Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 26, 2015 12:52 pm

— Não quero.
Lá, não posso beber.
Um movimento brando silenciou Margarete, que se levantou de um salto e sumiu pela parede.
Espantado, Félix demonstrou a intenção de segui-la, mas se deteve, preso a um súbito bem-estar.
Olhou ao redor, buscando a fonte daquela sensação tão boa que desgostara Margarete.
Foi então que notou uma luminosidade suave e refrescante se espalhando pelo barraco.
Marcos estava rezando.
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Ave sem Ninho

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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 26, 2015 12:52 pm

CAPÍTULO 11

Félix não obteve sucesso em seu intento de afastar Margarete do convívio de Clementina e Marcos.
Ela se decidiu a ficar, embora cuidasse para que o filho não lhe seguisse os passos.
Marcos não tinha tendência ao alcoolismo, todavia, deixava-se levar pelo sonho de uma vida melhor, e as tentações que Jéferson lhe oferecia, por vezes, eram quase irresistíveis.
Ele lhe mostrava as maravilhas que comprava ou ganhava fazendo avião para Mandrake:
ténis importados, aparelhos de televisão e de som, jogos electrónicos e até um skate, para espanto de Marcos, que não sabia como se poderia andar de skate no morro.
— Não se deixe enganar por isso, meu filho — dizia Margarete.
Olhe as lições do pastor!
Margarete nunca fora religiosa, mas os sermões que Marcos guardava impressos na mente serviam a seus propósitos.
O menino temia desrespeitar as leis divinas e ser condenado ao inferno.
Essa era a arma poderosa que mantinha Marcos longe das drogas e do caminho do crime.
E, quando a tentação parecia muito grande, ou mesmo irresistível, Leontina sempre aparecia, silenciosamente estimulada por Margarete, impedindo que o sobrinho cedesse.
Mas a persistência também tem seus momentos de fraqueza.
Marcos voltava para casa desanimado, preocupado com a mãe, que deixara na cama num estado lastimável, pior do que nos outros dias.
Vinha com uma sacolinha de plástico quase vazia.
Estava ficando difícil conseguir dinheiro nas ruas.
Ele estava crescendo, suas feições perdiam o ar infantil, deixando de comover os transeuntes.
Ia subindo o morro lentamente, até que Jéferson se juntou a ele:
— E aí, Zé das Ovelhas? Tudo bem?
— Gostaria que parasse de me chamar assim — reclamou Marcos.
Faz tempo que não vou à igreja e também não sou pastor.
Jéferson riu de um jeito cínico e indagou:
— O que tem nessa sacola?
— Nada — Marcos deu de ombros, falando com timidez.
Só consegui comprar uns legumes hoje.
— Que legumes?
— Na verdade, comprei nabo e chuchu.
— Nabo e chuchu? Só isso?
— Foi só o que deu — rebateu Marcos, com raiva.
— Está bem, não precisa se zangar.
É que me preocupo com você.
Não quero que passe fome.
— Eu dou um jeito.
— Se quiser, posso falar com o Mandrake.
Lá vinha Jéferson com aquela história de Mandrake.
Marcos não aguentava mais aquela pressão.
Sabia que Jéferson só o procurava a mando do traficante, que se utilizava de crianças para não ser, ele mesmo, flagrado na posse de drogas.
Ao lado deles, o espírito de Margarete ouvia a conversa, contrariada, sem poder intervir.
Na porta da casa de Marcos, sentou-se no degrau da entrada.
Clementina dormia, como sempre fazia quando não estava bebendo.
— Olhe, Jéferson, é outra coisa que quero deixar claro para você — disse Marcos, irritado.
Eu não vou trabalhar para o Mandrake.
Então, por favor, pare de insistir.
— Tem certeza?
Podia ter uma vida melhor.
— Que vida melhor você tem?
Ele lhe dá coisas que, muito provavelmente, foram roubadas por ele ou pelos viciados que sobem o morro atrás da coca.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 26, 2015 12:53 pm

O dinheiro com que lhe paga é fruto do crime.
Você não estuda, logo, não tem perspectivas para o futuro.
Fica por aí, vagabundeando, levando maconha e cocaína para lá e para cá, se arriscando a ser preso ou levar um tiro, e tudo isso para quê?
Para se tornar um marginalzinho insignificante que, se morrer, não vai fazer falta para ninguém, a não ser para sua mãe.
Essa é a vida melhor que você me oferece?
Não, obrigado.
— Você pensa que é melhor do que nós, não é mesmo? — rebateu Jéferson, rilhando os dentes.
Fala difícil, com ares de doutor.
Só se for doutor dos mendigos, porque é mais pobre do que eu.
E daí que o Mandrake me dá coisas que consegue com o crime?
O importante não é viver bem?
— Tudo é questão de ponto de vista.
Para mim, viver no crime e do crime não é viver bem.
— E mendigar, é?
— Também não.
Mas pelo menos não tenho o que temer.
Deus não vai me punir por pedir, em vez de roubar.
E tenho certeza de que, um dia, vou mudar de vida.
— Sem pai e com uma mãe bêbada, acho difícil.
— Deus há de me ajudar, você vai ver.
— Deus, Deus, você só fala em Deus.
Deus não liga para gente feito nós.
— Liga sim!
— Liga, é?
Então por que estamos aqui no morro, enquanto os riquinhos vivem em mansões no asfalto, com seus carrões e piscinas, esbanjando dinheiro?
— Não sei responder a essa pergunta, mas Deus tem um motivo para todas as coisas.
— Deus não tem motivos para nada e não quer saber de nós!
Se quisermos ter alguma coisa na vida, temos que contar é connosco!
— Contar connosco é trabalhar honestamente e ganhar o próprio dinheiro com o fruto desse trabalho.
Não é roubar nem vender drogas.
Nem mendigar, que é o que faço só por necessidade do momento.
Mas eu vou crescer e, quando for grande, vou arranjar um emprego decente e tirar minha mãe e minha tia daqui.
— Quanta ilusão, Marcos!
Você vive de sonhos, ao passo que eu prefiro a realidade.
Vamos ver quem é que tem razão.
Sem dizer mais nada, Jéferson deu as costas e continuou subindo o morro a passos apressados.
Marcos deu um suspiro e sentou-se no batente da porta, sem saber, ao lado de Margarete, que acompanhara a cena com lágrimas nos olhos.
Imperceptíveis, seus dedos afagaram a cabeça do menino, que afundou o rosto entre as mãos e desatou a chorar.
Embora nem sempre conseguisse sondar os pensamentos do filho, Margarete experimentou.
Naquele momento, sua mente se enchia de dúvida, medo e revolta.
Ela conseguiu acessá-la e, mentalmente, conversava com ele:
— Será que Jéferson tem razão? — Marcos indagava a si mesmo.
Será que não é melhor jogar tudo para o alto e fazer avião como ele faz?
— Não diga isso — Margarete respondeu mentalmente.
Você só vai complicar a sua vida.
— Sei que talvez possa complicar a minha vida, mas só se a polícia me apanhar.
Sou esperto, posso fugir.
— Vai fugir a vida inteira?
Está certo que vida de bandido é curta, mas você quer gastar a sua fugindo da polícia, com medo de ser preso ou morto?
— Pensando bem, viver fugindo deve ser muito ruim.
Mas e se eu fizesse só uns aviões para o Mandrake?
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 26, 2015 12:53 pm

Só uns dois ou três?
O suficiente para melhorar um pouco de vida e depois sair fora.
— Não se deixe enganar, meu filho.
Se você entrar nessa vida, não vai mais conseguir sair.
Veja o Jéferson, por exemplo.
Entrou e não sai mais.
E já está viciado.
— Será que o Jéferson já se viciou? — ele continuou indagando a si mesmo, sem saber que conversava com o espírito da mãe.
Ele é tão novo...
— Tão novo e já com a vida estragada.
Ele está viciado, Mandrake o mantém preso ao vício para não perder o empregado.
E se há uma coisa que acaba com a vida da gente é o vício.
Veja sua mãe, por exemplo.
— Minha mãe é viciada.
O vício é uma coisa horrível.
— Causa uma dependência que acompanha você até depois da morte.
Eu mesma ainda mantenho o antigo vício.
Mas quero mudar.
Laureano está me ajudando a mudar, muito embora tudo dependa de mim.
Nesse ponto, Marcos não acompanhou as divagações de Margarete, pois desconhecia a existência da verdadeira mãe e de seus problemas.
Desfeito o elo, Marcos se levantou e apanhou o saquinho quase vazio.
Enxugou os olhos e entrou em casa, com Margarete logo atrás.
Clementina ressonava pesadamente, o cheiro do álcool impregnava todo o barraco.
Pela segunda vez, fora obrigado a recolhê-la da rua, onde ela havia desmaiado na noite anterior, enchendo-o de terror.
Ele ficara desesperado.
Embora estivesse acostumado aos sumiços da mãe, ela não costumava ficar fora a noite inteira.
Nas poucas vezes em que isso acontecia, ele se apavorava, pensando no pior.
Logo de manhã cedo, disparou morro abaixo, procurando-a pelas redondezas.
Encontrou-a desmaiada na rua, a cabeça pousada no meio-fio, um odor insuportável de álcool e vómito.
Com muito esforço, conseguiu levantá-la e levá-la para casa.
Ela o acompanhou aos tropeções, sem saber para onde ia nem com quem, quase entrando em coma alcoólico.
Marcos balançou a cabeça, não queria pensar em coisas ruins.
Colocou água para ferver, deitou nela os legumes e sentou-se na cadeira para esperar.
Novamente, seus pensamentos se voltaram para Jéferson, e Margarete os foi acompanhando:
— O Jéferson está muito bem.
Anda de roupa na moda, tem vídeo game, aparelho de som e TV novos.
Ganhou um ténis de marca. Vai até ao cinema!
E não passa fome.
O principal é que não passa fome.
Aposto como na mesa dele tem sempre uma comida gostosa — olhou para o fogo, aspirou o cheiro sem graça dos legumes, retomando os devaneios:
— E tudo isso para quê?
De que adianta tanto sacrifício, se não vou receber nada em troca?
Podia estar fazendo os aviões e ter as coisas que Jéferson tem.
Ninguém ia saber.
— Deus vai ver tudo.
Ele ouviu uma voz na sua cabeça, sem saber que era Margarete, tentando dissuadi-lo daquele ímpeto e impedir que ele fizesse uma besteira.
Um barulho de palmas desanuviou seus pensamentos.
Alguém estava à porta de casa.
Marcos a abriu e levou imenso susto quando viu Jéferson parado no degrau, segurando duas sacolas de supermercado.
— O que é isso? — perguntou, entre curioso e indignado.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 26, 2015 12:53 pm

— Presente.
— De quem?
Do Mandrake?
— Meu — Jéferson empurrou Marcos para o canto e colocou a sacola na mesa.
Venha ver o que lhe trouxe.
Ele foi retirando maravilhas da sacola:
um pedaço de carne, arroz, feijão, batatas, tomates, cenouras, beterrabas, frutas, alguns pacotes de biscoito, caixas de leite, manteiga, uma goiabada, sal, açúcar, salsichas, macarrão e uma garrafa de refrigerante.
Marcos estava deslumbrado.
Fazia tempo que não via tanta comida.
— Não posso aceitar — protestou ele, embora sem nenhuma convicção.
— Deixe de ser orgulhoso.
— Não é orgulho.
É que não é direito...
— Olhe, se não quer aceitar como presente, receba como empréstimo.
Quando puder, você me paga tudo.
— Não sei...
— Deixe de ser tonto!
Venha, vamos cozinhar um jantar de verdade.
Não quer bife com batatas fritas?
Ou prefere aquela sopa insossa? — Jéferson apontou para a panela no fogão.
Marcos sentiu a boca salivar ao imaginar um prato cheio de batatas fritas.
O apelo era muito forte, até Margarete concordava.
Pode ser difícil manter total integridade quando a barriga reclama da fome.
De nada adiantaria acordar Clementina, porque ela mandaria que Marcos aceitasse os mantimentos.
O jeito era sair em busca de Leontina.
Mas como, se as duas continuavam brigadas?
Resolveu tentar, mesmo assim.
Encontrou Leontina em casa, também cozinhando o jantar.
Em cima da mesa, um pedaço de bolo de chocolate embrulhado em papel alumínio que a patroa lhe dera.
Enquanto cozinhava, pensava no que fazer com aquele bolo.
Não comia chocolate, por causa do açúcar, e não tinha ninguém para quem dar.
Não devia nem tê-lo trazido, mas não quis desagradar a patroa.
Afinal, era um pedaço que sobrara do bolo de aniversário da filha dela.
— Leve-o para Marcos! — Margarete quase gritou ao seu ouvido.
Pelo amor de Deus, leve para ele!
O desespero de Margarete confundiu a mente de Leontina, que sentiu súbito mal-estar.
Percebia a presença do espírito, embora sem identificar o que fosse.
— Acho melhor orar — disse para si mesma.
— Ah! Não, agora não!
Leontina se ajoelhou no quarto e fez uma pequena oração a Jesus.
Imediatamente, uma luminosidade tranquilizante penetrou o ambiente, atingindo em cheio o peito de Margarete.
— Eu não vou fugir — falou ela em voz alta.
Dessa vez vou ficar.
E ficou. Inesperadamente, Margarete se acalmou.
Sem querer, pegou-se embevecida com o súbito bem-estar, só então percebeu como era bom estar ao alcance dos efeitos da prece.
Assim, envolvida por fluidos suaves, sentiu-se encorajada a continuar a conversa com Leontina, espantando-se com o facto de que a oração tornara tudo mais fácil.
— Leontina, seu sobrinho corre perigo — alertou ela, com tranquilidade.
Leve o bolo para ele e ajude-o a se livrar da tentação das facilidades que o crime oferece.
Você é a única que pode ajudá-lo.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 26, 2015 12:53 pm

Leontina titubeou, mas, ainda assim, não captou integralmente o pensamento de Margarete.
Ainda faltava sintonia para igualar as vibrações das duas mulheres.
— Por favor, Leontina, antes que seja tarde — suplicou Margarete.
Marcos está com fome e vai acabar aceitando ajuda de Jéferson, comprometendo-se com o tal de Mandrake.
O amor pelo menino foi o elo que permitiu ligar a mente de ambas.
A imagem do sobrinho surgiu no pensamento de Leontina, que olhou para o bolo, pensando em levá-lo para ele.
"Imagine", pensou.
"Clementina me põe para fora de lá a pontapés."
— Ela está dormindo, bêbada demais para ver você chegar.
Por favor, faça isso. Por favor!
"Bem que Marcos ia gostar.
Mas agora não vou sair, não.
Depois do jantar, dou uma passada por lá e deixo o bolo na porta", planeou mentalmente Leontina.
Ela não estava entendendo.
Depois do jantar seria tarde demais.
Margarete já não sabia mais o que fazer.
Sentindo o desespero se avizinhar novamente, tocada pela oração de Leontina, fez o que nunca havia feito em toda a sua vida: rezou.
— Por favor, Deus, me ajude.
Ajude-me a salvar o meu filho.
Faça um bom espírito aparecer... qualquer um que esteja em condições de me ajudar a convencer Leontina a livrar meu filho desse perigo.
A oração foi feita com sentimento.
Na mesma hora, um raio de luz começou a luzir bem diante de Margarete, aumentando gradativamente, até que Laureano se fez visível, em companhia de Félix.
— Meu Deus! — exclamou Margarete, surpresa.
Jamais imaginei que fossem vocês que atenderiam o meu pedido.
— Você é minha paciente — esclareceu Laureano.
É minha responsabilidade cuidar de você e meu dever atender ao seu chamado.
— Obrigada — disse ela emocionada.
Precisamos ser rápidos.
Se o menino aceitar a ajuda do traficante, por menor que seja, vai ficar comprometido com ele, porque logo virá a cobrança.
E Marcos não terá forças para resistir.
Enquanto Félix tomava Margarete pela mão, Laureano se aproximou de Leontina, serena em razão das orações ali derramadas naquela noite.
Com a mão gentilmente pousada na testa da mulher, disse em voz alta:
— Deus pede a sua ajuda, Leontina.
Seja instrumento da vontade divina e vá até a casa de Marcos.
Ele está com fome, por isso, leve-lhe algo que lhe desperte o prazer e o desejo.
Aquele bolo ali.
Inconscientemente, ela olhou para o bolo, e ele prosseguiu:
— Vá agora, porque o menino chamado Jéferson está a um passo de corrompê-lo, e nós corremos o risco de perdê-lo para sempre nesta vida.
Aja com rapidez e amorosidade, certa de que estará cumprindo a missão que o Senhor lhe confiou.
Laureano soube usar as palavras da forma como Leontina melhor as compreendia.
Ela não as captou exactamente, mas sentiu um temor sem aparente razão pelo destino do sobrinho.
Era como se ele, de alguma forma, colocasse em perigo a alma que deveria consagrar a Deus.
Mais do que um sentimento de carinho, ela sentiu inexplicável necessidade de ver se ele estava bem.
Não precisava se encontrar com Clementina, apenas se certificar de que Marcos Wellington não corria nenhum perigo.
Seguindo um impulso natural, desligou o fogo, pegou o bolo de chocolate e saiu resoluta.
Assim que se aproximou da casa da irmã, ouviu risadas vindo lá de dentro.
Apurou os ouvidos, notou que uma era de Marcos, mas a outra não era de Clementina.
Foi até a janela lateral, deixada aberta, e espiou para dentro.
Marcos e Jéferson estavam na cozinha preparando uma comida, e um sinal de alerta disparou dentro dela.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 26, 2015 12:54 pm

— Marcos Wellington — chamou, e o menino se voltou assustado.
Abra aqui para mim, meu filho.
O olhar de contrariedade de Jéferson passou quase despercebido, mas a raiva que ele sentiu foi captada por Leontina, embora de forma indefinida.
Como, porém, ela estava protegida pelas orações e acompanhada de Laureano, a raiva do garoto serviu de incentivo para que ela insistisse em entrar, agora ciente de que Deus a levara ali para afastar o sobrinho das más companhias.
Um pouco hesitante, Marcos abriu a porta, sabendo que Leontina não ficaria nada satisfeita com a presença de Jéferson.
Por diversas vezes, ela o havia alertado sobre o menino, desaconselhando uma possível amizade entre ambos.
Mesmo temendo levar uma bronca, Marcos abriu.
Logo ao entrar, Leontina notou os mantimentos sobre a mesa e as batatas descascadas em cima da pia.
— De onde veio tudo isso? — perguntou ela, olhando directamente para o sobrinho.
— Foi o Jéferson que trouxe — respondeu Marcos timidamente.
— Sei. E sua mãe sabe disso, Jéferson?
Ela sabe que você desviou mantimentos para dar ao Marcos Wellington?
Jéferson sentiu o rubor subir-lhe às faces, emprestando à sua pele moreno-jambo um tom acobreado.
Ia inventar uma história mirabolante, mas uma força irresistível, vinda da influência de Laureano, não permitiu que mentisse:
— Não, senhora.
Imediatamente se arrependeu, mas já tinha falado.
— Na verdade, você não trouxe isso de casa, trouxe?
Dessa vez, ele não respondeu.
— Quem foi que lhe deu essas coisas?
— Tia Leontina — interveio Marcos —, o Jéferson viu que eu estava com fome e só quis ajudar.
— Aposto como essa generosidade toda veio daquele sujeito à toa para quem você trabalha, não veio?
— A senhora não pode falar assim do Mandrake — rebateu ele entre os dentes, apertando os punhos.
— Tem razão, não quero falar mal de ninguém, porque não é isso que Nosso Senhor nos ensina.
Agradeço a você e ao Mandrake a generosidade, mas meu sobrinho não precisa.
Pode pegar toda essa comida e levar de volta para ele.
A própria Leontina foi juntando os mantimentos e recolocando tudo nas sacolas, inclusive as batatas descascadas.
Deu um nó apertado em cada uma e devolveu-as a Jéferson, que as recolheu com o ódio ofuscando seu olhar.
— Obrigado, Jéferson — disse Marcos envergonhado, a voz sumida.
O outro nem respondeu.
Saiu carregando as sacolas, engolindo a raiva.
— Deus seja louvado! — exclamou Leontina com beatitude.
Hoje recebi a visita do Espírito Santo e, graças a ele, pude impedir que você se perdesse no caminho do crime.
— Era só comida...
— Comida envenenada pelo pecado.
Quer condenar sua alma para sempre?
— Mas, tia, estou com fome.
— Trouxe um pedaço de bolo para você.
E pode ir jantar lá em casa, se quiser.
— A senhora sabe que minha mãe não deixa.
— Traremos um pouco de comida para ela.
Quem sabe ela não muda?
Até aquele momento, Clementina não havia ainda despertado.
Mas, como o estômago de Marcos doía imensamente, ele apanhou o pedaço de bolo, devorando-o com avidez.
— Está gostoso — comentou.
— Vamos lá em casa jantar.
Você comeu a sobremesa antes, mas isso não alimenta.
Foi só para tapear.
O medo que sentia de ser repreendido pela mãe, de repente, esvaneceu.
Ele já não era mais um bebezinho, quem tomava conta dela era ele.
A tia também não tinha muito a oferecer, não queria se tornar um peso para ela, que trabalhava duro para se sustentar.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 26, 2015 12:54 pm

— Ainda vou ser alguém na vida — afirmou ele, a caminho da casa dela.
E vou tirar a senhora e minha mãe desse morro.
Nós vamos viver felizes e em paz novamente.
Leontina sentiu uma lágrima despontar, mas conseguiu contê-la:
— Sua mãe não quer mais falar comigo.
Mas agradeço a você, mesmo assim.
Como gostaria que você voltasse a estudar e saísse das ruas!
Marcos não disse nada.
Grudou os olhos no chão, seguindo-a em silêncio.
O pranto forçou passagem pela garganta, ele chorou baixinho, mas Leontina não ouviu.
Puxou-o com carinho, abraçou-o com imensa ternura.
A dor cedeu lugar à paz que veio com o amor, e Marcos, agarrado à cintura dela, deixou-se conduzir morro acima, sentindo que, em algum lugar naquela vida, haveria de encontrar um espaço onde colocar sua felicidade.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 26, 2015 12:54 pm

CAPÍTULO 12

Ajoelhada aos pés de Laureano, Margarete beijou-lhe as mãos.
Não tinha palavras para agradecer o que ele fizera pelo seu filho.
O médico segurou-a pelos ombros e ergueu-a gentilmente, dizendo com doçura:
— Agradeça a Deus e a si mesma, porque foi graças a sua intervenção que pude ajudar seu filho.
— Sabe, Laureano, hoje vivi coisas diferentes.
Pela primeira vez, não fugi com medo do efeito da prece.
— O que você sentiu?
— Uma paz indescritível.
Senti-me tão bem que resolvi me arriscar, eu mesma, a fazer uma oração.
— E com excelentes resultados.
Clementina soltou um ronco e se mexeu na cama, sem despertar.
— Essa daí é que está mal — observou Félix.
Não podemos fazer nada por ela?
— Vai depender, em parte, de Margarete — ponderou Laureano.
Sua presença só faz aumentar a vontade que ela tem de beber.
Se você se afastar, talvez consigamos, em um momento de lucidez, incentivá-la a procurar ajuda no campo físico, para controlar o vício.
Margarete fitou Clementina, desanimada:
— Como fazer isso, se eu mesma não consigo controlar o meu?
— Você sabe que depende da força de vontade empregada na sua modificação interior.
Você é um espírito desencarnado, o vício está instaurado no seu corpo fluídico, não na matéria orgânica, que você já não possui.
É preciso controle das emoções e dos desejos, agora com muito mais esforço do que quando você vivia na matéria.
Livre em seu próprio plano, o corpo emocional sente com muito mais intensidade as emoções e os desejos, já que a matéria que os compõe é a mesma.
— Mas será que apenas controlar o desejo resolve?
Porque a falta que sinto do álcool me parece bastante real, quase física.
— Não pode ser física, porque você não possui mais um corpo físico.
Essa impressão manifesta-se na matéria subtil graças ao corpo emocional.
Sendo o plano emocional a sede dos desejos humanos, todos os desejos que você venha a possuir ficam aqui mais potencializados.
Então, controlar os desejos é o maior passo para se livrar do vício.
E tem também a desintoxicação, que você vem evitando desde que chegou a nossa cidade invisível.
— Tenho medo... — sussurrou ela.
Penso que vão sugar algo de dentro de mim.
— Não há do que ter medo.
O que vamos sugar de dentro de você são fragmentos etéreos do álcool que se fundiram à sua própria energia.
Cada vez que você sorve o álcool volatilizado do corpo dos encarnados, inunda-se de fluidos energeticamente deletérios que precisam ser revertidos.
É necessário volatilizá-los novamente, dessa vez num processo inverso, fazendo-os evaporar de seu corpo subtil, deixando-o limpo e desintoxicado.
— Se eu me submeter ao tratamento, Clementina também vai ficar boa?
— Ela vai melhorar, na medida em que não terá mais que dividir a bebida com você.
Mas, para ficar boa, precisará buscar tratamento próprio e adequado.
Se você observar bem, verá que Clementina está numa fase intermediária da intoxicação.
Seu sistema nervoso começa a ser afectado, mas ela ainda não se tornou uma alcoólica crónica e tem chances de se recuperar.
Todavia, se passar dessa fase, tudo se tornará muito mais difícil.
— E eu?
Levarei sequelas para a outra vida?
— A embriaguez, como todo vício da alma, impregna-se no veículo subtil e acompanha o espírito para além da vida na matéria.
Dependendo do tempo em que o vício se fixou, causa nos corpos inferiores6 do espírito uma distorção do comportamento que pode ser levada para outras vidas.
A bebida serve para aquecer e relaxar a pessoa, para o seu prazer, desde que utilizada com moderação.
Há, contudo, um limite muito ténue, que, se ultrapassado, pode levar à dependência, encarcerando o indivíduo numa prisão invisível, porém, bastante real.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 26, 2015 12:54 pm

O espírito então perde a liberdade de agir e pensar, tornando-se escravo de seu insaciável desejo.
Fica entorpecido, menos equilibrado e, consequentemente, mais vulnerável aos ataques dos inimigos.
— Você devia tentar, Margarete — incentivou Félix.
— Não sei... — duvidou ela.
Tenho medo de não conseguir e sofrer com a abstinência do álcool.
— Se você não tentar, não vai conseguir nunca — estimulou Félix.
E eu estarei ao seu lado para ajudá-la.
— Se eu melhorar, poderei ficar ao lado do meu filho?
— Isso e muito mais — afirmou Laureano.
Ela pensou por alguns momentos, sentindo no coração a vontade de ceder ao tratamento.
Finalmente, decidiu-se:
— Querem saber de uma coisa? Vou tentar.
Preciso mudar de vida para poder ajudar o meu filho.
Hoje percebi que, com oração e pensamentos nobres, fui capaz de ajudá-lo de alguma forma.
— Um filho é excelente estímulo às mudanças — concordou Laureano.
Quer ajudá-lo? Ajude a si mesma em primeiro lugar. Modifique-se.
— Também tenho pena de Clementina — admitiu.
No começo, fiquei com um pouco de raiva porque ela pegou o meu filho, mas depois até lhe agradeci.
Não fosse por ela, sabe-se lá o que seria de Marcos hoje.
Não lhe quero mal.
— E, se ela estiver bem, vai estar em condições de ajudá-lo muito mais do que você — acrescentou Félix.
Lembre-se de que ambos estão no mesmo plano de existência e, para todos os efeitos, ela é a mãe dele.
— Sei disso.
E é uma boa mãe, apesar de tudo.
Ela o ama muito.
— Muito bem — concluiu Laureano.
Se todos estão de acordo, então vamos retirá-la do corpo físico para uma conversa.
Diante do olhar de ansiedade de Félix e Margarete, Laureano despertou o corpo fluídico de Clementina, que jazia adormecido alguns centímetros acima do físico.
Assim que ela se viu desperta, levou um susto.
Ainda embriagada, julgou ter alucinações.
Depois, admitiu que podia estar vendo espíritos e quis retornar ao corpo físico, mas Laureano a impediu com um gesto afectuoso.
— Quem são vocês? — indagou assustada e, olhando para Margarete, continuou:
— Eu conheço você.
Onde foi mesmo que a vi?
— Sou a mãe de Marcos Wellington — esclareceu Margarete.
— Devo estar sonhando — deduziu Clementina, olhando de soslaio para seu corpo estirado na cama.
Só posso estar sonhando.
— É mais ou menos isso — explicou Laureano.
Aproveitamos o adormecimento de seu corpo físico para trazer sua consciência até nosso plano.
— Eu, hein! Que doideira é essa?
— Pense em tudo como um sonho, se isso lhe traz calma.
O importante é que você ouça o que temos a dizer.
— Hum...?
— Você está enveredando por um caminho que, mais à frente, não terá volta.
Não apenas seu corpo, mas também sua mente está sendo afectada pelo álcool.
Se você continuar assim, pode desencarnar e romper com os projectos que fez para essa existência.
Clementina arregalou os olhos, tentando entender o que ele dizia, até que Margarete completou:
— Pode acreditar nele.
É a mais pura verdade, e eu sou testemunha disso, pois carrego nesse corpo as marcas de que ele fala.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 27, 2015 11:20 am

Eu a estimulo a beber, fazendo coincidir com o meu o seu desejo pelo álcool.
Satisfazendo-se, você satisfaz a nós duas.
— Seu filho corre o risco de se perder no mundo, e você se sentirá responsável por isso — prosseguiu Laureano.
Embora somente a ele caiba a responsabilidade pelos seus actos, você, como mãe, inevitavelmente se acusará pela omissão.
Não quer isso para você, quer? Ou para ele?
— O que espera que eu faça? — respondeu Clementina, saindo do torpor em que se encontrava.
Meu marido me abandonou, nem emprego tenho.
Marcos Wellington sabe se virar melhor do que eu.
Ou você acha que devo me prostituir para sustentar meu filho?
— Uma causa nobre justifica muitos actos socialmente reprováveis.
As palavras de Laureano causaram tremendo impacto em Clementina, que deu um salto e levou a mão ao coração:
— Prostituir-me? E isso lá é direito?
— Quem somos nós para julgar o que é direito?
A necessidade de cada um há de ser o seu julgador.
Há muitas prostitutas que trocam o sexo por dinheiro para colocar o pão na boca de seus filhos.
Não é um sacrifício louvável?
— Bem, pensando por esse lado, até que é.
— A vida não pede sacrifícios de ninguém.
Eles acontecem por escolha do espírito. E qual é a sua?
Ela olhou de soslaio para Margarete e respondeu em tom mordaz:
— Eu criei o menino, quando a mãe verdadeira o jogou no lixo.
— Foi uma escolha bonita, digna e de muita coragem.
Não quer levá-la adiante?
— Como assim?
— Por que não completa a criação do menino?
Você tem tudo para orientá-lo no caminho da virtude e do bem.
— Não posso. Não sou capaz.
— Se não pudesse, não teria tido a oportunidade de encontrá-lo e ficar com ele — ela o olhou em dúvida, e ele acrescentou:
— É isso que Deus espera de você.
Por que não volta para a igreja?
— Igreja... — desdenhou ela.
Nunca mais pretendo pisar naquela casa de enganação.
Só o que o pastor quer é tirar dinheiro de nós.
Vendo que a táctica não surtiu efeito, Laureano não insistiu naquela abordagem.
— Essa é mais uma escolha sua e é de seu direito.
Peço apenas que não julgue o pastor, assim como não quer ser julgada.
Ele é um homem bom que trabalha pelo seu semelhante.
Mas não foi para falar dele ou de religião que viemos aqui.
Foi para alertá-la da necessidade de abandonar a bebida.
— Não consigo, gosto de beber.
Me ajuda a esquecer.
— O álcool não apaga o passado, mas aniquila o presente e reescreve o futuro com a tinta do sofrimento.
É isso que você quer?
— Não — balbuciou ela indecisa.
— Você está iniciando um processo de dependência química da bebida, além da emocional, que há muito já se instalou.
Se você se esforçar, conseguirá reverter esse quadro.
Se persistir bebendo, a doença irá se agravar, tornando-se muito mais difícil abandonar o vício.
Por que não aproveita agora, que ainda tem chance, para deixar de lado a bebida e se dedicar a seu filho e a si mesma?
Clementina desatou a chorar, e Laureano aproximou-se dela, dando-lhe fraternal abraço.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 27, 2015 11:20 am

— Eu não queria fazer isso, não queria!
Mas Romualdo me deixou.
Me trocou por uma vagabunda mais jovem e mais bonita.
E agora, moço, o que é que eu faço?
— Você ainda é jovem.
Pode arranjar outro companheiro, pode trabalhar para sustentar-se e ao seu filho.
Ele é um menino tão especial!
Não gostaria de vê-lo com uma profissão e uma família?
— Ah! Como gostaria!
Mas nós somos pobres, não tivemos chances na vida.
— As chances, somos nós quem as criamos.
Elas existem por aí.
São muitas oportunidades, para o bem e para o mal, com que cruzamos durante a vida.
Cabe a cada um escolher quais pretende agarrar.
Veja Marcos, por exemplo.
Ele está tendo a oportunidade de se entregar ao crime e, por enquanto, a está recusando.
Mais tarde, pode vir a aceitá-la.
Por outro lado, a vida lhe está reservando a chance de realizar o seu sonho, que é se tornar advogado.
Aqui também, ele só vai aproveitá-la se quiser.
Não gostaria de estar ao lado dele em momentos tão importantes?
— É claro que sim!
Quero o melhor para o meu filho.
— Pois então, reflicta bem no que estou lhe dizendo.
Se você continuar a se embebedar, vai estragar a sua vida e fazer ruir sua capacidade de orientá-lo.
Cabem a ele suas próprias escolhas, você não tem como impedi-lo de se tornar um marginal, se ele quiser.
Mas a orientação correcta é de grande valia.
Se não fosse, não haveria o pendor natural dos pais para a criação e educação de seus filhos.
— Não quero que Marcos Wellington se torne um marginal.
Ele é tão inteligente!
— As oportunidades e as tentações são muitas.
Marcos não tem dinheiro, mas tem quem lhe ofereça facilidades que a honestidade, por enquanto, não pode comprar.
Não seria muito melhor se ele conseguisse, através do esforço próprio, realizar todos os desejos materiais que possui?
Ou você acha bom que ele consiga agora tudo o que quer, para amanhã acordar com a boca cheia de formigas?
Clementina o fitou com espanto e pavor.
Até Félix e Margarete ficaram horrorizados com as palavras de Laureano.
Onde é que ele havia aprendido a falar daquele jeito?
De qualquer forma, o resultado foi o esperado, porque Clementina pareceu levar um choque e despertar.
— Deus me livre, moço!
Não quero isso para o meu filho, não.
— Sei que não quer.
No fundo, você é uma boa pessoa.
Só está um pouco desnorteada e confusa.
E depois que seu marido a deixou, sente-se mais só do que nunca, não é verdade?
Ela assentiu, enxugando uma lágrima.
— Contudo, não precisa ser assim.
— Como não?
O senhor acha que vou sair por aí e arranjar outro homem, quando meu coração ainda pertence a Romualdo?
— Romualdo não é o único que pode ajudá-la a diminuir a solidão e criar o seu filho.
— Se está se referindo a Leontina, nem pensar!
Foi por causa dela que Romualdo me deixou.
Não fosse a carolice dela, eu teria ficado em casa, cuidando dele, em vez de ir para a igreja rezar com um bando de fanáticos.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 27, 2015 11:20 am

— Por que acusa sua irmã pelos actos de seu marido?
Foi ele quem a deixou, não Leontina, que só fez tentar ajudá-la.
— Sermão não é ajuda.
— Depende. Se você ouve e compreende a essência das palavras, pode ser de grande ajuda.
Mas, para aqueles que se fazem surdos aos alertas da vida, elas não passam de baboseiras sem sentido.
Você é quem decide.
Clementina não sabia o que dizer.
Laureano era inteligente demais e tinha uma resposta pronta para tudo.
— Olhe, agradeço o empenho de vocês, mas já estou ficando cansada — rebateu ela com frieza.
Não quero mais conversar.
— Muito bem, Clementina.
Já disse tudo o que você deveria ouvir.
— Bom, então é isso. Adeusinho...
Ela virou as costas para os três e se deitou sobre o corpo físico adormecido.
Depois que Laureano enviou-lhe fluidos de serenidade, o corpo fluídico também pegou no sono.
Com gestos delicados, o espírito espargiu um arco-íris sobre Clementina, fazendo com que chuviscos de luz das mais variadas cores iluminassem cada parte do seu corpo.
Em seguida, voltou-se para Félix e Margarete:
— Vamos?
Os três se voltaram para sair, e foi Félix quem perguntou:
— O que foi aquilo que você fez?
— Uma limpeza nos chakras que servem de filtro às experiências vividas no plano astral, para que Clementina possa evocá-las quando acordar.
— E por que falou com ela daquele jeito? — acrescentou Margarete, ainda espantada.
Eu nunca o ouvi falar daquela maneira.
— É a linguagem que Clementina mais facilmente entende.
Não adianta falar com ela com doçura, porque ela não está em condições de ouvir palavras doces.
No estado em que está, são necessários termos vulgares e que apelem para o temor, para que ela se convença.
Foram-se rumo à cidade astral que habitavam, certos de que, dali para a frente, muita coisa iria mudar na vida de todos os envolvidos no drama de Marcos e Clementina.
Mesmo Leontina, que se ausentara antes do desenrolar desse episódio, sentiu uma estranha e repentina comoção, uma vontade irresistível de voltar à casa da irmã.
Depois que Marcos terminou de jantar, ela foi até as panelas e preparou um prato para Clementina.
Nem sabia por que fazia aquilo, mas sentia que devia fazer.
Se ela não quisesse comer, não fazia mal.
Deixaria o prato na mesa e iria embora.
Com o coração leve de uma súbita paz, de mãos dadas com o sobrinho, Leontina abriu a porta da casa de Clementina e entrou.

6 Os corpos inferiores estão relacionados ao Eu inferior, formado pelos corpos físico, emocional e mental, renováveis a cada reencarnação.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 27, 2015 11:21 am

CAPÍTULO 13

A sala estava mais iluminada do que de costume, não apenas porque todas as luzes se encontravam acesas, mas porque no ambiente havia uma aura de limpeza que havia muito não se via.
O chão dava mostras de que fora varrido, os móveis, espanados.
A cama fora forrada com uma colcha simples, limpa e perfumada.
Algumas roupas empilhadas a um canto eram sinal de que haviam sido separadas para o tanque, a pia da cozinha encontrava-se vazia de louça.
De Clementina, contudo, nem sinal.
— O que foi que houve por aqui? — indagou Marcos espantado.
— Será que Branca de Neve esteve na casa dos anõezinhos? — respondeu Leontina, tão surpresa quanto o menino.
— E onde está minha mãe?
Leontina deu de ombros.
Não fazia a menor ideia do que havia acontecido.
Quando saíra, cerca de duas horas antes, deixara a irmã profundamente adormecida sobre a cama, ressonando alto e recendendo a cachaça.
— Você quer esperar? — perguntou ela ao menino, que assentiu.
Então vou deixar o prato de comida em cima da mesa e vou embora.
Sua mãe não vai gostar de me ver aqui.
Assim que ela se virou para sair, a porta se abriu e Clementina entrou abraçada a um ramalhete de flores silvestres que havia colhido ao longo da subida do morro.
Estava de banho tomado, dentes escovados e cabelos penteados.
As duas pararam, estudando-se, enquanto Marcos, adiantando-se, corria para ela.
— Mãe! Você está bem?
— Estou óptima, meu filho, obrigada.
— O que aconteceu aqui?
— Eu limpei tudo.
Não ficou uma beleza?
— Ficou — respondeu ele, retirando as flores dos braços da mãe.
Para quê isso?
— Para enfeitar e perfumar a casa.
Precisamos de um pouco de alegria.
— Você foi colher flores no escuro? — indagou ele, espantado.
— Qual o problema?
Sem saber o que fazer, Leontina passou por ela e apontou para a mesa:
— Trouxe comida para você.
Depois passo para pegar o prato.
Os sentimentos de Clementina eram contraditórios, mas o sonho ainda estava bem vívido em sua mente.
Sonhara com um desconhecido, que lhe dissera coisas estranhas.
A verdadeira mãe de Marcos Wellington também estava no sonho, embora nunca a houvesse visto.
Mas tinha certeza de que era ela.
Tinham falado sobre os perigos da bebida e a necessidade de orientar o filho.
O sonho fora tão nítido, tão real, que ela, ao acordar, mantivera na memória todas as palavras que ouvira.
Era estranho que ela sonhasse com aquele alerta justo no dia em que desmaiara na rua.
Talvez fosse mesmo um aviso para que se modificasse e parasse de beber.
Tudo tinha a ver com o filho.
O que seria dele se ela viesse a morrer por causa da bebida?
E se lhe acontecesse a mesma coisa que acontecera a sua verdadeira mãe?
Bebendo do jeito que ela bebia, podia muito bem ser atropelada ou amanhecer com a boca cheia de formigas.
O pensamento lhe causou um arrepio.
Era no que dava criar um filho sem pai.
Pensou em Romualdo, no desgosto que ele lhe causara, e sentiu a garganta seca.
Imediatamente, veio a vontade de beber, mas o efeito do sonho lhe deu forças para resistir, e ela disse não à própria vontade.
Com tudo isso ainda vívido na mente, Clementina segurou o braço de Leontina, que passava por ela sem a encarar.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 27, 2015 11:21 am

— Espere um pouco — disse em tom amistoso.
Não se vá ainda.
Sente-se e vamos conversar.
Meio sem jeito, Leontina olhou para Marcos, que lhe deu um sorriso de incentivo.
Sentou-se à mesa da cozinha, agora livre do pó e de migalhas de pão.
Marcos colocou as flores dentro de uma garrafa que servia de jarro, sentou-se ao lado da tia.
Clementina juntou-se a eles, desembrulhou o prato, cheirando a comida.
— Espero que você goste — falou Leontina timidamente.
— Está uma delícia, mãe — acrescentou Marcos.
Eu já comi.
Clementina apanhou um garfo e pôs-se a comer o ensopadinho de carne com legumes.
À primeira garfada, o estômago, saturado de álcool, quase recusou o alimento, mas a fome se sobrepôs ao enjoo, e ela comeu com gosto.
— Engraçado, não estava com fome — anunciou Clementina, colocando o garfo na boca.
Mas está muito bom mesmo.
Leontina teve vontade de lhe dizer que a ausência de apetite se devia ao excesso de bebida, mas achou melhor se calar.
Cobranças, naquela hora, só serviriam para afastá-las de novo, e o que ela mais queria era se reaproximar da irmã.
— Fico feliz que tenha gostado — retrucou Leontina, satisfeita.
— Você sempre cozinhou bem.
Melhor do que eu.
— Ah, mãe, não exagere — objectou Marcos com ternura.
— Você também cozinha que é uma beleza!
— Diz isso só para me agradar. Mas não faz mal.
Gosto de ouvir mesmo assim.
Fez-se um silêncio embaraçoso, até que Leontina, à falta do que dizer, elogiou:
— Sua casa está linda.
— Fiz uma faxina geral.
A casa é pequena e não deu trabalho.
Apanhei umas flores para dar um toque de alegria.
Não ficou bom, meu filho?
— Muito bom — concordou Marcos.
Parece até que o ar ficou mais leve.
— É verdade.
Novo silêncio constrangedor.
Tanto Leontina quanto Clementina não sabiam o que dizer para se reaproximar, e Marcos teve que intervir:
— Tia Leontina vem sempre aqui nos visitar e, às vezes, me leva para comer em sua casa.
— Fico agradecida por isso — declarou Clementina.
— Ora, faço porque gosto de Marcos Wellington.
É meu sobrinho, e você, minha irmã.
Gosto de você também.
Ela disse aquilo sem pensar, embora traduzisse bem os seus sentimentos.
— Sei disso e mais uma vez agradeço — tornou Clementina, emocionada.
— Preocupa-me o bem-estar de vocês — acrescentou Leontina.
— Posso imaginar.
Eu não tenho sido uma mãe muito cuidadosa ultimamente.
Sei que andei bebendo um pouco, mas isso já passou.
— Você não vai beber mais? — era Marcos, que mal acreditava no que ouvia.
— Não. Prometo que vou parar.
Beber só tem me feito mal.
Preciso estar bem para cuidar de meu filho.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 27, 2015 11:21 am

— Louvado seja nosso Senhor, Jesus Cristo! — exclamou Leontina, erguendo aos mãos ao céu.
Embora o apelo não lhe agradasse muito, Clementina não disse nada.
Também ela queria evitar desentendimentos com a irmã.
— Preciso arranjar um emprego — continuou Clementina.
— Você não sabe de nada?
— Posso ver.
Tem sempre alguém precisando de uma faxineira, e talvez dona Odete saiba de alguma coisa lá no prédio onde trabalho.
— Tomara que você consiga.
Não é justo deixar Marcos Wellington pedindo esmolas pela rua.
Ela acariciou o rosto do filho, que retrucou ternamente:
— Não me incomodo, mãe.
Até que consigo um bom dinheiro, às vezes.
— E às vezes não consegue — completou Leontina.
E aquele marginalzinho vive de olho em você, querendo levá-lo para trabalhar para aquele bandido.
— Que marginalzinho? — questionou Clementina, preocupada.
Que bandido é esse?
— É o Jéferson — respondeu Marcos.
Ele quer que eu trabalhe para o Mandrake.
— Deus me livre de uma coisa dessas! — horrorizou-se Clementina.
Aquela gente não é boa companhia.
Não quero você metido com eles.
— Não gostaria de lhe trazer problemas — acrescentou Leontina —, mas aquele garoto esteve aqui hoje, com duas sacolas de comida.
E você sabe como é essa gente.
Dá com uma mão e tira com a outra.
Se Marcos Wellington tivesse aceitado a comida dele, ia ficar de rabo preso com o tal de Mandrake para o resto da vida.
— Sua tia tem razão, meu filho.
Não quero que você aceite nada deles.
Absolutamente nada.
— Eu estava com fome, mãe — defendeu-se ele.
— Meu pobre filhinho — retrucou ela, a voz carregada de remorso.
Sei que a culpa foi minha por tê-lo abandonado à própria sorte.
Mas isso agora vai mudar, você vai ver.
— E Marcos Wellington também deixou a escola.
Leontina arriscou ir mais longe, esperando uma reacção violenta de Clementina, mas a reacção não veio.
Em vez disso, ela abaixou a cabeça e suspirou, para depois comentar num cicio:
— Preciso providenciar seu retorno à escola o mais rápido possível.
— As matrículas já terminaram — esclareceu Marcos.
— Há quanto tempo você saiu da escola?
— Ele largou a escola na metade do ano passado — anunciou Leontina.
Mas esse ano também já está perdido, pois as aulas começaram faz tempo.
Então, ele vai se atrasar dois anos.
— Não faz mal, mãe — disse Marcos.
Quero voltar a estudar mesmo assim.
E, nas horas vagas, posso continuar pedindo dinheiro na rua.
— Nada disso! Filho meu não vai ser mendigo.
Quero que você se forme e seja alguém na vida.
Um advogado, como você deseja.
Marcos sorriu intimamente, na esperança de poder retomar o antigo sonho de estudar Direito.
Iria se atrasar um pouco, mas não tinha importância.
— Eu quero estudar, mãe.
Você sabe que meu maior sonho sempre foi me formar e dar uma vida melhor a você e a minha tia.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 27, 2015 11:21 am

— Não se preocupe comigo — objectou Leontina.
Eu estou bem.
Não ganho nenhuma fortuna, mas dá para sobreviver honestamente.
— Nada disso, titia.
A senhora tem sido muito boa comigo e com minha mãe.
— É verdade, Leontina — concordou Clementina.
Pena que eu fui uma idiota e não soube reconhecer isso antes.
— Você não imagina como fico feliz por voltarmos a nos falar.
Você e Marcos Wellington são a família que possuo.
— E nós também, agora que Romualdo nos deixou.
Ela segurou a mão de Leontina por cima da mesa e murmurou:
— Será que você pode me perdoar, minha irmã?
Pode perdoar as palavras insensatas de uma mulher ingrata, cega de paixão?
— Você estava doente — justificou Leontina, sem jeito.
— É verdade, mas agora me curei.
Juro que nunca mais vou pôr uma gota de álcool na boca.
— Jura mesmo, mãe?
— Você vai ver.
Não digo que vai ser fácil, mas vou me esforçar ao máximo.
E depois, tenho um incentivo muito grande.
Sabe qual é? — Marcos meneou a cabeça.
Você, meu filho. Faço isso por você.
O menino se atirou nos braços dela em lágrimas, e Leontina se juntou a eles.
— Vai ser bom nos tornarmos uma família outra vez — comentou Leontina.
E o pastor vai ficar muito satisfeito de tê-la de volta aos cultos.
Finalmente, a ovelhinha desgarrada retorna ao rebanho.
— Ninguém falou em retornar à igreja — contrapôs Clementina, com uma certa irritação.
Já disse que não quero mais saber de pastores nem de igreja.
— Mas por quê? — surpreendeu-se Leontina.
Certamente, você não culpa mais a igreja...
— Olhe, minha irmã, gosto muito de você, e Deus sabe o quanto me arrependo das coisas que lhe disse.
Também não culpo mais o pastor, pois sei que Romualdo se foi porque se enrabichou por outra.
Mas não quero mais saber de igreja, não.
Deixei-me envolver a tal ponto nos cultos que negligenciei meus deveres de esposa, e isso contribuiu para que Romualdo arranjasse outra.
Tudo era pecado, rezas e castigos.
Não acredito mais nisso.
— Você está transferindo para a igreja o fracasso do seu casamento para não ter que assumir que foram vocês que falharam.
Deus quis apenas ajudá-los.
— Pois prefiro que Ele me ajude a distância.
— Isso não está certo... — Leontina ia censurando, mas, a um olhar de Marcos, mudou o rumo da conversa.
Mas, enfim, você é quem sabe.
A vida é sua, não quero me intrometer.
— Óptimo. Assim não nos desentenderemos mais.
— Só espero que você permita que Marcos Wellington me acompanhe.
Ela encarou o filho, que deu um sorriso em sinal afirmativo.
— Se ele quiser...
— Eu quero — confirmou o menino.
Gosto de orar e fiquei muito triste quando você me proibiu de frequentar os cultos.
— Foi o temor a Deus que manteve Marcos Wellington longe do crime e do vício — afirmou Leontina.
— É verdade — concordou ele.
E isso só se adquire na igreja.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 27, 2015 11:28 am

— Já disse que ele pode ir, se quiser — repetiu Clementina, demonstrando impaciência.
Só não quero saber de beatos aqui em casa.
Se quiser se transformar em um, Marcos Wellington, sugiro que troque de religião e se torne um padre.
— Isso é que não! — protestou Leontina com veemência.
Marcos Wellington está no caminho da salvação e não precisa de falsos ídolos nem de falsos profetas, não é?
— É sim, titia.
Com todo respeito que devo aos padres, não quero trocar de religião.
— Muito bem, faça como quiser — ponderou Clementina.
Você é um rapazinho e pode decidir o que é melhor para você.
Já disse que não vou me opor.
Apenas gostaria que me respeitassem e não insistissem para me levar à igreja.
— Pode deixar, mãe.
Vamos respeitá-la direitinho.
Não é, tia Leontina?
— É — assentiu ela, embora a contragosto.
O resultado do encontro foi dos mais proveitosos.
A família voltou a se unir, a harmonia retornou ao lar das duas irmãs.
Custou um pouco, mas Leontina conseguiu arrumar algumas faxinas para Clementina fazer.
Ela começou a ganhar algum dinheiro, com o qual iam vivendo.
De vez em quando, Marcos auxiliava no estacionamento de um supermercado próximo, carregando compras para os fregueses, que lhe davam uma gorjeta ou outra.
Com isso, ia reforçando a renda doméstica, de forma que o dinheiro sempre chegava para pagar as contas e as compras no fim do mês.
Conforme o prometido, Clementina nunca mais voltou a beber.
Às vezes, tinha recaídas violentas, suava frio, tremia, mas, pensando no filho, conseguia se controlar.
Nessas horas, Marcos orava com fervor, atraindo a presença de Laureano, que aplicava passes restauradores e fortificantes em Clementina, fortalecendo sua vontade de resistir.
Marcos voltou a estudar na escola municipal.
Embora com dois anos de atraso em relação aos colegas, era inteligente e estudioso, o que lhe valia muitos elogios dos professores.
Sua vontade de se tornar advogado era tanta que ele se aplicava aos estudos dia e noite, tentando compensar a deficiência do ensino público com o esforço próprio.
Não foi fácil, mas ele conseguiu.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 27, 2015 11:28 am

CAPÍTULO 14

Alguns anos à frente, Margarete ainda se encontrava na mesma cidade astral a que fora levada por Félix.
Embora, na maioria das vezes, conseguisse resistir à bebida, suas recaídas, ao contrário das de Clementina, eram muito mais difíceis de evitar.
Margarete se locomovia facilmente no tempo e no espaço.
Quando a vontade apertava, tornando-se quase insuportável, ela logo se via ao lado de algum ébrio encarnado, livre para sugar-lhe a essência do álcool volatilizado.
Algumas vezes, Félix conseguia acompanhá-la e trazê-la de volta antes que ela sugasse o encarnado, outras não.
Com isso, seu tratamento tinha altos e baixos, perdendo-se o trabalho de desintoxicação, que Laureano tinha que começar outra vez.
Certa tarde, ao voltar de mais uma consulta com Laureano, Félix encontrou Margarete triste e acabrunhada, sentada na varanda, abraçada aos joelhos, cantarolando uma canção melancólica.
Ele se aproximou e deu-lhe um beijo na testa, indagando com certa preocupação, procurando detectar sinais de que havia bebido:
— Está tudo bem com você?
Ela o olhou com olhos húmidos e respondeu tristemente:
— Sabe quem eu fui visitar hoje? — Ele meneou a cabeça.
O Anderson.
— O Anderson? Mas por quê?
— Senti que ele me chamava.
Quando dei por mim, estava ao lado dele.
— Por que foi que ele a chamou?
— Ele está doente.
Muito doente, para falar a verdade.
Ouvi a mãe dizer, aos prantos, que sua morte é esperada para qualquer momento.
— Não me diga!
O que é que ele tem?
— Câncer.
— Coitado!
— Ele é jovem ainda, sabia?
Quando Marcos nasceu, Anderson tinha apenas dezassete anos.
Agora, deve estar com trinta e quatro.
— Sei que é triste, mas cada um faz suas escolhas na vida.
Anderson também fez a dele.
— Eu podia estar alegre, pois essa seria uma excelente maneira de me vingar de seu Graciliano e dona Bernadete.
Mas não estou.
— Que bom, não é, Margarete?
Ainda bem que você não se compraz com o sofrimento alheio.
— Fico imaginando a dor que ela deve estar sentindo pela perda do único filho.
Eu também sofri quando perdi o meu.
— Ele não se casou?
— Não. Fiquei lá um tempão, sem ninguém me notar, e não vi mulher alguma.
Nem dona Bernadete pensou em nora, nem vi formas mentais de crianças.
Apenas uma dor profunda.
— Você disse que foi lá atraída pelo pensamento dele, que estava ligado em você. Por quê?
— Remorso. Anderson era apenas uma criança quando se envolveu comigo.
Fui eu que o seduzi, ele não tinha forças para contrariar os pais.
Acho, porém, que jamais se perdoou por ter-me abandonado.
— Ele nada podia fazer.
Como você mesma disse, era apenas uma criança.
— Estou realmente triste, Félix.
Não queria que ele acabasse assim.
Ainda tinha a vida toda pela frente.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 27, 2015 11:28 am

Nesse momento, Laureano também se aproximou.
Captou o sentimento de tristeza de Margarete e foi tentar ajudar.
— Olá, Margarete — saudou ele.
Vejo que está muito triste.
— O Anderson, pai do filho dela, está doente de câncer — esclareceu Félix.
Parece que vai morrer.
Laureano se sentou ao lado dela e perguntou gentilmente:
— Não gostaria de visitá-lo?
— Já estive lá.
Ele está realmente mal.
Será que você, com toda essa sabedoria e luz, não pode ajudá-lo a sair dessa?
— Não creio.
Não posso desrespeitar a programação do indivíduo.
Só posso ajudar a quem me pede ajuda, assim mesmo, dentro do limite que a lei divina me impõe.
E, pelo que posso perceber, esse rapaz não quer mais viver.
— Mas por quê, se ele é tão jovem?
— Anderson deixou-se penetrar pelo vírus da tristeza.
Como não se perdoa por não ter assumido você e a criança, permitiu que o abatimento o levasse à solidão, ao desânimo, à falta de fé.
— Que coisa triste! — exclamou Margarete em lágrimas.
— Vamos orar para que ele se recupere dos sentimentos que danificaram seu corpo físico.
Se ele escolheu morrer, ninguém poderá fazer nada.
No mesmo instante em que se puseram a rezar, Margarete sentiu uma pontada no peito e olhou para Félix, que também havia sentido uma movimentação estranha no ar.
Ambos interrogaram Laureano com o olhar, mas foi a própria Margarete quem falou:
— Acho que chegou a hora.
Sinto que Anderson está desencarnando.
Imediatamente, transportaram-se para o hospital em Belford Roxo, onde Anderson dava seu último suspiro na vida corpórea.
Seu corpo fluídico acabara de se desprender do físico, logo recolhido pelo espírito de uma senhora de olhar bondoso.
Ela viu Laureano, Margarete e Félix, e sorriu para eles, esvanecendo no ar com o rapaz adormecido.
— Chegamos tarde — constatou Félix.
Ele já desencarnou.
— Para onde foi levado? — quis saber Margarete.
— Não sei — afirmou Laureano.
Mais tarde vou tentar descobrir.
Não vai ser difícil.
Subitamente, a atenção dos três foi atraída pelos gritos de desespero de Bernadete, que, ajoelhada ao lado da cama, chorava agarrada à mão do filho.
— Oh, Deus! Por que levou meu filho?
Meu único filho!
— Senhora, por favor, acalme-se — dizia uma enfermeira, que tentava fazer com que ela soltasse a mão de Anderson.
— Não posso deixá-lo!
Não posso! Isso não é justo!
Que vida mais injusta é essa que ceifa a vida de seres tão jovens?
Nesse momento, Graciliano entrou no quarto.
Procurando conter o pranto e a dor, ajoelhou-se ao lado da mulher.
— Vamos, querida, não podemos fazer mais nada.
Ele se foi.
— Por que, Graciliano, por quê?
Por que tivemos que perdê-lo?
— Não sei...
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 27, 2015 11:29 am

Graciliano engoliu a própria voz, sufocada no pranto e na dor.
Comovido, Laureano se aproximou, derramando sobre eles partículas de luz refrescantes e suaves.
Com a mão translúcida pousada sobre suas cabeças, fez uma breve oração, que aos poucos foi serenando-os.
Gentilmente, Graciliano conseguiu soltar a mão da mulher da mão do filho e ergueu-a, enlaçando-a com imensurável ternura.
Ao lado deles, Margarete chorava e comentou emocionada:
— Jamais pensei que um homem tão embrutecido como seu Graciliano fosse capaz de tanto sofrimento e emoção.
Veja o amor com que trata a esposa!
Ao redor dos dois formou-se uma luminosidade rósea que envolveu os corpos de ambos, unindo-os pelo chakra cardíaco.
— Você o está julgando ao chamá-lo de embrutecido — observou Laureano.
Graciliano é apenas um ser em crescimento, ainda apegado a falsos valores do mundo.
Como todo ser humano, possui um corpo emocional que vibra ao sabor das emoções.
É preciso compreender que todas as pessoas possuem em si sementes de bondade e de crueldade, se quiser chamar assim.
Eu, por mim, prefiro chamar de sabedoria e ignorância a umas e outras.
Sustentada pelo marido, Bernadete saiu.
Laureano deixou Margarete e Félix a sós, voltando aos seus afazeres.
— Venha, minha querida — chamou Félix.
Você teve muitas emoções por hoje.
— Preciso de uma bebida — anunciou ela.
Desesperadamente.
— Não, Margarete, tente se controlar.
— Quero beber! Minha garganta arde.
Por favor, Félix, deixe-me ir.
Ela se debateu nos braços dele, que implorou:
— Por Deus, Margarete, não faça isso.
Vai estragar tudo.
Você já está há vários dias sem se colar a ninguém.
— Mas agora é diferente.
É só hoje. Estou tão comovida, tão triste!
Só para acalmar a minha dor.
— Você não tem motivos para se sentir assim.
Já está no mundo invisível há tempo suficiente para compreender a verdade.
O que é a vida senão uma ilusão da matéria?
A verdadeira vida está aqui, por isso, nosso retorno é recebido com alegria.
Apenas os que ficam se deixam levar pela tristeza, porque não se lembram dessa verdade e pensam que a vida na matéria é a realidade.
Mas você não precisa mais da matéria.
Não se prenda ao que é ilusão.
Ela começou a chorar, agarrada a ele, enquanto Félix tentava se acalmar, centrando os pensamentos em prece.
— É só um pouquinho... — implorou ela.
— Vai estragar o processo de desintoxicação e teremos que começar tudo de novo.
Por Deus, Margarete, quando é que isso vai acabar?
— Deixe-me ir! — gritou ela com raiva.
— Será que você não percebe o quanto eu a amo?
Lembra-se do amor de Graciliano por Bernadete?
Você viu a luz cor-de-rosa que os envolveu?
Tente perceber que o mesmo acontece connosco agora.
Não era a mesma coisa, porque os sentimentos de Félix estavam por demais misturados ao desespero para criar o tom diáfano de rosa que haviam visto antes.
Contudo, as palavras dele surtiram efeito e Margarete se acalmou, reflectindo no que ele dissera.
Ficaram alguns minutos abraçados, o corpo fluídico dela todo trémulo.
À medida que Félix rezava, tudo ia serenando, até que ela voltou ao seu estado normal.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 27, 2015 11:29 am

— Pode me soltar — afirmou ela.
Estou mais calma agora.
— Tem certeza?
— Tenho. A crise passou.
— Não vai tentar fugir?
— Não. O desejo está sob controlo.
Eu juro.
— E se você estiver tentando me enganar?
E se eu a soltar e você fugir?
— Se eu quisesse fugir, já o teria feito, porque você não tem preparo emocional para me conter.
Se não fugi, foi por causa do que você disse.
— Como assim?
— Suas palavras me comoveram e confundiram.
Estou há tanto tempo com você que nunca me perguntei por quê.
— Por que o quê?
— Por que você me ajuda tanto?
Por que pareço tão especial para você?
— Porque a amo, já disse.
— Mas por quê?
Onde foi que nos conhecemos?
— Você não se lembra, não é?
— Não... — fez uma pausa, como se puxasse pela memória, e prosseguiu:
— Espere aí... É isso!
Na época da abolição... um pouco antes, talvez...
Você e eu... fomos casados!
— E Marcos era nosso filho.
— Uma criança roubada...
Nós a roubamos de Clementina!
Agora me lembro...
Félix colocou os dedos sobre os lábios dela e arrematou:
— Estamos todos envolvidos nas experiências de outras vidas.
Mas isso ficou para trás, não pode nos aprisionar.
Está na hora de levantarmos o pé do passado e seguir adiante.
Nós nos culparmos por escolhas imaturas não vai ajudar em nada no momento.
Ninguém tem que ser perfeito.
— Eu não acho que tenho que ser perfeita.
— No fundo acha, como praticamente todo mundo.
Pode ser que essa não seja uma ideia consciente ou bem delineada.
É mais um sentimento inato, inerente, profundamente arraigado.
— Às vezes você me surpreende com a sua sabedoria.
Não entendo por que insiste em permanecer aqui.
Por que não vai embora?
— Só se você for comigo.
— Eu?! Imagine...
— Imagine o quê?
Nós dois num mundo muito mais bonito e sereno?
— Não é isso.
Não sei se mereço lugar melhor do que este.
— Todo mundo merece.
Ela sorriu com serenidade.
Não sentia vontade de reviver na mente todos os acontecimentos infelizes que provocara no passado.
Só o que queria era pensar no seu futuro, na forma como agiria para que tudo fosse diferente.
Abraçou Félix com ternura e gratidão.
Pela primeira vez em muitos anos, não sentia vontade de beber.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 27, 2015 11:29 am

CAPÍTULO 15

O primeiro dia de aula na faculdade representou o primeiro passo da vitória sobre a miséria.
Marcos estava exultante, feliz como jamais pensou que estaria em toda a sua vida.
Não fora fácil chegar até ali.
Só ele sabia o quanto havia se esforçado para alcançar uma boa nota no vestibular e ingressar na UERJ7.
Primeiro aluno a entrar em sala de aula, sentou-se logo na primeira fila, bem em frente à mesa do professor.
Aos poucos, os demais alunos foram chegando e se acomodando nas carteiras, apresentando-se com animação.
Vencendo a timidez, Marcos fez amizade com alguns rapazes mais interessados feito ele.
As aulas o encantaram, ele se sentiu muito à vontade naquele mundo intelectual.
Apesar de estar numa universidade pública, a maioria dos alunos vinha de uma classe social mais alta, mas nem isso o incomodou.
Ali, ele era um estudante como todos os outros, embora um pouco mais velho do que a maioria.
Marcos logo chamou a atenção dos professores pela inteligência e pelo interesse.
Estava sempre com a lição na ponta da língua, sabia todas as respostas, estudava com afinco.
Embora não fosse snobe nem tentasse se sobressair, era o que acontecia naturalmente.
Isso fez com que fosse admirado por uns e invejado por outros, mas sempre respeitado pelos colegas.
Das quatro da tarde às dez da noite, trabalhava como garção no restaurante de um grande shopping center.
Após as aulas, sentava-se com sua marmita para almoçar e depois corria para a biblioteca, onde estudava até as três e meia da tarde.
Dali, partia para o trabalho, que ficava em Vila Isabel, pertinho da universidade.
Como o restaurante era bastante movimentado, as gorjetas, geralmente boas, davam para cobrir os gastos com livros e ajudar a mãe com as despesas domésticas.
Aos domingos, Marcos ia ao culto na igreja pela manhã e estudava até a hora de ir para o trabalho.
Somente em seus dias de folga se permitia dar um passeio com a tia ou ir ao cinema com a mãe, apesar dos protestos de Leontina, para quem cinema era uma coisa maligna, inventada pelo diabo para seduzir os homens e levá-los à comunhão com as trevas.
Marcos gostava dos cultos e das orações, mas não era dos mais fervorosos praticantes evangélicos.
De um lado influenciado pela tia, que em tudo via pecado, e de outro, pela mãe, que não podia nem ouvir falar em igreja, permanecia no meio-termo.
Gostava da Bíblia, mas tinha dúvidas sobre certas proibições.
Era uma vida corrida, mas Marcos não se queixava.
Sentia-se feliz por estudar e ter um emprego com carteira assinada que lhe garantia um salário razoável.
A mãe não bebia mais.
Marcos presenciara muitas crises provocadas pela abstinência do álcool, fora testemunha do esforço que ela fizera para largar a bebida.
Demorou, mas ela conseguiu trocar o vício pela realização de seu ideal de criar o filho como pessoa de bem.
Embora preferisse não passar pela porta de bares ou botequins, Clementina nunca mais colocara uma gota de álcool na boca.
Na segunda-feira, pela primeira vez em sua vida académica, Marcos não conseguiu chegar na hora à faculdade.
A mãe passara mal de manhã, ele teve que descer à farmácia para comprar-lhe remédio e esperar até que ela melhorasse.
Só saiu quando se certificou de que ela estava bem.
Entrou pela porta de trás e sentou-se numa carteira ao fundo, para não atrapalhar a aula.
Para seu desagrado, alguns colegas conversavam baixinho, ignorando o professor.
Ele apanhou o caderno e o livro, tentando se concentrar na aula, apesar do murmurinho dos menos interessados em aprender.
— Ei, gente! — sussurrou um rapaz com ironia.
O nerd da turma veio hoje para a cozinha.
Marcos olhou espantado, certificando-se de que era com ele.
Nunca antes havia escutado um comentário a seu respeito.
Os rapazes abafaram as risadas, continuaram cochichando coisas que lhe pareceram pejorativas.
O sangue subiu-lhe às faces, ele sentiu vontade de responder, mas o respeito ao professor o deteve.
— Não ligue. — Ele ouviu uma voz feminina a seu lado e se virou para ela.
Eles têm é inveja de você.
O rosto da moça era doce, sua voz, suave. Marcos reparou na menina.
Chamava-se Raquel, cabelos negros e olhos cor de mel.
Ele riu do verso improvisado que criou na cabeça, mas que descrevia bem a encantadora garota que nunca antes lhe dirigira a palavra.
Limitou-se a assentir e endireitou-se na carteira, lutando para prestar atenção na aula perdida.
Não conseguiu mais.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 27, 2015 11:30 am

As palavras do professor de repente lhe pareceram sem importância, irrelevantes ante a descoberta da moça.
Durante o resto da manhã, foi um custo se concentrar nas aulas.
Quando o primeiro tempo terminou, ele foi para a frente, ocupando seu lugar de sempre, a imagem de Raquel seguindo com ele.
Na hora do intervalo, viu-a com o namorado, um grandalhão cheio de músculos moldados no levantamento de peso.
Tentava não olhar para eles, mas não conseguia.
Parecia que, aonde quer que fosse, Raquel e o namorado o seguiam.
— Você não quer arrumar encrenca, quer?
A voz, dessa vez grossa e inquisitiva, retirou-o de seu devaneio.
Ele fixou o olhar no interlocutor e retrucou com espanto:
— O que foi que você disse?
— Perguntei se você está tentando arrumar alguma encrenca.
Não sabe que Nelson é ciumento?
Quem falava era Arnaldo, melhor amigo de Marcos.
— Está falando de quê? — tornou Marcos, fingindo-se de desentendido.
— Você sabe muito bem.
Sentou-se lá atrás na primeira aula e já está apaixonado pela garota do gostosão da turma.
— Ficou louco, é?
Eu mal conheço a menina.
— Mas não tira os olhos dela.
Pensa que eu não percebi?
E, se eu percebi, Nelson também percebeu.
— Você está maluco!
Não estou apaixonado por ninguém.
— Se não está, tome cuidado para não ficar.
Não vai dar certo.
— Pare com isso, Arnaldo.
Você está imaginando coisas.
— Raquel não é para você.
Ouça o que estou dizendo.
— Ah, é? — explodiu ele, sentindo a raiva consumi-lo.
E por que não, posso saber?
Só porque ela é branca e eu sou negro?
Ou porque ela é rica e eu sou pobre?
— As duas coisas.
Marcos abriu a boca, estarrecido.
Não acreditava que estava ouvindo aquilo de seu melhor amigo.
— Você agora deu para ser preconceituoso?
— De jeito nenhum! Não se trata disso.
Estou apenas tentando ser realista.
Se fosse outra moça, não diria nada.
Mas Raquel é namorada de Nelson...
— Ah! O problema então não é ela, mas ele.
— Dá no mesmo.
— Não dá, não.
— Você não está entendendo.
Gente assim não se mistura com pessoas feito você.
— Você se mistura.
— Não me confunda com eles. Tenho princípios.
E depois, não sou rico.
Minha família é de classe média, como a maioria por aqui.
Mas eles dois, não.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 27, 2015 11:30 am

O pai de Nelson é desembargador, e Raquel é filha de um cirurgião cheio da grana.
Sabe lá o que é isso?
Você acha mesmo que pode se envolver com gente assim?
— Você está julgando as pessoas.
Não os conhece, mas se acha no direito de pensar que elas são preconceituosas só porque são importantes e ricas.
— Não seja bobo.
A família de Nelson é de gente importante, metida e arrogante.
— Mesmo que eles sejam assim, não tenho nada com isso.
Não estou interessado em Raquel.
— Percebe-se.
— Não precisa ficar de ironia.
Eu só troquei duas palavras com ela.
Aliás, não troquei palavra nenhuma.
Foi ela que falou comigo.
— Estou alertando-o porque sou seu amigo e quero o seu bem.
Se você tivesse a mínima chance com ela, eu daria a maior força.
Mas sei que não tem.
Ela vive em um mundo completamente diferente do seu.
— Bem se vê o quanto você é meu amigo.
— Não posso incentivar um romance que sei que só lhe trará sofrimentos.
— Pare com isso, está bem? — esbracejou Marcos, levantando-se da cadeira.
Não estou interessado em ninguém e ponto final.
Chega de besteira!
O sinal anunciando o término do intervalo soou, e todos retornaram à sala.
Marcos entrou pela porta da frente, e Raquel, pela de trás.
Era por isso que raramente se viam.
Ele pertencia ao mundo dos pobretões que contavam com o esforço próprio para ser alguém na vida, enquanto ela, provavelmente, só estudava para ter um diploma universitário e alcançar um status a mais na sociedade.
Durante o resto da manhã, Marcos procurou não pensar em Raquel, mas, quanto mais tentava, mais pensava nela.
As palavras de Arnaldo ainda ecoavam em sua cabeça.
Provavelmente, ele tinha razão em tudo o que dissera.
A verdade era que ele se interessara mesmo por Raquel.
Era uma loucura, e ele sabia.
Raquel jamais olharia para alguém feito ele.
Os pensamentos de Raquel tomavam um rumo oposto ao imaginado por Marcos e Arnaldo.
Assim que ela entrou na faculdade, conheceu o bonitão do Nelson e logo começaram a namorar.
Ele vinha de uma tradicional família de juristas no Rio de Janeiro, ela era filha de um conceituado cirurgião plástico.
A atracção foi recíproca, e o namoro, bem aceite pelas duas famílias.
O pai de Nelson tinha uma vida muito atribulada.
Viúvo, dividia-se entre julgamentos no Tribunal de Justiça e as obras doutrinárias que editava.
Era um homem correcto, embora muito ocupado e desligado das coisas do espírito, principalmente após a morte da esposa, vítima de câncer no útero.
Sem tempo para se ocupar de assuntos familiares, não participou activamente da criação de Nelson, que cresceu sem limites, acostumado a ter tudo o que desejava.
Os pais de Raquel eram ambos médicos.
Ivone, a mãe, era pediatra, e Ricardo, o pai, cirurgião plástico.
Eram pessoas pacatas, simpáticos às novas ideias de Raquel sobre espiritualidade.
A moça não seguia nenhuma religião específica, mas acreditava no mundo invisível e estava sempre lendo algum livro espírita ou esotérico.
Nas horas vagas, envolvia-se em cursos os mais variados:
cromoterapia, reiki, astrologia, teosofia, tarô e outros assuntos ligados ao ocultismo, sem, contudo, filiar-se a nenhum deles.
O irmão mais velho, Elói, considerava tudo aquilo uma grande bobagem.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

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