Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 28, 2015 11:53 am

Não acreditava em espíritos nem em reencarnação, nem em energias invisíveis, ideias muito bem assimiladas por Raquel.
Preferia o estudo frio da ciência, sem levar em conta as necessidades da alma, como se tudo não fosse criação de um único Deus.
Cursava o último ano de medicina e pretendia seguir os passos do pai.
Afinal, para que se esforçar em uma profissão diferente se podia aproveitar tudo o que o pai já conquistara?
Mesmo com todas essas peculiaridades, o julgamento de Arnaldo estava um pouco distante da realidade.
Nelson era um rapaz arrogante, mas Raquel era uma moça doce, preocupada com o futuro espiritual da humanidade.
Quando o namoro começou, tudo pareceu uma maravilha.
Nelson era um rapaz bonito, inteligente, agradável, simpático e educado.
Tudo o que uma garota deseja.
Só havia um porém:
sua simpatia e educação estavam restritas às pessoas de seu meio social.
Qualquer um que não fizesse parte do clã da riqueza só conhecia seu lado mais sombrio.
À medida que Raquel percebeu isso, começou a se decepcionar, questionando-se sobre seus reais sentimentos para com ele.
A crescente desilusão com Nelson facilitou a avaliação de Marcos.
Ela já o havia notado antes, embora nunca se atrevesse a puxar assunto com ele.
Marcos fazia parte da ala intelectual da turma, ao passo que ela fora se envolver justo com os malandros que não queriam nada com estudo.
A faculdade nada representava para eles, além de uma satisfação às exigências familiares e uma possibilidade de se exibir para as garotas.
Com Marcos era diferente.
Ele era inteligente, bonito, um POUCO tímido, porém, educado e charmoso.
A tez morena, quase negra, os cabelos encaracolados e os olhos vivos só não a atraíram mais do que o sorriso cativante, que deixava à mostra, na medida certa, dentes alvos e perfeitamente enfileirados.
Quando Marcos sentou-se nos fundos da sala, Raquel viu naquele primeiro contacto a chance que havia tanto esperava.
Nelson e os amigos faziam comentários infames sobre ele, deixando-a revoltada.
Ele devia desconfiar que era o assunto dos rapazes, porque, em dado momento, seu rosto pareceu se avermelhar, transformando o tom moreno de sua pele em um rubro quase grená.
A beleza exótica da fisionomia de Marcos fez disparar sua respiração.
Raquel se pegou olhando fixamente para ele, encantada com seu perfil másculo e bem delineado.
Como ele era bonito!
Tentou disfarçar o mais que pôde, para não despertar ciúmes em Nelson.
Olhava-o de soslaio, à espera de que seus olhares se cruzassem, mas nada aconteceu.
Mesmo assim, ela era suficientemente sensível para perceber que o havia impressionado.
Na hora do intervalo, ele a seguia com os olhos por todo lado, e ela procurava estar sempre ao alcance de sua vista, porque também olhava para ele de forma quase imperceptível.
Nelson faria um escândalo se descobrisse, o que não era de seu interesse.
Contudo, precisava admitir que já não gostava tanto de Nelson como antes.
Será que já não era hora de terminarem aquele namoro?

7 UERJ — Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 28, 2015 11:53 am

CAPÍTULO 16

Ao final do culto de domingo, Marcos voltou para casa de braços dados com a tia, ouvindo-a comentar o sermão daquela manhã.
Realmente, foram muito bonitas as palavras do pastor sobre o casamento e a família.
Ele falou sobre o compromisso de amor, fidelidade e respeito que o casamento impõe, além de sua indissolubilidade.
— Não se esqueça, Marcos Wellington, de que Deus não aprova o sexo antes do casamento — ia dizendo a tia.
Não é só porque você é jovem que tem que se envolver com os pecados do mundo.
Sei que hoje tudo é muito fácil, as moças estão se perdendo por aí.
E os rapazes, então!
Acham que fazer sexo é sinónimo de virilidade, quando não é.
Pense bem nas palavras do pastor.
Se você se perder pela fornicação, será culpado aos olhos de Deus, e um pecador miserável que se distancia dos conselhos bíblicos não é digno de perdão...
Enquanto ela falava, Marcos pensava em Raquel.
Será que ela era virgem?
Nelson, na certa, não devia ser.
Nenhum rapaz de sua idade era virgem naqueles dias.
Só os que abrigavam no coração as palavras da Bíblia, como ele.
E Nelson não fazia o tipo de quem era religioso ou temente a Deus.
A tia continuava sua prelecção sobre casamento e virgindade, repetindo as palavras do pastor.
Às vezes, ele gostaria de não ser tão religioso e consciente das verdades bíblicas.
Se fosse igual às pessoas comuns, não precisaria esconder o desejo debaixo da água do chuveiro.
O pastor lhe dissera que a masturbação também era pecado, mas o que fazer com a explosão dos hormónios?
No portão de casa, Marcos se despediu da tia.
Pelo resto da noite, seus pensamentos se ocuparam com a lembrança de Raquel.
Custou a dormir, pensando nos movimentos dela, que acompanhara durante toda a semana, sem coragem de lhe falar.
Tinha que dar um jeito de se aproximar dela.
Mesmo contra as advertências de Arnaldo, precisava desesperadamente lhe falar.
No dia seguinte, Marcos chegou atrasado novamente.
Como da vez anterior, sentou-se numa das últimas fileiras, procurando Raquel pelo canto do olho.
Para sua surpresa e decepção, ela não se encontrava na sala, embora Nelson estivesse de cochichos com seu grupinho de sempre.
Eles o cumprimentaram com fria educação e continuaram a conversa paralela.
Marcos tentou se concentrar na aula, sem sucesso, porém.
Pousou a mochila na carteira ao lado da parede e pôs-se a mastigar a caneta, pensando no que teria acontecido a ela.
Quase no fim da aula, ouviu a voz familiar soando a seu lado:
— Tem alguém sentado aqui?
Era ela.
O coração de Marcos deu um salto do peito e fez sua garganta engasgar:
— O quê...?
Não... Pode sentar...
Ele puxou a mochila rapidamente.
Ela se sentou, virou para trás e atirou um beijo para Nelson, que lhe jogou outro.
Como não havia cadeiras vagas perto dele, optou por sentar-se ao lado de Marcos.
Com a mochila no colo, ela olhava para a frente, imóvel.
— Chegou atrasado hoje também? — indagou ela, sem se virar para ele.
Não queria que Nelson visse que puxava conversa com Marcos.
— Hã...? Eu...
Está falando comigo?
— E com quem mais poderia ser?
Tem mais alguém aqui, além de você, de um lado, e a parede do outro?
— Desculpe-me — murmurou, abaixando a cabeça envergonhado.
— Você não é de falar, é?
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 28, 2015 11:53 am

— Não muito.
— Que pena.
Quando o sinal anunciou o término da aula, ela se levantou apressada, indo ao encontro de Nelson, que a puxou e lhe deu um beijo rápido.
Marcos maldisse a si mesmo, julgando-se um idiota por ter perdido a oportunidade de conversar com ela.
Apanhou suas coisas e partiu furioso para sua carteira na frente.
Jogou a mochila com raiva, sentou-se de braços cruzados.
— Nossa! — espantou-se Arnaldo.
O que foi que aconteceu?
— Nada — respondeu de má vontade.
Sou um idiota, só isso.
A segunda aula começou, depois a outra, e Marcos só saiu da sala na hora do intervalo por insistência de Arnaldo.
Da cantina, Raquel olhava insistentemente para o corredor, a fim de ver se Marcos vinha chegando.
Não devia ter falado com ele daquela maneira.
Ele era tímido, não iria logo se abrindo com ela.
Como fora estúpida!
Perdera a oportunidade de travar uma conversa amistosa e iniciar uma amizade com ele.
— O que você tem? — indagou Nelson de repente, enlaçando-a pela cintura.
— Nada. Estou com sono.
Fui dormir tarde ontem.
De repente, quando Marcos despontou no saguão, ela não conseguiu ocultar a euforia, que o namorado logo percebeu.
— O que você tem? — repetiu ele, fitando não Marcos, mas Arnaldo, para quem julgava que Raquel estivesse olhando.
— Já disse que estou com sono.
Esqueceu-se de que voltamos tarde para casa ontem?
Quando Arnaldo e Marcos passaram próximo a eles, Nelson puxou-a mais para junto de si e anunciou em voz mais alta do que deveria:
— Foi uma noite e tanto, não foi?
Transamos feito loucos...
Raquel empurrou-o surpresa, enquanto Marcos e Arnaldo se sentavam a outra mesa.
— Que grosseria, Nelson! — repreendeu ela.
Por que não põe no jornal para todo mundo saber?
Ela lhe deu as costas e partiu apressada para a sala, sentindo que as lágrimas afloravam em seus olhos.
E se Marcos tivesse ouvido aquilo?
Por sorte, Marcos não escutara.
Estava longe demais quando Nelson falou.
Se tivesse ouvido aquela revelação, teria ficado tão decepcionado que talvez desistisse de Raquel.
Por mais que se questionasse sobre a virgindade dela, tinha esperanças de que ela fosse diferente das outras e se mantivesse pura para o marido.
A saída súbita de Raquel atraiu sua atenção, e ele a seguiu com os olhos.
Observou a reacção de Nelson, que passava a mão na cabeça, aparentemente hesitando entre ir atrás dela e permanecer com seu grupinho de amigos.
— O que será que houve ali? — perguntou Marcos, apontando com o queixo na direcção de Nelson.
Arnaldo seguiu a direcção que ele apontava, depois voltou-se para Raquel, que entrava no corredor a passos apressados.
— Está tomando conta da vida dos outros? — replicou Arnaldo.
Depois diz que não está interessado nela.
— Não é nada disso.
Eu só percebi porque ela saiu correndo.
— Está pensando que eu sou idiota, Marcos?
Por que quer se enganar desse jeito?
Marcos abaixou a cabeça, pensando numa desculpa para dar, mas desistiu.
Afinal de contas, como seu amigo, Arnaldo devia lhe dar apoio, não o recriminar.
— Quer saber mesmo?
Estou interessado na Raquel, sim.
E acho que ela também está interessada em mim.
Qual o problema?
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 28, 2015 11:54 am

— Problema nenhum.
— Se você vai dizer que ela não serve para mim, não precisa.
Não preciso que os amigos venham me recriminar.
— Puxa, Marcos, desculpe-me!
Não era minha intenção recriminá-lo.
Queria apenas evitar que você sofresse.
— Quem foi que disse que vou sofrer?
Você não sabe!
Por que Raquel e eu não podemos nos dar bem?
— Está bem, não precisa ficar aborrecido.
Eu não sabia que as coisas haviam chegado a esse ponto.
Marcos o fitou desanimado.
Na verdade, as coisas não tinham chegado a ponto algum.
— Deixe para lá, Arnaldo.
Sou eu quem lhe deve desculpas.
Raquel e eu não temos nada, nem amigos somos.
Só estou com raiva porque perdi a oportunidade de me aproximar dela.
— Você chegou atrasado de propósito, só para sentar perto dela, não foi?
— Foi. Ela se sentou ao meu lado, puxou conversa comigo, e sabe o que eu fiz? Nada.
Fui um idiota, fiquei lá, sem saber o que fazer.
O sinal tocou, e ela voltou para o Zé Grandão.
Arnaldo riu da comparação.
Já ia retrucar quando sentiu um esbarrão na cadeira, e Nelson passou com o punho rente ao ouvido dele.
— O último que mexeu com a minha namorada passou três meses no hospital — falou ele entre os dentes para António, um amigo que vinha com ele.
Arnaldo levou um susto, Marcos ficou lívido.
Nelson nem se deteve.
Seguiu adiante em direcção ao corredor, bem na hora em que o sinal anunciava o fim do intervalo.
— O que foi aquilo? — indagou Arnaldo, levantando-se surpreso.
— Eu é que sei?
— Será que ele ouviu a nossa conversa?
— Não sei. Talvez.
— Pior é que sobrou para mim, que não tenho nada com a história.
— Acho que ele me mandou um recado.
Deve ter ouvido o que dissemos.
— Ou então percebeu.
Também, você não para de olhar para ela.
Marcos silenciou.
Raquel e Nelson não eram casados, mas estavam comprometidos.
Não tinha certeza se era direito flertar com uma moça comprometida.
Talvez fosse melhor esquecê-la e partir para outra.
Mas como conseguiria isso, se seu coração já estava irremediavelmente preso ao de Raquel?
— Você acredita em amor à primeira vista? — indagou, sonhador.
— Não. Acredito em desejo e atracção.
— É isso que você acha que eu sinto por ela?
Desejo, atracção?
— Não sei. Diga-me você.
— Existem coisas a meu respeito que você desconhece, Arnaldo.
— O quê, por exemplo?
— Minha religião não permite que eu faça sexo antes do casamento.
— Não me diga! — o outro mostrava uma surpresa genuína.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 28, 2015 11:54 am

— Sei que isso parece antiquado, mas é assim que eu acredito que seja o certo.
Por isso é que lhe digo que o que sinto por Raquel vai muito além de um simples desejo.
— Tudo bem — concordou Arnaldo, meio sem graça.
— Se é aquilo em que você acredita...
— Você acha isso uma besteira, não acha?
Vamos, pode dizer.
— Não acho nada, Marcos.
Nem tenho o direito de me intrometer na sua vida e falar o que é certo ou errado.
Posso apenas dizer que penso diferente.
— Você já teve relações sexuais com alguma garota?
— Bem... é o normal, não é?
— Eu nunca tive.
E não me arrependo disso.
— Quer dizer que você é virgem?
— Até o dia do meu casamento.
Você acha que Raquel também é?
Arnaldo tentou desconversar, abafando a vontade de dizer, com todas as letras, que não tinha a menor dúvida de que Raquel não era virgem.
— Como é que eu vou saber? — retrucou sem jeito.
— Pois eu acho que ela é.
Raquel não se entregaria àquele brutamontes.
— E se não for?
Ele hesitou por uns instantes, até que respondeu indeciso:
— Pensarei nisso depois.
Raquel se aborreceu profundamente com o comentário de Nelson e não teve dúvidas em demonstrar.
Estava sentada ao lado dele, de braços cruzados, olhar carrancudo.
Quando Marcos entrou, ela lhe enviou um olhar rápido, que Nelson percebeu, mas julgou endereçado a Arnaldo.
— O que é que está acontecendo, hein? — questionou ele, segurando-lhe o braço.
— Nada. Quer me soltar?
Ele a soltou e tornou com uma fúria contida:
— Você está de olho naquele magricela do Arnaldo, não está?
— O quê? — tornou ela, com desdém.
Você só pode estar brincando.
— Você não pára de olhar para ele.
— Deixe de inventar coisas.
Eu nunca olhei para ele.
— Acho bom, ou a coisa pode esquentar.
— Você está me ameaçando?
— A você, não. A ele.
Não vou permitir que nenhum otário paquere a minha namorada.
Ele que não se faça de besta comigo.
— Deixe de ser idiota, Nelson! — esbracejou ela.
Não vá se meter com o rapaz, que nunca me fez nada.
— Eu o vi olhando para você.
— Está vendo demais.
— E você corresponde.
— Essa é muito boa!
— Já disse que não vou tolerar isso.
— Quer saber de uma coisa, Nelson? — replicou ela entre os dentes.
Vá se danar!
Rapidamente, passou a mão no material e saiu, sem que Marcos percebesse.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 28, 2015 11:54 am

Era só o que faltava, Nelson cismar com o garoto errado.
Coitado do Arnaldo!
Não tinha nada a ver com a história e ainda podia acabar apanhando.
Nelson saiu atrás dela, e Marcos percebeu a movimentação, porque ele fez um estardalhaço quando se levantou.
Pensou em segui-lo, mas Arnaldo o deteve.
— Nem se atreva! — protestou baixinho.
Você não tem nada a ver com isso.
Do lado de fora, Nelson corria pelo corredor atrás de Raquel.
— Por favor, meu bem, perdoe-me.
Você sabe o quanto sou ciumento. — Ela não respondeu.
Fale comigo, Raquel, por favor.
Ela estacou e se virou para ele.
— Isso é uma paranóia.
Onde já se viu ameaçar um rapaz que nunca me fez nada?
E se ele estivesse me olhando?
O que é que tem de mais?
— Não gosto que olhem para você.
— E eu não gosto que tomem conta da minha vida.
Você não é meu marido e, desse jeito, nunca vai ser.
Nelson não deixou que ela continuasse a falar, tapando sua boca com um beijo ardente.
Raquel achou melhor não resistir.
Foi um momento engraçado, diferente.
Não havia mais desejo nos lábios dela ao tocar os dele.
O que sentiu foi um misto de repulsa e medo, uma certeza de que a paixão se acabara ali.
Como faria para dizer isso a ele sem provocar sua ira?
— Nunca mais vou fazer isso — prometeu Nelson.
Juro que não vou.
Ela encostou a cabeça no ombro dele e deixou-se ficar, momentaneamente inerte diante da inevitabilidade do fim.
Um abismo se abriu entre eles, ela teve vontade de chorar.
Subitamente, todo seu corpo estremeceu, um calor gostoso desceu-lhe pela garganta.
Agora sabia de tudo:
seu coração começou a bater, eufórico, não porque ela estivesse nos braços de Nelson, mas porque acabara de ver Marcos passar.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 28, 2015 11:54 am

CAPÍTULO 17

A sala escura e abafada da mansão dos Silva e Souza causava um certo mal-estar em Afrânio, acostumado a serviços ao ar livre.
Desde menino sentia-se enclausurado entre quatro paredes e cedo decidira trabalhar em algo que, além de não exigir muitas horas de escritório, lhe facultasse uma mobilidade maior do que o normal.
Não fora por outro motivo que, após longo período de reflexão, optara pela profissão de detective, para desgosto do pai, que sonhava vê-lo formado em medicina.
Mas Afrânio gostava de estar o tempo todo se movimentando pelas ruas, olhos e ouvidos atentos, atrás de pessoas desaparecidas ou que tinham algo a esconder, como nos filmes de mistério que via na televisão.
A realidade, porém, era um pouco mais obscura.
Faltava na profissão o glamour de Hollywood.
A carreira, muitas vezes, era bem mais perigosa e sórdida, sem o romantismo das fitas de cinema.
Mesmo assim, era aquilo de que gostava e o que fazia melhor.
Sua dedicação ao trabalho lhe valera reconhecimento nacional.
Muitos eram os figurões que o contratavam para investigar a vida conjugal de suas mulheres ou amantes.
Pessoas desaparecidas também eram a sua especialidade, e Afrânio ficou pensando em qual dos dois grupos se encaixaria o senhor Graciliano Silva e Souza.
Não suportando mais o abafamento do ambiente, abriu a janela e aspirou profundamente o ar límpido da manhã.
No mesmo instante, um ruído na porta anunciou a chegada de Graciliano, que entrou seguido da mulher.
Se ele vinha acompanhado da esposa, então, o caso devia ser de desaparecimento.
Afrânio afastou-se da janela e apertou a mão que o outro lhe estendia.
— Senhor Afrânio, muito prazer — cumprimentou ele cordialmente.
Esta é minha esposa, Bernadete, e eu sou Graciliano Silva e Souza.
— O prazer é todo meu — respondeu ele, apertando levemente a mão de Bernadete.
— Por favor, sente-se — pediu ela, apontando para uma poltrona, enquanto os dois se sentavam no grande sofá em frente.
— Obrigado.
Os três se acomodaram.
Bernadete cruzou as mãos sobre o colo e abaixou os olhos.
Parecia profundamente abalada, o que indicava o desaparecimento de um filho ou uma filha.
Afrânio tinha experiência suficiente para detectar o sofrimento da mãe nesses casos.
— Muito bem, seu Afrânio — Graciliano começou a dizer — chamei o senhor aqui porque o seu nome foi muito bem recomendado por amigos meus que já se utilizaram de seus serviços e ficaram impressionados com a sua eficiência e discrição.
— Obrigado, senhor.
Esse tem sido sempre o meu lema.
— O senhor não imagina como é embaraçoso para nós termos que nos utilizar dos serviços de um detective, mas enfim... acreditamos que essa seja a única maneira de conseguirmos o que queremos.
Afrânio assentiu e continuou espera, enquanto Graciliano prosseguia:
— O senhor deve saber que sou um homem de posses.
— Sei que é dono de uma empresa de ónibus.
— Exactamente. Como pessoa influente, rica, não posso me descuidar e expor a mim e a minha esposa ao perigo de aventureiros sem escrúpulos.
Por isso, é de suma importância que o senhor vá fundo na investigação sobre o assunto de que vou lhe falar, para que não sejamos vítimas de nenhum golpista.
— Perfeitamente.
Graciliano parou, engoliu em seco e olhou para a mulher, que chorava de mansinho, enxugando as lágrimas no seu lencinho de cambraia.
Passou a mão pela testa, como se tentasse organizar as palavras, reuniu coragem e retomou a narrativa:
— Nosso filho faleceu recentemente.
Era nosso único filho e... — parou, a voz embargada, tomou novo fôlego e continuou:
— Estava com trinta e quatro anos, solteiro.
Era um rapaz triste, solitário.
E era tudo o que nós tínhamos.
Afrânio percebia como era doloroso para ele falar a respeito do filho e permaneceu quieto, em silencioso respeito.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 28, 2015 11:55 am

Teve que aguardar alguns minutos até Graciliano controlar as lágrimas e conseguir imprimir à voz um tom mais claro:
— Acho que nem é preciso dizer como estamos sofrendo, minha esposa e eu — olhou de soslaio para Bernadete, que permanecia imóvel.
Não nos restou mais ninguém na vida.
Anderson era nosso único filho e, como não era casado, não nos deixou netos legítimos, todavia...
Novamente a pausa dolorosa, mas, dessa vez, os soluços de Bernadete se tornaram mais audíveis.
— Se o senhor quiser, posso voltar outra hora — sugeriu Afrânio, acostumado a situações de extrema comoção como aquela, em que as pessoas mal conseguiam falar.
— Não — objectou Bernadete, a voz surpreendentemente grave e firme.
Chamamos o senhor aqui com um propósito e não vamos deixar que se vá sem que o conheça.
Diga-lhe logo, Graciliano, não aguento mais.
Graciliano encarou-a com desgosto.
Era nítido o esforço que fazia para conseguir manter o controle e narrar sua história sem crises de desespero.
Desviou os olhos da mulher e, sem levantá-los, prosseguiu:
— Como disse, seu Afrânio, Anderson não se casou.
Contudo, deixou um filho... — nova pausa comovida — um filho cujo paradeiro desconhecemos.
Achando que já era hora de agir, Afrânio sacou um minúsculo gravador do bolso e perguntou em tom o mais profissional possível:
— Importa-se se eu gravar nossa conversa?
— Isso é mesmo necessário? — contrapôs Graciliano.
— Vai me facilitar muito.
Assim terei certeza de não ter perdido um só detalhe do que me disserem.
Às vezes, coisas aparentemente sem importância são as que possibilitam grandes descobertas.
— Muito bem.
Se é essencial, vá em frente.
Afrânio accionou o botão do gravador e o posicionou na mesinha de centro, voltado para o casal.
— Podem prosseguir, por favor — pediu ele.
— Como eu ia dizendo — Graciliano voltou a falar —, temos um neto, filho de Anderson, que não sabemos onde está.
Não fazemos a menor ideia do seu paradeiro.
— E a mãe dele? — Afrânio indagou.
— A mãe dele foi empregada em nossa casa — Graciliano respondeu baixinho, como se sentisse vergonha do que estava dizendo.
- Ela foi nossa empregada quando Anderson era ainda um menino inexperiente — completou Bernadete, aparentemente mais desprendida do pudor que parecia tolher o marido.
Suspeitamos até que foi ela quem o iniciou como homem, mas isso não vem ao caso.
O facto foi que ela engravidou, e nós a expulsamos de casa.
Depois disso, nunca mais ouvimos falar dela.
— Veja bem, seu Afrânio, não quero que pense que não somos pessoas de bem — justificou Graciliano.
Nós apenas ficamos surpresos, essa foi nossa primeira reacção.
Depois nos arrependemos, mas já era tarde demais.
— Você nunca se arrependeu — tornou Bernadete com raiva.
Só agora, que Anderson morreu, é que você voltou a pensar no menino e em Margarete.
Só porque não temos uma descendência, e você não quer morrer sem herdeiros!
— Não é justo me acusar.
Você foi a primeira a rejeitar a criança, porque era negra.
— Anderson sempre foi um menino frágil.
Contraiu várias pneumonias e queria conhecer o filho, com medo de morrer, mas você não permitiu.
Até que um câncer o levou...
Ela se calou, sufocada pelos soluços.
Como a conversa tomava um rumo constrangedor, Afrânio interveio:
— Peço que não briguem nem se incomodem com a minha opinião a respeito do que fizeram ou deixaram de fazer.
Minha função é ouvi-los sem emitir nenhum juízo de valor.
Estou aqui para ajudá-los no que me pedirem, não para julgá-los.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 28, 2015 11:55 am

— Perdoe minha mulher, seu Afrânio — retorquiu Graciliano.
Ela não se conforma por ter perdido o único filho.
Retomando o assunto, Margarete, a empregada, teve o filho e, como nós não o aceitamos, sumiu no mundo.
Não fazemos ideia do lugar para onde foi, nem onde está morando, nem se está viva.
Nem sabemos se o menino sobreviveu.
— Sei. Entendo que a situação é difícil e dolorosa, mas preciso saber, em detalhes, tudo o que aconteceu, desde o dia em que descobriram que a criança era sua neta.
— Margarete ainda trabalhava para nós — foi Bernadete quem contou.
Um dia, apareceu grávida.
Como não desconfiávamos de nada, prometi ajudá-la.
Depois, Anderson nos disse a verdade...
Com riqueza de detalhes, Bernadete contou tudo a Afrânio, que ouviu em silêncio, impassível, sem fazer comentários ou críticas.
Não era sua função julgar, não se importava com os motivos que levavam as pessoas a agir de formas estranhas.
Era pago para resolver o caso, essa era a única coisa que realmente lhe interessava.
Quando ela finalmente terminou, Afrânio pensava por onde poderia começar, já que eles não sabiam nem em que direcção Margarete havia partido.
— A senhora disse que o nome dela é Margarete.
Margarete de quê?
— Margarete Cândida da Fonseca, nascida aqui mesmo em Belford Roxo, no dia 13 de janeiro de 1960.
É só o que sabemos dela.
— Não têm o endereço?
— Ela não forneceu nenhum.
— Como foi que a senhora a descobriu?
— Ela veio recomendada por uma conhecida, que estava de mudança para a Austrália e ficou com pena de deixá-la desempregada.
— E essa conhecida?
Será que é possível falar com ela?
— Após tantos anos, perdemos o contacto.
— Podemos tentar localizá-la pela internet.
Talvez ela se lembre de alguma coisa.
— Se o senhor acha que é possível, lhe darei o nome dela.
Bernadete apanhou um bloquinho, anotou o nome da mulher e entregou-o a Afrânio.
— Obrigado — ele leu e guardou o papelzinho na carteira.
— Margarete não deixou nenhum documento?
— Não.
— Nem uma carteira de trabalho?
— Bernadete lhe pediu a carteira de trabalho, mas ela disse que não tinha, porque não sabia ler e nunca se interessou em tirar — esclareceu Graciliano.
Ela mal sabia escrever o seu nome, e Bernadete não insistiu.
— Imagino que não possuam nenhuma foto dela, não é mesmo?
— Só uma, que Anderson escondeu muito bem — informou Bernadete.
Mas também não está muito boa.
A foto, amassada nas mãos de Bernadete, estava com ela desde o início.
Passou o retrato às mãos de Afrânio, que a pegou e disse, desanimado:
— Está muito escura, quase não dá para ver nada.
A fotografia mostrava Margarete com o espanador na mão, tirando pó da estante de livros de Anderson, aparentemente surpreendida pela máquina fotográfica.
Não era muito, mas era o que tinha para começar.
— Só mais uma pergunta — falou Afrânio.
Sabem a data em que o menino nasceu?
— Não — respondeu Graciliano.
Mas deve ter sido por volta do começo de agosto de 1987.
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Ave sem Ninho

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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 28, 2015 11:55 am

— Muito bem.
O que me deram vai ter que bastar por enquanto.
Farei relatórios semanais aos senhores, quando então acertaremos os pagamentos.
Até lá, qualquer novidade, qualquer coisa de que se lembrem, por favor, entrem em contacto.
Acredito que têm todos os meus dados, não?
— Sim, temos.
— Está bem, então.
Obrigado por terem me escolhido e não se preocupem com nada.
O caso de vocês está em boas mãos.
Asseguro-lhes que encontrarei essa moça e o filho dela, tudo dentro da mais alta discrição.
— Obrigado, detective — finalizou Graciliano, estendendo-lhe a mão.
É importante que ninguém saiba que estou procurando um neto desaparecido, ou muitos virão bater à minha porta dizendo-se filhos de Margarete.
— Hoje em dia as coisas não são tão fáceis assim.
O teste de DNA está aí para desmascarar os aproveitadores mentirosos.
— Mas o desgaste emocional e financeiro vai ser muito grande.
Minha esposa e eu não queremos passar por mais do que já passamos.
— E compreensível.
Bem, como disse, não há com o que se preocuparem.
Como profissional competente, o sigilo faz parte da minha profissão.
— Obrigado, seu Afrânio.
Tenha um bom dia.
— Bom dia — repetiu ele.
— Confiamos no senhor — afirmou Bernadete, apertando-lhe as mãos.
Eu quero muito encontrar esse neto.
É o único pedaço do meu filho que nos restou.
Afrânio deu-lhe um sorriso encorajador e saiu com a foto no bolso, pensando por onde iria iniciar aquela investigação.
Os dados de que dispunha não eram muitos, mas, ainda assim, esperava que não fosse difícil encontrar a moça, se ela estivesse viva.
Tudo acontecera havia muito tempo, lugares e pessoas mudavam no decorrer dos anos.
Seria muita sorte encontrar alguém que ainda se lembrasse de Margarete.
A primeira coisa que fez quando voltou a seu escritório foi procurar no computador o nome da mulher que indicara Margarete.
Procurou em tudo, desde blogs pessoais até sites de relacionamento, tanto no Brasil quanto na Austrália.
Nada. Se a mulher vivia, não acessava a internet.
Foi adiante nas buscas e depois de alguns dias recebeu a certidão de nascimento de Margarete, localizada por um site especializado em certidões do Registo Civil.
Descobriu que os pais dela haviam morrido muitos anos atrás, e ela não tinha mais nenhum parente vivo.
Onde é que uma pessoa sem dinheiro nem família, sozinha e abandonada, com um filho pequeno no colo, ia se refugiar?
O jeito era ir perguntando aos vizinhos, principalmente aos comerciantes.
Com um pouco de sorte, alguém daquela época ainda estaria por ali e poderia se lembrar.
Tinha uma foto precária, pouco nítida, escura.
Escaneou-a e abriu-a no photoshop, onde conseguiu clareá-la e torná-la um pouco mais nítida.
Tinha que servir.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 28, 2015 11:55 am

CAPÍTULO 18

Seria uma noite longa e difícil, mas Raquel já havia tomado uma decisão.
Não adiantava mais levar avante o namoro com Nelson se seus pensamentos estavam ligados em Marcos.
Aguentara o máximo que pudera, não dava mais para enganar a si mesma.
Nelson começava a pertencer ao passado, enquanto Marcos ia dominando todos os seus momentos presentes e preenchendo os sonhos do seu futuro.
Encontraram-se num barzinho na Barra da Tijuca.
Quando ela chegou, ele já estava sentado, bebendo um copo de chope, e se levantou para beijá-la.
Raquel aceitou o beijo sem maior entusiasmo e sentou-se defronte a ele, pedindo um guaraná.
— É só isso que vai beber? — perguntou Nelson, espantado.
— Nada de álcool. Estou dirigindo.
E você também não devia beber.
— E daí? Estou acostumado — ele deu um gole e indagou:
— Não quer sair para dançar?
— Não. Daqui, vou directo para casa.
— Por quê?
O que aconteceu?
Ela alisou a borda do copo com o dedo, até que tomou coragem e olhou-o de frente:
— Tenho algo importante a lhe dizer.
Sentindo a tensão nas palavras dela, Nelson intimamente adivinhou o assunto, mas não disse nada.
Não queria acreditar.
Ela abaixou momentaneamente os olhos, sentindo a tensão no ar.
Quase desistiu, mas, pensando em Marcos, a coragem retornou.
Encarou-o novamente e, sem muito pensar, disparou:
— Nós dois não estamos mais dando certo, Nelson.
Acho que chegou a hora de terminarmos.
Nelson deu um gole grande no chope, enxugou os lábios com a mão e retrucou, sem conseguir ocultar o tom de revolta na voz:
— Porquê?
— Porque eu... bem... não dá mais...
— Isso você já disse.
Quero saber por quê.
Eu fiz alguma coisa de que você não gostou?
— Você não fez nada.
— Então o que é?
Não gosta mais de mim?
— Gosto... como amigo.
— Como amigo... — repetiu ele com desdém.
Que papo-furado, Raquel!
Você está terminando comigo porque se apaixonou por outro, não foi?
Ela sentiu um certo constrangimento, sem, contudo, se deixar intimidar.
Não era culpa sua se não gostava mais dele nem lhe devia explicações sobre seus sentimentos.
Eles não eram casados nem ela lhe pertencia.
Podia fazer o que quisesse.
— Escute aqui, Nelson — tornou ela em tom mais confiante —, estou sendo honesta com você.
Acho-o um cara legal, que não merece ser enganado.
Mas não gosto mais de você, não quero mais namorar você.
Se me apaixonei por outro, não interessa.
O que interessa é que o nosso namoro acabou.
Podemos ser amigos, mas nada além disso.
— Não quero a sua amizade.
— É o que posso lhe oferecer, de coração.
Se você não quer, sinto muito.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 28, 2015 11:56 am

— Quero você.
— Não dá mais, já disse.
— Você não pode me deixar assim.
E todos os nossos momentos?
— Foram muito bons, vou me lembrar com carinho de cada um deles.
Mas já passou.
— Você está é doida para dar para aquele cara, não é? — revidou ele, com tanta raiva que ela chegou a sentir um leve mal-estar.
— Vou ignorar o seu comentário vulgar.
Aliás, é só o que você vem fazendo ultimamente.
Virou um grosseirão.
— Para ver a que ponto você me levou.
— Ah! A culpa agora é minha.
— Você é que está me deixando por aquele magricela.
— Não o estou deixando por ninguém!
Será que você não pode aceitar que uma mulher não goste mais de você?
Ou o seu orgulho é tão grande que não admite perder?
— Perder? Para um nerd magricela?
Era só o que me faltava.
Aquele Arnaldo não é ninguém, nem se compara comigo.
Só uma louca feito você para me trocar por ele.
— O seu ego é tão grande que nem cabe dentro do peito.
Você pensa que é o melhor homem do mundo, não pensa?
— Posso não ser o melhor do mundo, mas melhor do que ele eu sou, com certeza.
— Quanta besteira!
Pois fique sabendo que Arnaldo é um sujeito bem melhor do que você.
Pelo menos não é snobe nem vulgar.
É inteligente, simpático e agradável.
Jamais diria a uma mulher as barbaridades que você diz.
Raquel nem sabia por que estava elogiando Arnaldo.
Nunca trocara sequer duas palavras com ele nem tinha reparado na sua existência até Nelson cismar com ele.
Na verdade, usava o nome dele para referir-se a Marcos, porque era nele que pensava ao dizer aquelas coisas.
— Você não sabe a encrenca em que está se metendo — revidou Nelson entre os dentes.
— Vai querer me vencer na base da ameaça?
É isso que está tentando fazer?
— Não a estou ameaçando.
Já disse que jamais lhe faria nenhum mal.
Não sou covarde, não agrido mulheres.
Mas aquele Arnaldo vai se ver comigo!
— Quanta ignorância!
Está culpando alguém que não tem nada a ver com isso.
Nem Arnaldo, nem ninguém é responsável pelo término do nosso namoro.
Sou eu que não gosto mais de você.
— Até ontem, não foi isso que pareceu.
Tive a impressão de que a deixei bastante satisfeita na cama.
— Lá vem você de novo com suas vulgaridades.
Sexo não tem nada a ver com amor.
— Tem sim.
— No nosso caso, não.
— O que você quer dizer com isso? — enfureceu-se.
Ela se arrependeu no mesmo momento em que falou, mas já era tarde demais.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 28, 2015 11:56 am

— Olhe, Nelson, vamos deixar isso para lá — objectou em tom mais ameno.
Nós dois estamos nos exaltando e acabaremos dizendo coisas das quais nos arrependeremos depois.
Gosto de você, mas não como namorado.
Pronto, é só isso.
Não precisamos ficar discutindo, isso não vai levar a nada.
Só vamos nos aborrecer e nada resolveremos.
Eu estou decidida a terminar, nada vai me fazer voltar atrás.
— Tudo por causa do Arnaldo, não é?
Vamos, confesse.
Você me deve ao menos isso.
É por causa dele ou não que você está terminando tudo?
— Não. Posso lhe garantir que não.
— Mas então, por quê?
— Já disse por quê.
Não vou ficar me repetindo.
Por um momento, os olhos cheios de água de Nelson a sensibilizaram, quase fazendo-a voltar atrás, mas a lembrança de Marcos novamente a fortaleceu, mantendo-a impassível.
— Tem certeza? — perguntou ele, alternando a raiva e a dor na sua voz.
— Tenho.
— Não vai se arrepender depois?
Porque, se você se arrepender, vai ser tarde demais.
Não vou aceitá-la...
— Não vou me arrepender — cortou ela.
Estou segura do que quero.
— Está bem. Você é quem sabe.
Mas depois não venha me pedir para voltar.
— Não vou pedir, não se preocupe — ela deu um último gole no guaraná e se preparou para sair.
Acho que já vou indo.
Nelson balançou a cabeça, mal contendo o ódio.
Ela abriu a bolsa para retirar a carteira, mas ele a impediu:
— Você nunca teve que pagar nada comigo.
Não vai ser agora que vai precisar.
— Está bem — disse ela, guardando a carteira de volta e apanhando a chave do carro.
Obrigada.
Espero que não haja ressentimentos entre nós.
— Não haverá — mentiu ele, pois o ressentimento já estava instaurado.
— Bom, é isso. Então tchau.
— Tchau... — ela se afastou, e ele completou a frase:
— Cachorra.
Raquel chegou ao carro trémula.
Não fora tão fácil quanto esperava, mas deu tudo certo.
Por mais que Nelson tivesse ficado revoltado, a raiva aos poucos ia passar, ele logo a esqueceria.
Era um rapaz bonito, muito cobiçado pelas garotas.
Não teria dificuldade em encontrar uma nova namorada.
Ela não sabia o quanto estava enganada e desconhecia o quanto ele podia sentir-se magoado.
Enquanto isso, Marcos era atendido no hospital do Andaraí, onde fora diagnosticada dengue.
Tratado e medicado, foi mandado para casa, orientado a manter repouso absoluto e ingerir bastante líquido.
Durante uma semana, não poderia ir à faculdade nem ao trabalho.
Acompanhado da mãe e da tia, Marcos retornou para casa ainda com fortes dores no abdómen, embora a febre começasse a ceder.
Clementina o acomodou no sofá e colocou as cobertas sobre ele.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 28, 2015 11:56 am

— Quer que ligue a televisão? — indagou ela gentilmente, alisando-lhe os cabelos.
— Não. Só quero dormir.
— Muito bem, durma então.
Ele se ajeitou e ainda teve tempo de perguntar, antes de ferrar no sono:
— Mãe, você liga para o meu trabalho?
— Pode deixar, ligo sim.
— E avisa o Arnaldo também?
— Aviso. Agora descanse.
Nem precisou repetir.
Na mesma hora, Marcos adormeceu.
Na segunda-feira, quando Raquel chegou à faculdade, procurou um lugar na frente, para ficar mais perto de Marcos, só que a carteira dele permaneceu vazia durante toda a manhã.
A todo instante, ela olhava para a porta, na esperança de vê-lo entrar, frustrando-se sempre que outro aluno surgia.
Mais atrás, Nelson se roía de ciúmes e despeito.
Não tirava os olhos de Raquel, julgando que ela olhava insistentemente na direcção de Arnaldo.
Quando alguém fez uma pergunta ao professor, Arnaldo se juntou à discussão académica, virando-se para trás para melhor argumentar com o outro aluno.
Naquele momento, os olhos dele se cruzaram com os de Raquel, e Arnaldo deu-lhe um sorriso amistoso, que ela correspondeu com ansiedade.
Em seu lugar, sem nada perder, Nelson partiu a caneta ao meio, derramando tinta azul sobre o caderno e manchando a mão.
Nem se incomodou.
Queria que aquela caneta fosse a cabeça de Arnaldo, e aquela tinta, o seu sangue derramado.
Decepcionada, ansiosa, Raquel não sabia o que havia acontecido a Marcos.
Queria perguntar a Arnaldo, mas tinha vergonha.
Afinal, nunca conversara com ele.
Quando ele se virara para trás para falar com o colega, ela quase o interpelou, mas achou que seria inadequado fazer-lhe perguntas pessoais em meio a uma aula tão importante.
Tentou acercar-se dele na hora do intervalo, mas não conseguiu.
Arnaldo saiu com o professor, expondo suas ideias entusiasticamente, e ela perdeu a coragem de se aproximar.
Mas, quando Marcos não apareceu no dia seguinte, Raquel finalmente decidiu que iria falar com Arnaldo.
Esperou o intervalo e postou-se atrás dele na fila da cantina.
— Oi — cumprimentou ela, tocando-lhe o ombro.
— Ah! — fez ele, surpreso. — Oi.
— Você por acaso sabe o que houve com o Marcos?
Ele não tem vindo à aula...
— Ele está com dengue.
Uma gritaria de calouros abafou a voz do rapaz, obrigando-a a aproximar os lábios do ouvido dele e quase gritar:
— O quê?
- Ele está com dengue — repetiu Arnaldo, também ao ouvido dela.
— Com dengue? — repetiu. — Coitado!
— É. Vai ficar a semana toda de repouso.
— Que pena!
Chegou a vez de Arnaldo, que se desligou dela e fez o pedido.
De tão decepcionada, Raquel perdeu a fome e voltou para a sala, passando por Nelson, que precisou ser contido pelos amigos para não agredir Arnaldo.
— Cachorra! — rugiu ele.
Mentiu para mim.
Disse que não tinha interesse no magricela e estava lá, de papo com ele.
— Calma, Nelson — aconselhou Paulo, um dos rapazes.
Eles não estavam fazendo nada de mais.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 28, 2015 11:56 am

— Eles estavam juntos! — insistiu Nelson, que só via o que queria ver.
Eu os vi sussurrando no ouvido um do outro.
— Também acho — incentivou António, outro amigo.
E ela bem estava com a mão no ombro dele.
— Os dois estão disfarçando — prosseguiu Nelson, cego pelo ciúme.
Aposto como se encontram longe daqui, para eu não ver.
— Que motivos ela tem para enganar você? — ponderou Paulo.
Vocês já não terminaram?
— Ela me garantiu que não foi por causa do magricela.
Mentirosa! Agora vejo que foi.
Paulo ia protestar, mas o sinal chamou-os de volta à sala.
Durante o resto da manhã, Raquel permaneceu calada, e Arnaldo, concentrado nas aulas.
Foi assim pelo restante da semana.
Com Marcos doente, ela não via muita graça na faculdade.
Queria não pensar nele, mas volta e meia pegava-se com a imagem dele flutuando em seus pensamentos.
Nem ela mesma entendia por que se interessara tanto por ele.
Marcos era um rapaz bonito, não tanto quanto Nelson, mas tinha o olhar inteligente e bondoso.
Ela estava realmente muito interessada nele.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 29, 2015 11:15 am

CAPÍTULO 19

A dengue foi embora, e Marcos retomou sua vida.
Chegou cedo à faculdade, sem saber que Raquel esperava por ele no hall de entrada dos corredores.
Ela estava com umas amigas, e ele passou sem notar sua presença.
Entrou na sala ainda vazia, ocupou a carteira de sempre.
Logo depois, Raquel entrou e tomou o lugar ao lado dele.
— Será que posso me sentar aqui? — indagou, e Marcos levou um susto ao constatar que era ela.
— Fique à vontade — respondeu ele, completamente desconcertado.
— O dono do lugar não vai reclamar?
— Acho que os lugares não têm dono.
São de quem chegar primeiro.
— Óptimo! — alegrou-se ela, sentando-se com a mochila no colo.
Marcos estava confuso e feliz ao mesmo tempo, embora não compreendesse por que Raquel resolvera se sentar ao lado dele, longe do namorado.
Arnaldo lhe dissera, ao telefone, que ela perguntara por ele, mas ele interpretara o facto como um gesto de mera polidez.
— Você não costumava se sentar lá atrás? — sondou ele.
— Eu o incomodo sentando-me aqui? — revidou ela, fazendo menção de se levantar.
— Não, de jeito nenhum! — protestou ele, apressadamente.
— Eu só estranhei.
O seu namorado pode não gostar.
— Ele não é mais meu namorado.
O coração de Marcos deu um pulo.
Ele quase engasgou, mas conseguiu manter o tom da conversa:
— Jura?
— Preciso jurar?
— Desculpe-me, é só maneira de falar.
— Eu sei, estou brincando.
E você, está melhor?
Soube que teve dengue.
— Estou bem, agora.
— Se tivesse seu telefone, eu mesma teria ligado para saber como você estava.
— Meu telefone? — tornou ele atónito, desacostumado de abordagens tão directas.
— É, telefone.
Você não tem um na sua casa?
— Na verdade, não — confessou ele, já que não sabia e não queria mentir.
— Por quê? O que seus pais têm contra o telefone?
Ele ia responder, mas o professor entrou, com Arnaldo logo atrás.
O amigo sentou-se na carteira do outro lado, cumprimentou Raquel com um sorriso, olhando para Marcos de soslaio.
Ficaram praticamente sem se falar até o intervalo.
Saíram juntos para a cantina, onde Raquel se sentou a uma mesa com Marcos.
— A cachorra continua disfarçando — constatou Nelson, que a vigiava a distância.
Fica de papo com o amiguinho dele para eu não desconfiar.
— Acho que você está ficando paranóico — observou Paulo.
Só o que vejo é uma garota conversando com um colega de turma.
Nelson tentou se desligar de Raquel, interessando-se na conversa sobre futebol dos amigos.
De vez em quando, fitava-a pelo canto do olho, sentindo imenso alívio por não ver Arnaldo por perto.
Sentados à mesma mesa, Marcos e Raquel continuavam a conversar.
— Você ainda não me disse por que não tem telefone na sua casa — lembrou ela.
Marcos ficou confuso.
Durante todo o tempo em que pensara em Raquel, não se preparara para aquele momento.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 29, 2015 11:16 am

O que mais queria era conversar com ela, contudo, não sabia como lhe falar sobre si mesmo.
Apesar da enorme diferença social que existia entre ambos, não pretendia iniciar um relacionamento, mesmo que de amizade, sustentado em mentiras.
Tinha que lhe contar que era pobre e morava no morro, mas não tinha coragem, com medo de que ela se decepcionasse e desistisse dele.
Marcos não estava acostumado a mentir.
O pastor ensinava que o melhor caminho para o coração era o da verdade.
Com essa certeza, engoliu a vergonha e, de olhos baixos, admitiu:
— Minha família é muito pobre.
Não temos telefone.
Ela se surpreendeu, mas não deixou transparecer.
— E você não tem celular?
— Tenho.
Com um sorriso encantador, Raquel tirou seu celular da bolsa e gravou o número dele na memória do aparelho.
Ainda aturdido, ele sacou o seu do bolso e fez o mesmo.
Estava espantadíssimo com o facto de ela não ter encerrado a conversa ao saber de sua pobreza e ainda estava interessada em ter o seu celular.
— Você mora aqui por perto? — prosseguiu ela.
Outra pergunta difícil de responder.
Dizer a ela que morava no morro não devia ser motivo de vergonha, mas era.
Por isso, optou por uma meia verdade:
— Moro na Tijuca.
— Sério? Eu também.
Que coincidência, não?
— Verdade.
— E os seus pais, o que fazem?
— Minha mãe é faxineira — falou ele humildemente, sentindo o rosto arder de vergonha.
E meu pai nos abandonou há alguns anos.
Percebendo o seu embaraço, Raquel tocou de leve a sua mão e falou com simpatia:
— Não precisa ficar constrangido.
Não vejo nada de mais em sua mãe ser faxineira.
— Não?
— Não. Nem me incomoda o facto de você ser pobre.
Afinal, ninguém precisa de dinheiro para ter um amigo.
— Só você pensa assim.
A maioria das pessoas me discriminaria se soubesse que minha mãe é faxineira.
— Arnaldo sabe?
— Ele não é como os outros.
É meu amigo.
— Posso ser sua amiga também.
O sorriso dela era verdadeiro, deixando Marcos mais à vontade para falar sobre sua vida.
— Você é diferente.
Segue alguma religião?
— Não. E você?
— É importante ter uma religião.
É o que nos dá sustentação para enfrentar os dissabores da vida.
— Talvez eu não tenha tantos dissabores assim, por isso, não me interesse muito por religião.
Mas gosto de ler e compreender os mistérios da vida.
— Como alguém pode compreender os mistérios da vida, além de Deus, é claro?
— Deus não é alguém, por isso, não conta.
E podemos não compreender tudo, mas temos que buscar um caminho.
Você não acha?
— Acho que importante é o caminho da religião.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 29, 2015 11:16 am

— Muito bem. E qual é a sua?
— Sou evangélico.
Estava ficando difícil, mas Raquel sorriu.
A razão dizia que ela e Marcos jamais dariam certo como namorados.
Ainda assim, não queria desistir dele.
Mesmo com tantas diferenças, sentia-se cada vez mais atraída por ele.
— Acho legal você ter uma religião — disse ela com cuidado.
E acho também que, com respeito, é possível conviver com todas.
— Você é ecuménica, então?
— Não necessariamente.
Digamos que eu apenas respeito tudo e todos.
— Mas não segue religião nenhuma.
— Isso é tão importante assim para você?
Era muito importante, mas, naquele momento, Raquel tinha mais importância do que tudo.
As diferenças que ela reconhecia, ele também detectava.
Contudo, assim como Raquel, Marcos não queria desistir de se conhecerem.
— É importante, mas não é obstáculo à nossa amizade — concluiu ele.
Quando o sinal tocou, os dois voltaram para a sala de aula rindo e encontraram Arnaldo lendo um livro.
— Por que não foi se juntar a nós na cantina? — perguntou Marcos, sentando-se ao lado dele.
— Preferi ficar aqui lendo — respondeu ele, piscando um olho para Marcos, no exacto instante em que Nelson entrava na sala pela porta da frente.
É claro que ele pensou que a piscadela havia sido endereçada a Raquel.
O ciúme e o preconceito embotavam seu raciocínio, impedindo-o de perceber o romance nascente entre Raquel e Marcos.
Uma amizade se formou entre os três.
Raquel e Marcos sentiam-se cada vez mais atraídos um pelo outro, mas ela também gostara de Arnaldo, vendo nele um bom amigo.
A paixão aumentava a cada dia, contudo, Marcos ainda resistia em entregar-se completamente.
A falta de religião de Raquel era um problema.
Ele precisava convertê-la, com calma e sabedoria, embora não soubesse como fazê-lo.
Talvez fosse melhor pedir conselhos à tia.
Essa ideia o animou um pouco mais, embora ele não estivesse bem certo sobre a conveniência de lhe falar sobre Raquel.
Talvez fosse melhor contar primeiro à mãe.
Foi o que fez.
Ao voltar para casa depois do trabalho, abriu-se com ela.
— Eu, no seu lugar, não comentaria nada com a sua tia — discordou Clementina.
Ela não vai aceitar essa moça.
— Por quê? — indignou-se Marcos.
— Porque ela não é evangélica, e você sabe como a sua tia é carola.
— Raquel é uma boa pessoa.
Tenho certeza de que vocês vão gostar dela.
— Eu vou gostar, não tenho dúvida.
Mas Leontina é cheia de esquisitices.
Vai dizer que a menina não serve para você, que é uma perdida, uma herege e sabe-se lá o que mais.
— Raquel não é nada disso!
É uma moça de família, estudante como eu.
E depois, não vou pedir a aprovação de tia Leontina.
Quero apenas que ela me ajude a convencer Raquel a se tornar evangélica também.
— Você acha que isso vai dar certo, meu filho?
Você mesmo disse que ela se interessa por essas coisas de ocultismo.
Será que vai aceitar a sua religião?
— Por que não?
É uma religião muito boa.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 29, 2015 11:16 am

E ela diz que procura verdades.
Onde mais poderia encontrá-las, a não ser na Bíblia?
Clementina suspirou e coçou a cabeça, pensando que errara em deixar que a irmã influenciasse tanto o filho com aquela coisa de religião.
No fundo, só permitira para se ver livre da insistência de Leontina, que, com as atenções voltadas para o sobrinho, não lhe cobraria mais que frequentasse os cultos.
E fora exactamente isso que acontecera.
— Não estou dizendo que a religião não é boa — disse cautelosamente.
Não é isso. Mas será que é aconselhável tentar forçar a moça a seguir um credo que não é o seu?
— Mas ela não tem credo algum!
Ela mesma disse.
— Ela deixou bem claro que não gosta de religião.
Sendo assim, acho que você pode deixá-la aborrecida se insistir com essa ideia.
Ninguém gosta de ser pressionado.
— Mas, mãe, como vou poder namorá-la, se ela não for da minha religião?
— Quem foi que disse que ela tem que ser da sua religião?
— O pastor aconselha...
— O pastor aconselha, mas não obriga.
É por isso que desisti dessa coisa de igreja — desabafou ela.
Já não aguentava mais o pastor e sua tia me dizendo o que eu podia ou não fazer.
Acho que cada um tem que dirigir a própria vida.
— Mas o pastor tem o dever de nos orientar!
— Orientar é uma coisa.
Ditar ordens é outra, bem diferente.
Marcos estava confuso.
Nunca ouvira a mãe falar daquele jeito, mas agora compreendia por que ela havia se afastado da igreja.
— Você acha melhor então não falar nada com tia Leontina? — questionou ele.
— Acho. E não é só por esse motivo.
Você disse que ela é uma moça branca e rica.
Você já pensou nas consequências disso?
— Que consequências?
— Eu, particularmente, acho que isso não vai dar certo.
Duvido que os pais dela o aceitem, sendo negro e pobre.
Acho que vão proibir o namoro.
— Você os está julgando, e as Escrituras dizem que não devemos julgar.
— Posso estar julgando, mas o que falo é baseado na experiência.
Não quero que você sofra.
— Vou assumir esse risco.
— Pense bem antes de tomar qualquer atitude.
Vocês ainda não iniciaram nenhum romance.
Será que não é melhor deixar as coisas assim?
Não podem ser somente amigos?
— Eu... estou apaixonado...
E acho que ela também.
— Valha-me, Deus!
O que será de você, meu filho?
— Deus há de me ajudar, mãe.
— Confie somente em Deus nesse momento, então — sugeriu ela.
Ao menos Ele não vai recriminar você.
Marcos ficou desanimado.
Queria muito a ajuda da tia, mas a mãe tinha razão.
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Ave sem Ninho

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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 29, 2015 11:16 am

Se Leontina desaprovasse Raquel, ele perderia o sossego e talvez nem conseguisse iniciar o namoro.
Talvez o melhor fosse desistir de Raquel e procurar uma moça entre as muitas de sua igreja, mas o que fazer com a paixão?
Clementina também estava preocupada.
Desde que Romualdo se fora, perdera sua fé.
Não. A verdade é que nunca a tivera.
Acomodara-se na igreja por influência de Leontina.
Em determinados momentos, tinha mesmo raiva do pastor, de suas proibições, da filosofia de que tudo era feio, errado, pecado.
Se não dizia nada, era para não desagradar o filho e manter a paz na família.
Os conselhos que dera a Marcos Wellington não tinham nada a ver com religião, mas com a realidade da vida.
As pessoas, em geral, têm preconceito de tudo:
ou porque fulano é pobre, ou gordo, ou gay, ou macumbeiro, ou negro, ou mora no subúrbio, ou é mulher, ou não sabe ler, ou é feio, ou tem AIDS, OU tem um emprego humilde, ou tantas outras coisas.
Tudo para justificar a dificuldade de aceitação delas próprias no mundo.
Com tantas separações impostas pela sociedade, que futuro teria Marcos Wellington ao lado de uma menina feito aquela que ele acabara de descrever?
Como se ouvisse seus pensamentos, Marcos retrucou:
— Isso vai mudar, mãe.
Estou estudando para ser um bom advogado e tirar você e minha tia deste morro.
Aí, vou poder namorar Raquel sem maiores problemas.
— Você está se iludindo.
— Eu vou ter dinheiro.
Isso vai calar a boca e o preconceito das pessoas.
Clementina não disse mais nada.
Queria evitar discussões desnecessárias com o filho.
Se fosse religiosa, rezaria para que ele não sofresse.
Como não era, podia apenas emprestar-lhe o seu coração de mãe e pedir a qualquer força que governasse o mundo para olhar por ele.
Isso não era orar para Deus?
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 29, 2015 11:16 am

CAPÍTULO 20

Com a foto de Margarete na mão, Afrânio deu início à investigação.
Perguntou nos bares próximos, mas ninguém se lembrava de uma moça pobre, desaparecida vinte anos antes.
Encontrá-la parecia uma tarefa difícil, se não impossível.
Afrânio desconhecia que as engrenagens do destino encaixam-se paulatinamente, accionando a roda que faz girar o mundo a favor da construção da vida.
Trabalhando para que tudo acontecesse exactamente da forma como deveria, Margarete e Félix o acompanhavam.
Ela, ainda em recuperação, limitava-se a seguir os passos de Félix, que, orientado por Laureano, tinha já condições de sugestionar o encarnado sem lhe imprimir nenhum tipo de desconforto.
Como era importante que Marcos encontrasse os avós paternos, os dois haviam sido escalados para auxiliar o detective, agindo do lado invisível.
— Onde foi que você entrou naquele dia? — perguntou Félix a Margarete.
— Não me lembro.
Faz vinte anos!
— Se você foi capaz de lembrar o que aconteceu em outra vida, como é que não vai lembrar o que se passou há duas décadas?
Ele tinha razão.
Ela fez um esforço e tentou centrar o pensamento na tarde em que fugira, bêbada, de Belford Roxo.
— Lembro-me de que fui andando pela rua — começou ela, caminhando de olhos fechados.
E dobrei a esquina.
Foi quando avistei o bar... aquele ali.
Ela apontou para um bar que, por sorte, ainda existia.
Félix se encaminhou para lá e entrou sozinho, para evitar que Margarete tivesse uma recaída.
Sondou os pensamentos dos encarnados, mas o facto ocorrido anos antes não estava na cabeça de ninguém.
Excepto... do mendigo!
Félix voltou para a calçada.
Um mendigo dormia ali, dominado pela cachaça, envolto em sombras escuras.
Ele se aproximou, invisível aos espíritos que lhe sugavam o álcool.
Sondou o cérebro do mendigo, impondo-lhe a imagem de Margarete.
De repente, a lembrança aflorou.
Como num filme, Félix viu o dia em que Margarete quase o atropelou ao entrar no bar, com a criança no colo.
— Ele sabe! — gritou Félix, eufórico.
Agora só temos que trazer o detective aqui.
Não foi difícil influenciar Afrânio, pois a Sintonia se estabeleceu no desejo de descobrir a verdade.
Intuitivamente, ele dobrou a esquina e foi dar no bar certo.
Entrou com a foto na mão, perguntando a um e a outro, mas ninguém se lembrava de Margarete.
Quando ia saindo, seus olhos foram atraídos para o mendigo.
Afrânio aproximou-se.
— Olá, amigo — cumprimentou ele.
Você anda por aqui há muito tempo?
O mendigo o olhou desconfiado.
Poucas pessoas falavam com ele, principalmente alguém com aparência tão distinta.
— Por que quer saber? — retrucou de má vontade.
— Talvez você possa me ajudar — sem resposta, continuou:
— Será que você não andava por aqui há vinte anos?
— Moço, ando por aqui a minha vida toda — tornou ele, um pouco mais amistoso.
— Onde você mora?
Demonstrando interesse pela sua vida, Afrânio esperava que ele se abrisse.
— Tem um viaduto aqui perto... — respondeu ele, mas calou-se em seguida, perdendo-se nas reminiscências do passado.
— Será que pode me prestar um favor? — insistiu Afrânio.
Pode dar uma olhadinha nessa foto para mim?
O mendigo se empertigou todo, agora sentindo-se importante.
Apanhou a foto, lançando-lhe breve olhada, sacudiu a cabeça e devolveu-a a Afrânio.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 29, 2015 11:17 am

— Nunca a vi antes.
O detective não se deixou desanimar.
Saiu e voltou em seguida, com um copo de cachaça na mão.
Os espíritos que acompanhavam o mendigo logo se animaram e deram-lhe uma cutucada, induzindo-o a olhar a foto mais atentamente.
A oferta do álcool deixou Félix chocado.
Aquilo não estava em seus planos, mas ele não podia impedir a acção dos encarnados.
O que conseguiu fazer vibrar sobre o mendigo e seus comparsas invisíveis foi uma onda de luz, que o deixou mais calmo e os espíritos, confusos.
Aproximando-se novamente dele, Félix tornou a induzir a lembrança de Margarete.
Ele ficou parado com a foto na mão, olhando-a em dúvida.
— Isso foi há vinte anos — esclareceu Afrânio.
— Hum... — fez o mendigo, quase certo de sua lembrança.
— Hã... Ah!
— E então? Reconhece-a ou não?
— Esse copo aí é para mim? — indagou o mendigo, passando a língua nos lábios.
— Só se você me falar a verdade.
E não adianta inventar, pois eu vou saber.
— Tudo bem — resmungou ele e, batendo com o dedo na foto, acrescentou:
— Ela tinha um bebé?
— Tinha! — animou-se Afrânio, juntamente com Félix e Margarete.
— Ela quase me atropelou.
— Foi sem querer — justificou Margarete, e o mendigo pareceu escutá-la, porque se virou para o lado dela, procurando alguém invisível.
— O que foi, velho? — perguntou um dos dois espíritos colados a ele.
— Tem alguém aí? — retrucou ele, tentando ver além de seus acompanhantes desencarnados.
— Só nós, velho.
— Não, tem mais alguém aí com vocês.
Não estão vendo?
Sem conhecimento do que se desenrolava no plano astral, Afrânio julgou o mendigo louco e tratou logo de retomar o assunto:
— Você tem certeza?
Olhe de novo, foi há muito tempo.
Não está enganado?
— Não, não.
Lembro-me dela por causa do bebé.
Quantas pessoas você conhece que entram num bar para beber carregando uma criança de colo?
Afrânio assentiu, animado.
Era loucura acreditar nas palavras de um ébrio, mas algo lhe dizia que o mendigo falava a verdade.
Sem saber que a certeza provinha da mente de Félix, prosseguiu:
— Lembra-se da direcção que ela tomou?
— Hã?
— A moça da foto.
Não se lembra para onde ela foi?
— Ande logo, velho, diga a ele! — esbracejou um espírito, louco para se saciar.
— Ela foi por ali — apontou ele.
Bêbada feito uma porca.
— Por ali, onde?
— Ali, para o ponto de ónibus.
Afrânio olhou e viu o ponto de ónibus mais abaixo na rua.
— E o que mais?
— Mais nada.
— Tem certeza?
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 29, 2015 11:17 am

— Tenho — o mendigo sentiu a boca salivar e implorou:
— Agora posso beber?
Afrânio deu-lhe o copo de pinga, que ele entornou, acompanhado pelos espíritos.
Vendo aquela cena, Margarete se encolheu atrás de Félix e perguntou assustada:
— Era assim que eu ficava?
Como esses dois sanguessugas aí?
— Isso é coisa do passado.
Você agora não faz mais isso.
— Mas eu era assim?
— Era.
— E Clementina era como esse mendigo?
— Igualzinha.
— Que coisa triste!
— Sim, é triste.
Graças a Deus você não faz mais isso.
— Não... Mas senti um pouco de vontade de beber.
— Então vamos sair daqui imediatamente.
— Não podemos ajudar o mendigo?
— Por enquanto, não.
Ele ainda não está pronto.
Agora venha, vamos seguir Afrânio.
O detective estava parado no ponto de ónibus, mas não havia a quem perguntar.
Era esperar demais da sorte encontrar alguém que estivesse naquele ponto no mesmo dia em que Margarete passara por ali.
De toda sorte, ele mostrou a fotografia, porém, ninguém a reconheceu.
"Tenho que averiguar que linhas de ónibus passavam por aqui há vinte anos", pensou.
"Se Margarete tomou um deles, pode ser que eu tenha sorte, assim como tive com o mendigo.
Vai ser muito engraçado se ela tiver fugido num dos ónibus da companhia de Graciliano."
Alguns dias depois, de posse da informação, Afrânio saiu em busca das garagens dos ónibus que trafegavam por aquela rua vinte anos antes.
Consultou motoristas e trocadores, mas ninguém se lembrava de ter levado aquela moça com um bebé.
Foi atrás dos aposentados, sem nada descobrir.
Alguns já haviam morrido, de forma que Afrânio podia ter passado pela pista sem encontrar o rastro de Margarete.
Na terceira empresa que ele visitou, ela sussurrou ao ouvido de Félix:
— Foi essa linha que eu apanhei.
Fui até o ponto final.
— Óptimo.
Aproximando-se de Afrânio, Félix lhe transmitiu a certeza de que estava no caminho certo.
A empresa não pertencia a Graciliano, o que não deixou de ser um alívio.
Ele entrou na garagem, mostrou a foto aos motoristas, trocadores e fiscais que estavam por ali.
Todos balançaram a cabeça negativamente.
— Têm certeza?
Isso foi há mais ou menos vinte anos.
— Vinte anos? — surpreendeu-se o fiscal.
Não tem mais quase ninguém aqui daquele tempo.
— Quem era o fiscal de então?
— Hum... Acho que era o Chiquinho.
Mas ele se aposentou.
— Será que o senhor não pode me dar o endereço dele?
Por favor, é muito importante.
— Lamento, mas não posso fornecer o endereço de nossos ex-empregados.
Afrânio enxugou a testa, desanimado.
Não estivesse em outro plano, teria ouvido o grito de Margarete, que apontava para um homem de seus cinquenta e poucos anos que vinha se aproximando.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 29, 2015 11:17 am

— Olhe ele ali!
— Quem é ele? — retrucou Félix.
— Foi com ele que falei naquele dia.
Ele me mandou descer do ónibus porque estava com medo do fiscal.
— Tem certeza?
— Absoluta.
— Vamos tentar levar Afrânio até ele.
Nem foi preciso.
O detective viu o homem se aproximar e foi ao seu encontro.
— Boa tarde — cumprimentou.
O senhor trabalha aqui há muito tempo?
— Há quase trinta anos.
— Será que se incomodaria em dar uma olhada numa fotografia para mim?
É de uma moça que estou procurando.
O homem pegou o retrato, examinou-o e devolveu-o a Afrânio.
— Lamento, não a conheço.
— Foi há vinte anos.
Ela pode ter tomado um ónibus dessa linha.
— Se ela tomou um dos meus ónibus, não vou lembrar mesmo.
O senhor faz ideia de quantas pessoas passaram pela minha roleta em vinte anos?
— Ela segurava um bebé.
E devia estar alcoolizada.
— Não, lamento... — com a proximidade de Margarete, a imagem dela surgiu em sua mente, deixando-lhe uma pontinha de dúvida.
Mas espere. Deixe-me ver a fotografia novamente — com a foto na mão, indagou a si mesmo:
— Será?
— O quê? O senhor a reconhece?
— Não tenho certeza.
A foto não é lá muito boa.
Mas há muitos anos, uma mulher entrou no meu ónibus com uma criança no colo.
Um bebé bem pequenininho.
Lembro-me bem, porque ela estava com o seio de fora, e isso me chamou a atenção.
Desceu na Penha, no ponto final.
Chovia muito, eu fiquei com pena, mas não podia deixá-la permanecer no ónibus.
Era ela ou o meu emprego.
— Deve ser Margarete — reflectiu Afrânio.
— Era eu, sim! — gritou ela, desesperada.
Era eu!
— Tenha calma, Margarete — censurou Félix.
Ou vamos perder a comunicação com Afrânio.
Ela se aquietou, o trocador continuou:
— Eu ainda a aconselhei a tomar o ónibus de volta, mas ela não quis.
Desceu e entrou em outro ónibus, não sei qual era.
— O senhor não lembra nem a cor do ónibus?
— Não.
— Será que o senhor pode me dar o endereço do ponto final?
Vai me ajudar muito.
— É claro.
— Obrigado.
O trocador anotou o endereço num papelzinho e entregou-o a Afrânio, que o leu e guardou no bolso.
Já era tarde, não teria tempo para resolver nada naquele dia.
Voltaria no outro e começaria a procurar outra vez.
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Re: Apesar de Tudo - Leonel / Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 29, 2015 11:17 am

— Vamos embora, Margarete — chamou Félix, depois que o detective se foi.
Por hoje já chega.
Margarete e Félix retornaram a sua cidade astral, satisfeitos com o rumo que as investigações estavam tomando.
Se continuasse assim, em breve Afrânio encontraria Marcos.
— Não compreendo por que de repente passou a ser tão importante encontrar o meu filho.
Quando eu quis, ninguém pôde me ajudar.
Tive que achá-lo sozinha.
Mas agora, só porque seu Graciliano e dona Bernadete pediram, todos os espíritos vêm ajudar.
— Eles não merecem uma segunda chance?
— E eu também não merecia?
— O desejo deles vai além da satisfação pessoal.
Marcos tem um papel relevante no mundo, na realização de obras sociais importantes.
Com o dinheiro dos avós, ajudará muita gente a começar por si mesmo e pela família.
Nesse momento, é o que mais importa.
— A questão então é financeira?
É isso? Trata-se pura e simplesmente de dinheiro?
— Trata-se de levar esperança a pessoas que perderam a fé.
Levando-as a crer na justiça dos homens, logo compreenderão que ela é um mero reflexo da justiça divina, feita para manter o equilíbrio das relações humanas.
Se nada é por acaso, o que se ganha ou se perde dentro do contexto jurídico atende também a uma programação pessoal e divina.
Margarete silenciou, reflectindo sobre a tarefa que aguardava o filho.
Ela pouco sabia sobre aquelas coisas, mas entendeu bem seu objectivo.
O que ele faria, em suma, seria ajudar as pessoas a reconhecer os méritos próprios.
— Compreendi, Félix — afirmou ela.
Ganhando ou perdendo, a vitória é sempre do espírito.
Félix não precisou responder.
Simplesmente a abraçou e sorriu.
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