Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 24, 2015 10:39 am

— Não é mais.
Ele pertence a um plano de existência, você, a outro.
— Se sou espírito, posso ir aonde quiser, não posso?
Pelo menos é assim que a gente vê na televisão.
— A televisão desconhece as leis que regem o mundo.
Aqui, como no mundo da matéria, existem leis que devem ser observadas.
A diferença é que a lei dos homens foi criada para equilibrar a sua imperfeição, ao passo que as leis que imperam no invisível decorrem da natureza de todas as coisas, revelando, por isso mesmo, a própria perfeição de Deus.
Ela o olhou com certo rancor, mas não contestou.
Não tinha maturidade, nem conhecimento, nem preparo moral para o contradizer.
— Venha comigo, Margarete — chamou Félix.
Ainda podemos ser felizes.
— Não vejo como possa ser feliz ao lado de um desconhecido — rebateu friamente.
— Não sou um desconhecido.
Nós já nos conhecemos de outras vidas.
Aos poucos, a memória de Margarete foi-se restabelecendo, e cenas de sua última encarnação se delinearam em sua mente.
Embora não soubesse bem decifrá-las, sabia que eram reminiscências de tempos idos.
— Preciso de um trago — anunciou com irritação.
— E agora.
— Margarete, você não pode.
— Posso sim — desafiou.
— Você nem sabe como fazer isso.
— Quero beber!
Onde tem um bar por aqui? Um bar!
Preciso desesperadamente de um bar. Quero beber!
Na mesma hora, Margarete desvaneceu.
Félix encarou Laureano com amargura e murmurou em lágrimas:
— E agora?
O que vamos fazer?
— Não podemos fazer nada.
Era inevitável que isso acontecesse.
Margarete ficou tempo demais sem pensar na bebida.
Mas o vício não a abandonou e, quando ela se viu contrariada, reavivou a impressão do álcool, do qual seu corpo emocional encontra-se impregnado.
— Aonde ela foi?
— A algum bar, não tenho dúvidas.
E já deve estar aprendendo a sugar a essência da bebida de ébrios invigilantes.
— Não podemos fazer nada?
— Eu não posso sair daqui agora.
Mas aconselho-o a ir atrás dela, ou outros poderão encontrá-la na sua frente.
— E se ela não quiser voltar comigo?
— Limite-se a observá-la e acompanhar os seus passos.
Ela vai sugar o álcool até que a sensação da embriaguez a anestesie.
Aí então, traga-a de volta.
Mas cuidado:
muitos espíritos maldosos e perigosos estarão à espreita para escravizá-la e obrigá-la a trabalhar para eles.
Margarete pode se deixar seduzir por suas palavras doces e falsas.
Esteja alerta e, quando isso acontecer, eleve seu pensamento a Deus e busque envolver a ambos numa redoma de luz.
— Só isso irá bastar para afastá-los?
- A oração é a arma mais poderosa contra aqueles que ainda não conhecem o poder do amor.
Com ela, você estará bem guarnecido e preparado para trazer Margarete de volta.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 24, 2015 10:39 am

Mas não se iluda.
Ela virá com você, contudo, assim que melhorar, vai sair de novo.
— Como posso encontrá-la?
— Dê-me sua mão. — Ele deu.
Agora pense firmemente nela.
Com a mente de ambos fixada em Margarete, Félix imediatamente se viu ao lado dela.
Seus pensamentos a haviam levado para o boteco que ela costumava frequentar ainda em Belford Roxo.
Como Laureano previra, rapidamente ela aprendeu a sugar as energias dos encarnados e, naquele momento, deliciava-se com a essência etílica que desprendia da cachaça.
Félix olhou ao redor, à procura de espíritos perigosos, mas não viu nenhum.
Apenas uma forma-pensamento3 bastante densa e nebulosa quase se infiltrava num senhor sentado a uma mesa, enquanto o espírito de uma mulher apalpava um homem no balcão.
Félix notou que ele se excitava só com o toque da mão invisível.
Ele voltou a atenção para Margarete, que, alheia a tudo aquilo, permanecia grudada no bêbado, sugando o máximo que podia.
A visão de sua amada naquela atitude obsessiva e perturbadora lhe causou imenso mal-estar, mas ele não desistiu.
Procurou um lugar para se sentar e ficou tomando conta dela.
Demorou muito para que ela se saciasse, até que, finalmente, a essência do álcool lhe subiu à cabeça e a ilusão da bebedeira atirou-a ao chão.
Só então Félix saiu de seu esconderijo e se aproximou, angustiado com o estado de embriaguez em que Margarete se encontrava.
Se viva estivesse, teria entrado em coma alcoólico.
A matéria química, contudo, não era capaz de penetrar seu corpo emocional.
Os efeitos que se produziam sobre Margarete derivavam da essência deletéria do álcool, transmitindo-lhe a nítida sensação de embriaguez, facilmente descartada se ela recuperasse o equilíbrio mental.
Em suma, tudo não passava de uma poderosa ilusão criada pela mente acostumada aos efeitos do álcool.
Ele se abaixou ao lado dela e ergueu-a no colo, no exacto momento em que espíritos mal-encarados adentravam o bar, acompanhando um meliante perigoso.
Mal os seres o olharam de esguelha, Félix fez breve oração, que o levou de volta a sua casa.
Deitou Margarete na cama, ajoelhou-se a seus pés e, com os olhos húmidos, misturou seus soluços à oração de agradecimento.

3 Formas-pensamento é uma criação mental plasmada no mundo astral, de natureza idêntica ao pensamento que a criou.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 24, 2015 10:40 am

CAPÍTULO 6

Aos onze anos, Marcos era um menino muito educado e decidido.
Desde cedo escolhera a profissão:
queria ser advogado, para ajudar a acabar com as desigualdades e injustiças sociais.
Era um sonho que a mãe estimulava, embora não lhe desse muito crédito.
Como um menino pobre feito Marcos Wellington conseguiria passar em uma faculdade do governo, já que eles não tinham condições de pagar uma particular?
— Eu vou conseguir, mãe, você vai ver — afirmava ele.
— Você ainda nem sabe direito o que é ser advogado — objectava Romualdo.
É profissão de gente rica.
É mais fácil ser pedreiro, como seu pai.
— Deixe, Romualdo — censurava Clementina.
Se é o que ele quer, vai conseguir.
Mas a vida não era fácil, e as tentações, muitas.
Todos os domingos, Leontina passava em casa de Clementina para irem ao culto evangélico.
Naquele dia, não foi diferente.
Marcos terminou de ajeitar a gravata, com a qual a mãe o obrigava a ir ao culto, e foi esperar a tia na porta de casa.
Sentou-se no batente, atirando pedrinhas na parede para ouvir o estalido que elas produziam.
Estava assim distraído quando ouviu uma voz conhecida chamando-o do portão:
— E aí, Zé das Ovelhas, vai todo enfatiotado para a missa de novo?
Marcos fitou o interlocutor e engoliu um momento fugaz de raiva.
Zé das Ovelhas era o apelido que ganhara quando, certa vez, respondendo aos gracejos de Jéferson, dissera que eram todos ovelhas no rebanho do Senhor.
Jéferson caiu na gargalhada, chamando-o de Zé das Ovelhas, e o apelido pegou.
— Missa é da Igreja Católica.
Vou ao culto.
— Tanto faz.
Jéferson falava agitando exageradamente o pulso diante dos olhos de Marcos, até que ele reparou por quê.
Um relógio novo, tinindo de um brilho prateado ofuscante, reluziu à luz do sol.
— Uau! — fez Marcos, que sempre desejou ter um relógio.
— Onde você conseguiu?
— Trabalhando — Marcos se aproximou e segurou o punho do outro, revirando-o para admirar a pulseira cromada.
— Você poderia conseguir um, se quisesse.
O Mandrake cansou de dizer que tem vaga para você.
Mandrake era o nome do traficante local, que se dera esse apelido por se considerar um mágico no desaparecimento, já que a polícia jamais conseguira colocar as mãos nele.
Utilizava-se, para fazer avião, de garotos que levavam as drogas para cima e para baixo, arriscando-se a ser surpreendidos e presos, ou, pior, mortos em algum confronto com a polícia.
Os olhos de Marcos brilharam ante a possibilidade de possuir um relógio daqueles.
Mas as palavras do pastor reverberaram em sua mente, e ele parou assustado, como se o sacerdote estivesse ali presente, dizendo:
— As drogas são um dos portais de que o diabo se utiliza para abrir a passagem para o inferno.
E como disse o amado apóstolo Mateus, "o Filho do Homem enviará os seus anjos, que tirarão do seu reino todos os que causam escândalos e promovem a iniquidade, e os lançarão à fornalha acesa, onde haverá choro e ranger de dentes"4.
O medo de ir para o inferno foi maior do que o desejo de possuir o relógio, e Marcos meneou a cabeça, dizendo envergonhado:
— Não, Jéferson, obrigado.
— Tem certeza? — Marcos assentiu, e o outro deu de ombros.
Você é quem sabe.
Como Leontina despontou no fim da rua, Jéferson fez um aceno para Marcos e tomou a direcção oposta.
A tia chegou esbaforida e indagou, estreitando a vista para ver se podia ainda reconhecer o garoto:
— Quem era aquele?
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 24, 2015 10:40 am

— Ninguém. Um conhecido.
— Olhe lá, hein, Marcos Wellington!
Não vá se meter com más companhias.
— Não se preocupe, titia.
Tenho Deus no coração.
A resposta satisfez Leontina, que abraçou o sobrinho e estalou-lhe um beijo na face.
Marcos recebeu o beijo com respeito, muito embora se irritasse com a forma como a tia o chamara.
Detestava ser chamado de Marcos Wellington.
Logo Clementina estava ao lado deles, e os três partiram rumo à igreja.
— Estou preocupada com Romualdo — Clementina cochichou ao ouvido da irmã, para que Marcos não ouvisse.
— Porquê?
— Ando desconfiada de que ele arranjou uma amante.
Leontina levou a mão à boca, abafando um grito de horror, e tornou séria:
— Como foi que você descobriu?
— Não descobri.
Mas ele anda diferente, esquisito.
Quase não me procura mais.
— E o emprego?
— Vai bem, mas tem chegado tarde, dizendo que arranjou uns serviços extras depois do trabalho.
— Será que não é verdade?
— Ah, é?
E cadé o dinheiro? — Leontina não respondeu.
— Não sei o que farei se descobrir que Romualdo tem mesmo uma amante.
Acho que sou capaz de me matar.
— Não diga uma coisa dessas!
Quer condenar sua alma para sempre?
Suicídio é um dos maiores pecados que o ser humano pode cometer.
E depois, tem o Marcos Wellington.
Quem é que vai cuidar dele? A madrasta?
— Isso não! — objectou Clementina, sentindo a ira subir-lhe pelo pescoço e inundar suas faces.
Levanto-me da sepultura e dou um jeito de levar a rameira comigo.
Vou arder no fogo do inferno, mas não estarei sozinha.
Leontina abriu a boca novamente e tornou abismada:
— Que horror!
Isso não são palavras de uma cristã temente a Deus.
Seu filho está melhor do que você.
Ainda há pouco me disse que tinha Deus no coração.
E você? O que abriga no seu?
O ódio, a vingança, o pecado?
Clementina enxugou duas lágrimas discretas e perguntou emocionada:
— Marcos Wellington disse isso?
— Disse.
— Meu filho é um menino de ouro.
Ainda vou me orgulhar muito dele.
— Pois então, pare de falar essas bobagens.
Não dê asas ao diabo, pois ele pode levá-la com ele para um voo no inferno.
Trate de se manter firme em sua fé, ou Deus irá castigá-la por sua blasfémia.
Clementina não disse nada.
Por mais que desse razão à irmã, não podia sequer imaginar-se longe de Romualdo.
A paixão pelo marido era tão intensa que, se ela não se matasse, de qualquer forma, morreria de desgosto.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 24, 2015 10:40 am

Assistiram ao culto em silêncio, com profundo respeito e devoção.
Dos três, Leontina era a mais religiosa.
Acreditava piamente nas escrituras e em tudo que o pastor pregava, abrigando palavras de fé e caridade em seu coração.
Era uma pessoa piedosa, genuinamente boa, e sabia perdoar com facilidade.
Tinha também uma crença fervorosa nos pecados da alma, nas penas eternas e no fogo do inferno, razão pela qual vivia em oração, pautando sua conduta nos exactos termos descritos na Bíblia.
Para Clementina, a igreja representava uma fuga, uma forma de conviver pacificamente com seus problemas matrimoniais.
Sempre achou que, quanto mais dedicada à religião, maior seria sua recompensa.
Fora esse seu testemunho quando ganhara o filho.
Agora, o que ela mais desejava era conservar o marido a seu lado.
Por isso, não faltava aos dias de culto e fazia o que podia para ajudar na congregação, certa de que Deus a recompensaria salvando seu casamento.
Marcos, por sua vez, vivia sentimentos contraditórios.
Ao mesmo tempo em que interiorizava os ensinamentos adquiridos na escola dominical e nas pregações do pastor, sentia um quase irresistível desejo de se libertar de tudo aquilo e se entregar ao mundo.
Via Jéferson e os outros meninos do morro com coisas bonitas que ele não podia comprar, e, silenciosamente, ansiava por uma oportunidade de possuir tais objectos.
Mas como, se o pai ganhava pouco e a mãe não trabalhava?
A solução era, ao mesmo tempo, fácil e quase impossível.
Para ter o que eles tinham, Marcos teria que seguir o caminho do crime.
Só que ele não queria se tornar um criminoso.
Tinha medo das consequências: de se ver embaraçado na lei dos homens e na de Deus.
Temia a polícia tanto quanto temia os anjos que o conduziriam ao inferno.
Toda vez que Jéferson lhe acenava com um objecto caro, ele pensava em aceitar o convite de Mandrake, pelo menos uma vez, só para comprar alguma coisa bonita.
Mas o medo de que a satisfação de um desejo se transformasse na escravidão aos demais o fazia recuar.
O jeito então era seguir os conselhos da mãe e da tia:
estudar para conseguir um emprego honesto e digno, para poder comprar o que queria.
Mas isso também devia ser pecado, porque o pastor acabava de gritar lá do púlpito:
— "O ambicioso apressa-se de enriquecer, mas não sabe que a miséria virá sobre ele5"!
Por isso, meus filhos, é que lhes digo: não gastem o tempo valioso na busca de riquezas, mas aceitem a pobreza que Deus lhes enviou para que juntem tesouros no céu.
Jesus levou uma vida pobre, pois sabia que não se pode servir a Deus e ao dinheiro.
Ser pobre é abrir-se ao amor de Deus, portanto, cultivem a simplicidade da vida e aprendam a viver com humildade, pois nada é necessário ao homem além do essencial para uma vida consagrada ao Evangelho do Cristo.
Marcos abaixou a cabeça, envergonhado consigo mesmo.
No fundo, não concordava com aquelas palavras, mas o que fazer?
Se estava na Bíblia, é porque era verdade.
Na volta para casa, ouviu a tia perguntar:
— E então, Marcos Wellington, gostou do sermão de hoje?
— Gostei... — falou hesitante.
Mas fiquei com uma dúvida.
Será que é pecado eu querer ser advogado para ter uma vida melhor e tirar meus país e minha tia do morro?
As duas o fitaram com lágrimas nos olhos, e foi Leontina quem respondeu:
— Não, meu querido.
O que é pecado é a ambição do dinheiro.
Mas, se você trabalhar honestamente, para melhorar de vida, não estará pecando.
— Mas, e para ter coisas que não são assim tão necessárias?
Como um relógio novo e caro?
— Acho que o diabo pode tentar você com essas ideias, para desviá-lo do caminho da virtude e do bem. Cuidado.
O menino silenciou, arrependido de ter perguntado, e foi caminhando na frente, de forma que Clementina pôde retomar a conversa com a irmã:
— Como posso fazer para descobrir se Romualdo tem mesmo uma amante?
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 25, 2015 10:38 am

— Você devia estar preocupada com o seu filho, com as ideias que os garotos do morro podem meter na cabeça dele.
— Ele não precisa disso.
É muito ajuizado. Você mesma ouviu.
— É, mas ele já está sonhando com relógios caros.
O mundo está cheio de tentações, minha irmã.
Não podemos nos descuidar um minuto.
— Ora, mas você lhe respondeu muito bem.
Tenho certeza de que Marcos Wellington aprendeu. — Leontina suspirou, e Clementina prosseguiu:
— Agora, voltando àquele assunto, preciso descobrir.
— Acho que o melhor é não falarmos mais disso.
Desde a chegada de Marcos Wellington, Romualdo tem sido um bom marido, embora não conseguisse manter a promessa de tirá-la do morro.
Mas arranjou um emprego fixo, nunca bateu em você e já não bebe tanto.
Devia se contentar com isso.
— Contentar-me com isso, você diz?
E o sexo? Faz parte da vida de todo casal.
— Vocês não podem ter filhos.
Sexo não devia ser tão importante assim.
— Essa é muito boa!
Diz isso porque nunca foi casada e não sabe o que é ter um homem em sua cama.
— Se nunca me casei, foi porque optei pelo devotamento a Cristo — revidou ela, magoada.
Essa é uma coisa boa da Igreja Católica que devíamos adoptar.
Devia ser permitido que nós, mulheres, nos consagrássemos somente a Deus e a Jesus.
— Como uma freira, você diz? — Leontina assentiu.
— Deus me livre!
Gosto de homem e não abro mão do sexo.
— É por causa do sexo que você está com essas ideias pecaminosas.
As coisas mundanas não deviam se sobrepor às coisas de Deus.
— Tudo bem, Leontina, você tem razão em tudo o que diz.
Mas se esquece de que um dos mandamentos diz que não devemos cobiçar a mulher do próximo.
Isso não se aplica ao marido também?
Adultério é pecado e, se Romualdo estiver com uma amante, não estará também cometendo um pecado mortal?
— Por isso é que lhe digo que o melhor é não saber.
Se ele estiver pecando, deixe sua consciência ao julgamento do Senhor.
Faça a sua parte, que é ser fiel, boa esposa, boa mãe, e entregue o resto nas mãos de Deus.
Clementina já estava ficando cansada de ouvir falar em Deus, pecado e inferno.
Afinal, fazia a sua parte, ia à igreja, cuidava do marido e da casa.
Não merecia uma recompensa à altura?
Por que então Deus a estava punindo daquela forma?
Embora não dissesse mais nada, ia descobrir a verdade.
Não era mulher de aceitar passivamente a traição do marido.

4 Mateus 13:41,42.
Provérbios 28:22.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 25, 2015 10:38 am

CAPÍTULO 7

A desconfiança passou a ser companheira inseparável de Clementina.
À excepção dos fins de semana, Romualdo ficava fora todas as noites, só retornava por volta das onze horas.
Quando chegava, encontrava Clementina acordada, esperando por ele.
As perguntas eram sempre as mesmas.
As respostas, invariáveis:
— Onde você esteve?
— Trabalhando.
— Até quando vai esse bico que você arranjou?
— Não sei.
Depois desse, já tenho outro em vista.
— Onde?
— Na casa de uma madame lá na Gávea.
— E cadé o dinheiro?
— Ainda não recebi.
Clementina esperava pacientemente até que ele tomasse banho, servia-lhe o jantar e ajeitava a cama para que ele se deitasse, deitando-se ao lado dele.
Romualdo logo fingia pegar no sono, e mesmo quando Clementina o acariciava, sugerindo que se amassem, ele a repelia gentilmente, a desculpa de sempre na ponta da língua:
— Estou cansado.
Trabalhei demais hoje.
Não foi por outro motivo que ela resolveu segui-lo.
Durante dias, juntara dinheiro para a empreitada.
Pegou um táxi e foi atrás do ónibus que ele tomou, até um prédio em reforma na rua da Carioca.
De posse do endereço da obra em que ele trabalhava, resolveu voltar mais tarde.
Durante o horário de trabalho, era certo que ele nada faria.
Aguardou com ansiedade o fim do dia.
Deu ordens expressas a Marcos para que não saísse de casa, trancasse tudo e só abrisse a porta para a tia.
Com um beijo na testa, abençoou-o e saiu.
Dessa vez tomou um ónibus e desceu quase em frente à obra.
Chegou bem no fim do expediente, ainda a tempo de ver Romualdo se despedir dos colegas e ganhar a rua.
Do outro lado da calçada, seguiu-o a distância.
Passaram pela praça Tiradentes e a rua Visconde do Rio Branco, até virar na rua dos Inválidos.
Ele tocou a campainha de um sobrado e foi recebido por uma mulata jovem, bonita, voluptuosa de corpo, que o abraçou e o beijou na boca, puxando-o para dentro.
Clementina precisou se segurar num poste para não cair, sentindo que todo o seu mundo ruía sobre sua cabeça.
Então era verdade!
Romualdo tinha mesmo uma amante mais jovem, mais bonita, as formas bem-feitas e rígidas.
Muito diferente do corpo alquebrado e flácido que ela ganhara ao longo dos anos.
Não era justo.
Desnorteada, foi até o sobrado e tocou a campainha.
Outra mulher atendeu e olhou-a com ar interrogativo.
— O que deseja? — perguntou por fim, já que Clementina não se decidia a abrir a boca.
— Quero falar com Romualdo.
— E quem é você?
— A mulher dele.
A outra gelou.
Pensou em bater a porta na cara da desconhecida, mas Clementina já havia atravessado o pé no portal e segurava a porta com uma das mãos.
— Romualdo! — gritou a mulher para dentro da casa.
Tem alguém aqui querendo falar com você.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 25, 2015 10:39 am

Ele apareceu dois minutos depois, sem camisa, segurando uma lata de cerveja.
Ao dar de cara com a esposa, sua expressão murchou.
A mulher que a recebera rodou nos calcanhares e subiu apressada, passando por ele sem dizer nada.
Não queria ser envolvida na briga doméstica de ninguém.
— Como pôde? — desabafou Clementina, segurando as lágrimas.
Como pôde fazer isso comigo?
— Vá para casa, Clementina.
Lá, conversaremos.
— Só se você vier comigo.
— Agora não posso.
— Onde está a prostituta com quem você está dormindo?
— Vá para casa, já disse.
— Não sem antes lhe dar uma surra.
— Vá para casa! — gritou ele, irritado.
Ela começou a chorar, e Romualdo deu-lhe um empurrão, para poder fechar a porta.
Clementina tocou a campainha outra vez, mas ele não atendeu.
Ela continuou tocando e tocando, até que a mulher que a recebera berrou da janela:
— Pare com isso!
Ele não está mais aqui.
Saiu pela porta dos fundos e pulou o muro do vizinho.
Vá fazer escândalo em outro lugar.
Clementina soltou a campainha e olhou desconfiada para a mulher, que entrou e bateu a janela.
Atravessou a rua, para ver se conseguia enxergar melhor lá dentro, mas tudo estava fechado.
Ainda pensou em sentar e esperar para dar uma coça na amante, contudo, não se atreveu.
Só o que queria era ter seu Romualdo de volta.
Abandonou o sobrado e tomou o ónibus de volta.
Era hora do rush, e ela teve que esperar muito até chegar em casa.
Entrou esbaforida, procurando o marido, mas apenas Marcos estava ali, vendo um programa no velho aparelho de televisão.
— Onde está seu pai? — indagou ela.
— Ainda não chegou.
E por que você está com essa cara?
— Por nada.
Ela saiu e foi sentar-se no degrau da entrada.
Afundou o rosto entre as mãos e ficou ali, esquecida de si mesma, o coração lacerado pela dor da traição.
Ao ouvir passos se aproximando, levantou os olhos.
Romualdo estava parado na sua frente, braços cruzados, impregnando o ar com o cheiro forte da bebida.
Ela o encarou com rancor e ressentimento, mas ele foi o primeiro a falar:
— Voltei para pegar minhas coisas.
— Pegar suas coisas?
— Vou-me embora, Clementina.
Não dá mais para viver assim.
— Assim como? Eu não fiz nada.
Foi você quem me traiu.
— É a isso mesmo que me refiro.
Não posso mais levar esta vida dupla.
— Vai me trocar por uma prostituta?
— Sheila não é prostituta.
É balconista numa padaria na cidade.
— Foi lá que vocês se conheceram?
— Foi.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 25, 2015 10:39 am

Clementina se levantou, segurou as mãos dele.
Endereçando-lhe um olhar de paixão, implorou:
— Em nome de Deus e do nosso amor, Romualdo, não faça isso.
Posso perdoar essa sua aventura, mas não me abandone.
Ele abaixou a cabeça, constrangido, e respondeu sem a encarar:
— Não foi uma aventura. Sheila e eu estamos apaixonados.
— Você está enfeitiçado pela beleza e juventude dela.
Mas isso vai passar.
Eu é que sou a sua mulher.
— Não é mais.
— Nós somos casados.
— Podemos nos divorciar.
— Não quero! Não admito!
— Você só está dificultando as coisas.
Com ou sem o seu consentimento, eu vou embora e vou viver com Sheila.
— Faça isso, e passo a faca naquela rameira — rugiu ela com ódio.
— Você está louca.
Não pensa no nosso filho?
— E você?
Por acaso está pensando nele? Está?
Ele se desenvencilhou dela e foi até a porta.
— Não adianta, Clementina.
Já está decidido.
Entrou apressado, com ela em seu encalço, seguindo-o até o quarto.
— Você não pode! — choramingou.
Eu o amo, Romualdo, como posso viver sem você?
— O que está acontecendo? — perguntou Marcos.
— Seu pai quer ir embora — esclareceu Clementina, em lágrimas.
Conheceu uma vagabunda e quer se amigar com ela.
O olhar espantado de Marcos feriu o coração de Romualdo como uma faca, mas nem isso serviu para que ele mudasse de ideia.
— Sua mãe não quer aceitar que nosso casamento acabou.
— Você vai nos deixar? — inquiriu Marcos, espantado.
Romualdo não respondeu, e Clementina afirmou com escárnio:
— Vai. Ele vai deixar a família legítima que Deus lhe concedeu para se juntar com uma rameira do baixo meretrício!
Romualdo estava decidido a não dizer mais nada.
De que adiantaria brigar com Clementina, se não ia mudar de ideia?
Sheila já o aguardava para fugirem juntos, para um lugar onde Clementina não pudesse encontrá-los e fazer mal a ela.
Brevemente, arrumou suas poucas roupas numa maleta puída.
Fechou os dois trincos, fez um afago no rosto do filho e já ia sair quando Clementina o interrompeu, atirando-se a seus pés, em súplica:
— Não, Romualdo, você não pode!
Por favor, não me deixe.
Faço qualquer coisa para que você não se vá.
Qualquer coisa! Quer que eu aceite a prostituta?
Tudo bem, eu aceito.
Faço de conta que nada aconteceu, não pergunto mais nada, não quero nem saber o que você faz nem com quem.
Aceito o que você me der, as migalhas que guardar para mim.
Faço qualquer coisa por você, mas, por favor, não me deixe!
Ela chorava descontrolada, para espanto de Marcos, que nunca havia visto uma cena daquelas.
O constrangimento de Romualdo também foi aumentando, embora o escândalo só servisse para aumentar a repulsa que passara a sentir de Clementina.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 25, 2015 10:39 am

— Está se humilhando à toa — afirmou ele.
Minha decisão já está tomada e não tem volta.
Mesmo a contragosto, empurrou-a com força, para que ela largasse as suas pernas, e passou por cima de seu corpo caído no chão, sacudido pelo pranto desesperado.
De tão atónito, Marcos não sabia se acudia a mãe ou se impedia o pai.
Abaixou-se ao lado dela e segurou-a pelos ombros, oferecendo-lhe o peito para se apoiar.
Romualdo já estava na porta quando ouviu o filho chamar lá de dentro:
— Pai.
Parou hesitante, a mão na maçaneta, mas não se virou.
Escancarou a porta com fúria, jogando-a de encontro à parede, e saiu, descendo o morro para uma nova vida.
Nunca mais queria tornar a ver Clementina.
Com muito esforço, Marcos ergueu a mãe do chão.
Ela não parava de chorar, agarrada a ele, sacudindo a cabeça feito uma demente.
Ele a deitou na cama e sentou-se a seu lado.
Alisou seus cabelos, ouviu seus soluços, sem coragem de dizer nada.
Não entendia por que o pai havia feito aquilo.
Pela cabeça de Clementina, mil coisas passavam, desde o suicídio até o questionamento de Deus.
Sem conseguir compreender o porquê daquela traição, voltou-se contra Ele.
Não fora ela uma boa cristã e uma boa fiel?
Não ia ao culto todos os domingos, não recitava as orações que o pastor lhe indicava?
Sempre que podia, não ajudava nas tarefas da igreja?
Por que então estava sendo punida daquela forma?
Se ela fazia direitinho tudo o que o pastor mandava, não devia ser castigada.
E se estava sendo punida, então Deus não existia ou não se importava com ela.
Com esses pensamentos, levantou-se hesitante, caminhando até o espelho.
O cabelo estava todo desgrenhado, a roupa amassada, os olhos vermelhos, inchados de tanto chorar.
Penteou-se, alisou o vestido e apanhou a bolsa.
— Você vai sair? — perguntou Marcos, atónito.
Ela olhou para ele como se não o visse e respondeu em tom alheado:
— Vou dar uma volta.
Tranque tudo e não abra para ninguém.
Saiu, deixando-o perplexo.
Dali em diante, Marcos não conseguiu mais sossegar.
A televisão ficou ligada para ninguém, porque ele não conseguia prestar-lhe atenção.
Olhava sem ver, consultando o relógio a cada minuto.
As horas iam-se passando, e nada de Clementina voltar.
O sono se aproximava, mas Marcos não queria dormir.
Clementina estava demorando muito.
Ele abriu a janela, espiou, mas nem sinal da mãe.
O morro começava a se aquietar, e ela não aparecia.
Olhou para o relógio de novo:
faltavam dez minutos para a meia-noite.
Fazia muito tempo que ela saíra.
Calçou os chinelos e saiu, subindo o morro a passos largos.
Logo alcançou o barraco da tia e bateu à porta.
Como Leontina acordava muito cedo para trabalhar, já estava dormindo quando ele chegou.
Agoniado, ele começou a esmurrar a porta e chamar:
— Tia! Tia Leontina!
Finalmente, ela despertou assustada.
Reconheceu a voz do sobrinho e correu a destrancar a porta.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 25, 2015 10:39 am

— Marcos Wellington, o que aconteceu?
— Minha mãe sumiu.
Meu pai saiu de casa, ela foi para a rua faz mais de quatro horas e ainda não voltou.
Estou preocupado.
— Você quer dizer que seu pai foi embora?
— Foi. Mamãe disse que ele foi se amigar com uma rameira...
Leontina cerrou os olhos, invocando a presença de Deus, e logo uma suave luz desceu sobre eles.
— Entre. Vou me vestir depressa.
Leontina foi com o sobrinho para a casa dele, a fim de esperar pela irmã.
Sentou-se na poltrona da sala, com Marcos deitado em seu colo.
As horas avançavam rapidamente, mas nada de Clementina chegar.
Até que, quando o sono se tornou insuportável, os dois adormeceram abraçados.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 25, 2015 10:39 am

CAPÍTULO 8

Um barulho de coisas caindo tirou Leontina e Marcos do sono.
Os dois abriram os olhos quase ao mesmo tempo.
O sol já se insinuava pelas frestas da janela, riscando o chão com listras de luz e calor.
Novo ruído veio do quarto, dessa vez como se um fardo tivesse sido atirado sobre a cama, fazendo ranger as molas soltas do colchão.
Ambos olharam na mesma direcção, e o que viram lhes pareceu uma réplica da mulher que atendia pelo nome de Clementina.
Rota e desgrenhada, a mulher era como uma cópia grotesca e mal-acabada.
Marcos ficou sentado, sem se mover, com medo de provocar alguma reacção naquele bicho que tomara o lugar de sua mãe.
Apenas Leontina aproximou-se da irmã, que em instantes adormecera e roncava ruidosamente.
Clementina fedia a cachaça, a roupa amassada, os cabelos crespos eriçados emprestavam ao rosto um ar de demência prematura.
Leontina quase soltou um grito de pavor.
Nunca tinha visto a irmã naquele estado.
Nem parecia uma mulher religiosa, temente a Deus.
Contendo a repulsa, cutucou-a com irritação, chamando-a agressivamente:
— Clementina! Acorde, Clementina!
Vamos, levante-se!
Clementina resmungou e deu tapas no ar, tentando acertar a dona daquela voz irritante.
A irmã continuou chamando, balançou-a vigorosamente, mas ela não respondeu.
Nem sequer se mexia.
Havia ferrado em um sono tão profundo que nem o retinir de um trovão conseguiria despertá-la.
Leontina ainda sacudiu-a mais um pouco, até que desistiu.
Era inútil tentar acordar a irmã dopada pela bebedeira.
— Minha mãe está morta? — indagou Marcos num soluço, horrorizado ante a cena inusitada.
— Não. Ela está dormindo.
— Ela bebeu, não foi? — Leontina assentiu.
Pensei que minha mãe soubesse que a bebida é coisa do demónio.
— Eu também.
Mas, pelo visto, o diabo a tentou e ela cedeu à tentação.
— Foi porque papai foi embora?
— Provavelmente.
— E agora, tia, o que vamos fazer?
— Nada. Deixe-a dormir.
Vou trabalhar e, na volta, a gente conversa.
— E eu, o que faço?
— Tome seu banho e vá para a escola.
Não vale a pena perder um dia de aula por causa dessa doida irresponsável.
Espere só até o pastor saber disso.
Leontina beijou o sobrinho no rosto e foi aprontar-se para o trabalho.
Seguindo as ordens da tia, o menino entrou no banheiro minúsculo para um banho no pinga-pinga do chuveiro.
De uniforme, segurando a mochila da escola, não teve coragem de sair.
Não podia deixar a mãe sozinha naquele estado.
Se faltasse apenas a um dia de aula, será que perderia tanta coisa assim?
Colocou a mochila de volta no armário e sentou-se ao lado dela, na cama.
Alisou-lhe a carapinha espetada, tentando conter os fios rebeldes que já perdiam o efeito do Hené.
Sentiu a ternura invadi-lo e abraçou a mãe pelos ombros.
O cheiro da bebida invadiu suas narinas, fazendo-o recuar, enjoado.
Com lágrimas nos olhos, deitou-se junto a ela, virando o rosto para o outro lado, para fugir da sua respiração pesada, impregnada do cheiro de álcool.
Por causa da noite mal dormida, logo pegou no sono.
Despertou com um novo aroma, dessa vez de tempero, que se espalhava por toda a casa.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 25, 2015 10:40 am

Pela janela aberta, dava para perceber que ainda era dia, embora a sombra da tarde denotasse o avanço das horas.
Marcos procurou a mãe com o olhar.
Encontrou-a mexendo as panelas no fogão.
Ela estava de banho tomado, os cabelos rebeldes contidos debaixo de um lenço, roupas limpas e cheirosas.
Sentiu imensa satisfação ao vê-la de volta ao normal e se levantou, aproximando-se dela.
— Oi, mãe — chamou baixinho.
Ela se virou com largo sorriso.
Segurou o rosto dele entre as mãos e estalou-lhe um beijo na testa.
— Pensei que não fosse acordar mais, preguiçoso.
Posso saber por que não foi à escola?
— Você chegou tarde.
Titia e eu ficamos preocupados.
Clementina mordeu os lábios e revidou contrariada:
— Você foi chamar sua tia?
— Fui.
— Pois não devia.
— O que você esperava que eu fizesse, mãe?
Papai foi embora e você sumiu.
Pensei que tivesse me abandonado também.
— Isso não, meu filho, nunca! — protestou ela, com veemência.
Jamais vou abandonar você.
— Mas papai foi embora...
— Seu pai nos trocou por uma vagabunda — revidou ela com raiva.
— Foi por isso que você bebeu?
Clementina começou a chorar e puxou o filho, abraçando-o até quase sufocá-lo.
— Marcos Wellington, você é a única coisa que me resta no mundo.
Seu pai foi embora, e agora não sei o que vamos fazer.
Não sei se vou conseguir viver sem ele...
As palavras foram engolidas pelos soluços, e ela o largou para se atirar de bruços na cama.
Chorava tanto que ele pensou que ela fosse engasgar.
— Por favor, mãe, não fique assim.
Eu estou aqui e vou proteger você.
— Ah! meu filho...
Você é um menino tão bom, mas é apenas uma criança.
— Já tenho onze anos, posso me virar.
Clementina sorriu entre as lágrimas e afagou o rosto dele:
— Meu menino, dinheiro não é tudo.
Posso arranjar um emprego.
Mas como é que vou fazer para viver sem o meu marido?
Como vou... — novo soluço — ... sem o meu homem...?
Marcos não compreendia muito bem, mas abraçou-a com força.
— Podemos pedir ajuda ao pastor.
Ele é homem também.
— Como você é ingénuo.
E é bom que seja assim, livre das maldades do mundo.
Marcos podia ser ingénuo, reflexo da rigidez de educação, mas não era nenhum idiota.
Sabia que, dali em diante, a vida deles seria muito difícil.
A mãe não trabalhava, e o pai, na certa, não lhe deixara nenhum dinheiro.
— Olhe, mãe, não se desespere.
Se pedirmos ajuda ao pastor, sei que ele vai fazer algo por nós.
Ele já ajudou tanta gente...
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 25, 2015 10:40 am

— Não quero mais ouvir falar de pastor nesta casa! — esbracejou ela, dando um susto em Marcos.
Eu segui tudo o que o pastor disse, e olhe só no que deu!
Meu marido me trocou por uma sirigaita mais jovem.
Mas tinha que ser.
Que homem vai querer a mulher de casa, recatada, sem maquilhagem, usando saias pelo joelho e blusas até o pescoço, quando pode ter qualquer uma com as pernas e os seios à mostra?
Os homens gostam é disso, Marcos Wellington, vá aprendendo.
Gostam de mulheres chamativas, bem maquiadas, de corpo bem-feito para ser exibido na rua.
E eu, a tonta, achando que, mantendo o recato, manteria também o respeito do meu marido!
Marcos já vira muitas mulheres do tipo que a mãe descrevia, mas sempre pensou que eram daquelas que cediam à tentação do demónio.
A mãe só podia estar louca se achava que deveria ser como elas.
— Não fale assim, mãe.
Você é uma mulher decente.
Ela deu um riso irónico e tornou com desdém:
— O que você entende de mulher decente?
O que o pastor e sua tia puseram na sua cabeça?
— E não é o certo?
— Não sei mais o que é certo ou errado, meu filho.
Só o que sei é que segui à risca as ordens do pastor e fui punida por isso.
— Ficar com raiva do pastor não vai adiantar nada.
A voz de Leontina fez os dois se sobressaltarem.
Ela estava parada na porta do quarto, os olhos chamejando com o fulgor da reprovação.
— Tia! — exclamou Marcos.
Não vimos a senhora chegar.
— Não viram porque estavam dando ouvidos aos conselhos de Satã.
— Chega dessa baboseira de diabo, Satã e pecado! — objectou Clementina com fúria.
De hoje em diante, essas mentiras não entram mais em minha casa.
— Como ousa chamar as verdades da Bíblia de mentiras?
— São mentiras, sim!
Mentiras deslavadas, histórias de terror para assustar os crédulos e idiotas.
Mas, para mim, chega!
Não acredito mais em nada disso.
Vão, você e o pastor, enganar os trouxas da congregação, porque, a mim, não me convencem mais.
Nem ao meu filho!
— Não se atreva a afastar o menino do caminho de Jesus.
— Nunca mais vamos pisar naquela igreja.
Nem naquela, nem em nenhuma outra.
— Vou tentar não levar em consideração as suas palavras, porque sei que você está sofrendo e está fora de si.
Mas advirto-a, Clementina, modere o que diz, ou Deus irá castigá-la.
— Mais do que já me castigou?
Quando levou embora o meu Romualdo, já me infligiu todas as penas que Ele podia inventar.
— Não blasfeme!
— Estou apenas dizendo o que sinto e, se você quiser chamar de blasfémia, o problema é seu.
Não me importo mais com nada que tenha relação com a igreja.
— Mãe — intercedeu Marcos —, pelo amor de Deus, tenha cuidado.
O pastor disse que a blasfémia...
— Não quero mais saber o que o pastor disse! — esbracejou, colérica.
Nunca mais vou dar ouvidos a pastor nenhum.
E você, de hoje em diante, está proibido de voltar àquela igreja!
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 25, 2015 10:40 am

— Você não tem o direito de condenar a alma do menino — censurou Leontina.
Condene a sua, mas Marcos Wellington é um bom cristão e traz a Bíblia no coração.
Não o atire no abismo do inferno junto às suas blasfémias.
— Quer saber de uma coisa, Leontina? — replicou ela, já impaciente.
Vá você para o abismo do inferno.
Quanto a mim, já convivi demais com as proibições do pastor.
Tudo é feio, é pecado.
Mas abandonar a mulher não é pecado, não?
— Não vou admitir que você fale comigo desse jeito!
— Esta casa é minha, falo do jeito que eu quiser.
E, se não está satisfeita, ponha-se daqui para fora!
— Mamãe! — espantou-se Marcos.
— Deixe, Marcos Wellington — falou Leontina.
É melhor mesmo eu ir embora.
Sua mãe agora está revelando a boa bisca que é. Eu devia saber.
Ela sempre teve uma tendência à libertinagem e à vida mundana.
A igreja era o que a segurava.
Agora ela não tem mais motivo para fingir, não precisa mais se disfarçar de boa cristã.
Você nunca foi uma mulher religiosa, Clementina.
Só ia à igreja para obter algo em troca.
Mas agora não precisa mais, não é mesmo?
Não foi à toa que seu marido a deixou.
— Saia daqui! — gritou Clementina, apontando a porta da rua.
— Mãe, não faça isso — implorou Marcos, em lágrimas.
— Não se meta nisso, Marcos Wellington! — protestou a mãe.
Isso é entre mim e sua tia.
E, virando-se para a outra, explodiu:
— O que está esperando?
Saia daqui, vamos!
— Ainda vai se arrepender por isso — rugiu a irmã, entre os dentes.
Leontina saiu batendo a porta, e Clementina apagou o fogo, que já escurecia o fundo da panela, exalando um odor forte de queimado.
— Idiota! — gritou. — Ainda me fez queimar o jantar.
Como Marcos chorava, Clementina largou tudo e correu para ele, tomando-o nos braços.
— Não chore, meu filho.
Tudo vai ficar bem.
— Mas, mãe, você enxotou a titia.
Agora mesmo é que estamos sozinhos.
— Temos um ao outro.
— E a igreja? E o pastor?
O que será de nossas almas?
Ela o olhou de frente e enxugou os seus olhos.
— Olhe, meu bem, não quero mais que você se aproxime daquela igreja.
Tudo o que disseram lá é mentira.
E o pastor é o maior mentiroso de todos.
Ele só vai ficar enchendo a sua cabeça com essas bobagens sobre Deus e o diabo, céu e inferno, virtude e pecado.
Se Deus existe, não está preocupado com a gente.
— Você não acredita no que ele diz? — Clementina meneou a cabeça.
Mas você sempre acreditou!
— Isso foi antes de seu pai sair de casa.
Agora pense comigo.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 25, 2015 10:40 am

Se Deus existisse, teria nos punido dessa forma, a mim, que sempre fui à igreja todos os domingos e sempre recitei as orações, e a você, que é apenas uma criança e não merece sofrer?
— Não sei...
— Pois eu sei e estou lhe dizendo.
Tudo o que o pastor fala são mentiras.
Ele só quer nos enganar para mandar em todo mundo e pegar o nosso dinheiro.
— Mas ele pega tão pouco!
Ele sempre disse que quem não tem não precisa dar.
E ainda distribui para os pobres.
— Tudo enganação.
Do dele mesmo, ele não tira.
Vive numa mansão luxuosa, com carro do ano e servido por várias empregadas.
Isso lá é caridade?
Marcos silenciou.
Estava confuso, não compreendia.
Sempre vira o pastor às voltas com obras sociais, ajudando a população carente, e não raras eram as vezes em que tirara de seu próprio bolso para socorrer alguma família mais necessitada.
Que soubesse, ele morava numa casa simples de vila, tinha um carro velho e uma única empregada que já acompanhava a família havia anos.
A mãe, agora, dizia que era tudo fingimento.
Ele não conseguia entender. Seria mesmo?
Não tendo argumentos para opor, Marcos ficou com a verdade da mãe.
A partir daquele dia, nunca mais foi à igreja, nem quando o pastor foi à sua casa para tentar convencer Clementina, que nem sequer o recebeu.
Olhando pelo buraco da fechadura, viu que era ele e não abriu a porta.
Já estava farta das ameaças do inferno, não precisava de nenhum pastor fanático para lhe dizer o que fazer.
Dali em diante, cuidaria da sua vida como quisesse, faria tudo o que tinha vontade e não fizera antes por medo do pastor, que era só um homem e não tinha o poder de mandar ninguém para o inferno.
Nem que Deus a condenasse pessoalmente, ainda assim, jamais voltaria a pisar numa igreja.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 25, 2015 10:40 am

CAPÍTULO 9

Marcos subia o morro devagar, levando duas sacolas de supermercado carregadas de compras.
Até que o dia fora proveitoso.
Dado seu carisma especial, que sensibilizava as pessoas, conseguir esmolas não era nenhum problema.
Todas as manhãs, Marcos vestia uma roupa puída, calçava chinelos gastos e descia a rua para pedir dinheiro nas portas das lojas da Praça Saens Pena.
Como era época do Natal, a onda de solidariedade favorecia a compaixão, despertando o desejo de ajudar crianças carentes.
Depois que juntava o suficiente, Marcos subia o morro, tomava banho, trocava de roupa e descia novamente para fazer compras no mercado.
Quando estava sóbria, a mãe cozinhava.
Quando não, era o próprio menino quem fazia as refeições.
Na maioria das vezes, Clementina estava tão bêbada que não conseguia sequer encontrar o caminho de casa, obrigando Marcos a ir buscá-la no boteco.
Marcos subia o morro com as compras, satisfeito porque o dinheiro fora suficiente para um pedaço de carne e dois potes de geleia de mocotó.
Com isso, ganhara ainda dois copos para substituir os que a mãe havia quebrado em seu último acesso de bebedeira.
— E aí, Zé das Ovelhas? — gracejou Jéferson, que se juntou a Marcos na subida do morro.
Quer ajuda?
— Pode deixar — respondeu o menino, apertando as sacolas.
Não está pesado.
— Dia duro, hein?
— Nem tanto. Até que consegui uns bons trocados.
— Não sei por que você se contenta com migalhas quando poderia ter um banquete.
Sabe que, lá em casa, todo dia comemos bife com batatas fritas?
Marcos sentiu a boca salivar e respondeu de olhos baixos:
— Não precisamos disso, obrigado.
Tenho conseguido me virar e não nos falta comida.
— Se você quer chamar essa lavagem que você faz de comida, tudo bem.
— Não fale assim, Jéferson. Temos que dar graças pelo que comemos.
— Não acredito que você ainda está preso nesse negócio de rezas!
Todo mundo sabe que sua mãe virou as costas para a igreja.
— Você não me chama ainda de Zé das Ovelhas?
— É o costume.
— Pois é... a mesma coisa eu.
Ainda tenho o costume de orar e agradecer.
— Você é muito bobo mesmo.
O Mandrake cansa de dizer que tem um lugar especial para você.
Você e sua mãe não passariam mais necessidade.
— Agradeça ao Mandrake por mim, mas não estou interessado.
Posso cuidar de mim e da minha mãe sozinho.
— Orgulho de pobre é fogo!
— Não é orgulho.
Agradeço o que ele está tentando fazer.
Sério. Só que não dou para o negócio.
— Bobagem.
É só levar uns pacotinhos para lá e para cá.
E você é de menor.
Se a polícia te pegar, não pode te prender.
É por isso que o Mandrake gosta de nós.
— Mesmo assim, não, obrigado.
Com ar distraído, Jéferson sacou um Game Boy do bolso, abriu-o e começou a jogar, despertando imensa curiosidade em Marcos.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 25, 2015 10:41 am

O barulhinho electrónico que emergia do aparelho fascinou Marcos a tal ponto, que não resistiu e perguntou curioso:
— O que é isso?
— Meu Game Boy. Quer ver?
Marcos parou, colocando as sacolas no chão, e Jéferson passou-lhe às mãos o joguinho.
Ele ficou fascinado com o bonequinho correndo numa tela colorida de cristal líquido.
Nunca antes havia visto coisa mais maravilhosa.
— Puxa, Jéferson, onde você conseguiu isso?
— Presente do Mandrake.
Rapidamente, Marcos aprendeu a mexer nos botões e controlar o boneco.
Permaneceu algum tempo jogando, maravilhado com a novidade.
— É realmente demais!
Jéferson sorriu intimamente e continuou a tentá-lo:
— Amanhã nós vamos ver Matrix no cinema.
Você quer vir?
— Não posso — falou ele, devolvendo o jogo a Jéferson.
Não posso me dar ao luxo de gastar dinheiro para ir ao cinema.
O outro deu de ombros e não disse nada.
Nem precisou, porque Marcos sabia quem iria pagar as entradas.
— Tem certeza? — insistiu o garoto.
— Tenho.
Mas obrigado mesmo assim.
— Tudo bem.
Você é quem sabe.
Jéferson fez um aceno com a mão e desatou a correr morro acima, enquanto Marcos recolhia as sacolas para seguir seu caminho.
Quando entrou em casa, a mãe não estava, e ele soltou um gemido de desânimo.
Ajeitou as compras na pequenina geladeira, dobrou as sacolas e guardou-as na caixa atrás do fogão, junto com as demais, para servirem de saco de lixo.
Em seguida, tornou a sair.
O bar do Zeca, ao pé do morro, era o lugar que Clementina costumava frequentar, e foi para lá que ele se dirigiu.
Como não era muito longe, chegou rápido, logo avistou-a na companhia de um malandro das redondezas.
Marcos perguntou-se como não a havia visto quando subira, sem saber que ela, entrevendo-o de longe, tratara de se esconder mais ao fundo.
Ele se aproximou e cumprimentou os frequentadores.
A mãe estava sentada ao lado do tal sujeito, gargalhando entre um gole e outro de pinga.
Marcos foi até sua mesa e bateu em seu ombro.
— Marcos Wellington! — exclamou, a voz dissimulada.
— Que surpresa, filhinho!
O que está fazendo aqui?
— Vim buscar você.
Vamos para casa.
— Agora não.
Pode ir, que eu vou depois.
— Por favor, mãe, vamos embora.
Trouxe comida para o jantar.
— Ah! Meu filho, hoje não estou com vontade de cozinhar.
Por que não vai jantar lá na sua tia?
Desde que pusera a irmã para fora, as duas nunca mais se haviam falado, embora Marcos continuasse a manter contacto com a tia e a visitasse regularmente.
Clementina fingia que não sabia dessas visitas.
Do contrário, o orgulho falaria mais alto, levando-a a ralhar com o filho e proibi-lo de visitar a irmã.
Mas ela sabia que Leontina costumava dar comida a Marcos sempre que o via com fome.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 25, 2015 10:41 am

— Não dá, mãe — contestou ele.
Tia Leontina mal ganha para ela.
Não é justo tirar o pouco que ela tem.
Vamos, eu mesmo faço o jantar.
— Dá o fora, moleque — interrompeu o homem, empurrando-o com uma das mãos.
Já não ouviu sua mãe dizer que não está a fim de ir?
Aquilo irritou Clementina, que revidou zangada:
— Ei! Nada de empurrar o meu filho — ela se levantou ruidosamente, entornou o resto do copo de bebida na boca e disse para o menino:
— Pague a conta e vamos embora.
Não tinha jeito.
Sempre que Clementina bebia, era ele quem pagava a conta, com o dinheiro que arrecadava na rua.
Sabendo disso, reservava uma parte para quitar as dívidas dela com a bebida.
A tia lhe dissera para não pagar, pois só assim o dono deixaria de vender-lhe fiado, e ela teria que parar com a bebida.
Contudo, na única vez em que ele fizera isso, Clementina se aborrecera e sumira de casa por toda a noite, quase o matando de preocupação.
Voltou no dia seguinte com um sorriso no rosto e passou uma semana bebendo, sem lhe pedir nada, levando-o a crer que ela havia se deitado com algum homem para conseguir o dinheiro.
Marcos acertou a conta e foi embora carregando a mãe.
Enlaçou-a pela cintura e conduziu-a morro acima.
Com a noite, uma lua branca e redonda deitava uma iluminação natural pelas curvas do caminho.
Enquanto subiam, Leontina vinha descendo na direcção oposta, e Clementina virou o rosto, fingindo que não a vira. Marcos, porém, a cumprimentou, e ela respondeu com um aceno de cabeça.
— Você devia fazer as pazes com a tia — comentou ele.
Ela é sua irmã e sua amiga.
— Irmã, pode ser, porque não tem jeito.
Mas amiga, duvido muito.
— Ela gosta de você.
— Ela gosta é de me recriminar.
Só porque é virgem pensa que é muito boa.
Aquela solteirona mal-amada...
Se arranjasse um homem para quem dar, não seria tão amarga.
Marcos engoliu a grosseria.
Em casa, Clementina foi logo se atirando na cama, enquanto ele ia para a cozinha preparar o jantar.
As dificuldades empurraram Marcos para a vida.
Desde cedo, teve que aprender a se virar e a cuidar da mãe sozinho.
A tia o ajudou, ensinando-o a cozinhar, às escondidas de Clementina.
Marcos cortou a carne em bifes, esquentou o arroz e o feijão de véspera, cozinhou alguns legumes, colocou tudo na mesa.
Chamou a mãe, que se sentou ao lado dele, e fez uma oração em silêncio, procurando ignorar o ar de irritação que ela fazia.
Clementina não gostava que ele rezasse.
Enquanto comiam, Clementina ia repensando sua vida.
Não era certo fazer o que fazia com o filho.
Marcos Wellington, um menino ainda, assumira, sozinho, toda a responsabilidade da casa.
Ela ficara de arranjar um emprego, mas as constantes bebedeiras não permitiam.
Quem contrataria uma empregada bêbada?
Por isso, ele fora obrigado a se virar nas ruas, arrumando dinheiro sabe-se lá como.
No princípio, ela o interrogou, mas depois achou melhor se calar.
Marcos afirmara que o dinheiro era dado e jamais furtara um níquel sequer.
Que importância tinha isso agora?
Tudo porque Romualdo os abandonara e sumira no mundo.
Dele, nunca mais tivera notícias.
Ela o havia procurado no sobrado da rua dos Inválidos, mas ninguém sabia dele ou de Sheila.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 25, 2015 10:41 am

Se era verdade ou não, não tinha como apurar.
— Devo estar pagando pelos meus pecados — afirmou ela de repente, fitando o vazio.
— Por que está dizendo isso?
— Você sabia que seu pai teve uma mulher antes de me conhecer?
— Não diga!
— Foi o que ele disse.
Estava namorando uma fulana, não sei quem era.
Ele disse que não era nada importante, terminou com ela para ficar comigo.
Pouco depois, nos casamos.
— Como foi que vocês se conheceram?
— Vi-o na igreja certa vez, quando fui buscar sua tia para irmos juntas ao médico.
Fiquei impressionada, acho que foi amor à primeira vista.
Desde aquele dia, passei a acompanhá-la aos cultos.
Lembro-me de como Leontina ficou feliz.
Mal sabia que o meu interesse era outro.
— Você só foi à igreja por causa de meu pai? — horrorizou-se.
— O que é que tem?
Estava interessada nele, e ele, em mim.
Em pouco tempo, começamos a namorar e nos casamos.
— Mas você continuou a frequentar a igreja depois disso.
— Foi uma promessa.
Se Deus me desse aquele homem, prometi que me tornaria uma fiel.
— E papai?
Por que deixou de ir?
— Seu pai nunca foi um homem religioso.
Ele costumava brincar, afirmando que só fora parar naquela igreja para me conhecer.
Mas eu desconfio que ele tinha uma amante lá.
Peguei-o várias vezes de conversa com uma dona toda espevitada, casada com um velhote.
— Se era assim, você fez um bem a ele.
Afastou-o do pecado do adultério.
— Não é que é verdade?
O cretino... ainda me devia esse favor.
— E tia Leontina?
O que achou disso tudo?
— Nada. Quando lhe demos a notícia, limitou-se a assentir.
Mal o conhecia e nada sabia sobre a vida dele, muito menos da tal mulher.
Se soubesse, teria me recriminado até a morte.
— Por que será que ela nunca se casou?
— Sua tia sempre foi uma mulher sem graça.
— Até que ela não é feia...
— Mas sempre foi muito chata.
Tudo para ela é pecado, principalmente o sexo.
Dizia que só aceitaria que um homem lhe tocasse para a procriação.
Qual é o homem que aceita isso?
Ele abaixou os olhos, envergonhado com aquela conversa, e tornou sério:
— Não sei.
No dia seguinte, Marcos saiu cedo para aproveitar bem o dia.
Queria juntar dinheiro para comprar presentes de Natal para a mãe e a tia.
Se sobrasse algum, talvez conseguisse um jogo igual ao do Jéferson.
Será que era muito caro?
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 26, 2015 12:51 pm

Quando Clementina acordou, o filho já não estava mais em casa, como sempre.
Ela se sentou, lembrando da conversa da noite anterior, e um remorso atroz a corroeu por dentro.
Não era certo tirar o filho da escola para mendigar, botar comida dentro de casa e ainda pagar a conta do bar.
Era ela que devia trabalhar para sustentá-lo.
Levantou-se e tomou um banho frio para espantar o calor.
Bebeu um gole do café que o filho deixara pronto em cima do fogão, mastigou um pedaço de pão duro e foi debruçar-se na janela.
O dia estava muito quente, de forma que ela voltou para dentro, fugindo do sol da manhã.
Abriu a geladeira e, de um gole, bebeu uma garrafa de água.
Como a sede não passou, resolveu dar um pulinho até o bar.
Ao chegar, uma surpresa desagradável.
O dono do bar havia enfartado, a birosca estava fechada.
Desapontada, Clementina voltou para casa.
Ao mesmo tempo em que maldizia o homem, sentia um certo alívio por se ver obrigada a ficar sem beber.
Em casa, sentou-se para ver televisão.
Como o aparelho estava muito velho, a antena não captava nada direito.
Clementina deu vários socos na TV, a imagem foi-se distorcendo aos poucos, até que ela conseguiu identificar alguma coisa na tela cheia de chuviscos.
Sentou-se com um copo de água gelada, que foi passando na testa para resfriar o suor.
Estava passando um programa de desenho animado.
Clementina tentou focar nele a atenção, mas a imagem durou pouco tempo no ar.
A antena saiu de posição, deixando na tela apenas listras horizontais.
Irritada, Clementina socou o aparelho tantas vezes que ele deu um estalido e apagou, enchendo-a de raiva.
Precisava urgentemente de uma bebida, mas como?
O bar do Zeca estava fechado, era o único lugar em que podia comprar fiado.
Após alguns minutos, pôs-se a revirar a casa em busca de dinheiro.
Não demorou muito e achou uns trocados na gaveta de Marcos.
"Óptimo", pensou.
Daria para uma garrafa inteira de pinga.
O boteco mais próximo era um lugar familiar, temido por Clementina.
Fora dali que a mãe de Marcos Wellington fugira em desabalada carreira para a morte.
Leontina lhe contara tudo.
Ela ia passar adiante, contudo, a sede era maior.
O vício incontrolável deixava sua boca amarga implorando pela bebida.
Hesitou ainda alguns instantes, mas logo se resolveu.
Não faria mal nenhum beber no mesmo lugar em que a verdadeira mãe de seu filho buscara a morte.
Muitos anos haviam-se passado desde aquele episódio, ninguém mais pensava no assunto.
Era um medo tolo achar que algo poderia acontecer só por estar naquele bar.
Com esse pensamento, deu dois passos adiante e entrou.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 26, 2015 12:51 pm

CAPÍTULO 10

Nos onze anos que vivera ao lado de Félix e Laureano, Margarete continuava dando trabalho, insistindo para rever o filho.
Todavia, por mais que se esforçasse, não conseguia se lembrar do local exacto em que o abandonara.
Sabia que fora numa lata de lixo em algum bairro do Rio de Janeiro, mas onde?
Não se recordava.
Ir ao encontro do menino seria um desastre para todos.
Por isso, nem Laureano nem Félix estimulavam a recuperação da memória de Margarete.
Sem conseguir encontrar o filho, ela perambulava a esmo pelas ruas, de bar em bar, sugando as energias de ébrios descuidados.
Félix a acompanhava de perto, levando-a tão logo entidades trevosas se aproximassem de seu corpo fluídico, debilitado pela essência da bebida.
Nessas ocasiões, Margarete não oferecia resistência, devido à fraqueza energética que sentia sempre que empregava forças na absorção do álcool.
Era Félix que a mantinha a salvo de espíritos aproveitadores, impedindo que ela fosse levada para regiões mais profundas do astral inferior, já que Margarete sintonizava muito facilmente com energias dessa vibração.
Num dia em particular, Margarete despertou irrequieta.
Félix havia saído, provavelmente ao encontro de Laureano.
Havendo dominado o processo de locomoção apenas pelo pensamento, ela logo se viu no bar de costume, quase vazio àquela hora do dia.
Sentou-se a uma mesa para aguardar o primeiro cliente e grudar-se a ele, deixando a mente divagar enquanto esperava.
Subitamente, sentiu como se um choque eléctrico reverberasse em seu cérebro, uma luz ofuscante doeu em sua vista.
Bem próximo a ela, uma forma-pensamento vaga e errante tentava descarregar-se em seu corpo fluídico.
Isso não demorou muito a acontecer.
Na mesma hora, o medo tomou conta de Margarete, que logo se lembrou do passado, e o local exacto em que abandonara o bebé se delineou em sua mente, bem como o bar onde, por último, estivera quando encarnada.
A transferência foi imediata.
Em fracções de segundos, Margarete estava ao lado de Clementina, lendo-lhe os pensamentos confusos.
A princípio, tentou imaginar o que estaria fazendo ali e quem seria aquela pessoa desconhecida.
A mente dela era um torvelinho de imagens e palavras desconexas, de forma que Margarete teve alguma dificuldade em estabelecer sua identidade.
Os pensamentos de Clementina continuavam ligados na foto de jornal que exibia o rosto sem vida da mãe biológica de Marcos Wellington.
Acompanhando a mente de Clementina, várias formas-pensamento foram-se delineando diante de seus olhos, facilitando o trabalho de Margarete.
A cada recordação do passado, Margarete se sobressaltava, estupefacta ante a fantástica coincidência.
Clementina pediu uma bebida, depois outra, e já havia quase esvaziado a garrafa de cachaça quando o dinheiro acabou.
O dono do bar ainda era o mesmo português de outrora, que, em vista dos acontecimentos que haviam culminado com o atropelamento de Margarete, mudou de atitude e disse com uma voz mais amistosa:
— Olhe aqui, moça, lamento, mas não posso vender fiado.
— Por favor — implorou ela.
Só mais um trago.
Prometo que, quando meu filho chegar, venho aqui lhe pagar.
O português olhou para ela desanimado e coçou o queixo.
— Está bem.
Mas é só mais uma, hein?
Serviu-a de outra dose, que ela sorveu juntamente com Margarete.
Satisfeita, Clementina ganhou a rua, o espírito atrás.
Margarete estava abismada.
Como é que, após anos de busca, viera parar justo ao lado da mulher que lhe roubara o filho?
Embora conhecesse o poder do pensamento e das formas que ele produzia, mal podia crer no que estava acontecendo.
Não entendia por que aquela mulher, que permanecera tanto tempo muda em suas lembranças, resolvera justo agora recordar o ocorrido.
E fora muita sorte ela estar sem Félix grudado nela, ou não conseguiria se aproximar.
— Cadé o meu filho? — perguntou, entre irada e ansiosa.
Para sua surpresa, Clementina respondeu em voz alta:
— Ele deve estar na rua, pedindo dinheiro.
— Na rua?
Você o jogou na rua?
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 26, 2015 12:52 pm

— Não fui eu. Foi a vida.
— Que vida, que nada!
Você é uma bêbada.
Aposto como o põe para arranjar dinheiro para você beber.
Clementina deu um riso malicioso e tornou em tom mordaz:
— Você é a mãe dele, por acaso?
— Sou. Por quê?
Clementina ergueu o dedo e fez sinal de que não, acrescentando com ironia:
— Tsk, tsk, tsk... Engano seu, querida.
A mãe dele sou eu.
Os transeuntes que avistavam Clementina não viam Margarete.
Julgando-a louca por falar sozinha, afastavam-se apressados, alguns até mudando de calçada.
— Olhe, dona, não estou aqui para brincadeiras — prosseguiu Margarete, cada vez mais aborrecida.
Cadé o meu filho?
— Seu filho, não. Meu filho.
— Tá, tudo bem, seu filho — concordou, impaciente.
Mas onde é que ele está?
Clementina não raciocinava direito, tamanha a carga de bebida misturada em seu sangue.
Tinha consciência de que a desconhecida era a verdadeira mãe de Marcos, mas nem se lembrava direito de que ela havia morrido.
Sua mente confusa apenas aceitava a presença da outra, sem maiores questionamentos.
— Você o atirou no lixo! — gritou, apontando uma lata de lixo imaginária do outro lado da rua.
Não tem direito... não tem...
Uma mulher, segurando duas crianças pela mão, parou estarrecida, protegendo-as com o corpo, e atravessou a rua quase aos tropeções.
— O que aquela mulher está fazendo, mamãe? — perguntou a garotinha.
Por que está falando sozinha?
— É maluca, minha filha.
Bêbada e louca. Que horror!
Clementina sentiu a energia vibrada com o comentário da mulher e falou aos berros:
— Louca é você, sua filha da...!
Margarete não aguentou e desatou a rir.
— Nossa, em que água você está! — desdenhou.
— Eu não!
Você é que está bêbada, sua...
Clementina tombou para trás e se estatelou no chão.
— Ah, não!
Não vai desmaiar agora, não.
Não antes de me mostrar o meu filho!
Nessa hora, Marcos se aproximou correndo.
Alertado por Jéferson, que presenciara a conversa de Clementina com o invisível, largou o ponto de esmolas, enfiou o dinheiro no bolso e correu desabalado pela rua.
Encontrou a mãe caída na rua e tentou erguê-la, chamando assustado:
— Mãe! Mãe!
Clementina não respondia.
Com o dinheiro que pegara de Marcos, ingerira duas garrafas de cachaça e agora sentia o resultado do excesso.
Ninguém se aproximou para ajudar, apenas o português do bar, uma alma atormentada pela culpa que sentia pelo atropelamento de Margarete.
— O que houve, menino?
— Minha mãe desmaiou — falou ele aos prantos.
Ela vai morrer!
Margarete assistia, fascinada.
Como seu filho era bonito!
Estava magrinho e maltrapilho, mas, ainda assim, era um belo garoto.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 26, 2015 12:52 pm

— Fique calmo, que vou chamar uma ambulância — disse o homem.
O amor de Marcos por Clementina impressionou Margarete, que os fitava paralisada, sem conseguir se aproximar.
Uma luz rósea se desprendia do coração dele e envolvia todo o corpo de Clementina, facto que muito emocionou Margarete.
— Será que ele teria sentido o mesmo por mim? — perguntou a si mesma, tocada pela sensibilidade que se espargia no ar.
Antes que a ambulância chegasse, Clementina recuperou os sentidos.
Estava mais grogue do que nunca, no entanto, desanuviou-se o medo de Marcos de que ela estivesse em coma.
— Mãe — chamou ele.
Você está bem?
Ela tentou enquadrá-lo em sua visão, mas tudo parecia rodar.
— Levante-se daí, sua tonta — ordenou Margarete.
Você não está em coma.
Só bebeu demais.
— Como é que você sabe?
— O quê, mãe? — respondeu Marcos, pensando que ela falava com ele.
— Já vi muitos em coma alcoólico e sei que você não está — foi a resposta de Margarete.
Clementina olhou para Marcos e só então percebeu que ele não via a mulher.
— Ela está aqui — cochichou baixinho.
— Quem?
— Ninguém.
Por pouco ela não lhe revelou a verdade.
O menino, por sua vez, julgando tratar-se de alguma alucinação causada pelo álcool, não lhe deu importância.
— Consegue se levantar? — prosseguiu ele.
— Se você me ajudar...
Marcos ajudou-a a erguer-se e amparou-a de volta ao morro, sem dar importância aos apelos do português, que pedia que ela aguardasse a ambulância.
Margarete não desgrudava deles um minuto.
Louca de curiosidade para saber mais sobre a vida do filho, seguiu com eles.
Nesse ínterim, Félix adentrava o consultório de Laureano, a quem fora procurar para pedir conselhos.
O psiquiatra o recebeu amigavelmente, mas não fez rodeios antes de colocá-lo a par do ocorrido:
— Lamento informar que as notícias não são boas.
Margarete encontrou o filho.
— Como?
— A mãe adoptiva do menino, também viciada na bebida, sem querer criou uma forma-pensamento que a desvendou diante de Margarete.
— Meu Deus do céu!
Tentamos tanto evitar esse momento...
E agora?
— Se Margarete o encontrou, foi porque assim foi permitido.
Nada acontece sem que seja do conhecimento e da vontade de Deus.
— Sim, mas o que isso significa?
— Significa que está se aproximando a hora de a verdade se desvendar.
Félix o olhou com espanto.
— Sempre pensei que a verdade jamais devesse ser revelada.
— A verdade sempre é revelada.
O que se precisa é esperar o momento certo.
— O momento é agora?
— Parece que sim.
— E é Margarete quem vai fazer isso? — duvidou.
Será que ela está em condições?
— É por isso que você deve ir buscá-la.
Ela precisa se preparar para o que está por vir.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 26, 2015 12:52 pm

— Será que ela vai querer voltar comigo?
— Agora que Margarete encontrou o filho, vai ser mais difícil trazê-la de volta.
Ela vai montar guarda no ambiente astral da casa dele.
— O que faço então?
— Vá. Mas não se esqueça de conservar o pensamento ligado à divindade e procure se manter em equilíbrio.
Nada de pressa nem constrangimento.
Faça tudo com amor, tente convencê-la com palavras carinhosas, incentivadoras.
— Vou tentar.
Mesmo que demore ou dê trabalho, vou trazê-la de volta.
— Muito bem — antes que ele saísse, Laureano acrescentou:
— O menino agora se chama Marcos.
É bom você saber.
Félix se transportou para a casa de Clementina, onde logo se adaptou ao ambiente.
A mulher encarnada estava jogada sobre a cama, e ele não pôde conter a emoção ao constatar o devotamento de Marcos a ela.
Sentada no chão, de pernas cruzadas, Margarete olhava embevecida para o menino.
Viu quando ele se aproximou e franziu o cenho:
— Veio me ajudar ou recriminar?
— Nem uma coisa, nem outra.
Vim ver como você está.
— Estou bem, obrigada.
— Aqui não é o seu lugar.
— Muito menos o seu.
— Então, por que não partimos juntos?
— Acho que me expressei mal.
Aqui não é o seu lugar.
O meu é junto do meu filho.
— Passaram-se onze anos.
Ele nem sabe que você existe.
— E daí?
Eu sei da existência dele, e isso é o que importa.
— O que pretende fazer?
Ficar por aqui, obsediando-o?
Ela o olhou com mágoa e retrucou de má vontade:
— Não sou um espírito obsessor e não gosto que me chamem assim.
— Mas é o que vai parecer se ficar aqui grudada neles.
Marcos e a mãe estão encarnados, você só vai atrapalhar.
— Ela me vê, sabia? — desconversou, apontando para Clementina.
- A mente dela está tomada pela droga, que, consequentemente, a coloca em contacto com esferas menos densas.
Por isso pode ver e falar com você e comigo.
— Óptimo. Podemos fazer uma reuniãozinha e decidir o que fazer.
— Diga-me você, Margarete.
O que pretende ficando ao lado deles?
— Quero estar com meu filho.
— Para quê?
— Para nada.
Quero apenas acompanhar o crescimento dele.
— Você não está preparada para isso.
Mas pode se preparar, se quiser.
— Que história é essa agora?
— Se vier comigo, conto-lhe tudo.
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