Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 16, 2015 8:30 pm

— Não! Um fusível queimou.
Vou precisar chamar um electricista.
Ela girou o registo e a água gelada começou a cair sobre Coriolano.
Ele se debatia e procurava recobrar o fôlego.
— Es... está... mui... muito gelada!
- Água fria é assim mesmo.
Mas tira a sujeira, viu, queridinho?
Deixa eu tirar essa camiseta encardida e essa fralda suja.
Sarajane arrancou a camiseta e a fralda de Coriolano.
Ele levou as mãos até as partes íntimas.
Ela fez que não percebeu e apanhou um pedaço de sabão de coco.
Passou a pedra sobre o rosto dele e os olhos começaram a arder.
— Está ardendo muito! Ai!
- Espere que eu vou até lá dentro da casa apanhar um champô.
Comprei aquele para crianças, tio.
Não arde os olhos.
Ela saiu e Coriolano mirava os olhos na água.
De repente a água foi diminuindo, diminuindo e parou de cair.
Os olhos ainda ardiam, pareciam estar em chamas.
- O que foi? — perguntou ele, desesperado.
- Putz! Acredita que ficamos sem água?
Será que o cano do seu banheiro está com vazamento de novo?
Não acredito! Vou ter de chamar novamente um técnico.
Bom, se bem que o técnico que veio aqui da outra vez não era de se jogar fora, então eu vou ver se acho o nome dele no meu celular e...
Coriolano deu um grito.
— Pare de falar coisas sem nexo!
Meus olhos ardem muito.
Faça alguma coisa!
— Vou pegar uma toalha.
Aguenta firme, tio.
Sarajane saiu de novo e reapareceu com uma toalha pequena, menor que uma toalha de rosto.
Coriolano a pegou com força e passou sobre os olhos.
Gritou de dor.
— O que colocou aqui? Está pior!
— Ai, como sou descuidada, tio.
Acabei lhe dando a toalha embebida em acetona. Mil desculpas.
Da próxima vez eu juro que não vou errar.
Agora preciso terminar de me arrumar.
- Não estou enxergando e estou com fome!
— Tem um resto de macarrão do domingo passado lá no forno.
Vou pegar para esquentar.
— Hoje é sexta-feira.
Deve estar estragado.
— O que não mata engorda, tio.
— Mas...
Melhor macarrão de domingo do que nada, né?
Coriolano não sabia se chorava de raiva ou de remorso.
Mas o pranto era dolorido e triste.
A humilhação a que vinha sendo submetido parecia não ter fim.
— Por quê? Por quê? — sibilava ele, enquanto tentava, sem sucesso, acabar com a ardência nos olhos.
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 16, 2015 8:30 pm

Capítulo Nove

Luciano e Magali entraram na sorveteria e acomodaram-se numa mesa discreta.
Fizeram o pedido.
Quando a garçonete se afastou, ele tocou novamente no assunto:
- Por mais que eu tente, não consigo perdoar a Gláucia.
- Pois tente.
Ela pode sentir a sua vibração negativa de maneira muito forte.
A Débora me disse que, quando um desencarnado recebe uma vibração negativa de alguém, é como se levasse um forte tapa na cara.
E, se a vibração for positiva, é como se recebesse um abraço afectuoso.
O que prefere que Gláucia sinta?
— Que ela leve um tapa.
Muitos tapas.
Magali baixou os olhos e fez sinal negativo com a cabeça.
— Procure esquecer.
- Pois que se dane, oras!
— Como disse Débora outro dia, dos acontecimentos dolorosos podem-se tirar benefícios que ajudarão a todos os envolvidos.
— Fala como se a dor fosse algo bom.
— Não temos como fugir da dor, Luciano.
Faz parte do nosso desenvolvimento aqui no planeta.
Claro que seria óptimo vivermos somente situações agradáveis e felizes.
Infelizmente não acontece dessa forma.
— Se é verdade que existe vida após a morte, desejo toda a minha ira para Gláucia.
Sou um homem de bem, mas não sou bobo e não gosto de ser feito de idiota.
Ela tripudiou sobre meus sentimentos. Inventou um filho. Um filho!
As lágrimas escorriam e Luciano deixou que elas descessem pelo seu rosto.
Magali pousou sua mão na dele.
— Sei que é difícil.
Eu mesma disse a Gláucia para não levar a farsa adiante e conversar com você. Insisti para que ela lhe contasse a verdade.
Ela não me escutou.
- Ela foi manipuladora, traíra.
— Não pensemos assim.
Vamos enviar a ela boas vibrações.
O espírito de Gláucia precisa de nosso apoio.
- Precisa nada.
O que ela fez é imperdoável.
O garção trouxe os sorvetes e a água e afastou-se.
Foi então que Magali abriu largo sorriso:
— Olha quem chegou! Débora!
Ela se levantou e abraçaram-se.
Em seguida, Magali cumprimentou Régis.
— Como vai?
— Bem. Muito bem.
Luciano se levantou para os cumprimentos e os convidou para sentarem-se todos juntos.
Régis e Débora assentiram e puxaram as cadeiras.
O garção anotou os pedidos e ao se retirar, Magali perguntou:
- O que fez, Débora?
— Nada.
— Está muito bonita — emendou Luciano.
Débora corou de felicidade.
- É o amor.
Desde que eu e Régis começamos a namorar, a minha vida ganhou novo significado.
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 16, 2015 8:30 pm

— Digo o mesmo — ajuntou Régis.
Débora é a mulher que sempre sonhei ter na vida.
Ela é perfeita.
- Não existe mulher perfeita — resmungou Luciano.
Magali fez um sinal para Débora, que mexeu a cabeça para cima e para baixo, assentindo.
Sorriu e pegou na mão de Luciano.
Ele estremeceu e disse:
— Sua mão está pelando.
Está quente!
— Você precisa de um pouco de energias revigorantes — tornou Débora.
Estou lhe passando essas energias boas.
No estado em que está, logo ficará de cama.
— A vida perdeu o sentido.
Todos os meus planos foram por água abaixo.
Não confio em mais ninguém.
— Por quê? Só porque foi iludido?
- Sim, Débora.
- Foi iludido porque quis.
Régis e Magali sustiveram a respiração.
Luciano largou a colher sobre a taça de sorvete e arregalou os olhos.
— O que foi que disse, Débora?
— Isso mesmo que você ouviu.
Foi iludido porque quis.
— Não estou entendendo.
- A vida sempre trabalha pelo nosso melhor, mesmo que tenhamos de levar uns sopapos de vez em quando.
A sua vida com Gláucia seria muito infeliz.
Vocês não nasceram um para o outro.
- Não mesmo. Depois do que descobri...
Imagine a minha cara de otário no Instituto Médico-legal.
Eu comecei a gritar com todos, briguei com o médico-legista.
Demorei a acreditar que Gláucia não estivesse grávida.
Achei que tinham assinado o laudo sem terem feito autópsia.
Fiquei fulo da vida.
— Você está parado no passado.
Já passou. Agora a vida o chama para novos desafios.
— Desafio maior do que ser traído?
— Se você tirar a lente do drama, os problemas ficarão menores.
Pare de se sentir vítima da situação.
O garção chegou com o pedido.
Magali e Régis permaneceram em silêncio e Débora prosseguiu:
— Você está vivenciando um grande conflito.
Dessa forma, vai se transformar no obsessor de Gláucia.
— Pensei que obsessor fosse um espírito mau —respondeu Luciano.
— Não. Obsessor, encarnado ou desencarnado, é companheiro, é colega por sintonia energética.
Os espíritos, assim como nós, os encarnados, afinizam-se pela forma parecida de pensar.
Se pensarmos em coisas boas, atrairemos pessoas e espíritos bons.
O mesmo acontece com coisas negativas.
— Vai me dizer que eu estou Obsediando a Gláucia?
Essa é boa.
— obsediar, obsediar, perturbar, importunar de maneira insistente...
Dê o nome que quiser.
Quem não estuda os assuntos espirituais com seriedade acredita que a obsessão é uma via de mão única e só os encarnados são atacados.
Ledo engano.
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 16, 2015 8:30 pm

Régis emendou:
— Outro dia, numa roda de desobsessão no centro, um espírito pedia pelo amor de Deus para conversarmos com a esposa dele.
— É — sorriu Débora.
A esposa rezava todos os dias para ele, pedindo para dar protecção a ela e aos filhos, pedia conselhos, ficava conversando com ele como se estivesse vivo.
Ele não conseguia seguir adiante no plano espiritual.
Estava paralisado por conta do apego dela.
- O meu caso é de traição.
É diferente.
— O teor de energia é o mesmo — rebateu Débora.
Luciano, meu querido, acreditar em vingança, querer revidar ofensas pode desencadear um processo desses.
Perdoar é libertar-se.
Aquele que esquece vence o mal.
Quem sofre de obsessão precisa, antes de tudo, compreender isso.
- Eu não sofro.
Quem deve estar sofrendo é a Gláucia.
Espero que sofra, que sofra muito...
Foi nesse momento que o garção, que se aproximava, derrubou a bandeja e fez o sinal da cruz.
- Jesus amado!
Eu vi uma assombração perto do rapaz — ele falava e tremia.
Bem que minha tia disse para eu frequentar um centro espírita.
Eu vejo alma penada; — e retirou-se.
O garção tinha mesmo visto um espírito.
Gláucia estava ao lado de Luciano e chorava sem parar.
— Eu já pedi perdão.
Eu não aguento mais a sua raiva.
Será que não pode ao menos esquecer-se de mim e deixar-me em paz?
Débora sentiu pequeno calafrio e notou a presença da irmã.
Fez uma sentida prece.
Régis e Magali notaram a atitude da moça, fecharam os olhos e fizeram o mesmo.
Logo, a força da oração fez-se presente e, na forma de um halo de luz, carinhosamente envolveu o espírito de Gláucia.
Ela sumiu e Luciano, mais calmo, balbuciou:
— Como é difícil perdoar.
Como é difícil.
— É difícil, mas não é impossível — rebateu Débora.
A lição veio para todos: para você, para mim, mamãe, papai, Gláucia...
Luciano franziu o cenho e Débora prosseguiu:
— De nada adianta essa raiva.
Um dia você vai se cansar e verá que perdeu muito tempo com um sentimento que não faz bem.
- Ela...
Débora o cortou com firmeza.
Régis e Magali arregalaram os olhos.
— Chega, por agora, de falar no mesmo assunto, de bater na mesma tecla.
Você é um homem bom, bonito, culto e agradável, mas está se tornando uma pessoa chata e sem atractivos.
Faz quatro anos que Gláucia morreu e você não moveu uma palha para mudar sua vida.
O mundo continua indo para a frente, não tem como irmos para trás.
- A minha vida foi para trás — retrucou Luciano.
— Nada anda para trás.
Podemos ficar estacionados, mas jamais andamos para trás.
Você gastou quatro anos de sua preciosa vida lamentando algo que já está lá no passado.
Se Gláucia estivesse grávida de facto, você estaria chorando o filho que não teria conhecido.
Talvez estivesse brigando com Deus.
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 16, 2015 8:31 pm

No entanto, está brigando com Gláucia.
Pare de seguir o triste caminho da obsessão.
— É muito fácil falar.
- Assim como é fácil agir.
Você precisa largar e esquecer.
Vai saber o porquê de você e Gláucia terem se encontrado nesta vida.
Já pensou nisso?
— Não.
- Pois pense.
Ninguém aparece no nosso caminho por acaso.
A vida é inteligente e sempre une as pessoas de acordo com o aprendizado que cada um precisa ter.
— Sempre fui um bom rapaz e acabei sendo traído.
Não sei o que a vida quer me mostrar com isso.
— Pare de se lamentar e aprenda a perdoar a si mesmo e a Gláucia.
Depois vá estudar sobre o mundo espiritual, fazer análise, procure alguma actividade que lhe faça bem.
Viver remoendo o passado não melhora a vida de ninguém.
O garção chegou com a conta.
Régis a apanhou:
— Hoje eu pago.
- Nada disso — rebateu Luciano.
— Faço questão.
— Então os convido para ir ao cinema.
Topam? - indagou Luciano.
Todos concordaram.
Débora percebeu que Gláucia não estava mais na sorveteria, por isso sorriu e enviou uma vibração positiva à irmã.
Sentada na calçada, Gláucia sentia um calor invadir-lhe o peito, por conta da vibração amorosa de Débora, mas ainda chorava.
Uma mulher, usando um vestido surrado, que outrora fora chique e de marca, aproximou-se e sentou-se ao lado dela.
- O que acontece, menina?
- Quero melhorar e ele não deixa — disse Gláucia.
- Ele quem?
— O homem com quem eu ia me casar.
- Ele está entre nós, os mortos?
- Não. Continua encarnado.
Mas me odeia tanto que não consigo ir para frente.
- Bobagem. Você está dando muita trela para alguém que não faz mais parte de sua vida nesta dimensão.
— O ódio dele me puxa para cá.
É como um ímã —tornou Gláucia, impotente.
— Defenda-se, criança.
Use sua força para combater a raiva dele.
— Já tentei e não consigo.
— Então, aproveite.
— Aproveitar o quê?
— A vida nesta dimensão.
- Aprendi que este lugar não mais nos pertence, por ora.
Só os encarnados devem aqui ficar.
A Terra não é ambiente para desencarnados.
— Mas tem um monte perambulando por este mundo, não tem?
- Incrível. Como tem gente perdida!
- Eu não estou perdida.
Estou me divertindo.
— Como consegue? — perguntou Gláucia, surpresa.
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 16, 2015 8:31 pm

— Venha comigo.
Preciso de roupas novas para uma festa que meu marido... quer dizer, ex-marido, vai dar.
- Não podemos comprar roupas — disse Gláucia.
- Não podemos comprar, mas podemos plasmar.
- O que é isso?
- Fazer uma cópia daquilo que apreciamos no mundo dos vivos.
Por exemplo, se eu gosto de algo, faço um trabalho aqui com a minha mente — a mulher apontou para a própria cabeça — e consigo o que desejo.
- Eu já tentei tirar essa roupa de Madonna, mas não consigo — entristeceu-se Gláucia.
— Porque não sabe usar a força do seu pensamento.
Eu vou ajudá-la.
Qual é o seu nome, criança?
- Gláucia.
— O meu é Deolinda Carrão Whitaker.
Os vivos me chamavam de Linda Whitaker, a megera — ela falou e gargalhou.
— Eu me lembro de você! — exclamou Gláucia.
Estava sempre nas revistas de celebridades.
Sempre muito elegante.
— E com a língua muito afiada.
Vi o que não devia, falei o que não podia e fui morta.
Gláucia levou a mão à boca.
— Morta? Mas eu me lembro de quando você morreu.
Não foi em um acidente de carro?
— É o que ficou registado.
Meu marido mandou me matar — respondeu Linda.
— É por isso que está aqui?
— Sim. Eu ainda preciso colocar o Mário atrás das grades.
Depois sossego e vou para uma colónia de luz, obviamente se lá tiver lojas como Chanel, Prada, Gucci...
Gláucia riu.
Tentou imaginar as ruelas do posto de socorro que a atendera depois de seu desencarne cheia de lojas de grife.
Depois disse:
— Eu estava num local de refazimento, mas as vibrações de ódio do meu ex estavam me torturando o espírito.
Não aguentei e saí de lá... quer dizer, fui atraída para cá, num piscar de olhos — Gláucia falou e entristeceu-se.
- O que foi, criança?
- Morrer e largar tudo de uma hora para outra é uma dura lição.
— Mostra que não podemos ser apegados a nada.
Quando morremos, só trazemos as memórias como bagagem.
— Eu ia me casar.
Morri uma semana antes do meu casamento.
- Oh, pobre criatura! — disse Linda.
— Não realizei meu sonho.
Nasci sonhando com o dia do meu casamento.
Um dos meus passeios predilectos era ir a casamentos, fosse de parentes, amigos e até de desconhecidos.
Quando era pequena, assisti a uma reprise do casamento da Lady Di e quase tive um treco.
- Você sonha como uma princesa!
— Não exactamente — ponderou Gláucia.
Na minha mente fico imaginando como seria meu casamento.
- Você poderá se casar.
Seja onde for, onde estiver — tornou Linda.
— Imagine. Casar é ritual que acontece no mundo dos vivos.
— Quem disse?
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 16, 2015 8:31 pm

— Tudo aqui é diferente — retrucou Gláucia.
Mas agora vou deixar meus sonhos de lado.
Arrumei uma companhia.
— Arrumou uma amiga! — disse Linda.
Gostei de você, criança.
- Eu também gostei de você, Linda.
- Venha.
Linda levantou-se e lhe esticou o braço.
- Dê sua mão, vamos entrar naquela loja — apontou — e nos divertir a valer.
Gláucia assentiu e logo estavam dentro de uma loja de roupas femininas caras.
Por instantes Gláucia deixou o sonho do casamento de lado e deixou de sentir as vibrações negativas de Luciano.
Ao contrário, sentiu bem-estar e ficou feliz por estar ao lado de uma celebridade como Linda Whitaker.
Armando terminou de inserir os dados na planilha.
Desceu a tampa do notebook e suspirou com tristeza.
Iara entrou no escritório com uma bandeja.
- Oi, meu bem.
Fiz um chá de camomila para você.
Ele ensaiou um sorriso.
- Obrigado, querida.
- Está abatido.
Uma lágrima lhe escapou pelo canto do olho.
- É tudo muito difícil.
Perder a minha filha assim, de maneira violenta, foi demais da conta.
Iara colocou a bandeja sobre a escrivaninha.
Depois passou delicadamente a mão sobre os cabelos do marido.
- Não se torture.
Lembre-se de que há dois anos recebemos notícias de que Gláucia não sofreu ao desencarnar.
- Será mesmo?
- Por que duvidar?
Ainda bem que acreditamos na continuidade da vida após a morte.
Eu também sinto que, mesmo tendo tido uma morte violenta, Gláucia não sentiu nada.
— Jura?
Iara beijou o marido.
- Eu sinto. Não estou tentando me enganar.
Mas os médiuns daquele centro espírita são muito sérios, estudiosos e aplicados, pesquisam muito sobre a reencarnação.
Se um deles disse que teve notícias de Gláucia e nos afirmou que ela nada sentiu quando desencarnou, devemos lembrar dela com alegria, tendo a certeza de que a vida se passa num instante e logo teremos a chance de nos reencontrar.
Agora, aquiete o seu coração.
— Impossível. Quando Miriam morreu, pensei que o mundo fosse desabar.
Aí conheci você e minha vida ganhou novo sentido.
Mas perder a minha filha... não, isso não é justo.
— Armando, você aprendeu muito enquanto frequentou um centro espírita.
Onde está a sua fé, a crença na vida após a morte do corpo?
Não crê que Gláucia continue viva, em espírito?
Que ela não está enterrada para sempre?
Que sepultamos só um corpo de carne que perdeu sua função?
O espírito dela libertou-se do corpo físico e retornou à pátria espiritual.
Vamos pensar nela com amor, com alegria e vibrar para que siga seu caminho amparada por amigos espirituais.
Armando deixou o pranto correr livremente e a abraçou com força.
— Pensei que nunca mais fosse sentir essa dor.
Esse vazio no peito nunca mais vai embora.
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 16, 2015 8:32 pm

— Ficar sem aqueles que amamos, por agora, é triste e faz nosso coração chorar.
Saber que não vamos mais ver aquele sorriso, sentir aquele abraço, ter aquela conversa amiga, tudo isso nos entristece.
Viver na Terra é aprender a lidar com essas "perdas" temporárias, pois uma hora todos nós vamos nos reencontrar.
Essa é a lei da vida: nascer, viver, morrer e nascer de novo.
— Acho que perdi a fé.
Custo a aceitar.
— De que adianta não aceitar?
A morte de Gláucia é concreta e não aceitar esse facto vai trazer mais dor e sofrimento para você e para sua filha, não importa em que dimensão ela se encontre.
Você precisa ser forte para superar essa perda temporária.
Tem a mim e Débora para se consolar e pode contar connosco. sempre.
— Obrigado.
Armando falou e deixou novamente o pranto correr solto.
Depois, apanhou um lenço, assoou o nariz e recompôs-se.
Pegou sua xícara de chá e bebericou o líquido ainda quente.
O chá quente e as doces palavras de Iara aquietaram-lhe a mente e aliviaram o coração.
Armando teria uma noite de sono tranquila e serena.
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 16, 2015 8:32 pm

Capítulo Dez

Na madrugada em que Gláucia levou os tiros que a mataram, seu espírito adormeceu, desligando-se imediatamente do corpo físico.
Foi como se ela tivesse desmaiado.
Recebeu socorro imediato e foi resgatada por uma equipe de socorristas que se dedicam a receber jovens desencarnados por actos violentos com armas de fogo.
Gláucia permaneceu desacordada por alguns dias.
Seu perispírito passara por uma pequena cirurgia para remoção da bala que se alojara em seu coração.
O pulmão recuperou-se rapidamente.
Alguns meses depois, ela despertou e, ao se ver num leito compartilhado por vários outros doentes, imediatamente apertou o botão ao lado da cama.
Uma simpática enfermeira aproximou-se:
- O que deseja, querida?
— Onde estou?
— Num hospital.
- Sim, eu sei.
Dá para perceber — ajuntou Gláucia.
Mas deve ter ocorrido um engano.
— Como assim? — indagou a enfermeira.
— A empresa em que trabalho me paga um plano de saúde muito bom e muito caro.
Eu tenho direito a apartamento privativo com banheiro.
— Sim, acontece que...
Gláucia apoiou-se nos cotovelos e sentiu um pouco de dor no peito.
Suspirou e prosseguiu:
- Acontece que eu não posso e não quero ficar numa enfermaria, cheia de um monte de gente que não conheço.
Aliás, quantos doentes têm aqui neste salão?
— Duzentos e cinquenta.
Gláucia fez um esgar de incredulidade.
- Que horror!
Nunca pisei num hospital público.
— Aqui todos os hospitais são públicos.
— Você chegou a conferir a minha carteirinha de assistência médica?
A enfermeira sorriu paciente.
- Vi, mas estamos com a casa cheia.
Logo você será transferida para um quarto só seu.
Aguarde mais uns dias, pode ser?
A doçura em sua voz era tanta e os olhos brilhantes e vivos da enfermeira eram tão puros que convenceram Gláucia.
Ela tomou uma medicação, adormeceu e, semanas depois, foi transferida para um quarto privativo.
A enfermeira reapareceu.
Gláucia sorriu assim que a viu.
— Pensei que nunca mais fosse vê-la.
— Trabalho aqui há alguns anos. Com certeza iria me ver.
— Como se chama?
— Judite.
— Tenho a impressão de que a conheço.
— Já nos cruzamos em outras vidas.
— É tão difícil acreditar nisso! — suspirou Gláucia.
— Oras, você está ciente de que seu corpo físico morreu e de que seu espírito é eterno.
— Quase tive um chilique quando ouvi isso do médico que me transferiu para cá.
Depois me deram um monte de livros sobre reencarnação para ler e uma penca de depoimentos em vídeo, de jovens como eu, contando suas experiências de pós-morte.
- Os depoimentos são maravilhosos, não?
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 16, 2015 8:32 pm

— Gostei bastante.
Ver que muitas outras pessoas passaram pelo mesmo que você...
— E que estão bem — complementou Judite.
— Sim, que morreram e estão bem, recuperando-se, procurando se readaptar à vida nesta dimensão...
Gláucia suspirou.
— Não é fácil deixar o mundo de uma hora para outra.
— Você está viva, Gláucia.
Não estamos aqui conversando?
— Sei disso, Judite.
É que eu venho de um mundo em que acreditamos em outros valores, temos outras crenças.
— Nem todos.
Débora, por exemplo, acredita na continuidade da vida após a morte.
Gláucia estremeceu e sentiu uma tontura.
— O que foi? — indagou Judite.
— Nada. Lembrar-me de Débora me deixa assim.
Eu sempre senti certa aversão a ela, sem motivo aparente.
— Tudo na vida tem um motivo, principalmente o sentimento ruim que temos em relação aos outros.
— Eu sinto aversão e, ao mesmo tempo, uma coisa boa.
Meu coração está confuso.
— Não. Seu coração não está confuso.
É a sua mente que está.
— Por quê?
— Quando desencarnamos, sentimos de maneira mais intensa as vibrações dos encarnados.
— Li sobre isso num dos livros.
Depois vi o depoimento de um senhor que não conseguia seguir adiante depois de desencarnado porque a esposa, ainda na Terra, faz pedidos para ele todos os dias, como se ele tivesse virado um santo ou algo do género.
— O pensamento dos encarnados nos chega com mais força — disse Judite.
— E por que tenho esse sentimento ambíguo em relação a Débora?
— Porque Débora é uma moça de sentimentos nobres e puros.
Ela nutre verdadeiro carinho por você.
É por isso que você sente uma coisa boa quando pensa nela.
— Pensei que fosse me sentir pior — Gláucia desconversou.
Morrer jovem é triste.
— Era chegada sua hora.
Se partir da premissa de que temos a eternidade pela frente, não importa o tempo que ficamos no planeta, mas o quanto aprendemos durante essa estadia.
— O que me diz de uma criança que nasce e morre em seguida, ou com poucos anos de vida?
— O espírito, muitas vezes, precisa reencarnar por períodos curtíssimos para harmonizar-se consigo e com o universo.
— Não entendi.
— Um dia vai entender.
Temos muito a aprender.
Por falar em aprender — Judite piscou um olho —, eu já a inscrevi numa palestra cujo tema é Reencarne e desencarne: uma questão de eternidade.
O palestrante é figura carismática, muito querida do público.
Você vai relembrar temas com os quais já teve contacto outras vezes em que passou pelo mundo espiritual, entre suas encarnações.
— Não seria mais fácil eu me lembrar de tudo assim, num piscar de olhos?
— À medida que tiver contacto com os companheiros aqui deste plano e participar de cursos e palestras, terá acesso ao passado e compreenderá muito mais a vida e, o mais importante, você mesma.
Gláucia sorriu, feliz.
Sentia grande carinho por Judite.
- Obrigada por me ajudar.
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 17, 2015 8:09 pm

— Não precisa agradecer quando fazemos tudo movidos pelo genuíno sentimento de ajuda.
Meu coração se alegra ao vê-la bem.
Os dias passaram e Gláucia foi se recuperando.
Às vezes sentia uma tristeza vinda do pai, um lamento de Luciano, mas as vibrações de Iara e Débora tranquilizavam seu espírito.
Tudo mudou quando Luciano teve em mãos o laudo do legista que pagara para descobrir se Gláucia estivera ou não grávida.
O rancor apoderou-se dele e não houve vibração positiva que a sustentasse.
Gláucia não conseguia ainda fazer uma oração, pedir protecção para ela mesma e ficava vulnerável à negatividade de Luciano.
A raiva foi crescendo e Judite a ajudava no que podia:
— Pense bem.
Você está em outra dimensão.
Não pode deixar que a vibração negativa dele a domine.
Seja forte, aprenda a fortalecer seus laços com os espíritos protectores.
- Eu tento, mas o ódio dele é muito forte.
- Não tão forte quanto o seu amor por si mesma.
Reaja, Gláucia.
Mas Gláucia não reagiu.
Deixou-se levar pela raiva de Luciano.
Aos poucos ela foi perdendo o equilíbrio emocional e não demorou muito para retornar ao planeta.
Fazia dois anos que ela não conseguia voltar ao posto de socorro que a acolhera com tanto carinho.
Enquanto ela não aprendesse a lidar com a negatividade de Luciano, seria difícil voltar à vida serena e de paz que começara a cultivar ao lado de Judite.
Como Luciano não parava de vibrar rancor e ódio, era como se Gláucia estivesse presa numa bolha.
Era obsessão invertida, de um encarnado sobre um desencarnado.
O tempo passara e ela se sentia segura ao lado de Linda Whitaker.
A mulher, que quando encarnada fizera parte da alta sociedade, tornara-se uma espécie de mentora para Gláucia.
Linda conhecia alguns espíritos ligados ao umbral e sempre dava dicas de "serviço" para eles.
Saindo da loja de roupas, Gláucia assustou-se com um homem mal-encarado.
Ele iria lhe fazer um gracejo, porém parou ao avistar Linda por trás do ombro dela.
— Desculpe — ele disse.
Não sabia que era sua protegida.
— Pois é — retrucou Linda.
Gláucia é minha amiga, e com amiga minha ninguém mexe.
— Sei disso.
- Arrumei um serviço para você.
O homem abriu a boca, cheia de dentes escurecidos e hálito pútrido, num enorme sorriso.
— O que é?
— Meu ex-marido está saindo com uma menina muito desejada no mundo.
É modelo.
Eu descobri que ela tem sensibilidade e não gosta de tratar do assunto.
Vou lhe dar o endereço para atormentá-la durante o sono.
— Oba!
— Logo ela vai ficar tão magrinha, tão fraca...
A pobrezinha vai achar que tem alguma coisa errada com ela e vai sumir para se tratar.
O homem anotou o endereço e sumiu.
Gláucia não acreditava no que acabara de ver.
— Você é poderosa.
— Não, sou bem relacionada. Só isso.
Eles não me incomodam e eu os adulo com serviços.
- Que tipo de serviço?
— Quando a gente morre, das duas uma:
ou vamos para uma colónia de refazimento ou vamos para o umbral.
- Ou ficamos aqui.
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 17, 2015 8:09 pm

— Aqui não ficamos muito tempo.
Podemos ficar alguns anos, mas um dia teremos de escolher: colónia ou umbral.
- Eu sei. O umbral é um lugar para onde vão aqueles que se encontram em total desequilíbrio emocional.
— Isso mesmo.
Mas nós — Linda apontou para as duas — não nos encaixamos em nenhum dos mundos e ficamos presas aqui na Terra, seja pelo sentimento de alguém que nos prende aqui, seja porque temos contas ajustar com algum desafecto.
É um mundo perigoso, e só os fortes e espertos conseguem suportar essa vibração pesada.
— Eu sou forte.
- Contudo, precisa aprender a ser esperta.
Esses amigos, como o talzinho que saiu há pouco, me ajudam a não ser atacada pelas gangues do umbral, que, vira e mexe, aparecem por aqui, levando um monte de espíritos perdidos com eles.
Gláucia fez o sinal da cruz e Linda gargalhou.
— Não adianta fazer sinal da cruz, minha criança.
Bem-vinda ao mundo cão.
Aprenda a ser esperta e logo viverá muito bem aqui.
— Gostava do lugar onde fui acolhida.
Conheci Judite. uma amiga especial.
- E por que não está com ela?
- Por conta da vibração pesada que meu ex destila sobre mim todo dia.
Gláucia ajeitou os cabelos e perguntou:
— Não pretende ir para um lugar melhor, uma cidade astral?
— Não por agora — respondeu Linda.
Tenho contas a ajustar com meu ex-marido.
Depois, talvez eu siga meu rumo.
Agora vamos jantar.
- Jantar? — perguntou Gláucia, aturdida.
— É, criança.
A gente precisa se alimentar.
— Como?!
— Eu vou ensiná-la a saciar a fome e a sede.
Mas, antes — ela riu —, vamos trocar essa roupa?
Gláucia olhou para o seu corpo e notou que estava com a fantasia da noite em que morrera.
— Santo Deus!
Estive tão perturbada por conta das vibrações negativas de Luciano que nem percebi ainda estar com esta roupa.
Interessante, porque eu usava um vestido de linho azulado quando estava no posto de socorro.
Linda ria.
— Você morreu com a fantasia, mas foi enterrada com o vestido de linho azul.
- Como essa "troca" de roupas pode acontecer?
— É que, ao vir para cá, seu espírito imediatamente trouxe da memória o dia e a maneira como você morreu.
— Eu morri assim, vestida dessa forma.
— Parece a Madonna.
— Pois é...
Gláucia começou a contar a última noite que tivera na Terra.
Linda se divertia e logo entraram num restaurante de luxo, lotado de gente... e de espíritos.
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 17, 2015 8:10 pm

Capítulo Onze

Sarajane cantarolava uma música que tocava no rádio do carro.
Ela nem percebeu quando o semáforo ficou vermelho.
Ultrapassou a faixa de pedestres e quase atropelou uma mulher.
- Doida! — a mulher bateu sobre o capô do carro.
Não respeita pedestre?
Não vê que o sinal fechou?
Só porque tem um carrão acha que pode tudo?
Sarajane sorriu e olhou para os lados.
Não havia ninguém.
Ela desceu o vidro e chamou:
- Minha senhora, venha até aqui.
Tenho que me desculpar.
A mulher fez um muxoxo e aproximou-se do vidro.
Sarajane abriu uma sacola que mantinha no banco de trás do carro, apanhou uma fralda suja de Coriolano e esfregou-a na cara da mulher.
— Sinta o cheiro daquilo que você é!
Sarajane gargalhou, o sinal ficou verde e ela acelerou.
A mulher, com ânsia de vómito, tentava se limpar daquela nojeira.
As pessoas passavam por ela e faziam cara de nojo também.
Ninguém quis ajudar a pobre senhora.
Meia hora depois, Sarajane sorriu e apertou o botão do controle remoto.
Ficou feliz da vida quando trocou o portãozinho de ferro por um de alumínio, alto e que imprimia segurança.
O portão se abriu e ela embicou o carro na garagem.
Saiu, bateu a porta, o cachorro da vizinha apareceu e latiu.
— Oh, vermezinho!
Eu li uma matéria em que médicos americanos estão tirando as cordas vocais de muitos cachorfinhos.
Adoraria pagar a cirurgia para você, fofo — e moveu a boca, sem emitir som:
— Au, au.
Justina apareceu com uma vassoura e tentou abrir o portão.
— Agora a senhora não pode mais empurrar o portãozinho e entrar.
Só esse cachorrinho prestes a morrer é que consegue passar pelas grades.
— Tente mexer com o meu cachorro que dou parte sua na polícia.
Sarajane esboçou um sorriso enquanto guardava a chave do carro na bolsa e perguntou:
— É verdade que a senhora coloca três pratos à mesa?
Justina não prestou atenção.
— Eu não estou de brincadeira, garota.
Sarajane perguntou num tom carinhoso e calmo:
— Vem cá, dona Justina, cadé sua filha?
Justina não entendeu.
Sarajane insistiu, voz afável:
— Cadé sua filha, a Miriam?
— Como?
— Eu queria falar com a Miriam.
— Falar... — Justina deixou a vassoura ir ao chão, trémula.
— Olha, quando fizer uma sessão e o espírito da Miriam baixar, a senhora faz a gentileza de me chamar?
— Hã?
— Ela fazia um macarrão ao pesto tão gostoso!
Eu preciso da receita.
Mas é para agradar um gerente de banco com quem estou saindo.
Vou ganhá-lo na cama e no estômago.
Justina estava perplexa e não sabia o que dizer.
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 17, 2015 8:10 pm

Sarajane meneou a cabeça:
- Tsc, tsc. Ô coitadinha.
A senhora ficou branca de repente.
Já foi ao postinho de saúde verificar a pressão?
Acho que a senhora não está bem — e passou pelo corredor que levava até o quintal.
Boa noite. Dê um beijo na Miriam quando ela aparecer.
Justina sentiu as lágrimas escorrerem pelo rosto e voltou trôpega para casa.
O cachorro a acompanhou.
Bateu a porta e estirou-se no sofá.
- O que aconteceu, minha velha? — perguntou Eriberto, preocupado.
— Preciso de um copo de água primeiro.
Com açúcar, cheio de açúcar, por favor.
Eriberto correu até a cozinha e voltou com o copo de água com açúcar.
Justina sorveu o líquido de uma só vez.
Aos poucos seu rosto foi readquirindo cor.
Ela chorou, chorou e abraçou-se ao marido.
— A Sarajane falou da Miriam.
— Como assim?
— Ela tocou no nome da nossa filha, Eriberto.
— Não posso acreditar.
— Ela zombou de mim, de você e da memória de nossa filha.
Pediu para falar com o espírito de nossa filha...
— Não pense nisso, querida.
Sarajane não bate bem da cabeça.
— Precisamos dar a ela um correctivo.
— Venha cá, não pense em nada.
Justina abraçou-se ao marido.
Eriberto era seu porto seguro.
Depois de se acalmar, ela disse:
— Ela ameaça o nosso cachorro, maltrata o tio...
Podemos dar queixa na polícia.
- De que vai adiantar?
Não temos provas contra ela.
- O que me diz de fazermos um abaixo-assinado?
Há outros vizinhos que não suportam a maneira como ela trata Coriolano.
- Ele não reclama.
Nada podemos fazer.
— Ela tripudiou sobre a memória de nossa filha.
Sarajane mexeu com algo que nos é sagrado, Eriberto.
- Tem razão.
Não tolero desrespeito. Vou até lá.
Eriberto levantou-se, calçou os chinelos e vestiu um roupão sobre o pijama.
Atravessou o jardim da frente de casa
E tocou a campainha da casa de Coriolano.
Tocou de novo, e de novo.
Sarajane apareceu numa combinação íntima minúscula e de saltos altos.
Eriberto tentava desviar os olhos.
Ela passou a língua sobre os lábios, de forma lasciva.
Aproximou-se do portão.
- Em que posso ajudá-lo, seu Eriberto?
— Você... você...
- O que foi? Dona Justina está passando mar?
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 17, 2015 8:10 pm

Eu bem disse a ela que a pressão dela poderia ter subido.
A idade é fogo.
Eriberto não sabia o que dizer.
— Oh, o gato comeu sua língua?
Hum — Sarajane gemeu e colocou a língua para fora, movendo-a para os lados, num ritmo frenético.
Será que o gato comeu mesmo a sua língua?
Deixe eu ver a sua língua, velhinho.
Eriberto sentiu o hálito perfumado dela, seu corpo esquentou e ele ficou desconcertado.
Rodou nos calcanhares e correu para casa.
Bateu a porta e caminhou na direcção do banheiro.
— Falou com ela? — indagou Justina, já recomposta.
— Falei — ele disse, enquanto corria e se trancava no banheiro.
Eriberto sentira a sedução de Sarajane como garras afiadas que provocavam seu instinto.
Ficou pasmado.
Abriu a torneira da pia e abaixou a cabeça.
Jogou muita água fria no rosto até sentir-se calmo e refeito.
Sarajane voltou para dentro de casa.
Atendeu o celular, que tocava.
Era o gerente do banco.
Ela fingiu ser uma adolescente e atiçou a libido do outro lado da linha.
Desligou o celular e jogou o aparelho sobre o sofá.
— Hoje eu vou matar esse gerente babaca de tanto prazer.
E arrancar dele tudo o que preciso para satisfazer o Lucas.
Então, Coriolano a chamou do quartinho.
— Estou com fome, Sarajane.
Ela sorriu e, de roupas íntimas e saltos, foi até a edícula.
— O que disse, titio?
Coriolano a olhou e não acreditou.
Ele sentiu o sangue sumir.
Apanhou um cigarro e o acendeu.
Tragou várias vezes.
— Já disse para parar de fumar.
— Por que está vestida assim?
Ela não escutava. Prosseguiu:
— A ferida da perna está feia.
— Deixe que eu cuido da ferida — disse ele.
Vista-se de maneira decente.
— Ora, titio.
O senhor já viu mulheres assim, vai.
— Mas você é minha...
— Sobrinha do coração.
Quantas vezes me pegou no colo?
Um monte, né?
— Eu sei, mas agora é diferente.
— O que é diferente? — ela ergueu uma das pernas e pousou-a sobre as pernas dele.
Diga-me.
O que é diferente, agora?
— Na... nada.
Coriolano estava deitado na cama e desviou os olhos para a parede.
Tragou o cigarro e soltou as baforadas.
Sentia-se constrangido.
— Você está quase nua. Vista-se.
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 17, 2015 8:10 pm

— O titio está se sentindo constrangido comigo?
Só porque estou assim, quase como vim ao mundo?
Aproveite e encha seus olhos de prazer.
Não é todo dia que se vê uma mulher assim gostosa, com tudo em cima — ela provocou.
— Pare, Sarajane.
Em nome de Deus, pare.
— Vou parar, sim.
Mas não é em nome de Deus.
Vou parar porque tenho um encontro.
Estou atrasada.
— Preciso do jantar. Estou faminto.
— Tem sopa de legumes.
— Está com gosto azedo.
Acho que estragou.
- Ué, como pode ser?
Eu fiz a sopa na semana passada!
Usei legumes de primeira qualidade.
Não pode ser.
— Mas está.
— Eu vou esquentar, espere um pouco.
Sarajane saiu da edícula, foi até a cozinha e, de facto, a sopa estava estragada.
Mas ela deu de ombros, esquentou o caldo numa panela suja e colocou umas colheres de vinagre e um copo de água.
Juntou um pouco de farinha de trigo para engrossar.
Despejou a gororoba sobre um prato fundo e sujo e levou até o quarto de Coriolano.
Antes, abriu a porta do forno e pegou um pão esverdeado.
Passou a faca nas partes mofadas.
— O que não mata engorda — ela disse para si, enquanto levava o prato e o pão para o tio.
Pousou a gororoba sobre o criado-mudo e saiu.
Coriolano sentiu o cheiro azedo, mas não teve alternativa.
Estava com fome e tomou aquele caldo estragado.
Teve outra noite de pesadelos e intestino solto.
Sarajane saiu com o carro e nem notou a quantidade de sombras escuras que estavam no interior do veículo, alimentando-se de sua mente doente.
Ela nem notou, porquanto estava acostumada a essas companhias desde muito cedo.
Criada por uma mãe solteira e drogada, Sarajane viu seu mundo ruir aos poucos.
Por conta das drogas que a mãe precisava desesperadamente comprar, perderam a casa, o carro, tudo.
Tiveram de morar na casa de Coriolano, irmão de Suellen — a mãe de Sarajane.
A vida não foi um conto de fadas.
Os vizinhos escutavam gritos de horror e sabiam que Suellen era viciada.
Ninguém quis ajudar a mãe, tampouco a filha pequena.
O tempo passou, e Sarajane transformou-se numa menina quieta e retraída.
Veio o acidente, a morte de Suellen e a deficiência de Coriolano.
Ninguém entendia essa relação dos dois.
Os vizinhos achavam que a garota revoltara-se pela vida que tivera até então, transformara-se numa mulher fria e insensível que descontava no pobre tio a sua raiva.
Do jeito como viviam, não foi difícil para que espíritos desequilibrados invadissem a casa e passassem a compartilhar das sandices de Sarajane e alimentar-se do remorso de Coriolano.
A vizinhança, no entanto, tinha pena de Coriolano, mas nada fazia.
Preferia cada um cuidar da própria vida.
Os espíritos desequilibrados também eram muito apegados a Lucas.
Os anos haviam passado e a raiva descontrolada dele aumentara sobremaneira.
Havia aqui e acolá um ou outro caso de agressão contra mulheres.
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 17, 2015 8:10 pm

Com medo de se exporem, quase nunca elas davam parte na polícia.
Só houve um caso em que a moça fez um boletim de ocorrência: na noite em que ele festejara a despedida de solteiro do irmão.
O tempo passou e a polícia tinha assaltos e crimes para averiguar.
Logo o caso foi esquecido.
Mas Lucas continuou a expressar sua raiva de maneira hedionda.
Era só ser contrariado, era só receber uma crítica e logo explodia.
Ele tentava se controlar ao máximo, entretanto, logo arrumava uma maneira de sair, encontrar uma garota e surrá-la até deixá-la desacordada.
Depois ele a largava em qualquer lugar deserto e voltava para casa, como se nada tivesse acontecido.
Num domingo, ao acordar, notou que sua mão e rosto estavam bem machucados.
Na noite anterior, ele saíra com uma moça e, já na cama, ela tentou defender-se.
Lucas precisou usar de mais força e bateu bastante na mulher.
Deixou-a desacordada na cama do quarto, sobre os lençóis empapados de sangue.
Ao sair, chamou o gerente do motel — era geralmente o mesmo motel — e lhe deu algumas notas de cem.
- Trate de se livrar dela. Logo.
Agora, olhando para as mãos machucadas, ele sorriu para sua imagem reflectida no espelho.
Apanhou um pouco de espuma de barbear e massajou suavemente o rosto.
Ao passar a lâmina sobre a pele, sentiu um pouco de dor.
- Isso passa.
A vadia da noite de ontem deve estar sentindo muito mais dor.
Pobrezinha.
Barbeou-se, tomou uma duche reconfortante, vestiu uma roupa desportiva e desceu para o café da manhã.
Sentou-se na mesa da sala de almoço e achou estranho haver ali quatro xícaras postas.
Estranhou ainda mais a mesa muito bem arrumada, com louça inglesa e decoração primorosa.
Desconfiou, mas nada disse.
Então, um criado apareceu e serviu-lhe suco.
Lucas bebericou e Andrei apareceu na soleira, bem vestido e perfumado.
- Kalimera — disse Andrei.
- Bom dia para você também, pai. E aí, tudo bem?
— Sim, mas seu aspecto não está nada bom.
Meteu-se em briga de novo?
- Não.
— O que são esses cortes no rosto?
— Eu me distraí ao fazer a barba.
Acabei me cortando de bobeira.
Andrei iria retrucar.
Havia arranhões no nariz e na testa, lugares onde jamais um homem passaria a lâmina ao se barbear.
Ele silenciou por instantes e sentou-se à mesa.
O criado aproximou-se e lhe serviu suco.
— Obrigado.
— Posso servir o café, doutor Andrei?
- Ainda não.
Estou esperando uma visita.
— Sim, senhor — o criado falou e saiu.
- Hoje é domingo.
Quem vem tomar café?
Lucas consultou o relógio e formulou nova pergunta:
— Melhor, quem vem para o brunch'?
São quase onze da manhã.
E não temos o costume de receber visitas aos domingos.
Isso sempre foi regra em casa, desde que a mãe morreu.
— Toda regra tem excepção — asseverou Andrei.
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 17, 2015 8:11 pm

Hoje teremos uma convidada.
Antes de Lucas articular som, Luciano aproximou-se e os cumprimentou:
- Bom dia!
- Kalimera, filho.
Luciano beijou a testa do pai, sentou-se ao lado dele e perguntou:
— Eu escutei direito papai?
Você disse convidada? — enfatizou.
— Ouviu direitinho.
Hoje teremos uma convidada especial para o nosso café.
Luciano sorriu e abraçou Andrei.
— Fico feliz que tenha encontrado alguém.
Fazia anos que eu não via seus olhos tão brilhantes.
Quem é? Nós a conhecemos?
Andrei meneou a cabeça.
— Não. Lívia formou-se em direito há dois anos, depois foi cursar pós-graduação e estagiar no exterior.
Chegou há dois meses e trabalha no escritório de nossos novos advogados.
— Não entendo por que dispensou os serviços do doutor Elias — disse Lucas, contrafeito.
- Porque descobri que Elias é um canalha, estava metido em negócios escusos.
Lucas remexeu-se na cadeira e fez uma careta.
Conseguira fazer muitos negócios ilícitos com Elias, mas alguém dera com a língua nos dentes, e Andrei, da noite para o dia, dispensara os serviços dele e contratara novo escritório de advocacia para cuidar da parte jurídica da construtora.
"Vou ter de falar com Sarajane para dar em cima de algum sócio desse novo escritório.
Não posso perder tempo."
Luciano estava contente e perguntou, enquanto apanhava um pote de granola e despejava-a no prato fundo.
— Ela é jovem, papai?
— Tem vinte e sete anos.
Lucas espantou os pensamentos.
Levantou-se de maneira abrupta.
— Pelo amor de Deus, pai.
— O que foi, meu filho?
— Essa mulher tem idade para ser sua filha!
— Nunca pensei nisso.
— Quando duas pessoas se gostam, a idade não conta — ajuntou Luciano.
- Como não? — esbracejou Lucas.
O que nossos amigos vão dizer?
A sociedade? Vão tripudiar sobre você, pai.
E tenho certeza de que essa vagabunda só quer saber do seu dinheiro. Cuidado!
Andrei não gostou do tom do filho.
— Respeite-me porquanto sou seu pai!
Não admito que fale assim de alguém que nem conhece.
Que modos são esses?
Pensa que está num botequim conversando com seus amigos de balada?
- Papai tem razão, Lucas.
Como pode ser tão leviano a ponto de falar dessa forma sobre uma moça que mal conhece?
— Ela quer arrancar o nosso dinheiro!
Vocês não enxergam?
Estão cegos?
— Não estou cego — respondeu Andrei — e, de mais a mais, o dinheiro é meu e faço dele o que bem entender.
— O dinheiro é nosso!
— Não é.
— Metade do que você tem era da mãe.
Agora é nosso.
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 17, 2015 8:11 pm

Se for se casar com essa... com essa...
Andrei aproximou-se do filho e apontou-lhe o dedo em riste:
- Com essa...? Vamos, complete a frase olhando nos meus olhos, se tiver coragem.
Lucas susteve a respiração, fechou os olhos, matou alguns carneirinhos e imediatamente seu rosto transpareceu calma e tranquilidade.
— O senhor sabe o que é melhor para si.
Está prestes a completar sessenta anos e tem maturidade suficiente para saber se essa mulher é interesseira ou não.
Mas — ele jogou o guardanapo sobre a mesa — não faço questão de conhecê-la, ao menos por hoje.
Se me dão licença, eu preciso sair.
Perdi o apetite.
Ele falou e saiu, passos rápidos.
Andrei fez negativa com a cabeça e Luciano inclinou o tronco, apoiando a mão sobre o ombro do pai.
— Não esquente, papai.
Lucas sempre teve ciúme de você.
— Qual nada! Ele tem ciúme do meu dinheiro.
Sempre contou com a minha fortuna.
— Ele gosta muito de dinheiro, mas...
— Mas nada.
Sabia que, na semana passada, ele veio me pedir um adiantamento de legítima?
— Como assim? — indagou Luciano, preocupado.
Quer que adiante a parte dele da herança?
— Sim. Lucas quer que eu faça doação em vida de alguns bens.
Seu irmão quer receber a parte que seria dele caso eu morresse.
— Não posso crer.
— Sim. Isso me preocupa sobremaneira.
Lucas está ficando cada vez mais intratável.
Explode por nada, tem um comportamento estranho.
Penso em marcar uma consulta com um psiquiatra.
— Não precisa chegar a tanto, papai.
— Não? Pois a minha intuição diz que algo estranho ocorre com seu irmão.
Desde que sua mãe morreu, ele tem apresentado um comportamento para lá de esquisito.
Luciano deu um tapinha no ombro do pai e sorriu.
Fez sinal para se sentarem à mesa e chamou um dos criados.
— Traga um pouco de café puro para nós, por favor.
O criado assentiu e saiu.
Luciano cutucou o pai e piscou:
— Então quer dizer que o Richard Gere brasileiro está com o coração comprometido?
Andrei sorriu.
- Sim. Desde que sua mãe morreu, nunca mais quis saber de me envolver seriamente com uma mulher.
Um homem na minha posição sempre atrai mulheres interesseiras, que querem saber de se dar bem financeiramente.
— E essa Lívia?
Conte-me sobre ela.
Andrei abriu os lábios em grande sorriso, mostrando os dentes brancos e perfeitamente enfileirados.
- Mês passado fui ao escritório de nossos novos advogados para uma reunião sobre a compra de terrenos no litoral baiano.
- Aqueles terrenos para a construção do resort que tanto queremos?
— Isso mesmo.
Fui tratar de assuntos totalmente burocráticos quando Anselmo, o advogado que está tratando dos papéis, teve um contratempo.
Imediatamente apresentou-me a doutora Lívia.
Não sei explicar, mas logo que a vi senti uma forte emoção.
Era como se a conhecesse há muito tempo, de algum outro lugar do qual não me recordo agora.
Andrei foi discursando sobre o encontro, os sorrisos, os sentimentos que a aproximação de Lívia lhe despertara.
Emendaram a conversa profissional a uma conversa sobre a Europa e Andrei surpreendeu-se com a inteligência da moça e com o charme que dela naturalmente se fazia notar.
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 17, 2015 8:11 pm

Daí para um café e depois para um jantar foi muito rápido.
Estavam saindo havia três semanas e Andrei não cabia em si de tanta felicidade.
Ele finalizou:
— Ela é meiga, culta, firme, inteligente, independente, linda... tem tudo o que um homem deseja numa mulher.
— É de família conhecida?
— É filha do Salgado Telles Bueno.
— O desembargador? — indagou Luciano, surpreso.
Ela é muito rica, papai!
— Lívia não precisa do meu dinheiro.
— Isso quer dizer que o amor está no ar? — brincou Luciano.
- É, meu filho.
Parece que, depois de velho, apaixonei-me de novo.
- Não é velho.
O senhor é atraente, cuida da saúde, do corpo.
Tem uma vida activa e agitada na medida certa. Merece o amor.
- Desejo o mesmo para você — rebateu Andrei.
Luciano fechou o semblante.
Imediatamente a tristeza abateu-se sobre ele.
Andrei suspirou e pousou delicadamente a mão sobre a do filho.
- Luciano, meu filho.
Sei que você passou por momentos muito tristes.
Não posso e nem quero imaginar o que faria se passasse pelo mesmo que você.
Mas já passou. O tempo cuida de diminuir a dor, de cicatrizar as feridas.
- Ela mentiu para mim — disse Luciano, ríspido.
— Sim, Gláucia mentiu.
É facto. E daí? Faz parte do passado.
Está na hora de você se libertar desse passado, abençoar e se despedir.
Tem muito o que viver.
— Não sei, papai.
Tenho medo de me envolver com outra mulher.
— O medo paralisa e nos prende a situações mal-resolvidas.
Precisamos ter força e coragem para desafiar o medo e seguir em frente.
Sinto que você ainda vai encontrar um novo amor.
- Não acredito.
— Posso lhe fazer uma pergunta, de amigo para amigo?
— Claro que pode.
O senhor pode tudo!
— Esqueça o pai aqui na sua frente e me responda como um amigo camarada:
Você amava Gláucia?
Luciano mordiscou o lábio.
Arriscou:
— Gostava dela. Muito.
— Não foi isso que perguntei.
Quero saber se você a amava. De verdade.
— Não sei.
Se for esse sentimento que transborda pelos seus olhos, deixando-os mais vivos e brilhantes, acho que não.
— Posso ser sincero?
— Sim, papai.
— Nunca achei que você a amasse.
— Verdade?
- Claro!
— Por que nunca me disse isso antes?
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 17, 2015 8:11 pm

— Porque não cabe a mim dar palpite em assunto tão íntimo.
Se você viesse falar comigo a respeito de seus sentimentos, eu poderia dar minha opinião sobre a relação de vocês.
Como você nunca comentou nada comigo, fiquei quieto no meu canto.
Luciano abraçou Andrei com força.
— Obrigado. Sei que, além de óptimo pai, é bom amigo.
— Arranque e limpe essa mágoa de uma 'vez por todas.
Ela actua como erva daninha que embota o coração.
Abra espaço para o verdadeiro amor entrar aí nessa janelinha trancada — apontou para o peito de Luciano.
— É difícil. Toda vez que penso em Gláucia e em como ela tentou me fazer de otário, sinto raiva.
Não consigo ainda mudar.
Magali tem me ajudado bastante.
- Gosto muito da Magali.
Moça bonita, educada, culta, inteligente...
Luciano não percebeu a indirecta do pai.
Andrei ia finalizar o assunto, entretanto, um dos criados apareceu e anunciou:
— Senhorita Lívia Salgado Telles Bueno acaba de chegar, senhor.
Os olhos de Andrei brilharam emocionados.

7. Brunch: palavra inglesa, é uma refeição leve que engloba alimentos servidos no café da manhã (breakfast) e no almoço (lunch).
Começa por volta das dez da manhã e se estende até a tarde.
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 17, 2015 8:11 pm

Capítulo Doze

Lucas deixou a sala de almoço chispando de ódio.
Apanhou um de seus carros e saiu em disparada.
Assim que seu carro virou a esquina, Lívia encostou com o seu automóvel.
Um dos seguranças se aproximou e ela deu o nome.
Enquanto isso, Lucas dava murros na direcção e trincava os dentes de raiva.
— Não vai ser uma vagabunda qualquer que vai se apoderar do meu quinhão de herança.
— Isso mesmo — gritava uma voz soturna no banco de trás.
Não deixe que uma vadia qualquer se apodere da fortuna que lhe é de direito.
- Eu, se fosse você, pensaria numa forma de interditar o velho — dizia outra voz.
Lucas absorvia aquilo tudo como se fossem pensamentos dele mesmo.
No estado de desequilíbrio em que se encontrava, não conseguia separar o que era sua consciência e o que era influência espiritual.
Os espíritos davam corda e ele se irritava ainda mais.
- Preciso aliviar esse ódio.
Preciso descontar essa raiva em alguém.
Pisou no acelerador e foi cortando os sinais vermelhos.
Quase causou um acidente e por pouco não atropelou um casal que atravessava na faixa de pedestres.
Parou numa rua deserta, desceu do carro e abriu o porta-malas.
De lá tirou placas falsas. Um homem caminhou e passou a olhar desconfiado para ele.
Lucas pensou rápido:
"Não vou poder trocar a placa agora.
Vou passar fita isolante nas letras.
Uma letra L pode perfeitamente se transformar em uma letra U."
Ele gargalhou e adulterou as placas.
Entrou no carro e acelerou, queimando os pneus.
Depois de muito rodar pela cidade, Lucas avistou uma moça parada num ponto de ónibus.
Encostou o carro no meio-fio e desceu o vidro do passageiro.
Abaixou a cabeça e sorriu:
- Bom dia.
— Bom dia — respondeu a moça, olhos arregalados diante daquele carrão último tipo.
— Pode me dizer onde fica a avenida Marquês de São Vicente?
— Ah, moço, sei não. Não conheço.
Moro em São Caetano e só venho aqui na cidade para trabalhar.
Lucas mostrou-se amável, simpático e muito cortês.
— São Caetano!
Eu tenho uma tia que mora lá.
Aliás, hoje é domingo e fiquei de dar uma passadinha na casa dela.
Coisa de família, comer macarrão na casa de parente — ele pensou rápido e emendou:
— Essa tia mora numa travessa da avenida Goiás.
— Eu moro numa travessa da avenida Goiás! —exclamou a moça.
— Qual é o seu nome? — ele perguntou.
- Eneida. E o seu?
— Vítor — mentiu ele.
— Prazer, Vítor.
Lucas foi ganhando a moça na conversa até que ela aceitou entrar no carro dele.
Lucas era um tipo atraente e se vestia muito bem.
Usava roupas de marca, relógio fino e elegante.
Seu carro era um tipo desportivo muito apreciado pelas mulheres.
Não dava para desconfiar que, por trás daquela bela estampa, escondia-se um monstro prestes a atacar e dar o bote.
O trajecto foi tranquilo, a conversa agradável e Lucas foi tão convincente que a menina se deixou encantar pela fala mansa, pelo perfume amadeirado que dele emanava, pela música romântica que tocava no rádio.
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 17, 2015 8:12 pm

Minutos depois estavam num motel, perto da Via Anchieta.
Lucas surrou Eneida até não ter mais forças.
A garota perdeu os sentidos e ele, temeroso, colocou-a no banco da frente.
Limpou as feridas dela, colocou óculos escuros no rosto para disfarçar os hematomas e meteu-lhe um gorro na cabeça.
Uma hora mais tarde, aproximou-se do carro, trocou as placas do veículo.
Ele tinha uma colecção de placas falsas no porta-malas e criara tremenda habilidade para trocá-las de maneira rápida.
Na sequência, ele deu partida, pagou em dinheiro a diária e recolheu os documentos que a atendente prendera na entrada.
Ele olhou atentamente para a identidade e riu.
— Vítor Molina.
Adoro esse nome!
Saiu devagarinho do motel.
Cutucou Eneida.
Ela não se mexia.
Cutucou de novo.
- Ei, acorda, garota.
Já deu tempo para se recompor.
Nada. Lucas a cutucou com força e o corpo de Eneida pendeu para o lado da porta do passageiro.
Encostou os dedos no pescoço dela. Nada de pulsação.
Estava morta, tamanha fora a violência.
Lucas não se desesperou.
Frio feito um psicopata, apanhou o celular no bolso da camisa e discou um número:
— Sarajane?
— Oi, Lucas, tudo bem?
— Não.
— O que foi?
— Problemas.
— - Hum — ela riu. — Adoro problemas.
— Tenho um servicinho para você.
Será que posso ir até a sua casa?
Sarajane não gostava de receber em casa.
Temia que Coriolano abrisse o bico e falasse da maneira rude como ela o tratava.
Ela era rápida de raciocínio e, percebendo nitidamente que Lucas devia ter se metido numa grande encrenca, sibilou:
— Sim, pode vir.
— Passe o endereço, por favor.
Ela deu as indicações e ele concluiu:
— Chego aí em meia hora.
Desligou o telefone e Sarajane sorriu, maliciosa:
— Lucas aprontou alguma.
E deve ter sido uma encrenca bem grande.
Óptimo, assim vou ganhar mais uns tostões para ficar rica e fazer crescer minhas aplicações no banco — disse para si mesma e foi caminhando até o quintal.
Coriolano estava no jardim, tomando sol.
— Titio, seu banho de sol terá de se encerrar.
— O sol está tão gostoso, quentinho.
É bom pegar um pouco de cor, ficar corado, não acha?
E quem sabe a ferida na perna cicatrize?
- Sim, mas você precisa se alimentar.
Coriolano fez cara de nojo.
— Nada de sopa.
Não aguento mais.
— Que nada, titio.
Comprei um frango na padaria.
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 17, 2015 8:12 pm

Iria comer sozinha, mas o bicho é tão grande!
Para completar, veio recheado com uma farofa deliciosa.
Acompanha batatas assadas, assim grandes — fez com as mãos.
Coriolano fechou os olhos e antegozou o prazer de saborear uma comida decente depois de tantos pratos estragados, fedidos e de gosto horrível que Sarajane lhe apresentava.
— Jura que esse frango é fresquinho?
Não está me pregando uma peça?
- Eu? Imagina, tio.
Nada disso. Vou preparar seu prato.
Sarajane voltou à cozinha e apanhou o frango.
Cortou as melhores partes, juntou-as no prato e colocou a farofa e as batatas.
Esquentou tudo no micro-ondas.
Em seguida, apanhou um copo, pegou uma lata de cerveja da geladeira, abriu-a e misturou com uma grande quantidade de um pozinho que usava de vez em quando para apagar os homens com quem saía.
Colocou tudo numa bandeja e saiu contente.
- Veja, titio. Que prato lindo!
Coriolano olhou desconfiado para o prato.
Mas o cheiro era irresistivelmente agradável e ele deu a primeira garfada.
Depois deu outra.
Fechou os olhos e lágrimas quase escaparam-lhe, tamanho prazer que sentia.
Sarajane sorriu e apanhou o copo de cerveja.
— Beba, titio.
Comprei aquela marca que o senhor adora.
Coriolano estava se fartando com a comida e pegou o copo.
Sorveu a bebida num grande gole.
Depois bebeu de novo.
E, em menos de cinco minutos, estava com a cara caída dentro do prato.
Sarajane levantou a cabeça dele pelos cabelos ensebados.
Coriolano apagara por completo.
— Coitado do titio.
Vai dormir tanto! — ela consultou o relógio e correu aflita:
— Santo Deus! Lucas deve estar chegando.
Preciso esconder logo esse velhinho.
Ajeitou o corpo do tio, limpou-lhe o rosto com um pano de prato sujo e empurrou a cadeira de rodas até o quartinho.
Depois, tapou a boca dele com esparadrapo e amarrou as mãos do pobre homem aos pés da cama.
— Os pés não precisam ser amarrados — ela disse rindo.
Melhor eu fazer tudo direitinho e me garantir.
Vai saber quanto tempo Lucas ficará aqui, não é mesmo?
Titio não pode dar um pio.
Então, apagou a luz do quarto, passou a chave e o trinco na porta.
Apanhou o prato e o copo sobre o gramado e voltou à cozinha.
Arrumou-se rapidamente, e Lucas chegou em seguida.
Débora sentia-se uma mulher realizada e feliz.
Estudara e formara-se em Ciências Contáveis, trabalhava no escritório do pai e estava apaixonada por Régis, o sócio de Armando.
Arrumou-se com capricho e gostou da imagem que viu no espelho.
Saiu do quarto, passou pelo corredor e encontrou Iara e Armando lendo jornal na sala.
- Vai sair? — indagou Armando.
— Sim, papai.
Vou almoçar com a mãe do Régis.
Armando fez um muxoxo.
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 17, 2015 8:12 pm

Desdenhou:
— Hum, aposto que antes vai passar na farmácia para comprar algum remédio.
Sabe como é — ele falava sem tirar os olhos do jornal —, namorar pessoas idosas pode gerar um
alto custo.
É remédio para dor, para a pressão, para o inchaço das pernas...
Iara o censurou:
— O que é isso, Armando?
Agora deu para atacar nossa filha?
- Não estou atacando, estou avisando.
Régis tem idade para ser pai dela.
— Acaso o senhor precisa de alguns desses medicamentos? — perguntou Débora.
Armando não respondeu.
— Seu pai não acordou bem — Iara procurou contemporizar.
— Mentira. Papai está estranho comigo desde que assumi o romance com Régis.
— E não era para estar? — Armando explodiu.
Largou o jornal sobre o sofá e levantou-se de maneira abrupta.
— Por que, papai?
- Régis era meu amigo de escola, foi padrinho do meu casamento com Miriam.
Não posso crer que ele esteja namorando a minha filha caçula.
Aliás, a única filha que tenho!
Iara não sabia o que dizer.
Procurava colocar panos quentes.
— Não leve a mal, filha. Seu pai...
Débora a interrompeu com amabilidade na voz:
— Papai está inseguro.
Acredita que vai me perder.
— Não é isso... — ele arriscou dizer.
— Claro que é!
- Não é certo um homem da minha idade se envolver com uma menina.
Ela riu.
— Sou mulher, papai. Cresci.
Aqui não está mais a menininha que você carregava nos braços e de quem trocava fraldas.
O tempo passou.
Ele tentou argumentar, mas Débora prosseguiu:
— Eu sei o que quero e amo o Régis.
Ele poderia ter dezoito, quarenta ou oitenta anos. Não importa.
— Mas as pessoas...
- Vão dizer o quê?
Que eu estou interessada no dinheiro dele?
Vão me confundir com uma filha que ele poderia ter tido?
Ora, papai, você dá muita importância ao que os outros dizem.
O que importa é a minha felicidade.
Eu sou feliz ao lado de Régis e vou me casar com ele.
- Isso já é demais! — ele protestou.
- Não é de mais nem de menos.
Ninguém manda no meu coração.
Quem o dirige sou eu.
Nada nem ninguém vai me fazer mudar de opinião.
- Você tem se mostrado turrona.
— Não. Você quer que eu faça o que você acha que é melhor para mim.
Mas eu tenho consciência de meus actos, sou dona de mim e sei o que quero de verdade.
Não preciso da sua permissão para nada.
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

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