Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 06, 2015 12:43 pm

— Não acha que está exagerando? — revidou Raquel, um pouco irritada.
Você está com mania de perseguição.
Como é que alguém doente vai ter cabeça para imaginar uma coisa sórdida dessas?
— Acho que, nem se estivesse são, Nelson teria inteligência suficiente para idealizar qualquer plano — considerou Paulo.
Ele resolve tudo no braço.
— Pode não ter sido o Nelson — ponderou Arnaldo.
— Mas que tudo isso é estranho, é.
De onde surgiram tantas garotas, de repente, acusando Marcos da mesma coisa?
É coincidência?
— Não acredito em coincidências — observou Raquel.
— Espero que também não acredite que eu fiz o que elas disseram que fiz.
— Não acredito.
Havia uma certa desconfiança no tom de voz de Raquel que nem ela queria aceitar.
Por mais que não desejasse, as dúvidas a assaltaram.
Afinal, o que ela sabia de Marcos?
Começara a namorá-lo no semestre anterior, não havia nem um ano.
Não conhecia seu passado, nem sua família, nem seus amigos do morro.
Conhecera a mãe, que parecia uma boa pessoa, mas as aparências enganam.
E depois, ele morava na favela...
Raquel balançou a cabeça rapidamente, afugentando os pensamentos para que eles não enveredassem pela senda do preconceito.
Não era porque morava na favela que Marcos não prestava.
Ela sempre fora a primeira a defender esse ponto de vista.
No entanto, reconhecia que as facilidades para o crime eram muitas no morro, onde o contacto com traficantes era quase diário.
Marcos mesmo lhe dissera que, na infância, fora solicitado várias vezes para levar drogas.
O pai os abandonara e agora retornara.
A mãe se tornara alcoólatra, a tia era fanática.
Clementina fora acusada de furtar uma loja.
E agora isso...
De alguma forma, Marcos percebeu as dúvidas dela, porque a puxou com força e a abraçou com um quase desespero.
— Lembre-se do que Nelson fez a Arnaldo — sussurrou ao ouvido dela.
Uma pessoa assim é capaz de qualquer coisa para conseguir o que quer.
Raquel não duvidava.
Nelson era capaz de tudo para alcançar seus objectivos, tudo que dependesse da força.
Explosivo e impetuoso, não fazia o tipo que usa a inteligência para conseguir o que quer.
Com ele, tudo se resolvia nos punhos, como fizera com Arnaldo.
Esse era o estilo de Nelson, não era de seu feitio arquitectar planos para destruir o inimigo.
Por outro lado, pensar que Marcos fosse alguém capaz de molestar as freguesas do restaurante em que trabalhava era algo praticamente inadmissível.
Ele era um rapaz dócil e religioso, não um pervertido sexual.
Era virgem até conhecê-la.
Então, como acreditar que ele mexia com as moças de forma tão vulgar e revoltante?
Tudo isso eram ponderações importantes, mas o mais importante de tudo era que Raquel, realmente, não o conhecia.
Assim que desligou o telefone, a criada olhou para Nelson, que a fitava com seriedade.
— Tem certeza de que era ela? — indagou ele com arrogância.
— Absoluta.
Conheço a voz da Raquel, de tanto que ela ligava para cá quando vocês namoravam.
Agora posso saber por que me fez inventar essa mentira?
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 06, 2015 12:43 pm

— É uma brincadeira, só isso.
Quero saber o quanto ela se importa comigo.
— Deu sorte de ela não ter perguntado em que hospital você está.
— Nesse caso, era só dizer que não sabe.
— É. Quero ver se ela procurar o seu pai.
— Ela não vai fazer isso.
É claro que não faria.
Estava namorando aquele idiota, que não permitiria que ela fosse ao hospital visitá-lo.
E depois, era difícil encontrar o seu pai, um homem muito ocupado que não parava em casa.
Elói fora esperto ao prever que Raquel desconfiaria de seu envolvimento naquelas calúnias.
Fora muita sorte ter ficado resfriado e faltado à faculdade naqueles dias. Isso serviu para dar maior credibilidade ao acontecido.
Ele ligou para Elói, que atendeu rapidamente.
— Fale logo.
Estou na faculdade.
— Você tinha razão.
Raquel acabou de ligar para cá, perguntando por mim.
— E você atendeu?
— É claro que não.
Marilda disse que eu estava no hospital, e ela acreditou.
— Que idiota a minha irmãzinha!
Aposto que está com a pulga atrás da orelha.
— E quem não estaria?
— Amanhã vai ser o golpe fatal.
Já está tudo combinado com Anete.
— Óptimo. Mal posso esperar.
Desligaram. Nelson ria de contentamento.
Elói era inteligente, bem mais do que ele, que terminaria com o namoro daqueles dois simplesmente dando uns murros em Marcos.
Agora, porém, via uma perspectiva de reconciliação.
Quando Raquel estivesse arrasada ao descobrir as mentiras de Marcos, quem, senão ele, estaria a seu lado para consolá-la?
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 06, 2015 12:43 pm

CAPÍTULO 42

De posse do resultado do teste de DNA, Afrânio tocou a campainha da casa dos Silva e Souza.
Introduzido pela empregada, pôs-se a esperar na saleta que servia de escritório a Graciliano.
Em poucos segundos, o casal apareceu.
Cumprimentaram-se cordialmente, e Afrânio sentou-se na poltrona, tendo os dois defronte a ele, fitando-o com incrível ansiedade.
— E então?—adiantou-se Graciliano.
Saiu o resultado?
Afrânio balançou a cabeça e estendeu-lhe o envelope branco com o logotipo azul do laboratório.
A melhor parte, para o cliente, era o resultado positivo da investigação, a dissolução de suas angústias, muitas vezes, só pelo facto de conhecer a verdade.
No caso de Graciliano e Bernadete, a verdade vinha acompanhada da realização de seus anseios.
Graciliano abriu o envelope com pressa e retirou a folha que exibia o laudo, dividindo-a com a mulher.
Percorreram os olhos pelo papel, ignorando os termos técnicos, até encontrarem o principal: positivo.
Marido e mulher se olharam com euforia, tentando controlar a excitação e o desejo louco de irem correndo contar tudo ao rapaz.
— O senhor trabalhou muito bem, seu Afrânio — elogiou Graciliano.
Quando poderemos ver o menino?
— É sobre isso que temos que conversar.
Assegurei à mãe e à tia que o senhor não pretendia separá-los.
— Por certo que não — interrompeu Bernadete.
Tudo o que aconteceu foi por nossa causa e assumimos nossa culpa.
— Não podemos destruir a vida das pessoas que criaram bem o nosso neto — afirmou Graciliano.
Ele podia ter sido um marginal, mas a mãe e a tia conseguiram mantê-lo no caminho do bem.
Só temos a agradecer-lhes.
— Queremos apenas conhecê-lo — suplicou Bernadete.
— E logo.
— Acho que, primeiro, a mãe deve contar a ele a verdade — sugeriu Afrânio.
Foi um pedido dela.
Depois, posso trazê-lo aqui.
— Sim, acho que essa seria a melhor maneira — concordou Graciliano.
Não queremos que ele se volte contra a mulher que o criou.
— Perfeito. Então, se me permitem, gostaria de mostrar a ela o resultado do exame.
— É claro.
Graciliano devolveu-lhe o envelope, que Afrânio guardou na pasta.
— Vou procurá-la hoje mesmo e depois entrarei em contacto para marcarmos o encontro.
— Perfeitamente.
Depois que o detective se foi, Bernadete e Graciliano se abraçaram, esperançosos.
Tinham as fotografias que Afrânio tirara do rapaz, para as quais olhavam embevecidos.
— Nosso neto é um rapaz muito bonito — elogiou Bernadete.
— Sim, é. E em breve ocupará o lugar que é seu, por direito, em nossa família.
Da janela, viram Afrânio entrar em seu carro.
Ele também estava animado, satisfeito com seu trabalho.
Ao chegar perto do morro, parou o carro e telefonou para Clementina, que já havia saído para trabalhar.
O assunto era deveras delicado para ser tratado ao telefone.
Por isso, combinou de encontrá-la no fim do dia, embora Clementina soubesse que não conseguiria trabalhar direito.
Marcos também já havia saído para a faculdade, atormentado pelo desemprego e as calúnias inventadas a seu respeito.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 06, 2015 12:44 pm

Procurou não chegar muito cedo, para não ter que se submeter a olhares maldosos.
Pouco depois, Arnaldo chegou ao hall dos elevadores.
O horário era de muito movimento, e enquanto aguardava que uma das portas se abrisse, foi surpreendido com uma conversa entre duas meninas, paradas um pouco mais atrás.
— Você não sabia?
— Não.
— Deve ser a única.
O cara teve o desplante de passar a mão em mim na frente de todo mundo!
Foi uma vergonha, dentro do restaurante...
— Que coisa!
E você não reclamou?
— É lógico!
E, quando descobri que ele estuda aqui, contei para todo mundo, que é para saberem com quem estão lidando.
Aquele tarado...
Deve fazer isso com todas as garotas.
Os ouvidos de Arnaldo se aguçaram.
Estariam elas falando de Marcos?
Elas desceram, com ele atrás.
Sentaram-se num dos bancos do hall, enquanto ele, fingindo que lia um livro, sentou-se em outro, próximo.
O sinal anunciou o início das aulas, mas elas permaneceram sentadas.
Ele também não saiu do lugar, disposto a ouvir mais.
Aquilo era propositado e ele nem percebia.
As meninas, garotas de programa contratadas por Elói, esperaram que ele chegasse para se postar atrás dele e iniciar aquela conversa.
— Como é mesmo o nome dele, hein? — prosseguiu uma das moças.
— Marcos Wallace, Wellington, sei lá...
Alguma coisa ridícula assim.
Arnaldo entendeu como a fofoca havia começado.
Fora aquela garota que fizera o comentário e não foi preciso muito para o mexerico se espalhar.
Ninguém se preocupou em conferir a história nem em lhe apontar as falhas.
Infelizmente, a maledicência ainda é muito atractiva para o ser humano, que recrimina seus próprios defeitos apontando-os no outro.
E Arnaldo, pensando que poderia defender o amigo, sem saber, servia de instrumento aos planos de Elói e Nelson.
Ao ouvir o nome de Marcos, Arnaldo correu para a sala de aula.
Após alguns minutos, as moças se levantaram rindo, tomando o elevador de volta ao térreo, sumindo pelo portão da frente.
Nunca antes, em toda a sua vida, haviam pisado numa universidade.
O trabalho fora bem pago por um amigo de Paloma, que lhes mandara encenar aquele teatro primeiro no restaurante, depois ali.
Como a aula já havia começado, Arnaldo parou na porta, fazendo sinais para que Marcos saísse.
Já que aquele não era um comportamento usual de Arnaldo, Marcos logo percebeu que havia alguma coisa errada, assim como Raquel, que o acompanhou até o corredor.
— O que foi que houve? — perguntou Marcos.
— Descobri quem foi que espalhou aquela história.
— Quem? — ele e Raquel perguntaram ao mesmo tempo.
— Uma menina do primeiro ano.
— Quem é?
— Não sei, não a conheço.
Mas a ouvi contando tudo para uma amiga e escutei quando ela disse o seu nome.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 06, 2015 12:44 pm

— Ela disse o meu nome? — repetiu ele incrédulo.
— Mas eu não conheço ninguém fora desta sala!
— É, mas parece que ela conhece você.
Contou que você passou a mão nela, chamou-o de tarado.
— Não é possível. Arnaldo, você não acreditou, acreditou?
Arnaldo balançou a cabeça, sem saber o que dizer a princípio, até que respondeu:
— Não. Mas que é estranho, isso é.
Como é que uma garota que nunca viu você, de repente vai inventar tudo isso?
E as outras?
— Isso é uma conspiração.
Essas garotas só podem estar em conluio com Nelson para acabar comigo.
Só não vê quem não quer.
— Lá vem você com essa história — replicou Raquel.
É difícil acreditar que ele conseguiria convencer tantas mulheres a mentir.
— Conseguiu — afirmou Marcos, categórico.
Não sei como, mas foi o que ele fez.
Vou procurar essa garota.
Ela vai ter que afirmar tudinho na minha cara. Quero só ver.
Você vai me dizer quem é.
Embora contrariados, Arnaldo e Raquel seguiram Marcos até a sala do primeiro ano, mas não a encontraram.
Procuraram nas outras salas, no hall, na cantina. Nada.
Arnaldo não as via em lugar nenhum.
— Ela não está aqui, não é mesmo? — afirmou Marcos em tom de desafio.
— Não sei — respondeu Arnaldo, confuso.
Na verdade, não deu muito para reparar na cara dela.
Pode ter sido qualquer uma.
— Mas que droga! — esbracejou Marcos, na mesma hora se arrependendo.
Meu Deus, Arnaldo, essa história está me tirando do sério e me obrigando a fazer coisas que normalmente não faria.
Nunca fui de praguejar.
— Tenha calma, meu amigo.
Você está nervoso, o que é compreensível.
Em silêncio, Raquel limitava-se a acompanhá-los pelas salas e corredores, sem saber ao certo o que pensar.
Realmente, tudo aquilo era muito estranho, principalmente a obstinação de Marcos.
Se fosse realmente culpado das acusações que lhe faziam, estaria tão disposto a confrontar suas acusadoras?
Não seria mais prudente silenciar e deixar a poeira assentar?
— Não posso ter calma — contestou ele, com raiva.
Alguém está tentando destruir a minha reputação e parece que está conseguindo.
Ele olhou para Raquel com ar significativo, e ela apertou a mão dele.
Tinha que lhe dar crédito.
— Estou do seu lado, Marcos — disse por fim.
Não acredito em nada disso.
— Estão me acusando de coisas terríveis, que eu jamais seria capaz de fazer.
Sou uma pessoa temente a Deus e nunca cederia à tentação de Satanás.
Mas é isso que essas pessoas estão fazendo.
— Sei disso — tranquilizou Raquel.
Vamos embora.
Não vale a pena ficar alimentando essa fofoca.
Deixe para lá, que ela acaba morrendo.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 06, 2015 12:44 pm

— Foi por causa dessa fofoca que eu perdi meu emprego.
E sabe-se lá o que mais vou perder.
As palavras foram directas para Raquel, que o abraçou com ternura.
— Você não vai me perder — sustentou ela.
Não por causa de uma fofoca infundada.
— É isso mesmo, Marcos — concordou Arnaldo.
Ninguém está acreditando.
Por mais que não acreditassem, sempre ficava a sombra da dúvida.
No entanto, não havia como provar sua inocência, já que Marcos não conseguia se defrontar com nenhuma de suas acusadoras.
Os três retornaram para a sala, enquanto as moças recebiam de Elói o pagamento que ele lhes prometera.
— Não se esqueçam — advertiu ele.
Nem uma palavra a ninguém.
Nem ao namorado.
— Pode deixar.
E, se precisar de nós para algum outro serviço, é só nos chamar.
Foram-se rindo, e Elói telefonou ao falso doente.
Nelson recebeu a notícia com a euforia de sempre.
Tinha certeza de que o romance de Raquel e Marcos se aproximava do fim.
Assim que Marcos saiu da faculdade, foi ver alguns empregos que havia marcado no jornal.
Finalmente, conseguiu um lugar num barzinho em Vila Isabel.
O horário era puxado: das quatro da tarde em diante, sem hora para encerrar.
O dono lhe havia informado que, nos dias de semana, o movimento não costumava passar das onze horas, prolongando-se pela madrugada às sextas e aos sábados.
Não era o ideal, mas era o que fechava mais cedo em dias de aula.
Começaria no próximo sábado.
Chegou em casa animado, louco para contar a novidade à mãe, porém, ela ainda não havia retornado do trabalho.
Ligou a televisão para esperar e acabou pegando no sono.
Quando acordou, a noite já ia alta.
Assustou-se com a silhueta de Clementina, sentada na penumbra, em frente dele.
— Mãe! — exclamou.
O que está fazendo aí no escuro?
— Nada — falou sem expressão, como se em seu peito não houvesse um vulcão prestes a explodir.
— Consegui um emprego! — adiantou-se ele, acendendo a luz.
Num bar em Vila Isabel.
Vou começar no sábado.
— Que bom!
— Não está feliz?
— Muito.
— Então, por que essa cara de desânimo?
Aconteceu alguma coisa?
Como dizer a ele que o pior havia acontecido?
Como contar-lhe o recente encontro com o detective que descobrira toda a verdade e estava a um passo de destruir suas vidas?
Clementina fitou-o com assustadora amargura, alisou o seu rosto, desatou a chorar.
— Mãe, o que é isso? — questionou ele assustado.
O que você tem?
Diga-me, pelo amor de Deus.
— Ah! Marcos Wellington!
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 06, 2015 12:44 pm

Ela escondeu o rosto no peito dele e deu livre curso ao pranto, que afogava as palavras em soluços doloridos.
— Você anda muito estranha — prosseguiu ele, tentando adivinhar o motivo de tanta angústia.
Alguém lhe fez alguma coisa? Foi o meu pai?
Quando ela ergueu os braços para abraçá-lo, o envelope branco escorregou para o chão.
Em seu desespero, acabara esquecendo-se do laudo que Afrânio lhe entregara.
Pusera-o debaixo do braço e congelara com ele ali, oculto dos olhos ávidos do filho.
Como, porém, a emoção do momento era muito grande, num ímpeto ela quis abraçá-lo, liberando o envelope para a descoberta.
— O que é isso? — questionou ele, apanhando-o do chão e lendo o nome do laboratório.
Mãe, você disse que não estava doente!
Clementina não conseguiu suportar.
Com a certeza do inevitável, sentiu os olhos escurecerem.
Os joelhos procuraram o chão, amolecendo instantaneamente, levando-a a desabar com um baque surdo e abafado.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 06, 2015 12:44 pm

CAPÍTULO 43

Leontina descia o morro com passos lentos e cansados.
Estava envelhecendo, seu corpo já não tinha mais o vigor de antes.
O corpo... Nunca pensara que, depois de tantos anos, iria satisfazer o desejo pelo qual o corpo ansiava tão desesperadamente.
O corpo de Romualdo...
Mas Romualdo estava doente, e ela se via obrigada a sair àquela hora para comprar-lhe remédios.
Pensava na subida, na exaustão a que o caminho de volta a levaria.
Não tinha mais idade para subir e descer o morro a todo instante.
Aquilo era coisa para gente moça.
Ao passar pela porta da casa da irmã, as luzes acesas lhe deram a ideia.
Marcos Wellington era jovem, podia ir à farmácia e voltar muito mais rápido do que ela, sem se cansar.
Afinal de contas, o pai era dele.
Mal sabia ela que o espírito de Félix a acompanhava na descida, fazendo essa sugestão desde que saíra de casa.
Encontrou a porta trancada e bateu.
— Quem é? — perguntou Marcos lá de dentro.
— Sou eu, querido.
Reconhecendo a voz da tia, Marcos abriu a porta.
Leontina surpreendeu-se ao ver a irmã deitada na cama, desfalecida.
Sobre a mesa, o envelope jazia esquecido.
Temeu pelo pior.
— O que foi que houve? — perguntou ela, desconfiada.
— Minha mãe desmaiou.
Ia borrifar um pouco de água em seu rosto para ver se ela acorda.
Mas foi bom a senhora ter aparecido.
Sabe se minha mãe está doente?
— Doente? — repetiu ela cautelosa.
Por que pergunta?
— Ela deixou cair isto — anunciou ele, apanhando o envelope.
É de um laboratório.
— É dela? — horrorizou-se Leontina, imaginando do que se tratava.
Foi então que Marcos olhou a etiqueta colada no envelope, e qual não foi a sua surpresa ao constatar que o nome ali grafado não era o de sua mãe, mas o dele próprio.
— É meu! — disse, revelando a surpresa.
Começou a abrir o envelope, mas a tia segurou-lhe a mão, na tentativa inútil de impedi-lo.
— Por que não deixa isso para depois? — sugeriu ela, alarmada.
Não seria melhor cuidar primeiro de sua mãe?
A dúvida dissipou-se no mesmo segundo.
Olhando da mãe para o envelope, a curiosidade o levou a abri-lo.
Marcos leu e releu, sem entender bem o que estava acontecendo.
Era um teste de DNA, feito com um fio de seu cabelo, positivo para a paternidade de Anderson Silva e Souza.
— O que é isso? — questionou, ainda sem compreender.
— O que significa isso?
Quem é esse tal de Anderson Silva e Souza?
Estimulada pelo espírito de Margarete, que nada perdia daquele momento, Clementina lentamente abriu os olhos.
Aos poucos percebeu a movimentação, dando-se conta da presença do filho e da irmã.
O envelope, preso nas mãos de Marcos, fora encoberto pela folha branca que trazia o resultado do exame.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 06, 2015 12:45 pm

Sentada na cama, Clementina deixou que as familiares lágrimas invadissem seus olhos.
Leontina viu quando ela se ergueu e endereçou-lhe uma súplica silenciosa, percebida por Marcos, que se virou para ela bruscamente.
— O que é isso, mãe? — repetiu ele, naquele momento esquecendo-se de que ela havia desmaiado e acabara de recuperar os sentidos.
Que teste de DNA é esse?
E quem é esse sujeito?
— Tenha calma, Marcos Wellington, em nome de Jesus — pediu Leontina.
— Como posso ter calma se é o meu nome no exame de DNA, junto de um tal de Anderson Silva e Souza?
O que isso quer dizer?
Que ele é meu pai?
Um ciclone não teria feito mais estragos na cabeça de Marcos.
Com a folha do exame nas mãos, deduziu que a mãe havia traído o pai e, dessa traição, ele nascera.
— Agora compreendo por que meu pai foi embora com outra mulher — prosseguiu ele, tomado pela ira.
Ele descobriu tudo!
Não sei como, mas descobriu e não a perdoou.
E você se revoltou contra a igreja porque o pastor não lhe deu cobertura, não foi?
E brigou com tia Leontina quando ela censurou o que você fez.
Como pôde fazer isso, mãe?
Acusou meu pai de traição quando foi você que deu início ao adultério?
Dá para entender agora por que só lhe restou a embriaguez.
As palavras feriam Clementina tão duramente que ela nem conseguiu se defender.
Desconhecia aquele homem que a tratava com arrogância e impiedade, substituindo o menino doce e amável que sempre fora seu filho.
Bombardeado com tantos problemas, Marcos dava vazão à raiva, misturando a frustração com a recente descoberta à revolta causada pela difamação.
Ele falava sem parar, acusando-a de coisas que ela jamais fora capaz de fazer.
Desde que se casara com Romualdo, nunca se deitara com outro homem, nem mesmo depois que ele a abandonara.
Ela simplesmente chorava, incapaz de o contradizer.
O massacre foi tão violento que Leontina não aguentou.
Tomou a dianteira e desferiu uma bofetada no rosto de Marcos, ao mesmo tempo em que lhe dizia com autoridade:
— Jamais desrespeite sua mãe!
Não se precipite no julgamento, porque o diabo espreita à procura da injustiça!
O tapa causou-lhe imenso choque.
Marcos levou a mão ao rosto, sentindo a ardência se espalhar pela face.
Fitou a tia com angústia.
Nunca, em toda a sua vida, havia levado um único tapa, mas também jamais faltara com o respeito a sua mãe.
A ardência da bofetada o trouxe de volta à razão, fazendo-o sentir imensa vergonha de si mesmo.
— Foi o que li no exame... — desculpou-se.
Está escrito aqui.
Meu pai é um tal de Anderson Silva e Souza.
Não sei quem é...
Leontina não queria ser ela a revelar a verdade.
Achava que aquele papel não lhe cabia.
Mas não foi preciso pedir o auxílio de Clementina.
Ela mesma se levantou da cama, aproximou-se de Marcos e alisou o seu rosto, no local onde uma vermelhidão cor de vinho se insinuava sob a pele morena.
— Meu menino — falou com doçura.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 06, 2015 12:45 pm

Você tem razão, Romualdo não é o seu pai.
Assim como eu não sou a sua mãe.
A revelação causou-lhe um espanto ainda maior.
Marcos agarrou a mão dela, tornando incrédulo:
— Como é que é?
As duas estavam agora lado a lado, e Leontina pediu a ele que se sentasse.
— Ouça primeiro toda a história — pediu ela.
Só depois nos julgue.
Ainda sem entender, Marcos se sentou, olhando de uma para outra, tentando adivinhar o que elas iriam lhe contar.
Clementina, com o longo suspiro que costumava dar em ocasiões de muito embaraço, levou a mão à cabeça e começou a narrar:
— Tudo aconteceu quando você era um bebezinho...
Encontrei-o na lata do lixo...
A cada parte da revelação, os olhos de Marcos se apertavam, as lágrimas desciam sem nenhuma contenção.
As palavras eram dolorosas, ao mesmo tempo em que exibiam a coragem, a determinação e, sobretudo, o amor que motivara todos os actos daquela mulher.
Ao mesmo tempo em que se afligia, Marcos percebia uma admiração crescente por sua mãe, que levara uma vida de privações, suportara a dor e a miséria, vencera a embriaguez, modificara-se por amor a um filho que não era, genuinamente, dela.
Ao final da longa narrativa, os três choravam abraçados.
Protagonizavam mais um drama da vida, que costuma consolidar as relações pela cumplicidade.
Marcos queria dizer alguma coisa, contudo, as palavras escorregaram na garganta, afogadas em soluços.
— E quem são esses avós que agora pretendem me reencontrar? — indagou ele, assim que a voz se normalizou.
— Não os conhecemos — afirmou Clementina, agora mais controlada.
Até há poucos dias, nem sabíamos da existência deles.
— Só o que sabemos é que são pessoas ricas — comentou Leontina.
A riqueza dos supostos avós não lhe despertou interesse.
A curiosidade, sim.
— Quero conhecê-los — disse convicto.
— Você vai nos deixar... — murmurou Clementina, presa de inigualável dor.
— Nunca! Mas acho que tenho o direito de saber quem foram meus pais verdadeiros.
Vocês nada sabem sobre eles, nunca nem sequer os viram.
— Só vi sua mãe aquela vez — corrigiu Leontina.
— Mas nem tive a oportunidade de falar com ela, pois morreu antes que eu tivesse essa chance.
— Você agora vai poder realizar o seu grande sonho de sair desse morro — falou Clementina.
Não se preocupe connosco, estamos velhas e sempre vivemos bem aqui.
Mas você tem chance de ter uma vida rica, de se casar com Raquel e lhe dar tudo o que ela merece.
— Raquel não tem interesse em dinheiro.
E eu... sempre quis melhorar de vida e acho que isso não é nada de mais.
Contudo, jamais poderei ser feliz se vocês não estiverem comigo.
E por que está se antecipando, mãe?
Eu nem sei se vamos nos dar bem, esses que se dizem meus avós e eu.
— É claro que vão se dar bem!
Por que outro motivo eles o estariam procurando?
— Você disse que minha mãe verdadeira morreu atropelada — conjecturou ele, olhando para a tia.
E meu pai biológico? Onde estará?
— Não sabemos.
O detective nada falou sobre ele.
Sabia que sua mãe havia morrido e mencionou que seus avós paternos são muito ricos.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 07, 2015 11:36 am

— Preciso encontrar-me com eles.
Como posso achar esse detective?
Clementina foi até uma gaveta e apanhou o papel que o pastor lhe dera.
— Tem o número do celular dele — avisou.
Marcos segurou o papel e encarou a mãe, que ainda chorava de mansinho.
A tia também chorava, ambas revelando o medo oculto de perdê-lo, de que ele se deixasse seduzir pelo dinheiro e as abandonasse.
Ele colocou o papel no bolso, segurou a mão da mãe, apanhando, com a outra, a mão da tia.
— Tudo pode acontecer.
Minha pobreza pode acabar, mas o amor que sinto por vocês não se acabará nunca.
Fui bem-criado pelas duas e guardo valores sólidos que a nossa igreja me transmitiu.
Confiem em mim.
Vocês são e sempre serão minha mãe e minha tia.
Aonde quer que eu vá, vocês irão comigo.
Beijando as palmas das mãos das duas, levou-as ao coração, num claro gesto de reconhecimento e de afecto.
Elas se abraçaram a ele, felizes e gratas ao mesmo tempo.
— E o seu pai? — indagou Leontina.
O que será dele?
— Ele sabe de tudo isso? — questionou Marcos.
— Nós lhe contamos.
— E como ele reagiu?
— Como ele reagiu? — tomou Clementina com azedume.
— Ele se interessou pelo dinheiro, só isso.
Nem ligou para a possibilidade de perdermos você.
— Acho que, no fundo, Romualdo conhece o coração de Marcos Wellington — defendeu Leontina.
Sabia que ele não se voltaria contra nós.
— E logo pensou em tirar proveito da situação, não é mesmo?
Se o filho dele ficar rico de uma hora para outra, não será nada mau, não é?
— Ele só quer ter uma chance de voltar a enxergar.
Que mal há nisso?
— Você sempre o defende, Leontina.
O amor é cego mesmo.
— Vamos parar com essa discussão, por favor — pediu Marcos.
Meu pai está velho, com catarata, precisa da cirurgia.
Eu disse a você, mãe, que sonhava sair daqui.
Se isso acontecer, será com todos, inclusive meu pai.
Mas não quero pensar nisso agora.
Ainda nem conheci meus avós e não sei se gostarei deles.
Tudo vai depender do tipo de pessoa que eles são.
— Por falar em seu pai, Marcos Wellington, ele está precisando de remédio — informou Leontina, que até havia se esquecido do motivo que a levara a descer o morro àquela hora.
É a pressão de novo.
— Deixe comigo, tia.
Faça companhia a minha mãe que dou um pulo na farmácia rapidinho.
Ele apanhou a tampa rasgada da caixa, com o nome do remédio, aceitou o dinheiro e saiu, levando na mente um turbilhão de questionamentos a respeito de si mesmo.
Muitas eram as perguntas que precisava fazer a seus avós, que, por sua vez, também nada sabiam sobre ele.
Logo chegou à farmácia.
Ao retirar do bolso o recorte da caixinha com o nome do remédio, veio junto o papel com as informações do detective.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 07, 2015 11:36 am

Ele entregou o pedacinho de papelão à atendente, os olhos fixos no papel cor de creme.
Pagou o remédio e tomou o caminho de volta, com o papel ainda apertado na mão.
Parou na subida do morro, apalpando os bolsos, à procura do celular, mas lembrou-se de que o deixara sobre a mesa da cozinha.
Ainda assim, resolveu arriscar.
E se ligasse a cobrar?
Se o detective sabia o seu nome, talvez aceitasse a ligação.
Procurou um orelhão e digitou os números.
O telefone começou a tocar, mas ninguém atendia.
Consultou o relógio, envergonhando-se de sua ansiedade, dizendo a si mesmo que não era mais hora de ligar para ninguém.
Já ia afastando o fone do ouvido quando a gravação da chamada a cobrar ressoou em seu ouvido:
— Ao ouvir o sinal, diga seu nome e a cidade de onde está falando.
Alguém havia atendido.
Quando o sinal agudo e metálico ecoou, Marcos falou clara e pausadamente:
— Marcos Wellington, do Rio de Janeiro.
Para sua surpresa, uma voz do outro lado respondeu:
— Alô?
— Alô... — repetiu ele confuso, sem saber o que dizer.
— É o seu Afrânio quem está falando?
— Ele mesmo.
— Desculpe-me o adiantado da hora, seu Afrânio, e por ter ligado a cobrar.
Mas é que estou na rua e esqueci meu celular em casa.
— Não se preocupe com isso.
Fez bem em me ligar.
Gostaria de falar comigo?
— Na verdade, não sei.
Não sei o que lhe dizer.
Acho que tenho mais a ouvir, esclarecer algumas dúvidas.
— Imagino que você esteja mesmo cheio delas.
Podemos marcar de nos encontrar, se você quiser.
— Eu quero.
— Óptimo. Quando e onde?
— Não sei. O que o senhor sugere?
— Que tal amanhã?
Você diz a hora e o lugar.
— Amanhã... pode ser.
Mas longe daqui, por favor.
Que tal numa praça?
— Para mim está óptimo.
— Conhece a Praça Afonso Pena?
— Não, mas descubro rapidinho.
A que horas?
— Às duas da tarde está bom?
— Perfeito.
— Estarei esperando-o, sentado num banco, de camisa amarela.
— Não se preocupe, eu o encontrarei.
Marcos desligou com mãos trémulas.
Tudo andava rápido demais.
Será que não se precipitara procurando o detective?
Voltou correndo e entregou o remédio à tia, acompanhando-a até em casa.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 07, 2015 11:37 am

Por ora, preferiu evitar falar com o pai.
Entendia os motivos dele, mas achava que Romualdo não estava tão emocionalmente comprometido como a mãe e a tia.
Em casa, a mãe o esperava ainda com lágrimas nos olhos.
Abraçou-o demoradamente e, quando falou, era visível sua angústia:
— Você demorou...
Foi ligar para o detective, não foi?
Ele não podia mentir, não era da sua natureza.
Estreitou-a novamente e respondeu abraçado a ela:
— Fui. Mas você não tem com que se preocupar.
Juro, mãe, nada vai substituir o seu amor.
Não acredita em mim?
— Acredito. Mas sei o que o dinheiro faz com o carácter das pessoas.
Ele transforma criaturas boas em seres humanos mesquinhos, egoístas e maus.
— Você não pode acreditar mesmo nisso.
Não é o dinheiro que muda o carácter das pessoas.
É o carácter que faz mau uso do dinheiro.
Criaturas que se transformam em seres mesquinhos, egoístas e maus, na verdade, sempre foram assim.
Só que nunca tiveram chance de demonstrar.
Quem é bom é sempre bom.
Quem se modifica nunca foi bom.
E mesmo os maus não o são para sempre.
Ela sorriu embevecida, maravilhada com as palavras do filho.
Deu-lhe um tapinha carinhoso no rosto e falou com emoção:
— Meu menino, onde aprende a dizer tantas coisas bonitas?
É na faculdade?
— Não sei — retrucou ele sorrindo.
Deve ser com a vida e com Raquel.
Ela é que é cheia de filosofias.
Clementina riu novamente e tornou a afagar o rosto dele.
— Está doendo? — perguntou, passando os dedos sobre o local em que ele recebera o tapa da tia.
— Não, já passou. Foi merecido.
Eu não podia ter falado com você daquele jeito.
— Deixe para lá.
A culpa foi minha por não ter lhe contado antes.
— Você não pode se culpar por só ter me dado amor.
Clementina desenvencilhou-se dele para apanhar um copo de água, pensando, naquele momento, em como seria bom ter uma garrafa de pinga em casa.
— Nem pense nisso, Clementina! — censurou Margarete, ainda a seu lado.
Depois do trabalhão que deu para você e eu nos desintoxicarmos, não podemos entrar nessa novamente.
— Marcos não vai abandonar você — afirmou Félix, ao mesmo tempo em que a envolvia num halo energético e fluidificava a água.
Ele só quer conhecer a sua origem, nada mais.
E vai ajudá-la muito, você vai ver.
O passe aplacou o desejo da bebida, e ela tornou a sentar-se junto a Marcos, bebericando a água com prazer, ingerindo, sem consciência, fluidos de refrigério para a alma.
— Imagine se ela voltar a beber, Félix — horrorizou-se Margarete.
— Ela não vai voltar, nem você.
Não se preocupe.
— Tenho medo de que, se ela tiver uma recaída, eu tenha também.
Ainda somos muito ligadas.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 07, 2015 11:37 am

— Você a ajuda, e ela ajuda você.
Nenhuma das duas vai voltar a beber.
— Como é que você pode ter tanta certeza?
— Ela tem um incentivo maior, assim como você.
— Ah, é? Qual?
— O amor de Marcos Wellington.
Ambas precisam estar lúcidas para demonstrar esse amor.
Não é importante para você?
— Marcos não me vê.
Por mais que seja importante para mim, ele nunca irá saber.
— Ele sabe, porque agora conhece a sua existência.
Com isso, vai percebendo, mesmo sem querer, as vibrações que você manda para ele.
E você não vai querer enviar-lhe vibrações etílicas, vai?
— Deus me livre!
— Pois Clementina também não.
Ela teme que um deslize o afaste para sempre de sua vida.
Por isso, pode sentir o desejo, mas a mente sadia vai saber controlá-lo.
Mais calma, Margarete aproximou-se do filho.
Deu-lhe um beijo amoroso na face e um abraço em Clementina, de quem havia aprendido a gostar após tantos anos de convivência invisível.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 07, 2015 11:37 am

CAPÍTULO 44

Marcos chegou cedo à Praça Afonso Pena e procurou um banco à sombra para se sentar.
Vestia jeans e uma camisa amarela, para facilitar que o investigador o reconhecesse.
Não demorou muito, Afrânio apareceu.
— Boa tarde — cumprimentou ele.
Você é Marcos Wellington? — ele assentiu.
Posso me sentar?
Ao sinal positivo de Marcos, Afrânio sentou-se junto a ele.
— O senhor é o detective, não é?
O tal que meus supostos avós contrataram para me encontrar.
— Pelo visto, você já sabe de tudo.
— Sei de tudo o que minha mãe e minha tia sabem, que nada tem a ver com meus pais verdadeiros.
Elas nunca os conheceram.
— Você sabe como foi encontrado?
— Elas me contaram, embora não soubessem dizer por que minha mãe me abandonou.
— Desespero... medo... solidão... desejo de lhe dar uma vida melhor...
— Na lata do lixo?
— Sei que é difícil entender essas coisas, mas eu não estou aqui para julgar sua mãe, nem o seu pai, nem seus avós, nem sua família adoptiva.
Nem a você.
— Já sei. Veio apenas cumprir o seu dever de me encontrar e me levar em segurança aos ricaços que o contrataram.
— Seus avós são pessoas de bem.
Seu avô é dono de uma empresa de ónibus em Belford Roxo.
— Se são pessoas de bem, por que deixaram minha mãe me abandonar?
E o meu pai, por que não fez nada?
Por que ninguém me procurou antes?
— Tudo isso são perguntas que você terá que lhes fazer pessoalmente.
Tenho certeza de que eles têm todas as respostas.
— Imagino que sim.
— Então, posso marcar um encontro entre vocês?
Afrânio notou a hesitação de Marcos e tentou acalmá-lo:
— Não tenha receio.
Como disse, eles são pessoas de bem e só o que querem é conhecer você.
— E minha família?
— O que tem ela?
— Não vão tentar me separar dela, vão?
— Você não é mais criança, Marcos.
É dono do seu nariz, pode fazer o que bem entender.
Se houver alguma separação, será por sua conta.
— Jamais farei isso.
Amo minha mãe e minha tia acima de tudo.
— Ninguém quer ou pensa o contrário.
Você seria uma pessoa muito egoísta se não sentisse dessa forma.
— Eles não vão tentar me convencer a mudar de vida?
— Talvez queiram lhe dar uma vida melhor, mas isso não significa que você tenha que se afastar de sua família.
— Eu não vou me afastar, disso tenho certeza.
Mas não quero ser pressionado.
— Tudo bem, posso falar com eles sobre esse seu receio, e ninguém irá pressioná-lo.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 07, 2015 11:38 am

— Você vai estar presente a esse encontro?
— Provavelmente não.
Vocês têm muito que conversar.
Daqui por diante, meus serviços estão concluídos.
Marcos ficou caiado por uns segundos, pensando em tudo o que Afrânio dissera.
Por fim, concordou:
— Pode marcar o encontro.
Quero conhecê-los e esclarecer logo tudo.
Além de corajoso, o rapaz era decidido, o que agradou Afrânio.
Aliás, tudo nele lhe agradara, desde a aparência física até seu jeito educado.
Seus clientes ficariam satisfeitos.
— Vou entrar em contacto com eles hoje mesmo — anunciou Afrânio.
Tenho certeza de que desejarão conhecê-lo o mais rápido possível.
Só falta você me dar o número do seu celular, para que eu possa encontrá-lo.
Encerrada a entrevista, Afrânio seguiu directo para Belford Roxo, a fim de narrar a seus clientes o sucesso de seu trabalho.
Graciliano e Bernadete mal conseguiam conter a euforia.
Queriam marcar o encontro para o mais breve possível.
Marcos sabia que não conseguiria prestar atenção alguma à aula.
Nem os comentários maldosos a que estava sendo submetido foram suficientes para dissipar sua confusão.
Ele chegou cedo e, assim que Raquel pisou na sala, correu ao seu encontro.
— Você faz questão de assistir à aula hoje? — sondou ele, segurando-a pelo braço.
— Não sei — respondeu ela, cautelosa.
Por quê? O que foi que houve?
— Preciso conversar com você. Longe daqui.
— Aconteceu alguma coisa?
— Aconteceu. E séria.
— É com a sua mãe?
— Nada tão sério assim.
É algo pessoal, que me diz respeito.
— Está bem. Vamos embora, então.
Marcos falou rapidamente com Arnaldo e saiu de mãos dadas com Raquel, ignorando os olhares que os acompanhavam por todo o corredor.
Assim que entraram no carro, Marcos puxou Raquel e deu-lhe um abraço apertado, beijando-a com sofreguidão.
Quando ele se afastou, ela indagou perplexa:
— O que foi que houve, Marcos?
— Minha vida está prestes a virar de cabeça para baixo.
— Por quê?
— Descobri ontem que não sou filho de meus pais.
— Como é que é?
Marcos contou tudo o que sabia, em detalhes.
Ao final, concluiu:
— O detective me ligou ontem mesmo.
Meus avós querem me ver o mais rápido possível.
Por isso, deixei que ele marcasse o encontro para hoje, logo após a faculdade.
Seu Afrânio virá me buscar aqui, e iremos juntos.
— Meu Deus, Marcos, que doideira!
— É, é uma doideira, mas é a verdade.
O teste de DNA não mente.
— Acho que você está recebendo essa notícia muito bem.
Vai tirar esse encontro de letra.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 07, 2015 11:38 am

— Eu vou, mas minha mãe, não.
Ela está nervosa, aflita, nem conseguiu ir trabalhar hoje.
Minha tia também, mas não pode faltar ao emprego, e ela agora tem o meu pai.
Por isso é que gostaria de lhe pedir um favor.
— O que é?
— Será que você poderia ficar lá em casa com ela?
Minha mãe gosta tanto de você!
— É claro que sim, Marcos!
Será o maior prazer.
Também gosto muito dela.
— Óptimo, então.
Vou telefonar a seu Afrânio e pedir que vá me buscar em casa.
De toda sorte, não ia mesmo conseguir prestar atenção à aula.
Estou um pouco nervoso.
— E quem não estaria?
Eu, no seu lugar, ficaria toda trémula.
— Mentirosa — ralhou ele com doçura.
Você é muito segura e decidida.
— Só quando você está comigo.
— Está falando isso por causa da favela?
Tem medo de ficar lá sozinha?
— Absolutamente!
— Vou com você até em casa.
Na volta, levo-a para baixo e a coloco de volta no carro.
— Se quiser, posso dormir lá com você.
— Ah, não, Raquel, você não ia gostar.
Durmo num sofá pequeno e desconfortável, você ia acordar cheia de dores nas costas.
— Eu não me importo de dormir agarradinha com você.
Vamos, Marcos, é a nossa chance.
Nós nunca passamos a noite juntos.
— Seus pais não vão aprovar.
— Eles não ligam.
Basta eu telefonar e dizer que não vou dormir em casa.
Vamos, gostaria de partilhar com você este momento tão importante da sua vida.
— Bom, se é assim, está bem — concordou ele, após muita insistência.
Minha mãe vai adorar.
— Será que ela não se importa que durmamos juntos?
— Acho que não. Minha mãe não é minha tia.
Não liga para essas coisas.
Tia Leontina, sim, ficaria chocada.
Mas ela não precisa saber.
— Óptimo. Então vamos.
Raquel subiu o morro tentando aparentar naturalidade e ocultar o receio.
No fundo, tinha um pouco de medo dos bandidos e traficantes, porém, tudo transcorreu com normalidade.
Marcos era conhecido, ninguém quis mexer com a namorada dele.
Haviam antes passado numa confeitaria, onde Raquel fez questão de comprar uma torta para Clementina.
— Raquel! — exclamou ela.
Que surpresa boa!
O que a traz aqui?
— Vim ficar com a senhora, enquanto Marcos vai conversar com os avós.
— Mesmo? Você veio só para me fazer companhia? — Raquel assentiu.
Que menina simpática!
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 07, 2015 11:39 am

— Vou me casar com o seu filho e tenho que cuidar da minha sogra, que é uma pessoa maravilhosa.
Clementina riu de prazer, para alívio de Marcos.
Com tantas preocupações na cabeça, ao menos conseguira aliviar um pouco a aflição da mãe.
— Não fiz nada para o almoço — observou Clementina.
— Não faz mal — declarou Raquel.
Veja o que eu trouxe. Uma torta!
Havia genuína satisfação no riso de Clementina.
A conversa de Raquel animava a mãe, que conseguiu, ao menos parcialmente, colocar de lado o pânico.
Marcos mal conseguia participar da conversa, tamanha a ansiedade, consultando o relógio a todo instante.
Na hora combinada, despediu-se das duas e desceu para se encontrar com Afrânio.
— Que Deus ilumine a cabeça do meu menino... — rogou Clementina — para que ele não esqueça quem foi sua verdadeira mãe.
— A senhora não tem com o que se preocupar.
Marcos a ama muito e não vai trocá-la por nenhuma outra família.
Ficaram vendo-o afastar-se, Clementina agarrada ao braço de Raquel.
Ele desceu o morro com a cabeça confusa, temendo o que estava por vir.
Quando chegou lá embaixo, Afrânio já o aguardava e lhe estendeu a mão, que ele apertou.
— Então? — indagou. — Pronto?
Marcos balançou a cabeça.
Quando o carro se movimentou, voltou os olhos para o morro, na esperança de avistar sua casa, embora soubesse que ela não era visível de onde estava.
A única coisa que ainda via em sua mente eram os olhos súplices da mãe, implorando que voltasse para casa e para ela.
Mas Marcos não precisaria voltar.
Jamais pensara em deixá-la.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 07, 2015 11:39 am

CAPÍTULO 45

O coração de Marcos não se aquietava dentro do peito.
Ele sentia um misto de euforia e medo, de curiosidade e dúvida.
Temia o que iria encontrar, não sabia como se portar na casa daquelas pessoas que, embora responsáveis pela sua existência, eram estranhas para ele.
— Basta agir naturalmente — dissera Afrânio.
Seja você mesmo, não tente demonstrar o que não é.
Marcos gostara de Afrânio.
De certa forma, ele ajudara a desfazer a ideia de romantismo ou decadência que ele tinha de detectives particulares, fruto dos filmes de televisão, em que os investigadores ou eram homens cheios de charme e coragem, ou malandros arruinados e trapaceiros.
A tranquilidade de Afrânio lhe transmitia uma segurança serena, a certeza de que as coisas seguiriam o caminho da natureza, que tudo faz para reunir as famílias.
Junto a Marcos, a presença constante de Margarete e Félix era para ele um alívio, embora disso não se desse conta.
O tempo todo, o casal de espíritos permanecera a seu lado, intuindo Afrânio a seguir o rumo certo na busca da verdade.
E agora que tudo ia se desvendar, Margarete sentia-se grata e confiante, disposta a seguir seu caminho tão logo Marcos se harmonizasse com a família.
— Lembre-se de que não foi você quem pediu esse encontro — prosseguiu Afrânio, sem saber que parcialmente transmitia o pensamento dos espíritos.
Foram eles. Portanto, você não precisa se preocupar com nada.
Deixe a eles a tarefa de conduzir a conversa.
Faça as perguntas que quiser, mas não se coloque na defensiva nem seja arrogante.
Mantenha-se calmo e neutro.
São eles que estão loucos por você, não o contrário.
Trate-os bem, com respeito, não se esqueça de que são seus avós.
Ao ver a mansão em que eles residiam em Belford Roxo, Marcos afirmou pensativo:
— Entendo por que minha mãe me jogou na lata de lixo.
Eles devem tê-la expulsado de casa só porque era pobre e negra.
— Procure não julgar.
Todos nós temos algo de que nos arrepender.
Se você ainda não tem, é porque ainda é muito jovem e não viveu o suficiente para coleccionar erros.
Afrânio era uma pessoa sensata, para satisfação de Marcos.
Saltaram do carro e tocaram a campainha.
Quando a porta se abriu, uma criada de uniforme os convidou a entrar, conduzindo-os directamente à sala de estar, onde dois idosos, sentados em antigas poltronas de veludo carmim, olhavam-no com ansiedade.
— Seu Graciliano, dona Bernadete — anunciou Afrânio — este é Marcos, o neto que procuravam.
Os dois se levantaram ao mesmo tempo, olhando para Marcos sem saber o que dizer.
Haviam ensaiado tanto aquele momento, e agora a voz lhes morrera na garganta.
Graciliano estendeu a mão para ele, que a apertou firmemente.
— Como vai, meu rapaz? — indagou, sem jeito.
— Vou bem, obrigado. E o senhor?
Graciliano não respondeu, porque Bernadete passou à frente dele e puxou Marcos para um abraço efusivo, estreitando-o nos braços pelo tempo em que duraram as primeiras lágrimas.
— Meu menino! — exclamou ela.
Meu neto! Já é um homem...
Perdemos sua infância e o começo da juventude.
Como rezei a Deus para poder encontrá-lo!
Marcos olhou para Afrânio meio desconcertado, e o investigador devolveu-lhe um sorriso de incentivo.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 07, 2015 11:39 am

— Acho melhor deixá-los a sós para que se conheçam.
A que horas quer que eu venha buscá-lo, Marcos?
— Isso não será necessário — objectou Graciliano.
— Meu motorista o levará em casa quando ele desejar.
Notando a fisionomia calma de Afrânio, Marcos relaxou naquele ambiente estranho, cercado de pessoas estranhas que, a despeito de tudo, eram seus avós.
Com um aceno de cabeça, o detective se despediu.
Dando tapinhas fraternos nas costas de Marcos, finalizou:
— Boa sorte, rapaz.
Vai dar tudo certo.
Depois que ele saiu, Bernadete convidou Marcos a se sentar.
Graciliano ocupou uma poltrona em frente, ainda sem jeito, tentando encontrar as palavras certas.
Depois de muito observá-lo, Bernadete comentou eufórica:
— Veja como ele se parece com Anderson, Graciliano!
Não se parece com o nosso filho?
Realmente, Marcos era uma mistura do pai e da mãe.
Graciliano olhou-o bem, logo identificando os traços de Anderson no rapaz, sobretudo o nariz e a boca.
Os olhos, inconfundivelmente, eram os de Margarete.
— Sim — respondeu Graciliano, atento à fisionomia do neto.
Ele se parece com Anderson, mas lembra também a mãe.
— Mas o queixo é de nosso filho. Igualzinho!
— Realmente.
— Ele é mais moreno do que Anderson, é claro, embora um pouco mais claro do que Margarete.
Margarete fitou Félix com olhos húmidos, sem dizer nada e Marcos sorriu, sem graça ante a avaliação que faziam dele.
— Não conheci nenhum dos dois... — informou com voz sumida.
— Seu pai, nosso filho, já morreu — comentou Graciliano, enxugando os olhos.
Você é tudo que nos resta.
Um raio de sol penetrou pela janela, estendendo-se até o sofá.
Vagarosamente alcançou os pés de Bernadete, que os puxou para a sombra.
— Anderson gostava de tomar sol — informou ela.
Diferentemente de mim.
E você? Gosta de sol?
Ele se levantou nervosamente.
Estava ali havia quase uma hora e só o que os dois haviam conseguido, até aquele momento, fora fazer comentários sobre sua aparência física, encontrando semelhanças e diferenças entre ele e seus verdadeiros pais.
— Por favor, não me levem a mal, mas foi para isso que me chamaram aqui? — indagou, a voz oscilando entre a irritação e a ansiedade.
Os avós se entreolharam assustados, até que Graciliano falou:
— Tem razão, meu jovem.
Não o trouxemos aqui para compará-lo ao nosso filho que já morreu.
Chamamos você porque queríamos conhecer nosso único neto.
— Meu nome é Marcos — anunciou, tentando não demonstrar exasperação.
Marcos Wellington.
— Sabemos disso, Marcos — continuou Graciliano.
Não queríamos ofendê-lo.
Nós apenas estamos tão confusos quanto você.
— Temos medo de dizer algo que o ofenda — acrescentou Bernadete.
E, sem querer, parece que o ofendemos.
Arrependendo-se instantaneamente, Marcos tornou a se sentar ao lado de Bernadete.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

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— Perdoem-me.
Eu é que não devia ter me irritado.
— Na verdade, estamos todos pouco à vontade — disse Graciliano.
O que é bastante natural.
— E você, mais do que nós, deve estar curioso acerca dos acontecimentos — observou Bernadete.
Afinal, não sabe quem somos nós, quem foram seu pai ou sua mãe.
— Só sei o que seu Afrânio me contou, ou seja, quase nada.
— Muito bem — declarou Graciliano.
Vou lhe contar tudo desde o começo.
É seu direito conhecer sua história.
Peço apenas que seja paciente e perdoe-me se a voz me faltar em alguns momentos.
É preciso coragem para assumir as culpas e mais ainda para confessá-las. — Graciliano buscou apoio em Bernadete, que o incentivou com o olhar.
— Sua mãe veio trabalhar para nós há muito tempo, como doméstica.
Anderson, nosso filho, seu pai, contava então quatorze anos de idade e acabou se envolvendo com ela.
Fomos cegos, nada percebemos, porque tínhamos os olhos vendados pelo preconceito e sequer imaginamos um envolvimento entre nosso filho e... alguém como sua mãe.
Calmamente, sem omitir nenhum detalhe, Graciliano contou tudo a Marcos.
Falou da gravidez de Margarete, da confissão de Anderson, de como a expulsaram de casa.
Contou como Anderson jamais quis se casar com outra moça.
De saúde frágil, teve várias pneumonias, vindo a falecer de câncer, carregado de culpa por não ter reconhecido o filho.
E agora, vendo sua descendência se acabar, sentiram a necessidade de procurar o neto.
Velhos e arrependidos, hoje compreendiam como era mesquinho o preconceito, que lhes roubara momentos de preciosa felicidade ao lado do menino.
Quando Graciliano terminou a narrativa, os olhos de Bernadete estavam inchados de tanto chorar.
Marcos também chorava de mansinho.
Ao lado deles, Margarete acompanhava a narrativa, em silêncio.
— Isso é tudo — concluiu Graciliano, entre a vergonha e o alívio.
— E minha mãe? — indagou Marcos, ainda tentando assimilar toda aquela história.
— De Margarete, nada sabemos depois que ela se foi, além do que Afrânio nos contou.
— Soubemos que ela morreu atropelada — acrescentou Bernadete.
— Sim — fez Marcos, desgostoso.
Logo após me abandonar na lata do lixo, bêbada, segundo informações.
Seu Afrânio me narrou toda a trajectória dela desde que vocês a expulsaram daqui.
Minha mãe verdadeira, aquela que me criou, me disse como me encontrou e cuidou de mim.
Por mais que Marcos intencionalmente não desejasse, sua fala veio com um inconfundível tom de acusação, que Graciliano e Bernadete captaram com uma pontada no coração.
— Sabemos que é difícil — obtemperou Bernadete.
Mas, por favor, tente não nos odiar.
— Queremos lhe oferecer uma compensação por tudo o que o fizemos passar — tornou Graciliano.
Como nosso neto, você será uma pessoa rica, poderá concluir seus estudos e, mais tarde, vir a me substituir na presidência da empresa.
Marcos sentiu o sangue ferver.
Aquelas pessoas haviam mudado toda a sua vida, eram responsáveis pela morte de sua mãe biológica e as agruras por que ele passara desnecessariamente.
Se eles houvessem aceitado a relação do pai e da mãe desde o começo, toda a sua miséria teria sido evitada, ele nunca teria ido parar na favela nem teria se tornado menino de rua.
Muito menos teria visto a mãe se afogar na bebida por causa de seu pai.
"Clementina não teria sido sua mãe.
E você jamais teria conhecido aquele pai."
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 07, 2015 11:40 am

O pensamento surgiu como um relâmpago em sua mente.
Marcos fechou os olhos, tentando imaginar como teria sido sua vida sem a família que conhecera. Não pôde.
Não havia vida imaginável longe de Clementina e Leontina.
Era com elas que estava seu coração.
Não queria outros pais nem avós.
Continuaria amando as pessoas que o tinham criado, porque elas é que eram sua verdadeira família.
Duvidava muito que sua mãe biológica fosse capaz de amá-lo tanto quanto Clementina.
— O que você acha, Margarete? — Félix perguntou, lendo os pensamentos do rapaz.
Você o teria amado tanto?
Margarete olhou para Marcos com ternura.
Consultando seu coração, respondeu após breves instantes:
— Eu o teria amado à minha maneira, embora, naquela época, não fosse a maternidade meu maior desejo.
Era a satisfação dos prazeres que Anderson poderia me dar.
Se tivesse sido aceite pelos pais dele, tenho certeza de que teria me tornado arrogante, snobe e fútil.
E meu filho não teria a educação que precisava ter.
— Viu como a vida não nos desaponta?
Quando a vida age, não o faz para perder.
Todos nós ganhamos com as experiências, ainda que tudo pareça perdido.
Porque todos nós conhecemos, em essência, as necessidades de nossa alma.
Sem ouvir a voz do invisível, Marcos evocou a lembrança dos pais e da tia, pensando em como os três haviam sido importantes em sua vida e em quanto amor ele recebera.
Mesmo Romualdo, antes de abandoná-los, fora um bom pai.
Não tinha de que se queixar em termos de carinho.
Com os pais verdadeiros, teria todo dinheiro e conforto.
Mas teria sido realmente feliz?
Naquele momento, Marcos compreendeu a aflição e os anseios de seus avós.
Os dois pareciam ansiosos para tê-lo em seu convívio.
O avô queria um herdeiro; a avó, um substituto do filho.
Embora por motivos diferentes, ambos desejavam um neto para amar.
— Por que vocês não me procuraram antes? — foi a pergunta que ele proferiu sem pensar.
Graciliano e Bernadete, mais uma vez, se entreolharam, demonstrando como era difícil e dolorosa aquela revelação.
— Nós vivíamos iludidos — Bernadete falou.
Pelo nosso dinheiro, pelo nosso poder, pela nossa classe social, pela nossa cor...
Achávamos que, por sermos ricos e brancos, éramos melhores do que os outros, os menos afortunados.
Ela deu uma pausa, respirou fundo e prosseguiu:
— Sua mãe era tudo que desprezávamos.
Pobre, negra... e atrevida.
Atrevera-se a seduzir nosso filho, um menino de quatorze anos, ingénuo e branco.
— Vocês são racistas — afirmou Marcos, com inevitável rancor na voz.
— Éramos... sim — confessou Bernadete.
Hoje não somos mais.
O sofrimento nos ensinou que o valor da vida vem das pessoas, do que elas fazem ou são capazes de fazer, do quanto podem amar.
Amamos nosso filho como a nenhum outro.
Sem ele, descobrimos que poderíamos amar o fruto que ele nos deixou, nosso fruto também, independentemente de qualquer convenção social.
Compreendemos que o preconceito impede as pessoas de serem felizes, porque as prende a falsos valores de virtude e de moral.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 07, 2015 11:40 am

— Pode parecer que só fomos buscá-lo para termos um sucessor — esclareceu Graciliano.
Não é verdade, ao menos, não inteiramente.
É claro que me preocupa a questão da empresa.
Herdei de meu pai um património considerável, que ele construiu à custa de muito sacrifício.
Bernadete e eu não temos irmãos vivos, apenas uma sobrinha que vive na Europa e, por razões perfeitamente compreensíveis, não pretende se mudar para cá e cuidar de um negócio do qual nada entende.
Dessa forma, o património que meu pai construiu acabaria se perdendo nas mãos de estranhos.
Nesse sentido, um herdeiro resolveria todo o problema.
— Eu também nada entendo do ramo de transportes colectivos — contrapôs Marcos.
— Mas pode aprender.
Posso ensinar-lhe tudo.
— Não sei se Afrânio lhe informou que estudo Direito.
Quero ser advogado, não administrador de empresas.
— Você pode ser as duas coisas.
Pode dirigir a companhia e abrir um escritório de advocacia.
Acho até que o Direito o ajudaria com as questões jurídicas, seria muito difícil enganá-lo com os contratos, por exemplo.
— Não sei...
— Deixe-o, Graciliano — censurou a mulher.
Você o está pressionando, e não foi apenas para torná-lo nosso herdeiro que o encontramos.
Foi para colocá-lo no lugar que lhe pertence em nossa família e em nosso coração.
Independentemente de qualquer coisa, Marcos é nosso neto, tem o nosso sangue.
Assumindo ou não o controle da empresa, é parte de nós e de nossas vidas.
— É claro — atalhou Graciliano, um tanto decepcionado.
Mesmo que você não aceite vir para a minha empresa, isso não mudará nada entre nós.
O que mais queremos é trazê-lo para o nosso convívio, para que você seja parte de nossa família.
Queremos dar-lhe o nosso amor e, se possível, ser amado por você também.
— O que me pedem é muito estranho — confessou Marcos.
A única família que conheci está lá no Rio, no morro do Salgueiro, morrendo de medo e preocupação de que eu os abandone.
— Não estamos pedindo isso — redarguiu Bernadete.
Fomos informados de sua relação com a família que o criou e a respeitamos por isso.
Sabemos das dificuldades e dos perigos de ter sido criado no morro, temos ciência de que sua mãe o orientou muito bem.
Você faz faculdade, tem uma religião e um emprego.
— Não tome nenhuma decisão precipitada — aconselhou Graciliano.
Volte para casa e pense em tudo o que lhe dissemos.
Mas lembre-se também de que sua vida e a de seus pais irá mudar para melhor.
Estamos lhe oferecendo a oportunidade de sair da favela e morar num lugar decente.
— Engana-se quem pensa que não somos decentes no morro — irritou-se ele.
A maioria dos que lá estão é gente direita, que trabalha e vive honestamente.
— Não se ofenda — interveio Bernadete em tom conciliador.
Não queremos julgar ninguém.
Quando falamos em lugar decente, referimo-nos tão somente às condições de vida, como infra-estrutura, conforto e higiene.
Não estamos mencionando as pessoas.
— Seja sincero, Marcos — pediu Graciliano.
Você gosta de morar na favela?
Ele olhou com amargura para os dois e balançou a cabeça negativamente:
— Estaria sendo hipócrita se dissesse que sim.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 07, 2015 11:40 am

Meu maior desejo sempre foi sair do morro e levar meus pais e minha tia comigo.
Mas quero fazer isso honestamente.
— Pois agora estamos lhe dando essa chance.
Você, seus pais e sua tia podem ir morar em qualquer lugar que desejarem.
— Seu pai está doente — prosseguiu Bernadete.
Seu Afrânio nos contou que ele está quase cego e com problemas de pressão.
E a sua mãe já não aguenta mais as faxinas.
Sua tia também já está ficando velha, as pernas não suportam mais a subida do morro.
— Vejo que seu Afrânio fez o serviço completo.
Há algo de minha vida que vocês não saibam?
— Não conhecemos a sua vontade — admitiu Bernadete.
Está dentro de você, e só você pode nos dizer qual é.
— Não queremos pressioná-lo — falou Graciliano.
Só gostaríamos que você pensasse no assunto.
Com calma, no seu tempo.
Depois, quando decidir, venha nos procurar.
Seja qual for a sua resposta, nós a compreenderemos e aceitaremos.
— Agradeço o empenho e a compreensão de vocês.
Não sei o que lhes dizer.
Qualquer coisa que eu fale agora será precipitada.
Preciso conversar com minha mãe, reflectir sobre sua oferta, para só então decidir.
— Faça isso.
A reflexão é o melhor caminho para uma decisão acertada.
Ouça o seu coração e depois decida.
— E agora, venha jantar connosco — convidou Bernadete.
— O dia se foi, a noite caiu, e nós continuamos trancados aqui.
Venha conhecer a nossa casa e nos dê o prazer de sua companhia, ao menos por essa noite.
A conversa havia sido tão intensa que Marcos nem se deu conta de que a hora do jantar havia chegado.
Saiu com os avós para conhecer a mansão, maravilhando-se com o bom gosto e a amplitude dos ambientes.
Impressionou-se com o jardim, a garagem, a piscina, deduzindo que seus avós eram, realmente, pessoas muito ricas.
O jantar também foi maravilhoso.
Marcos jamais havia visto tanta comida na sua vida.
Havia saladas, sopas, carnes, frangos, massas, iguarias as mais variadas para agradar o paladar desconhecido de Marcos.
Experimentou de tudo, deliciando-se com as sobremesas e, pela primeira vez, provou uma taça de vinho.
Quando voltou para casa, sentiu o efeito da sedução sobre seus sentidos.
Era difícil resistir a tantas maravilhas, ao conforto, ao luxo, a tudo com que ele sempre sonhara.
Marcos abanou a cabeça, um pouco zonza por causa do vinho, tentando imaginar a reacção de sua família àquele encontro.
Ele mesmo não sabia o que pensar, como proceder.
Não podia negar que a tentação era muito grande, adoraria ter uma vida confortável como a que os avós lhe ofereciam.
O motorista deixou-o ao pé do morro. Marcos agradeceu.
Iniciou a subida pensando em tudo o que lhe acontecera.
Tinha certeza, embora não admitisse, de que os passos que faziam aquele trajecto encaminhavam-se para a despedida.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 07, 2015 11:40 am

CAPÍTULO 46

Depois daquele encontro, Marcos pensou que nunca mais seria o mesmo.
Não que sua personalidade se modificara, mas as coisas que os avós lhe mostraram, e que legitimamente lhe pertenceriam, causou uma confusão em sua cabeça.
— Se eles querem ajudar você e sua família, qual o problema? — ponderou Raquel.
Eles são seus avós.
— Você acha que isso vai dar certo? — contrapôs Marcos.
Minha família e eles são muito diferentes.
Em cultura e criação, quero dizer.
— Deixe disso, Marcos.
Seus pais são pessoas de bem e seus avós estão preparados para as diferenças.
Ou então não lhe fariam essa oferta.
Eles sabem que você não abandonaria sua família.
— O que você acha, mãe? — ele perguntou a Clementina, que, até então, não dissera nada.
— Não sei. Tenho medo de que tudo venha a ser diferente.
— É claro que tudo vai ser diferente, mas não do jeito como você está pensando.
Nossas vidas vão mudar para melhor.
— Ah! Marcos Wellington, e se tudo não passar de um sonho, uma fantasia?
E se o que eles pretendem é apenas conquistar você, para que mude de família e esqueça que um dia pertenceu ao morro?
— Eu não pertenço ao morro, vocês não pertencem ao morro.
Ninguém pertence ao morro.
Isso é só um lugar para se viver.
— Marcos tem razão, dona Clementina — concordou Raquel.
Ninguém é dono de lugar nenhum.
Somos apenas inquilinos nas dependências do mundo.
Podemos ir e vir para onde quisermos.
Todo mundo tem chance e direito de progredir.
— Não dessa maneira.
— Por que não?
— Para Marcos, tudo bem.
Mas nós seremos intrusos na casa dele.
— Minha família verdadeira não pode ser intrusa — contestou Marcos, indignado.
Você é minha mãe, Romualdo é meu pai, e Leontina, minha tia.
Meus avós sabem disso e os respeitam.
— Avós... — repetiu ela.
Você até já os chama assim.
— E o que é que tem?
Não é isso o que eles são?
Meus avós?
— Você acha que sua tia vai concordar com isso? — duvidou Clementina.
— Vai. No começo pode até dizer que não, mas, depois, vai.
É o que meu pai quer, não é?
— Seu pai não vale nada — disse ela com rispidez.
— Está louco para você aceitar só para se aproveitar da situação e ficar nas suas costas.
— Ele está doente e licenciado pelo INSS.
Não é nenhum vagabundo.
E a cirurgia da catarata é um facto.
Nós sabemos o tempo que ele vai levar na fila, aguardando sua vez de se operar pelo sus — ele fez uma pausa e segurou a mão dela, falando em tom de súplica:
Vamos, mãe, por favor. Não perca essa chance.
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