Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 01, 2015 12:24 pm

CAPÍTULO 26

A partir daquele dia, superando a proibição, Marcos entregou-se a um amor verdadeiro e apaixonado.
O pecado da carne cedeu lugar à beleza do amor.
Aos poucos, foi-se distanciando da igreja.
Chegava tarde aos sábados e não conseguia acordar cedo para o culto aos domingos.
— Sua tia tem-se queixado de que você não vai mais à igreja — comentou Clementina.
— Ela esteve aqui hoje?
— Cedo, como sempre.
Você estava dormindo, e eu não deixei que o acordasse.
— Podia ter deixado.
Faz mesmo tempo que não assisto aos cultos.
Estou em falta com tia Leontina e com o pastor.
— Posso dizer o que eu acho, meu filho?
Ele assentiu.
— Acho que você está muito melhor assim, do jeito como está.
Não me agrada ver um menino bonito, inteligente e saudável feito você enfurnado em igreja.
Acho bom você aproveitar a vida.
— Mas, mãe — objectou ele, confuso —, tenho negligenciado meus deveres cristãos.
— Que deveres?
Só porque não vai mais às vigílias e falta aos cultos não quer dizer que você não seja um bom cristão.
— Tenho me distanciado dos ensinamentos bíblicos — confessou ele, sem encarar a mãe.
— Como assim? — retrucou ela.
Fez alguma coisa errada?
— Não sei dizer.
Gostaria de conversar sobre isso com o pastor, porém, tenho medo.
Sei que ele vai me recriminar e querer que eu me arrependa, mas não quero.
— Arrepender-se de quê?
Qual foi o pecado que você cometeu?
Ele não respondeu, mas Clementina, sim.
— Não precisa dizer.
Foi o maldito pecado da carne, não foi?
Marcos assentiu mansamente e afundou o rosto entre as mãos, com vergonha de encarar a mãe.
— Não pude resistir...
Mas eu a amo tanto!
Por que amar tem que ser pecado?
— Não se deixe enganar por essas baboseiras de pastor — aconselhou a mãe.
Eu mesma não acredito em nada disso.
O pecado está no coração da gente, não no corpo.
— Será, mãe?
Mas as Escrituras dizem...
— Eu não devia ter deixado sua tia influenciar você, não devia.
Agora você acha que tudo é pecado.
— Você é que não acredita em nada. Perdeu a fé.
— Como alguém perde o que nunca teve?
Eu nunca tive fé em nada. Ia à igreja por influência de Leontina, para me purificar dos meus próprios pecados.
— Você também tinha pecados?
— Quem não os tem?
Eu e seu pai poderíamos ser acusados do mesmo pecado, se é que me entende.
Na época, fiquei com remorso e fui na onda de Leontina.
Seu pai, ao contrário, foi mais esperto e largou a igreja.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 01, 2015 12:24 pm

Mas eu achava mesmo que tinha errado.
Sua tia me levou ao pastor, ele me fez jurar que não pecaria outra vez.
E, como nós nos casamos, consertamos tudo. Para quê?
Veja só no que deu a minha fé.
— Você acabou de dizer que nunca teve fé.
Talvez, se você tivesse se voltado mais para Deus, não tivesse sofrido tanto.
— Deus não impediu seu pai de nos abandonar.
— Mas poderia tê-la ajudado a não compensar tudo com a bebida.
— Eu já me curei — rebateu em tom de desculpa.
— Não a estou acusando.
Quero apenas que você perceba que a religião nos ajuda a manter o equilíbrio.
— Pode ser. Mas tem que vir lá de dentro.
A gente tem que sentir a fé, acreditar no Espírito Santo com o coração, não por medo ou imposição.
E eu, infelizmente, estava no segundo caso.
É por isso que não volto para a igreja nem me interesso por religião alguma.
Todas elas têm as suas proibições.
Não quero mais ninguém para me dizer o que posso ou não fazer, recriminando-me ou felicitando-me pelos meus erros e acertos.
— Não é bem assim.
Tenho que reconhecer o bem que a igreja me fez até hoje.
Para começar, manteve-me fora do vício.
— Isso, realmente, foi um bem.
Você tem razão, a religião tem coisas boas, mas não é para mim.
— Acho que é para qualquer um.
Você apenas sofreu uma decepção e não consegue aceitar que não foi por culpa da igreja que papai a deixou.
Foi porque ele quis ir embora, estivesse você na igreja ou não.
Ouvir a verdade doeu no coração de Clementina, que arriou no sofá e pôs-se a chorar baixinho.
— Você tem razão — confessou ela.
Hoje estou preparada para aceitar isso.
— Então, por que não volta para a igreja?
Estar mais próxima de Deus vai ajudá-la muito.
— Não. Perdi minha fé e não pretendo mais me entregar ao poder dos homens.
Prefiro confiar apenas na força de Deus.
— Você ainda acredita em Deus?
— Acredito. Mas não nesse Deus de barba, sentado num trono, que fica vigiando nossas vidas e anotando num caderninho tudo que fazemos de bom ou de ruim.
— Como você pensa que Ele é, então?
— Não sei explicar.
Talvez Ele seja apenas amor...
— Eu acredito em Deus e no que dizem as Escrituras.
Por isso, temo pela minha alma e a de Raquel.
Clementina aproximou-se do filho e tomou-o nos braços, encostando a cabeça dele em seu peito.
Afagou seus cabelos com carinho extremo, até que falou convicta:
— Não creio que Deus vá puni-los por isso.
Acho que, se vocês se amam, ele irá abençoá-los, estejam ou não casados.
— Será mesmo?
— Prefiro acreditar nisso.
— E se você estiver enganada?
E se eu me enganar também?
Algumas breves batidas soaram na porta, que se abriu vagarosamente, e Leontina entrou.
— Está tudo bem com você, Marcos Wellington? — perguntou ela, vendo mãe e filho abraçados.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 01, 2015 12:24 pm

— Estou bem, tia — respondeu ele, enxugando uma lágrima ligeira dos olhos.
— Passei aqui mais cedo, mas sua mãe disse que você estava dormindo.
— Podia ter-me acordado.
Tenho sentido falta de ir à igreja.
— Nós todos também temos sentido a sua falta.
Hoje mesmo o pastor perguntou por você.
— Tenho andado ocupado.
— Sei... E os estudos, como vão?
— Bem.
Marcos se afastou da mãe e foi apanhar uma fruta na geladeira, enquanto Leontina prosseguia:
— Você está namorando alguém?
— Por que pergunta?
— Você tem andado esquisito.
Normalmente, quando os jovens ficam com a cabeça no ar, é porque estão apaixonados.
Marcos olhou para a mãe e não respondeu:
— Ela pertence à nossa congregação?
— Eu não disse que estava namorando — contestou ele.
— Não precisa me contar, se não quiser.
Alerto-o apenas para os perigos de uma relação amorosa distante dos ensinamentos bíblicos.
Cuidado para não incorrer em nenhum pecado do qual vá se arrepender depois.
— Não se preocupe, titia.
Sei muito bem o que estou fazendo.
— Ainda bem.
E o pastor mandou dizer que espera vê-lo na igreja no próximo domingo.
Posso dizer a ele que você irá?
— Pode... não.
Acho melhor não.
— Porquê?
Marcos não queria dizer que temia ir à igreja e revelar ao pastor o que estava fazendo, porque não sabia mentir e não mentiria diante de uma pergunta directa.
— Marcos Wellington vai sair comigo no próximo domingo — anunciou Clementina, para salvar a situação.
— Prometeu que me levaria ao Pão de Açúcar.
Não é, meu filho?
Eu nunca fui ao Pão de Açúcar.
Leontina não percebeu o ar de espanto de Marcos e retrucou:
— Tem que ser de manhã?
— É mais fresco.
E depois, vamos almoçar num restaurante.
— Vocês têm dinheiro para isso tudo?
— Estou economizando há meses para esse dia.
Não é, meu filho?
Marcos fez que sim com a cabeça, evitando encarar as duas, e Leontina prosseguiu:
— Acho que vocês podiam ter escolhido um outro dia para passear, mas seria demais esperar que você, Clementina, levasse em consideração os horários do culto.
— Desculpe-me, minha irmã, eu realmente nem me lembrei da igreja.
— E vocês não podem fazer esse passeio outro dia?
Num sábado, por exemplo?
— Ah, não. Já combinamos no domingo.
Sábado eu tenho uma faxina e não poderei ir.
Leontina suspirou desanimada, não muito convencida da veracidade das palavras de Clementina.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 01, 2015 12:25 pm

— Tem certeza de que não quer ir, Marcos Wellington?
Ele finalmente encarou a tia.
Como não gostava de mentir, logo pensou numa solução para a desculpa que a mãe arranjou para salvá-lo.
Levaria a mãe ao Pão de Açúcar e ao restaurante, mas não iria sozinho.
Raquel estaria com eles.
Como fazia algum tempo que ela pedia para ser apresentada a Clementina, aquela seria uma excelente oportunidade.
— Não vai dar, tia.
Já está tudo combinado com mamãe e não quero deixá-la frustrada.
Ela nunca vai a lugar algum.
— Nem você, Leontina — acrescentou Clementina.
— Não gostaria de nos acompanhar?
Marcos quase soltou um grito, mas conseguiu se conter e olhou para a mãe com ar recriminador.
Clementina, contudo, estava tranquila, certa de que a irmã jamais faltaria ao culto para se distrair.
— Não posso — contestou Clementina.
Não faltaria à igreja por nada.
E, só por curiosidade: o restaurante é de algum evangélico?
— Não — Clementina apressou-se em dizer.
— Pois agora mesmo é que não vou.
Não creio que um restaurante onde servem bebidas alcoólicas e tocam música pagã seja o local mais apropriado para um bom cristão.
— Por que você acha que tudo o que não é evangélico é do demónio, Leontina? — perguntou a irmã.
— Quando você seguia o caminho da religião, não tinha o diabo no corpo — disse Leontina com uma certa raiva.
— Nem tinha pensamentos pecaminosos.
— E agora tenho?
Notando a iminente discussão religiosa, Marcos resolveu intervir:
— Bom, tia, vou acompanhá-la até sua casa.
Já está ficando tarde e sei que a senhora ainda tem que preparar o almoço.
As duas perceberam o porquê da atitude de Marcos, mas silenciaram e aquiesceram.
Às vezes, quando ultrapassavam o limite da tolerância mútua, uma discussão se instaurava, e Marcos estava sempre ali para impedir.
Depois, ambas agradeciam intimamente, porque, apesar das divergências, só tinham uma à outra e não gostariam de se afastar novamente por causa de nenhuma briga.
Logo que Marcos deixou Leontina em casa, voltou para junto da mãe, que havia terminado de preparar o almoço.
Ele entrou e beijou-a no rosto, ajudando-a a pôr a mesa.
Depois que se sentaram, ele fez a breve oração, que Clementina acompanhava de olhos cerrados, em respeito a ele, e puseram-se a comer.
— Gostou da saída que tive para livrá-lo da igreja no domingo que vem? — indagou ela sorrindo.
— Foi óptima.
Achei a ideia tão boa que resolvi comprá-la.
— Como assim?
— Vamos mesmo ao Pão de Açúcar, depois a levarei para almoçar num restaurante.
E não iremos sozinhos.
Quero que você conheça uma pessoa.
— Sua namorada? — Marcos assentiu.
Vai me apresentar a sua namorada?
Clementina não sabia se estava mais feliz com o passeio inesperado ou com o fato de que iria conhecer a namorada de seu filho.
Talvez as duas coisas a alegrassem.
— Raquel quer muito conhecê-la.
E o momento é o mais oportuno.
— Que maravilha, Marcos Wellington!
Conhecer o Pão de Açúcar e sua namorada ao mesmo tempo vai ser muito bom.
Só não tenho roupa para estar à altura de uma moça tão fina.
E se ela não gostar de mim?
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 01, 2015 12:25 pm

— Ela vai adorar você.
Raquel é uma moça especial, tenho certeza de que você irá gostar dela também.
— Ela sabe que somos pobres, não sabe?
— É claro.
— Mesmo assim, gostaria de ter algo melhor para vestir.
Minhas roupas estão todas velhas e puídas.
— Não se preocupe.
Vou lhe comprar algo novo, só para você ficar feliz.
Quero que Raquel veja o quanto minha mãe ainda é bonita.
— Bonita, eu? — protestou ela encabulada.
Ora, Marcos Wellington, só você mesmo.
Riu de satisfação, e Marcos afagou sua mão por cima da mesa.
Gostava tanto da mãe, queria muito tirá-la daquela vida.
E sua tia Leontina também.
Ela era fanática pela religião, mas era uma boa pessoa, incapaz de mentir, enganar ou maltratar quem quer que fosse.
Se a pessoa não era evangélica, Leontina procurava não manter contacto com ela, mas, se estivesse em apuros, deixava de lado a discriminação e procurava ajudar.
Marcos gostava dela, quase tanto quanto gostava da mãe.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 01, 2015 12:25 pm

CAPÍTULO 27

Com o fone na mão, Raquel antegozava a ideia de, finalmente, conhecer a mãe de Marcos.
Havia algum tempo pensava em apresentá-lo a seus pais, mas a insegurança dele ia adiando o encontro.
Depois que ela fosse apresentada à mãe dele, tinha certeza de que conseguiria marcar um jantar em sua casa.
Mentalmente idealizando o passeio que fariam no domingo, recolocou o fone na base, e só então percebeu o irmão parado atrás do sofá, de braços cruzados, encarando-a com ar intimidador.
— Que susto, Elói! — exclamou ela.
Agora deu para ficar escutando a conversa dos outros, é?
— Estava falando com o seu namoradinho?
— Não é da sua conta, mas estava, sim. Por quê?
— Por nada. Só estou curioso.
Se ele é pobre, deve trabalhar em algum lugar.
— Trabalha.
— Em algum banco?
— Não.
— Em um escritório? — Ela meneou a cabeça.
Em uma loja então?
Já sei! Ele é office boy.
— Não encha a minha paciência, Elói.
Vá procurar o que fazer.
— Não precisa tentar me esconder a verdade.
Sei que ele é garção.
— Se sabe, por que perguntou?
— Por nada. Queria ver se você tinha coragem de me contar.
— Até parece que você me mete algum medo.
Você não tem nada com a minha vida.
Elói quase a esbofeteou, mas conseguiu se conter.
Os pais o recriminariam e lhe cortariam a mesada se fizesse uma coisa daquelas.
— Ele trabalha no shopping?
Em algum restaurante famoso?
— Dá um tempo, Elói.
Não tenho que ficar aqui escutando isso.
Irritada com a provocação do irmão, Raquel rodou nos calcanhares e foi para o quarto, tentando não entrar na energia dele.
Não aguentava o sarcasmo de Elói.
Ele se julgava o dono do mundo, superior a todos com o seu preconceito.
Elói esperou até que Raquel saísse e ligou para o celular de Nelson.
— Acho que já está na hora de agir.
Mais tarde, os dois perambulavam pelo shopping, circulando pela praça de alimentação à procura de Marcos.
Avistaram Raquel sentada a uma mesa, tomando um refrigerante, e procuraram pelo rapaz.
Marcos apareceu em seguida, segurando na mão uma bandeja.
Passou por Raquel sem se deter, indo servir uma mesa mais adiante.
— É ele — rugiu Nelson, apontando para Marcos com o queixo.
— Até que é bem apessoado — observou Elói.
— Está de brincadeira comigo? — irritou-se Nelson.
— Calma. Só estou tentando avaliar a situação de forma imparcial.
Sentados em uma lanchonete próxima, os dois ficaram muito tempo observando a rotina de Marcos, facto que pretendiam repetir nos dias subsequentes.
Ao final da noite, quando o restaurante fechou as portas, ele saiu com Raquel.
Deu-lhe um beijo apaixonado, levando Nelson a quase perder o controle e partir para cima dele.
Por sorte Elói estava ali para detê-lo.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 01, 2015 12:25 pm

— Acho bom você se acalmar — censurou ele.
Ou quer estragar tudo?
— O canalha está beijando a minha garota!
— Ele pode até ser um canalha, mas ela não é mais sua garota.
— De que lado você está, afinal?
— Estou do seu lado, mas nem por isso fiquei burro de repente.
Raquel terminou com você porque se apaixonou pelo canalha ali.
Não temos como fugir disso.
Os dois passaram abraçadinhos, sem perceber a presença de Nelson e Elói, em direcção ao estacionamento.
— Aposto como é Raquel que paga tudo — menosprezou Nelson.
É ela que tem o carro e o dinheiro.
Deve arcar com todas as contas, inclusive do motel.
— Deixe disso.
Ciúme agora não adianta nada.
— Não posso evitar.
Trocar-me por aquele...
Elói silenciou-o com um gesto:
— Acho melhor cortarmos as referências raciais.
Corremos um grande risco de ser presos por isso, se alguém nos escutar.
Já houve casos, e não quero me arriscar.
Nelson mordeu os lábios, com raiva, e Elói chamou:
—Vamos. Eles já foram embora, não temos mais o que fazer aqui.
— Vamos segui-los?
— Para quê?
Para vê-los entrar num motel?
— Você acha que eles vão para um motel?
— Corre esse risco.
E acho que você não quer ver isso, quer?
O que Nelson queria mesmo era esmurrar a cara de Marcos e tirar Raquel à força do lado dele, obrigando-a a aceitá-lo de volta.
Como aquilo era impossível, preferiu não ver mais nada.
— Não — sussurrou ele, engolindo o ódio.
— Então, vamos embora.
Temos que observá-lo em silêncio e montar uma estratégia.
Já tenho uma ideia mais ou menos delineada, mas não pode haver falhas.
Marcos e Raquel já iam longe, sem desconfiar de nada.
— Adorei a ideia de sairmos com a sua mãe.
Queria muito conhecê-la.
— Ela também está louca para conhecer você.
Fez o que lhe pedi?
— Fiz, sim.
Comprei um conjuntinho bem bonitinho e moderno, de calça capri com bordados nos bolsos e camiseta igual, do mesmo tamanho das peças que você me trouxe. Uma graça.
— Quanto custou?
— Ah, Marcos! Deixe isso para lá.
— Não, senhora! Nem pensar!
O combinado não foi esse.
— Quero dar um presente a sua mãe. Não posso?
— Não.
— Porquê?
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 01, 2015 12:25 pm

— Porque não é direito.
Fui eu que pedi a você para comprar uma roupa para ela.
Raquel não discutiu.
Deu o preço e recebeu o dinheiro, mesmo sabendo que ele fazia sacrifício para comprar aquela roupa bonita.
Não fora muito cara nem muito barata.
Ela guardou o dinheiro no bolso e esticou-se para apanhar, no banco de trás do carro, uma sacola com a roupa nova e outra com a usada que servira de modelo.
Marcos apanhou tudo e agradeceu.
— Você é muito orgulhoso — declarou ela.
Não tem nada de mais eu presentear sua mãe.
— Um dia você poderá lhe dar presentes, mas agora não.
E não sou orgulhoso.
Só não quero que digam que estou com você por dinheiro.
— Ninguém tem nada com a nossa vida.
— Eu sei, mas é importante para mim que fique bem claro.
— Tudo bem. Não precisamos discutir por isso.
Ela continuou guiando, até que ele voltou a falar:
— Tenho uma novidade para lhe contar.
— O que é?
— Matriculei-me numa auto-escola.
— Sério?
— Sério. Quero aprender a dirigir e, quem sabe, comprar um carrinho barato para mim.
Pode ser um fusquinha velho mesmo.
Raquel achou graça, ao mesmo tempo em que sentiu orgulho dele.
Marcos podia ser pobre, mas tinha uma ambição saudável que o colocava no caminho da conquista.
— Você vai conseguir — comentou ela.
Sei que vai.
Ficaram em silêncio alguns minutos, até que ele tornou a falar:
— Minha tia está desconfiada de que estou namorando alguém.
— Não pode contar a ela sobre nós?
— Ela iria directo ao pastor, que me pressionaria, até eu falar que já dormimos juntos.
— E daí? Você não tem mais problemas com isso, tem?
— Só um pouquinho.
No fundo, ainda não estou bem seguro do que estamos fazendo.
— Deixe disso, Marcos.
Você já superou esse tabu.
— Talvez, se você fosse à igreja comigo...
— Está querendo me converter ou é impressão minha?
— Não é nada disso.
É que você não tem religião alguma, e pensei se não gostaria de conhecer a minha.
— Eu não teria problema, a princípio, em conhecer a sua igreja ou qualquer outra, desde que ninguém queira me converter.
— Não é isso.
Seria apenas para acalmar minha tia Leontina.
— Acalmá-la como?
Levando-a a crer que sou da sua religião, que acredito nas mesmas coisas que ela e faço o que ela acha que é certo?
Não. Isso não seria honesto nem comigo, nem com ela.
Não sigo religião alguma nem pretendo seguir.
Tenho a minha fé em Deus, e é o que basta.
— Mas eu sou evangélico!
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 01, 2015 12:26 pm

— E pode continuar sendo.
Isso não me incomoda.
Aceito e respeito a sua religião numa boa.
Só não quero fazer parte dela.
— Você acha que a minha religião é ruim?
— Eu nunca disse isso.
Acho que é boa, como todas as outras que pregam o bem e estão tentando ajudar as pessoas a serem melhores.
Só que eu não tenho afinidade com ela.
Gosto das coisas ocultas, de assuntos esotéricos e ensinamentos espiritualistas.
— O pastor diz que isso são coisas satânicas.
— Você vai me desculpar, Marcos, mas acho que o pastor desconhece os estudos espiritualistas.
Tenho lido muita coisa sobre espiritismo, teosofia, astrologia, budismo e outras coisas do género.
São temas fascinantes que pregam tudo, menos o satanismo, da forma como você emprega essa palavra.
— Não sei, Raquel.
É difícil crer que o pastor, um homem estudado e inteligente, esteja enganado.
— E é fácil acreditar que eu, que você ama e conhece, tenho parte com o demónio?
Ele não disse nada.
— Por acaso as minhas atitudes são malignas ou enganadoras?
— Não — disse ele convicto.
Sei que você é uma pessoa boa e sincera.
— Pois, então, como posso pregar o satanismo?
— Eu não disse que você prega.
O que temo é que esteja sendo enganada por essas heresias.
O diabo encontra meios de iludir os incautos.
— Você também fala do que não conhece.
Qualquer um que se prende a uma só verdade não conhece verdade alguma.
— E quem conhece a verdade? Só Deus.
— Isso mesmo.
Nós estamos buscando a verdade que mais nos aproxime dele.
Isso não quer dizer que a verdade seja privilégio de apenas um segmento religioso ou filosófico.
Só descobrimos aquilo que nos é permitido conhecer, e cada um aprende da sua forma.
Se você analisar bem, verá que todas as Escrituras sagradas dizem as mesmas coisas, embora adoptando interpretações e simbologias diferentes.
Quem as distingue entre boas e ruins, hereges ou divinas, é o homem, que afunda no orgulho e se julga mais poderoso do que Deus.
Raquel falava de coisas que o deixavam confuso e, ao mesmo tempo, curioso.
Por diversas vezes, ele fora alertado dos perigos das seitas e falsos cultos, mas as palavras de Raquel não pareciam condizer com tudo o que ele ouvira sobre assuntos ligados ao espiritismo ou temas esotéricos.
Não havia nada de mau no que ela dizia.
— Minha mãe diz coisas parecidas, só que não usa palavras tão bonitas.
Ela também ficou descrente da igreja.
— Por quê?
— Por causa do meu pai.
Num breve relato, Marcos contou a Raquel tudo por que haviam passado desde que o pai os abandonara.
— Você é um homem de coragem e dignidade — impressionou-se ela.
Depois de tudo por que passou, podia ter-se tornado um criminoso, um traficante ou um mendigo.
— Foi o temor a Deus que me manteve no caminho da rectidão.
— A religião o ajudou muito, concordo.
— Então não é bom ser religioso?
— É claro que é bom!
Desde que não haja fanatismo.
Há pessoas que precisam de alguém que lhes imponha limites, para que não busquem os mesmos caminhos de dor que trilharam em outras vidas.
Talvez esse seja o seu caso.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 01, 2015 12:26 pm

E como ninguém nasce onde não deve, nem experiência o que não precisa, tudo que lhe aconteceu foi exactamente o necessário para dar um empurrãozinho na sua ascensão espiritual.
— Você falou em outras vidas. Como assim?
— Vidas passadas.
— Você acredita nisso?
— Integralmente.
Acho que a reencarnação é uma oportunidade sagrada de iluminação do Ser.
É através dela que ganhamos novas oportunidades para refazer o que ficou malfeito.
— Não sei... — Marcos retrucou pensativo.
A ideia da reencarnação invalida toda a crucificação de Jesus.
Por que teria ele morrido para nos redimir de nossos pecados se tivéssemos uma nova chance de reencarnar para corrigir nossos erros?
— Não acredito que Jesus tenha vindo nos redimir de nossos pecados.
Através do seu sacrifício, a semente de amor foi plantada no coração do homem.
Jesus se sacrificou por nós, não para nos livrar dos pecados, mas para nos mostrar que o caminho para a libertação é o amor.
— Você diz coisas estranhas, Raquel, que o pastor taxaria de heresias.
Tenho medo do que possa vir a lhe acontecer se continuar com essas ideias.
— Falar de amor não pode ser heresia.
Cada um é livre para pensar e crer no que quiser.
Deus não está preocupado com a forma como você reflecte sobre a vida e sobre Ele.
Deus é puro amor; essa é a única verdade sobre Ele que podemos afirmar.
— Deus perdoa tudo, desde que venha de um arrependimento sincero — afirmou ele, em tom de preocupação.
— Não tenho do que me arrepender, nem você.
Não quanto a questões religiosas.
O mais importante é não matar, não roubar, não mentir nem trapacear.
É ser bom, digno, verdadeiro, caridoso e amigo.
São esses sentimentos que contam para Deus na hora do "julgamento", como vocês costumam dizer.
E o julgamento, para mim, é o momento em que a nossa consciência nos faz reflectir sobre tudo que fizemos.
Vamos então separando nossas obras em boas e não tão boas.
Depois, nas encarnações seguintes, aproveitamos nosso tempo para aprimorar o que ficou pendente e desfrutar com alegria do que já foi aprendido.
Assim vai, até o dia em que não houver mais nenhuma pendência, e tudo na vida for causa de felicidade.
Aí, então, não voltaremos mais.
— Chega — sussurrou ele, selando os lábios dela com a ponta dos dedos.
Você me deixa confuso e assustado.
Nunca pensei que uma pessoa só pudesse ter pensamentos tão fantásticos e heréticos.
Ah! Se o pastor a ouvisse...
Dessa vez, Marcos falou sorrindo, pensando que Raquel fantasiava sobre coisas das quais nada sabia.
Era melhor não ouvir mais suas bobagens, pois elas vinham envoltas no manto da heresia.
Eles eram tão diferentes!
Mas ele não podia abrir mão de Raquel.
Levá-la para sua igreja, pelo visto, estava fora de cogitação.
O jeito era acostumar-se às barbaridades que ela dizia sem se deixar impressionar.
De repente, lembrou-se de algo que a tia sempre dizia:
"Se você não puder modificar alguma coisa ou alguém, reze para que Deus faça isso no seu lugar".
Foi o que ele fez.
Ao chegar em casa, entregou-se a suas orações, pedindo a Deus que abrisse o coração e a mente de Raquel para o que ele considerava as verdades divinas, sem saber de duas coisas: a primeira é que ninguém tem o poder de modificar ninguém, e Deus não interfere directamente na transformação das pessoas, apenas sugerindo conselhos úteis ao despertar da consciência.
E a segunda, que a verdade de que ele tanto falava não diferia, em substância, daquela em que Raquel acreditava, porque ambas tinham, por natureza, o mesmo significado pleno, que era a essência do amor.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 02, 2015 10:45 am

CAPÍTULO 28

Assim que Clementina abriu os olhos no domingo, viu uma sacola de papel pousada na poltrona puída que ficava ao lado de sua mesinha de cabeceira.
A curiosidade a fez despertar, ela ergueu o corpo, esfregando os olhos, sonolenta.
"O que será isso?" - pensou.
Apanhou a sacola e abriu-a, virando o conteúdo sobre a cama.
Imediatamente seus olhos brilharam com o bonito conjunto, que ela desdobrou avidamente.
Apanhou a calça e a blusa, revirou-as nas mãos, maravilhada com o bordado e as pedrinhas dos bolsos.
Nunca tinha visto roupa mais bonita.
Ela se levantou e foi experimentá-la.
Quando Marcos entrou, ela estava diante do espelho, virando-se de um lado a outro, satisfeita com o caimento de seu novo traje.
— Marcos Wellington! — exclamou ela, correndo para ele, vibrante de satisfação.
Foi você quem comprou isso?
— Na verdade, foi Raquel quem escolheu.
Não entendo muito dessas coisas de mulheres.
— Nossa! Ela teve muito bom gosto.
E caiu direitinho em mim!
Como vocês conseguiram adivinhar o meu tamanho?
— Apanhei uma calça e uma blusa, escondido, do seu armário.
— Seu danadinho!
E eu nem desconfiei.
— A roupa ficou óptima em você.
Agora é só terminar de se aprontar para irmos ao Pão de Açúcar.
— Nós vamos mesmo?
— É claro que vamos.
Fiquei de me encontrar com Raquel na Praça Saens Pena às dez horas.
— Então, deixe-me correr para não me atrasar.
Dirigiu-se ao banheiro, e Marcos ligou a televisão, para esperá-la.
Pouco depois, suaves batidas na porta davam sinal de que a tia havia chegado.
— Bom dia, Marcos Wellington — cumprimentou ela, metendo a cara para dentro.
— Bom dia, titia.
— É hoje que você vai ao Pão de Açúcar com a sua mãe?
— É, sim. Gostaria de ir?
— Já disse que não posso.
O culto acabou há pouco, mas tem vigília mais tarde.
A porta do banheiro se abriu, dando passagem a Clementina, toda arrumada e cheirosa.
— Você está linda — elogiou Marcos, beijando-a no rosto.
— Clementina! — espantou-se a irmã.
Nunca a vi vestida desse jeito.
— Ela não está bonita? — perguntou Marcos.
— Isso não é roupa de uma mulher temente a Deus — contestou Leontina.
Essa calça está muito justa e marcando suas vergonhas.
E os seios... estão praticamente à mostra!
— Que vergonhas, que nada! — protestou Clementina.
Só tenho o que Deus me deu.
E até que não ficou mal, ficou?
Pela primeira vez em muitos anos, Clementina percebeu que ainda era uma mulher bonita, apesar dos maus-tratos que a vida lhe impôs.
Os cabelos negros, alisados à base de Henê, caíam com jeito sobre os ombros.
O corpo era ainda esguio, e os seios pequenos se ajustaram perfeitamente ao decote que os cingia.
— Não tem nada de indecente, tia — objectou Marcos, só agora notando que ele também se desligara das recriminações do pastor quanto ao traje feminino.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 02, 2015 10:46 am

— É, Leontina, não tem nada de indecente, não.
Adorei a roupa, embora pense que Marcos Wellington não devia gastar seu dinheiro comigo.
Mas, enfim, ele também não quer que eu faça feio na frente de Raquel.
— Quem é Raquel? — surpreendeu-se Leontina.
Marcos e Clementina se entreolharam, e foi ele quem falou, convicto de que não havia por que mentir:
— É minha namorada. Mamãe vai conhecê-la hoje.
— Eu sabia! — exclamou Leontina.
Esse seu sumiço só podia ser coisa de mulher.
E aposto que ela não é da nossa religião.
— Raquel não segue religião nenhuma — esclareceu Marcos, embora soubesse a tempestade que estava criando.
— Não segue?
Pois, então, ela é bem pior do que eu pensava.
Uma moça sem Deus no coração não pode dar boa coisa.
— Eu não disse que ela não tem Deus no coração.
Apenas que não segue nenhuma religião.
— Somente a fé em Jesus pode nos redimir, pois ele é nosso único salvador.
E fora da igreja não há salvação.
Você sabe disso tão bem quanto eu, Marcos Wellington.
Ele abaixou a cabeça, sem ter como contestar aquelas verdades que aprendera desde pequenino, nas quais agora já não via mais sentido.
— Pare de atormentar o menino — censurou Clementina.
— O que importa não é a religião, mas o carácter da moça.
— Aposto como vocês já fornicaram — rebateu ela entre os dentes.
— Pare com isso, Leontina! — berrou a irmã.
Você está na minha casa, e aqui dentro não admito comentários desse tipo.
Marcos Wellington é maior e pode fazer o que quiser da sua vida.
— Então é verdade, não é? — tornou ela.
Sua mãe sabe e está lhe dando cobertura.
Como pode, Clementina?
Não tem medo de condenar a alma dele, assim como condenou a sua?
Por pouco, Clementina e Leontina não tiveram outra briga feia.
Percebendo o rumo que a conversa ia tomando, Marcos apanhou a tia pelo braço, levando-a para fora.
— Não faça mais isso, tia — repreendeu ele, pela primeira vez na vida.
Há muito minha mãe não tem uma alegria.
Por que a felicidade a incomoda tanto?
Embora simples, as palavras de Marcos tocaram fundo o coração de Leontina, que olhou para ele sem saber o que dizer.
Nunca havia pensado naquilo, mas o pior era que ele tinha razão.
Ela era uma mulher infeliz.
Toda sombra de felicidade a incomodava, porque era algo que ela nunca fora capaz de conquistar.
— Sinto muito... — foi só o que conseguiu dizer, envergonhada.
De seus olhos, duas lágrimas escorreram.
Ela as enxugou com as costas das mãos, não conseguindo evitar que Marcos as notasse.
— Não quero que chore — falou ele.
Gosto muito da senhora e peço que me perdoe se a magoei.
Mas por que a senhora tem sempre que aparecer e estragar a nossa alegria?
O que foi que aconteceu na sua vida que a tornou tão amarga?
— Não aconteceu nada.
Eu só procuro seguir os ensinamentos da nossa igreja. Só isso.
— Quer saber, tia?
Eu adoro a igreja.
Deus sabe o que teria sido de mim sem a nossa religião.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 02, 2015 10:46 am

Mas começo a pensar se não há nisso tudo um pouco de exagero.
Que mal há em uma mulher usar roupas da moda e em frequentarmos um restaurante de pessoas não evangélicas?
É nisso que está a verdadeira moral?
— A castidade é uma das maiores virtudes evangélicas — objectou ela.
Mas o que vejo é que vocês dois não estão agindo mais de acordo com o que recomendam as Escrituras.
Não adiantava tentar argumentar com a tia, para quem as únicas verdades eram as descritas na Bíblia.
Mas aquelas verdades escritas pelos homens traduziriam fielmente a vontade de Deus?
Ele já não sabia mais e tinha medo de pensar naquelas coisas.
— Vou levá-la para casa.
Está na hora de sairmos, não quero deixá-la aqui sozinha.
Caminharam em silêncio até chegarem à casa dela.
Leontina se despediu com um beijo, não disse mais nada.
Marcos também permaneceu em silêncio, reflectindo sobre o que acontecera.
Em sua casa, a mãe já estava pronta, à sua espera.
— Vamos? — chamou ele.
— Vamos — respondeu ela, suspirando aliviada porque ele não havia desistido.
De braços dados, desceram o morro, a mente dele ocupada com a pequena discussão que haviam tido.
Sentia-se cada vez mais confuso.
A religião o estava sufocando, com suas proibições e recriminações constantes.
Tudo era feio e pecado, mesmo o amor, que só podia se manifestar de acordo com os padrões determinados pela igreja.
Mas como impor limites ao amor, que era um sentimento livre?
Enquanto pensava nessas coisas, passava por grupinhos de pequenos traficantes e viciados que vagabundeavam por ali.
De longe, avistou Jéferson e acenou para ele.
Agora, mal se falavam.
Contudo, não fosse a sua religião, seria como Jéferson, um bom rapaz, mas iludido pelas facilidades do tráfico, enganado pela euforia do vício.
Desceram o morro e tomaram a rua, até que alcançaram a praça.
Raquel estava com o carro parado numa ruazinha de pequeno movimento e saltou quando ele chegou.
Beijou-o de leve nos lábios, causando um certo constrangimento em Clementina, que abaixou os olhos para não ver a cena.
A moça era tão linda e tinha um carro tão chique, que ela pensou que não fosse real.
— Raquel, quero que conheça a minha mãe — falou ele, puxando Clementina pela mão e colocando-a de frente para a namorada.
— Muito prazer, dona Clementina — disse ela, abraçando-a e dando-lhe dois beijinhos na face.
Marcos fala muito da senhora.
Ante a imediata simpatia, as faces de Clementina se distenderam num largo sorriso.
— Ele fala muito em você também — respondeu ela, segurando a mão da menina.
E vejo que tinha razão em falar.
Você é mesmo muito linda.
— Obrigada.
E a senhora também é uma gatona — acrescentou ela, ao que Clementina riu de satisfação.
Está muito bonita nesse conjunto.
— Bom, meninas, podemos ir? — chamou Marcos.
Ele abriu a porta de trás para a mãe entrar e sentou ao lado de Raquel, que ligou o motor e saiu devagar, rumo ao bairro da Urca, onde fica o Pão de Açúcar.
Estavam os três tão envolvidos na alegria do momento que nem perceberam, do outro lado, alguém que os espionava.
Logo um automóvel partiu atrás deles.
Com extrema cautela, Elói seguia Raquel a distância.
Ouvira o comentário de que ela iria conhecer a mãe de Marcos naquele dia, num passeio ao Pão de Açúcar, e não resistiu à tentação de segui-la.
Ela conseguiu uma vaga perto da estação dos bondinhos, mas Elói parou um pouco distante.
Depois que eles saltaram, ele apanhou o celular e ligou para Nelson.
— Eles estão no Pão de Açúcar — anunciou ele, que já os havia perdido de vista.
Não os vejo mais, mas o carro de Raquel está aqui — fez-se um silêncio, até que ele acrescentou:
Não se preocupe. Já sei o que fazer.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 02, 2015 10:46 am

Desligou o telefone e foi para a fila do bondinho.
Na segunda estação10, avistou os três a caminho da loja de souvenirs.
Marcos e Raquel permaneceram do lado de fora, distraindo-se com um gatinho que fazia travessuras em suas pernas.
Elói encontrou Clementina parada em frente a uma prateleira cheia de pequeninos objectos vendidos como recordação.
Ela apanhou uma miniatura do Pão de Açúcar e o examinou, colocando-o de volta no lugar.
Em seguida, pegou uma réplica do bondinho, virou-o de todos os lados e depositou-o na prateleira novamente.
Elói analisou-a.
Para sua surpresa, ela até que estava muito bem-vestida para alguém de sua condição social, mas levava uma bolsa de plástico bem velha e gasta, fechada apenas por um fechinho dourado, sem fecho ecler, de forma que não ficava vedada.
Aquilo lhe deu a ideia.
Aproximou-se, fingindo olhar os pequenos enfeites que ela ia admirando.
Apanhou um abridor de cartas com punho de pedra-sabão e, fingindo que esbarrava nela, deixou escorregar para dentro de sua bolsa o pequeno objecto.
— Desculpe — murmurou ele, afastando-se dela rapidamente.
Com cautela, procurou Marcos e Raquel, que agora se entretinham em alisar o rosto um do outro, como se nada mais houvesse no mundo além deles dois.
A cena encheu-o de raiva.
Seguiu directo até o balcão, onde um homem que parecia o gerente distribuía atenção e sorrisos aos turistas.
— Perdão, senhor, não quero ser dedo-duro, mas aquela senhora ali acabou de jogar um abridor de cartas na bolsa — disse baixinho, apontando para Clementina discretamente.
Pode confiar, eu mesmo vi.
Após dizer isso, Elói se colou a duas moças que iam saindo e passou pela porta sem ser percebido pelo casal de enamorados.
O aturdido gerente, sem saber o que fazer para não chamar a atenção, primeiro estudou Clementina com o olhar, acompanhando-a aonde ia.
Vendo que ela mexia e remexia nos enfeites, sem nada comprar, olhando para os lados a todo instante, concluiu que a atitude dela era muito suspeita.
Não teve dúvidas.
Acercou-se dela e segurou-a pelo braço, ao mesmo tempo em que dizia baixinho, porém em tom autoritário:
— Por favor, senhora, poderia me acompanhar?
Clementina levou um susto.
Olhou para ele sem entender e retrucou abismada:
— Para onde?
Estou aqui com o meu filho.
Ela apontou para Marcos, que se divertia desalinhando os cabelos de Raquel.
— Podemos resolver isso com discrição — continuou ele, ignorando o que ela dissera —, ou posso chamar a polícia, e aí vai ser muito pior para a senhora.
— Polícia? — assustou-se ela.
Por quê? Eu não fiz nada.
O homem, agora bastante irritado, tentou puxar Clementina para o fundo da loja, mas ela se pôs a gritar, chamando pelo filho:
— Marcos Wellington! Meu filho!
Ouvindo seu chamado desesperado, Marcos correu para ela, de mãos dadas com Raquel.
Do lado de fora, Elói acompanhava tudo atentamente, rindo da confusão armada.
— O que foi que houve? — indignou-se Marcos.
O que o senhor está fazendo?
Quer, por favor, soltar a minha mãe?
— Largue-me, moço! — esbracejou Clementina, tentando desgrudar os dedos dele de seu braço.
Como uma pequena multidão juntou-se ao redor, o homem olhou furioso de Clementina para Marcos.
— Sua mãe acabou de furtar uma peça de nosso mostruário — esclareceu ele, falando o mais baixo que podia.
É melhor devolvê-la sem fazer escândalo, e eu não chamarei a polícia.
Do contrário, serei obrigado a pedir ajuda aos seguranças.
— O quê!? — ofendeu-se Marcos.
Deve haver algum engano, moço.
Minha mãe não é ladra.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 02, 2015 10:46 am

— É isso mesmo — concordou Clementina, tomada de profunda indignação.
Nunca roubei nada na minha vida e não vai ser agora que vou começar.
Onde já se viu tamanha calúnia?
O gerente, já arrependido de haver abordado a mulher, tentou localizar o delator, mas Elói havia se postado em um lugar fora de suas vistas, onde poderia observar tudo sem ser notado.
— De onde foi que o senhor tirou essa ideia? — redarguiu Marcos.
Ou é só porque minha mãe é negra que o senhor pensa que ela é ladra?
— Isso dá cadeia, sabia? — acrescentou Raquel.
Racismo é crime, e acusar alguém de roubo indevidamente também é.
O homem começou a se apavorar.
Devia ter pensado duas vezes antes de tomar uma atitude daquelas, ainda mais porque os fregueses começavam a tomar o partido de Clementina.
— Eu... jamais cometeria uma indignidade dessas — defendeu-se o gerente.
Logo se vê que sua mãe é uma senhora muito distinta.
Mas o caso é que alguém viu quando ela colocou o objecto na bolsa...
— Eu?! — tornou Clementina estarrecida.
Que absurdo!
Ou essa pessoa se enganou, ou então é louca.
— Não devia dar ouvidos a delinquentes — zangou-se Marcos.
Minha mãe não roubou nada.
— Lamento, mas foi o que o jovem disse.
Tem razão, perdoe-me, não devia ter acreditado nele.
Mas é que os furtos na loja são muitos, sabe como é...
— Não sei, não.
— Deixe estar, Marcos Wellington — tornou Clementina, aproximando-se do balcão mais próximo.
Vou provar a esse homem e a todos que não roubei nada.
Mais que depressa, Clementina despejou o conteúdo da bolsa sobre o balcão, e o abridor de cartas retiniu no vidro que o encobria.
Ela o apanhou com a mão, mais surpresa do que o gerente da loja, que apontou para o objecto, exclamando com incontida euforia:
— O que me diz agora, rapaz?
Continua afirmando que sua mãe não é ladra?
Marcos olhou para Clementina com genuína surpresa, mas a dúvida não durou mais do que um segundo.
Erguendo os olhos para o gerente, com voz segura e clara, rebateu convicto:
— Continuo. Afirmo quantas vezes forem necessárias.
Minha mãe não roubou isso.
— E não roubei mesmo — acrescentou Clementina, tentando imaginar como aquela faquinha havia ido parar na sua bolsa.
— A senhora pegou emprestado? — ironizou o gerente.
— Alguém colocou isso aí na minha bolsa — afirmou ela, com raiva.
Não fui eu.
— A senhora deve ter muitos inimigos, não é?
Do contrário, por que alguém haveria de querer incriminá-la?
— Olhe, moço, o senhor já tem o seu precioso objecto de volta — intercedeu Raquel.
Agora chega. Vamos embora.
— Tenho o direito de chamar a polícia — prosseguiu ele, dando vazão ao orgulho.
— Mas eu não roubei nada! — objectou Clementina.
— Além de ladra, é mentirosa — desdenhou o homem.
— Não sou mentirosa!
No auge da humilhação, Clementina começou a chorar, transformando em raiva a indignação de Marcos.
Ele ia segurar o homem pela gola da camisa quando Raquel apertou sua mão e falou com firmeza:
— O senhor não tem como provar que dona Clementina furtou esse objecto.
Será a sua palavra contra a dela, e duvido que alguém aqui possa jurar que a viu colocar o abridor na bolsa.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 02, 2015 10:46 am

Alguns dos presentes balançaram a cabeça, em apoio, enquanto ela arrumava os objectos de Clementina de volta dentro da bolsa:
— Por isso, moço, fique com o seu treco e deixe-nos partir.
Ou seremos nós que o processaremos por calúnia.
O gerente estava satisfeito por ter provado que tinha razão e, de quebra, humilhado Clementina.
Com ar de superioridade, falou:
— Muito bem. Dessa vez vou fingir que acredito.
Mas não quero vê-los em minha loja novamente ou chamarei a polícia.
Marcos fuzilou-o com o olhar, e Raquel saiu puxando-o para fora, amparando Clementina com o outro braço.
— Canalha! — esbracejou ele.
Sei que Deus vai me punir por minha ira, mas essa foi demais!
— Eu não roubei nada, Marcos Wellington, eu juro — choramingou Clementina.
Não sei como aquilo foi parar na minha bolsa, não sei.
— Deve ter caído sem querer — presumiu Raquel.
— E ninguém viu.
— É, mas como é que ele soube? — questionou Marcos.
Ele disse que alguém o avisou. Quem?
— Sei lá — respondeu Raquel. — Algum idiota.
Sabe-se lá se não foi mesmo algum marginalzinho que fez isso só para se divertir.
— Não acredito — opôs Marcos.
— Deixe isso para lá, Marcos Wellington — pediu Clementina.
Vamos embora.
— Para casa?
— É.
— Mas, mãe, ainda nem subimos ao Pão de Açúcar mesmo.
— Não faz mal. Perdi a vontade.
— E ainda não almoçamos.
— Não estou com fome.
Quero voltar para casa, que é de onde não devia ter saído.
É isso que dá nos metermos no meio de gente rica.
— O Pão de Açúcar não é lugar de gente rica — objectou Raquel.
Qualquer pessoa pode visitá-lo.
E não devemos deixar que um idiota qualquer estrague o nosso passeio.
Por favor, vamos ficar.
O restaurante daqui é tão bonito!
— Sinto muito se estraguei a diversão de vocês.
Podem ficar. Eu tomo um ónibus e vou para casa.
— De jeito nenhum, dona Clementina.
Se a senhora quer mesmo ir embora, vamos levá-la. Não é, Marcos?
Marcos assentiu e abraçou a mãe.
Não compreendia o porquê daquele acidente, justo com a mãe, que era uma pessoa honesta e trabalhadeira.
Ou será que ela andara se envolvendo com a bebida outra vez?
Ele ficou observando-a para ver se notava algum sinal de álcool, mas ela estava sóbria.
Então, aquele episódio não devia ter sido mais do que um incidente, fruto da ignorância e do preconceito de um gerente snobe.
A frustração que sentia era imensa, mas o que poderia fazer?
Não tinha como obrigar a mãe a ficar ali contra a sua vontade, ainda mais depois de tudo o que acontecera.
Assim, não teve outra alternativa senão apanhar o bondinho e descer.

10 O bondinho do Pão de Açúcar percorre três estações: primeira, Praia Vermelha; segunda, Morro da Urca; terceira, Pão de Açúcar.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 02, 2015 10:47 am

CAPÍTULO 29

Oculto atrás de uma árvore, Elói dava gargalhadas, satisfeito com o rumo que as coisas haviam tomado.
O resultado fora melhor do que o esperado.
Por um momento, ele chegou a pensar que o gerente ia voltar atrás, mas a idiota da mulher acabou confirmando tudo.
Depois que os três sumiram, Elói esperou alguns minutos e voltou para o estacionamento, onde o carro de Raquel já não se encontrava mais.
Esperava que, com aquela confusão, ela percebesse que Marcos não servia para ela.
Ele chegou em casa certo de que encontraria a irmã toda chorosa no quarto, mas não foi isso que aconteceu.
Elói entrou vitorioso e foi procurá-la, contudo, ela ainda não havia voltado.
O celular tocou de forma estridente, e Elói atendeu a chamada de Nelson.
— Cara, você não vai nem imaginar o que eu fiz — gabou-se, narrando em detalhes sua proeza na loja de souvenirs.
Do outro lado da linha, Nelson ria de satisfação.
— Ela está em casa? — indagou.
— Ainda não voltou, mas não deve demorar.
— Será que ela vai terminar com ele?
— Não sei, mas é um começo.
Somando-se vários episódios comprometedores, ela vai acabar se tocando.
— Óptimo.
Elói desligou, imaginando onde Raquel estaria.
Já passara da hora do almoço, ela não retornava.
Será que ainda insistia e fora ao restaurante em que Marcos trabalhava?
Aquele domingo era folga de Marcos, e ele havia programado passar o resto do dia com Raquel, depois de deixar a mãe em casa.
Todavia, tudo dera errado.
Sentada no banco de trás, Clementina chorava de mansinho, enquanto Marcos remoía a decepção e a raiva.
Raquel imaginava o que fazer para mostrar aos dois que não se deixara impressionar por aquele episódio inusitado.
Foi quando a ideia lhe ocorreu.
— Estou morrendo de fome — anunciou, sorrindo para Clementina pelo espelho.
— Também estou — concordou Marcos.
— E a senhora, dona Clementina?
Não está com fome?
— Não — respondeu ela, esforçando-se ao máximo a fim de não parecer mal-educada.
— Por que não vamos a um restaurante lá pela Tijuca mesmo?
Conheço um óptimo...
— Agradeço, minha filha, mas quero ir para casa — falou Clementina.
— O que você vai almoçar, mãe?
Não tem nada pronto.
— Eu me viro.
Sempre tem alguma massa instantânea.
— Por que não almoçamos todos lá então? — sugeriu Raquel.
Faço uma macarronada deliciosa.
— Não — objectou Marcos veementemente.
— Por que não?
— Você não conhece o lugar onde moro, nem gostaria de conhecer.
— Já passei por lá muitas vezes.
— Não é lugar para você, Raquel! — zangou-se ele.
E ponto final.
— Posso saber por que o preconceito com o lugar em que você mora? — rebateu ela, não se dando por vencida.
Atrás, Clementina acompanhava a conversa sem emitir nenhum comentário.
Conhecia a opinião de Marcos a respeito de levar Raquel ao morro e preferia não intervir.
— Não tenho preconceito — contrapôs ele, confuso.
É só que não é lugar para uma moça fina feito você.
Começando por esse carrão.
Já pensou no rebuliço que esse carro vai causar no pessoal lá do morro?
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 02, 2015 10:47 am

— Bom, não havia pensado nisso.
Mas eu posso parar o carro mais abaixo, e podemos seguir a pé. O que me diz?
— Não, Raquel.
— Não entendo você.
Se quer ser meu namorado, por que não podemos conhecer tudo um do outro?
E não adianta vir com essa desculpa de bandido.
Sei que, se eu subir com vocês, que são moradores, ninguém vai me fazer mal.
Além disso, até parece que todo mundo na favela é bandido.
Clementina não aguentou mais.
Pigarreou e, quando os dois voltaram a atenção para ela, interveio com cuidado:
— Raquel tem razão.
Não é justo você chamar todo mundo que mora no morro de bandido.
A maioria das pessoas é trabalhadora feito nós.
— Não foi isso que eu quis dizer, mãe.
Estou apenas tentando preservar Raquel de um ambiente desagradável e pouco amistoso.
— Isso também não é verdade.
As pessoas que conhecemos são muito amistosas, e o ambiente em nossa casa pode não ser de luxo, mas é limpo e arrumado.
— Viu só, Marcos? — exultou Raquel.
Até a sua mãe concorda comigo.
Não concorda, dona Clementina?
Clementina assentiu sem graça, e Marcos ponderou:
— Você está toda arrumada.
Não acha que pode estragar os sapatos subindo o morro?
E se você cair?
— Você me ajuda.
E sapatos, tenho muitos.
Vamos, Marcos, deixe-me conhecer a sua casa e preparar um almoço para nós.
Gostei tanto da sua mãe!
— Deixe-a, Marcos — incentivou Clementina, que, a essa altura, havia abandonado a ideia de não intervir.
— Tirando a sua tia, ninguém nunca vai a nossa casa.
— Vamos, Marcos, não seja estraga-prazeres.
Eu quero ir, e você não pode decidir por mim.
— Está bem então, se é isso o que quer.
Como discutir com duas mulheres?
Vou perder sempre.
O clima de alegria voltou a se instalar entre os três.
Raquel deixou o carro bem abaixo, e seguiram o resto do caminho a pé.
Quando a rua ficou para trás, ela sentiu um frio no estômago, mas foi em frente, iniciando a subida.
Os moradores olharam-na, alguns com curiosidade e outros com cobiça, mas ninguém se atreveu a mexer com ela.
E como a casa de Marcos não ficava muito lá no alto, logo chegaram.
Clementina abriu a porta e as janelas, convidando Raquel a entrar.
Intimidou-se um pouco com a simplicidade do barraco de dois cómodos, com a cozinha conjugada e só um banheirinho, mas a reacção descontraída de Raquel deixou-a mais à vontade.
Numa breve olhada, Raquel avaliou todo o ambiente, sem demonstrar qualquer tipo de reacção adversa.
— A senhora tem macarrão em casa? — Clementina abriu o pequeno armário acima da pia da cozinha e retirou o macarrão.
E molho de tomate, queijo?
— Não tem queijo — anunciou Marcos, com a geladeira aberta.
Vou descer e comprar.
E refrigerante também.
Depois que Marcos saiu, Clementina apanhou as panelas e colocou-as sobre o fogão.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 02, 2015 10:47 am

— Vou ajudá-la — anunciou.
Fizeram molho e puseram água para ferver.
Em poucos minutos, haviam preparado um almoço saboroso, e os três se sentaram para comer.
Clementina adorou a companhia de Raquel, que parecia muito à vontade em sua casa.
Realmente, até a moça estranhara sua reacção.
No princípio, hesitara um pouco na subida, com medo de cair, mas agora estava tudo bem.
A preocupação de Marcos não se justificava.
Desde que ela não se metesse com ninguém, não havia por que implicarem com ela.
Passaram uma tarde agradável, e só no início da noite Raquel se decidiu a partir.
Despediu-se de Clementina, prometendo retornar em breve, seguindo em companhia de Marcos até onde havia deixado o carro.
— Está tudo em ordem — constatou ele, abrindo a porta para ela entrar.
Ela se sentou ao volante e olhou para ele com a felicidade estampada no olhar.
— Obrigada pelo dia maravilhoso que vocês me proporcionaram — disse emocionada.
Há muito tempo não me sentia tão bem.
— Teria sido o dia perfeito, não fosse o ocorrido no Pão de Açúcar.
— Não ligue para isso.
— Você sabe que minha mãe não seria capaz de roubar, não sabe?
— É claro que sei.
Alguém deve ter deixado cair aquele abridor de cartas de propósito ou, então, foi um acidente.
— É... Pena que isso estragou nosso passeio.
Nem chegamos a subir ao segundo morro, ao do Pão de Açúcar mesmo.
— Podemos voltar outro dia.
— Duvido que minha mãe queira ir lá de novo.
Não depois de tudo o que aconteceu.
Por mais que ela fosse inocente, a vergonha foi muito grande.
— Isso passa. Com o tempo ela esquece.
Após o beijo de despedida, Raquel colocou o automóvel em movimento e foi para casa.
Assim que embicou o carro no portão da garagem, teve um pressentimento desagradável.
O carro de Nelson estava estacionado do outro lado da rua.
Contendo a vontade de dar meia-volta, entrou, pensando em ir para o quarto sem ter que falar com ele.
Assim que abriu a porta, foi recebida pelo irmão, que fazia uma cara de exagerada preocupação.
— Onde você esteve?
— Desde quando isso é da sua conta? — retrucou ela secamente.
— Desde que papai e mamãe foram viajar e deixaram você aos meus cuidados.
Ela cumprimentou Nelson com um breve aceno de cabeça, dirigindo ao irmão a resposta irritada:
— Não seja ridículo.
Mamãe e papai nunca o encarregaram de cuidar de mim.
— Não quero me intrometer — disse Nelson —, mas seu irmão tem razão.
Estávamos preocupados com você.
— Desde quando você e Elói se tomaram amigos?
— Desde que eu telefonei para Nelson, preocupado com você — tornou Elói.
— Por que não ligou para mim, em vez de ligar para ele?
— Eu liguei, mas deu fora de área.
— Engraçado — ironizou ela.
Não vi o seu nome no identificador de chamadas.
— Isso não importa, Raquel.
Eu estava super preocupado com você.
— Sei. E resolveu ligar para o Nelson, mesmo sabendo que não estamos mais namorando.
— Não estão?
— Você sabe muito bem que não.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 02, 2015 10:47 am

— Mas ainda somos amigos — intercedeu Nelson.
Não somos, Raquel?
Raquel fuzilava o irmão com os olhos.
Estava mais indignada com ele do que com Nelson, que ainda gostava dela e aceitaria qualquer pretexto para procurá-la.
— Nossa amizade não lhe dá o direito de se aliar a meu irmão para se intrometerem na minha vida — disparou ela.
— Ninguém quer se meter na sua vida — objectou Elói com indignação.
É errado um irmão se preocupar com o bem-estar da irmã?
— Cínico. Você nunca se preocupou comigo nem com ninguém.
Conheço bem as suas intenções.
— Preocupam-me as suas companhias — desdenhou ele.
Desde que você deu para se misturar com gentinha, morro só de pensar no que lhe pode acontecer.
— Pois pode morrer pensando, se quiser.
Pouco me importam as suas preocupações.
Ou as de Nelson.
Raquel passou por eles feito uma bala.
Bateu a porta do quarto, girando a chave na fechadura duas vezes.
Que absurdo!
Estava na cara que Elói só chamara Nelson ali para forçar um reencontro.
Mas ela não permitiria aquele abuso.
Estava apaixonada por Marcos e, ainda que o mundo inteiro fosse contra, não abriria mão de seu amor por nenhum preconceito ou convenção social.
Elói e Nelson ficaram parados na sala, o primeiro rindo intimamente, o segundo, louco para ir atrás de Raquel.
— Não seja precipitado — ponderou Elói.
Raquel é voluntariosa e não gosta de ser contrariada.
Mas as coisas estão tomando o rumo que deveriam.
— Que rumo?
Ela não me pareceu nem um pouco abalada com o episódio desta manhã.
— É porque ela não quer nos dar o gostinho da vitória.
Mas que ficou balançada com o que aconteceu, ficou.
Qualquer um ficaria.
— Será que você não está subestimando sua irmã?
Ela não é nenhuma tola, e talvez nós é que estejamos fazendo esse papel.
— Você tem que confiar em mim.
Sei o que estou fazendo.
— Pois eu acho que António e eu podíamos pegar o cara e dar-lhe uma surra que ele jamais iria esquecer.
Como fizemos com o magrelo do Arnaldo.
— Quanta ignorância!
Você tem que parar de tentar resolver as coisas na pancadaria.
Tudo bem que pode não dar em nada, mas é um aborrecimento danado.
Sem contar que Raquel jamais iria perdoá-lo.
Nelson aproximou-se da porta fechada do quarto de Raquel, pensando se deveria ou não bater.
Desistiu, com medo da reacção da moça, que, provavelmente, o mandaria embora com palavras rudes.
— Está bem — ele se virou para Elói, tomando o rumo da saída.
Mas não vou esperar eternamente.
Se os seus métodos não funcionarem, não hesitarei em aplicar os meus.
E ninguém vai ficar sabendo, até porque não pretendo matar o idiota, apenas dar-lhe um susto e uma lição.
Foi embora, deixando Elói pensativo.
Não tinha pena do destino de Marcos.
Na verdade, nem se importava se ele estivesse vivo ou morto.
Não tinha nada contra negros ou pobres, desde que não se metessem com sua família.
Agora precisava encontrar um meio de fazer com que Marcos se colocasse em seu devido lugar.
Tudo sem que a irmã ou os pais descobrissem.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 02, 2015 10:47 am

CAPÍTULO 30

Depois de entrar em algumas vias, sem sucesso, Afrânio subiu a Rua General Roca, a mesma em que Margarete havia deixado o filho, dentro de um latão de lixo, e onde encontrara a morte sob as rodas de um carro.
O espírito dela o seguia, acompanhado de Félix, intuindo-o a tomar a direcção certa.
— Foi aqui que deixei meu bebé — disse ela ao ouvido dele, quando passaram em frente ao local exacto.
A lata de lixo não está mais aqui, e o muro também não é mais o mesmo, mas tenho certeza de que foi aqui.
O boteco fica mais para baixo, do outro lado.
Instintivamente, Afrânio olhou na direcção em que ela apontava e avistou o bar.
Passados alguns segundos, impulsionado por Félix, dirigiu-se para lá.
"Se Margarete gostava tanto de uma bebidinha", pensou ele, "o melhor lugar para saber dela ainda é o botequim."
Ele entrou e cumprimentou o rapaz atrás do balcão, que indagou gentilmente:
— O que vai querer?
— Um refrigerante — pediu ele, para ganhar a simpatia do balconista, já que não bebia em serviço.
O moço serviu-lhe a bebida, que Afrânio bebeu aos pouquinhos.
Estalou a língua e esperou até que ele voltasse de outro atendimento, quando então o chamou:
— Será que você podia me ajudar?
O rapaz voltou e respondeu solícito:
— Pois não?
— Acho que você não está aqui há tempo suficiente para saber, mas não custa tentar — ele sacou a fotografia do bolso e apresentou-a ao balconista.
Conhece esta moça?
O homem apanhou a foto, olhou-a e balançou a cabeça:
— Nunca a vi em toda a minha vida.
Mas também a foto é muito ruim.
— Foi tirada há mais de vinte anos.
— Ih, moço! Então não posso saber mesmo.
Tenho vinte e três!
— Foi o que imaginei.
Quem é o dono deste lugar?
— Meu pai. Mas ele não está.
— Era ele o dono nessa época?
— Era sim.
Se quiser falar com ele, volte mais tarde.
Papai só chega depois do almoço.
— Tudo bem.
Vou dar uma volta por aí e mais tarde volto para falar com ele.
Afrânio pagou o refrigerante e saiu para a rua, caminhando a esmo, em direcção à subida do Salgueiro, mas não entrou.
Ficou parado, imaginando se Margarete teria se refugiado ali.
Depois, rodou nos calcanhares e tornou a descer a rua.
Como ainda era cedo, resolveu prosseguir com suas pesquisas nos outros bares das redondezas, onde obteve as mesmas respostas negativas.
Desanimado, pensou em procurá-la em outro lugar, e Margarete teria perfurado seus ouvidos se ele fosse dotado de mediunidade auditiva.
— De jeito nenhum!
Você está no caminho certo!
Tem que voltar ao primeiro bar.
Foi ali em frente que tudo aconteceu, que eu morri!
Volte lá, seu estúpido, volte lá!
A energia de desespero de Margarete não se casava com a serenidade de Afrânio, que nunca se irritava.
Foi preciso que Félix a acalmasse e se aproximasse do detective, que não chegara a se aperceber da aflição dela.
Félix passou a mão rapidamente pela testa dele e soprou ao seu ouvido:
— Volte ao primeiro bar para falar com o dono.
É ali que encontrará a resposta.
"Eu podia voltar ao bar onde estive primeiro", pensou Afrânio, sem saber que respondia à sugestão do invisível.
"Mas será que vale a pena?"
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 02, 2015 10:48 am

— É claro que vale!
A verdade está prestes a se revelar; quem a conhece está lá neste momento.
E você, como bom detective que é, não deve perder nenhuma pista.
"Na verdade, todas as pistas podem ser importantes, e eu não deveria deixar passar nenhuma.
É, vou até lá.
É só o que me falta investigar", decidiu Afrânio.
Félix e Margarete se entreolharam exultantes.
Afrânio voltou ao bar na rua General Roca, onde encontrou o pai do rapaz, um português de seus sessenta anos, que o cumprimentou com um aceno de cabeça.
— É ele! — exclamou Margarete, toda animada, mas Félix a conteve.
— Quieta. Não precisamos fazer mais nada.
Vamos ouvir.
— Deseja alguma coisa? — indagou o português, passando o pano sobre o balcão, onde Afrânio encostava o cotovelo.
Estava com fome e não custava nada comer enquanto investigava.
— Servem almoço aqui?
— É claro. O melhor PF11 da região.
Completo? — Afrânio assentiu, e o português apontou uma mesa.
Pois pode se sentar que logo logo sai.
Afrânio sentou-se e ficou olhando o movimento dos fregueses, na maioria trabalhadores que vinham ali em busca de um almoço barato.
A refeição chegou rapidamente; Afrânio inspirou o seu aroma, satisfeito com a aparência da comida caseira.
— O senhor não é daqui, é? — perguntou o português, que nunca o havia visto por ali antes.
— Não. Estou aqui de passagem.
Na verdade, estou à procura de uma certa pessoa.
— Ah! Foi o senhor que esteve aqui mais cedo e falou com o meu filho? — Afrânio assentiu.
Onde está a fotografia da moça?
Se ela frequenta ou frequentou o meu bar, vou saber.
Tenho memória de elefante.
Afrânio sorriu esperançoso e ofereceu a foto ao português, que a olhou com atenção.
Durante alguns segundos, não esboçou qualquer reacção.
Aos poucos, porém, apertou as sobrancelhas, como se a memória evocasse a dúvida de alguma lembrança.
Logo seu semblante empalideceu.
Sem ser convidado, sentou-se à mesa, ao lado do detective.
— O senhor a conhece? — indagou Afrânio, que havia notado o embaraço do português.
— Ela se parece muito com uma rapariga que esteve aqui faz alguns anos.
Não tenho certeza se é a mesma, mas que parece, parece.
— É a mesma — soprou Félix mansamente, trazendo à memória do português os acontecimentos daquele dia.
— Pode me contar algo sobre ela?
Sabe onde está?
O homem encarou Afrânio com um olhar de sofrimento.
De olhos baixos, falou em tom quase inaudível:
— Ela está morta.
Morreu na noite em que entrou aqui.
— Morta?
— Veja bem, não sei se é a mesma mulher.
— Sou eu — afirmou Margarete, lutando para não se descontrolar.
Por favor, apenas conte a ele o que se lembra.
Seguindo a sugestão do invisível, o português iniciou a narrativa:
— Sabe, moço, nunca me arrependi tanto de algo como naquele dia.
Por isso o episódio ficou marcado.
— O que foi que houve? — interessou-se Afrânio.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 02, 2015 10:48 am

— Ela entrou aqui bêbada.
Servi-lhe mais bebida, até que o dinheiro dela acabou, e ela tentou me seduzir para que eu a servisse de graça.
Como sou um homem casado e de respeito, dei-lhe o devido tratamento ou, pelo menos, o que achei que era certo na época.
A rapariga se assustou e saiu desabalada para a rua.
Estava bêbada e não prestou atenção ao automóvel.
O chão estava molhado de chuva, não sei se ela escorregou, mas o facto é que o carro a pegou em cheio.
Não deu nem tempo de ser socorrida.
Quando a ambulância chegou, ela já estava morta.
— Sabe o nome dela?
— Nem imagino.
Ninguém sabia.
— E a criança?
— Que criança?
Não havia criança nenhuma.
— Ela não trazia um bebé?
— Não, senhor.
Disso tenho certeza.
Ela entrou sozinha.
Talvez não fosse a mesma mulher, afinal.
A fotografia não era nítida, o homem podia ter confundido Margarete com qualquer outra.
Quem poderia se lembrar com exactidão de rostos desaparecidos havia mais de vinte anos?
— Olhe, Afrânio, a mulher de quem ele fala sou eu — esclareceu Margarete, com o máximo de calma que conseguiu.
Você tem que acreditar nisso.
E o menino que você procura está naquele morro ali.
Afrânio não percebeu a sugestão e não captou a alusão ao morro.
Pensava na mulher atropelada, tentando imaginar se havia alguma chance de ser a mesma Margarete.
— O senhor se lembra do dia em que isso aconteceu?
— Ah! Isso não lembro, não.
Foi há muito tempo.
Só sei que estava chovendo e fazia frio.
Era inverno, e talvez fosse domingo.
As informações batiam com as que Graciliano havia lhe dado.
Margarete desaparecera num domingo nebuloso do mês de agosto.
Havia ainda uma chance de ser ela, mas o que havia sido feito da criança?
Não era impossível que ela se houvesse desfeito dela, de alguma forma, entregando-a a alguém, ou abandonando-a, ou mesmo matando-a.
— Eu o abandonei na lata de lixo — falou Margarete, quase em lágrimas.
Bem ali.
Afrânio não olhou.
Terminou de comer, pagou a conta e foi embora.
No dia seguinte, iniciou uma peregrinação pelos periódicos cariocas e na Biblioteca Nacional.
Conseguiu o que queria num jornal de pequena circulação.
A notícia, datada de 15 de agosto de 1987, exibia a fotografia de um carro amassado e, mais adiante, o corpo encoberto de uma mulher, atropelada na Tijuca quando atravessara a rua correndo, completamente alcoolizada.
E agora? De que adiantava aquilo?
Mal dava para ver o rosto da defunta.
Como conferir se era mesmo Margarete?
— Sou eu — Margarete quase suplicou.
Por que ele não consegue me ouvir?
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 02, 2015 10:48 am

Félix, a quem havia sido endereçada a pergunta, tomou-a pela mão e procurou elucidar:
— Ele precisa ser médium e ter a mediunidade adequada, ou seja, ser médium auditivo, que é a capacidade de ouvir os espíritos.
Médiuns, todas as pessoas são, em maior ou menor escala.
É por isso que Afrânio consegue captar a maioria de nossas sugestões, porque é muito intuitivo.
Não fosse por nós, ele hoje não estaria aqui.
— Mas ele não as capta sempre.
Como agora. Por quê?
— É preciso que estejamos todos na mesma vibração.
Afrânio é uma pessoa tranquila, não se irrita, desempenha a sua função com imparcialidade, sem euforias ou entusiasmos excessivos.
É equilibrado, qualidade que alcançou ao longo dos muitos anos de experiência como investigador particular.
Como sua função é localizar pessoas, não costuma se envolver com os motivos que levam os clientes a procurá-lo, ou seja, não julga ninguém.
Pelo que já aprendeu com a vida, sabe que cada um tem os seus motivos, e todos são justos.
Por isso, não estabelece nenhuma escala de valor e procura apenas fazer o seu trabalho com honestidade e eficiência.
Daí a falta de sintonia com você, nos momentos em que fica muito agitada.
A mediunidade dele, puramente intuitiva, é bloqueada pela sua vibração de desespero.
Margarete olhou de um para outro, terminando em Félix.
— O que posso fazer?
— Por que não experimenta orar?
Ela assentiu e deu a mão a Félix.
Juntos se ajoelharam ao redor de Afrânio e buscaram se conectar com a energia divina, fazendo, cada qual, a sua prece íntima.
Logo um chuvisco de luz inundou o ambiente, energizante os corpos subtis e o físico de Afrânio.
Ele sentiu uma sonolência gostosa e se espreguiçou.
Suspirou algumas vezes, sorvendo aquele ar de luminosidade, e teve novas ideias.
"Não vou desistir", disse mentalmente.
"Algo me diz que essa moça aí, morta debaixo do lençol, é Margarete."
— Isso mesmo — incentivou o espírito da mulher, agora equilibrada pela oração.
O passo seguinte na investigação foi o IML12.
Lá, Afrânio conseguiu consultar os registos de todas as mulheres enterradas como indigente.
Não foi difícil. Pela data do óbito, descobriu as possibilidades e, comparando fotografias, chegou até Margarete.
Colocou a foto que possuía lado a lado com aquelas tiradas pelo legista, mostrando-as ao funcionário do IML, que concordou enfaticamente.
Era ela, sem dúvida.
Pelo tempo, os restos mortais já deviam estar no ossário comum, tornando quase impossível sua recuperação.
Embora não fosse essa exactamente a conclusão que esperava de sua busca, era o primeiro resultado positivo que Afrânio alcançava.
Margarete estava morta, mas ainda lhe restavam esperanças de encontrar a criança, já que nenhum bebé fora enterrado como indigente naquele mesmo dia.
O coração de Afrânio insistia na hipótese de que Margarete havia abandonado o filho em algum lugar, e descobrir onde seria uma tarefa deveras difícil.
Entre a hora em que ela descera do ónibus e a hora em que entrara no bar não devia ter decorrido muito tempo, de forma que ela não poderia ter levado a criança a nenhum orfanato da região.
Se era assim, só podia tê-la abandonado em algum lugar, talvez na porta de uma casa ou mesmo no banco da praça.
— Na lata de lixo — disse Félix.
"Quem sabe numa lata de lixo?" - pensou Afrânio, para surpresa e euforia de Margarete.
"Não seria a primeira vez."
Afrânio retomou suas pesquisas, mas não havia nenhuma notícia de que um bebé fora encontrado em qualquer lugar naquela região.
Mesmo que houvesse sido levado ao Juizado de Menores, o jornal teria comunicado o facto.
E se estivesse morto?
Também seria notícia.
Não, decididamente, aquele bebé ainda se encontrava pelas redondezas da Praça Saens Pena, onde concentraria suas investigações.
— O menino está no Salgueiro — sussurrou Félix.
"Agora vejamos", Afrânio continuou com suas reflexões.
"Quem recolheria um bebé negro, provavelmente magro e até doente?
Uma família de posses, talvez, e, nesse caso, deve haver algum pedido de adopção no Juizado de Menores.
É, vou ter que ir até lá."
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 02, 2015 10:48 am

— Não! — gritou Margarete de repente.
Você vai se distanciar da solução.
Não vá, Afrânio, não vá!
Vai perder o seu tempo.
— Não adianta gritar, que ele não vai ouvi-la — alertou Félix.
Não temos como impedir que ele vá ao Juizado de Menores.
Resta-nos apenas acompanhá-lo e soprar as respostas certas.
Uma hora, ele acaba captando nossas ideias.
Seguir o rastro de uma criança desaparecida não é nada fácil.
Os dados são sigilosos, inacessíveis ao público.
Afrânio encontrou muita dificuldade no Juizado de Menores, pois ninguém estava autorizado a revelar nenhum detalhe sobre abandono e adopção, ainda mais numa época em que nada era informatizado.
O que ele conseguiu, após muito esforço de Félix junto a uma senhora mais complacente, foi a informação de que nenhuma criança com a descrição da que ele procurava fora recolhida naquela época.

11 PF — prato feito.
12 IML — Instituto Médico Legal.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

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