Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 08, 2015 10:22 am

— Você não precisa de mim para ir.
— Não vou sem você.
Sem minha tia, pode até ser.
Mas, sem você, não.
Clementina olhou-o com lágrimas nos olhos, sentindo o quão verdadeiro era o amor dele.
Pensou alguns minutos, alisou seu rosto e finalizou:
— Preciso pensar, meu filho.
As mudanças que você me propõe são muito grandes.
Não sei se estou preparada para isso.
Marcos ia contra-argumentar, mas o olhar de Raquel o fez mudar de ideia.
Ele pousou um beijo suave na testa da mãe, afagou suas faces, não disse nada.
Estendeu a mão para a namorada, saindo com ela.
— Você acha que ela vai aceitar? — questionou ele, logo que chegaram ao pé do morro.
— Acho que sim.
Ela está confusa, com medo de perdê-lo, mas vai acabar aceitando.
— Raquel — chamou ele, e ela o fitou pelo canto do olho.
Gostaria de lhe pedir uma coisa.
— O que é?
— Não conte a ninguém por enquanto, por favor.
— Eu não ia contar.
Tem vezes que a gente não sabe se vai gerar algum magnetismo.
Por isso, é bom se preservar de energias de inveja e despeito.
Sem contar os interesseiros.
— Obrigado.
Mas não foi bem assim que aconteceu.
Quando chegou em casa, Raquel não pôde evitar de comentar com a mãe.
Ela era de confiança, estava fora do rol de pessoas que poderiam invejar a posição de Marcos e não contaria a ninguém.
Efectivamente, Ivone não contou nada, nem ao marido.
Contudo, um observador furtivo espreitava em surdina.
Escondido atrás da porta do quarto de Raquel, Elói ouviu toda a conversa, mal contendo o despeito.
O sangue ferveu, inflou suas veias, tornando seu rosto rubro de ódio e inveja.
Depois de escutar tudo o que precisava, saiu sem ser percebido, tropeçando na própria raiva.
Dentro do carro, sacou o celular e ligou para Nelson.
— Preciso falar com você. É urgente.
Encontraram-se no lugar de sempre, e Nelson foi logo perguntando:
— O que foi que houve?
— Você não vai acreditar.
O cafajeste está milionário.
— Como é que é?
Em minúcias, Elói contou a Nelson tudo o que ouvira minutos antes.
À medida que falava, as feições de Nelson iam adquirindo aquele tom avermelhado que acompanha a ira.
Ele chegou a morder os nós dos dedos, de tão furioso que ficara.
— Isso é um disparate! — explodiu ele.
Como é que um neguinho pobretão fica rico de uma hora para outra?
Esses caras devem estar enganados.
Marcos não pode ser filho de gente importante.
— Você ouviu o que eu disse.
O pai dele fez a mesma borrada que a minha irmã está fazendo agora.
— Só que agora o namorado é um ricaço.
O que vamos fazer?
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 08, 2015 10:22 am

— Não sei. Todo o nosso trabalho foi em vão.
— Em vão nada.
Posso combinar com a galera e dar uma surra no safado.
— Não seja estúpido, Nelson!
Não é assim que resolvemos as coisas.
Se você for preso, aí é que tudo estará perdido.
— Meu pai é desembargador.
Nada vai me acontecer.
— Não é bem assim que funciona.
E mesmo que você seja solto, acha que Raquel vai olhar para você depois disso?
— Você acha que ela vai se casar com Marcos só porque ele ficou rico? — tornou ele, a mente embaralhada pela revolta.
— Não. Só que agora nós ficamos sem acção contra Marcos.
Como destruir a vida de um cara que ficou rico e influente?
— Quer dizer então que dinheiro e poder apagam a canalhice?
— Você está confundindo as coisas.
Nós tentamos fazer parecer com que Marcos seja um canalha.
Acontece que ele não é.
E minha irmã sabe disso.
Chega, Nelson, temos que reconhecer a derrota.
Não adianta mais tentar desmoralizar nem destruir a vida de Marcos.
Ficar sem emprego não é mais problema para ele, e a mãe, se tivesse motivos para furtar, agora não tem mais.
— E se nós arranjássemos alguém que se fizesse passar por amante dele?
— Isso não dá certo.
Ele vai desmentir, e Raquel vai acreditar.
A inocência costuma ser bem convincente.
— Nem sempre. Podemos fazer com que ele caia em tentação ao menos uma vez.
O que você acha?
Elói pensou durante um momento, até que um sorriso enigmático despontou em seu rosto.
— Brilhante, Nelson! — exclamou ele. — Sua ideia é perfeita.
Eu estava o tempo todo pensando em um jeito de desmoralizá-lo e me esqueci de que podemos usar a religião dele a nosso favor.
— Como assim?
— Raquel é muito diferente dele.
— E daí?
— Deixe comigo. Já sei o que fazer.
Passados quase dois meses, Clementina finalmente decidiu aceitar a proposta de Marcos e de seus avós.
Um almoço foi marcado, dessa vez para que todos se conhecessem.
Até então, Marcos não aceitara nada de Graciliano, preferindo assumir o emprego no barzinho e continuar com sua vida no morro até que toda a família estivesse disposta a mudar.
Foram dias de muita emoção para Marcos.
Na véspera da visita aos avós, apresentara Raquel à tia e ao pai.
Romualdo achou-a bonita, inteligente, com um futuro promissor, bem à altura da nova posição de Marcos.
Leontina tratou-a bem, mas com frieza, comentando sobre a salvação da igreja sempre que tinha uma oportunidade.
A muito custo Marcos conseguiu convencer a mãe a viajar com o pai no mesmo carro.
Ela concordou, desde que Leontina ficasse no meio e ela não fosse obrigada a acompanhá-lo para manter as aparências.
À entrada da família de Marcos, Graciliano percebeu que realmente havia mudado.
Eram pessoas humildes, pobres, ignorantes, mas não se incomodou.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 08, 2015 10:22 am

Disposto a travar amizade com eles, tratou-os com sincera cortesia, feliz por estar realmente livre do preconceito.
Não deixou de notar, contudo, a diferença entre eles.
Clementina era reservada, porém, simpática e espontânea.
Leontina, por sua vez, parecia um pouco fanática, mas educada.
Não lhe agradou, no entanto, a atitude interesseira de Romualdo.
A moça o impressionou favoravelmente.
Raquel era uma menina gentil, educada, fina.
Era universitária, a família tinha dinheiro, logo, não era nenhuma caçadora de fortunas.
Um óptimo partido para seu neto.
De volta para casa, no carro de Raquel, foram todos conversando, cada um dando sua opinião sobre aquela tarde.
— Puxa vida, eles moram numa mansão! — exclamou Romualdo, impressionado.
Jamais poderia imaginar que em Belford Roxo existissem casas assim.
Pensei que fosse um lugar de gente pobre.
— Em sua maioria, é mesmo — esclareceu Marcos.
— Mas há gente com dinheiro em todo lugar.
— São pessoas que se habituam ao local, criam raízes e não querem mais sair — acrescentou Raquel.
— E isso tem alguma coisa de mais? — objectou Leontina em tom provocativo, visivelmente irritada.
Raquel ia responder, mas Clementina achou melhor não permitir.
Mudando de assunto, comentou:
— Achei-os simpáticos.
Pensei que fossem snobes, mas até que não são.
— Não são pessoas tementes a Deus — observou Leontina, olhando para Raquel pelo espelho retrovisor.
Pude observar, pelas conversas de dona Bernadete, que eles talvez estejam envolvidos com essas coisas de espiritismo.
Marcos e Raquel se entreolharam.
— Por que diz isso? — perguntou ele.
— Ela falava no filho que morreu como se ele estivesse vivo.
Como se a alma dele pudesse nos ver e ouvir.
Isso é coisa do demónio.
Antes que Raquel retrucasse, Marcos tentou tranquilizá-la:
— Deixe de bobagens, tia Leontina.
Dona Bernadete deve sentir muita falta do filho.
É por isso que fala como se ele ainda estivesse vivo.
— É verdade, minha irmã — concordou Clementina.
Que mãe não sofreria terrivelmente com a morte de seu filho?
A dor deve ser tão grande que é melhor pensar que a alma dele está nos acompanhando.
Você não acha?
— Não. O filho dela está aguardando a ressurreição dos corpos na segunda vinda de Cristo à Terra.
Pensar que a alma de um morto pode acompanhar a vida dos vivos é heresia, coisa do chifrudo.
— Está bem, Leontina, deixe disso — cortou Romualdo.
Ninguém aqui, além de você, acredita nessas bobagens.
— Marcos Wellington sabe do que estou falando! — inflamou-se ela.
E Clementina também, embora prefira agora o caminho do pecado.
— Quem é você para falar em pecado? — objectou Clementina com irritação.
Não é você que está vivendo em adultério?
Uma pequena discussão quase se iniciou, mas Romualdo apertou a mão de Leontina e lançou-lhe um olhar de reprovação, fazendo com que ela se calasse.
Seguiram o resto do percurso em silêncio, cada qual entregue a seus próprios pensamentos.
Depois desse encontro, não foi difícil acertar a mudança.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 08, 2015 10:22 am

Graciliano comprou dois apartamentos em nome de Marcos:
um para ele e a mãe, outro para a tia e o pai.
Nada de muito luxo, mas confortáveis e amplos.
Terminada a mudança, Marcos deixou o emprego no restaurante para trabalhar na empresa do avô.
Todos os dias, após a faculdade, guiava seu carro novo até Belford Roxo, onde, ao lado de Graciliano, aprendia tudo sobre como dirigir uma empresa de ónibus.
Por insistência dele, ganhava um salário elevado, com o qual pôde pagar um bom médico e um hospital particular para fazer a cirurgia de catarata do pai.
Tudo correra conforme o esperado.
Bernadete e Graciliano sentiam-se gratos à vida por ter-lhes permitido reencontrar o neto.
Era uma graça que não esperavam alcançar.
Reconheciam a ajuda de Deus, mas também a cooperação de Afrânio, posto em seu caminho para realizar a tarefa que era parte do plano divino.
No dia seguinte, ao receber o pagamento, Afrânio sentia-se gratificado não apenas financeiramente, mas porque conseguira fazer o seu trabalho com eficiência e rapidez.
Havia ainda um ingrediente especial que o deixava muito feliz:
o bem que causara àquela família.
Não era de seu feitio aceitar qualquer caso que lhe oferecessem.
Tinha escrúpulos e não fazia tudo por dinheiro.
Era preciso que seu trabalho fosse útil, não prejudicasse nem criasse problemas.
Assim como fizera com Marcos Wellington, um dos casos que mais lhe dera prazer em trabalhar.
Dali, Afrânio partiu para outros casos, satisfeito, com a certeza de que, graças a ele, uma família reconquistara a felicidade.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 08, 2015 10:23 am

CAPÍTULO 47

Seguir Marcos não era nada difícil, ainda mais porque ele não conhecia o irmão de Raquel.
Rapidamente, Elói descobriu o trajecto entre a empresa e seu apartamento na Tijuca, arquitectando novo plano.
Custou um pouco para encontrar uma amiga de Paloma que aceitasse encenar uma mentira do tamanho da que ele inventou, mas conseguiu.
Sempre havia quem se interessasse por dinheiro e diversão.
Tudo combinado com Carla, o plano foi posto em execução.
Ainda inseguro na direcção, Marcos dirigia devagar, atento a placas e sinais, sem notar que Carla o seguia de perto, aguardando o momento oportuno.
Um sinal com fiscalização electrónica o assustou ao mudar para o amarelo, levando-o a frear imediatamente.
Era a chance que ela esperava.
Carla acelerou um pouco mais e pisou no freio, entrando directo pela traseira dele.
A colisão fez um estrondo tremendo, atirando o carro de Marcos para a frente, mas ele conseguiu puxar o freio de mão a tempo de impedir que o automóvel ultrapassasse o sinal.
Meio atrapalhado com os pedais, o carro morreu em cima da faixa de pedestres, e ele saltou furioso.
— O que foi que deu em você? — esbracejou ele.
Por acaso é cega?
Uma moça abriu a porta do carro, gritando em desespero:
— Ai, meu Deus, me perdoe!
O que foi que eu fiz? E agora?
Meu pai vai me matar.
Que estúpida eu fui! Tão desatenta!
Também com tudo o que estou passando!
Ela parecia tão descontrolada que Marcos se espantou.
Buzinas começaram a soar, estridentes, e uma pequena retenção se formou atrás deles.
— Vamos estacionar ali — pediu ele, apontando para uma calçada livre.
Depois de estacionados no meio-fio, Marcos voltou para perto dela, que parecia um pouco mais calma.
— Perdoe-me, moço — suplicou ela.
Não fiz de propósito.
Foi uma distracção, uma coisa boba.
Mas não se preocupe: tenho seguro, vou pagar tudo.
Você não vai ter nenhum prejuízo.
— Tudo bem, não estou preocupado.
Basta você me dar o seu telefone que ligarei depois, para saber em que oficina posso levar o carro.
Notando que ele, embora não a acusasse, não se mostrava disposto a uma conversa mais longa, Carla teve que agir.
Abaixou a cabeça, tirou um lencinho de papel da bolsa e, fingindo que chorava, quase suplicou:
— Será que você pode esperar um instante?
Estou nervosa para dirigir e tenho medo de ficar aqui sozinha.
— Não tem para quem ligar?
— Não posso...
Ouvindo seus soluços fingidos, Marcos apertou o ombro dela, falando com paciência:
— Tudo bem.
Mas não precisa ficar assim só por causa de um acidente bobo.
Você mesma disse que tem seguro.
— Meu pai vai me matar...
Ou me expulsar de casa.
De tanto esfregar os olhos com o lencinho, eles se avermelharam e humedeceram, como se ela estivesse chorando.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 08, 2015 10:23 am

— Não precisa ficar desse jeito — retrucou ele, achando aquilo um exagero.
Afinal, foi um acidente.
Seu pai não vai expulsá-la de casa só por causa disso.
— Você não está entendendo — tornou ela chorosa, seguida e disfarçadamente esfregando os olhos para deixá-los ainda mais vermelhos.
Não é disso que tenho medo.
Foi o acidente... — ela forçou um soluço.
Bati no seu carro porque estava com a cabeça no mundo da lua... em Sérgio...
— Sérgio? Não estou entendendo.
— Deixe para lá.
Você não tem nada com isso.
O problema é meu, tenho que resolvê-lo sozinha.
Perdoe-me. Foi o desespero que fez eu me abrir com você.
Olhos pregados no chão, ela fungou baixinho, despertando nele uma piedade inata ante o sofrimento alheio.
— Olhe, não sei do que você está falando, mas se eu puder ajudar em alguma coisa...
— Não pode, obrigada.
Ninguém pode. Você não entenderia.
— Talvez você esteja enganada.
— Não... Só um evangélico para compreender a gravidade do meu erro e a intensidade da minha dor.
— Mas eu sou evangélico! — exultou ele.
— Você é? — desconfiou, e ele assentiu.
Jura?
— Juro.
— Não vai me julgar?
— O julgamento pertence ao Senhor.
Quero apenas ajudá-la, se for possível.
Ela o olhava com disfarçada desconfiança, fingindo hesitar diante de um desconhecido.
— Não o conheço, mas sinto que posso confiar em você.
— E pode mesmo.
Por que não vamos até aquela sorveteria ali?
Você poderá me contar seu problema com mais calma, sem medo.
Não vou lhe fazer mal.
— Está bem — concordou ela, após alguns poucos minutos em que fingia dúvida.
Preciso desesperadamente de um conselho.
Talvez Deus tenha enviado você para me ouvir e me ajudar.
Como são estranhos e misteriosos os caminhos do Senhor!
Juntos, seguiram até a sorveteria próxima.
Sentaram-se, pediram sorvetes, apresentaram-se.
Aparentando agora mais confiança, ela começou a falar:
— A gente pensa que sabe tudo, que nossos pais são uns tolos ultrapassados, até cair nas armadilhas de Satanás.
É aí que nos vemos envolvidos na sua trama diabólica, feita exclusivamente para levar nossas almas à perdição.
— Por que está dizendo isso?
O que foi que lhe aconteceu de tão terrível?
— Vou lhe contar se você prometer que não vai me condenar.
Eu mesma já me condeno o suficiente.
— É claro que não vou condenar você.
Eu nem a conheço.
— Às vezes é mais fácil a gente se abrir com um estranho, não é?
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 08, 2015 10:23 am

— Realmente.
Ela olhou profundamente para ele por alguns instantes, antes de começar a contar:
— Há algum tempo, conheci um rapaz.
Nunca havia namorado antes, apenas flertara com alguns garotos da minha igreja.
Mas esse não era como os outros.
Conheci-o na faculdade e me encantei.
Ele era diferente de tudo o que havia visto.
Bonito, atlético, simpático, inteligente, cativante.
Estudante de odontologia, como eu.
Apaixonei-me por ele, e ele por mim.
No começo, tudo ia bem.
Meus pais não sabiam do nosso namoro, não iriam aceitar porque ele era...
— Era o quê?
— Espírita — respondeu ela, em tom quase inaudível.
Ou macumbeiro, sei lá.
Só o que sei é que Sérgio tinha umas conversas esquisitas, coisas que eu, enfeitiçada, não pude ver.
Sim, porque hoje sei que ele jogou um feitiço em cima de mim só para... — calou-se, sufocada por um soluço imaginário.
— Para...
— Para dormir com ele — confessou baixinho.
— E você dormiu?
O silêncio aparentemente constrangedor foi a revelação.
— Mas isso não foi o pior — sussurrou ela.
— Como assim?
— Por favor, não me peça para dizer.
É constrangedor, vergonhoso.
Foi horrível! Uma coisa antinatural, que a Bíblia condena.
Lembro-me das palavras do pastor:
"Por isso, Deus também os entregou a paixões vergonhosas: suas mulheres transformaram as relações naturais em relações antinaturais"17.
Marcos estava impressionado.
Ela conhecia passagens da Bíblia, sinal de que era muito religiosa.
Mal sabia que aquela fora a única que ela decorara, por ordem de Elói, para dar um ar de maior veracidade a seu teatrinho ensaiado.
Mas ele também sabia o que significava.
Era uma forma sexual desaprovada pela Bíblia.
De tão ingénuo, não percebeu a armação.
Estranhou o facto de que ela confidenciasse coisas tão íntimas a um desconhecido, mas não conseguiu detectar os sinais da mentira em sua fala.
É difícil para quem não tem malícia enxergá-la na atitude alheia.
Como de resto, ninguém percebe no outro características que não possui.
— O que vocês fizeram foi errado — afirmou ele, pouco à vontade.
Mas pode ser consertado.
Você e Sérgio podem se casar e nunca mais retomar essas práticas.
O sexo natural no casamento é abençoado por Deus.
— Isso não vai ser possível.
Sérgio não concorda em parar.
— Ele não a ama?
— Não sei — desabafou ela, caindo num pranto que havia muito tentava puxar.
— Vocês precisam conversar.
Se ele a ama, vai compreender e parar.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 08, 2015 10:23 am

— Você não o conhece.
Sérgio é uma pessoa difícil.
E hoje, passou dos limites.
— O que ele fez?
— Foi por causa dele que bati no seu carro.
Encontramo-nos em um motel, ele exigiu que eu permitisse aquilo novamente.
Como me recusei, ele me pegou à força e me obrigou.
Eu chorei, implorei que ele me largasse, que estava me machucando, mas ele não ligou.
Quando me soltou, eu estava arrasada, humilhada.
Ele riu de mim, dizendo que era bobagem, que já havíamos feito aquilo outras vezes e eu estava fazendo drama.
Disse a ele que era pecado e queria parar.
Ele disse que não permitiria e, se eu me recusasse, ele procuraria meu pai e contaria tudo.
Fiquei desesperada. Vesti-me e saí correndo do motel.
Ele nem ligou quando entrei no carro feito uma louca.
Saí desabalada, cantando pneu, dirigindo sem pensar.
Aí você parou no sinal, eu não vi e bati no seu carro.
— Você devia denunciar esse safado! — aconselhou Marcos, entre a raiva e a indignação.
Onde já se viu uma barbaridade dessas?
— Denunciá-lo seria impossível, e ele sabe disso.
Não posso me expor perante meus pais e toda a igreja.
— Mas esse Sérgio não pode ficar sem punição!
— Até parece que alguém vai punir um homem.
Sou maior de idade, fui ao motel porque quis.
E ele nunca me bateu.
Como provar que foi à força?
Marcos deduziu que ela devia estar muito desesperada para abrir-se com ele como se fossem velhos amigos.
Talvez ela fosse uma pessoa só, sem amigos, iludida pelo primeiro cafajeste que lhe dera atenção.
E, quando encontrou alguém que, embora estranho, era também evangélico, a afinidade logo surgiu, levando-a a confiar nele.
— Você está certa — disse ele, agora profundamente penalizado, sentindo imensa empatia por ela.
Não pense mais assim.
Você errou, como todo ser humano.
Arrependa-se de seu pecado e volte para Jesus.
— É o que pretendo fazer.
Se eu mostrar que me modifiquei, você acha que ele irá me perdoar?
— Tenho certeza de que sim.
— Ah! Marcos, você nem imagina o que passei.
Só agora compreendo por que meus pais insistem tanto em que eu namore um rapaz da igreja, uma pessoa com princípios.
Essa gente que se diz espiritualista tem uma conversa macia, muito liberal, tudo é permitido.
Para eles, nada é pecado.
E depois que a gente cede, querem mais e mais, e nós vamos nos afundando nas furnas do inferno com eles.
Tenha cuidado com essa gente, Marcos.
Se um dia conhecer alguém assim, fuja depressa.
São pessoas malignas, com aparência de boazinhas.
Lobos em pele de cordeiro.
No fundo, no fundo, o que querem é desvirtuar nossas almas.
São anjos caídos a serviço de Satanás.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 08, 2015 10:23 am

Seus gestos doces e sua voz meiga são os veículos do diabo para enganar os incautos.
Marcos silenciou, pensando em Raquel.
Ouvir o relato de Carla o deixara deveras impressionado.
A situação da moça era muito semelhante à sua.
Só que Raquel não era igual àquele Sérgio.
— Será que todos são assim? — divagou ele.
— Não se iluda, todos são assim.
Não há verdade fora das Escrituras sagradas, e eles rejeitam e menosprezam a palavra de Deus.
No começo, podem parecer muito bons, compreensivos, amiguinhos.
Vão nos envolvendo numa teia de pecados da qual fica difícil sair depois.
Foi o que aconteceu comigo, mas vou mudar.
Juro que vou me voltar para Jesus e só vou sair com outro rapaz se for para me casar, caso ele me perdoe.
— Sabe, Carla, eu também tenho uma namorada que se diz espiritualista.
— Oh...! Perdoe-me, eu não sabia.
— Mas Raquel não é assim.
É uma pessoa boa, carinhosa, compreensiva.
— Sérgio também era.
Fazia tudo o que eu queria, tinha ideias que, a princípio, considerei extravagantes, porém, coerentes.
Ele quis conhecer a minha família, mas eu não deixei, com medo da reacção dos meus pais.
Sentava-se sempre comigo na faculdade, me defendia dos comentários maldosos dos outros colegas, que faziam referências pejorativas a minha religião.
Era prestativo e muito atencioso.
Fazia tudo para mim.
Estudávamos juntos, e ele nunca me contrariava.
Embora dissesse que seguia outra crença, dizia respeitar e aceitar a minha.
"Todas as religiões levam a Deus", dizia ele.
Pois sim. O que ele pratica não pode ser chamado de religião.
Falar sobre o universo, cosmo, corpos subtis, afinidades, energias, consciência, reencarnação...
Tudo são heresias criadas por Satanás para nos iludir.
Para ele, nada é pecado, nem sexo antes e fora do casamento.
Uma luz de alerta se acendeu na mente de Marcos.
Era muita coincidência.
Raquel conversava com ele exactamente sobre aquelas coisas.
Nem de longe Marcos imaginava que Elói, conhecendo bem os pensamentos e ideias da irmã, instruíra Carla direitinho, orientando-a na escolha das palavras exactas que deveria usar com ele.
— Acho que já está na hora de eu ir embora — anunciou ele, o rosto transfigurado pela dúvida.
— Sim, está ficando tarde.
Já ocupei demais o seu tempo com os meus problemas.
— Foi um prazer ouvi-la.
Espero tê-la ajudado.
— Você me ajudou muito.
Vou terminar de vez com Sérgio e voltar para a igreja.
Ninguém precisa saber o que aconteceu.
Juro que vou me redimir, participar das vigílias, empregar o meu tempo em orações.
Vou modificar a minha conduta, com sinceridade, e conquistar o perdão de Deus.
E, se ele me julgar digna, pode me permitir encontrar um bom homem, sossegado e apegado aos valores cristãos, que me perdoe e me ajude a me redimir dos meus pecados.
— Faça isso.
Tenho certeza de que você vai conseguir.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 08, 2015 10:24 am

— Vou deixar com você o número do meu celular e apanhar o seu.
Vou verificar com a seguradora em que oficinas você pode levar o carro e ligo para você. Não se preocupe.
— Não estou preocupado. Confio em você.
Depois de trocarem os números de telefone, Marcos a acompanhou até o carro, surpreendendo-se imensamente quando ela lhe deu um beijo amistoso na face.
— Isso é por ter sido tão amigo sem me conhecer.
No fundo, é do que mais preciso: de um amigo.
Não tenho nenhum.
— Agora tem.
Ela se foi, deixando-o pensativo a respeito de tudo.
Uma comparação com Raquel era inevitável.
Carla e ele tinham muito em comum: eram evangélicos, apaixonaram-se por pessoas espiritualistas e fizeram sexo antes do casamento.
Mas Raquel, ao contrário de Sérgio, respeitava suas opiniões e sua religião.
Não era fingida nem devassa.

17 Romanos, 1:26.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 08, 2015 10:24 am

CAPÍTULO 48

Ao encontrar-se com Raquel no dia seguinte, Marcos estava diferente.
O amor ainda era o mesmo, contudo, algo dentro dele se modificara.
O encontro com Carla fizera-o reflectir sobre sua vida, mostrando-lhe o que acontecia quando se desviava do caminho da igreja.
Carla pegara esse desvio e se dera mal.
Iludira-se com um homem que julgava correcto.
Não estaria ele fazendo o mesmo com Raquel?
Não, Raquel era diferente.
Podia ser liberal, mas era decente.
Ou será que não era?
Seus pensamentos eram estranhos, ousados, heréticos...
Afastou essa última palavra da mente e puxou-a para ele, beijando-a como se desejasse sufocar a dúvida.
— O que houve com seu carro? — indagou ela, assim que ele a largou.
Bateram em você?
— Foi. Uma mulher no sinal.
Mas está tudo bem.
Ela tem seguro e vai pagar.
— Que bom.
Foram para o motel. Raquel, como sempre, demonstrava-se apaixonada e calorosa, mas Marcos estava diferente, frio, distante.
Ele sempre fora um pouco comedido, ainda apegado aos valores religiosos que recebera sobre sexo, mas costumava entregar-se por inteiro.
Naquele momento, contudo, parecia arredio, reclamando das coisas que ela fazia, evitando tocá-la ou ser tocado em suas partes mais íntimas.
Ao final, ele se desenvencilhou dela e foi apanhar uma água mineral, sorvendo-a com avidez.
Ligou a televisão e cobriu-se com o lençol, jogando parte dele sobre o corpo nu de Raquel.
— O que você tem? — questionou ela, retirando a garrafa da mão dele e bebendo um gole.
— Nada — respondeu rapidamente e indagou de chofre:
— O que você acha de sexo anal?
Tomada de surpresa, ela respondeu com cautela:
— Particularmente, não aprecio, mas há quem goste e não vejo nada de mais.
— Você não acha errado?
— Não.
— Nem perigoso?
— Depende.
Sem camisinha, pode ser, devido à transferência de bactérias intestinais.
— Só por isso?
— Só. Por quê?
— Você faria, se eu pedisse?
Ela o fitou espantada.
Era a primeira vez que Marcos lhe fazia perguntas sobre sexo.
Com cuidado, ela respondeu:
— Olhe, Marcos, já disse que não gosto muito.
Mas, se for importante para você, tudo bem.
Podemos tentar.
Marcos olhou para ela decepcionado.
Aquilo nunca lhe passara pela cabeça, nem de longe, tamanha a repulsa que lhe causava.
Era algo inimaginável para o verdadeiro cristão.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 08, 2015 10:24 am

Mas Raquel não era cristã.
Nem sabia ao certo o que ela era.
Não devia ficar admirado porque ela concordara tão facilmente.
— Sabia que isso é pecado? — irritou-se.
Ela notou a irritação dele e rebateu indignada:
— Se acha que é pecado, por que me pediu?
Ele não respondeu.
— Não vá me dizer que foi só para saber qual seria a minha resposta.
— E se foi? — desafiou.
— Não estou entendendo.
Está querendo me testar?
Isso é ridículo.
— Por quê?
Porque você não dá a mínima para a Bíblia e desafia a lei de Deus com suas heresias?
Ela o encarou com mágoa.
Não fazia o estilo de Marcos aprontar armadilhas.
— O que foi que houve, Marcos?
Desde quando você deu para ser capcioso?
— Não se trata disso — defendeu-se aturdido.
Eu só não imaginei que você fosse concordar tão rapidamente com algo que você mesma disse que não gosta.
— Pensei que você quisesse.
— E porque eu quero, você faz?
— Faria porque o amo.
Não gosto, mas, em nome do nosso amor, estava disposta a experimentar.
Será que é errado querer sentir prazer com o parceiro?
— Será que é certo sobrepujar os valores que a Bíblia nos ensina só para fazer a vontade do outro?
— Você está sendo injusto — queixou-se ela, com lágrimas nos olhos.
Primeiro, porque não acredito que seja pecado.
Nada que se faz com amor pode ser pecado.
Segundo, porque, mesmo não gostando, me dispus a tentar não propriamente para agradar você, mas para buscar uma satisfação plena de nós dois.
Se você fica feliz, consequentemente, fico feliz também.
— E, para isso, você está disposta a se ultrajar.
— Não é nada disso.
Ia tentar algo de que não gosto em nome do nosso amor.
Se desse certo, óptimo.
Mas, se eu não gostasse, logo de início lhe diria, confiante no seu respeito por mim. Isso é amor, Marcos.
Não vê a diferença?
Ele não sabia o que dizer.
Fora longe demais, magoara Raquel por causa do que ouvira de uma desconhecida.
E se não recriminara Carla pelo que fizera, por que recriminar Raquel por algo que ela nunca chegara a fazer?
— Desculpe — falou ele, abraçando-a com cuidado.
Não devia ter dito isso.
— Devia, sim.
Não quero que você esconda nada de mim.
Eu só acho que a armadilha foi desnecessária.
Quando a gente pergunta uma coisa, tem que ter maturidade para ouvir a resposta.
Se não, é melhor nem perguntar.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 08, 2015 10:24 am

— Tem razão, perdoe-me.
Às vezes me deixo levar pela minha origem evangélica e me esqueço de que você não compartilha com as minhas crenças.
— Não é bem assim.
Existem coisas que não me convencem, como essas de pecado.
A observação dela o irritou novamente.
Não acreditar em pecado era uma óptima justificativa para seguir pecando.
Contudo, não queria mais se indispor com ela.
Por amá-la muito, achou melhor engolir possíveis recriminações.
Afinal, quando a conhecera, sabia que ela era assim.
Não devia se surpreender nem se decepcionar com o comportamento ímpio dela.
— Vista-se — ordenou, tentando não parecer muito incisivo.
Já é tarde.
— Por que a pressa?
Amanhã é sábado.
— Estou cansado.
Trabalhei demais hoje.
— O que aconteceu com você, Marcos?
Por acaso não me ama mais?
Arrependido por tê-la ofendido, Marcos mudou o tom de voz:
— Olhe, Raquel, perdoe-me.
Não estou bem hoje.
Foram muitas mudanças na minha vida, tudo aconteceu depressa demais.
E minha tia vive recitando a Bíblia sempre que vai lá em casa.
Para completar, ainda bateram no meu carro.
— Você não disse que a mulher vai pagar?
— Vai, mas fiquei chateado
Meu primeiro carro, novinho, e acontece isso.
Não deixa de ser um transtorno, ainda mais porque agora o meu tempo é curto.
— Se você quiser, posso levá-lo à oficina para você.
— A mulher ainda vai me ligar para me dar a relação das oficinas autorizadas pela seguradora dela.
— Tudo bem.
Assim que ela ligar, avise-me.
Levo o carro lá e cuido de tudo.
Marcos não conseguiu evitar a lembrança de Carla contando como Sérgio era prestativo, exactamente como Raquel estava sendo agora.
— Não precisa se incomodar — objectou ele.
Esse negócio de oficina não é para mulher.
— Que preconceito bobo!
— Não é preconceito.
É um lugar frequentado por homens sujos, mal-educados, que têm sempre um palavrão na boca.
— Tudo bem, se você prefere assim.
Mas, por mim, eu não ligo.
Por que será que ela não ligava?
Qualquer mulher se sentiria constrangida em lugares como oficinas, onde a educação passava longe.
Raquel, contudo, dizia não se importar.
E Carla? Será que se sentiria incomodada numa oficina mecânica?
Na certa que sim.
Um lugar cheio de homens não é o mais adequado para uma moça evangélica.
Podia ser para as que se diziam espiritualistas, que não eram dadas a sentir vergonha.
Mas para uma verdadeira moça cristã não era nada aconselhável.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 08, 2015 10:25 am

— Eu levo, Raquel, pode deixar — arrematou ele.
— Está bem.
O carro é o menos importante.
Estou mais preocupada connosco.
— Não devia se preocupar — afirmou ele, segurando a mão dela.
Continuo amando-a como antes.
— Tem certeza?
— Absoluta.
Perdoe-me novamente e procure esquecer todas as bobagens que lhe disse.
— Está certo. Se você tem certeza...
— Tenho certeza.
— Óptimo, porque preciso lhe falar sobre outro assunto.
— Que assunto?
— Acho que está na hora de você conhecer os meus pais.
Eles querem muito conhecê-lo.
Gostaria de marcar um jantar lá em casa.
— Vamos dar mais um tempo — pediu ele, pouco à vontade com a ideia.
Ainda não me sinto preparado.
— Por que não?
Qual vai ser a desculpa agora?
— Desculpa nenhuma.
Só acho que ainda não é o momento.
— Nós já estamos namorando há mais de um ano, e meus pais só conhecem você de nome.
Daqui a pouco, eles vão achar que você é virtual ou os está evitando.
— Deixe de histórias, Raquel.
Você sabe que não é nada disso.
— Não sei, não.
Honestamente, Marcos, se você não quer ir, só pode ser porque não leva a sério o nosso namoro.
— Você sabe que não é isso — rebateu, meio inseguro, mas depois concordou:
— É, acho que você tem razão.
Não temos mais por que adiar esse encontro.
— Você vai gostar dos meus pais.
Meu irmão é meio bestinha, mas deixe-o para lá.
— Tudo bem, acho que consigo lidar com ele.
E para quando você pretende marcar esse jantar?
— Vou ver com a minha mãe e o aviso.
Talvez no próximo sábado ou domingo.
— Certo. Mas vou só, está bem?
— Como você quiser.
O principal é a sua presença.
— Óptimo. Marque e me avise.
Depois de deixá-la em casa, Marcos seguiu seu caminho pensando em tudo o que lhe acontecera nos últimos dias.
Não conseguia evitar a comparação entre Raquel e Carla.
As duas eram lindas.
Raquel era muito segura de si, ao passo que Carla era uma moça frágil e delicada.
Não era isso, contudo, que lhe chamara a atenção em Carla, mas o facto de ela professar a mesma religião que ele.
Podia pertencer a uma vertente diversa, mas a base era a mesma.
Como evangélica, compreenderia todos os conflitos que ele tivera que enfrentar para namorar Raquel.
Mesmo porque, vivia conflitos semelhantes.
Os pensamentos de Carla guardavam imensa similitude com os dele.
Ela acreditava nas mesmas coisas que ele, via a vida com os mesmos olhos cristãos.
Até mesmo sua iniciação no sexo fora parecida com a dele.
Ambos se deixaram seduzir por aqueles por quem estavam apaixonados e que diziam amá-los.
Raquel, porém, realmente o amava.
Aquele Sérgio podia ser um cafajeste, mas Raquel era honesta e correcta.
E era ela que ele amava.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 08, 2015 10:25 am

CAPÍTULO 49

Enquanto Marcos agasalhava no coração as dúvidas que Carla, maliciosamente, nele implantara, ela mantinha secreto encontro com Elói, quando, às gargalhadas, tramavam os próximos passos de sua farsa.
— Como vamos fazer para consertar o carro dele? — indagou ela, dando uma tragada no cigarro.
— Primeiro, você tem que se acostumar a não fumar — censurou ele, tirando-lhe o cigarro da boca e apagando-o no cinzeiro.
Onde já se viu uma evangélica fumante?
— Ora, Elói — protestou ela.
Marcos não está aqui.
— Mas vai sentir esse cheiro a distância.
— Quando tiver que me encontrar com ele, não fumarei.
Mas agora, deixe de ser chato e me devolva o cigarro.
Ela retirou o cigarro do cinzeiro e acendeu-o novamente.
Deu uma baforada longa, encarou Elói e continuou:
— Você ainda não respondeu a minha pergunta.
Quem vai pagar o conserto?
— Seu carro não tem seguro?
— Tem, mas assim vou perder o bónus no ano que vem.
Não pensamos nisso quando combinamos a batida.
— Eu cubro o seu bónus.
Pago a franquia e mais uma compensação, além da que já lhe ofereci.
— Tudo bem.
Vou ligar para ele, então.
— Você já tem a relação das oficinas?
— É claro!
— Então, o que está esperando?
Ligue logo para ele.
Carla apanhou o celular e telefonou para Marcos, que estava no trabalho.
Reconhecendo o número dela, ele atendeu imediatamente.
— Alô?
— Quem fala? É o Marcos?
— Ele mesmo.
— Oi, Marcos, aqui é a Carla. Lembra?
A doida que bateu no seu carro, na sexta passada.
Ouvir a voz dela lhe causou estranha comoção, e só então ele percebeu que passara os últimos dias ansiando por aquele momento.
— É claro que me lembro.
Só não acho que você seja doida.
— Tudo bem, você é mesmo um cavalheiro.
Estou ligando porque já tenho a relação das oficinas.
Você quer anotar?
— Pode falar.
Ele ouviu os endereços e tomou nota de um perto de sua casa, ouvindo atentamente as instruções dela sobre o procedimento que deveria adoptar.
— Anotou direitinho?
— Sim. Obrigado.
— Bem, então é isso.
Qualquer coisa, é só me ligar.
Boa sorte e, mais uma vez, desculpe o transtorno.
— Obrigado, Carla.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 09, 2015 12:10 pm

— Até logo.
— Até...
Ela desligou, deixando-o com o telefone na mão, fitando o horizonte pela janela.
Na outra ponta da linha, Elói quase saltou sobre ela.
— Você desligou?
Ficou louca?
— Temos que ir com calma ou ele vai se assustar e fugir.
Se ele está realmente apaixonado pela sua irmã, não vai se interessar por mim só porque estou dando em cima dele.
Pelo contrário.
Vai acabar me achando vulgar e oferecida, ainda mais depois da história que lhe contei.
Ele tem que pensar que sou frágil e desprotegida, não uma tarada em busca de sexo.
— Tem razão.
Mas como é que você vai fazer para se reencontrar com ele?
— Simples.
Vou telefonar para saber se o serviço ficou bem-feito.
Tenho certeza de que ele vai puxar conversa comigo.
— Acho bom que isso aconteça.
E lembre-se de não fumar e perfumar o hálito.
Não queremos estragar tudo por causa desse maldito vício, não é mesmo?
No fim da tarde, Marcos levou o carro à oficina, deixando-o lá para ir buscá-lo no outro dia.
Quando, na saída, o celular tocou, ele o apanhou com ansiedade, olhos vidrados no visor à espera de ver ali grafado o número de Carla.
Ficou decepcionado.
Era Raquel. Atendeu com uma contrariedade que nem mesmo ele percebeu.
— Alô?
— Oi, meu bem.
Onde você está?
— Na oficina.
Acabei de deixar o carro para consertar.
— Está a pé?
— Estou.
— Vai para casa?
— Vou.
— Quer que eu vá buscar você?
Estou morrendo de saudades.
O interesse dela balançou seu coração.
Afinal de contas, Raquel sempre se importara com ele.
No seu íntimo, sabia que a amava, embora reconhecesse estar encantado com Carla.
Entre o remorso e a saudade, sentiu uma vontade louca de estar com Raquel.
— Venha — concordou ele, a voz cheia de amor.
Também estou louco para ver você.
Coração aos pulos, Raquel desligou.
Nos últimos dias, Marcos andava estranho.
Embora não houvesse mais tocado no assunto que quase os levara a brigar no motel, ele demonstrava um desinteresse desconcertante por sexo.
— Oi, meu amor — cumprimentou ele, dando-lhe um beijo mais caloroso do que o habitual.
Ela correspondeu com alegria, abraçando-o bem apertado.
— Que saudades!
Nem parece que nos vimos ontem.
Na portaria do edifício, Marcos fez sinal para o porteiro abrir o portão da garagem, a fim de que
Raquel estacionasse o carro numa de suas duas vagas.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 09, 2015 12:10 pm

— Vamos subir? — convidou ele.
Estou morrendo de fome.
Com essa de passar na oficina, pedi para sair mais cedo do trabalho e nem tive tempo de almoçar.
Subiram abraçados.
Clementina, sentada na sala, assistia a um filme num canal de TV por assinatura.
— Olá, crianças — cumprimentou ela.
— De novo na frente da televisão, mãe?
— Nunca vi tanta TV, desde que deixei de trabalhar.
E esses canais pagos são uma maravilha.
Passa filme toda hora.
Adoro filmes, mas confesso que estou ficando um pouco preguiçosa.
— Bobagem, dona Clementina — cortou Raquel, dando-lhe um abraço.
A senhora já trabalhou muito, e ainda trabalha, cuidando da casa e do Marcos.
Seu descanso é mais do que merecido.
— Estou com fome, mãe.
Tem alguma coisa para comer?
— O jantar já está pronto.
Vou pôr a mesa.
Ela foi para a cozinha, deixando Marcos e Raquel a sós na sala.
— O que pretende fazer depois do jantar? — indagou ela, maliciosamente.
Por que não vamos lá para o quarto e aproveitamos a sobremesa?
— Será possível que você só pensa em sexo? — retrucou ele rindo, mas com um tom de censura quase imperceptível na voz.
— Você não gosta?
— Gosto. Mas minha mãe está em casa.
— E daí? Ela sempre está e nunca se importou.
Nem sequer bate à porta do quarto ou pergunta o que estamos fazendo.
— Isso porque ela já sabe e nos respeita.
Mas será que nós a estamos respeitando?
— Se ela não se incomoda, não vejo por que não a estaríamos respeitando.
— Garanto que, na sua casa, você não faria isso.
— É diferente — disse ela, com uma pontinha de mágoa.
— Eu moro com meus pais, na casa deles.
Aqui, sua mãe é que mora com você, na sua casa.
— Dá no mesmo.
— O que há, Marcos?
Por que, de uma hora para outra, você deu para recriminar tudo o que eu faço?
Por acaso está arrependido de ter começado a me namorar ou simplesmente está cansado de mim?
Seja o que for, pode dizer.
A explosão dela tinha fundamento.
Na mesma hora, ele se arrependeu, não tinha motivos para tratar Raquel daquele jeito.
— Venha cá, querida — falou com doçura, puxando-a para si.
Perdoe-me. Não estou arrependido nem cansado de você. Eu a amo.
— Então, por que está me tratando assim?
O que foi que eu fiz?
— Nada. Não é você, sou eu.
Acho que ainda não consegui digerir direito tudo o que me aconteceu.
— Até quando as mudanças na sua vida vão servir de desculpas para o seu comportamento arredio?
— Não são desculpas.
Se quer saber, o que acontece mesmo é que tenho sentido falta da igreja.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 09, 2015 12:10 pm

Sempre gostei da igreja, mas, depois que começamos a namorar, nunca mais frequentei os cultos. Isso está me fazendo um certo mal.
— Não é culpa minha se você não vai à igreja.
Mais uma vez, você usa uma desculpa para justificar seus actos.
Só que não quero que essa desculpa seja eu.
Nunca lhe pedi para não ir à igreja ou a qualquer outro lugar.
Você é livre e respeito sua liberdade.
— Não se importa mesmo que eu vá?
— Você sabe que não.
Se quiser, posso até acompanhá-lo.
— Mas não vai acreditar em nada do que ouvir.
— Não se trata disso.
Acreditar, eu acredito, só que a leitura que eu faço das coisas sagradas é diferente.
Nós já conversamos sobre isso muitas vezes.
— Tem razão.
Então, acho mesmo que vou voltar a frequentar os cultos.
A palavra do pastor é sempre esclarecedora.
— Óptimo. Só espero que você não mude de ideia quanto a mim e ao nosso namoro.
— Por que diz isso?
— Parece que o sexo o incomoda.
Não vai voltar atrás, vai?
— É com isso que está preocupada?
Com sexo?
— Também.
— Não se preocupe.
Quero voltar à igreja para conforto da minha alma.
Não tem nada a ver com você.
Não tinha, de verdade.
Tinha a ver com Carla, facto que Marcos não admitia nem para si mesmo.
Sentia falta dos cultos sim, mas somente porque conhecera Carla, que despertara nele o desejo de retornar à igreja.
E se Carla fosse sua namorada, em lugar de Raquel?
Não precisaria fingir nem se aborrecer.
Não seria tudo perfeito?
Pensar nessa possibilidade assustou-o imensamente.
Gostara de Carla porque ambos professavam a mesma religião, partilhavam ideias semelhantes.
Seria bom manter um relacionamento com ela, não estivesse ele apaixonado por Raquel.
Imaginar a vida sem Raquel abriu um vazio em sua alma.
Não podia substituí-la por nenhuma outra mulher.
Com essa certeza, puxou Raquel e deu-lhe um beijo amoroso, para depois concluir:
— Daqui a pouco, vamos para o quarto.
Quero amar você muito, mas muito mesmo... para sempre.
Você é a mulher que eu amo.
Dali em diante, ele conseguiu afastar Carla de seus pensamentos, certo de que jamais tornaria a vê-la ou falar com ela.
No fundo, entendia por que ela mexera tanto com ele.
Mas fora uma impressão passageira, uma fantasia de momento, algo que não poderia alimentar por faltar o ingrediente essencial do amor.
Era Raquel que ele amava.
Se tivera dúvidas naqueles dias, elas já se haviam dissipado só com a perspectiva de ficar sem ela.
Terminado o jantar, permaneceram algum tempo conversando com Clementina, até que ela adormeceu diante da televisão, e eles se retiraram para o quarto, em silêncio.
Deixaram-se ficar abraçados por muito tempo, mesmo depois do completo anoitecer, presos na emoção daquele momento.
A faculdade ficou esquecida, o carro batido deixou de existir e Carla desapareceu sob as carícias de Raquel, que suplantaram todas as incertezas que Marcos julgava ter.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 09, 2015 12:11 pm

CAPÍTULO 50

Satisfeito com o conserto do carro, Marcos pensou em ligar para Carla e agradecer.
O medo, contudo, levou-o a desistir.
Talvez não fosse uma boa ideia falar com ela novamente.
A fragilidade de Carla poderia levá-la a alimentar falsas ilusões, caso ele insistisse em procurá-la.
Na verdade, Marcos temia por si mesmo.
Receava, mais uma vez, utilizar-se de desculpas para obter o que realmente queria.
Ela, por sua vez, ligara para a oficina e ficara sabendo do prazo para os reparos.
Aguardou um dia e telefonou para Marcos, sob o pretexto de saber se o conserto ficara bom.
Era hora do intervalo na faculdade, como Elói lhe dissera.
Marcos, certamente, estaria ao lado de Raquel.
Realmente, os dois, juntamente com Arnaldo e Paulo, discutiam um caso a uma mesa da cantina.
Na outra ponta, Nelson os olhava com rancor, sem se atrever a se aproximar, apenas aguardando o resultado do plano.
Marcos consultou o visor do celular e hesitou.
— Não vai atender? — perguntou Raquel, vendo-o parado com o aparelho na mão.
— Hã? Melhor não.
— Por quê? Quem é?
— A mulher que bateu no meu carro.
— Ora, Marcos, então você tem que atender.
— Por quê? Ela é muito chata.
— Ela deve estar querendo saber se está tudo ok.
Arnaldo e Paulo pareciam não ter se dado conta do telefonema, de tão entusiasmados com a discussão.
Por que justo Raquel fora notar?
— Tem razão — concordou ele desanimado, pressionando a tecla do celular.
Alô? Ah... oi, Carla... Sim, foi consertado...
Está tudo bem, obrigado... Tchau...
Desligou rapidamente.
Sorriu para Raquel, deu de ombros, tentando reintegrar-se ao debate com os amigos.
Não conseguiu. Ouvia tudo sem compreender.
De vez em quando, dava uma opinião superficial, que os amigos rechaçavam com argumentações poderosas.
Ele nem ligava.
Estreitou Raquel com o braço e desistiu de falar.
Carla, por outro lado, mal continha a indignação.
Esperava uma recepção mais calorosa.
Se Elói soubesse que ela estava perdendo terreno, ia se decepcionar com seu trabalho, e adeus dinheiro.
Pensando bem, talvez não fosse isso.
Com a namorada ao lado, Marcos não podia falar direito.
Isso significava que não seria boa ideia ligar de novo.
O que precisava fazer era dar um jeito de provocar um novo encontro casual.
Poucos dias se passaram antes que Carla conseguisse uma nova investida.
A distância, seguiu Marcos em seu carro, aguardando uma oportunidade de se aproximar.
Cedeu a vez a alguns veículos, impediu a passagem de outros.
Por fim, perto de onde haviam batido, conseguiu posicionar-se ao lado dele no sinal vermelho.
Distraído como sempre, Marcos não notou a presença dela.
Ouviu uma buzina insistente, olhou pelo espelho, mas não viu nada.
Só percebeu que era ela quando o vidro do carro ao lado baixou e uma voz familiar chamou o seu nome:
— Marcos! Ei, Marcos, sou eu!
— Carla! — surpreendeu-se ele.
Você por aqui de novo?
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 09, 2015 12:11 pm

— Moro logo ali — apontou para um lugar inexistente.
E você?
— Também.
— Que coincidência, hein?
Com a mudança do sinal, buzinas impacientes soaram atrás deles.
Carla se adiantou e ligou a seta para a esquerda, sinalizando que ia parar.
Sem graça de seguir adiante, Marcos estacionou atrás dela.
Saltaram quase ao mesmo tempo, ela, já com a mão estendida para ele.
— Como vai? — perguntou de forma gentil, porém, formal.
— Bem, e você?
— Bem também.
E o carro ficou bom?
— Perfeito.
— Você escolheu uma boa oficina — elogiou, vistoriando a traseira do automóvel.
Nem dá para perceber que houve uma batida.
— Foi só uma batidinha à toa.
Fingindo embaraço, ela olhou dele para o chão e murmurou hesitante:
— Sabe o Sérgio? — Ele assentiu.
Terminei tudo com ele.
— Não me diga! E aí?
— Ele ficou furioso, mas acabou aceitando.
— Parou de ameaçá-la?
— Parou. Acho que se convenceu de que eu não valia tanto a pena assim.
— Não diga isso, Carla.
Você é uma pessoa de muito valor, principalmente pela sua coragem.
— Eu não teria conseguido sem você.
— Eu?! Mas eu não fiz nada.
— Fez muito mais do que imagina.
Você é um bom cristão, respeita as Escrituras.
Foi o seu exemplo que me deu forças para enfrentar o Sérgio, pedir perdão a Deus e me modificar.
Ele enrubesceu diante da imagem que Carla criara dele.
Há um bom tempo não se considerava um bom cristão.
— Não sei se respeito tanto as Escrituras como você pensa.
— Como assim?
Você me pareceu tão seguro na sua fé.
— Deixemos isso para lá, sim?
O importante é que você conseguiu se libertar daquele infame.
— E me voltei para Jesus. Aleluia!
Ela jogou as mãos para o céu e fechou os olhos em aparente contrição, mas, na verdade, tentava não encará-lo, para não cair na gargalhada.
Que papel risível estava fazendo.
Esperava que nenhum conhecido a visse naquela situação absurda, irreal e ridícula.
O teatro, no entanto, surtiu o efeito desejado.
Enquanto ela ocultava a comicidade, ele reflectia na fé.
"Também eu devia me voltar para Jesus", pensou.
"Há muito o abandonei."
Com esse pensamento, ele tocou de leve o ombro dela, que finalmente abriu os olhos.
— Onde fica a igreja que você frequenta? — indagou interessado.
Prevendo aquela possibilidade, Elói preparara tudo.
Fizera Carla frequentar uma igreja bem grande pelas redondezas, de forma a dificultar que alguém a reconhecesse.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 09, 2015 12:11 pm

Ela detestava aquele culto, ou qualquer outro, porém, não tinha jeito.
O plano tinha que sair certinho, ou Marcos não iria se convencer.
— Por acaso é aqui perto — informou ela, vitoriosa.
— Fico muito feliz — fez uma pausa e continuou pensativo:
— Agora veja, o tempo todo você aqui pertinho de mim, e tivemos que nos conhecer em circunstância tão desastrosa.
— Vai ver já nos esbarramos muito aqui pelo bairro, mas, como não nos conhecíamos, não nos demos conta.
— É verdade.
E agora que nos conhecemos, parece que, coincidentemente, nos encontramos sempre.
— Não exagere, Marcos.
Essa é a segunda vez.
A cumplicidade que antes surgira entre eles começava a ganhar forma.
Marcos se pegou adiando a hora de ir embora, sua vontade era ficar ali conversando com ela.
O celular dele tocou. Era Raquel.
Pela primeira vez, não sentiu vontade de atender, mas o remorso o incomodou e ele premiu a tecla correspondente.
— Alô?
— Oi, querido, onde está?
— Estou na rua.
Quando chegar em casa, ligo para você.
Desligou apressado e fitou Carla, que parecia sem graça.
— Era a sua namorada?
— Era sim.
— Sérgio sempre queria saber onde eu estava.
Ficava o tempo todo me controlando.
— Raquel não me controla — objectou ele, irritado consigo mesmo por dar razão a ela.
— Eu não disse isso. Estou falando de Sérgio.
Raquel deve ter outros motivos para ligar para você.
Na certa o ama.
— E eu a ela.
Havia um tom de desafio na voz dele que Carla imediatamente percebeu.
Não era ainda a hora de confrontar-se com Raquel.
— Fico feliz por você.
Tem sorte de amar e ser amado.
Propositadamente, ela imprimiu uma nota de tristeza a suas palavras, despertando nele mais do que compaixão, um enorme desejo de confortá-la.
— Não fique triste — disse ele, compassivo.
Você também vai encontrar alguém que a ame.
— Espero que seja alguém feito você, capaz de perdoar os pecados de uma mulher, mesmo não tendo cometido pecado nenhum.
— Como você sabe que não cometi nenhum pecado? — exasperou-se, maldizendo a si mesmo por se deixar incomodar tanto com o que ela dizia.
— Perdão, estou sendo indiscreta — contemporizou em tom humilde.
Não são comentários que se faça.
Não tenho nada com isso.
— Não, sou eu quem deve lhe pedir desculpas.
Acabei sendo grosseiro sem querer.
Mas é que você faz uma ideia um pouco romântica de mim.
Esse homem perfeito não sou eu.
— Não tem importância.
O que você faz da sua vida não é problema meu.
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Ave sem Ninho

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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 09, 2015 12:11 pm

Aflito para remediar a situação e não deixar marcada uma imagem rude, Marcos acabou se abrindo:
— Mas somos amigos e podemos confiar um no outro, não é?
— Sim, claro, podemos.
— Pois vou lhe confessar uma coisa, Carla.
Ela o olhou curiosa, e ele prosseguiu bem baixinho:
— Raquel e eu fazemos coisas semelhantes ao que você e Sérgio faziam.
Ela não era mais virgem quando a conheci, de forma que sempre nos relacionamos sexualmente.
Carla arregalou os olhos, demonstrando visível surpresa.
— Oh, Marcos! Lamento — balbuciou. — Eu não sabia...
— Não precisa se lamentar.
Sou humano como todo mundo, portanto, falível.
— Mas você é homem.
Sempre vai haver uma desculpa para o que você faz.
— Não é bem assim.
Você sabe que temos que nos manter puros até o casamento.
E, assim como você, também fiz com Raquel coisas das quais não me orgulho.
— Por isso você me compreende tanto! — exclamou ela.
Porque passa pelas mesmas coisas que eu passei.
— Sim, as semelhanças são muitas.
Raquel também é espiritualista.
A conversa dela é muito parecida com a do seu ex-namorado.
— Sério?
— Tem coisas que ela fala que são iguaizinhas às que você me contou.
Fiquei ressabiado.
— Você acha que ela também está a serviço de Satanás?
— Não creio. Amo Raquel, ela é muito doce e sincera.
Não consigo acreditar que tenha algo demoníaco nela.
Mas que ela fala coisas estranhas, verdadeiras heresias, isso fala.
— Raquel deve ser uma boa moça — tornou ela, sem muita convicção.
Talvez esteja só iludida com as mentiras que os enviados do demónio andam pregando por aí.
Ela não deve conhecer as Escrituras, é isso.
Sérgio conhecia, mas dizia que elas haviam sido escritas por homens que distorciam a palavra de Deus.
Onde já se viu?
— Raquel diz a mesma coisa! — Carla emudeceu, e ele continuou exaltado.
Mas ela não tem nada de demoníaco, não tem!
— Acalme-se, Marcos, por favor.
Ninguém está dizendo que ela tem.
E você não devia mais pensar nisso.
O importante é que vocês se amam.
Ele a olhou em dúvida.
Cada vez mais, desconfiava de Raquel.
Amava-a profundamente, mas temia estar sendo enganado pelo coração e trazendo para sua vida uma mulher infernal.
— Não fale mais nada, Carla, por Deus.
Está me deixando confuso.
— Sinto muito, eu não pretendia.
Perdoe-me, por favor, e esqueça tudo o que falei.
Não devia ter dito nada, sou uma idiota mesmo!
Falo coisas sem pensar... Mas não ligue.
Raquel não é Sérgio...
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 09, 2015 12:11 pm

— Não. Deixe estar.
Você não é idiota nem eu tenho nada que perdoar.
É sincera e pura, mesmo depois de tudo o que passou.
— Olhe, Marcos, não vamos mais falar nisso, está bem?
Eu preciso ir para casa, e você também.
Raquel está esperando o seu telefonema.
— Não sei se quero ir.
— Esqueça tudo o que eu disse, por favor.
Se você brigar com Raquel, vou me sentir tremendamente mal.
— Não vou brigar com ela.
Raquel é como é, conheci-a desse jeito.
Se alguém foi imprudente, fui eu, que aceitei todas as suas iniquidades.
Mas o coração é tolo, não enxerga a razão.
Raquel não tem culpa.
O culpado sou eu, por amá-la tanto e não conseguir viver sem ela.
— Isso vai passar.
Quando ela estiver em seus braços, verá que o amor de vocês supera tudo.
— Espero.
— Se você precisar de alguém para conversar, pode ligar para mim.
Quero ser sua amiga e retribuir todo o bem que você me fez.
Ela estendeu a mão para ele, que a tomou e puxou-a, dando-lhe dois beijinhos no rosto.
— Vou ligar para você. É só aguardar.
— Ligue sim.
Ela saiu com o carro, virando na primeira esquina.
Olhou pelo retrovisor, para se certificar de que ele não vinha atrás dela.
Como ele não apareceu, ela entrou na rua seguinte, indo para sua casa, distante dali, repleta de satisfação.
Elói ficaria contente.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 09, 2015 12:12 pm

CAPÍTULO 51

Raquel estranhou Marcos não ter ligado, porém, preferiu não telefonar.
Não queria parecer uma daquelas garotas que grudam no namorado, sem lhe dar chance de respirar.
Ela não era desse tipo, e, se às vezes insistia, era porque se preocupava com ele.
Marcos andava diferente, alternando momentos de carinho e atenção com outros de frieza e distância.
Esperou até o dia seguinte, quando o encontrou na faculdade.
Logo que Marcos a viu, seu coração disparou.
Estava vivendo um conflito atroz, mas não queria dividi-lo com ela.
Raquel nada disse sobre o esquecimento dele, apenas correspondeu ao seu abraço.
Queria que ele soubesse que não estava ali para lhe fazer cobranças, só para dar-lhe apoio no que precisasse.
Quando as aulas terminaram, ele a acompanhou até o carro, como sempre fazia.
— Já marquei o almoço — anunciou Raquel, com cautela.
— Que almoço?
— Marcos! Esqueceu?
O almoço para você conhecer minha família.
— Ah! Para quando?
— O próximo sábado. Tudo bem?
— Tudo bem.
Depois, não disse mais nada.
Conhecer a família de Raquel não seria uma boa ideia naquele momento, mas ele não podia agora voltar atrás.
Despediu-se dela com um beijo, seguindo para o trabalho, pensativo.
À noite, quando chegou em casa, encontrou a tia e o pai aguardando-o.
— Está tudo bem? — indagou ele, estranhando aquela visita inesperada.
— Tudo, meu filho — respondeu Clementina, dando-lhe um beijo na face.
O pai o abraçou e a tia beijou-o também.
— Por que estão aqui? — insistiu desconfiado.
Alguma coisa aconteceu.
— Seu pai e sua tia querem lhe dar uma notícia — informou Clementina.
— Que notícia?
— Sente-se, meu filho — pediu Romualdo.
Ele se sentou, pondo-se à espera de que lhe dissessem algo.
Leontina tomou a palavra:
— Bom, Marcos Wellington, estamos aqui porque queríamos lhe dar a notícia... — calou-se, perdendo a coragem.
— Que notícia? — insistiu ele.
— Sua tia e eu resolvemos nos casar — anunciou Romualdo prontamente.
— Não me digam!
Ante a surpresa genuína, Marcos olhou para a mãe com preocupação.
— Por mim está tudo bem — comentou Clementina, percebendo a inquietação dele.
Estamos divorciados, e você sabe que não quero mais nada com seu pai há muito tempo.
— Essa situação é inusitada — ponderou ele.
Vocês têm certeza?
— Absoluta — confirmou Romualdo.
Não que eu faça questão, mas sabe como é sua tia.
— Estamos vivendo em pecado há muito tempo — lastimou ela.
— Sei, tia, mas a igreja não vai aceitar o casamento de vocês.
Meu pai é adúltero e...
— Sabemos disso tudo, Marcos Wellington — cortou ela.
Mas estou disposta a me casar mesmo assim.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 09, 2015 12:12 pm

— Como? O pastor não vai querer celebrar a cerimónia.
— Faz tempo que não vou à igreja — disse ela, com um certo sofrimento.
O pastor já mandou me chamar várias vezes, mas não consigo encará-lo.
Não teria coragem, depois de tudo, de lhe pedir que nos casasse.
— Vamos nos casar apenas no civil — contou Romualdo.
— E a senhora vai se conformar com isso, tia?
Logo a senhora, sempre tão apegada às Escrituras?
— Estou disposta a mudar isso também.
— Mudar como?
Não se pode mudar o que está escrito.
— Mas posso mudar de igreja.
— A senhora?
Mudar de igreja? Não acredito!
— Para você ver do que o amor é capaz — gracejou o pai.
— Não brinque, Romualdo, isso é coisa séria — censurou Leontina.
Reflecti muito sobre isso, sei que vou sentir falta da igreja, contudo, não tem outro jeito.
Não me atrevo a pedir bênção para o meu casamento a nenhum pastor.
Contudo, depois de casados, passarei a frequentar outra igreja, onde, espero, ninguém me pergunte nada.
— Ninguém vai perguntar nada — protestou Clementina.
Já disse a ela que, se ela quisesse se casar em outra igreja, nenhum pastor ia perguntar o motivo do divórcio de Romualdo.
Mas ela não quer.
— Repudio a mentira, minha irmã, e você sabe disso.
Uma coisa é calar-me. Outra é mentir.
— Não vejo diferença.
Em ambas, está enganando alguém, ainda que a si mesma.
— Não estou me enganando! — objectou Leontina com veemência.
E estou disposta a acertar minhas contas com Deus no dia do juízo.
— Por que não deixamos isso para lá? — interveio Marcos, de forma conciliadora.
Se minha tia e meu pai estão contentes com o casamento dessa forma, tudo bem.
É o que importa.
— Importa para nós a sua opinião — falou Leontina.
— Sua mãe já disse que não se incomoda. E você?
— Eu?! Se minha mãe não liga, por que eu ligaria?
Vocês são adultos, sabem o que fazem.
— Quer dizer que não se opõe? — tornou Romualdo.
— Não. Se está tudo bem para minha mãe, está bem para mim também.
— Podemos então dar entrada na papelada? — indagou Leontina.
— Por mim, podem — respondeu Marcos.
— Óptimo! Amanhã mesmo vamos providenciar tudo.
Queremos nos casar o mais rapidamente possível.
Viver em pecado está me fazendo mal.
Depois que eles saíram, Marcos foi ter com a mãe.
— Tem certeza de que está tudo bem?
Clementina o fitou com os olhos húmidos.
Segurando as mãos dele, disse:
— Está, meu filho.
Confesso que, num primeiro momento, levei um choque.
Mas não posso contrariar algo que eu mesma incentivei.
Quando seu pai voltou para casa, sua tia veio me procurar.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

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