Cumprimentaram-se e ela pegou a bebé.
- Que coisa rica! Que menina linda!
Posso levá-la para dona Justina conhecê-la?
— Foi por isso que viemos — disse Débora.
Vou amamentá-la daqui a pouco.
— Fiquem à vontade — prosseguiu Eriberto.
— Eu gostaria de conversar um minutinho com o senhor. Podemos?
— O que foi?
Aconteceu alguma coisa?
Débora sorriu.
— Sim. Vamos nos sentar?
Atravessaram o corredor e foram para a sala de estar.
Eriberto ajeitou-se numa poltrona.
Débora e Régis sentaram-se no sofá à frente.
Régis apertou a mão da esposa para lhe transmitir confiança.
— Bem, seu Eriberto, quando conheci dona Justina no parque...
E assim Débora relatou o carinho e a amizade que surgira entre eles.
Daí emendou o assunto e revelou ser filha de Armando e Iara.
Eriberto começou a chorar e pediu para ela parar de falar.
— Desculpe-me, seu Eriberto, mas agora que nossos laços de amizade se estreitaram, eu não podia mais omitir o facto.
Sei que o senhor e dona Justina não gostam de meu pai e de minha mãe, entretanto, veja como a vida funciona!
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 23, 2015 8:23 pm

Juntou-nos dentro de um ambiente de amizade, carinho e respeito.
Se não quiser nossa amizade, saberemos compreender.
Ele assoou o nariz e balançou a cabeça para os lados, muito emocionado.
— Você não sabe o peso que tirou do meu coração.
Depois que conhecemos você, eu e Justina consideramos procurar Armando e Iara.
Começamos a perceber que Armando perdera a filha e talvez precisasse do nosso apoio, afinal, também perdemos nossa filha.
Mas o número de telefone que tínhamos era antigo.
Os prefixos aqui na cidade mudaram alguns anos atrás.
Resolvemos ir até à casa de Armando, e nos informaram que a casa fora vendida havia muito tempo.
Não conseguimos mais ter contacto.
Justina achou que deveríamos conversar com você para nos ajudar.
— Comigo?
— Sim, Débora.
Você é jovem, entende de internet.
Estávamos prestes a pedir a sua ajuda.
Alguns dias depois a Justina teve o AVC.
— Fico muito feliz que o senhor pense dessa forma.
Eu me afeiçoei muito ao senhor e à dona Justina.
Não gostaria que desentendimentos do passado atrapalhassem nossa relação.
— De forma alguma. Convide seus pais para um chá.
Diga que serão bem-vindos.
Débora levantou-se, contornou a mesa de centro e pediu:
- Por favor, levante-se e me dê um abraço bem apertado.
Eriberto levantou-se e abraçou-se a Débora.
Beijou-a repetidas vezes no rosto.
— Não sabe como nossa vida mudou depois que conhecemos você.
Deus lembrou-se de nós e resolveu enviar um anjo para esta casa.
— Seu Eriberto, outro dia conversaremos com dona Justina, está bem?
— Aos poucos iremos contando a história, falando sobre os meus pais, sobre as coincidências da vida... — tornou Débora, amável.
- Perfeito.
Foram conversando e entraram no quarto de Justina, contíguo à sala de estar.
Justina estava sentada numa poltrona, pernas esticadas.
Vestia uma camisola cor-de-rosa e os cabelos estavam presos num coque elegante.
Jussara aproveitara e passara uma maquilhagem leve em seu rosto.
Estava com boa aparência.
Débora a beijou no rosto.
— Está muito bem, dona Justina!
Justina sorriu e fez sim com a cabeça.
— O que achou da minha filha?
Justina abriu a boca e balbuciou algo como "linda".
Jussara interveio:
— Acho que a pequena está com fome.
Ela buscou meu peito.
— Essa menina é um poço sem fundo — disse Débora, divertida.
Deixe-me pegá-la.
Débora baixou a alça do vestido e deu o peito.
A pequenina mamou com gosto.
- Ela só come e dorme.
Tem a vida que pediu a Deus — brincou Régis.
Justina olhava para Débora e o bebé.
Sua mente voltou ao passado e ela se viu na mesma posição dando de mamar à sua filha.
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 23, 2015 8:23 pm

Comoveu-se e deixou uma lágrima escapar pelo canto do olho.
Eriberto aproximou-se e secou seu olho com um lenço.
- Emocionou-se com essa menina linda, não é meu bem?
Justina fez sim com a cabeça.
— Débora vai trazê-la sempre que puder.
Vamos montar um parquinho no quintal.
Justina sorriu e fez novo sim.
O bebé terminou de mamar e Débora guardou o peito.
Jussara pegou a pequenina no colo.
— Pode deixar que eu a faço arrotar.
Vem com a titia, vem.
Débora fez um sinal para o marido.
Régis deu um toque em Jussara e saíram do quarto.
Ela queria ficar a sós com o casal.
Eriberto pousou a mão dele sobre a de Justina.
Débora comoveu-se com o carinho com que o marido tratava a esposa.
- Dona Justina, eu preciso lhe confidenciar um segredo.
Justina fez novo sim com a cabeça.
— Gostaria que vocês fossem os padrinhos do meu bebé.
Justina fez não com a cabeça.
— Por que não?
Ah, já sei, só por que está assim?
Justina fez novo sim.
— Quero que vocês amem minha filha.
E sejam padrinhos. Não abro mão.
— Vamos aceitar, Justina — implorou Eriberto.
Olha que presente a vida está nos dando.
Justina balançou a cabeça para cima e para baixo. Sorriu.
— Vocês escolheram um nome? — perguntou Eriberto.
— Sim. Minha filha chama-se Miriam.
Eriberto levou a mão à boca para abafar o susto de emoção.
Justina fechou os olhos por instantes.
Levantou a mão direita e fez sinal para Débora aproximar o rosto.
Em seguida ela passou delicadamente a mão sobre a face rosada de Débora.
Abriu a boca e usou de toda sua força:
— O...bri...ga...da.
Quando a polícia descobriu os restos mortais de Eneida no quintal de Coriolano, aproveitou para fazer uma "faxina" na casa toda.
Como o boato sobre a ligação de Sarajane com o tráfico crescera de maneira exponencial, eles procuraram por drogas em todo canto da casa.
Levaram cães farejadores, treinados para encontrar drogas. Nada.
Um dos policiais subiu até o telhado pelo alçapão e abriu a caixa d'água.
Não encontrou nada.
Ao fechar a tampa, sua atenção foi desviada para uma caixa prateada, de alumínio, coberta com pó de anos.
Ele sacudiu e ela não era tão pesada.
Fez barulho, mas não identificou o que era.
Arrebentou o trinco e achou ali fitas de vídeo, aquelas tipo VHS, que reinaram absolutas até o advento do DVD.
O policial deu de ombros.
Mas, tocado por um sentimento estranho, apanhou a caixa e a levou para o distrito.
Jogou-a num canto do almoxarifado.
— Devem ser gravações de filmes ou novelas do tempo do onça — disse ele para um colega.
O espírito de Suellen, que dera vida a Sarajane, mordiscou os lábios, apreensiva.
Judite foi taxativa:
Não temos mais tempo, Suellen.
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 23, 2015 8:23 pm

— Demorei tantos anos para me recuperar.
Ao morrer, passei fome, frio, precisava de droga.
Perambulei muitos anos pela Terra e não cuidei da minha filha.
— O tempo passou.
Agora que está recuperada e em equilíbrio, poderá visitar Sarajane durante o sono dela.
- Mas ela custa a dormir.
Ficou muda. Não diz mais nada.
Eu subo e desço a mão sobre o rosto e ela não pisca, não move um músculo.
— Está em choque.
O espírito dela não quer ter contacto com a realidade.
— O que Coriolano fez não tem perdão.
- Entendo sua ira, mas deixemos Coriolano nas mãos da justiça dos homens e fatalmente ele terá de enfrentar a justiça de Deus.
Pelo que me consta, Coriolano não vai escapar de nenhuma.
— Sarajane não merece viver assim.
Vai voltar a ser a "louca do Pelourinho"?
— O espírito dela usa a loucura como mecanismo para não colocá-la em contacto com determinadas crueldades que ela mesma praticou ao longo de muitas encarnações.
Lembre-se de que, na época da vida que tivera na Bahia, Sarajane abusou de um mulatinho.
Coriolano era o mulatinho que passou por dura experiência naquela encarnação.
— Isso ocorreu há séculos — tornou indignada.
Ele não tinha direito de fazer o que fez.
— Somos estimulados a fazer o melhor.
Infelizmente os nossos monstros internos nos desviam do caminho —replicou Judite.
Sarajane e Coriolano são espíritos presos por laços de muita dor e sofrimento.
Chegará um momento em que um dos dois deverá ceder e usar da inteligência para se libertar dessas amarras.
Suellen meneou a cabeça, inconformada.
Judite tornou, paciente:
- Suellen, acredite: as situações dolorosas ocorrem para que o encarnado seja estimulado a mudar, despertando as potencialidades que ele traz como sementes divinas.
Infelizmente o sofrimento ainda é uma necessidade humana para a transformação do ser.
A transformação gera mudança de atitude, de pensamento.
- Estou revoltada.
Coriolano merece sofrer.
— Não diga isso.
A revolta não mudará a situação, ao contrário, vai trazer mais dor.
Vamos orar para que ambos saiam dessa corrente negativa, perversa e cruel que consome Sarajane e Coriolano há séculos.
Quem somos nós para julgar?
Todos nós, desencarnados ou encarnados, vamos viver do que plantamos.
Assim funciona a vida.
— Preciso ajudá-la.
Eu falhei com ela.
— De maneira alguma, Suellen.
Você está dando a chance de o mundo rever tudo o que se fez contra Sarajane.
Ela vai receber apoio da sociedade, vai ter o apreço de muita gente.
Vai ser mais fácil você se aproximar dela e dar-lhe amor e carinho.
— É. Hoje é impossível.
A corrente de ódio que se formou ao redor dela é forte demais.
— Mais um motivo para ela ficar nesse estado.
Dessa forma, ela não capta as energias de raiva do mundo.
Nosso tempo está acabando — considerou Judite.
Nossa participação no mundo se encerra por agora.
Nossos entes queridos estão bem e precisamos seguir nossa trajectória evolutiva.
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 23, 2015 8:24 pm

- Então me dê uma última chance.
— Está certo.
Sabe que logo mais teremos um compromisso ao qual não podemos faltar.
— Finalmente a menina que queria casar vai realizar seu sonho!
— Então corra, Suellen.
O tempo urge!
Suellen assentiu e procurou por alguma mente que desse abertura a seus intentos.
Aproximou-se de um escrivão, depois de um delegado.
Avistou um policial cuja luminosidade era sinal que reflectia toda a sua nobreza de carácter.
Era um homem que procurava ser justo e cumprir a lei dos homens com rigor.
Suellen aproximou-se e sussurrou.
— Vá até o almoxarifado.
Pegue a caixa.
O policial andou para um lado, depois para outro.
E Suellen na cola dele, repetindo a mesma frase, como se fosse um mantra:
— Almoxarifado, caixa, almoxarifado, caixa.
O rapaz aproximou-se da caixa, vasculhou o conteúdo.
— O que será que tem aqui? — indagou para si.
Apanhou uma fita e perguntou para outro colega:
— Tem videocassete aqui na delegacia?
- Na sala do Onofre — respondeu.
Ele adora velharia.
Acho que o aparelho está funcionando.
O rapaz colocou a fita sob o braço e foi até a sala onde havia um aparelho de TV com um vídeo.
- Tem uma fita aqui que eu queria ver.
— Fique à vontade.
O policial pegou a fita, enfiou no aparelho e ligaram a TV.
- Agora vamos! — ordenou Judite.
- Seja o que Deus quiser — retrucou Suellen.
Os dois espíritos desapareceram do recinto.
O policial sentou-se numa cadeira e acomodou-se.
Conforme a fita ia rodando e as imagens ganhando força na tela, o semblante do policial foi se transformando violentamente.
As cenas eram repugnantes, horríveis.
Até o mais duro dos homens seria tocado por tanto horror.
Eram fitas caseiras, feitas com câmara própria para vídeo.
Coriolano, bem mais jovem, sorria para a câmara.
Afastou-se e notava-se que ele só usava cuecas.
Ao seu lado uma menina de oito anos.
Ele caminhou para trás da câmara e pediu:
— O que essa garotinha tem para mostrar ao titio?
Timidamente ela ia tirando peça por peça de roupa.
O colega ao lado passou mal e vomitou.
A garotinha no vídeo era Sarajane.
Assustada, nervosa, morrendo de medo, a menina fora submetida a todo tipo de violência sexual.
Coriolano praticara coisas com Sarajane que nem um homem adulto em sã consciência teria coragem de praticar com uma mulher.
As cenas eram pesadas demais, grotescas demais, tristes demais.
Em resumo, depois de analisadas, as fitas foram encaminhadas para perícia e alguns vídeos vazaram na mídia.
A população revoltou-se e agora o quadro se invertera: tentaram invadir a casa de saúde e linchar Coriolano.
Ele passou mal e foi transferido para o hospital.
Os enfermeiros e médicos que tinham piedade daquele velho maltratado pela sobrinha passaram a ter por ele verdadeiro asco.
Coriolano passara a ser o monstro, e Sarajane tornou-se a santa.
A jovem recebeu, então, o carinho e a atenção de organizações não governamentais, e até de organizações do estrangeiro.
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 23, 2015 8:24 pm

Seu caso rodou o mundo e ela recebeu a visita do presidente do nosso país.
Foi encaminhada para um dos sanatórios mais bem equipados do Brasil.
E lá começou a se lembrar da infância bloqueada...
Quando surgiu a primeira menstruação de Sarajane, Coriolano deixou de molestá-la com medo de engravidá-la.
Ele bem que tentou cometer outras atrocidades com a menina, mas os gritos de Sarajane começaram a despertar suspeitas na vizinhança.
Coriolano, então, pensou bem e decidiu que era hora de livrar-se da menina-problema.
Numa tarde, colocou Sarajane no carro e tratou com uma conhecida de internar a menina em um reformatório.
Suellen apareceu e, a contragosto, Coriolano a deixou entrar no carro.
— Suellen está drogada.
Assim que deixar Sarajane, eu cuido de me livrar dela também — disse entre dentes.
No meio da estrada, Suellen notou que a filha estava cheia de marcas arroxeadas próximo às partes íntimas.
Levantou o vestidinho e teve uma crise:
— O que fez à minha menina? — gritou, estupefacta, olhos esbugalhados de horror.
— Fiz nada — respondeu Coriolano, voz fria.
- Seu porco imundo e sujo, seu tarado!
Como pôde abusar de uma criança?
— Você está louca!
Precisa de droga.
— Não! — protestou Suellen.
Não preciso de droga.
Estou mais lúcida do que tudo.
A minha indignação e o amor pela minha filha são maiores que o vício.
Você merece morrer, Coriolano. Morrer!
Descontrolada, Suellen puxou a direcção, o carro pendeu para a outra pista e chocou-se com outro veículo que vinha na mão contrária.
Suellen morreu na hora.
Coriolano ficou preso às ferragens.
Uma perna teve vários ligamentos rompidos e a outra teve o pé bem machucado.
Depois de muitas cirurgias, ele ficou preso à cadeira de rodas.
A pequena Sarajane criou, naquele exacto momento, um bloqueio forte e intransponível.
Foi quando ela se esqueceu dos abusos e deformou a personalidade para não mais sofrer.
Seu espírito precisava desse bloqueio, desse esquecimento para continuar a viver.
Como a energia de ódio ao redor dela foi se desvanecendo, aos poucos Sarajane foi melhorando e passou a ter noites de sono tranquilas.
Entretanto, nunca mais voltou a falar.
Um mês depois de revelada essa notícia chocante e triste, mataram Coriolano dentro do hospital.
Até hoje ninguém sabe, ninguém viu.
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 23, 2015 8:24 pm

Epílogo

A aldeia astral estava florida, alegre, com seus habitantes vestidos elegantemente para a grande ocasião.
A brisa suave balançava placidamente os ramos verdes das árvores, como se estivesse regendo uma filarmónica.
Tudo era beleza, harmonia e paz.
Judite terminou de apanhar algumas flores coloridas e delicadas para formar a grinalda.
Depois juntou outro punhado e fez um lindo arranjo.
Ela se aproximou de Gláucia e pousou sobre a cabeça da moça a linda coroa de flores.
Gláucia olhou para o espelho e sorriu.
- Agora estou parecendo uma noiva, de verdade.
— Está linda! — tornou Judite.
— Enfim, vou me casar.
Nem acredito!
— Só você para realizar um evento desse porte aqui no astral.
Não temos esse hábito.
As pessoas se unem pela sintonia de alma.
Não precisamos de cerimónia, festa, vestidos brancos...
— Sei, sim.
Mas você me entende, não, Judite? — ela assentiu e Gláucia prosseguiu:
— Eu não poderia deixar de realizar esse sonho.
Eu só queria casar...
- Entendo perfeitamente — anuiu.
Gláucia prosseguiu:
— Morri com esse desejo.
Sei que, tanto no mundo físico como neste, o que manda é a alma, o coração.
Sei que a lei, o papel, a aliança, nada segura um casamento.
Queria me casar com Luciano para me livrar de um problema e iria arrumar outros, com certeza.
O que enternece meu espírito, neste momento, é o ritual, é a maneira como essa união de almas afins é realizada no mundo.
Só gostaria de sentir o que muitas amigas minhas sentiram.
- E o que é? — perguntou Judite.
— A emoção de entrar numa igreja solteira e sair de lá casada e comprometida.
Mais nada. Assim que atravessar a nave e subir ao altar, vou dar novo passo para minha evolução, para o amadurecimento do meu espírito.
— A conquista da felicidade está em suas mãos.
Afinal de contas, Deus nos criou com esse objectivo e a vida está aí para mostrar essa verdade.
- Pois é, Judite. Estou tão feliz!
Depois que meu espírito serenou o coração, descobri que amo Xenos há séculos.
Ficamos impedidos de nos unir por conta de escolhas infelizes que fizemos.
Agora que aprendi a me valorizar, respeitar e unir às forças do bem, sei que ficaremos juntos para sempre.
— O amor de vocês é puro e sincero.
É uma energia linda que contagia a todos.
— Agradeço a todos aqueles que me ajudaram a transformar a aldeia para esse evento.
A capela ficou linda, assim como o juiz, os padrinhos...
— Vamos ter até festa! — comemorou Judite.
Essa é a melhor parte.
- Eu não vi a daminha de honra.
Não tem como vir uma criança até aqui?
— De forma alguma.
A nossa aldeia não está autorizada a receber crianças.
— Uma pena — disse Gláucia —, mas estou feliz.
Já que não temos quem carregue as alianças, poderia segurá-las para nós?
— Acertei com Xenos.
Fique sossegada.
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 23, 2015 8:24 pm

Ouviram um sino e Judite disse:
— É chegada a hora da menina que queria casar.
Agora ela vai casar!
As duas riram e Gláucia abraçou-se a Judite.
— Obrigada, por tudo.
— Não há de quê.
Saíram da casa e ganharam a rua.
Um rapaz esticou a mão dando apoio para Gláucia subir na carruagem.
Ela se sentou no banco, ele fechou a portinhola e sentou-se no alto.
Os cavalos começaram a trotar.
As pessoas acenavam para Gláucia no trajecto.
Emocionada, ela desceu da carruagem e parou na porta da igreja.
Uma música suave começou a tocar e as portas se abriram.
Gláucia apanhou seu buquê e foi dar o primeiro passo.
— Espere um pouco — alguém disse.
A dama de honra chegou!
Gláucia olhou para o lado e arregalou os olhos.
— Você?!
- Óbvio, criança.
Era Linda Whitaker, a socialite.
Ela estava exuberante.
— Você veio!
- Acha que eu iria perder um evento desses?
Nem morta! Ou nem viva?
E agora, o que eu digo?
Caíram na risada e Linda apanhou a cestinha com as alianças.
Foi caminhando a passos lentos e Gláucia entrou logo atrás.
Os convidados se levantaram e ela sorria, emocionada.
Atravessou a nave e Xenos a esperava, na ponta do altar.
Ele se aproximou e beijou-lhe a testa.
— Está linda, meu amor.
— Você também, meu querido.
Subiram no altar e ajoelharam-se perante o juiz.
A cerimónia correu tranquila e serena.
O juiz, um espírito moreno, alto e forte, de feição serena e luz radiante, aproveitou o momento e falou sobre o casamento.
Depois de cativar a todos com lindas palavras, finalizou:
— ... o casamento nada mais é do que amizade.
É um contrato íntimo de união, de carinho, de respeito, de manter acesas sempre as chamas do namoro e do amor.
Serve para agigantar nosso ânimo, para certificar nosso entusiasmo pela vida.
O casamento não tem garantia na lei, no uso de aliança, num vestido de noiva, porque quem manda na relação é o coração.
Porque é o coração apaixonado que casa e descasa.
Gláucia e Xenos, emocionados, concordaram fazendo gesto afirmativo com a cabeça.
O juiz sorriu e disse, num grande sorriso:
— Eu os declaro marido e mulher.
Xenos pousou delicado beijo nos lábios da amada.
— Viva os noivos! — saudou um dos presentes.
Os convidados levantaram-se e bateram palmas.
Uma música linda e suave encheu o ambiente.
Pétalas de rosas caíram do alto sobre os noivos, e um halo de luz formou-se ao redor deles, fortalecendo ainda mais os laços de amor que se perdiam nos anais do tempo.
Gláucia sorriu feliz.
Abraçou-se a Xenos e deixaram-se embalar pelo amor que sentiam, verdadeiramente, no coração.

Fim.

§.§.§- Ave sem Ninho
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