Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 18, 2015 8:20 pm

- Calma — retrucou Iara.
Seu pai está assim, meio descontrolado, porque teve pesadelos com Gláucia.
— Sonhou que ela estava com um maiô branco, espartilho, cabelos desgrenhados e sangue escorrendo pelo peito? — indagou Débora.
Armando empalideceu e deixou-se cair no sofá.
Débora prosseguiu:
Depois ela disse que estava com muitas saudades, mas que estava bem e, na sequência, sumiu num halo de luz.
Ah! — Débora completou — a Gláucia estava com uma moça.
Alta, loira e magra.
Linda é o nome dela.
— Co... co... como sabe tudo o que ocorreu no meu pesadelo?
Débora sentou-se ao lado de Armando e colocou a mão dele entre as dela.
— Papai, você teve a chance de conhecer o espiritismo, frequentou centro espírita por anos, estudou bastante sobre a vida após a morte.
Sabe que não foi um pesadelo; seu espírito despertou durante o sono e encontrou-se com Gláucia.
Armando nada dizia. Iara interveio:
— Eu disse ao seu pai que Gláucia está bem, mas ele custa a acreditar.
— Não deve mesmo.
Gláucia não está bem.
- Como pode dizer uma coisa dessas?
Quer matar seu pai de susto?
— De forma alguma.
- Sua irmã tinha génio difícil, mas era boa moça - disse Armando.
Recebemos informação de amigos médiuns que afirmaram:
Gláucia não sentiu os tiros e despertou num posto de socorro.
— Isso tudo é verdade.
Mas Gláucia desencarnou há quatro anos.
Depois, perturbada com os pensamentos de Luciano, não conseguiu ficar no posto de socorro e veio para cá.
Faz dois anos que perambula pelo nosso mundo.
- Você está me dizendo que sua irmã está aqui?
- Aqui connosco, agora, não.
Mas Gláucia está perdida, desorientada, precisando de ajuda.
— Gláucia sempre foi esperta e soube se virar —rebateu Armando.
— Sim, mas Gláucia nunca se interessou pelos assuntos espirituais.
Sem conhecimento espiritual, o espírito fica perdido e sem rumo.
— Ela não gostava de ir ao centro espírita — defendeu Armando.
Queria que eu a amarrasse?
Que eu a obrigasse a ser espírita?
— Não precisa frequentar um centro espírita para ser espírita.
Ser espírita está aqui — apontou para o peito —, é ligar-se às forças universais do bem, é amar ao próximo como a si mesmo, é ser uma pessoa efectivamente do bem e jamais se corromper pelos valores nefastos do mundo.
Ser espírita é muito mais do que conhecer e estudar Allan Kardec.
É amar a si mesmo sobre todas as coisas!
— Uma menina não sabe escolher — Armando protestou.
Tentei levá-la ao centro, mas ela batia os pés.
Nunca quis ser religiosa.
— Nem quis ser uma mulher de fé.
Devo salientar que não precisamos de religião para ter fé.
Cada um deve fazer o que gosta, o que lhe dá prazer.
Se não tivesse obrigado Gláucia a ir ao centro, talvez ela naturalmente gostasse de estudar e entender melhor assuntos importantes como vida, morte, reencarnação.
Vocês não deram a ela o direito de escolher.
Tentaram fazê-la frequentar um centro espírita na marra.
Isso não é correcto.
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 18, 2015 8:20 pm

— O que deveria fazer?
Você sempre gostou de ir.
— Cada um é um, papai.
Eu gostava porque trago viva na memória a certeza de que o espírito é eterno e de que temos muitas vidas.
Sempre me interessei pelos estudos espíritas.
Nunca precisaram me obrigar a nada.
No caso de Gláucia, melhor seria tê-la deixado escolher.
Quando não somos pressionados, temos condições de fazer escolhas com clareza e certeza de acerto.
— Fiz o melhor para a minha filha.
— Por certo. Mas se esqueceu de orar por ela.
- Hã? — Armando não entendeu.
— Falo de fé, papai.
A fé é uma conquista valiosa que fortalece e ilumina nosso espírito.
A espiritualidade nos dá respostas que alimentam nosso espírito e nos ensinam a viver bem melhor, seja aqui ou no astral.
Armando nada disse.
As palavras tocaram fundo em seu coração.
Iara sentiu o mesmo.
Débora finalizou:
— Gláucia está aqui em casa.
Armando sentiu a saliva sumir da boca.
Iara arregalou os olhos. Débora sorriu.
— De nada adianta ficarem nesse estado.
Os desencarnados têm uma capacidade natural de absorver o nosso pensamento.
Precisamos fazer uma prece para que o espírito de Gláucia siga para um local de refazimento, acordando para a grandeza da vida e preparar-se para viver na eternidade.
Gláucia, atraída pelos seus pensamentos sobre ela, tentou dizer alguma coisa.
Estava irritadiça.
Débora prosseguiu:
— A obsessão a que ela se sente presa vem, como já disse, dos pensamentos negativos de Luciano.
Gláucia —Débora falou olhando para o canto da sala, fitando o vazio —, aprenda a se defender das energias negativas que vêm dos outros.
Está no momento de aprender a entender os mecanismos de influenciação espiritual, ou seja, está na hora de notar as palavras que você valida ou não.
Quando damos força para essas palavras negativas, não importa de onde venham, seja de um encarnado ou desencarnado, acabamos por enfraquecer as nossas capacitações, afastando-nos daquilo que o espírito precisa desenvolver para ser feliz.
Você só será feliz quando se libertar dos pensamentos perniciosos de Luciano.
— Mas como? — Gláucia gritou com todas as forças.
Eu não consigo.
Débora captou a inquietação e disse:
— Não quer.
Conseguimos tudo o que queremos.
Você está presa na mágoa, na dor, nos mesmos sentimentos que Luciano.
Ambos vibram na mesma sintonia.
Mude de sintonia.
Livre-se desses pensamentos ruins que só lhe causam mal-estar.
- Como? A voz dele me perturba.
É como se fosse uma faca rasgando a minha carne.
Dói. Dói muito.
— Não pode se deixar influenciar por uma voz que surge do nada.
Ela é boa? Então é para você.
Ela não é boa?
Livre-se imediatamente dela.
— De que forma?
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 18, 2015 8:21 pm

- Imagine que as ondas que Luciano emana são como ondas de rádio.
Mude de estação, mude a sintonia.
- Quero melhorar, quero seguir em frente, mas Luciano me prende aqui na Terra.
— Ninguém é mais forte do que seu espírito, Gláucia. Ninguém.
Lembre-se de que você tem Deus como aliado.
Junte-se a Ele, faça conexão com as forças do bem e tudo vai mudar.
A sua melhora depende única e exclusivamente de você.
- Estou cansada — Gláucia ajoelhou-se e as lágrimas corriam sem cessar.
Eu só queria casar.
Sou uma menina que queria casar...
Débora aproximou-se do espírito da irmã e logo Judite apareceu.
Sorriu para Débora e tornou:
— Obrigada, querida.
A sua energia permitiu que eu pudesse me aproximar e levá-la de volta à nossa aldeia.
Judite abaixou-se e abraçou Gláucia.
— Vamos, querida, você está cansada.
- Estou sem forças.
- Pense em alguma coisa boa.
— Não consigo.
Imediatamente Judite pousou uma das mãos sobre a testa de Gláucia.
A região tocada passou a ter uma coloração azulada e Judite disse firmemente:
— Lembre-se das férias na praia, muitos anos atrás.
Você e Armando. Só os dois.
Você era bem pequena.
Foi um dos momentos mais alegres da sua infância.
Gláucia parou de chorar e começou a esboçar um sorriso.
Logo as cenas da infância na praia vieram com força.
Era como se ela estivesse vivendo tudo aquilo, naquele momento.
Era nítida a imagem do pai pegando a pazinha e enchendo o baldinho de areia.
Gláucia ria com satisfação, Armando a beijava e em seguida a levava até o mar, ensinando-a a andar e pular as ondas.
As cenas persistiram até Gláucia sentir-se bem.
Ela suspirou e apoiou-se nos braços de Judite.
Levantou-se e agradeceu Débora, coisa rara.
- Não sei. Quando estava no mundo dos vivos, eu tinha aversão a você.
Agora não consigo sentir tanta raiva de você e de Iara. Por quê?
Débora iria falar, mas Judite respondeu:
— Porque ela a ama de verdade.
Gláucia sentiu uma lágrima escorrer.
— Obrigada, Débora.
Muito obrigada.
— Fique bem, querida — respondeu Débora.
Gláucia passou por Armando e o beijou no rosto.
Ele não viu, mas sentiu o toque e levou a mão até uma das faces, emocionado.
— Amamos você, Gláucia.
Siga em paz.
Gláucia fez um sim com a cabeça e, antes de partir, perguntou a Judite:
— E Linda?
Ela estava comigo há pouco. Sumiu.
— Preferiu seguir o caminho dela.
— Ela precisa de ajuda.
Não pode ficar perambulando aqui no mundo.
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 18, 2015 8:21 pm

— A ajuda chega na hora em que estamos prontos para recebê-la.
Linda está muito presa aos conceitos do mundo.
— Ela foi morta, pobrezinha.
— Não foi. Ela foi vítima de um acidente.
Ninguém a matou.
— Mas ela jura que foi assassinada.
— Linda precisava de um motivo forte para ficar no mundo.
É muito difícil morrer e ter equilíbrio emocional suficiente para largar tudo.
Linda Whitaker era da alta sociedade, aparecia em revistas e era admirada por muitos.
De uma hora para outra, tudo acabou, e ela, presa às ilusões e à vaidade, esqueceu que, quando desencarnamos, levamos somente o reflexo dos actos praticados, mais nada.
— Ela me falou isso, tempos atrás.
— Linda fala, mas não pratica.
— Ela é boa pessoa — considerou Gláucia.
— É, sim.
Quando decidir enxergar a verdade e cansar de lutar contra algo que não mais lhe pertence, Linda vai voltar.
— Será?
- Um dia vamos reencontrá-la.
Agora tratemos de seguir nosso caminho. Vamos.
Judite abraçou Débora e sussurrou em seu ouvido:
— Obrigada. Mandarei as vibrações mais sublimes para manter acesa a chama do seu amor por Régis.
Vocês foram feitos um para o outro. Adeus.
Elas partiram e Débora emocionou-se.
— O que foi que disseram? — perguntou Armando.
— Que a vida é bela e devemos não só praticar o bem, mas viver no bem — respondeu Débora.
Iara sorriu emocionada.
— A sua sensibilidade me comove.
Nunca imaginei que Gláucia fosse aceitar ajuda vinda de você.
- Nós mudamos, mamãe.
Simplesmente mudamos.
Agora preciso ir.
Régis deve estar lá embaixo — e saiu, radiante e feliz.
Armando abraçou Iara.
— Ainda estou muito emocionado.
— Agora acredita que sua filha está bem?
- Acredito.
— Você é forte, Armando.
Largue essa tristeza e ame a vida.
— Uma filha partiu e a outra vai partir.
O que será de mim?
— Ora, você tem a mim!
Vamos aproveitar que não temos mais filhas embaixo das nossas asas e vamos namorar, o que me diz?
— Gostei — sorriu e trocaram um beijo apaixonado.
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 18, 2015 8:21 pm

Capítulo Treze

Sarajane jogou a última pá de terra sobre o jardim.
Passou a mão sobre a testa empapada de suor.
— Nunca pensei que fosse dar tanto trabalho enterrar alguém — disse, arfante.
— O problema foi cavar o buraco — falou Lucas, esbaforido.
— Essa moça era miudinha, mas pesada.
Lucas terminou de bater com outra pá sobre a pequena montanha que se formara.
— Amanhã você compra novas mudas de grama e de flores.
Vê se faz um jardim bem bonito aqui.
- Deixe comigo. Nunca vão saber que aqui jaz uma mulher.
Sarajane apanhou a bolsa da moça e pegou a identidade.
— Eneida da Silva. Cara e nome de gente simples.
Se bem que ninguém fica bem na foto do documento de identidade.
Quer dizer, eu sou excepção.
Lucas não estava entendendo.
Sarajane sorriu e perguntou:
— Tem certeza de que não deixou rastro algum?
- Não — respondeu categórico.
Troquei as placas do carro.
E o motel era bem modesto, não tinha câmara de segurança.
— Melhor assim.
Lucas tirou a carteira do bolso e apoiou o talão sobre a coxa.
Preencheu o cheque e entregou-o a Sarajane.
- Isso cobre o trabalho extra de hoje?
Sarajane apanhou o cheque e seus olhos quase saltaram das órbitas:
— Mas isso é uma pequena fortuna!
Tem certeza de que preencheu correctamente?
— Tenho. Só peço que o deposite depois de amanhã.
Não tenho essa dinheirama na conta corrente.
Preciso pedir baixa de alguns fundos de investimento.
- Espero até mais.
Um mês, se quiser.
— Depois de amanhã pode depositar.
— Nossa, Lucas!
Com esse dinheiro vou poder comprar uma casa, vou poder viajar para a Europa.
- Você é leal.
Pessoas leais a mim são regiamente compensadas.
- Obrigada.
— Agora que enterramos a moça, me diga, onde se encontra seu tio?
— Aos domingos eu o levo para fazer sessões de fisioterapia.
— Ele vai voltar a andar?
Claro que Coriolano jamais voltaria a andar.
Uma perna fora praticamente esmagada e o pé da outra entortara de modo que os médicos tinham sido unânimes em afirmar que ele dificilmente colocaria os pés no chão.
E a ferida em uma das pernas estava começando a escurecer.
Sarajane sorriu e, com meiguice na voz, respondeu:
— Os médicos dizem que a esperança é a última que morre.
Agora que você me deu esse dinheiro, vou aproveitar uma parte para levá-lo a especialistas de renome.
- Você gosta mesmo do seu tio, não?
- Adoro-o, Lucas.
Amo titio assim de um tanto — ela abriu os braços fazendo um círculo.
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 18, 2015 8:21 pm

— Bom, agora preciso ir.
— Melhor ir para casa e descansar.
- Não quero ir para casa.
Aliás — Lucas teve uma clareza súbita — você quer ganhar mais dinheiro?
— Mais quanto?
- O suficiente para se aposentar cedo.
Tipo, ano que vem.
Imagine não ter mais de trabalhar e viver de rendas?
Eu posso lhe proporcionar isso.
- Como? O que quer que eu faça?
— Meu pai arrumou uma namorada.
— Ah, vá! Doutor Andrei namorando? Duvido.
— Isso mesmo.
— Não estou sabendo de nada.
E olha que acompanho todos os passos dele no escritório.
— Ele se envolveu com uma periguete! (8)
Pode um absurdo desses?
— Doutor Andrei, com toda aquela estampa... quem diria?
Deixe comigo. Eu vou revirar o escritório:
vou procurar no celular dele, anotações em agenda, tudo.
Descubro o nome da fofa em dois tempos.
— Vou mostrar ao meu pai que essa mulher não serve para ele.
- Conte comigo.
Eu nunca falhei com você.
— Nunca mesmo. Obrigado.
Lucas despediu-se e saiu.
Entrou no carro e deu partida.
No banco de trás, um espírito tentava, meio que anestesiado, ter ideia de onde estava e do que tinha acontecido.
Eneida morrera e ainda não tinha consciência de seu novo estado.
Sarajane encostou o portão, o cachorro da vizinha correu pela garagem e parou sobre o montinho do jardim, no quintal.
Latia sem parar.
Sarajane bufou e correu até o quintal.
— Oi, cachorrinho atrevido. O que se passa?
Vamos brincar de morrer? Você primeiro.
O cachorro continuava a latir e Justina entrou.
- Totó é danado. Desculpe-me.
— Melhor tirar esse cachorro daqui logo.
— É o que estou fazendo.
A mente perversa de Sarajane não tinha limites.
— Imagine, dona Justina, eu acabei de encher a terra do jardim de pesticida.
— Como?
- Será que seu cãozinho ingeriu o veneno?
Justina levantou as mãos em desespero.
- Jesus, me salve!
Totó, pelo amor de Deus, venha.
O cachorro não saía do montinho de terra.
Justina deu um passo e apanhou o cachorro no colo.
Sarajane atormentou:
— Fiquei sabendo que, quando um animal ingere uma grande quantidade de veneno, morre rapidinho.
Bom, ao menos agora, se ele morrer, a Miriam vai ter companhia. Au, au!
Justina não quis ouvir nem mais uma palavra.
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 18, 2015 8:22 pm

Saiu em disparada e gritava para o marido:
- Eriberto! Tire o carro da garagem e vamos para o hospital veterinário.
— O que foi, minha velha?
- O Totó vai morrer.
O Totó vai morrer!
Sarajane fechou o portão rindo aos borbotões.
— Pobrezinha! Meu Pai do Céu, como ela é desequilibrada.
Acreditou que havia veneno na terra — depois olhou para o monte recém-formado e perguntou:
— Quanto tempo vai levar para você se decompor, Eneida?
Em seguida, caminhou até o quartinho.
Destrancou a porta e encontrou Coriolano ainda adormecido.
- Continue dormindo, titio.
Vou trocar de roupa e sair para dançar.
É domingo de pagode e mulher gostosa não paga! — gargalhou e saiu para se arrumar, como se tivesse acabado de enterrar um saco de batatas.
Luciano encantara-se com Lívia.
Tudo o que o pai dissera era verdade:
a moça era bonita, agradável, bem-humorada, tinha uma maneira inteligente de ver a vida.
Sentiu uma pontinha de ciúme do pai.
Não que estivesse interessado na moça, mas gostaria de viver, de sentir o mesmo que Andrei demonstrava sentir.
"Papai mudou. Ele está mais alegre, mais feliz.
Há anos não via um rosto tão iluminado.
Lívia está lhe fazendo um tremendo bem.
Que eles sejam muito felizes."
Andrei o cutucou novamente e Luciano voltou à realidade.
— Desculpe-me, papai.
Estava aqui divagando.
— Pensando que também poderia viver uma história de amor? — sugeriu Lívia.
- Você é bruxa? — todos riram.
Eu estava pensando nisso mesmo.
— A tonalidade de cor da sua aura mudou rapidamente.
Você tem bons pensamentos.
É um bom moço — disse Lívia.
— Obrigado.
— O que foi que disse? — perguntou Andrei, interessado.
- Sobre aura?
— Sim.
— A aura é como se fosse uma energia que envolve seres ou objectos.
É um atributo inerente aos seres vivos.
A forma e a cor da aura reflectem o estado físico, mental e emocional da pessoa.
Foi isso que vi em Luciano.
- Preciso aprender mais sobre isso.
— Por mais que eu estude e tente entender as leis e o Direito, procuro me ligar na sensibilidade e nas características áuricas de um cliente.
— Para saber se ele está certo ou errado — completou Luciano.
- Não. Para saber se o meu cliente está sendo sincero naquilo que me pede. Procuro ser justa. Só isso.
— Acho que vou contratá-la para trabalhar exclusivamente para mim — falou Andrei.
Lívia sorriu e ele pousou a mão sobre a dela.
O carinho que emanava de ambos era tão intenso que tocou profundamente Luciano.
Foi nesse momento — aliás, no mesmo momento em que Débora conversava com Gláucia — que ele sentiu um brando calor aquecer-lhe o coração.
Ele se levantou.
- Preciso ir. Fiquei de pegar Magali para uma sessão de cinema.
Coisa de domingo: matiné de cinema e pipoca.
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 18, 2015 8:22 pm

Foi um prazer conhecê-la, Lívia.
Após a despedida, ela disse firme, encarando Luciano nos olhos:
- A espiritualidade abre a nossa consciência, nos traz sabedoria e ilumina a nossa alma.
Use o seu livre-arbítrio para conquistar sabedoria e viver em paz.
Está na hora de deixar os sentimentos ruins de lado e valorizar o que sente no coração.
Você pode viver o mesmo que eu e seu pai estamos vivendo.
- Impossível. Não acredito.
- Espere e verá.
Um dia seus olhos vão ficar livres do véu da maledicência.
Não se esqueça de que a firmeza no bem afasta todo o mal.
Que Deus o abençoe!
Agora vá apanhar sua amiga e divirta-se.
Você é bom e merece viver coisas boas — finalizou Lívia.
Luciano emocionou-se, pigarreou e saiu.
Andrei a abraçou e sussurrou em seu ouvido:
- Quer curtir uma sessão de cinema a dois, no meu quarto?
Lívia riu, abraçou-se a ele com força e beijaram-se com amor.

8 Periguete é o adjectivo da moda para falar mal de mulheres.
O termo surgiu na periferia de Salvador e vem da junção das palavras "perigosa" e "gira" (garota em inglês).
Como a pronúncia ficaria estranha, adaptou-se o "guete".
Equivale aos xingamentos biscate ou galinha.
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 18, 2015 8:22 pm

Capítulo Catorze

Magali terminou de arrumar a cozinha.
Subiu e tomou um banho rápido.
Colocou um vestido de cores alegres, colares, pulseiras e sandálias costuradas com pedrinhas coloridas.
Soltou os cabelos alourados e mexeu a cabeça para os lados.
Gostou da imagem no espelho.
Estava jovial, olhos brilhantes, pele corada.
Apanhou um frasco de perfume e borrifou sobre o corpo alvo e esguio.
Ao descer e apanhar a bolsa, encontrou Ivete ao pé da escada, olhando para a porta.
— O que foi, mãe?
- Nada. Você estava arrumando a cozinha e agora está assim, toda bem-vestida. Vai sair?
— Vou.
— Posso saber com quem?
- Luciano vai passar em casa para me levar ao cinema.
- Hum, sei — Ivete levantou o lábio superior e fez uma careta.
- Sei o quê, mãe?
— Andam muito juntinhos.
Cuidado. Ele pode abusar de você.
Magali riu.
- Abusar de mim?
— É. Neste mundo de hoje, não podemos confiar em ninguém.
- Não é bem assim.
Há pessoas a quem não devemos mesmo dar confiança.
Entretanto, há muita gente boa no mundo.
Basta estarmos na mesma sintonia para perceber isso.
— Não acredito.
Só vejo violência na televisão. Cada caso!
— Desligue a TV.
Ou assista a um canal que lhe transmita bem-estar.
Você decide o que entra pela sua telinha.
— Bobagem.
— Ou vá caminhar, frequentar um clube, ler um livro...
— Caminhar é ruim, porque me dá dor nas pernas.
Não tenho mais idade para frequentar clube e ler um livro.
Meus olhos ardem muito.
— A senhora coloca empecilho em tudo.
Difícil agradá-la.
— É. A vida é muito sem graça.
— Vivemos de acordo com nossas crenças.
Já pensou em mudar seu jeito de olhar a vida?
Que tal ver o mundo com olhos mais alegres?
— Como posso ter alegria se seu pai, quando saiu por aquela porta — apontou —, levou junto toda a alegria que eu tinha?
Como recuperar algo que me foi roubado?
– Papai foi embora porque não a amava mais.
- Ele jurou me amar na alegria e na tristeza, na saúde e na doença.
Não aceito que tenha me abandonado.
— Mamãe... — Magali fez uma pausa, pensou e, enquanto falava, conduziu Ivete até o sofá.
— O que foi?
— Papai não a abandonou.
Foi você quem se abandonou.
— Não entendo.
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 18, 2015 8:22 pm

- A senhora foi uma moça tão bonita!
Olho para as fotos de sua juventude e mal posso crer em tanta beleza.
- Eu era a mais bonita do quarteirão.
Seu pai passava, descia do ónibus, ficava me paquerando.
Eu tinha muitos pretendentes, mas quem manda no coração?
Apaixonei-me por Getúlio e acreditei que viveríamos juntos para sempre.
- Depois que se casaram, você mudou bastante.
— Não, foi seu pai quem mudou.
Quando nos conhecemos, ele me chamava de gatinha.
Quando foi embora, me chamava de baleia.
Magali não conteve o riso.
— Papai foi espirituoso.
Foi uma metáfora, uma maneira de dizer que conheceu uma mulher e se casou com outra.
Você foi a responsável pelo fim de seu casamento.
— Eu?!
— Sim. Papai me contou que você transformou-se em outra mulher.
Que ele se apaixonara por uma moça bonita e inteligente e casara-se com outra, carrancuda e reclamona.
— Mas é claro! Depois do casamento, virei esposa.
Tive de assumir responsabilidades, apareceram as contas da casa para administrar e pagar, fazer economia com as compras de mercado, vieram Carlinhos e você... — Ivete suspirou.
— Sei que muitas responsabilidades surgiram depois de assinarem os papéis e viverem juntos sob o mesmo teto, mas a senhora deixou de ser aquela moça bonita...
— Deixei porque virei esposa.
Uma mulher casada precisa se comportar de maneira diferente, precisa usar roupas diferentes.
Eu deixei a minha vida de lado para cuidar de Getúlio e de meus filhos.
— Falou o que eu queria escutar:
a senhora largou a sua vida, abandonou-se.
- E de que outra forma eu poderia seguir com meu casamento?
Como conciliar tudo?
— A senhora absorveu o papel da esposa.
Deixou de ser quem era para se transformar numa mulher completamente diferente.
Papai sentiu muito essa mudança.
Vocês foram se afastando e...
Ivete concluiu:
— E ele me largou assim, da noite para o dia.
- Não. Um casamento não acaba da noite para o dia.
Um casamento vai acabando aos poucos, mesmo que um dos parceiros leve mais tempo para se dar conta do naufrágio da relação.
A falta de interesses comuns, a falta de sintonia, de companheirismo, de amizade, de intimidade... existem tantos problemas que vão se acumulando ao longo do tempo que, de repente, um dia acordamos, olhamos para quem está dormindo ao nosso lado e perguntamos, estupefactos:
"Quem é essa pessoa ao meu lado?"
- Eu engordei, deixei de me cuidar, fiz economias, parei de fazer pé e mão, comecei a tingir os cabelos em casa.
E tudo para quê? Para nada.
— Papai perdeu a atracção que tinha por você — contrapôs Magali.
- Fala isso assim, na minha cara?
Duvido que Getúlio tenha perdido o interesse por mim. Ele me idolatrava.
— Disse bem, mãe: idolatrava.
Mas um dia ele se cansou da vida sem graça que tinham e partiu.
Eu e Carlinhos presenciamos muitas brigas de vocês.
— Desentendimentos são normais entre casais.
Você vai ver o dia em que se casar.
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 18, 2015 8:22 pm

— Não. Um ou outro conflito, ideias divergentes, opiniões contrárias, tudo isso faz parte de uma relação afectiva saudável.
Afinal, são duas pessoas diferentes que têm em comum o sentimento de amor que nutrem uma pela outra.
Quando o sentimento é forte, a relação é duradoura.
— Seu pai me trocou por umazinha.
Ele ainda vai voltar. Eu tenho certeza.
— Eu não teria tanta certeza assim — respondeu Magali, maneira pausada.
— Claro que vai.
Seu pai saiu de casa para se aventurar com um rabo de saia bem mais jovem que ele.
A sirigaita tem pouco mais que a sua idade, Magali.
Acha que uma relação dessas vai durar?
Claro que não.
Daqui a algumas semanas ele entra pela porta da sala e tudo voltará a ser como era antes.
— A senhora não quer enxergar a realidade.
Isso é duro, pois tolda a nossa visão e enfraquece o nosso raciocínio.
Perdemos o senso e, pior, perdemos o rumo de nossa vida.
— Mas ele vai voltar. Sabe por quê?
Porque essa sirigaita vai se cansar do seu pai.
Daqui a pouco ele vai estar velho e gagá.
Ela vai trocá-lo, assim como ele me trocou.
— Mamãe, acorde.
Papai saiu de casa há cinco anos.
— Cinco anos não é nada!
Entre namoro e casamento passamos vinte e cinco anos juntos.
— Papai me ligou ontem.
Ivete mordiscou os lábios.
— Continua falando com seu pai?
— - Por que não?
Ainda sou filha dele, oras.
— Você está me apunhalando pelas costas.
Como pode fazer isso?
— Ele é meu pai — defendeu-se Magali.
Eu não tenho nada a ver com os desentendimentos ou com a separação de vocês.
Eu amo os dois da mesma forma.
Ivete desconversou:
- Traga-me um copo de água.
Minha garganta secou.
Magali levantou-se e foi até a cozinha.
Nesse meio-tempo, Luciano ligou avisando que estava próximo do quarteirão.
Ela desligou o celular, encheu o copo e entregou-o a Ivete.
- Tome.
- Obrigada — Ivete bebeu, pousou o copo sobre a mesinha lateral e prosseguiu:
O que seu pai lhe disse?
Que a jovenzinha cansou-se dele?
Tenho certeza de que foi isso.
- Não. Papai me ligou para dizer que vou ganhar dois irmãozinhos.
A mulher dele está grávida de gémeos.
Um soco não teria provocado dor maior no estômago de Ivete.
Ela fechou os olhos e recostou-se ao sofá.
- Você está bem, mamãe? Está pálida.
- Não foi nada. Nada.
— Como não?
Está branca feito cera.
Vamos ao posto médico.
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 18, 2015 8:23 pm

- Não, Magali. Estou bem — Ivete falava com modulação de voz firme.
Ouviram uma buzina.
Era do carro de Luciano.
— Vou avisar Luciano que não vou ao cinema.
— De forma alguma.
- Vou ficar a seu lado.
Eu não devia ter lhe dado essa notícia.
— Que notícia? — !vete perguntou, como se nada tivesse escutado.
— Mãe, por favor, vamos ao médico?
- Não. Já disse que estou bem.
Ivete levantou-se e foi arrastando a filha até a porta.
— Vou cancelar o encontro.
— Não vai.
Magali abriu a porta e Ivete estugou o passo até o carro.
— Oi, Luciano, como vai?
- Muito bem, dona Ivete.
E a senhora?
- Estou óptima.
Olha — ela abaixou o tom de voz —, depois do cinema você poderia levar a Magali para lanchar?
— Claro! Será um prazer.
— É que eu quero ficar um pouco sozinha, sabe?
Quanto mais ela demorar a voltar, melhor.
— Pode contar comigo, dona Ivete.
Magali inclinou a cabeça e perguntou:
— Por que estão falando tão baixinho?
— Não é nada, filha. Nada.
Ivete beijou Magali no rosto, esperou que entrasse no carro e acenou até que Luciano dobrasse a quadra.
Ela cumprimentou uma vizinha que atravessava a rua, entrou em casa e trancou a porta.
Caminhou até a cozinha e abriu a gaveta sob a pia.
Apanhou uma faca e uma tesoura.
Feito um robô, Ivete subiu as escadas e trancou-se no quarto.
- Agora eu me vingo de você, Getúlio.
Magali cumprimentou Luciano e perguntou:
- O que estava cochichando com minha mãe?
— Nada de mais.
— Eu não devia ter contado a ela...
- Contado o quê?
No trajecto até o cinema, Magali contou com detalhes a conversa que tivera há pouco com a mãe.
— Não sei se deveria ter falado.
Dei com a língua nos dentes.
- Mais dia menos dia sua mãe receberia a notícia.
Não seria pior saber pela boca de um estranho?
— É, pensando assim, creio que fiz o melhor.
— Uma notícia dessas pode ter abalado por completo o mundo interior de dona Ivete.
— É isso que me causa medo.
Depois que falei, mamãe transformou-se.
Não parecia mais a mulher reclamona e chata de sempre.
Estava com um olhar duro, apresentava uma altivez que nunca vira antes.
Acho melhor voltarmos.
Tenho medo de que ela faça alguma besteira.
— Negativo. Cão que ladra não morde.
Sua mãe sempre reclamou, sempre ficou chorando pelos cantos da casa.
Não acredito que ela vá cometer alguma loucura.
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 18, 2015 8:23 pm

— Acha mesmo?
— Sim. Confie em mim um pouquinho.
Magali sorriu encabulada.
Ultimamente percebera-se mais "alegre" toda vez que estava ao lado de Luciano.
Em respeito à memória de Gláucia, ela evitava dar algum tipo de asa à sua imaginação.
Uma amiga do trabalho dissera que talvez ela estivesse gostando de Luciano muito mais do que poderia imaginar, ao que ela rebatia:
"Bobagem, somos óptimos amigos".
Luciano prosseguiu:
- Como disse, há notícias que mudam por completo a nossa vida.
Veja a minha história.
Eu era apaixonado pela Gláucia.
Sonhava com uma vida feliz ao lado dela.
Na minha cabeça, iríamos casar, morar num belo apartamento, constituir família.
E de uma hora para outra — ele fez um estalo com os dedos — meu sonho se transformou em pesadelo.
Gláucia morreu, o casamento jamais foi consumado.
Devolvi os presentes, cancelei o contrato de aluguer e paguei pesada multa, dei as passagens da viagem de lua-de-mel para o meu irmão.
Descobri que a mulher que amava me traiu, mentiu para mim e tripudiou sobre meus sentimentos.
Tentou me aplicar o velho golpe da barriga.
— Não foi bem assim.
- Fala desse modo porque Gláucia era sua amiga.
— Não. Falo porque sei que ela nutria sentimentos por você.
Luciano soltou uma gargalhada nervosa.
— Sentimentos?
Que tipo de sentimentos?
Se ela me amasse de verdade, jamais teria feito o que fez.
Magali sabia que o rapaz estava certo.
Ela perguntara a Gláucia se amava Luciano, e Gláucia desconversava, mudava de assunto, até confessar, naquela fatídica noite, que não o amava.
Luciano estacionou o carro.
Eles saíram e permaneceram na fila da bilheteira.
Era tardezinha de domingo e a fila estava grande.
Conversaram amenidades e Magali disparou, do nada:
— Você amava a Gláucia?
— Como assim?
— Ora, como assim?
Você amava ou não amava a Gláucia?
— Por que pergunta?
- Porque, depois de tantos dissabores, depois de alguns anos, você sabe se a amava ou não.
Será que é tão difícil me responder?
Luciano coçou a cabeça e, quando pretendia falar, foi surpreendido pela aproximação do casal.
Débora e Régis acabavam de chegar.
Eles se cumprimentaram e Débora elogiou Magali.
- Está tão bonita!
Você fica bem quando usa roupa colorida.
- Magali fica bem de qualquer jeito — respondeu Luciano.
Régis sorriu e enlaçou Débora pela cintura.
— Débora também fica bonita de qualquer jeito.
Até quando acorda, sem maquilhagem e despenteada, é linda!
Ela deu um tapinha no ombro do amado.
— Régis fala assim porque nos amamos de verdade.
— Fomos feitos um para o outro.
— Almas gémeas? — perguntou Luciano.
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 18, 2015 8:23 pm

— Depende do seu conceito de alma gémea.
Eu e Débora preferimos definir como almas afins.
— É a mesma coisa — disse Magali.
- Não — tornou Débora.
O termo alma gémea ganhou força e acabou sendo distorcido de seu sentido original.
Prefiro "afins" porque dá o sentido de ligação verdadeira, de afinidade.
— Adoraria sentir esse amor espontâneo de vocês - tornou Luciano, um tanto enciumado.
"Meu pai está apaixonado.
Agora encontro Débora e Régis apaixonados.
Será que eu tenho algum problema?
Por que diabos não me apaixono?"
Débora disse, séria:
— O amor não é espontâneo.
— Não? — perguntou Magali.
Pensei que fosse.
— Mas não é.
O amor é potencial que se desenvolve, que educamos, que cresce, desabrocha e cultivamos.
Amor não vem de graça.
Precisa ser estimulado, provocado.
Todos ficaram pensativos por instantes.
Depois, Luciano perguntou:
- Seu pai parou de implicar com o namoro de vocês?
— Sim. Hoje a Gláucia esteve em casa e...
Luciano arregalou os olhos.
— Em casa? Na sua casa?
— É. O espírito dela estava bastante atormentado - Débora falava com naturalidade.
Queria melhorar, seguir adiante no mundo espiritual, mas estava presa ao seu ódio, Luciano.
Ele engoliu em seco. Régis tentou contemporizar:
— Débora é directa.
- E por que rodeios?
Luciano nutre um ódio por Gláucia que estava adormecido.
A fila andou um pouco e ainda faltava muito para comprarem os ingressos.
Magali olhou para Régis e fez sinal para se afastarem.
Ele captou a mensagem e sorriu:
— Magali, vamos comprar pipoca e refrigerantes?
— Vamos.
Os dois afastaram-se e Luciano endireitou o corpo.
Cruzou os braços, numa clara postura de defesa.
— O que quis dizer com ódio adormecido, Débora?
- A infelicidade percorre suas vidas há muitas encarnações.
Não é de hoje que você e Gláucia sentem esse desconforto.
— Nunca senti desconforto.
Ela me traiu.
— Não. Ela fez o que achou melhor para ela, naquele momento.
— Agiu errado.
— Quem somos nós para dizer o que é certo ou errado?
Não fazemos tudo em nossa vida por pura conveniência?
— Eu me senti usado.
— Você se colocou nessa posição de vítima para não ter de olhar para dentro de si e fazer as mudanças de crenças e atitudes que precisava para ter uma vida plena e feliz.
Prefere reclamar, jogar a culpa de sua infelicidade sobre alguém que passou por uma série de situações desagradáveis e tenta, de toda sorte, seguir adiante.
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 18, 2015 8:23 pm

- Gláucia não sofreu o tanto que eu sofri!
— Como não?
Ela morreu no auge da juventude.
Tinha uma vida pela frente.
Pensa que é fácil morrer e acordar em outra dimensão, em uma nova condição?
Acaso não pensa que Gláucia queria mesmo casar, ter filhos?
Não consegue imaginar como deve ter sido difícil para ela?
Num dia ia se casar, ter uma casa só para ela, um marido, viagem de lua-de-mel, talvez quisesse no futuro ter filhos.
E, num piscar de olhos, foi obrigada a se desapegar de seus sonhos e desejos.
Teve de largar, na marra, as coisas do mundo e dedicar-se aos assuntos do espírito.
— Mas eu...
Débora falava de maneira firme.
Judite estava próximo dela e lhe dava sustentação.
- Você ficou aqui.
Não teve de se afastar de seu pai, de seu irmão, de seus pertences.
Você continua vivendo aqui e agora.
Não sabe o que é ser obrigado a largar o mundo para seguir os anseios de sua alma.
— Nunca imaginei o que teria acontecido a ela.
Eu não conheço a espiritualidade e custei a acreditar que a vida continua depois da morte do corpo.
— É preconceito.
Há milhares de anos boa parte do mundo acredita na reencarnação, mas, por vaidade, ignorância e brigas de poder, fomos contaminados e muitos acabaram por acreditar que os "assuntos ocultos" vêm de mentes perturbadas, de gente fanática, ignorante.
Pode passar o tempo que for, uma hora teremos de abrir os olhos e a mente para aceitar e entender que essa verdade explica muitos problemas pelos quais o mundo vem passando.
As desigualdades sociais, as diferenças de temperamento, as deficiências de nascença, tudo tem uma razão de ser quando observamos tais aspectos pela luz da espiritualidade.
E a reencarnação é a chave para entendermos tudo isso.
- Não frequento lugar algum.
- Frequentar um centro espírita é bom, mas conhecer e estudar os assuntos espirituais, sem os rótulos de religião, amplia nossa lucidez e nos ajuda a viver melhor.
Quer melhorar a sua vida, Luciano?
— Pois é claro.
Estou cansado de carregar o peso da tristeza em meu coração.
— Faça tudo melhor, ame melhor, perdoe mais, vá para frente porque a vida segue rápido.
Ele a abraçou com carinho.
— Débora, como posso agradecer tanta coisa boa que você me diz, tanta serenidade que me passa?
— Fique na força da alegria, na força da fé.
Acredite que tudo no universo está em constante mutação.
Temos a bênção de poder modificar e transformar toda crença que impede o nosso progresso.
E, antes que eles cheguem - Débora abaixou a voz e sussurrou no ouvido dele:
— Judite manda lembranças.
Diz que o amor que os une é mais forte que tudo.
— Você disse o nome de minha mãe — ele estremeceu.
— Ela está aqui e diz para você abrir seu coração.
O tempo está passando e você não está dando chance ao amor verdadeiro.
Abençoe a sua relação com Gláucia, perdoe a si próprio e liberte-se para abraçar nesta vida o que ela tem de melhor a oferecer-lhe.
Os olhos dele marejaram.
Luciano estava muito emocionado.
Régis e Magali apareceram com um balde de pipocas e refrigerantes.
— Enquanto os dois tagarelavam, compramos também os ingressos — tornou Régis.
— A sessão vai começar agorinha — disse Magali.
— Vamos — convidou Débora, depois de dar uma piscada para Luciano.
Em seguida, ela abraçou-se a Régis e os quatro entraram na salinha escura com os corações pulsando de felicidade.
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 19, 2015 8:37 pm

Capítulo Quinze

Magali adorou o passeio.
O filme era uma comédia romântica e todos saíram do cinema esboçando um sorriso.
Débora seguiu com Régis para o apartamento dele e Luciano, seguindo o conselho de Ivete, convidou Magali para um lanche.
— Comi muita pipoca. Não estou com fome.
— Pelo menos vamos tomar um café e comer uns biscoitinhos.
Conheço uma cafetaria pequena e aconchegante aqui perto.
Ela assentiu e foram para o local, não muito distante do cinema.
Luciano entregou a chave do carro ao manobrista e entraram no recinto.
O local estava um pouco cheio e os dois se sentaram numa mesinha logo à entrada.
Fizeram o pedido e Luciano considerou:
— Conversei com Débora e as palavras dela não saem da minha cabeça.
Foram profundas e me tocaram o coração.
— Débora tem uma habilidade natural de nos provocar bem-estar.
Ela é um doce de pessoa, compartilhar sua amizade me faz tremendo bem.
— Impressionante ela ser irmã de Gláucia.
São tão diferentes.
— Assim como você e Lucas.
São como água e vinho.
— Sim. Gosto do meu irmão...
Luciano parou de falar e fitou um ponto indefinido.
Magali notou a ausência momentânea e perguntou:
— Algum problema, Luciano?
— Não, nada.
É que Lucas anda muito esquisito nos últimos tempos.
— O que ele tem?
- Já aconteceu de eu acordar no meio da noite para tomar água e encontrá-lo tendo pesadelos horríveis.
Grita, está sempre agitado, nervoso e acorda suando em bicas.
— Lucas sempre foi nervosinho. Isso não faz bem.
- Papai tentou convencê-lo a fazer análise, procurar ajuda médica, mas ele diz que é sadio e normal.
E que é adulto para decidir o que é melhor para ele mesmo.
- O melhor a fazer, nesses casos, é não dar opinião, deixe-o seguir seu caminho e estenda a mão quando ele precisar.
— Gostei muito do filme.
— Eu também. Adoro os finais felizes.
— Sabemos que tudo não passa de delírio, mas é bom sonhar com finais felizes.
— Por que delírio?
Não acredita em finais felizes?
— E por acaso o que a vida me trouxe?
Algum final feliz? A minha história está mais para novela mexicana.
— Não se torture, Luciano.
O que passou passou.
— Débora me disse para perdoar a mim mesmo e Gláucia.
Disse-me que ela deseja seguir adiante no mundo espiritual, mas encontra barreiras porque a minha raiva a paralisa e entristece.
— O que acha de fazermos uma oração para Gláucia?
— Uma oração?
— É. Uma oração.
Vamos fechar os olhos por um instante e imaginá-la bem.
Vamos lhe enviar bons sentimentos.
Levante os braços e me dê as mãos.
Luciano esticou os braços e deram-se as mãos.
Fecharam os olhos e fizeram, cada um à sua maneira, uma prece, uma mentalização positiva para Gláucia.
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 19, 2015 8:37 pm

Magali terminou e abriu os olhos.
— Nossa, que coisa boa!
Luciano permanecia de olhos fechados e continuava a segurar as mãos dela.
Logo depois ele abriu os olhos e sorriu.
— Foi difícil, entretanto consegui.
Procurei na memória uma cena em que Gláucia estava feliz e contente.
Depois desejei a ela tudo de bom.
— Como está seu coração?
— Mais leve.
Parece que um peso foi arrancado daqui.
Magali assentiu.
- Fico feliz que você esteja mudado.
— A vida segue em frente.
Creio que perdi muito tempo com as lamúrias.
Agora é olhar para frente e ir ao encontro da minha felicidade.
Ela fez sinal e Luciano não percebeu.
Ele perguntou:
— O que foi?
— Você continua segurando as minhas mãos.
Luciano imediatamente soltou suas mãos das dela.
Ficou vermelho feito um pimentão e pediu desculpas.
Magali sentiu uma pequena onda de calor e prazer, mas nada disse.
O garção trouxe o café e os bolinhos, e ambos comeram em silêncio.
Uma hora depois, Luciano estacionou na porta da casa de Magali.
Despediram-se e ela notou tudo escuro.
Passou a chave, abriu a porta e acendeu a luz.
Então, deu um passo para trás e levou a mão à boca para evitar o grito de susto.
A casa estava toda revirada.
Os móveis estavam fora do lugar.
Havia papel picado por todos os lados.
Documentos e fotos espalhados pelos cómodos, todos rasgados, cortados.
Começou a gritar por Ivete:
— Mãe! Cadé você?
Nada. Nenhum barulho, nenhum sinal de vida.
Magali sentiu o coração querer saltar pela boca.
Foi até a cozinha e os pratos estavam em pedacinhos.
Não sobrara uma louça inteira.
Tudo quebrado em cacos.
Rodou nos calcanhares e subiu as escadas aos pulos.
Entrou directo no quarto de Ivete. A cena era surreal.
O colchão da cama fora queimado e o ar estava carregado, abafado.
Magali correu e abriu a janela.
Respirou o ar fresco da noite e viu que havia algo escrito com batom no espelho da penteadeira:
Não aguento mais. É o fim!
Sobre o móvel havia um envelope onde estava escrito o nome de Magali.
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 19, 2015 8:38 pm

Ela abriu e leu:
"Filha querida,
Depois do que me disse hoje à tarde, parece que finalmente despertei de um pesadelo.
Foi um choque de realidade.
Reflecti bastante e decidi que preciso dar um rumo em minha vida.
Liguei para sua tia Romilda em Londrina e pedi para que me acolhesse por um tempo.
Levo comigo algumas mudas de roupa e o cartão do banco.
Tenho um bom dinheiro na poupança.
Desculpe-me pelos estragos.
Fiquei um pouquinho nervosa e descontei minha ira em alguns móveis e objectos.
Mande beijos ao Carlinhos.
Não tenho dia e hora para voltar.
Liguei para a rodoviária e pretendo pegar o ónibus das dez da noite.
Assim que chegar, vou comprar um celular pré-pago e ligo para tranquilizar você e seu irmão.
Cuide da casa e de sua vida.
Com amor,
Mamãe"


Magali encostou o corpo sobre a parede, recompondo-se do susto.
Meu Deus!
Mamãe enlouqueceu!
Régis abriu a porta do apartamento e acendeu a luz.
Fez um gesto cavalheiro com o braço e Débora entrou.
Depois que fechou a porta, ele a abraçou e beijou várias vezes nos lábios.
— Eu a amo tanto!
— Também amo você.
Passaram da sala para o quarto e entregaram-se ao amor.
Tomaram uma duche e voltaram para a cama.
Débora aninhou-se sobre o corpo relaxado do amado.
— Estou tão feliz!
— Eu também — respondeu Régis.
Só estou mesmo preocupado com seu pai.
— O que tem ele?
- O clima no escritório não anda tão bem.
Desde que assumimos nosso namoro, Armando mudou o jeito de se relacionar comigo.
- Natural. Você era o melhor amigo de papai.
Agora é forte candidato a genro.
A mudança na cabeça dele ainda não foi processada.
— Candidato a genro? Por quê? Tem outros?
Eles riram e Débora respondeu, aninhando-se mais ainda sobre o corpo do amado:
- Eu só tenho olhos para você.
— Eu também, Débora.
Conheci muitas mulheres ao longo da minha vida.
Tive pouquíssimos compromissos sérios.
Sempre tive medo de me envolver afectivamente.
Entretanto, quando a conheci, deixei a resistência de lado.
Nunca, mas nunca mesmo, amei uma mulher como amo você.
Ela o beijou longamente nos lábios.
Em seguida, sorrindo, disse:
— Então por que não nos casamos?
- Assim?
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 19, 2015 8:38 pm

- É. Nós nos amamos.
Sabemos o que sentimos um pelo outro.
Por que esperar?
— Sabe que tem razão?
O que me diz de casarmos amanhã cedo?
- Bobinho! Preciso ao menos de uma semana.
— Imagine. Temos que conversar com seus pais, marcar a data, distribuir convites...
Débora o cortou com amabilidade.
— De forma alguma.
— Por quê?
— Não sou de seguir esses protocolos.
— Não?
— Negativo. Podemos fazer uma pequena reunião, convidar alguns amigos e familiares.
Tudo simples.
— Não quer véu nem grinalda?
Ela fez que não com a cabeça.
- Nem igreja, vestido, festa, nada?
— Nada.
— Nunca conheci mulher que não desejasse se casar de véu e grinalda.
— Agora conhece. Nunca tive esse sonho.
Gláucia é que sempre sonhou em se casar de acordo com a tradição.
Comprava revistas de noivas, adorava ir a casamentos.
Ela sempre foi a menina que queria casar.
- E você?
— Eu quero, mas sem essa confusão toda.
— O que faremos, então?
— Troco tudo isso por uma viagem de primeira classe para Paris.
— Espertinha!
— Melhor uma viagem do que passar pelo stresse de um evento tão grandioso, em que sempre alguém vai dizer que não estava bom.
— Combinado!
Abraçaram-se e amaram-se novamente.
O dia estava amanhecendo quando finalmente adormeceram.
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 19, 2015 8:40 pm

Capítulo Dezasseis

Gláucia despertou de supetão.
Estava um pouco assustada, pois tivera um sonho ruim.
Arregalou os olhos e procurou reconhecer o local.
Era um quarto simples, pintado de um azul bem clarinho.
Tacteou a cama e moveu a cabeça para os lados.
Viu uma mesinha de cabeceira, uma poltrona à sua frente e mais nada.
A janela era no estilo veneziana e estava fechada.
Havia uma ténue claridade que trespassava as suas frestas.
— Onde estou? — ela indagou, numa voz quase sumida.
Gláucia avistou sobre a mesinha um copo de água.
Apanhou-o e sorveu o líquido com prazer.
Passou as costas da mão sobre os lábios e sentou-se.
As ideias vinham embaralhadas e ela abriu e fechou os olhos várias vezes.
Em seguida, levantou-se e notou que estava com uma camisola branca.
Foi se movimentando lentamente até a beirada da cama, depois chegou próximo do peitoril e abriu a janela.
— Meu Deus! — exclamou.
Que lugar mais lindo!
A beleza era impressionante.
No parapeito da janela havia uma floreira com rosas cujo perfume inebriava a alma.
Era delicado e calmante.
Gláucia aspirou o cheiro das flores e encheu o pulmão de ar.
Depois exalou um longo suspiro, sentindo enorme bem-estar.
Da janela, era possível ver uma pracinha com uma fonte e chalezinhos de madeira que, lado a lado, formavam um círculo.
Algumas pessoas andavam na rua e a cumprimentavam pelo nome:
— Oi, Gláucia! — dizia um.
— Bom dia, Gláucia — sorria outra.
— Como vai, tudo bem? — perguntava uma senhora.
Ela acenava com a mão e sorria.
— De onde essas pessoas me conhecem?
Gláucia ouviu a porta abrir-se e virou o rosto.
Um rapaz alto, aparentando uns trinta anos de idade, olhos amendoados e sorriso encantador, entrou no quarto.
Encostou a porta e a cumprimentou.
— Como está? Dormiu bem?
— Do-dormi... — ela balbuciou.
Sentiu uma emoção diferente.
— Que bom! Você estava sem energia.
Pensei que fosse ficar doente.
— Estou me sentindo bem — disse ela, tentando desviar os seus olhos dos dele.
— Tem certeza?
Gláucia estava curiosa.
Respondeu e emendou:
— Sim. Onde estou?
— Numa cidadezinha astral, ou melhor, numa aldeia astral.
— Agora me recordo.
Estava na casa de meu pai e Judite me trouxe para cá.
- Você estava dormindo havia uma semana.
Gláucia espreguiçou-se de maneira displicente e bocejou.
- Estava na janela há pouco e as pessoas me cumprimentaram como se me conhecessem.
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 19, 2015 8:40 pm

— De facto, muita gente conhece você.
- Não sei onde estou.
Não me recordo deste lugar, ou mesmo dessas pessoas.
— Porque ainda não teve acesso ao seu passado.
— Passado?
— É. Falo de uma outra vida que você teve, antes de retornar ao mundo como Gláucia.
- Judite havia me falado algo a respeito.
Confesso que estava bastante perturbada e não registei muito do que ela me disse.
Só sei que ela é muito especial para mim.
— Judite gosta muito de você.
— Sinto por ela um carinho de filha para mãe.
- Mesmo?
- Sim. E o mais estranho é que...
— O quê? — ele perguntou, interessado.
- Pensei que fosse reencontrar minha mãe, a Miriam.
— Miriam está aqui.
Gláucia sentiu um friozinho na barriga.
- Minha mãe? Onde?
Ele sorriu, abriu a porta e fez um sinal com os dedos para fora.
Em seguida, uma moça muito bonita, de cabelos longos e castanhos, tez alva e olhos expressivos, entrou no local.
Ficou parada na porta e cumprimentou:
— Como vai?
Gláucia sentiu uma ponta de decepção.
Esperava encontrar sua mãe da maneira como recordava por meio das fotos que guardara durante anos.
Mas Miriam parecia outra pessoa, outra mulher.
Não tinha absolutamente nada a ver com os arquivos de sua memória.
- Não se parece com minha mãe.
Miriam sorriu.
— Eu decidi reencarnar para usufruir de novas experiências e me redimir perante Armando e Iara.
Eu já havia construído um laço de afecto com você, mas precisava também que os laços de amizade perdidos entre mim, Armando e Iara fossem recuperados.
Por isso tive que entender melhor como funciona o perdão.
Na Terra, acreditava piamente no provérbio:
"Morto o cão, acaba a raiva". (9)
Aprendi, de maneira dolorosa, que o provérbio não se aplica.
Miriam suspirou e tornou, voz cadenciada:
- Depois que deixei a Terra, passei por um estágio de grande perturbação e desequilíbrio emocional.
Aos poucos fui me recompondo, aprendi a controlar meus pensamentos e dominar minhas emoções.
Ampliei minha lucidez e, ao ter acesso às minhas vidas passadas, deparei-me com uma encarnação que me trouxe boas lembranças.
Decidi que adoptaria o mesmo "corpo" dessa encarnação pretérita.
— Foi uma encarnação em que Miriam se sentiu muito feliz — ajuntou o rapaz.
Miriam concordou e disse:
— É por isso que ficou desapontada.
Eu nada me pareço com a imagem que tem guardada de sua mãe.
Gláucia esboçou um sorriso.
Miriam aproximou-se e abriu os braços.
Abraçaram-se, mas Gláucia não sentiu nada.
Miriam notou e perguntou:
— Você não se emocionou.
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 19, 2015 8:40 pm

— Fiquei mais de vinte anos sonhando com este reencontro e não esperava que fosse assim.
— Depois da morte, continuamos mais vivos do que nunca.
- Por isso, o provérbio não se faz valer — concluiu Gláucia.
— Exactamente! Choramos, aprendemos, sorrimos, trabalhamos, amamos, reencontramos afectos e desafectos.
Os anos passam e, muitas vezes, um ente querido que ficou no mundo acredita que, ao regressar ao mundo espiritual e reencontrar aquele que morreu, tudo será como se nada tivesse acontecido.
— Eu não a vejo como minha mãe. Não sinto...
— Nada arrebatador, certo? — ajuntou Miriam.
— É. Não quero ser grosseira, mas o sentimento que tenho por Judite é o que mais se aproxima do amor entre mãe e filha.
— Sei disso.
Eu e você, Gláucia, tivemos muitos desentendimentos no passado.
Passamos muitas vidas nos acusando e nos odiando.
Esquecemos que um dos maiores fortificantes do espírito é o perdão.
Há algum tempo, a vida nos uniu no palco do mundo para uma nova visão dos factos, para reciclarmos os sentimentos.
Amadurecemos nossas almas e ficamos anos sem voltar juntas à Terra.
Antes de Gláucia perguntar, Miriam prosseguiu:
— Num passado distante, conheci Armando, casado com Iara e pai de Débora.
Estava iludida e precisava resolver meu complexo de inferioridade.
Quis destruir o casamento deles para me sentir envaidecida.
No fim, ledo engano.
Acreditei que estivesse resolvendo meus problemas de inferioridade quando na verdade trouxe desarmonia para o meu coração.
— Então, foi por esse motivo que morreu jovem em última vida?
— Sim. Voltei à Terra, uni-me a Armando e trouxe você ao mundo.
Depois, como previsto, saí de cena para que Iara pudesse resgatar esse amor ao lado dele.
Eu cumpri meu papel e meu dever.
E, depois que mandei uma carta psicografada para Armando, o meu coração ficou em paz com ele e Iara.
Agora preciso acertar-me com Débora.
— Eu nunca acreditei em cartas psicografadas.
Papai sempre falava da sua carta, mas eu desdenhava.
Achava impossível.
— O intercâmbio entre os dois mundos ocorre de diversas formas, seja por meio de cartas psicografadas, sonhos, visões...
Eu fui levada até um centro espírita muito conceituado e cujos médiuns estão preparados para receber mensagens ditadas por espíritos aos seus entes queridos.
Claro que pode haver mudança no conteúdo, na maneira de escrever, visto que não somos nós quem escrevemos.
Tudo o que queremos ditar passa pela mente do médium.
— Se eu soubesse que isso é verdade, poderia poupar dissabores na chegada a esta dimensão.
— Pois é. Mas acontece que seu espírito está mais forte e você está mais lúcida. Nenhum dissabor vem em vão.
— E agora, o que pretende fazer? — perguntou Gláucia.
- Reciclei meus sentimentos, reavaliei atitudes e amadureci minha alma a fim de perceber melhor a realidade, reencarnar ao lado daqueles que machucamos de alguma forma no passado porque, nascendo em outros corpos e vivendo novas situações, vamos nos relacionar sobre novas perspectivas.
Sei que, com essa nova maneira de enxergar a vida, serei amiga de Débora.
— Não consegui fortalecer meus laços com Iara e Débora — disse, entristecida.
— Elas gostam sinceramente de você. Acredite.
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 19, 2015 8:41 pm

— Hoje sei. Se não fossem as orações e vibrações de Débora, eu não conseguiria me livrar tão facilmente das energias negativas que Luciano me remetia como dardos envenenados.
Miriam pousou sua mão sobre a de Gláucia.
— A sua sensibilidade vai abrir-se e você vai perceber muitas outras coisas.
Eu fui mais uma companheira de sua jornada.
Hoje posso dizer, com franqueza, que estou em paz com meus sentimentos.
— Precisamos conversar mais — disse Gláucia.
Quando eu estiver mais forte e mais activa, irei procurá-la.
— Não será possível — revidou Miriam.
— Por quê? — perguntou Gláucia, curiosa.
— Porque estou me preparando para retornar ao planeta.
Vim para revê-la, dar-lhe as boas-vindas e desejar que, ao toque dos seus pensamentos renovados, tudo mude para melhor.
E aproveito para despedir-me.
Miriam abraçou Gláucia com carinho e, em seguida, abraçou e beijou o rapaz.
— Até mais ver.
Depois da despedida, Gláucia considerou:
— A mulher que estava aqui agora não era a minha mãe.
Miriam deu-lhe a vida no mundo, mas o compromisso de ambas era o de fazerem as pazes com Iara e Débora.
— Não consegui em vida.
- Agora pode — concluiu o rapaz.
Você pode fazer as pazes agora, se quiser.
— Como proceder? Estou confusa.
— Faça o mesmo que Débora faz para você: transmita a ela todo o seu carinho, todo o seu amor.
— Só isso?
— Acha pouco? Pois tente e verá.
— Interessante. Aqui é tudo muito diferente!
— O mundo astral é o mundo real.
E neste mundo real tudo se processa de maneira simples.
Se você vibra ódio, atrairá ódio; se vibrar amor, atrairá amor.
Gláucia concordou com a cabeça, depois passou a mão pelos cabelos e indagou:
- Quando vou poder sair?
— Quando se sentir melhor. Ainda se sente fraca?
— Um pouco.
Antes de Miriam entrar, eu tinha despertado de um sono pesado.
Tive um sonho estranho, vi-me com roupas antigas e pessoas que não reconheci no momento.
Depois aconteceram coisas desagradáveis e eu despertei.
- São cenas do passado.
Logo tudo vai fazer sentido para você.
— Tem certeza?
— Claro. Já passei pelo mesmo que você, Gláucia.
Ela riu.
- Parece que aqui todos me conhecem!
— Por certo.
— Como se chama? — ela perguntou curiosa.
- Xenos.
Ele falou e aproximou-se ainda mais.
Estendeu a mão para Gláucia.
Ela apertou e sentiu um frémito de prazer.
"Nunca vi esse homem antes e já sinto isso?", pensou aflita.
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 19, 2015 8:41 pm

- O que faz nesta aldeia, Xenos?
— Sou um dos coordenadores desta região astral.
Eu, Judite e mais alguns companheiros dedicados.
— Eu já estive aqui antes?
- Algumas vezes, muitos anos atrás.
— Engraçado, agora que estou conversando com você, parece que o lugar não me é estranho.
E você... bem, eu posso jurar que não o conheci nessa última encarnação, mas seu rosto me é tão familiar!
— Somos conhecidos de outros tempos.
Na hora certa você vai se lembrar de muitas coisas sobre nós.
Xenos falou de uma maneira tão doce, com olhar tão carinhoso, que Gláucia sentiu o peito agitar-se.
Levou a mão ao peito e percebeu que o coração batia descompassado.
Ela suspirou fundo e mudou o assunto:
— Só queria entender por que morri daquele jeito.
Xenos abriu um sorriso lindo e convidou:
— Vamos tomar um ar fresco?
O sol está morno e a temperatura agradável.
Podemos sair e caminhar.
Tem um bosque muito bonito aqui perto e poderemos entrar e procurar um banco, se é que vamos encontrar algum!
- Por que diz isso?
— Porque as pessoas daqui gostam de passear no bosque.
Muitos usam o contacto com a natureza para refazer o perispírito.
Outros utilizam o espaço para meditar, repensar a vida e até planejar uma próxima etapa reencarnatória.
Veja ali — Xenos apontou pela janela do quarto.
Gláucia virou o rosto e viu Miriam sentada na grama da pracinha, olhos fechados, em profunda meditação.
Em volta de seu corpo formara-se uma luz violeta, cuja intensidade era muito forte.
- Ela está tão iluminada!
— Ela é iluminada — corrigiu Xenos.
— Não faria o que Miriam vai fazer.
Eu é que não volto mais para a Terra.
Ainda bem que essa foi a minha última passagem por lá.
— Quem lhe disse isso?
— A minha amiga, Linda. Conhece?
— Não.
Gláucia balançou a cabeça de forma negativa:
— Como não? Linda Whitaker.
Uma celebridade. Todo mundo conhece.
— Não estou muito informado em relação ao dia a dia do mundo terreno.
— A Linda me garantiu que a gente não volta mais, que eu sou evoluída o suficiente para viver no mundo dos espíritos, que quem volta para a Terra é gente que não pensa, que não tem juízo.
— Você tem juízo?
— Sim. Não consigo enxergar defeito em mim.
Só vejo qualidades.
— Entendo.
Xenos abriu a porta do quarto e saíram.
Pegaram um corredor à frente, passaram por uma simpática recepcionista e ganharam a rua.
A conversa fluiu de modo agradável e logo estavam no bosque.
Andaram um pouco mais e sentaram-se sob uma frondosa árvore que exalava perfume doce e delicado.
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 19, 2015 8:41 pm

— Parece que estou no paraíso — ela disse.
— Muitos acreditam que aqui seja o paraíso.
— Eu me sinto muito bem.
Fiquei um bom tempo presa a uma energia de ódio muito grande.
Imagine! O homem com quem eu ia casar me odeia. Pode isso?
- Por que ele a odeia tanto?
— Bom, acho que... que...
— Seja sincera.
Gláucia abaixou a cabeça e fechou os olhos. Reflectiu por instantes e respondeu:
- Eu menti para ele.
— Mentir sempre gera problemas.
Por que mentiu?
— Para garantir um bom casamento.
- Qual foi o motivo de querer se casar?
— Bem, eu nasci com essa vontade.
Mesmo fazendo parte de uma sociedade cujos padrões de comportamento mudaram bastante nos últimos anos, eu ainda alimentava o sonho de conhecer um bom homem, apaixonar-me por ele, casar, constituir família...
— Você amava seu noivo?
- Eu gostava dele.
— Gostar é uma coisa.
Amar é outra.
Gláucia mordiscou os lábios e pensou.
Xenos prosseguiu, de forma paciente:
— Gostava ou amava?
— Posso ser sincera?
— Hum, hum.
— Eu gostava do Luciano. Não o amava.
Xenos deixou escapar um sorrisinho no canto do lábio.
Gláucia não percebeu e ele indagou:
— E por que você iria dar um passo tão importante se não o amava?
O rosto dela ficou rubro.
Gláucia sentiu-se envergonhada.
— Porque eu tinha que casar.
— Esse ter que é complicado.
Tudo que fazemos por obrigação gera desconforto e não dá certo.
— Judite me disse outro dia que reencarnamos com deveres e obrigações. O que fazer?
— Nascemos, sim, com dever e obrigação.
Temos o dever de desenvolver e aprimorar nossas qualidades, engrandecer o espírito, ampliar a lucidez.
E temos a obrigação de ser feliz.
— Como posso ser feliz se tenho que fazer tantas coisas de que não gosto? Impossível.
— Já disse. Desligue-se do tem que.
Temos muita coisa boa na vida.
Se dermos atenção a tudo o que é bom, o ruim perde a força e fica longe.
— Fácil falar.
- Não é difícil. É uma questão de postura, de determinação, de disciplina.
Traga o melhor da vida para você e o melhor vai acontecer na sua vida.
— Simples assim?
- Sim. A alegria é o coração da felicidade.
Pense nisso.
Xenos em seguida levantou-se.
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Re: Ela só queria CASAR - Marco Aurélio / MARCELO CEZAR

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