Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 09, 2015 12:12 pm

Disse a ela que não o queria mais.
Por que agora haveria eu de ir contra o casamento?
— Você não o ama mais?
— Não. Disso tenho certeza.
Só eu sei o que já sofri por causa dele.
Por ele me meti na bebida, e foi difícil sair.
Foi o seu amor que me tirou do vício, Marcos Wellington, não ele.
— Mas você não sentiu nada?
Até eu fiquei chocado na hora.
— Se alguma coisa senti, foi orgulho ferido.
Mas que direito tenho eu de me sentir assim?
Não fui a primeira a tirar Romualdo de sua tia?
Então agora, nada mais faço do que lhe devolver o amor de sua vida.
— É só por isso que concorda?
Porque se sente culpada por ter tirado meu pai dela?
— Não me sinto culpada.
O que quero dizer é que não posso dar asas ao orgulho, já que, de amor mesmo, não sinto nada.
Ninguém nos pertence, Marcos Wellington, ainda que nos enganemos assim.
— Você é uma mulher incrível — elogiou ele, beijando-a na testa.
— Sei, sei — brincou ela, enxugando duas pequeninas lágrimas.
Vamos deixar isso para lá.
Quero saber de você.
— De mim? Estou bem, por quê?
— Não tem falado de seu trabalho na companhia de seu avô.
Está gostando?
— Até que estou.
Todos na empresa são educados e atenciosos, não tenho de que me queixar.
Meu avô me trata muito bem, se esmera para me ensinar tudo.
Acabou me colocando no departamento jurídico.
Aos poucos vou me inteirando de contratos, concessões do governo, direitos trabalhistas.
É interessante.
— Muito bem. E Raquel?
— Está bem.
— Tem certeza?
— Por que pergunta isso?
— Noto que algo está diferente em você. O que é?
— Não tem nada diferente em mim.
— Ah! Tem. Você não me engana.
Não quer me contar?
— Não consigo esconder nada de você, não é mesmo?
— Sou sua mãe, conheço-o melhor do que ninguém.
Vamos, conte-me: o que o preocupa tanto?
Marcos se desenvencilhou dela e sentou-se no chão, enlaçando os joelhos.
— Sabe o que é, mãe?
Conheci outra garota.
— Ah...! Só podia ser.
— Não é o que você está pensando.
Essa garota é muito diferente de Raquel.
Mais parecida comigo.
Em breves palavras, ele contou a ela como conhecera Carla, confessando as dúvidas que o afligiam.
— E agora você acha que Raquel está a serviço de Satanás, e essa Carla é que é pura?
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 09, 2015 12:12 pm

— Mais ou menos.
— Vou lhe confessar uma coisa, Marcos Wellington.
Quando conheci seu pai, eu também não era mais virgem.
Sendo assim, dormimos juntos muitas vezes antes do casamento.
E sua tia, que é tão fanática, também perdeu a virgindade com ele.
Você acha que alguma de nós duas tem algo a ver com o diabo?
— Não. Mas é diferente.
Você se voltou para a igreja depois, e minha tia viveu em abstinência esses anos todos.
Foram perdoadas dos seus pecados.
— Qual! Você, um menino tão inteligente, acredita mesmo nisso?
Ele balançou a cabeça hesitante.
— Pois eu acho isso tudo uma besteira.
Não acredito em pecado.
Não dessa forma.
O que vale são as atitudes da pessoa.
Se ela age no bem, então está com Deus.
Se não, pode-se dizer que ela própria é o diabo.
— Que coisa, mãe.
Parece até a Raquel falando.
— Você sabe o quanto gosto da Raquel.
Ela é sincera, não tem medo de dizer o que pensa.
Isso de não ser mais virgem não tem importância.
Quem hoje em dia é? Você não, espero.
Ele riu envergonhado e protestou num gracejo:
— Mãe! Isso é pergunta que se faça ao filho?
— O que é que tem?
Já não lhe falei que não casei virgem?
Nenhum Deus vai me punir por causa disso.
— A igreja a salvou...
— Mentira! Eu só fui para a igreja porque sua tia insistiu.
— Falando desse jeito, parece que a igreja é um mal.
— Não é. Foi bom para mim naquele tempo, não nego.
Evitou que eu caísse na vida, pois eu tinha uma tendência à libertinagem, assim como foi bom para você, pois o impediu de aderir ao vício e ao tráfico.
O que eu não gosto é desse fanatismo, dessa mania de achar que tudo é pecado e que seremos punidos.
Você acha que, se Deus nos ama tanto, vai nos condenar a um sofrimento eterno?
Não consigo acreditar nisso.
— Pois vou lhe confessar uma coisa também, mãe.
Estou sentindo falta da igreja.
— Era só o que me faltava!
E eu que achei que agora você estava começando a ter uma vida normal.
— Talvez vá à igreja da Carla.
— Cuidado, Marcos Wellington.
Não vale a pena trocar uma menina decente feito a Raquel por essa Carla que você mal conhece.
Não é só porque ela é da sua religião que é boa.
Já pensou que ela pode estar mentindo sobre tudo que falou?
Quem lhe garante que as coisas aconteceram da forma como ela lhe contou?
Para mim, parece mais que ela se entregou ao sujeito e depois se arrependeu ou, então, ele lhe deu o fora, porque ela deve ser uma chata.
— Mamãe! Não fale assim de quem não conhece.
— Dois encontros não me parecem suficientes para se dizer que se conhece alguém.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 09, 2015 12:13 pm

— Pois ela me pareceu bem genuína.
— Sei. Tome cuidado.
Pense bem antes de magoar sua namorada.
— Não pretendo magoar ninguém.
Amo muito a Raquel.
— Ama, mas está aí empolgado com essa outra.
— É só afinidade por causa da religião e do que nós passamos.
— Ela pode ter passado uns maus pedaços, se é que o rapaz a forçou a alguma coisa.
Mas você, não.
Ou será que Raquel o obrigou a dormir com ela?
— É claro que não!
— Você foi porque quis, não foi? — Ele assentiu.
E gostou, não gostou?
— Isso não vem ao caso.
— Vem sim. Você gostou, que eu sei.
E Raquel é uma moça inteligente.
Já conversei com ela e acho as ideias que tem muito interessantes.
— Logo vi. É por isso que você veio com essa conversa.
Já se deixou contaminar pelas birutices de Raquel.
— Não acho birutices. Ela é bem sensata.
E você não devia falar assim dela.
Sabia que ela é louca por você?
— Eu sei, mãe. Também sou louco por ela.
Não se preocupe, não pretendo trocá-la por nenhuma outra.
— Ainda bem.
— Boa noite, mãe.
Vou tomar um banho e dormir.
— Não vai jantar?
— Não. Comi um lanche na rua.
Depois dos beijos de boa noite, Marcos seguiu para seu quarto pensativo.
Ouvir a mãe lhe fizera tremendo bem.
Não concordava com a opinião que ela formara de Carla, no entanto, os elogios que tecera a Raquel o deixaram mais tranquilo.
Embora não fosse religiosa, Clementina era uma mulher muito sábia, com uma visão clara da vida.
Sabia que podia confiar nela.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 09, 2015 12:13 pm

CAPÍTULO 52

Tarde da noite, Elói e Carla terminavam de se vestir enquanto conversavam.
— Você tem que agir logo! — exaltou-se ele.
Está demorando muito.
— Acho que não vai dar certo.
Quando me vê, sinto que ele se empolga, mas depois vem a sua irmã e ele se afasta.
Não adianta, Elói. É dela que ele gosta.
— Você é mulher, possui armas para conquistar os homens.
— Sua irmã possui as mesmas armas.
Com uma vantagem: ele está apaixonado por ela.
Assim, fica praticamente impossível.
— Não existe isso de impossível.
O que existe é a incompetência.
Ela soltou um suspiro desanimado e rebateu com azedume:
— Então, mostre você que é competente e faça. Eu estou fora.
— Calma aí, querida — contemporizou ele.
Não precisa exagerar.
— Olhe aqui, Elói, eu estou me desdobrando para conquistar o cara, mas não está dando.
Ele não quer. Deu para entender?
Ele não está a fim de mim.
— Tudo bem, não precisa ficar nervosa.
Eu só acho que você tem meios de conquistá-lo.
E não se esqueça de que lhe dei muito dinheiro para isso.
— Devolvo tudo, se você quiser.
— Não precisa.
Basta armar para cima do Marcos.
Não pode ser tão difícil.
— Lá vamos nós de novo...
Quantas vezes vou ter que repetir que ele não quer?
— Não quer?
Vamos ver até que ponto ele é durão.
— Em que está pensando?
— Tive uma ideia. Será nossa cartada final.
Se depois disso ele não cair, desisto.
E você pode ficar com o dinheiro.
Carla achou a ideia interessante e concordou que poderia dar certo.
Três dias depois, puseram o plano em prática.
Marcos e Raquel saíam da faculdade quando o celular dele tocou.
O número era de um telefone desconhecido.
Ele atendeu, reconhecendo, no mesmo instante, a voz histérica de Carla.
— Marcos! Pelo amor de Deus, me ajude! — disse soluçando.
— Estou desesperada. Sérgio me bateu...
E agora, o que é que eu faço?
O que eu faço?
Ela chorava descontrolada.
Ele olhou para Raquel em pânico.
Não queria que ela ouvisse o choro de Carla.
— Aconteceu alguma coisa? — perguntou a namorada.
Ele não respondeu, mas disse ao telefone:
— Está bem, acalme-se e me aguarde. Já estou indo.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 09, 2015 12:13 pm

— Mas, Marcos, você nem sabe onde estou...
— Ligue-me daqui a dez minutos, por favor.
Ele desligou.
Beijou Raquel e concluiu apressado:
— Sinto muito, Raquel, surgiu uma emergência.
— O que foi?
— Depois conversaremos.
Agora tenho que ir, está bem?
Deu um beijo nos lábios dela e esperou até que ela saísse.
Já em seu carro, trancou a porta e aguardou.
Exactos dez minutos depois, o celular tocou novamente.
— Marcos? — lamuriou-se Carla, aos prantos, do outro lado da linha.
Ah! Marcos, sinto envolvê-lo nisso.
Estou desesperada, não tinha a quem recorrer.
Sérgio ficou com ódio e me largou aqui sozinha, sem dinheiro, sem nada.
— Tudo bem, Carla, eu só quero que você se acalme.
Onde é que você está?
— Num motel, na Washington Luiz18 — ela deu o endereço e continuou eufórica:
Você vem?
— Já estou a caminho.
Assim que ele desligou, Carla olhou para Elói com um brilho vitorioso no olhar.
— Ele está vindo — falou exultante.
— Óptimo! Vamos logo concluir essa maquilhagem.
Tenho que ir embora o mais rápido possível.
— Não precisa de mais nada. Já está bom.
Elói apalpou os falsos hematomas no rosto de Carla e balançou a cabeça em dúvida.
— Essa maquilhagem custou uma nota — comentou.
— Tem certeza de que é à prova d'água?
— De maquilhagem, eu entendo.
Não se preocupe, não vai sair.
Os machucados não estão ao alcance das lágrimas, e é claro que não vou esfregar o rosto na água nem deixar que Marcos fique me alisando.
Quando ele tocar, vou dizer que dói.
— Óptimo! Então, vou embora.
Não podemos nos arriscar.
— Certo.
— Tome cuidado.
Não dê bandeira, ou ele vai perceber.
— Já sei, já sei. Vá logo, ande.
Ele deve estar chegando.
Algum tempo depois que Elói saiu, Marcos bateu à porta do quarto.
Carla se olhou no espelho, imprimiu uma expressão de sofrimento ao rosto e indagou com voz trémula:
— Quem é?
— Sou eu. Marcos. Abra.
Ela abriu a porta devagar, os olhos baixos, fingindo constrangimento.
Vestia uma camiseta de malha branca bem curtinha, além da calcinha.
Marcos ficou atónito, tentando não olhar para o corpo bem torneado de Carla.
— Entre — pediu ela com timidez.
E, por favor, não olhe para mim.
— Mas o que é isso? — indignou-se ele, levantando o queixo dela.
O que foi que esse cafajeste lhe fez?
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 10, 2015 12:04 pm

Carla, você tem que ir à polícia!
Um sujeito como esse é um criminoso, não pode andar solto por aí!
— Por favor, Marcos, polícia, não.
O que vou dizer a meus pais?
Que um marginal me espancou no motel porque eu não quis dormir com ele?
— Carla, Carla, por que fez isso?
Não disse que tinha terminado tudo?
— E tinha. Mudei até de celular, para ele não conseguir mais falar comigo.
Mas ele me procurou, disse que queria conversar...
— No motel?
— Era para termos mais privacidade.
Ele me garantiu que não faria nada.
— E você acreditou?
— Ele disse... — calou-se, engasgada com um falso soluço.
— Você ainda gosta dele, não é? — ela não respondeu.
Meu Deus, Carla, o homem é um animal!
— Eu sei...
Ela se sentou na cama, de cabeça baixa, fingindo chorar de mansinho.
Estava com uma aparência tão fragilizada que Marcos deixou-se envolver completamente pela aura de tragédia que ela criara.
Sentado ao lado dela, puxou-a para ele, pousando a cabeça dela em seu ombro.
— Não fique assim — confortou ele.
Eu estou aqui.
Sou seu amigo e vou levá-la embora.
Onde está o seu carro?
— Numa esquina aqui perto — respondeu, aproximando bem as coxas das dele.
— Então venha — ele quase suplicou, confuso ante aquele contacto perturbador.
— Não posso — sussurrou ela.
Como vou chegar em casa assim? E meus pais?
— Vai ter que enfrentá-los.
Você não pode ficar aqui.
— Vou esperar até amanhã.
Compro uma maquilhagem, óculos escuros e disfarço os hematomas.
Ela olhou directamente para ele, que ficou impressionado com a coloração excessivamente arroxeada dos machucados.
— Dói muito? — perguntou ele, tocando-os de leve.
— Ui! — fez ela, puxando o rosto para trás e segurando os dedos dele.
— Desculpe-me.
Ela levou os dedos dele aos lábios, deixando-o transtornado e surpreso.
Marcos tentou puxá-los de volta, mas ela não permitiu.
Aproximou a mão dele de seu rosto, numa parte não ferida.
Depois, voltou a beijar-lhe os dedos, um a um, encarando-o com um brilho de sedução inocente no olhar.
— Carla, por favor, não...
Ela não lhe deu tempo de terminar a frase.
Encostou-se totalmente nele, beijando-o entre espaçados soluços.
Marcos quis resistir, tentou empurrá-la gentilmente, mas ela manteve o corpo firmemente colado ao dele.
— Por favor, Marcos, não me rejeite — murmurou.
Você é a única pessoa que se importa comigo.
Movido mais pela compaixão do que propriamente pelo desejo, Marcos cedeu ao beijo.
Logo estavam se amando, sem que ele percebesse os cuidados que ela tomava para não manchar a maquilhagem do rosto.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 10, 2015 12:05 pm

Ao final, Marcos deixou o corpo cair ao lado dela, exausto.
Durante uns momentos, permaneceu calado, fitando-se pelo teto espelhado.
Logo a vergonha e o arrependimento o dominaram.
Ver a si mesmo e a Carla, nus e entrelaçados, causou-lhe indescritível mal-estar.
Imediatamente caiu em si, sentindo-se dominar pelo pânico.
Por que fora trair Raquel?
Se ela descobrisse, nunca iria perdoá-lo.
Marcos desenvencilhou-se de Carla, sentando-se na cama para não ter mais que encarar a si mesmo pelo espelho.
Engoliu as lágrimas, temendo pelo futuro.
Satisfeito o desejo, via agora que Carla não representava nada em sua vida.
Nem era assim tão diferente de Raquel.
Deixara-se envolver pelas manhas de um canalha, mas, ainda assim, transara com ele.
Por que achava que Carla não pecara ao fazer sexo antes do casamento, e Raquel, sim?
Raquel, ao menos, não o seduzira.
O que ele sabia realmente de Carla? Nada.
Agora, raciocinando com mais clareza, achava estranho o facto de que ela tivesse se entregado a ele tão facilmente.
Se estava mesmo arrependida, não devia insistir no pecado, muito menos provocá-lo.
E as coisas que ela fizera não condiziam com sua condição de menina abusada.
Ao contrário, Carla era uma mulher experiente, fazia sexo com desenvoltura, sem timidez alguma, utilizando-se de práticas que aparentemente nem Raquel conhecia.
Talvez a mãe tivesse razão, e tudo o que Carla lhe contara fosse mentira.
Eram desculpas, mais uma vez, ele sabia.
Carla podia ser mentirosa, mas ele se deitou com ela porque quis.
Ninguém o obrigou.
Com aquele breve momento de fraqueza, podia ter destruído a vida com seu verdadeiro e único amor.
Sentindo as mãos dela em suas costas, Marcos disse com uma certa aspereza:
— Vista-se. Vamos embora.
— Marcos...
Ela tentou abraçá-lo, mas ele não permitiu.
— Chega, Carla.
Nós não devíamos ter feito isso.
Tenho uma namorada e gosto dela.
O que aconteceu entre nós foi mera casualidade.
Não significou nada.
— Como pode dizer uma coisa dessas?
Foi tudo tão lindo!
— Deixei-me levar pelo momento, mas isso não vai se repetir, até porque, não pretendo tornar a vê-la.
— Por quê? — perguntou ela em lágrimas.
Marcos, acho que amo você.
— Isso é impossível.
Nós mal nos conhecemos.
— Como não?
Você foi o meu salvador, meu único amigo...
— Com quantos homens você dormiu antes de Sérgio? — disparou ele.
— Como assim?
Não estou entendendo.
Você sabe que Sérgio foi o primeiro.
— Não foi o que me pareceu.
Para alguém sem experiência, até que você sabia coisas demais.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 10, 2015 12:05 pm

— Sabia porque Sérgio me ensinou — revidou com raiva.
— Pelo visto, você aprendeu muito bem.
— Não estou entendendo, Marcos.
Por que quer me humilhar?
O que foi que eu fiz?
Pensei que você fosse diferente.
Agora vejo que é igual a todos os homens.
Tocado pelas palavras dela, Marcos contemporizou:
— Não quero magoar você, Carla. Perdoe-me.
O que acontece é que eu amo a Raquel.
Vamos deixar as coisas como estão.
— Você não pode fingir que não houve nada entre nós!
— Não estou fingindo.
O que houve foi um acidente, fruto do seu sofrimento e da minha compaixão.
— Nem eu estava sofrendo, nem você demonstrou estar com peninha de mim quando nos amamos.
Deu a impressão de que sentia prazer.
— Prazer não necessariamente tem a ver com amor.
Não amo você, Carla. Amo Raquel.
Vamos esquecer que isso aconteceu.
Ela abaixou a cabeça, fingindo chorar.
— Não posso esquecer.
Não tenho mais como apagar você da minha vida.
— Sinto muito. Não era para isso acontecer.
Vamos embora.
Vestiram-se em silêncio, e Carla engolia o ódio que sentia dele naquele momento.
Depois de pagar a conta, Marcos levou-a até onde ela havia deixado seu carro.
— Espero que você não me procure mais — pediu ele, sem olhar para ela.
Foi um erro o que aconteceu, e você sabe.
— Não fiz nada sozinha.
Você transou comigo porque quis.
— Estou bem ciente disso.
— Está com raiva de mim, mas não o obriguei a nada.
Você não tem de que me culpar.
— Não a estou culpando.
Culpo a mim mesmo por ter sido tão fraco.
— Vai voltar correndo para sua namoradinha? — irritou-se.
— Por favor, deixe Raquel fora disso.
Sem dizer nada, Carla entrou em seu carro e bateu a porta.
Marcos deixou-a sem olhar para trás.
Só pensava em Raquel.
Chegou atrasado à empresa, mal se concentrando no trabalho.
O avô perguntou se tudo estava bem, mas Marcos achou melhor não o envolver em seus problemas emocionais.
Carla voltou para casa exultante, orgulhosa de sua actuação.
Depois de tirar calmamente a maquilhagem, ligou para Elói.
— Deu tudo certo — anunciou vitoriosa.
— Vocês transaram? — surpreendeu-se ele.
— É lógico.
— Eu sabia! Meu plano foi infalível, não foi?
— Mais ou menos. Marcos se arrependeu.
Está com raiva de mim agora.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 10, 2015 12:05 pm

— Isso não importa.
Vá procurá-lo amanhã, antes que ele conte o que fez a Raquel.
— Deixe comigo.
No dia seguinte, ao chegar à faculdade, Marcos mal conseguia encarar Raquel.
Ela o recebeu com o carinho de sempre, mas percebeu que havia algo estranho na forma como ele agia.
— Está tudo bem? — indagou.
— Está.
Durante o resto do dia, ele permaneceu quieto, lutando entre o desejo de contar-lhe tudo e o medo de perdê-la.
Quando o celular tocou, ele não atendeu, reconhecendo o novo número de Carla no visor.
Ela telefonou várias vezes e ele ignorou todas as ligações.
Mesmo quando ela ligou de um aparelho fixo, ele não atendeu, desconfiado de que poderia ser ela.
Resolveu então não atender mais nenhuma ligação de números desconhecidos.
A consciência dizia que ele devia contar tudo a Raquel, todavia, faltava-lhe coragem.
O medo de perdê-la era maior do que o desejo de ser sincero.
Tinha agora quase certeza de que Carla o enganara.
Só não entendia por quê.
A maior surpresa veio dois dias depois, ao término das aulas.
Ao chegar ao estacionamento da faculdade, Marcos teve desagradável surpresa ao encontrar o carro de Carla parado ao lado do de Raquel.
Gelou. Sua vontade foi dar meia-volta e sumir com a namorada.
Não teve tempo, porém.
Carla saltou do carro tão logo os avistou pelo retrovisor.
O sangue fugiu do rosto de Marcos, que puxou Raquel para trás.
Sentindo a resistência dele, ela parou.
— O que foi que houve?
Esqueceu alguma coisa?
— Esqueci! — ele quase gritou.
É isso, esqueci... minha lapiseira.
— Ah! Marcos, dá um tempo.
Não vai me fazer voltar tudo isso só para buscar uma lapiseira que nem deve estar mais lá.
Amanhã compro outra para você.
Marcos maldisse a si mesmo pela resposta infeliz.
Raquel recomeçou a andar, praticamente arrastando-o pela mão, tagarelando, alheia à presença da outra.
Ela abriu a porta do carro e virou-se para se despedir de Marcos, mas Carla havia-se interposto entre eles.
— Precisamos conversar — falou ela, ignorando o ar de surpresa de Raquel.
Marcos ficou confuso.
Por uma fracção de segundos, seus olhos e os de Raquel se cruzaram.
Ela compreendeu tudo antes mesmo que ele pensasse.
— Agora não — respondeu ele em desespero, lutando para passar por ela e chegar até Raquel.
— Agora sim — prosseguiu Carla.
— O que está acontecendo? — interveio Raquel, tentando não acreditar em sua voz interior.
— Pergunte a ele — falou Carla secamente.
Raquel o questionou com o olhar.
Ele lhe devolveu outro, de súplica, de medo.
— Vamos embora, Raquel — implorou.
— Você é mesmo um covarde — disparou Carla.
O que há? Tem medo de dizer a verdade?
— Não tenho medo de nada — enfureceu-se, encarando-a com ar hostil.
Suma daqui, antes que eu perca a cabeça e não responda por mim.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 10, 2015 12:05 pm

— Está me ameaçando? Vai me bater?
— Não. Vou chamar a polícia.
Ela hesitou por um momento, o suficiente para ele empurrar Raquel para dentro do carro e correr para o lado do carona.
— Isso, fuja! — gritou Carla.
Mostre a sua namorada que, além de infiel, você é também covarde.
Marcos bateu a porta do seu lado, aguardando que Raquel desse partida no motor.
Ela, contudo, não se mexia.
— Ande, Raquel — pediu ele.
Ligue logo esse carro.
Raquel o encarou com olhos húmidos.
Conhecia, em seu íntimo, a razão daquele escândalo.
— O que você fez? — exprimiu num sussurro.
— Vamos sair daqui, Raquel.
Conversaremos em outro lugar.
— Não. Quero saber o que houve entre vocês.
Não foi preciso esperar pela resposta.
Com os nós dos dedos, Carla batia no vidro de Raquel.
— Não se deixe enganar, moça.
Esse que está aí é um cafajeste, canalha, ordinário.
Transou comigo, me usou o quanto quis e agora volta para a noivinha com ar arrependido.
Ele não presta! Safado! Ordinário!
— Isso é verdade? — indagou Raquel, as lágrimas a um passo de despencar.
— Raquel, por favor...
— É verdade ou não é?
— Não é o que você está pensando...
— É verdade ou não é? — repetiu, sentindo a raiva tentando dominá-la.
Ele não ousou responder.
De olhos baixos, balançou a cabeça em afirmativa, enquanto Carla continuava a esbracejar do lado de fora:
— Venha aqui para fora, cretino!
Exijo uma explicação...
— Saia — ordenou Raquel, os olhos ardendo, prestes a transbordar de lágrimas.
— Raquel...
— Saia! — vociferou, debruçando-se sobre ele para abrir a porta do carona.
Sem alternativa, Marcos saltou.
Imediatamente, Raquel girou a chave na ignição, saindo do estacionamento o mais calmamente que pôde.
Não queria dar a eles o gostinho de vê-la desesperada.
Marcos permaneceu parado, vendo o carro se afastar com o peito inflado de dor.
— Por que fez isso? — perguntou a Carla, só agora notando que os hematomas dela haviam desaparecido.
— Nada pessoal.
Certificando-se de que o carro de Raquel já ia longe, Carla entrou em seu próprio automóvel, deixando Marcos ainda mais estupefacto, sem entender nada.
Carla simplesmente destruía seu relacionamento com Raquel, aparentemente sem motivo algum.
Não. Tudo tinha um motivo.
Ela não podia ter entrado em sua vida surgindo do nada.
Alguém a colocara ali.
Não era preciso pensar muito para descobrir quem fora.
Todas as evidências apontavam para Nelson.
— Quanto foi que Nelson lhe pagou para fazer isso? — questionou com raiva, mas Carla já havia ligado o carro e ido embora.
Pelo retrovisor, viu-o parado no estacionamento, a lividez do espanto cedendo lugar à vermelhidão do ódio.
Tacteando na bolsa ao lado com uma das mãos, ela apanhou o celular.
Ligou para Elói e, assim que ele atendeu, disse com simplicidade, porém, em tom de vitória:
— Feito.
Foi a última vez que Marcos viu Carla.

18 Rodovia Washington Luíz.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 10, 2015 12:06 pm

CAPÍTULO 53

O pastor Euzébio teve uma grande surpresa ao entrar na igreja.
Ainda era cedo, nenhum culto estava programado, de forma que os bancos estavam todos vazios, à excepção de um dos primeiros, onde um rapaz orava contrito.
Passou em silêncio para não o interromper, mas, ao perceber que se tratava de Marcos, não conseguiu conter a curiosidade.
Sentou-se em um banco mais atrás.
Podia simplesmente ir embora, mas algo lhe dizia que Marcos, que não vinha à igreja havia tanto tempo, estava atravessando algum problema difícil, ou não teria aparecido fora dos horários dos cultos, só para rezar.
Passados alguns minutos, Marcos abriu os olhos, sentindo-se melhor, mais tranquilo.
Levantou-se calmamente.
Ao se virar, avistou o pastor parado mais atrás e o cumprimentou:
— Bom dia, pastor.
— Bom dia, Marcos Wellington.
Faz tempo que não o vejo.
— É verdade.
— E a sua tia também.
Ela não atendeu a nenhum de meus chamados.
— Nós nos mudamos.
— Fui avisado.
E você, como está?
— Não muito bem, para dizer a verdade.
— Alguma coisa em que eu possa ajudar?
— Acho que não.
— Você sabe que pode confiar em mim, não sabe?
Estou à disposição para ajudá-lo a enfrentar seus problemas e a vida.
— Mesmo que meus pecados sejam muitos?
— Quem não comete pecados não tem problemas.
E qual é o homem que não tem problemas?
Com um sorriso desanimado, Marcos sentou-se ao lado dele.
— Pastor... — começou de forma hesitante — tenho feito coisas das quais não me orgulho.
— Que tipo de coisas? — Marcos não respondeu, visivelmente envergonhado.
Por que não me conta tudo?
— Para começar me apaixonei por uma moça que não é da nossa fé.
Raquel é maravilhosa, mas tem ideias estranhas.
— Essa Raquel é a moça que o afastou da igreja?
— Ninguém me afastou da igreja — protestou ele com veemência.
Eu só estou sem tempo.
— Sempre há tempo para as coisas de Deus, meu filho.
— Eu sei, pastor, mas minha vida anda meio complicada.
O senhor sabe de tudo, não sabe?
De meus pais verdadeiros, de meus avós em Belford Roxo?
— Fui eu que recebi o detective e aconselhei sua tia a contar a verdade.
Fiquei muito satisfeito em saber que tudo acabou bem.
— Meus avós têm sido maravilhosos comigo.
— Mas não são evangélicos, suponho.
— Não.
— Uma pena.
Enfim, cada um escolhe seu caminho, não é mesmo?
O mais importante é respeitar Deus e ser uma boa pessoa.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 10, 2015 12:06 pm

— Eles são boas pessoas.
Quanto a eles, estou tranquilo.
Contudo, desde que conheci Raquel, uma sucessão de desgraças tem acontecido na minha vida.
Minha mãe foi acusada de um furto que não cometeu, perdi meu emprego, envolvi-me com outra mulher.
— Outra mulher? — surpreendeu-se.
— Uma mulher que eu conheci na rua.
— A que ponto foi esse seu envolvimento com ela?
Marcos abaixou a cabeça, envergonhado, e Euzébio prosseguiu:
— Você fornicou com ela, não foi?
E com sua namorada também.
— Falando assim, o senhor faz parecer que sexo é uma coisa feia e nojenta.
— Não é, desde que dentro do casamento.
Mas você não é casado.
Nem poderia ser com duas mulheres!
— Eu sabia que não devia ter lhe falado nada — irritou-se Marcos, erguendo o corpo do banco.
Já começou o julgamento.
— Não, Marcos, espere, não vá embora.
Perdoe-me se o estou julgando.
É que me preocupo com a sua alma.
— Olhe, pastor, eu agradeço, mas agora é tarde.
Se quer mesmo saber, dormi, sim, com Raquel e com Carla, mas só quanto a esta me arrependo.
O que sinto por Raquel é amor, e não posso me arrepender de amar.
— Fique calmo, meu filho.
Encontrarei um jeito de ajudá-lo.
Deus sempre perdoa os que se arrependem sinceramente.
— O senhor não está entendendo.
Com todo respeito, não vim aqui em busca da sua ajuda.
Vim apenas me reconciliar com Deus, conversar com Ele, pedir o seu perdão pelo que fiz a Raquel.
Enganei a mulher que sempre foi sincera comigo, duvidei de sua lealdade, cheguei mesmo a pensar que ela estivesse a serviço de Satanás.
É disso que me arrependo.
A situação em que Euzébio se encontrava não era das mais confortáveis.
Fora-se o tempo em que a rigidez levava a bons resultados.
Mais valia ceder para tentar reconquistar a confiança de Marcos do que perder sua alma para Satanás.
Era preciso ser cuidadoso, medir bem as palavras, para evitar que o rapaz, sentindo-se ofendido, fosse embora para sempre.
— Muito bem, Marcos — disse ele com cautela.
Se você está realmente arrependido, Deus irá perdoá-lo.
Ele, mais do que ninguém, pode ler o coração dos homens.
— Sei disso.
— Arrependa-se e ore, pedindo perdão. Depois, case-se com Raquel.
— É o que pretendo, se ela ainda me quiser.
— Se vocês se casarem, Deus perdoará seus pecados.
Os olhos de Marcos se encheram de lágrimas, que ele enxugou rapidamente.
— O senhor não faz ideia do quanto amo Raquel — confessou.
Se ela não me perdoar e não me quiser mais, não sei o que será de mim.
Juro que nunca mais amarei outra.
Comovido com a sinceridade de Marcos, o pastor deu-lhe um abraço fraterno e concluiu:
— Não se preocupe.
Se ela o ama também, vai perdoá-lo.
— Ah, pastor! O que devo fazer?
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 10, 2015 12:06 pm

— Já experimentou procurá-la?
— Ela não atende o telefone.
E não foi à faculdade hoje.
— Uma hora vocês vão se encontrar.
Quando isso acontecer, coloque-se na posição humilde do pecador que reconhece o seu erro.
Não tente rebater o que ela diz nem se justificar.
Assuma o que fez e demonstre arrependimento.
Mostre-lhe o quanto ela é importante, submeta-se ao castigo que ela quiser lhe dar.
Se possível, deixe de dormir com ela até o casamento.
Isso irá ajudá-los a se purificarem.
Marcos deu um sorriso sem graça e não contestou.
O pastor tentava manter sua fidelidade à igreja mudando de atitude.
Combater Raquel não era uma boa táctica.
O que ele pretendia era trazê-la para perto.
Se eles se casassem e ela passasse a frequentar a igreja, tudo estaria resolvido.
Mas Marcos, que a conhecia muito bem, sabia que isso seria praticamente impossível.
— Obrigado, pastor — falou Marcos ao final.
Vir aqui e conversar com o senhor deixou-me bem melhor.
— Óptimo. Eu só quero o seu bem.
— Eu sei. Agora, preciso ir.
Estou atrasado para o trabalho.
— Vá, meu filho. Mas volte.
E diga à sua tia para vir também.
Precisamos conversar.
— Estamos morando mais longe agora, e não sei se continuaremos a frequentar esta igreja.
Talvez procuremos outra, mais próxima de nossa casa.
— Que pena!
Mas, enfim, o importante é não deixar de lado os ensinamentos sagrados e manter a fé em Jesus.
Não deixem morrer essa fé em vocês.
Procurem outra igreja, mas não se afastem dela.
— O senhor é um bom homem, sábio e amigo.
Vou sentir sua falta.
— Também vou sentir a sua e a de sua tia.
Estou nessa congregação há mais de vinte anos.
Conheço-os há muito tempo.
— Prometo vir visitá-lo quando puder.
— Não se comprometa com promessas que sabe que não irá cumprir.
Acredito que os sentimentos bons que construímos com os outros nunca se perdem, mas a distância cria obstáculos à assiduidade.
Tem sempre o trânsito, o cansaço, a preguiça, a hora.
Não faz mal. É parte da vida.
Só espero que as boas sementes que ajudei a plantar no seu coração frutifiquem em qualquer outro lugar.
— Isso, sem dúvida.
Os valores morais que aprendi com o senhor são para sempre.
— Muito bem, Marcos. Você é um bom rapaz.
Sempre foi. Vá, meu filho, e seja feliz.
— Obrigado — concluiu Marcos, apertando as mãos do pastor.
Saindo dali, Marcos foi directo para o trabalho, mas não conseguiu se concentrar, só pensando em Raquel.
Tentou ligar para ela várias vezes ao longo do dia, mas ela não atendeu.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 10, 2015 12:06 pm

Tampouco compareceu à faculdade nos dias que se seguiram.
Desesperado, Marcos pensou em procurá-la em sua casa, mas o medo de ser atendido pelos pais dela o impediu.
Não sabia mais o que fazer.
— Não estou aguentando mais — queixou-se ele a Arnaldo.
Raquel não vem mais às aulas.
Preciso falar com ela.
— O que foi que houve entre vocês?
— Fiz uma borrada, Arnaldo.
Envolvi-me com uma aventureira.
Em breves linhas, Marcos colocou Arnaldo a par de tudo.
— É, foi uma besteira — concordou o amigo.
Mas será que ela não irá perdoá-lo?
— Não sei. Ela sumiu.
O professor entrou, silenciando a turma.
Sempre que a porta se abria, o coração de Marcos disparava, na esperança de que fosse Raquel.
Mas nunca era. Os dias foram se passando, e nada de sinal da moça.
Ela não atendia o celular nem o telefone.
Ele até tomou coragem para procurá-la em sua casa, mas foi informado de que ela não estava.
Como a insistência não era de sua natureza, preferiu respeitá-la e não a procurou mais.
Certa manhã, ao entrar na sala de aula, encontrou Arnaldo e Paulo conversando.
Cumprimentou-os, sentou-se ao lado deles, mas não se interessou pela conversa.
Até que Arnaldo o introduziu no assunto:
— Você tem visto o Nelson?
Marcos levantou a cabeça, olhando ao redor.
— Engraçado, agora que você comentou é que reparei que ele também anda sumido.
Arnaldo e Paulo se entreolharam, e este se adiantou:
— Isso é porque agora ele está estudando no turno da noite — Marcos ergueu uma sobrancelha.
E Raquel também.
— O quê? Como isso foi possível?
No meio do semestre!
— Não é impossível, Marcos.
Basta um problema convincente.
— E o problema sou eu? É isso?
Os dois deram de ombros, e Paulo prosseguiu:
— Soube que, assim que ela mudou para o turno da noite, Nelson pediu a transferência dele.
— Cafajeste — Marcos rilhou entre os dentes.
Não gosto de ter esses pensamentos contra ninguém, mas acho que Nelson armou para mim.
— Como assim?
— Pensem bem.
Se Carla era tão apaixonada por mim como dizia, por que iria sumir?
Não era o caso de ela aproveitar que Raquel não quer mais me ver para tentar me conquistar?
— Você acha que Carla estava a serviço de Nelson? — indignou-se Arnaldo.
— É uma possibilidade.
— Não sei se Nelson seria capaz de uma coisa dessas — objectou Paulo.
Não é o jeito dele.
Nelson resolve tudo na força.
Não tem cabeça nem inteligência para arquitectar um plano como esse.
— Vocês repararam nas coisas estranhas que me aconteceram desde que comecei a namorar Raquel? — prosseguiu ele.
Primeiro foi aquele episódio lamentável com a minha mãe no Pão de Açúcar.
Depois, foram as acusações de assédio, perdi meu emprego.
Por fim, veio Carla.
E agora, depois de tudo isso, finalmente Raquel me deixa e quem é que surge logo em cena? O Nelson.
— Se foi ele, não agiu sozinho — insistiu Paulo.
Volto a afirmar que Nelson não tem cabeça para isso.
Alguém deve ter idealizado tudo para ele.
— Quem?
— António? — sugeriu Arnaldo.
— Duvido muito.
É outro que não está acostumado a usar a cabeça.
— Então quem?
— Não sei.
Mas é o que vou tentar descobrir.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 10, 2015 12:07 pm

CAPÍTULO 54

Como a concentração de Marcos andava péssima nos últimos dias, o avô chamou-o à sua sala para uma conversa.
Graciliano recebeu-o com a afectuosidade de sempre, abraçando-o com carinho.
— O que foi que houve, Marcos? — perguntou interessado.
Você tem andado estranho ultimamente.
Aconteceu alguma coisa?
— Problemas pessoais, nada com a empresa.
— Então você está com problemas.
Será que posso ajudá-lo?
— Não, obrigado.
Estou tentando resolver sozinho.
— É algo com a sua namorada?
— Como é que sabe?
— Meu filho, eu já tive a sua idade.
Bernadete foi minha única namorada, acredita?
Quando ela brigava comigo, eu ficava assim, jururu que nem você.
Marcos achou graça da forma como ele falava e retrucou com um pouco mais de ânimo:
— O senhor não faz ideia do quanto amo Raquel.
— Ama e não faz nada para tê-la de volta?
— Eu não disse que a perdi.
— E nem precisa. Não sou tolo.
Então, o que fez para tê-la de volta?
— O que posso fazer?
Ela não quer falar comigo.
Até transferiu a faculdade para o turno da noite.
— Já experimentou lhe mandar flores? — Marcos meneou a cabeça, surpreso.
E uma caixa de bombons?
E um bichinho de pelúcia, desses bem engraçadinhos?
Ou, quem sabe, um livro de poemas?
Como vê, há muitas maneiras de agradar uma mulher.
Só não mande jóias.
Ela pode pensar que você está querendo comprá-la.
— O senhor acha que adianta? — retrucou Marcos, bastante interessado.
— Desde que você não escreva um cartão imenso, cheio de pedidos de desculpas...
Um simples eu te amo basta.
— Sabe que o senhor me deu uma óptima ideia?
— Ela pode até nem falar com você ou fingir que não liga.
Mas que vai gostar, isso vai.
— Mas, se ela não falar comigo, de que vai adiantar?
— O amor está presente nesses simples gestos, e ela vai sentir isso.
Aos poucos, o coração magoado de Raquel vai perceber seu arrependimento sincero.
— E depois?
— Depois, ela vai dar mostras de que você pode procurá-la.
— Como?
— Pode ser de várias maneiras.
Basta você estar atento.
Marcos sentiu como se uma luz se acendesse no mar de sombras que aparentemente o envolvia.
Abraçou o avô com entusiasmo, pronto para iniciar seu plano de reconquista.
As primeiras flores chegaram à casa de Raquel na manhã seguinte.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 10, 2015 12:07 pm

Quando ela voltou de sua caminhada matinal, encontrou-as em um jarro em seu quarto, com um cartão que dizia simplesmente: eu te amo.
Estava assinado por Marcos.
Ela amassou o cartão, atirando-o longe.
Depois, pegou as flores e jogou-as na lixeira, arrependendo-se em seguida.
Mas, como as flores já haviam descido pelo duto de lixo, não pôde pegá-las de volta.
Apanhou, contudo, o cartão.
Desamassou-o, leu novamente aquele eu te amo.
Lágrimas lhe vieram aos olhos, ela apertou o cartão contra o peito, ainda se perguntando como Marcos fora capaz daquela traição.
Dois dias depois, recebeu uma caixa de bombons em forma de coração, com um cartão que continha apenas as palavras eu te amo e a assinatura dele.
Dessa vez, não a jogou fora.
Abriu a caixa, cheirou-a.
Experimentou um bombom, saboreando-o com prazer, como se tocasse os lábios de Marcos.
Mais uma vez, os olhos humedeceram, extravasando a saudade que pressionava seu peito.
Na sexta-feira, a surpresa foi redobrada.
O auditório estava aberto para uma palestra sobre direito civil, a ser ministrada por um importante jurista da actualidade.
Toda a faculdade estava presente, inclusive Marcos, sentado numa das primeiras filas com Arnaldo e Paulo.
Ele olhou para ela e sorriu, mas não fez nenhum gesto que indicasse aproximação.
A presença dele deixou-a desconcertada.
Na mesma hora, seu coração perdeu o ritmo, numa aceleração frenética que quase a fez tropeçar.
Nelson também notou que ele estava ali, cerrando os punhos com ódio, louco de vontade de acertar-lhe um murro.
Vê-lo despertou ainda mais a saudade em Raquel.
Observava-o discretamente, acompanhando todos os seus passos.
Ele estava tranquilo, aparentemente desinteressado dela, mas Raquel sabia que ele apenas fingia.
Quando, por vezes, ele se virava para trás, seus olhos se cruzavam, e era como se um mundo de emoções os convidasse a viver.
O final da palestra foi como o despertar de um sonho.
Marcos se despediu dela com um aceno, que ela respondeu mais entusiasticamente do que pretendia.
A seu lado, Nelson se remoía por dentro, sem conseguir evitar o despeito.
— Não sei o que ele veio fazer aqui — comentou com raiva.
Não estuda de manhã?
— A palestra é para todos os alunos — defendeu ela.
— Não importa o turno.
Nelson tentou não pensar em Marcos.
Queria atrair a atenção de Raquel só para si.
— Quer ir a um cinema mais tarde? — convidou.
— Hoje? Acho que não. Já está tarde.
— E amanhã?
— Não sei. Por que não me telefona?
Ele telefonou.
Era sábado, mas ela não quis sair.
Deliciava-se com as poesias de Vinícius de Moraes que Marcos lhe enviara, lendo para si mesma:
"No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida..."19
Era a primeira vez que alguém lhe enviava poesias, gesto que ela achou de um romantismo extremo.
Deliciava-se tanto com os versos marcados por ele que ninguém conseguiria tirá-la dali.
Ouviu batidas na porta, e Elói entrou em seguida.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 10, 2015 12:07 pm

— O Nelson está ao telefone — anunciou.
Quer falar com você.
Levantando os olhos da leitura, ela apanhou o fone da mão do irmão.
Enquanto falava com Nelson, Elói puxou o livro e folheou-o, notando as várias marcações românticas e a dedicatória feita por Marcos.
Com o sangue fervendo, perguntou irritado, assim que ela desligou:
— Desde quando você se interessa por poesia?
— Desde que Marcos as manda para mim.
— Vocês não terminaram? — Ela não respondeu.
Nelson não vai gostar de saber disso.
— Nelson não é nada meu.
E agora, dê-me licença, sim?
Quero terminar de ler.
Elói fechou a porta furioso.
Nelson estava facilitando demais, dando espaço para que Marcos enchesse Raquel de presentinhos idiotas.
Embora ela ainda estivesse aborrecida com a traição de Marcos, acostumara-se a receber seus presentes.
E se ligasse para ele a fim de agradecer?
Não seria nada de mais, apenas um gesto de educação.
Segurou o celular na mão, pensando se devia ou não ligar.
Olhou para sua escrivaninha, cheia de flores que ele lhe mandava.
Marcos devia estar muito arrependido para enchê-la de presentes daquela forma.
E sempre coisas delicadas.
Bonito, inteligente, simpático e agora rico, podia ter as mulheres que desejasse.
Contudo, persistia tentando reconquistá-la.
Talvez devesse lhe dar uma chance. Resolveu ligar.
Ele atendeu com voz trémula, visivelmente se esforçando para conter a explosão de alegria.
— Raquel! Que surpresa maravilhosa!
— Estou ligando para agradecer os presentes que você me mandou.
São todos lindos.
— Não foi nada.
É só uma forma de lhe mostrar o quanto a amo.
— Será que me ama mesmo?
— Você ainda duvida?
— Não sei.
Não depois de tudo o que você fez.
— Por que não conversamos e me deixa explicar?
— Explicar o quê?
Que você me traiu com aquela mulherzinha à toa?
— Não é bem assim, Raquel.
Alguém armou para mim e...
— Armou para você? Essa é muito boa!
Arranjando desculpas, como sempre.
— Carla não significou nada.
Por favor, Raquel, deixe-me explicar.
Foi tudo uma armação de Nelson.
— De novo com essa história?
Não dá mais, Marcos.
Nelson pode ser um grosseirão, mas não é justo você tentar se justificar seus actos colocando a culpa nele.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 10, 2015 12:07 pm

— Não é nada disso.
Todo o romantismo que ela vira nos agrados de Marcos se perdeu nas palavras inúteis dele.
Seria muito mais fácil ela aceitar que ele tivera um deslize se ele fosse sincero.
Mas tentar colocar a culpa em outra pessoa lhe parecia indigno, um ato de desespero em nada condizente com os princípios de Marcos.
— Olhe, Marcos, esse assunto já morreu — rebateu ela com frieza.
Só eu sei como me senti naquele dia.
Agradeço o livro e as flores, mas não tente me convencer da sua inocência.
Você, como sempre, procura se safar com alguma desculpa.
Chega. Acabou.
E, por favor, não me mande mais presentes.
A partir de hoje, não os aceitarei mais.
Ele desligou arrasado.
Bem que o avô o avisara.
Estava tudo indo tão bem, por que ele tinha que acusar Nelson, ainda mais sem provas?
E agora, o que faria?
Se não podia lhe mandar presentes, como fazer para reconquistá-la?
Precisava pensar em algo que a sensibilizasse e que ela não se atrevesse a devolver. Mas o quê?
A ideia surgiu de repente, quando ele fazia uma pesquisa na internet.
Uma foto que ele vira num site.
Conhecendo Raquel como conhecia, tinha certeza de que ela ficaria encantada com o presente.
Era algo que ela, mesmo que não aceitasse, não poderia jogar fora.
Teria que ir, pessoalmente, devolver.
No fim da tarde de sexta-feira, o presente chegou.
Era uma caixinha vermelha, pequena, amarrada com um imenso laço de fita dourada.
Mesmo contrariada, a curiosidade foi maior.
Raquel soltou o laço, levantando a tampa.
Levou um susto.
De dentro, uma gatinha angorá, branca e de olhos azuis, a fitou com espanto, toda trémula.
Soltou um miado fraquinho, sedutor, que logo a encantou.
Raquel não resistiu.
Apanhou a gatinha no colo.
Verificou a coleirinha vermelha que ela usava e que exibia uma plaqueta com seu nome: Raquel.
— Eu não acredito! — entusiasmou-se ela.
Veja, mãe, Marcos me deu uma gatinha com o meu nome. Ele é louco!
— Nós não podemos ter um gato em casa! — objectou Elói com raiva.
— Por que não?
Ela é tão bonitinha!
Posso ficar com ela, mãe?
— Por mim, tudo bem, desde que ela não suje a casa toda.
O cartão vinha com o costumeiro eu te amo.
Raquel abraçou a gatinha, sentindo-lhe a maciez do pelo e a língua áspera.
— Ela é uma gracinha.
Está até me lambendo.
Acho que gostou de mim.
— Isso vai dar é trabalho — replicou Elói, de má vontade.
Odeio gatos.
Só mesmo um idiota feito o seu namoradinho para lhe mandar um presente de grego desses.
E aqui em casa nem tem lugar para ela.
— Ela vai ficar comigo, no meu quarto.
— Quero só ver quando ela começar a emporcalhar tudo.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 10, 2015 12:08 pm

— Ela não vai fazer isso. Gatos são limpinhos.
Vou sair agora mesmo para comprar ração, caixa de areia e outras coisas.
— Vou com você, filha — anunciou Ivone.
Preciso dar uma passada no shopping.
— Óptimo.
— Então vamos.
— Vou deixar a gatinha no meu quarto, Elói.
Nem se atreva a lhe fazer algum mal.
Depois de acomodar a gata no quarto, Raquel saiu em companhia da mãe.
Na garagem, experimentou a chave, que não abriu a porta do carro, só então percebeu que apanhara o chaveiro errado.
— Ora essa, mas que azar.
Trouxe a chave do carro de Elói.
Espere só um instante, mãe.
Vou lá em cima pegar a minha.
Sem nenhum tipo de preocupação ou desconfiança, Raquel voltou ao apartamento.
Ao passar pela sala, ouviu a voz do irmão ao telefone.
Ele estava sentado no sofá, com a televisão ligada, de frente para a janela, e não viu quando ela entrou.
Raquel não teria se detido para ouvir, não tivesse ele pronunciado o nome de Nelson:
— É o que estou dizendo, Nelson.
O idiota agora mandou uma gatinha para ela.
E ela, a tonta, se derreteu toda.
É nisso que dá a sua pasmaceira.
Por que não faz nada?
Está esperando o quê?
Que ela volte com Marcos?
Fez-se silêncio, provavelmente porque Nelson respondia alguma coisa, até que Elói prosseguiu:
— E daí? Você está perdendo terreno.
De que adiantou eu gastar meu dinheiro com a Carla se você não faz a sua parte?
Novo silêncio, nova resposta de Nelson.
— O que quero que você faça?
Que tome uma atitude de homem! — Pausa.
Não, não vou contratar Carla novamente.
Não vai mais adiantar, Marcos não é bobo.
Você agora tem que se virar sozinho.
Já está tudo pronto, só depende de você. Vire-se!
Elói bateu o telefone e desligou a televisão.
Ao se virar para sair, seu corpo todo gelou.
Em pé atrás do sofá, Raquel o fitava em choque.
— Elói, o que você fez? — esbracejou.
Que história foi essa que eu ouvi?
Mudo de espanto, Elói passou por ela feito uma bala.
Raquel segurou-o pelo braço, olhando-o com ódio.
— Largue-me, Raquel — disse ele entre os dentes.
Não lhe devo satisfação da minha vida.
— Eu ouvi o que você disse.
Você pagou essa Carla para seduzir Marcos e aprontar aquele escândalo? Foi isso?
Mas por quê?
Só para eu voltar com Nelson?
Nesse momento, a mãe entrava em casa, preocupada com a demora de Raquel.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 10, 2015 12:08 pm

Vendo os filhos em posição de guerra, assustou-se e correu a interceder:
— O que está acontecendo aqui?
Vocês estão brigando?
— Pergunte ao Elói o que ele fez.
Ivone olhou para o filho sem entender, mas ele não disse nada.
— Vamos, conte a ela o que você fez — desafiou Raquel.
Não foi homem para pagar a vagabunda?
Pois seja homem agora para admitir.
— Não tenho que admitir nada — rosnou ele, puxando o braço.
— Covarde! Entendi bem o que você fez.
E, virando-se para a mãe, revelou:
— Elói pagou uma vadia para seduzir Marcos, transar com ele e fazer escândalo na porta da faculdade.
Tudo isso para eu voltar com Nelson. Por quê?
— Elói! — indignou-se a mãe.
Você realmente fez isso?
— É o que Raquel está dizendo.
— Eu ouvi! — confirmou ela.
Cheguei aqui para buscar a chave do carro, e ele estava ao telefone com Nelson.
Não minta, Elói, eu ouvi tudo!
Não adiantava mais tentar esconder.
Elói replicou em fúria:
— Fiz mesmo, e daí?
Por culpa sua, Raquel.
Onde já se viu uma moça branca e de classe envolvida com um negro pé-rapado e favelado?
Não podia permitir que você manchasse o nome da nossa família.
— Que preconceito! — indignou-se Ivone.
Meu filho, onde você aprendeu a ter preconceito?
Em nossa casa que não foi.
— Ele pode ter o preconceito que quiser — interveio Raquel.
Desde que não prejudique ninguém, muito menos faça armações para destruir a vida dos outros.
Que coisa feia, Elói! Digna de um cafajeste.
É isso que você é?
Meu irmão é um cafajeste?
— Veja lá como fala, Raquel!
Não vou permitir que ninguém me ofenda dessa maneira.
Ainda que minha própria irmã.
— O que você vai fazer?
Contratar alguém para dar um jeito em mim, assim como contratou uma prostituta para seduzir o Marcos?
— Não me aborreça, Raquel. Foi para o seu bem.
— Para o meu bem? Essa é muito boa.
Agora compreendo tudo:
o furto no Pão de Açúcar, as garotas fazendo queixa de Marcos...
Você queria destruí-lo, não é?
— E daí? É o que ele merece.
— Então você admite?
— Admito. E qual o problema?
Estava apenas tentando defender minha família.
A mãe dele é gentinha, não é ninguém especial.
E quem garante que ele não passou mesmo a mão naquelas garotas?
Quanto a Carla...
Bom, ele transou com ela porque quis.
Ninguém o forçou.
Você devia me agradecer.
Foi uma afronta.
Raquel, descontrolada, deu-lhe um bofetão na face e, olhos em chamas, esbracejou:
— Canalha! Tenho vergonha de dizer que sou sua irmã.
Ela deu as costas aos dois, deixando Elói a cargo da mãe.
Apanhou a chave de seu carro, pegou a gatinha no colo e saiu desabalada.
O irmão tinha razão quando disse que Marcos dormira com Carla porque quisera.
No entanto, diante das circunstâncias, ele merecia uma chance de se explicar.
E ela agora estava disposta a ouvir.

19 Extraído do poema Ausência, em Antologia Poética, Livraria José Olympio Editora, 25ª edição.
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Ave sem Ninho

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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 11, 2015 12:07 pm

CAPÍTULO 55

Raquel nunca sentira tanta raiva em sua vida.
Nem quando descobrira a traição de Marcos.
Ser enganada pelo namorado era algo realmente doloroso, mas os amores podiam se alternar na vida com a mesma intensidade.
Já o irmão era o seu sangue.
Um namorado ou marido podiam deixar de sê-lo. Um irmão, não.
Chegou em frente ao prédio em que Marcos residia com a máxima rapidez possível.
Estacionou e olhou para o alto do edifício, tentando localizar a janela dele.
Estava acesa, o que foi um alívio.
Ele já havia voltado do trabalho.
Ela apanhou a gatinha e trancou a porta do carro.
O porteiro já a conhecia, de forma que ela não teve dificuldade em subir sem ser anunciada.
Tocou a campainha, Clementina a recebeu.
— Ora, Raquel! — exclamou ela com alegria.
Que surpresa agradável!
Marcos vai ficar feliz em ver você.
— Ele está?
— Chegou agora do trabalho. Está no quarto.
Quando Raquel passou, Clementina afagou a cabecinha da gata, dando mostras de que sabia da história.
Ela bateu à porta do quarto, mas ninguém respondeu.
Deitado em sua cama, com fones no ouvido tocando alto um gospel, ele não escutou.
Raquel bateu novamente.
Como ele não atendesse, ela abriu a porta devagarzinho, espiando para dentro.
Marcos estava deitado de costas, o braço encobrindo os olhos, os pés sobre a cabeceira da cama, balançando levemente ao ritmo da música.
Ela entrou sem fazer barulho, pousando a gatinha, suavemente, em cima dele.
Ele abriu os olhos espantado, surpreendendo-se mais ainda com o animalzinho em seu peito.
Não sabia se devia sentir-se alegre ou preocupado.
Retirou os fones do ouvido, sentou-se, deixando o animal em seu colo.
— Raquel... — sentiu a voz faltar e engoliu em seco.
Veio devolver a gata?
— Não. Vim para conversar com você. Posso?
— Você pode tudo — disse, embevecido.
Raquel sentou-se ao lado dele e apanhou a gatinha.
— O que deu em você para me mandar um presente desses? — indagou ela, virando o animal para ele.
— O que melhor do que uma gatinha para alegrar outra gatinha?
— Quanta originalidade! — zombou ela, mas com ternura.
— Sei que você gosta de gatos.
Nunca me esqueço daquele dia no Pão de Açúcar.
Quase perdi você para aquele vira-lata.
— Não fale assim.
Ele era tão bonitinho!
— Eu sei. Como você.
Sem conseguir ocultar o rubor, Raquel disse sem jeito:
— Ela é linda. Obrigada.
— Quer dizer que vai ficar com ela?
— Quem é que resiste a uma coisinha dessas?
Até minha mãe se apaixonou por ela.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 11, 2015 12:07 pm

Marcos sorriu de prazer, e ela prosseguiu:
— Mas não foi exactamente por isso que vim até aqui.
— Não?
— Na verdade, queria que você me contasse o que houve entre você e aquela... — calou-se, sem coragem de dizer o nome de Carla.
Para Marcos, era a chance que ele tanto esperava.
Contudo, ver-se diante de Raquel sem nenhum preparo para falar da outra causou-lhe um certo pânico, que ele teve que conter para não perder a namorada de vez.
Era preciso, sobretudo, não acusar ninguém para não parecer que ele, mais uma vez, buscava justificativas para seus actos.
— O nome dela é Carla... — começou, num esforço tremendo para não perder a voz.
Eu a conheci por acaso... ela bateu na traseira do meu carro.
Sem omitir nenhum detalhe nem tentar diminuir sua participação nos eventos, Marcos narrou-lhe tudo, desde o aparentemente casual acidente até seu último encontro na faculdade.
— Sei que foi uma estupidez... — balbuciou ele, olhos marejados.
Não adianta dizer que eu não queria.
— Se não quisesse, não teria ido até o motel.
— Acredite, Raquel, até então, eu estava sendo ingénuo.
Achava que iria tirá-la de lá e levá-la de volta para casa.
Nem me passou pela cabeça encontrá-la seminua, pronta para me seduzir.
Eu pensava que ela gostava do tal Sérgio, que acho que nem existe.
Só sei que depois daquele episódio na faculdade, ela nunca mais apareceu.
— Por que foi vê-la novamente?
Não podia simplesmente consertar o carro e nunca mais falar com ela?
— Confessar é difícil para mim, mas eu estava realmente impressionado com ela.
Ela me pareceu tão linda, tão frágil...
Mas não foi isso o decisivo para eu me envolver com ela.
Foi eu pensar que ela era evangélica e acreditava nas mesmas coisas que eu.
— E o que o fez mudar de ideia?
— O amor que sinto por você.
Podia estar confuso por causa dessa coisa de religião.
Mas, assim que terminei de transar com ela, dei-me conta do que havia feito.
Senti meu corpo todo vazio, a garganta embolada, o coração comprimido.
Naquele momento, tive certeza de que era você que eu amava e imediatamente me arrependi.
Foi uma fraqueza, Raquel, não um acto de amor.
— Compreendo.
— Por favor, diga que me perdoa.
Estou sofrendo muito sem você.
Por alguns segundos, Raquel não fez nada além de olhar nos olhos dele.
Acreditava em tudo o que ele dissera.
A sinceridade dele era inquestionável, suas palavras, autênticas.
Não tinha como duvidar.
— Sabe, Marcos, o que mais me doeu não foi a traição.
Foi achar que você não me amava mais.
— Como pôde pensar uma coisa dessas, Raquel?
Você é tudo para mim.
— Nem tanto.
A traição traz para o círculo energético do casal uma vibração estranha e oportunista, capaz de se aproveitar dos momentos de fraqueza para gerar desequilíbrio.
Foi exactamente o que aconteceu.
Seus questionamentos sobre religião favoreceram a actuação da energia interesseira de Carla, e a minha raiva facilitou o desentendimento.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 11, 2015 12:07 pm

— E como se conserta isso?
— Com o perdão, que é um dos muitos frutos do amor.
— Você me perdoa?
— Como poderia não perdoar alguém que está sendo verdadeiro?
É claro que fiquei magoada e triste.
Mas conhecendo a vida espiritual como conheço, considero que a traição aconteceu por um desequilíbrio qualquer de nós dois.
Ninguém é vítima.
E não acho justo nem válido terminarmos o nosso relacionamento por causa do orgulho.
— Orgulho?!
— É o orgulho que impede o perdão.
Mas, se há amor, o perdão há de conviver com ele.
— Você me perdoa mesmo? — insistiu ele.
— De corpo e alma.
Beijaram-se com ardor, cada vez mais conscientes do quanto se amavam.
Não demorou muito, estavam nos braços um do outro, concretizando o que sentiam.
Após o acto de amor, permaneceram abraçados, Marcos acariciando os cabelos de Raquel.
A gatinha, posta momentaneamente de lado, fora colocada de volta em cima da cama, ronronando com as carícias que ambos lhe faziam.
— Tem algo que preciso lhe dizer — anunciou ela, olhando-o gravemente.
— O que é?
— Pensei muito se lhe contar traria algum benefício, mas não acho justo você passar o resto da vida sem saber o que realmente aconteceu.
— Do que está falando?
— Dos incidentes dos últimos tempos.
— Como assim?
— De Carla, das garotas, do furto envolvendo sua mãe no Pão de Açúcar.
Marcos sentou-se, surpreso.
— Você sabe o que aconteceu?
— Descobri hoje.
Tenho até vergonha de lhe contar, já que Elói é meu irmão.
— Seu irmão? — espantou-se ele.
Mas eu nem conheço o seu irmão.
— Elói é amigo de Nelson e não suporta você.
Foi por puro preconceito que armou tudo isso para nos separar.
Eu ouvi a conversa toda ao telefone.
Diante de um Marcos espantado e atónito, Raquel narrou tudo o que descobrira sobre o plano de Elói.
— Foi por isso que você resolveu me procurar? — indagou ele.
— Achei que devia ao menos dar-lhe a chance de se explicar. Fiz mal?
Ele a abraçou novamente e falou com emoção:
— Acho que devemos nos casar.
— Casar?!
Mas ainda estamos estudando!
— Agora sou um homem rico.
Tenho um emprego e um futuro na empresa do meu avô.
Mais tarde, pretendo abrir meu próprio escritório de advocacia e ajudar as pessoas.
Com dinheiro, poderei fazer isso.
Vou continuar a obra do meu avô, mas vou conciliá-la com meus próprios projectos pessoais.
Para isso, vou precisar de ajuda.
E quem melhor do que a minha esposa para me auxiliar nesse sonho?
— Além de me propor casamento, está me oferecendo um emprego?
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 11, 2015 12:08 pm

— Permanente — brincou ele.
Ambos, o casamento e o emprego.
— Ah! Marcos...
Após um beijo longo, ele questionou:
— Esse ah quer dizer que aceita?
— O que você acha, tolinho?
Vamos logo contar a sua mãe.
Foi um momento de prazer e alegria.
Clementina dividiu com eles aquela emoção, partilhando de uma felicidade que também lhe pertencia.
Raquel passou a noite com Marcos.
No dia seguinte, ligou para a mãe e anunciou em breves palavras:
— Mãe, Marcos e eu queremos convidar você e papai para almoçar connosco.
Finalmente vão conhecê-lo.
— Está bem, minha filha.
Onde vai ser o encontro?
— Aqui mesmo, na casa dele, por volta de uma hora.
Vocês podem vir?
— Tudo bem. Estaremos aí.
— E, por favor, não tragam Elói.
Durante um bom tempo, não quero falar com ele.
À uma hora em ponto, o porteiro interfonou, anunciando a chegada deles.
Raquel os recebeu e fez as apresentações.
De imediato, os pais de Raquel simpatizaram com Marcos e Clementina.
Como o almoço era em família, Leontina e Romualdo também estavam lá.
Apesar das colocações inconvenientes de Romualdo e das observações fanáticas de Leontina, o almoço transcorreu agradável, deixando os pais de Raquel muito satisfeitos com o rapaz.
Em dado momento, após a sobremesa, Raquel entrou com uma bandeja cheia de taças, uma garrafa de champanhe e outra de guaraná.
— Raquel e eu gostaríamos de dizer que estamos muito felizes com esse encontro — disse Marcos.
Por isso, queremos fazer um brinde.
Um brinde muito especial.
A um olhar seu, Raquel abriu a garrafa de champanhe e a de guaraná.
Serviu as taças, entregando-as uma para cada um.
— Algumas contêm guaraná — informou Raquel.
É que a família de Marcos não bebe.
Depois que cada um estava com sua taça na mão, ele prosseguiu:
— O motivo do brinde não é apenas comemorar a harmonia desta reunião em família.
Na verdade, reunimos todos aqui porque queremos anunciar que Raquel e eu resolvemos nos casar.
Foi uma surpresa geral, excepto para Clementina, que já sabia.
— Para quando será isso? — perguntou o pai de Raquel, mal contendo a surpresa.
— Para o mais breve possível — respondeu Marcos.
Amanhã mesmo vamos dar entrada nos papéis.
Foi o que fizeram.
No dia seguinte, logo cedo, estavam no cartório com toda a documentação necessária.
Em seguida, Marcos foi trabalhar.
Na hora do almoço, Raquel estava com ele na casa de Graciliano e Bernadete, que receberam a notícia com genuína alegria.
— Isso é maravilhoso! — comentou Bernadete.
— Acho que você escolheu a moça certa, Marcos.
— Obrigada — respondeu Raquel com um sorriso tímido, porém gracioso.
— Deixem-nos dar-lhes uma festa de presente — pediu Graciliano.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 11, 2015 12:08 pm

Embora Raquel e Marcos estivessem pensando numa festa simples, permitiram que os avós fizessem de seu jeito.
Nada lhes custava dar-lhes aquela alegria.
Aquele fora o primeiro passo.
O próximo seria a reconciliação de Marcos com a igreja.
Embora Raquel e ele fossem muito diferentes nas questões religiosas, o contacto com a igreja era extremamente salutar a ele, que sentia falta das pregações e vigílias, das quais gostava e o faziam sentir-se bem.
— O que você acha, Raquel? — sondou ele.
Vai aborrecê-la se eu voltar para a igreja?
— Meu querido — respondeu ela amorosamente —, iria aborrecer-me se você me deixasse em casa para encher a cara com os amigos.
— Quer dizer então que você não se incomoda?
— Não. Desde que você não queira me converter, tudo bem.
Podemos ter as nossas conversas, como sempre, que serão construtivas se soubermos nos respeitar.
— Eu a respeito, Raquel, e sei que você sempre me respeitou.
— Cada um é livre para seguir o caminho que escolher, e nenhum é melhor do que o outro, pois todos conduzem ao mesmo lugar.
A ilusão do homem é que o coloca como senhor dos caminhos e detentor da verdade, sem saber, mais uma vez, que tudo isso está no domínio de Deus.
— Você tem razão.
Prometo que não vou insistir para que você vá comigo.
— Ir com você eu até posso ir.
A oração e o trabalho no bem jamais vão me incomodar.
Só não quero fazer parte da sua congregação por uma divergência de compreensão e exteriorização das doutrinas.
— Sei disso, Raquel, e não vou lhe pedir para seguir a minha crença em detrimento das suas.
Se nos respeitarmos, poderemos ser felizes.
— E não quero que você minta para o pastor.
Ele tem que saber que eu aceito e respeito a sua religião, mas que não é a minha.
Não gosto de enganar ninguém.
— Eu também não.
Minha tia descobriu uma igreja aqui perto, e estou pensando em ir até lá com ela.
— Óptimo, vá. Só cuidado com a sua tia.
Você sabe como ela é com essas coisas de igreja.
— Não se preocupe.
Tia Leontina é uma boa pessoa e não vai interferir na nossa vida.
O casamento de Leontina e Romualdo realizara-se no próprio cartório, com a presença apenas de Marcos e Raquel.
Depois de casada, sentindo muita falta da sua religião, ela saiu à procura e encontrou uma igreja perto de casa, que passou a frequentar.
Enchendo-se de coragem, retornou à sua antiga igreja e despediu-se de Euzébio.
Apesar de não aprovar o novo casamento de Leontina, o pastor não a recriminou.
Lembrou-lhe apenas as palavras das Escrituras e prometeu orar por ela.
Posteriormente, quando Marcos se juntou a ela na igreja escolhida, sentiu que sua vida voltava ao normal.
Era como se Deus houvesse desistido de puni-lo.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

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