Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 29, 2015 11:18 am

CAPÍTULO 21

Marcos e Arnaldo se reuniam diariamente para estudar, até a hora de Marcos ir para o trabalho.
Naquele dia, assim que as aulas terminaram, os dois lancharam rapidamente e já estavam se encaminhando para a biblioteca quando Raquel os chamou:
— Aonde é que vocês vão?
— Estudar na biblioteca — respondeu Marcos.
Quer vir com a gente?
— É claro!
Ela os seguiu satisfeita, sob o olhar atento de Nelson.
Ele tentava não se importar com os movimentos de Raquel, mas vê-la perto de Arnaldo enchia-o de ciúme e despeito.
Não entendia o que ela via naquele nerd magricela e não se conformava.
Resolveu ir atrás deles.
Entrou na biblioteca e procurou um lugar mais afastado, de onde pudesse observá-los.
Os três nem desconfiavam de que estavam sendo vigiados.
Estudaram durante um tempo, até que Marcos, a contragosto, foi obrigado a deixá-los.
— Está na hora de ir para o trabalho — anunciou ele.
Não gosto de me atrasar.
— Você trabalha no shopping, não é mesmo? — retrucou ela.
— É, sim.
— Que tal se Arnaldo e eu continuarmos estudando e, mais tarde, formos buscar você para irmos ao cinema?
Isto é, se Arnaldo não se incomodar.
— Não me incomodo — declarou ele.
Acho até uma óptima ideia.
Serve para esfriar a cabeça.
— Eu adoraria, mas não vai dar — objectou Marcos.
— O restaurante só fecha depois da última sessão de cinema.
— Então, podemos sair para dançar — insistiu ela.
O pastor não proibia que fossem a restaurantes, tanto que ele trabalhava em um.
Contudo, alertava para os perigos que rondavam certos lugares onde a música e a dança incitavam a presença do demónio.
No fundo, Marcos não concordava muito com certas proibições, porém, não tinha forças para contradizê-las.
Sem querer desagradar Raquel, respondeu cabisbaixo:
— Eu adoraria, mas não vai dar.
— Tudo bem, então.
Fica para uma próxima vez.
— Estarei de folga na segunda — ele apressou-se em dizer, com medo de que ela mudasse de ideia.
Podemos ir ao cinema.
— Óptimo! Você pode ir, Arnaldo?
Arnaldo conteve o riso e retrucou bem-humorado:
— Não, vão vocês.
Segunda, não posso.
Era de propósito que ele não ia, para não estragar o primeiro encontro dos dois.
Depois que Marcos saiu, Arnaldo e Raquel voltaram a atenção para os livros, deixando Nelson ainda mais furioso.
"Os dois despacharam a vela8 só para poderem ficar sozinhos, de cabecinha colada", pensou com desdém.
Nelson não conseguia conter o despeito.
Tinha vontade de se levantar e socar a cara de Arnaldo, dar-lhe uma lição para que ele nunca mais se metesse com a garota dos outros.
Não podia, contudo.
Se usasse de violência, Raquel nunca o perdoaria.
Podia considerá-la perdida para sempre.
Tinha que arrumar uma maneira de dar um susto no sujeito sem que Raquel desconfiasse dele.
Depois de estudar por algum tempo, Raquel esticou as costas e esfregou os olhos.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 29, 2015 11:18 am

— Cansada? — perguntou Arnaldo.
— Um pouco.
Mas precisamos terminar esse ponto.
— Você e Nelson não costumam estudar juntos?
— Não tenho mais nada com Nelson.
Falei isso ao Marcos.
— Desculpe-me, não quis me intrometer na sua vida.
— Não precisa se desculpar.
Você é amigo de Marcos.
Posso considerá-lo meu amigo também?
— É claro que pode.
— Então, gostaria de lhe confessar uma coisa.
— O que é?
— Posso confiar em você, não posso?
— Claro.
— Pois a verdade é que eu estou a fim do Marcos.
Gosto muito dele, sabia?
— Já deu para perceber — concordou ele, com um sorriso encorajador.
— Não sei o que é.
Tem alguma coisa nele que mexe comigo.
Você acha que é recíproco?
— Não posso falar por ele, Raquel.
— Ele nunca comentou nada a meu respeito?
— Você está me pedindo para revelar confidências que Marcos me fez.
Não posso fazer isso.
— Tem razão, desculpe-me.
— Já que está tão interessada nele, podemos jantar no restaurante em que ele trabalha.
Depois, eu vou embora e deixo os dois sozinhos.
— Fazer-lhe uma surpresa? — Arnaldo assentiu.
Adorei a ideia.
Os dois riram e retomaram a leitura, deixando Nelson ainda mais irritado.
Ao final da tarde, deram por encerrada a sessão de estudos, para alívio de Nelson, que já não aguentava mais fazer desenhos idiotas no caderno.
Quando saíram, rindo alto, cheios de intimidade, Nelson foi atrás, tomando o cuidado de não ser notado.
No térreo, despediram-se com dois beijinhos no rosto, e Raquel falou animada:
— Não vá se esquecer de nosso compromisso mais tarde, hein?
— De jeito nenhum!
Ainda mais agora, que sei o que você sente.
— Até a noite, então.
— Até.
Nelson quase esmurrou Arnaldo ali mesmo, mas conseguiu se conter.
Como não queria chamar a atenção, ocultou-se atrás de um grupinho de moças que saiu do elevador dando risadas.
Ninguém o notou.
Raquel foi para o estacionamento, enquanto Arnaldo se dirigia para a estação do metro.
Nelson foi atrás dela.
Alcançou-a quando ela abria a porta do carro.
— Ai, Nelson, que susto! — exclamou ela, em tom de censura.
Por que ainda está por aqui?
— Estava estudando na biblioteca — respondeu ele maliciosamente.
— Estava? Pois não o vi.
— Mas eu vi você.
E o seu novo namoradinho.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 29, 2015 11:18 am

— Não tenho namoradinho nenhum.
— Se quer continuar mentindo, tudo bem.
Só me responda uma coisa:
o que foi que você viu naquele cara?
— Que cara?
Ele resolveu ignorar o fingimento dela e perguntou em tom mordaz:
— Gostaria de sair comigo hoje?
— Não vai dar.
Já tenho um compromisso.
— Com o Arnaldo?
Ela riu da burrice dele, achando que ela estava interessada em Arnaldo.
Todavia, Arnaldo também fazia parte de seu compromisso, de forma que poderia lhe dizer a verdade:
— Se quer mesmo saber, tenho um compromisso com ele, sim.
— E a que motel vocês vão, agora que ele sabe o que você sente?
— Você estava me seguindo e ouvindo a minha conversa? — indignou-se ela, e ele a segurou pelo braço:
— Você não pode fazer isso comigo.
Raquel puxou o braço com força e respondeu com irritação:
— Quer saber, Nelson?
Pare de tomar conta da minha vida e vá cuidar da sua.
Não lhe devo satisfação.
Ela entrou no carro e bateu a porta.
Deu partida no motor e saiu rapidamente, deixando-o furioso no estacionamento.
— Isso não vai ficar assim — disse ele entre os dentes.
Mais tarde, Nelson parou em frente ao edifício de Raquel, à espera de que Arnaldo aparecesse.
Em vez disso, Raquel saiu em seu carro, sendo fácil segui-la até o shopping.
Nelson deduziu que eles só podiam estar indo ao cinema e riu com sarcasmo.
Numa sexta-feira à noite, o último lugar a que ele levaria Raquel seria o cinema.
Preferiria uma boate e depois um motel.
Contudo, não podia esperar nada mais criativo daquele nerd idiota.
Estacionaram e à distância, Nelson seguiu-a pelas escadas rolantes até a praça de alimentação, onde Arnaldo já a esperava, bebendo uma cerveja no restaurante em que Marcos trabalhava.
Ela sentou-se ao lado dele, e um garção se aproximou.
Nelson reconheceu-o como Marcos, outro nerd, amigo de Arnaldo.
Nelson parou do outro lado, onde não podia ser visto, oculto pela escada rolante.
De onde estava, tinha uma boa visão do restaurante, embora não conseguisse ouvir nada do que diziam.
A felicidade que Marcos sentiu ao ver Raquel suplantou a vergonha de ter sido surpreendido de avental, servindo mesas num restaurante.
Sabia que não devia se envergonhar por exercer um trabalho honesto e esforçou-se para parecer natural.
— Viemos lhe fazer uma surpresa, se você não se incomodar —disse ela, sem parecer embaraçada ou decepcionada.
A ansiedade com que ela o encarava fez desanuviar sua preocupação, enchendo o coração de Marcos de uma inusitada euforia.
Mais à vontade, sem tirar os olhos dela, respondeu com sinceridade:
— Não me incomodo.
A surpresa foi maravilhosa.
Só não posso lhes dar muita atenção, porque ainda estou no meu horário de trabalho.
— Não tem importância.
Arnaldo e eu vamos jantar e esperar até que você termine.
— Viemos buscá-lo — acrescentou Arnaldo, à falta do que dizer, sentindo que sobrava naquele encontro.
— Muito bem.
O que vocês vão querer?
Marcos anotou os pedidos.
Em seu esconderijo, interpretando mal o que se passava, Nelson sentiu vontade de saltar sobre Arnaldo e esmurrá-lo até deixá-lo inconsciente.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 29, 2015 11:18 am

Não suportava ver Raquel em um jantar romântico com outro.
Achou melhor ir embora antes de fazer uma besteira.
Saiu maldizendo a vida e o desgraçado que, segundo ele, lhe havia roubado a namorada.
— Você me paga — rugiu, voltando para seu carro.
Quando o jantar terminou, o horário de trabalho de Marcos também chegava ao fim.
Arnaldo e Raquel esticaram ao máximo a refeição, esperando a hora da saída dele.
Quando, por fim, o patrão fechou o restaurante, Arnaldo se despediu, doido para deixá-los sozinhos:
— Bom, gente, foi uma noite óptima e divertida, mas já está na minha hora. Tchau.
— Tchau — responderam Marcos e Raquel ao mesmo tempo.
— E obrigada pela companhia — acrescentou ela.
Marcos acompanhou Raquel até o local onde ela havia deixado o carro.
O de Nelson havia muito não estava mais ali.
— Quer uma carona? — ofereceu ela, hesitando em deixá-lo.
— Não precisa, obrigado.
Não moro longe.
— Mas eu posso levá-lo.
O que é que custa?
O que Marcos não queria era dizer a ela que morava no morro.
Pensou em lhe dar um endereço falso e saltar em frente a um edifício qualquer, mas a lição do pastor, exortando-o a sempre dizer a verdade, tolheu-lhe as palavras.
E depois, de que adiantaria mentir?
Mais cedo ou mais tarde ela acabaria descobrindo.
Sem contar que não queria construir uma relação fundada na mentira.
Por isso, reunindo coragem, admitiu:
— Moro mais ou menos perto daqui, mas não creio que seja um lugar ao qual você deva ir.
— Por quê?
Você, por acaso, mora na favela? — ela falou brincando, mas o silêncio dele foi revelador.
Desculpe-me, Marcos... eu não sabia.
— Tudo bem — tornou ele, sentindo o rosto arder da humilhação que ele mesmo se impingia.
Não precisa se desculpar.
Eu é que devia ter lhe contado antes.
— Não. Quero dizer, eu é que não tinha nada que brincar com isso.
Que ideia a minha.
— Não se preocupe, você não fez nada.
Bom, acho melhor eu ir andando.
A gente se encontra na faculdade.
Ele foi se virando, mas ela o deteve com um grito:
— Espere! Não se vá ainda.
Nós não podemos conversar um pouco mais?
— Conversar? — admirou-se ele, surpreso porque ela não saíra correndo ao ouvir falar em favela.
— É, conversar.
Podemos ir a um lugar mais calmo.
Um barzinho, quem sabe?
Marcos tinha todos os motivos para se sentir confuso.
Além de Raquel não se incomodar com o facto de ele morar no morro, o convite dela o balançou.
Era a primeira vez que ele considerava a ideia de ir a um lugar como aquele.
Principalmente depois das vezes em que tivera que buscar a mãe no bar do Zeca, completamente embriagada.
— Não posso beber — comentou ele baixinho.
Minha religião não permite.
— Podemos tomar um refrigerante ou um suco.
O que você acha?
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 29, 2015 11:19 am

— Eu... — ele queria recusar, porque bares eram lugares de pecado e perdição, mas não queria se separar de Raquel.
Só se for aqui por perto.
E bem rapidinho.
Raquel simplesmente sorriu e abriu as portas do carro.
Ele se sentou ao lado dela, embevecido com o veículo de luxo no qual jamais havia sonhado entrar.
— Você sabe dirigir? — perguntou ela, saindo do estacionamento e ganhando a rua.
— Não.
Pararam num barzinho próximo, com música ao vivo, pediram refrigerante e batatas fritas, nas quais Raquel nem tocou.
No começo, Marcos se sentiu intimidado com a agitação do bar, mas logo centrou a atenção em Raquel, e nada mais parecia existir além dos dois.
Quanto mais ela falava, mais ele sentia desejo de beijá-la, recriminando a si mesmo por isso.
Mal sabia ele que, pela cabeça dela, se passava a mesma coisa.
A banda começou a tocar Só pro meu prazer, do Cazuza, e Marcos fitou Raquel bem fundo nos olhos, enquanto o cantor disparava:
— Será que você não é nada que eu penso?
Também se não for, não faz mal...
Nada mais importou naquele momento.
Os dedos dos dois se entrelaçaram, suas bocas foram se aproximando, até que seus lábios se uniram no primeiro beijo da vida de Marcos.
Quando enfim se separaram, ele estava confuso e envergonhado, sentindo que havia cometido uma falta muito grave, desrespeitando a moça.
— Raquel... — balbuciou ele — me perdoe... não tive a intenção de ofendê-la...
— Você não me ofendeu — protestou ela, surpresa com a reacção dele.
Marcos, você fez o que eu queria, o que nós queríamos.
Por mais que ele sentisse vontade de recitar todas as passagens das Escrituras que conhecia e que desaprovariam uma relação tão íntima entre pessoas não casadas, não conseguiu.
Afinal, ele amava Raquel, queria que ela se tornasse sua esposa.
E se os seus sentimentos eram puros, então não havia pecado.
Ela aproximou o rosto novamente ao dele e deu-lhe novo beijo, que ele tentou recusar, mas não conseguiu.
Parecia-lhe estranho que a iniciativa de um acto tão íntimo partisse de uma mulher, não dele, que era o homem.
Mas ele sabia que Raquel não seguia sua religião nem conhecia as verdades divinas contidas na Bíblia, o que era motivo mais do que justo para desculpá-la por sua ignorância.
Não era só isso.
Marcos não podia mentir para si mesmo.
Estava tão envolvido com ela que nada do que Raquel fizesse destruiria aquela paixão.
— Você me ama? — perguntou ele, a voz rouca, embargada pela emoção.
Ela segurou o queixo dele entre as mãos, dando-lhe novo beijo, os olhos marejados de lágrimas comovidas.
— Não sei... — confessou ela, toda trémula.
Só o que sei é que gosto de estar com você, de tocar em você, de ouvir a sua voz.
Se isso é amor, então sim, amo você.
Mal contendo a euforia, ele a abraçou bem apertado e tornou a indagar:
— Porquê?
— Não tem um porquê.
Não dá para a gente tentar explicar os sentimentos pela razão.
— Somos tão diferentes... em tudo.
— Sei disso e não me importo.
— Seus pais não vão consentir no nosso namoro.
— Meus pais são pessoas legais, não vão interferir.
E, mesmo que se oponham, o que me importa?
— Você iria contra eles?
— E você, não?
Ele assentiu e respondeu com firmeza:
— Enfrentaria deus e o mundo só para ficar com você.
Abraçaram-se novamente, certos de que o sentimento que os unia era real.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 30, 2015 1:38 pm

Ele apanhou a mão dela e a levou aos lábios, concluindo com extrema paixão:
— Quero casar com você.
Raquel fechou os olhos e entregou os lábios novamente aos dele.
Não queria pensar na reacção das pessoas.
Só o que a levava, naquele momento, era o amor que, sinceramente, sentia por Marcos.

8 Segurar vela — referência à pessoa que acompanha casal de namorados.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 30, 2015 1:38 pm

CAPÍTULO 22

Arnaldo caminhava pela rua pensando na felicidade do amigo.
No começo, havia desaprovado aquele namoro, com medo de que Marcos sofresse.
Agora, porém, mudara de ideia.
Raquel era uma garota extraordinária, muito sincera, amiga.
E gostava realmente de Marcos.
Arnaldo torcia para que o namoro deles desse certo.
De tão distraído com seus pensamentos, não percebeu a aproximação de Nelson e António, pela direcção oposta.
A violência do encontrão que Nelson lhe deu quase o derrubou ao chão, causando-lhe espanto e receio.
— Se você for esperto — falou Nelson baixinho, fingindo que o ajudava a levantar-se —, nunca mais vai falar com Raquel novamente.
— O quê?
— Você ouviu o que eu disse.
Deixe Raquel em paz, ela é demais para você.
— Você está louco! — objectou Arnaldo.
Raquel e eu somos apenas amigos.
— E é bom que continuem assim — ameaçou Nelson, erguendo o punho diante dos olhos dele.
Ou será que quer experimentar a força desse muque?
— Acho melhor a gente dar logo uma lição nele — falou António, passando a língua nos lábios.
— Você acha? — tornou Nelson, ameaçando Arnaldo ostensivamente.
— Acho. Ia ser divertido dar uma surra no magrelo.
— Boa ideia.
Nelson empurrou-o para trás de uma árvore.
Ergueu o punho com raiva, mas, antes de desferir o golpe, Arnaldo gritou, na tentativa de se salvar:
— Pare! Você está enganado.
Não é em mim que Raquel tem interesse.
— Ah, não? — redarguiu Nelson, segurando o soco.
— Em quem é então?
— Não sei... não posso dizer... por que vocês não vão tomar conta da vida de vocês?
— Engraçadinho — desdenhou Nelson, desferindo-lhe um murro no queixo.
Arnaldo cambaleou, por pouco não tombando na calçada.
Novo golpe se seguiu, dessa vez no estômago.
António deu mais outro, imitado por Nelson, que lhe desferiu outro, e outro, até que o rapaz arriou o corpo no chão, arfando e cuspindo sangue.
— Não se meta com a gente, idiota — avisou António.
Ou vai perder todos os dentes.
— Isso é só um aviso — completou Nelson.
Deixe a Raquel em paz, e nada irá lhe acontecer.
— E nem uma palavra sobre isso — arrematou António.
Ou pior para você.
Viraram as costas e voltaram para a faculdade como se nada tivesse acontecido.
Em seu lugar, Arnaldo mal conseguia se mexer.
As mandíbulas pareciam ter saído do lugar, o estômago ardia.
Tentou forçar-se a ficar em pé, mas as pernas falsearam. Ia caindo novamente, quando um carro da polícia parou e um guarda se aproximou:
— Está tudo bem aí, rapaz?
— Eu... fui assaltado — mentiu.
Acercando-se um pouco mais, o policial percebeu seu estado.
— Você está machucado.
Precisa ser levado a um hospital.
— Eu estou bem... só um pouco dolorido.
— Devíamos chamar uma ambulância, mas vamos levá-lo nós mesmos.
Você parece muito mal.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 30, 2015 1:39 pm

Com a ajuda de outro policial, Arnaldo foi levado ao hospital, onde recebeu atendimento médico e foi liberado.
A vontade dele era contar tudo aos guardas, comprometer Nelson e seu comparsa, mas teve medo das consequências.
O pai de Nelson era desembargador, e a história podia acabar voltando-se contra ele.
Melhor mesmo era mentir.
Assim, Arnaldo insistiu na história do assalto, afirmando que dois pivetes o haviam espancado para roubar apenas alguns poucos reais.
Na faculdade, Marcos estranhou a ausência de Arnaldo, mas nem sequer desconfiou quando Nelson e António entraram na sala de aula carregando na face um ar de irritante triunfo.
Nelson fez questão de entrar pela porta da frente e olhar para Raquel com sarcasmo, indo sentar-se em seu lugar de costume.
No dia seguinte, Arnaldo também não apareceu, e Marcos ficou preocupado:
— Será que ele está doente?
— Por que não ligamos para ele?
Raquel sacou o celular da bolsa e puxou Marcos para fora da sala.
Colocou o telefone nas mãos dele, que rapidamente discou o número da casa de Arnaldo.
Quando ele atendeu, as feições de Marcos foram gradativamente se alterando.
Ao encerrar a ligação, ele fitou Raquel com angústia e anunciou:
— Ele disse que foi assaltado e espancado.
— Meu Deus!
— Preciso ir à casa dele.
— Agora? No meio da aula?
— Sim, agora.
Não posso deixar meu amigo nessa situação.
— Vou com você.
— Não, por favor.
Ele pode ficar constrangido com a sua presença.
Acho que ficou bem machucado.
Com a mochila na mão, Marcos saiu em disparada, deixando Raquel preocupada e aflita.
Apanhou o ónibus e, em poucos minutos, estava na casa de Arnaldo.
Foi recebido pela mãe do rapaz, que o introduziu no quarto do filho.
— Oi, Marcos — disse ele, quase sem conseguir abrir a boca.
— Como foi isso, meu amigo?
Um assalto! Em plena luz do dia?
Depois que a mãe de Arnaldo deixou uns refrescos sobre a mesinha de cabeceira, ele abaixou a voz e revelou quase num sussurro:
— Isso foi o que contei à polícia e à minha mãe.
Na verdade, quem me bateu foi o Nelson e aquele amigo dele, o António.
Marcos abriu a boca, abismado.
— O que você está dizendo?
— É isso mesmo que você ouviu.
Nelson e aquele capanga me surpreenderam na porta da faculdade, me arrastaram para trás de uma árvore e me deram uma surra.
— Mas por quê, meu Deus?
— Você não sabe?
— Foi por causa da Raquel? — Arnaldo assentiu.
— Mas por que, se ela não tem nada a ver com você?
— Nelson não sabe disso.
Pensa que é em mim que ela está interessada.
— O quê?
— Não sei de onde ele tirou essa ideia, mas é o que pensa.
— Arnaldo, que notícia terrível!
Eu sinto muito, muito mesmo, por ter-lhe causado isso.
— Não seja bobo.
Você não me causou nada.
Que culpa você tem se Nelson é um brutamontes ignorante e vive cercado de capangas?
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 30, 2015 1:39 pm

— Meu Deus!
— Estou lhe contando só para você se cuidar.
Não vai demorar para ele descobrir que vocês dois estão namorando.
— Por que você não contou a ele sobre mim e Raquel?
— Não sou traidor.
Jamais entregaria um amigo nas mãos de um bandido.
Marcos emocionou-se até as lágrimas e apertou as mãos de Arnaldo.
— Isso não vai ficar assim.
Temos que ir à polícia.
— Não quero.
O pai de Nelson é desembargador, e eu é que ainda vou acabar como o culpado nessa história.
— Que estupidez! — Marcos estava com raiva e não escondia isso.
Isso não vai ficar assim, não vai.
Você pode não querer ir à polícia, mas eu não vou permitir que meu amigo leve a culpa por algo que fui eu que fiz.
— Que culpa?
Desde quando alguém é culpado por se apaixonar?
— Não importa. Raquel está comigo.
Se Nelson tem alguma reclamação, que a faça a mim.
— O que você vai fazer?
— Nada de mais. Deixe comigo.
— Olhe lá, hein?
Não vá fazer nenhuma besteira.
— Não sou violento, mas também não sou covarde.
Nelson vai ter que saber a verdade.
— Se Raquel souber o que houve, ele prometeu me dar nova surra.
— Isso não vai acontecer.
Ele jamais tornará a encostar a mão em você ou em qualquer outra pessoa.
Eu mesmo vou falar com ele.
— Acho que você não devia.
— Mas vou.
Como disse, não sou covarde.
Marcos nunca sentiu tanta raiva em sua vida.
Nem as palavras do pastor, nem as Escrituras foram capazes de impedir que a revolta se disseminasse no coração dele.
No dia seguinte, chegou cedo para esperar Nelson no hall de entrada da faculdade.
— Você não vem para a sala? — chamou Raquel, sem entender por que ele havia estacado ali.
— Agora não.
Preciso fazer uma coisa importante.
— É sobre o Arnaldo?
Como ele está?
Nelson veio chegando em companhia dos amigos e hesitou quando viu o olhar de fúria de Marcos.
Deu uma meia parada, mas não se deteve.
Não daria atenção às queixas do insignificante amiguinho de Arnaldo.
— Vá para a sala, Raquel — ordenou Marcos.
Não quero que você tome parte nisso.
É claro que Raquel jamais lhe obedeceria.
Ela se postou perto de Marcos, que se adiantou quando Nelson passou por eles.
— Covarde, miserável — esbracejou ele, saltando na frente de Nelson.
— Saia do caminho, neguinho — desdenhou Nelson.
Não tenho nada contra você.
— E contra o Arnaldo?
O que é que você tem?
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 30, 2015 1:39 pm

Ele olhou de soslaio para Raquel e respondeu friamente:
— Nada. Nem sei quem é Arnaldo.
— É o sujeito que você espancou, pensando que era o namorado de Raquel, sem saber que o namorado dela sou eu.
— O quê? — surpreendeu-se ele.
Deixe de ser idiota, neguinho.
Não espanquei ninguém.
— Mentiroso!
Arnaldo está em casa, todo machucado, por sua causa!
— Isso é verdade? — interrompeu Raquel, abismada.
— Não dê ouvidos a esse neguinho — objectou Nelson.
Está com raiva porque o namoradinho dele levou uma surra.
Mas não tenho nada com isso, ouviu?
— Arnaldo não é namoradinho de Marcos — rebateu Raquel com raiva.
A namorada dele sou eu.
E se você bateu em Arnaldo por causa disso, fique sabendo que espancou a pessoa errada.
Os olhos de Nelson encheram-se de um rancor absurdo.
De repente, deixou de lado a preocupação de que ela não soubesse o que ele havia feito e rosnou entre os dentes:
— Você está louca?
Trocar-me por esse crioulo?
— Racismo é crime, sabia? — revidou ela com azedume.
Você pode ir preso.
— Deixe de besteiras, Raquel! — explodiu ele, partindo para cima dela.
Isso é coisa séria.
Onde já se viu me trocar por um negro?
Ele apontou para Marcos com tanto ódio, que os próprios amigos se surpreenderam, e Paulo se adiantou:
— Deixe isso para lá, Nelson. Vamos embora.
— De jeito nenhum!
Não vou permitir uma humilhação dessas!
— É isso mesmo — incentivou António.
Raquel não pode trocar Marcos por um mulatinho ridículo.
— E você não se meta nisso! — gritou Raquel.
— Devia se envergonhar — grunhiu Nelson.
Você, uma moça branca, de família tradicional, bem-conceituada, aliar-se a esse preto sujo e infame!
— Isso, Nelson, continue a xingar — encorajou ela.
— Diante de tantas testemunhas, não vai ser difícil acusá-lo de racismo.
— Deixe, Raquel — contrapôs Marcos, postando-se na frente dela.
Não tenho medo nem me sinto ofendido com as tentativas de ultraje de Nelson.
Tenho orgulho da minha raça, e essas infâmias não me atingem.
Sou uma pessoa honesta e, acima de tudo, não sou covarde.
Jamais bateria em outro homem como Nelson fez, dois contra um, sem dar a Arnaldo nenhuma chance de se defender.
— Você fez isso? — quem se espantou foi Paulo, que não compactuava com certas atitudes de Nelson.
— Idiota — rosnou Nelson.
Só me arrependo de ter espancado o cara errado.
Mas não se preocupe.
Sua vez ainda vai chegar.
— Atreva-se — cortou a moça — e serei eu mesma a entregá-lo à polícia.
— Vai se arrepender por isso, Raquel. Ora se vai!
Vocês nem podem imaginar o tamanho da minha vingança.
— Não temos medo — afirmou Marcos.
Deus está do nosso lado.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 30, 2015 1:39 pm

— Vamos embora, Marcos — chamou Raquel, puxando-o pela mão.
Não vale a pena perder tempo com esse covarde.
Enquanto eles se afastavam, Nelson remoía o ódio.
Jamais poderia imaginar que Raquel o trocaria por um negro.
Marcos era mulato, mas, ainda assim, não era branco.
Segundo sua concepção, aquilo era um absurdo.
Iludido com falsos valores étnicos e sociais, Nelson estava ainda muito longe de compreender o verdadeiro valor do carácter humano.
Preso a conceitos ultrapassados, não compreendia que nada modifica a natureza do homem, além da força do espírito.
Ao corpo, resta a função de veículo das experiências no mundo, para um aperfeiçoamento do Ser.
Mas ele jamais será o próprio Ser.
Brancos ou negros, sadios ou deficientes, magros ou gordos, todos os corpos são instrumentos divinos de uma única essência de luz.
Essas eram verdades inacessíveis à razão primitiva de Nelson.
Só o que conseguia enxergar era a traição de Raquel com alguém que ele julgava inferior.
— Cuidado com o que vai fazer — alertou Paulo.
O que Raquel disse é verdade.
Racismo é crime e você pode ser preso.
— Meu pai é desembargador.
Nada irá me acontecer.
— Vá se fiando nisso.
Desembargador também está sujeito às leis.
E depois, duvido que seu pai, um homem justo e de notável saber jurídico, concorde com o que você está fazendo.
— Você está do meu lado ou contra mim?
— Não sei mais — confessou Paulo.
Não me agrada ser amigo de um cara que, além de covarde, é também racista.
— Pois então, o que está esperando? — interferiu António.
Desapareça da nossa frente, seu traidor!
— Quer saber?
É isso mesmo que pretendo fazer.
Paulo rodou nos calcanhares e saiu desabalado para a sala de aula.
— Idiota — rosnou Nelson.
Como todos os outros, Paulo é um perfeito idiota.
Mas isso não vai ficar assim, António, você vai ver.
Vou dar um jeito de me vingar de todo mundo.
— Pois faz muito bem.
E pode contar comigo.
Só precisamos nos cuidar para não sermos presos.
Tenho arrepios só de pensar que posso ir para a cadeia.
— O que você sugere?
— Ainda não sei.
Acho que não devemos enfrentar o inimigo de frente.
Devemos ir minando-lhe as forças até conseguirmos vencer.
— Como faremos isso?
— Pensaremos em algo.
As nuvens negras que envolveram Nelson e António não eram visíveis aos encarnados, embora perceptíveis a eles.
Atraídos por sentimentos de baixa modulação vibratória, espíritos ignorantes procuravam saciar seus instintos primitivos instigando o ódio.
Marcos, por sua vez, entrou na sala de mãos dadas com Raquel, invocando o auxílio de Jesus e do Espírito Santo.
Na mesma hora, um chuvisco fino de luzes translúcidas e suaves envolveu a ambos, transmitindo-lhes confortável sensação de bem-estar.
Nesse momento, Paulo entrou na sala de aula e dirigiu-se aos dois, penetrando, sem saber, no raio de alcance da chuva energética, dela imediatamente se beneficiando.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 30, 2015 1:39 pm

— Marcos, quero que saiba que não concordo com nada do que Nelson disse e fez — declarou ele.
De hoje em diante, não sou mais amigo dele nem de António.
As palavras dele bem poderiam não ser sinceras ou representar parte de uma farsa, porém Marcos sabia que eram verdadeiras.
Ninguém que se mantivesse sob aquela fonte energética sustentaria, mesmo inconscientemente, uma mentira.
Ou gaguejaria, ou cairia em contradição, ou, o que era mais provável, se afastaria, incomodado com o poder da oração.
Mesmo sem saber desses detalhes, Marcos sentia a sinceridade na voz de Paulo.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 30, 2015 1:40 pm

CAPÍTULO 23

Contar aos pais sobre seu namoro com Marcos foi mais fácil do que Raquel imaginou.
A princípio, eles ficaram em dúvida sobre a possibilidade de sucesso de um romance com um rapaz pobre, de família humilde.
Mas Raquel os convenceu de que Marcos era uma óptima pessoa, de carácter e bons princípios.
Estudava, trabalhava e ainda arranjava tempo para frequentar a igreja.
Deitada de bruços na cama, Raquel não conseguia estudar, pensando em Marcos, no desejo que sentia cada vez que ele a tocava.
Não via a hora de dormirem juntos.
Marcos, contudo, ainda não tomara nenhuma iniciativa, e o jeito recatado dele deixava-a inibida para fazer insinuações.
De tão absorta em seus pensamentos, não ouviu as batidas na porta.
Somente percebeu que havia alguém ali quando o irmão entrou com ar irritado.
— Não me ouviu bater? — foi logo cobrando.
— Não, Elói, desculpe. Estou ocupada.
— Fazendo o quê?
— Estudando. Não está vendo?
Ele puxou a cadeira de rodinhas que guarnecia a escrivaninha e sentou-se, girando de um lado para outro.
Raquel não disse nada e fingiu ler, torcendo para que ele fosse logo embora.
Depois de algum tempo, Elói parou de rodopiar e aproximou a cadeira da cama, de modo a poder encará-la:
— Soube que você terminou com Nelson. — Ela assentiu, sem se virar para ele. — Por quê?
Ela o olhou brevemente e respondeu com frieza:
— Não é da sua conta.
Elói cruzou os braços sobre o peito; bateu os pés no chão, como se estivesse acompanhando um ritmo musical.
— Sei que não tenho nada com a sua vida — acrescentou ele, parando e olhando-a novamente.
Mas não posso ficar calado vendo você meter os pés pelas mãos.
— Olhe aqui, Elói, não sei o que você quer de mim, mas estou ocupada e não estou interessada nos seus conselhos.
— Eu ouvi o pai e a mãe conversando na sala sobre seu novo namorado — rebateu ele, os olhos chispando fogo.
O que você quer?
Envergonhar a família?
— Não lhe dou o direito de falar comigo dessa maneira.
Você não tem nada com a minha vida.
Papai e mamãe não puseram nenhuma objecção à minha escolha.
Não vai ser você que vai colocar.
— Papai e mamãe não querem contrariar a filhinha.
Mas aposto como, lá no fundo, desaprovam a sua escolha.
— Isso não é verdade.
E mesmo que fosse, ninguém tem nada com a minha vida.
Amo o Marcos e ponto final.
— Marcos — desdenhou ele.
Um pobretão.
— E daí? Por que a discriminação?
— Não é discriminação.
É uma questão de selecção natural.
Cada um que fique na sua.
Não fica bem minha irmã namorando um... você sabe.
— Não sei, não.
Marcos é melhor do que muita gente bacana por aí.
Pode não ser rico, mas é uma pessoa decente.
— E negro — acrescentou, finalmente revelando seu preconceito.
— Qual o problema?
Eu mesma já vi você com garotas negras.
— Mas pergunte se pretendo me casar com alguma delas.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 30, 2015 1:40 pm

— Elói! — espantou-se ela.
Você é mais desprezível do que eu pensei.
Não tem vergonha de enganar as pessoas?
— Não engano ninguém.
Elas saem comigo porque querem — fez uma pausa, fitando-a com um misto de raiva e desdém.
O pior não é nem o facto de ele ser mulato.
Se ainda fosse rico...!
Mas você arranjou um favelado.
Mamãe disse que ele mora no morro do Salgueiro.
— E daí? Tem muita gente boa no morro, sabia?
— Só se for boa para apanhar, que é o que bandido merece.
— Marcos não é bandido!
— Marcos, Marcos...
Uma moça linda feito você, fina, educada, se metendo com um pé-rapado, um joão-ninguém, um neguinho de morro...
— Chega, Elói!
Não quero mais continuar com essa conversa.
Só estou lhe avisando para não se intrometer na minha vida.
E pare com esse preconceito.
Isso está fora de moda.
Como é possível que, em pleno século vinte e um, ainda existam pessoas que dão importância à cor da pele e ao dinheiro?
Elói guardou no silêncio o desprezo pela conduta de Raquel.
Não adiantava discutir com ela.
Levantou-se de um salto e pôs-se a caminho da porta.
— Guarde bem o que eu digo, Raquel — alertou ele.
Essa história ainda vai acabar mal, e a culpa será toda sua.
Depois não diga que não avisei.
Saiu batendo a porta, deixando Raquel com os nervos à flor da pele.
Por essa ela não esperava.
O irmão sempre tivera os valores invertidos, mas ela jamais mensurou o tamanho do seu preconceito.
Muitas vezes o vira com moças mulatas e negras, dando-lhe a impressão de que não era racista.
Só agora ela o via como realmente era.
Raquel sentiu raiva do irmão.
Teve vontade de contar às garotas o tipo de pessoa que ele era.
A beleza escondia a pequenez de sua alma.
Era uma vergonha que ele estivesse tão envolvido com preconceito naqueles tempos de abertura da mente e de eliminação das barreiras étnicas e sociais.
Com lágrimas nos olhos, para se acalmar, acendeu um incenso e colocou um CD de relaxamento.
Fez uma mentalização que aprendera, para invocar iluminação:
"Que a luz que emana do centro da divindade envolva meu corpo e meu espírito.
Que os amigos iluminados interessados na vitória do bem se façam presentes em minha vida.
Deus é a luz do meu caminho.
Por Ele estou em luz, com Ele eu sou a luz."
Aos poucos, a tranquilidade retornou a seu coração.
Ao contrário de Raquel, que buscou o lado espiritual para se reequilibrar, Elói saiu do quarto da irmã com o coração pesado de ódio e ressentimento.
Tentou convencer os pais a proibirem o namoro, mas ambos foram peremptórios:
Raquel era adulta, tinha o direito de namorar quem bem quisesse.
E depois, como médicos, eles sabiam que não existia diferença entre os seres humanos, considerando reprovável a atitude do filho.
Sozinho em sua revolta, Elói pôs-se a pensar na melhor maneira de afastar a irmã daquele rapaz.
A pessoa indicada para ajudá-lo era Nelson, o mais prejudicado naquela história toda.
Resolveu sair e telefonar para ele.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 30, 2015 1:40 pm

— Alô? Eu poderia falar com o Nelson, por favor?
— É ele — respondeu a voz na outra ponta.
— Oi, Nelson. Quem está falando é o Elói, irmão da Raquel.
Estou ligando porque acho que temos um assunto em comum, cuja solução é do interesse de nós dois.
— Que assunto?
— Marcos — disparou, sem hesitar.
Fez-se um breve silêncio, até que Nelson retrucou desconfiado:
— Não tenho interesse nenhum nessa pessoa.
— Será que não tem mesmo?
— Não.
— Pois eu vou ser muito franco com você, Nelson.
Não me agrada nada que minha irmã esteja de caso com um neguinho de morro.
E você? Não se incomoda de ter sido trocado por alguém assim?
Do outro lado, Nelson espumava de ódio, sem saber o que fazer.
Se, por um lado, a raiva o enlouquecia, por outro, tinha medo de cair numa armadilha e revelar seus pensamentos criminosos.
— Ninguém gosta de ser traído — disse ele cautelosamente.
— Se você não gosta, então por que não se encontra comigo e escuta o que tenho a dizer? — novo silêncio.
Só vai levar um minuto.
— Onde?
— Vou lhe dar o endereço de um barzinho sossegado na Barra. Pode ser?
Nelson anotou o endereço e desligou o telefone.
Aquele telefonema era muito esquisito.
Conversara com Elói algumas vezes, mas nada sabia a seu respeito.
Só que ele estava concluindo a faculdade de medicina e vivia cheio de garotas.
Ao chegar ao barzinho, Nelson encontrou Elói sentado à sua espera.
O rapaz estendeu-lhe a mão e ofereceu-lhe a cadeira em frente.
— Bebe alguma coisa? — perguntou Elói.
— Um chope está bem.
Depois que o garção serviu a bebida, Nelson encarou Elói, tentando imaginar o motivo daquele encontro.
Adivinhando o que se passava pela cabeça do outro, com um sorriso matreiro, Elói foi logo dizendo:
— Você está se perguntando por que o chamei aqui, não está?
— Realmente, não faço a menor ideia.
— Eu disse que era para falar de Marcos.
— Não vejo o que essa pessoa tem que possa me interessar.
— Essa pessoa está namorando minha irmã.
Você sabe disso.
— Foi a escolha dela.
— E você se conforma?
— O que posso fazer?
— Tomar alguma providência.
Eu não deixaria que mulher minha me trocasse por um neguinho de morro.
— Acho bom falar mais baixo.
Não quer ser indiciado por racismo, quer?
Elói deu uma gargalhada e acendeu um cigarro, soltando a fumaça na direcção de Nelson, que tossiu baixinho.
— Não é o caso — considerou.
A questão aqui é outra.
Não admito que Raquel troque um cara decente feito você por um favelado.
— Porquê?
— Porque não está direito.
Não tenho nada contra essa gente, desde que não queiram se misturar connosco.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 30, 2015 1:40 pm

Acho legal ele estudar para melhorar de vida.
Mas tem que permanecer no meio dele.
E foi se engraçar justo com a tonta da minha irmã.
— Ela está apaixonada por ele.
— Apaixonada, nada!
Raquel gosta de novidade e aventura.
Pensa que namorar um favelado é vantagem, que vai torná-la importante aos olhos do mundo.
Mas aposto que, lá no fundo, ela não gosta dele.
Gosta é do que ele representa.
— E o que ele representa?
— Novidade, já disse.
Minha irmã quer ser zen, new age e outras bobagens do género.
Vive sonhando com mundos que não existem e realidades fantasiosas.
Marcos representa a oportunidade para ela mostrar que não se importa com bobagens mundanas.
Mas eu, que sou o irmão mais velho e conheço bem a realidade das coisas, não posso permitir uma loucura dessas.
Cabe a mim trazer Raquel de volta à razão.
— Muito interessante.
Posso saber como é que pretende fazer isso?
— Com a sua ajuda.
— Minha ajuda?
— Você foi o maior prejudicado.
Quem melhor do que você para se aliar a mim nessa luta?
— Que luta seria essa?
Elói dobrou o corpo sobre a mesa e falou baixinho:
— Precisamos separar aqueles dois.
— Como?
— Vamos por partes.
Meus pais disseram que ele estuda na turma de vocês, mora no morro do Salgueiro e trabalha num restaurante do shopping Iguatemi.
Nossa primeira atitude talvez deva ser com relação ao seu trabalho.
Tirar-lhe o sustento vai servir de desestabilizador e grande motivo de desavenças.
Já imaginou Raquel pagando motel para ele?
Elói riu, mas Nelson quase quebrou o copo de chope, de tanto que o apertou.
Não podia sequer imaginar Raquel na cama com outro homem.
— Não sei o que seria capaz de fazer se a pegasse nos braços de outro — rilhou entre os dentes.
— Nada. Não seja estúpido.
Temos que expor Marcos e seus pontos fracos.
— E depois?
— Depois, adeus, idiota.
Raquel vai se decepcionar e voltar para você.
Então? Está dentro ou não?
— Estou dentro — concordou ele, sem titubear.
— Raquel tem que voltar a ser minha.
— Vai voltar. Pode confiar.
O resultado do encontro foi satisfatório para ambos.
Mais uma vez, espíritos menos esclarecidos se aliaram a eles, a fim de fortalecê-los em seus projectos de desordem.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 30, 2015 1:40 pm

CAPÍTULO 24

Seguindo a pista que obtivera do trocador de ónibus, Afrânio foi à rua onde ficava o ponto final da linha que ia de Belford Roxo à Penha, o mesmo em que Margarete saltara.
O fiscal não sabia de nada porque, à época, não trabalhava ali, mas Afrânio descobriu os números de todas as linhas que tinham aquela rua no itinerário.
Sem saber se eram as mesmas de vinte anos atrás, saiu em busca das empresas.
Como da outra vez, ninguém se lembrava de Margarete.
— Será que não houve nenhum incidente digno de nota que tivesse chamado a atenção de alguém? — questionou Félix, tentando evocar alguma memória marcante.
— É claro que houve! — respondeu Margarete, sentindo a antiga raiva voltar.
— Todo mundo ficou me criticando porque o bebé havia vomitado no meu colo, e eu o sacudi e gritei com ele.
Mas ninguém se ofereceu para ajudar.
— Ninguém atrai a crítica à toa — comentou Félix.
Embora isso não justifique quem a faz.
— Lembro-me bem das pessoas que me criticaram.
Tinha uma mulher sentada no banco ao lado da roleta e um casal na minha frente.
— Você viu os rostos deles?
— Como é que eu ia ver?
Estavam de costas!
— Nem da mulher sentada no banco lateral?
— Dessa eu vi, mas não sei se me lembro.
Devia ter uns cinquenta anos.
— Precisamos levar Afrânio ao ónibus que você pegou para a Tijuca.
— Como?
— Deixe comigo.
Parado no ponto, Afrânio pensava que ónibus tomar.
Mostrara a fotografia a todos na garagem, sem sucesso.
Não sabia mais o que fazer.
A pista parecia perdida, ninguém se lembrava de nada.
Por ali trafegavam inúmeros ónibus, muitos dos quais não eram os mesmos de vinte anos atrás.
Outros haviam mudado, outros não circulavam mais.
Como descobrir o veículo e as pessoas certas?
Era provável que tivesse que entrar em todos os ónibus que passavam por ali, o que demandaria muito tempo.
Seria desgastante, mas precisava tentar.
O primeiro colectivo em que entrou não era da mesma linha que Margarete tomara.
Junto dele, Félix tentava intuí-lo sobre o lugar aonde deveria ir.
— Tijuca... — imaginou subitamente. — Será?
Pode ser, como pode não ser.
A Tijuca fica muito longe daqui, é pouco provável que ela tenha ido parar lá, mas nunca se sabe...
Bom, para não perder tempo, vou procurar nos lugares próximos primeiro.
Afrânio afastou a intervenção do espírito e entrou no primeiro ónibus que apareceu.
Mostrou a foto aos passageiros, fazendo perguntas aqui e ali, sem nenhum sinal de reconhecimento.
Fez o trajecto todo, até o ponto final, e voltou no mesmo ónibus, desanimado.
— Ele não nos ouve — comentou Félix, que havia tentado influenciá-lo novamente.
— Por quê? — indignou-se Margarete.
— Está seguindo seu próprio método.
A mente racional rejeita a sugestão intuitiva, como acontece com muitos.
O que parece não ter lógica é descartado pelo pensamento.
Contudo, geralmente, é o que mostra o caminho certo.
— E agora?
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 30, 2015 1:41 pm

— Vamos tentar facilitar um encontro.
Venha comigo.
— Aonde?
— Você verá.
Num piscar de olhos, viram-se de volta à cidade astral que habitavam e foram esperar Laureano em seu consultório.
Tiveram que aguardar até que o último paciente saísse, para então poderem falar com ele.
— Precisamos de sua ajuda — Félix suplicou.
— Para que seria? — quis saber Laureano.
— Não estamos conseguindo intuir Afrânio a pegar o ónibus da mesma linha que levou Margarete à Praça Saens Pena.
Ele está procurando em local diverso e não existem pessoas próximas capazes de estabelecer uma sintonia.
— Mas existem pessoas, não é? — indagou Laureano.
— Existiram — afirmou Margarete.
Lembro-me bem de três pessoas, embora não consiga visualizar-lhes as feições.
— E querem a minha ajuda para tentar localizá-las?
— Exactamente.
— Muito bem, então.
Vamos até o local.
Era madrugada quando chegaram ao ponto de ónibus.
Com a rua praticamente deserta, poucos veículos circulavam por ali.
— A essa hora, a quantidade de colectivos em circulação cai bastante — esclareceu Félix.
— Sei disso — comentou Laureano.
Mas fica mais fácil, já que as interferências mentais dos encarnados que passam por aqui diminuem sensivelmente.
Vamos esperar o ónibus certo para entrar nele.
Quando o ónibus passou, os três entraram sem ser percebidos, mesmo porque o colectivo não parou naquele ponto.
O veículo era novo, um pouco diferente do que Margarete havia tomado.
Mesmo assim, ela sentou-se no lugar equivalente ao antigo e, orientada por Laureano, pôs-se a pensar naquele dia.
Mentalmente, refez a cena, tentando colocar os passageiros nos lugares de outrora.
Laureano ajudou com um passe fortificante, a fim de clarear sua tela mental e facilitar a evocação das lembranças.
Rapidamente, as vagas formas-pensamento criadas por Margarete ocuparam seus lugares, permitindo a Laureano e Félix acompanhar o desenrolar da história.
Viram e ouviram o que Margarete se lembrava do passado, até o momento em que ela desceu na Praça Saens Pena, quando as lembranças se dissiparam, e as formas-pensamento esvaneceram aos poucos.
— E agora? — perguntou Margarete aturdida, mas Laureano não a ouvia, de tão concentrado que estava.
Ao final de poucos segundos, ele abriu os olhos e falou convicto:
— A senhora que se sentava ali — apontou para o banco lateral — já fez a passagem.
O casal à sua frente ainda está vivo e bem.
A mulher não mora mais no Rio, mas o homem continua no mesmo lugar de antes.
Margarete soltou um gritinho de euforia:
— Como foi que você fez isso?
— Com muitos anos de aprendizado e treinamento da mente.
Hoje, no que se refere a qualquer elemento, seja do mundo da matéria ou de outros mais subtis, posso seguir-lhe as energias e estabelecer um elo mental com ele.
— Mas isso é maravilhoso!
— Podemos ir ao encontro desse homem? — Félix perguntou.
— Agora mesmo.
Ele está dormindo, o que facilitará em muito a nossa comunicação.
O homem, um senhor de seus sessenta anos, dormia tranquilamente, o corpo astral ausente, preso à matéria pelo cordão prateado9.
— O que faremos? — preocupou-se Margarete.
Cordão prateado — fio energético que mantém o corpo astral ligado ao físico dos encarnados durante toda a vida na matéria.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 30, 2015 1:41 pm

— Vamos segui-lo — disse Laureano, apontando para o ténue fio.
Seguindo o cordão de prata, os três encontraram o homem assistindo a uma palestra no mundo espiritual.
Entraram respeitosamente, sentaram-se mais atrás no auditório e ficaram escutando os interessantes ensinamentos daquela noite.
Quando a palestra terminou, aproximaram-se do encarnado.
— Boa noite, meu bom companheiro — saudou Laureano, que já havia se identificado ao mentor do homem.
— Boa noite — respondeu ele.
— Será que poderíamos conversar com você um momento?
— É claro.
— Chamo-me Laureano, e esses são meus amigos Félix e Margarete.
— Muito prazer. Sou o Percival.
— O prazer é nosso, Percival.
Gostaríamos de uma ajuda sua, se possível.
— Pois não.
O que posso fazer por vocês?
— Será que você, por acaso, não se lembra dessa moça que aqui está?
Ele apontou para Margarete.
O homem a fitou por alguns instantes, até que balançou a cabeça negativamente:
— Lamento, mas não a conheço.
— Tomei um ónibus uma vez — adiantou-se ela.
Faz uns vinte anos.
Estava com um bebé de colo, que vomitou em mim, e eu briguei com ele.
Não se lembra?
Margarete conseguiu conter o ímpeto de falar sobre as críticas de que fora alvo, contudo, o homem pareceu se lembrar, porque abaixou a cabeça e murmurou sem graça:
— Agora me lembro.
Ele ficou esperando que alguém dissesse algo a respeito dos comentários que fizera sobre o comportamento de Margarete, mas ninguém falou nada.
— Preciso que me ajude a reencontrar meu filho — informou ela, de imediato.
— É o bebé que carregava no colo? — surpreendeu-se Percival.
— Esse mesmo.
Na verdade, eu sei onde ele está, mas preciso fazer com que um certo detective chegue até ele.
— Como posso ajudar?
— Você ainda tem contactos na Penha? — indagou Laureano.
— Tenho uma irmã que mora lá e que visito frequentemente.
— Óptimo. Vamos tentar levar Afrânio a pegar o mesmo ónibus em que você estará voltando da casa de sua irmã.
Ele vai entrar, mostrar a fotografia de Margarete, fazer perguntas.
E você só tem que dizer que se lembra dela e mostrar onde ela saltou.
— Hum... deixe ver — ele puxou pela memória e acrescentou:
— Foi na Tijuca, não foi?
— Foi.
— Muito bem. Direi a ele.
— Excelente! Vou pedir ao seu mentor autorização para que você se lembre, ao menos parcialmente, dessa experiência.
— Será que antes posso lhe dizer uma coisa? — pediu ele, dirigindo-se a Margarete.
— A mim? — surpreendeu-se ela. — É claro.
— Sabendo que o acaso é obra do plano divino, não quero perder a oportunidade de estar aqui hoje reunido com você e pedir que me perdoe.
— Eu?!
— Sei que a critiquei e a tratei mal.
Hoje compreendo que não devemos julgar.
Depois que entrei para o centro espírita, venho tentando me modificar.
Por isso, quero o seu perdão.
Margarete fitou o interlocutor em dúvida.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 30, 2015 1:41 pm

No fundo, sentira muita mágoa pela forma como ele a tratara.
Agora, porém, vendo-o ali, tão simples e humilde, transmitindo uma sinceridade sem igual, todo o ressentimento se dissipou.
Ela apanhou a mão dele e levou-a de encontro ao peito.
— O senhor está perdoado — afirmou com honestidade.
— Quem de nós nunca cometeu nada de que não se arrependesse depois?
Se o senhor acha que não devia ter-me julgado, quem sou eu para julgá-lo agora?
Vamos encerrar por aqui.
— Obrigado — disse ele, enxugando uma lágrima do olho.
— Muito me emociona a oportunidade de reconciliação entre pessoas que não se conhecem, não têm nenhum compromisso mútuo, mas poderiam levar ressentimentos desnecessários para o futuro — esclareceu Laureano.
Às vezes, nas pequeninas coisas da vida, vamos gerando elos recíprocos de mágoa e raiva que se instalam dentro de nós e explodem em algum momento mais à frente, causando-nos medo e insegurança.
Comentários maldosos, indiferença e mau humor no atendimento, irritação, impaciência, ironia, sarcasmo, grosseria, arrogância, tudo isso pode gerar consequências nada saudáveis tanto em quem recebe quanto em quem faz.
Em ambos os casos, bloqueios importantes podem se estabelecer, dificultando a espontaneidade, a alegria, a segurança.
Temos o dever de ser gentis com todos, conhecendo-os ou não.
A boa educação é o primeiro passo no caminho da elevação.
Fez-se um breve silêncio, em que cada qual reflectiu nas próprias acções.
Em seguida, Laureano saiu para falar com o mentor de Percival, que concordou com o plano.
Ao acordar, Percival não guardava propriamente a lembrança do sonho, mas sentiu um desejo irresistível de visitar a irmã.
Telefonou para ela e marcou de chegar perto da hora do almoço.
Comeu sem preocupação nem ansiedade, até que, ao cair da tarde, resolveu voltar.
Algum tempo depois, Afrânio descia no ponto de ónibus.
Não aguentava mais ir de um lado a outro da cidade, sem sucesso.
Tanto que, quando outro colectivo se aproximou, não embarcou nele.
O que estava fazendo era uma idiotice.
Era praticamente impossível entrar num ónibus em que viajasse alguém que se lembrasse de ter visto Margarete duas décadas atrás.
Desanimado, mãos nos bolsos, saiu caminhando pela rua.
Naquele momento, não tinha planos nem metas estabelecidas.
Só pensava em Margarete.
Laureano acompanhava-o de perto, quase direccionando-o pelo caminho desejado.
Afrânio viu uma mulher passar correndo com um bebezinho no colo e entrar num ónibus parado no ponto mais próximo.
Instintivamente, olhou para o cartaz de propaganda colado no vidro traseiro do veículo, anunciando uma academia de ginástica na Tijuca.
Não pensou duas vezes. Foi impulsivo.
Sem nem imaginar que seguia a sugestão do invisível, Afrânio correu e subiu atrás da moça, ajudando-a com a bolsa do bebé.
Por coincidência ou não, ela se sentou atrás de Percival, e Margarete postou-se ao lado dele.
Afrânio ficou em pé, procurando a foto no bolso.
Para apressar as coisas, Félix tornou-se visível à criança, que, achando graça nas caretas divertidas que ele fazia, soltava gargalhadas gostosas.
Todo mundo fitou a criança, achando engraçadinhos os seus gorgolejos.
Tão diferente da vez em que Margarete subira com seu filho, maldizendo-o e atraindo as críticas dos demais passageiros.
A recordação anuviou um pouco o pensamento de Margarete, mas não apenas o dela.
A seu lado, Percival evocou a mesma lembrança.
Era muito estranho activar uma memória insignificante, há tanto tempo perdida.
Ele nunca pensara naquilo, jamais se lembrara daquela moça que subira ao ónibus, maltrapilha, aparentemente embriagada, com um bebezinho franzino no colo, ralhando com ele só porque vomitara em seu colo.
Lembrou-se de como a criticara e de como se arrependera depois, mas, estranhamente, aquela pontada de culpa já não existia mais.
Desconhecendo o significado da lembrança inopinada, Percival sentiu enorme paz interior, permitindo-se pensar em Margarete, imaginando o que teria sido feito dela e de seu bebé.
Nesse mesmo tempo, Afrânio sacava do bolso a fotografia, enquanto Félix lhe sussurrava ao ouvido:
— Vamos, mostre a ele.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 01, 2015 12:23 pm

Apesar do desânimo, Afrânio aproximou a foto de Percival e solicitou com extrema educação:
— Por favor, senhor, se incomodaria de dar uma olhada nesta foto para mim?
Há muito procuro essa moça.
Percival apanhou o retrato e quase desmaiou de susto.
Como era possível que ele, de repente, do nada, se lembrasse de uma desconhecida e, no momento seguinte, estivesse com o retrato dela nas mãos?
Ele olhou para Afrânio, embasbacado, partes do sonho voltando à sua mente.
Como não acreditava em coincidências, percebeu naquele acaso toda uma movimentação espiritual.
— Moço — murmurou ele, ainda assim atónito —, é a coisa mais estranha.
Pois agora mesmo estava pensando nessa mulher.
— O quê? — surpreendeu-se Afrânio, sentando-se ao lado dele e fazendo Margarete levantar.
O senhor a reconhece?
— Essa foto é antiga, não é? — Afrânio assentiu.
E ela tinha um bebé, não tinha?
— Tinha! — ele quase gritou, mal acreditando no que ouvia.
Lembra-se dela?
— Não sei como, mas me lembro.
Foi há muito tempo.
Ela entrou nesse mesmo ónibus, com o bebé, e desceu na Praça Saens Pena, pouco antes de eu saltar.
— O senhor pode me mostrar onde é?
— É claro. Vamos passar por lá.
Mas, diga-me, por que a procura?
— Fui contratado para encontrá-la.
— Porquê?
— Lamento, mas não posso dizer isso.
— É claro, desculpe.
Seguiram o resto do caminho conversando, e Percival aproveitou a oportunidade para falar com Afrânio sobre as coisas do invisível.
Mostrou-lhe um exemplar de A última chance, de Marcelo Cezar, afirmando com serenidade:
— Esse livro me ajudou a superar a morte do meu filho.
— É mesmo?
— O senhor devia experimentar ler.
O mundo espiritual é fantástico.
— Não sei se acredito nisso.
— Não acredita?
Pois como acha que me encontrou, de uma hora para outra?
— Sorte. Coincidência.
— Que nada!
Aposto como os espíritos ajudaram você.
Afrânio não sabia o que dizer.
O que acontecera fora mesmo inusitado.
Não acreditava em vida após a morte nem em espíritos, contudo, de qualquer forma, tinha que reconhecer que era estranho.
Ele ia perguntar alguma coisa a Percival, quando este disse:
— É aqui.
O detective assentiu decepcionado.
Queria ainda fazer algumas perguntas sobre espiritualidade, mas tinha que trabalhar.
Decidiu-se, porém, a estudar o assunto em suas horas vagas.
Ouvindo o sinal da descida, o motorista parou no mesmo ponto em que Margarete havia saltado.
— Obrigado — falou para Afrânio.
Não sabe o quanto me ajudou.
Afrânio pôs de lado a conversa que tivera com Percival para se concentrar em seu trabalho.
A praça Saens Pena estava muito diferente agora, mas era o local em que Margarete havia pisado, mais de vinte anos antes.
Ao lado dele, Félix e Margarete seguiam de mãos dadas, observando a indecisão do detective sobre aonde deveria ir.
Afrânio ainda mostrou a foto a alguns transeuntes, mas ninguém sabia de nada.
Como a hora já ia avançada, achou melhor voltar depois.
Depois do encontro com Percival, tinha certeza de que em breve encontraria Margarete.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 01, 2015 12:23 pm

CAPÍTULO 25

Apesar do pouco tempo, o namoro de Marcos e Raquel se aprofundava a cada dia.
Os dois viviam sempre juntos, intensificando seus encontros com o término do ano lectivo.
Embora Raquel ansiasse por estar a sós com ele, Marcos se demonstrava evasivo, não tocava em assuntos de sexo.
Quando saíam, normalmente iam ao cinema ou a algum restaurante pacato, frequentado por famílias com filhos.
Nunca iam dançar, muito menos, ao motel.
Naquela sexta-feira, todavia, Raquel estava decidida a ter uma noite de amor com Marcos.
Ouvira dizer que muitos evangélicos não faziam sexo antes do casamento, mas ela se recusava a crer que ele fosse assim.
Um universitário não se deixaria envolver por tabus que ela considerava sem sentido.
Assim que entraram no carro dela, Raquel ligou o motor e fez a pergunta:
— O que vamos fazer hoje?
— Estão encenando A Paixão de Cristo no teatro da minha igreja. Gostaria de ir?
Raquel soltou um suspiro profundo, alisou o rosto dele com uma das mãos.
Ligou o carro e saiu do estacionamento.
— Será que não poderíamos ficar sozinhos? — tornou ela, olhando-o de soslaio.
— Estamos sempre sozinhos.
Por isso pensei no teatro.
Você não conhece minha igreja...
— Gostaria de ir a um lugar para namorar — cortou ela.
— Onde?
— Vamos dar uma volta na praia?
Ele a estudou por uns momentos antes de responder:
— Está bem. Se é o que você quer.
Raquel tomou a direcção da Barra da Tijuca.
Não sabia mais o que fazer para deixar transparecer que o que ela mais queria era dormir com ele.
Parou o carro em frente à praia, num lugar mais deserto, e Marcos observou:
— Aqui é perigoso.
Podemos ser assaltados.
— Não podemos, não.
Ela se aproximou e beijou-o sofregamente, deslizando a mão sobre o peito dele.
Na mesma hora, todo o corpo de Marcos se acendeu.
Ele a abraçou fortemente, trocando com ela carícias inocentes.
Raquel, ao contrário dele, ousou mais nos carinhos, deixando-o aturdido, louco de desejo.
No começo, ele cedeu um pouco, mas depois, com a consciência tomada pela culpa e a certeza do pecado, afastou-se atordoado.
— Não, Raquel — sussurrou ele, segurando-lhe a mão trémula.
— Por que não? — gemeu ela, a boca ainda colada à dele. — Eu o amo.
— Não é certo.
— O que não é certo?
— O que estamos fazendo.
— Não estamos fazendo nada — protestou ela, beijando-o pelas faces e o pescoço, a fim de provocá-lo o suficiente para que ele não resistisse.
— Não faça isso — implorou ele, sem saber como evitar o contacto com ela.
Sem lhe dar ouvidos, Raquel continuou beijando-o.
Deixou que sua mão percorresse o corpo dele novamente, satisfeita com o grau de excitação a que o estava levando.
Ele tentava se soltar, ao mesmo tempo em que se agarrava a ela, contendo a mão que, impiedosamente, buscava descer pelo corpo dela.
Aos pouquinhos, foi cedendo ao desejo, entregando-se àquele momento de prazer.
Mas, quando Raquel tocou-o em suas partes mais íntimas, ele a empurrou e fez um movimento para trás, deixando-a estarrecida e frustrada.
— O que foi que houve? — balbuciou ela, tentando aproximar-se novamente.
— Isso não está certo — censurou ele.
Nós não somos casados.
Não podemos nos tocar dessa maneira.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 01, 2015 12:23 pm

Raquel sorveu o ar aos borbotões, para acalmar a respiração ofegante, e recostou-se no banco do motorista.
— Você é virgem, Marcos?
A pergunta foi tão directa que ele quase engasgou.
Não fosse o tom escuro de sua pele, ela teria percebido o rubor que lhe subia às faces.
Em vez de responder, ele respirou fundo e devolveu a pergunta:
— E você não é?
— Não.
Novamente a surpresa, não tanto pela revelação, mas pela facilidade com que ela falava de um assunto tão íntimo.
Marcos lutava consigo mesmo, contra o lado religioso que lhe dizia que Raquel não servia para ele.
Virgindade era uma coisa sagrada, somente deveria ser consagrada ao esposo ou à esposa assumidos perante Deus.
Como poderia ele, sendo ainda puro e casto, conviver com uma mulher que já cometera o pecado da carne?
Mas o amor era muito mais forte.
Marcos amava Raquel como jamais tornaria a amar outra pessoa.
O facto de ela não ser mais virgem era uma decepção para a qual, no fundo, ele já se preparara.
Sabia que se iludia ao afirmar que ela era pura, porque moça nenhuma na idade dela ainda o era.
E Raquel tinha aquelas manias espiritualistas, sem limites, sem dogmas, sem regras.
Que razão teria para pensar na virgindade da mesma forma que ele?
— Acho melhor irmos para casa — sugeriu ele por fim, sem saber como proceder.
Ela o olhou incrédula:
— Você quer ir embora assim, sem nem conversar?
— O que podemos conversar?
Você já disse o que queria.
— Mas não ouvi nada de você.
— O que você quer que lhe diga?
Que, ao contrário de você, ainda me guardo para o casamento?
Não fosse o momento tão delicado, Raquel teria achado graça.
Naqueles dias, ainda existia alguém, e homem, que acreditava em se casar virgem.
— Olhe, Marcos, não quero desrespeitar suas crenças, mas onde é que está escrito que duas pessoas que se amam não podem fazer sexo?
— Podem. Depois do casamento.
E a Bíblia é cheia de passagens que nos ensinam que nosso corpo é o templo do Espírito Santo, devendo ser reservado para o cônjuge legitimamente assumido perante Deus.
— Não entendo muito de Bíblia, mas posso dizer que entendo de pessoas.
Para mim, o que tem valor é o que se guarda no coração.
Marcos a olhou com pesar.
Lutava entre o impulso de tomá-la nos braços e o de rejeitá-la como mulher pecaminosa, herege.
— Se você se arrepender, Deus vai perdoá-la, com certeza.
— Arrepender-me de quê?
De não ser mais virgem?
Ele não disse nada, e ela continuou:
— Não vejo por que me arrepender se não considero que tenha feito nada de errado.
Você fala em Bíblia e em Escrituras, mas eu nunca vi, nos livros espiritualistas que li, uma só linha condenando aqueles que não se casam virgens.
E quem nunca se casar?
Vai ter que morrer virgem também?
— Seus livros não são a Bíblia.
— Por certo que não.
Mas por que não são tão bons quanto ela?
Para você, a Bíblia é o compêndio da verdade.
Para mim, a verdade não se traduz meramente em palavras.
Ela está nas leis que regem o universo e não foram escritas por ninguém, mas podem ser compreendidas por qualquer um que desenvolva suficientemente a inteligência.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 01, 2015 12:23 pm

Esse não é o nosso caso.
Nós, seres humanos, conhecemos ainda muito pouco da verdade.
Ele a fitou aturdido, sem saber o que dizer.
Raquel dizia coisas que ele não compreendia muito bem, mas faziam algum sentido dentro dele.
— É isso que você aprende nos livros que lê?
— Eu não aprendo nada.
Sou levada a reflectir.
Ela estava visivelmente aborrecida.
Marcos sentiu imensurável ternura por ela.
Queria muito abraçá-la, porém, tinha medo de se deixar envolver por suas heresias.
Não duvidava de que ela havia cometido o pecado da carne, mas sabia que o amor que sentia por ela estava muito além de qualquer pecado.
E o que ela sentia por ele era amor também.
Seria esse, contudo, um sentimento que ela só nutrira por ele?
— Você amava Nelson? — perguntou ele, tentando compreender o jeito dela.
— Não — foi a resposta sincera e rápida.
— Mas se deitou com ele?
Ela o olhou magoada e respondeu com lágrimas presas nos olhos:
— Sim.
— Porquê?
— Porque quis. Porque senti desejo.
Porque gostava dele, embora não o amasse como amo você.
— Foi um impulso da carne?
— Foi.
— Como o de agora?
— O de agora foi um impulso de amor.
Marcos fitou-a novamente, sentindo aquele desejo quase irresistível de abraçá-la, beijá-la, dizer que nada daquilo importava.
Mas, então, por que não conseguia aproximar-se dela, por que ficava preso aos ensinamentos que ouvira na igreja?
Porque as palavras da Bíblia estavam impressas em seu coração, e não era assim tão fácil desapegar-se de valores com os quais fora acostumado desde a mais tenra idade.
Em vez de ceder ao comando do coração, Marcos sentia necessidade de saber mais a respeito da vida pregressa da moça e continuou perguntando, sem dar atenção ao amor contido nas palavras de Raquel:
— Com quantos homens você já dormiu?
— Isso não é da sua conta! — irritou-se ela.
E quer saber do que mais?
Para mim chega! Cansei.
Se você acha tão importante assim ser virgem, vá procurar uma garota na porta da igreja.
Essa garota não sou eu.
Aprecio a vida e não estou disposta a abrir mão do prazer só porque você acredita que sentir prazer é pecado.
Ela rodou a chave na ignição e, quando colocou a mão sobre o câmbio para engatar a ré, Marcos a segurou com firmeza.
Raquel estava furiosa, ele já a conhecia o suficiente para saber o quanto ela era decidida e segura de si.
Mas não podia perdê-la.
Pensar nisso causou-lhe um arrepio de terror pior do que a decepção por ela não ser mais virgem.
Se era doloroso aceitar que ela já havia dormido com outros homens, muito mais doloroso seria pensar que ela jamais seria dele.
— Não, Raquel, por favor — murmurou ele.
Não vá ainda.
— Não vou permitir que você fique aí falando comigo como se eu fosse uma perdida.
Se você quer ser virgem, tudo bem, o problema é seu.
Embora não compreenda, posso aceitar a sua escolha e conviver com ela.
E sabe por quê, Marcos?
Porque eu conheço uma coisa que, pelo visto, você ainda não aprendeu: respeito.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 01, 2015 12:24 pm

Você não sabe me respeitar do jeito que eu sou, porque não sou como você esperava e queria.
Isso não é amor e, se você não me ama, prefiro que fique longe de mim.
Acho melhor terminarmos agora...
Ela falava sem parar, mas Marcos não deixou que concluísse a frase.
Puxou-a para si, selando seus lábios com um beijo.
Raquel não se debateu mais que um segundo.
Presa nos braços dele, permitiu-se beijar, mas ficou quieta, sem ousar mexer as mãos e tocá-lo.
Nem foi preciso.
Dessa vez, foi Marcos quem tomou a iniciativa.
Em meio aos beijos e carícias, a imagem da tia e do pastor lhe aparecia, mas a respiração ofegante de Raquel dissipava qualquer sombra que nublasse aquele momento.
Mesmo sem experiência alguma em sexo, ele ia deixando-se envolver pelo momento, excitando-se cada vez mais com a excitação de Raquel.
— Vamos sair daqui — sussurrou ele, beijando-lhe o ouvido.
— Tem certeza?
Ele apenas assentiu, sem parar de beijá-la.
A muito custo, Raquel se afastou dele e conseguiu, finalmente, engatar a ré, em direcção ao motel mais próximo.
Durante o breve trajecto, Marcos lutava com a lembrança da tia e do pastor, o medo de estar comprometendo sua alma e a certeza de que nada compensaria o amor de Raquel.
Ela era mais importante do que tudo, por ela valeria a pena correr o risco do pecado.
Chegaram ao motel rapidamente e logo estavam na cama, se amando.
Marcos jamais havia experimentado aquela sensação em toda a sua vida.
Nem sequer imaginara que pudesse sentir tanto prazer.
Ali, com o corpo de Raquel junto ao seu, pensou se tudo aquilo que aprendera era realmente o certo.
Como poderia o amor caminhar de braços dados com o pecado?
Fora preciso experienciar para compreender que o sexo não era um erro, mas o complemento de um sentimento que estava muito além de qualquer dogma ou tabu humano.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

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