O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 24, 2015 8:14 pm

O AMOR É PARA OS FORTES
MARCELO CEZAR

(ESPÍRITO MARCO AURÉLIO)

Era meio da tarde de um dia quente e abafado, bem típico de verão.
Fazia dias que não caía uma gota de água e a sensação térmica nas ruas era infinitamente maior do que a exibida nos termómetros espalhados pela cidade.
Edgar encostou o carro na calçada, apertou o botão do pisca - alerta e desceu.
Nem ligou para o sopro quente e consequente suor que começava a escorrer pela testa tão logo abrira a porta do veículo.
Ele sorriu para si e deu de ombros.
Estava feliz.
Era um dia especial e ele havia se esquecido das rosas vermelhas - as preferidas de sua esposa.
- Denise vai adorar a surpresa! - murmurou enquanto caminhava em direcção a uma das bancas de flores espalhadas ao longo dos muros do cemitério do Araçá.
Até poderia parecer algo mórbido comprar flores para a amada nas banquinhas que ficam encostadas no muro que circunda um cemitério, no entanto, o local é bem frequentado e é costume do paulistano comprar flores nessas bancas, não importa a ocasião, pois elas funcionam todos os dias da semana, sem fechar, além de oferecerem flores sempre bonitas, fresquinhas e o preço ser bem em conta.
Edgar escolheu rosas vermelhas colombianas, aquelas com pétalas grandes e cores bem vivas.
Apontou para o vaso e disse:
- Quero uma dúzia dessas.
- Quer que embale para presente?
- Não, é um arranjo que eu mesmo vou fazer para a minha esposa - respondeu ele, largo sorriso nos lábios.
Assim, apanhou o ramalhete de rosas, pagou a atendente e saiu feliz.
Não se importava com o calor insuportável, cujo relógio ali perto, na esquina da Rua Cardeal Arcoverde, marcava inacreditáveis 36 graus.
A atendente suspirou e fechou os olhos enquanto se abanava com um leque.
- Que homem romântico! Como eu queria um desses na minha vida.
- Feio isso, Berenice - protestou, num tom de brincadeira, a senhora da banca ao lado.
Você é casada, dê-se ao respeito!
- Casada com um homem nada romântico!
Wesley não é um marido, é um tremendo encosto.
Depois que nos casamos ele nunca mais me levou para jantar fora ou pegar um cinema.
- Por quê?
- Não sei, eu reclamei e ele me disse que quando namorávamos a vida era diferente, não tínhamos filhos, contas para pagar.
Disse que agora estamos cheios de responsabilidades, que diversão quem tem é namorado. Marido, não.
- Jura?
- E sabe o que ele teve o atrevimento de me dizer também?
A vizinha estava interessadíssima no assunto:
- O quê?
- Por que iria pagar por uma sessão de cinema se na televisão tem filmes aos montes!
De graça! Ai, que raiva.
A vizinha da banca de flores empinou o peito.
- Por essa razão nunca me casei. Só quero sabe de namorar.
É mais fácil, não dá trabalho e cada um vive na sua casa.
Não deu certo? Arrume a trouxa e vá embora.
- Esse homem que acabou de sair daqui é romântico, simpático, perfumado...
- Mas tem cara de sonso.
Deve ser escravo da mulher.
- Você mal viu o rapaz.
Como pode falar com tanta certeza?
- Sou mulher vivida, namoradeira e, além do mais trabalho nesta banca há muitos anos, conheço os tipos masculinos mais variados.
Esse que saiu agora é um paspalhão, do tipo que tem até medo da esposa que não discute jamais.
Só diz sim. Pode acreditar.
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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 24, 2015 8:15 pm

- É verdade.
Ele é simpático, contudo tem cara de cachorro sem dono.
A conversa continuou entre as duas donas da bancas de flores até aparecer outro cliente.
De uma coisa Berenice tinha razão:
Edgar era um romântico incorrigível.
Era apaixonado pela esposa, marido devotado.
Fazia todas as vontades e caprichos de Denise.
Não reclamava absolutamente de nada.
Ao contrário, beijava o chão que a esposa pisava.
Ele não era nem feio, nem bonito.
Tinha um rosto quadrado, bem comum.
Possuía estatura média cerca de 1,75 de altura, corpo esguio em função da alimentação saudável e exercício, muito exercício físico.
Edgar tinha sido um menino obeso e lutara a vida toda contra a balança, até que conseguira atingir peso adequado depois de aderir regularmente prática de exercícios físicos.
A pele branca contrastava com os cabelos negros e levemente ondulados penteados para trás; os olhos verdes e expressivos ficavam escondidos atrás dos óculos de grau, que de certa forma deixavam seu semblante mais sério do que o usual, conferindo-lhe um ar sisudo.
O rapaz tomou o sentido do bairro do Sumaré e seguiu feliz da vida em direcção a sua casa.
Era meio da tarde e o trânsito ainda fluía tranquilo.
O engarrafamento ainda não havia começado.
Depois de contornar uma pracinha repleta de muito verde e belo jardim, embicou o carro na garagem do prédio e apertou o controle remoto.
Nada. Deu duas buzinadas leves.
- Desculpe, mas o portão ainda não foi consertado.
O rapaz da manutenção vai arrumá-lo amanhã - informou João, o porteiro.
- Anda rapaz! Estou com pressa, homem - disse Edgar, esbaforido, mas gentil e sorridente.
Preciso deixar tudo preparado antes que minha esposa chegue.
O porteiro aproximou-se do portão de ferro e passou a chave.
Enquanto empurrava o gradil para dentro, sinalizava com as mãos para Edgar entrar sem raspar o carro na parede.
- O senhor está bem animado hoje! - exclamou.
- João, hoje celebramos cinco anos de casados!
- Tudo isso?
- Cinco! - ele abriu a mão e a colocou para fora do veículo.
- O tempo passa rápido.
- Estou muito feliz.
- É um homem apaixonado.
Denise é mulher de sorte.
- Eu é que sou um homem de sorte, João.
Eu! A Denise é e sempre será a minha princesa, a minha rainha, a minha deusa.
Vou lhe fazer uma surpresa daquelas - disse, enquanto balançava a ponta da orelha com os dedos.
João riu e meneou a cabeça para os lados.
- Esse rapaz é apaixonado mesmo pela esposa.
Pena que ela seja tão estúpida e antipática.
Bonita, mas grossa e sem educação.
Trata a mim e aos demais funcionários do prédio como se fôssemos animais.
Ela não tem coração.
Não merece um homem bom como Edgar - disse em pensamento.
Edgar entrou com o carro e parou ao lado do porteiro.
- Chegou encomenda para mim, João?
- Sim, senhor.
A Delis levou os pacotes e colocou-os na geladeira.
Aqui está a sua chave.
- Obrigado.
O rapaz agradeceu fazendo aceno com a cabeça.
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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 24, 2015 8:15 pm

Subiu o vidro do carro e desceu até a sua vaga.
Estacionou e em instantes estava no seu apartamento no décimo andar.
Tudo estava limpo e arrumado.
Pedira para Delis, à empregada que trabalhava para o casal havia anos vir um dia antes - ela costumava vir às sextas-feiras, a fim de deixar o apartamento impecavelmente em ordem para a comemoração desta data tão especial.
Gostou da casa limpa e asseada.
O cheiro de limpeza com leve toque de lavanda no ambiente deixou-o contente e satisfeito.
Edgar arrumou a mesa da sala de jantar com esmero.
As castanhas, nozes e damascos foram delicadamente colocados em travessinhas de porcelana; sobre a toalha de linho, presente de uma tia que; bordara lá em Funchal, na Ilha da Madeira, e mandara para ele como presente de casamento.
Delis seguiu suas ordens e deixara o salmão pré-cozido devidamente embrulhado numa das prateleiras da geladeira.
Era só aquecer no micro-ondas e despejar o molho de páprica doce sobre o peixe.
Em seguida, ele conferiu a sua mini adega.
O vinho branco para acompanhar o jantar estava na temperatura ideal.
As rosas vermelhas foram delicadamente ajeitadas num vaso de cristal que, em seguida, ele colocou no canto da mesa da sala de jantar.
Edgar pegou um CD de músicas românticas de Roberto Carlos e colocou no aparelho.
Consultou o relógio e foi banhar-se, cantarolando as canções.
Caprichou no banho e arrumou-se com apuro.
Vestiu calça de sarja, camisa pólo, um blazer de bom corte e cinto combinado com os mocassins.
Depois de borrifar sobre si mesmo o perfume que Denise afirmava amar de paixão, espalhou pétalas de rosas pelo chão, desde a entrada social até o quarto do casal, fazendo um simpático caminho, terminando-o com outro pequeno e delicado arranjo sobre a cama.
Era uma cesta de vime com um ursinho de pelúcia dentro, vestido com uma camiseta vermelha onde estava bordada a frase Eu te amo.
Sentou-se no sofá e ficou com os olhos ora fixos na porta, ora fixos no relógio de pulso.
Denise costumava chegar por volta das oito da noite.
O relógio marcava oito e vinte e nada.
Coçou a cabeça, ansioso.
- Será que teve mais uma reunião de última hora? - perguntou para si.
Como minha esposa é responsável, como trabalha!
Sinto tanto orgulho dela!
Ou então deve estar presa no trânsito.
Cada dia está pior.
Ele ligou para o celular dela.
Deu caixa postal. Ligou de novo.
Outra vez caiu na caixa postal.
Edgar respirou fundo e procurou ocultar a ansiedade cantarolando as músicas do CD.
O telefone tocou e ele atendeu de pronto:
- Até que enfim!
- Edgar?
- Ele.
- Oi, sou eu.
- Oi, Adriano. Desculpe atender de maneira ansiosa.
Pensei ser Denise.
Não havia reconhecido a sua voz de imediato.
Está um barulho danado aí.
- Estou na academia.
- Hã?
- Você não vem para a aula de spinning?
Já vai começar. Está atrasado.
- Eu o avisei que hoje não iria à academia.
É meu aniversário de casamento, esqueceu?
- É mesmo. Você comentou.
Havia me esquecido! Parabéns.
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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 24, 2015 8:15 pm

- Obrigado.
- Vai levar a Denise para jantar em algum restaurante simpático lá da Vila Madalena?
- Não. Preparei umas coisinhas aqui em casa.
Espalhei rosas vermelhas e pétalas pelo chão do apartamento todo.
- Uau! - sibilou Adriano.
- Depois vou lhe servir salmão grelhado com molho.
Peguei no programa da Ana Maria Braga dia desses.
Ah, e também comprei um ursinho de pelúcia.
Adriano riu do outro lado da linha.
- Denise não gosta dessas coisas.
Por que insiste em fazer isso?
- Deixe de besteira, homem. Denise adora.
Ela faz cena por puro charminho, só para apimentar a nossa relação.
No fundo, ela adora esse romantismo todo.
- Sei, não. Sua esposa não gosta desse tipo de demonstração de carinho.
- Parece que você não nos conhece, Adriano.
- Saímos algumas vezes e a Patrícia me assegurou que a Denise não é do tipo romântica.
- A sua esposa é que não é nada romântica.
Nunca vi Patrícia ficar grudada em você.
- Não fica mesmo.
Nossas demonstrações de carinho deixamos para a privacidade do nosso lar.
Patrícia comentou comigo que notou, no último encontro, como Denise o tratou de maneira ríspida por diversas vezes.
- A sua esposa está enganada, meu amigo - falou num tom que tentava ocultar a contrariedade.
Edgar não gostava que falassem mal de Denise.
Nem amigos, nem ninguém.
Fez um muxoxo e concluiu:
- A minha princesa adora essas coisas.
Ela se faz de difícil só para me provocar, para injectar mais charme na nossa relação.
Ela é muito feminina, diferentemente de outras mulheres.
Naturalmente, as outras mulheres eram Patrícia.
Adriano não deu trela para a cutucada.
Estava de certa forma, acostumado com a atitude protectora de Edgar com relação à esposa.
Achou melhor encerrar a conversa.
- A aula vai começar. Boa sorte.
Antes que eu me esqueça, por acaso amanhã vamos correr no Parque do Ibirapuera?
- Vamos. Eu ligo antes de sair de casa.
- Mas e se a noite prometer?
- Não tem problema - Edgar sorriu malicioso.
Vou perder a aula de hoje por um motivo para lá de especial.
Não posso e não quero deixar de me exercitar amanhã.
Sabe que não me atraso nunca.
Eu ligarei para você antes de sair de casa.
Vai ver só: amanhã, logo cedinho, vamos correr juntos, faça chuva ou faça sol.
- Combinado. Divirtam-se.
- Obrigado.
- Boa noite.
Edgar desligou o telefone e pendeu a cabeça para os lados.
- Meu amigo Adriano não conhece as mulheres.
Aposto que a Patrícia deve sentir falta de carinho, de mimo.
Deve ser por esse motivo que ela é um tanto fria e até meio antipática. Coitada.
As mulheres gostam de ser bem tratadas, paparicadas.
Eu nunca vi o Adriano comprar um ursinho de pelúcia para a Patrícia. Nunca.
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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 24, 2015 8:15 pm

Edgar consultou novamente o relógio e nada da esposa aparecer.
Ele começou a ficar impaciente.
O CD acabou e ele pegou outro na estante.
Dessa, vez escolheu um do Tim Maia.
Enquanto Denise não aparecia, ele procurava ocultar a ansiedade cantarolando a canção:
- Você, é algo assim, é tudo para mim, é como eu sonhava baby.
Sou feliz agora, não, não vá embora não, vou morrer de saudade...
Do outro lado da cidade, num charmoso flat encravado no meio do bairro de Moema, Denise espreguiçava-se nua na cama e sorria feliz.
Sentia-se a mulher mais realizada do mundo.
Leandro sim era homem de verdade, com H maiúsculo.
Não se comparava àquele paspalho do marido.
Estava cansada de fingir ter prazer com Edgar.
Ao lado de Leandro era impossível fingir o clímax.
Ele era óptimo amante.
Ele sim sabia das coisas.
Leandro saiu do banho e enquanto se enxugava Denise passava maliciosamente a língua pelos lábios, soltando gemidinhos de prazer.
Puxou o lençol até cobrir o corpo e sentou-se na beirada da cama.
- Como ele é bonito - suspirou.
De facto, Leandro era um homem muito bonito.
Era alguns centímetros mais alto que Edgar, loiro, os cabelos e pelos do corpo eram bem clarinhos.
Forte, corpo esguio e bronzeado.
Mesmo aos quarenta e cinco anos de idade, tinha um físico e apetite sexual de colocar qualquer garotão no chinelo.
Leandro era director de uma grande empresa fabricante de aparelhos electrónicos, localizada no norte do Estado de São Paulo.
Era considerada uma das maiores fabricantes de TV de plasma e monitores do país, nacionalmente conhecida como "a Companhia".
A sua família morava na cidade do Rio e o trabalho o mantinha mais na capital paulista, visto que toda a parte administrativa da Companhia fora transferida para a metrópole, dois anos atrás, num moderno e elegante edifício construído na marginal do rio Pinheiros.
Denise era gerente de vendas de uma grande loja de varejo actuante na região sudeste do país - a Dommênyca.
Os dois conheceram-se numa reunião trivial de negócios.
Além de conseguir um bom desconto na compra de televisores para a cadeia de lojas, Denise também ganhou um admirador.
Depois das trocas de olhares furtivos e um bom jantar, a tal admiração cresceu e ambos terminaram aquela noite na cama.
Fazia pouco mais de um ano que se encontravam religiosamente todas as quintas-feiras.
Leandro era casado, tinha um filho e, embora tivesse uma linda esposa, não se sentia realizado ao lado da mulher.
Letícia tornara-se fria e não tinham mais intimidade.
Ele a procurava e ela afirmava ter dores de cabeça ou então inventava um rol de desculpas esfarrapadas:
uma hora era a menstruação, depois os problemas da casa, o filho...
Cada dia tinha uma desculpa na ponta da língua para não se entregar ao marido.
Essas atitudes da esposa o entristeciam profundamente.
Depois que Emerson - pai de Letícia - faleceu, a cama esfriou por completo e o distanciamento entre ambos se tornou tão patente, que nem mais dormiam no mesmo quarto.
Cada um tinha a sua suíte.
A intimidade, de certa forma, morrera entre eles.
Desta feita, Leandro foi procurar fora o que não tinha dentro de casa.
Frequentou alguns bares especializados na venda de bebidas e serviços sexuais, porém o ambiente não lhe agradava e ele não tinha prazer em sair com garotas novinhas.
Queria uma mulher de facto, na casa dos trinta anos de idade, e não uma menina de dezoito, mal saída das fraldas.
Leandro tinha amigos que haviam trocado suas esposas por brotinhos, meninas mais jovens, e percebia que esse tipo de relacionamento não durava muito.
Passado um tempo, depois da aventura de viver uma relação calcada tão-somente no prazer e exibir a namoradinha aos amigos como um grande prémio os maridos tentavam voltar para a família e para o lar.
Poucos eram perdoados.
Leandro não cogitava ter uma amante.
Para ele, se uma mulher dava trabalho, imagine duas!
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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 24, 2015 8:16 pm

Precisava de uma mulher para o sexo, mais nada.
- Se Letícia colaborasse - repetia para si - eu não precisaria ficar à procura de sexo.
Ela não me ama mais.
Não posso ficar preso a uma mulher que não sente desejo por mim.
Tenho a minha dignidade.
Se não fosse pelo meu filho, eu já teria me separado dela, infelizmente.
Até que Denise apareceu em seu caminho.
Denise era mulher fogosa e Leandro encontrou em seus braços os carinhos e prazeres que Letícia não lhe dava havia anos.
Bonita, trinta e dois anos de idade, corpo bem feito, pele amorenada e sedosa cabelos curtos cortados à moda.
Sempre bem-vestida e perfumada, a morena sabia equilibrar-se num salto quinze com maestria.
Rebolava naturalmente ao andar e, evidentemente, chamava a atenção dos homens por onde quer que passe.
E o melhor de tudo, Denise também não queria nada sério com ele.
Quer dizer, isso era o que Leandro pensava.
Ela levantou-se da cama e o abraçou.
- Queria ter você todos os dias. Todos.
- Iríamos enjoar um do outro.
- Seria óptimo.
- Mas aí seríamos amantes.
- E qual o problema?
- Eu não quero compromisso.
Denise passou a língua pelos lábios.
Era mulher de temperamento forte e odiava ser passada para trás.
Mantinha o casamento porque sabia ter controle absoluto sobre o marido.
Ela tinha o poder.
E, se tinha o poder, podia controlar e manipular Edgar a seu bel-prazer.
O problema é que Denise estava começando a se envolver demais com Leandro.
Ela bem que tentara lutar contra esse sentimento, contudo, mesmo não querendo admitir a si mesma, estava caidinha por ele.
Procurou ocultar a sensação de fragilidade e dar um tom natural e amável a sua voz.
Disse de pronto:
- Você bem que podia deixar a sua esposa, eu prometo largar o Edgar.
Por que não fazemos isso?
- Para quê?
- Ora, para ficarmos juntos - arriscou.
- Não. Eu ainda amo Letícia.
- Ama? Tem certeza?
- Sim. Se ela fosse menos fria e não me rejeitasse, eu não estaria aqui com você.
Sabe muito bem disso.
- Eu só sirvo para esquentar a sua cama.
Leandro deu de ombros.
- Eu nunca a enganei, Denise. Nunca.
Sempre fui sincero. Eu só quero sexo, mais nada.
Você concordou.
- É verdade, você nunca mentiu.
Entretanto, estamos saindo há mais de um ano. Pensei que...
Leandro a cortou com docilidade.
- Pensou errado.
Ela mordeu os lábios e rangeu os dentes para controlar a raiva.
- Eu trabalho na empresa do pai dela.
- E o que a Companhia tem a ver com tudo isso?
- Muita coisa.
Letícia é filha única e a mãe que ela tome a frente do conselho de accionistas a fim de vigiar meus passos.
- As sogras sempre estão atrapalhando o nosso caminho.
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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 24, 2015 8:16 pm

- Não sei ao certo.
Eu e minha sogra não simpatizamos um com o outro, todavia, percebo que ela quer superproteger a filha.
Teresa tem faro apurado e seu instinto percebe que estou pulando a cerca.
Eu não a culpo por não gostar de mim.
Se eu estivesse no lugar dela, talvez agisse da mesma maneira.
- A minha sogra também é difícil.
Aposto que sua esposa e sua sogra estão mancomunadas.
- Duvido. Letícia tinha uma relação mais forte com o pai.
Teresa sempre foi muito presa aos ditames da sociedade.
- Sempre vejo fotos de Teresa nessas revista de celebridades.
- Teresa dá muito valor ao que os outros dizem.
É o jeito dela. Não guardo rancor por conta disso.
Temos uma relação bem formal, distante.
Mas no fim das contas, ela é boa mãe e boa avó.
Denise sorriu.
- Uma tratante, isso sim.
- Por que afirma isso?
Nem a conhece!
- Sou vivida, mulher experiente.
As sogras sempre estão tramando alguma coisa contra suas nora ou genros.
- A minha sogra não é assim.
- O meu santo não bate com o da minha sogra.
Eu adoraria que o meu santo batesse, de verdade, isso sim!
Ela, porém, é muito chata.
- Não posso simplesmente sair de casa.
Assim que o inventário ficar pronto, Letícia vai se tornar oficialmente sócio-maioritária da empresa, portanto, minha chefe.
- Ah, agora entendi por que não quer se separar. Tem muita grana em jogo.
Ele meneou a cabeça negativamente para os lados.
- Está enganada.
Nós nos casamos com separação total de bens.
Eu nunca seria capaz de me envolver com uma mulher por interesse.
Eu me casei porque amei Letícia desde o primeiro instante que a vi.
Não estou casado por conta da empresa.
Longe disso. Não sou aproveitador.
- Sei.
- Aos poucos, depois que tudo se assentar e meu filho estiver maiorzinho, se ela realmente não me quiser, infelizmente não terei outra saída: terei de me separar.
- Ricardo tem doze anos. É um mocinho.
Hoje em dia um menino nessa idade sabe lidar bem com a separação dos pais.
É algo natural.
- Não para mim.
Eu não acho que separação seja algo natural.
Eu me casei e fiz votos na casa de Deus.
Até que a morte nos separe.
Sabe muito bem, e volto a repetir, para não deixar nenhum tipo de dúvida em sua cabeça, que se Letícia não fosse tão fria e não me negasse carinho e sexo, eu não estaria aqui com você.
Denise sentiu uma ponta de raiva.
O que essa tal de Letícia tinha que ela não tinha?
Será por que essa dondoca estava sempre chamando a atenção onde quer que esteja?
Se esse fosse o ponto, Denise não tinha como lutar de igual para igual.
Letícia era uma socialite paparicadíssima pela mídia e amada pelo país inteiro.
Fora igualada à princesa Diana no que se referia a carisma.
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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 24, 2015 8:16 pm

Fora comparada à Jacqueline Onassis, pela maneira discreta de ser, e à Audrey Hepburn, pela forma elegante de se vestir.
Denise levou o dedo ao queixo e lembrou-se de uma entrevista que Letícia dera num programa de TV, alguns anos atrás.
Ela era uma mulher fina, elegante, simpática e bonita.
Denise sentiu mais raiva.
- Claro que ele não vai largar da esposa tão facilmente.
A tonta é benquista pela sociedade, tem Cortez, faz doações para esses desgraçados vitimado:
por catástrofes e aos infelizes que quase morrem de fome por esse país afora.
É a lindinha da mídia - falou para si.
Depois, virando-se para Leandro, emendou:
- A diferença entre mim e ela é que eu não apareci tanto nessas revistas idiotas de celebridades.
Eu não sou mulher fútil, não sou dondoca. Trabalho duro.
Sou mulher séria e procurada pela mídia para assuntos relacionados à economia.
Se quiser saber, em termos de beleza sou até mais gostosa que ela.
Por que raios você se derrete tanto por essa mulher?
Leandro simplesmente respondeu:
- Porque a amo. Eu amo a minha mulher.
Denise sentiu uma pontada no peito.
A sinceridade dele era desconcertante.
Leandro sempre lhe fora sincero, desde o início do caso.
Dissera que amava a família, mas que precisava descarregar as bateria porque a esposa não se deitava com ele havia séculos.
Gostara de ficar com Denise porque ela, aparentemente, não pegava no seu pé.
A princípio, Denise também não queria compromisso sério, estava à procura de um homem interessante para poder ter momentos de prazer, pois se deitar com Edgar tornara-se tarefa árdua e enfadonha.
O facto é que o tempo foi passando e Denise foi se apegando a Leandro.
E, na sua cabeça contaminada pelo orgulho, ela é que poderia se cansar dele.
Jamais o contrário.
Falou rapidamente num tom bem irónico:
- Você a ama, mas Letícia não o ama!
Por que ficar casado com alguém que não o ama?
Leandro largou a toalha sobre a cama e começou a se vestir.
Ele tinha um grande sentimento pela esposa.
Se ela fosse uma mulher que seguisse à risca os votos do casamento, ele não estaria com Denise.
Nem com ela, nem com qualquer mulher que fosse.
Ele ficou pensativo por instantes.
- Já disse a você que não sabe o que é amor.
Eu amo Letícia, apesar de ela me tratar tão friamente.
Você, porém, não ama seu marido, aposto.
Ela fez um muxoxo e respondeu com desdém:
- Não aguento mais ficar casada.
- Você não tem motivos para continuar casada.
Não ama seu marido.
- E terei de continuar a ter você apenas uma vez por semana?
- Sim.
- É muito pouco.
- É o que posso lhe oferecer.
- Podemos esticar nos fins-de-semana.
- Sabe que todo e qualquer fim-de-semana dedico única e exclusivamente ao meu filho Ricardo.
Denise sorriu mordendo os lábios.
Se não fosse o fedelho de doze anos de idade, ela teria Leandro também nos fins-de-semana, ou até mesmo ele estaria separado daquela esposa desprovida de desejo sexual.
Tinha raiva do menino porque acreditava ser ele um grande estorvo, que atrapalhava a relação dela com Leandro.
Contudo, no devido tempo, iria tê-lo como amante todos os dias.
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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 24, 2015 8:16 pm

Denise era cobra criada, mulher com forte experiência em manipular as pessoas, principalmente os homens.
E era esperta! Ninguém duvidava de sua esperteza.
- Posso morar neste flat, por exemplo.
- Você não gosta daqui.
Sempre afirmou que gostaria de morar numa bela casa nos Jardins.
- Verdade. Nasci e fui criada no bairro do Cambuci, numa rua que sofria enchentes constantes.
Saí de casa para morar com uma tia no Pacaembu.
Foi aí que tive contacto com o conforto, com o belo.
- Separe-se e vá viver novamente no Pacaembu
- Fica fora de mão.
Aqui eu tenho tudo o que preciso.
Uma suíte espaçosa, uma sala, uma cozinha bem equipada.
Tem arrumadeira todos os dias, lavandaria, manobrista.
O trabalho fica aqui perto e não pegarei tanto trânsito.
E você não precisará mais ficar no hotel pago pela empresa.
- De forma alguma.
Não misturo vida pessoal com trabalho.
Este flat serve tão-somente para os nossos encontros.
- Mas...
Leandro a cortou com amabilidade.
- Nem pensar, Denise.
Às vezes recebo mensageiros da empresa no hotel e não seria de bom-tom eu ser visto com você ao meu lado.
Sou discreto praticamente uma figura pública, casado com uma mulher bonita e adorada pela mídia.
Denise odiava cada palavra positiva que ele creditava à esposa.
Estava a ponto de explodir, mas precisava, tinha de manter a fleuma a todo custo.
Rangeu os dentes e emendou:
- Mas sempre saímos daqui juntos!
- Somos discretos.
Eu saio primeiro, você sai de minutos depois.
- Mas os funcionários sabem o que se passa aqui.
- Eles são treinados para não ver, não ouvir, não comentar.
E é um entra e sai neste flat que as pessoas mal reparam.
Lá no hotel há outros funcionários da empresa que vêm directamente da fábrica.
Não quero dar bandeira.
Ela sorriu contrariada:
- Não queria voltar para casa. Não hoje.
- Por quê?
- Depois de momentos tão bons ao seu lado, ter de encarar um fim-de-semana ao lado daquele paspalho... Vai ser difícil.
Leandro terminou de se vestir. Enquanto ajeitava a gravata ao redor do colarinho, sugeriu:
- Amanhã retorno para casa.
Não tem como escapar do trabalho e vir comigo passar o dia?
- Passar o dia?
- Podemos ficar hospedados num hotel bem charmoso no Flamengo.
O pessoal do hotel me conhece, são pessoas muito discretas, respeitam a privacidade do cliente e...
Ela exultou de felicidade.
- Viajar com você para o Rio? Amanhã?
- Estou carente de companhia.
Tenho de assinar alguns papéis do inventário num escritório de advocacia no centro da cidade.
Vou pegar a primeira ponte-aérea.
Deverei estar livre da hora do almoço até as cinco da tarde.
Poderemos ficar juntos, passear, ir a um bom restaurante...
- Eu vou. Claro que vou!
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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 24, 2015 8:16 pm

- Pode tirar o dia de folga?
- Eu ligo para a minha assistente e invento uma desculpa qualquer.
- E seu marido?
- O que tem ele?
- O que vai pretextar?
- Nada. Não sou de dar satisfações.
- Ele pode questionar o motivo da viagem.
- Bobagem. Ele está acostumado com minhas viagens a trabalho.
Nesse casamento sou eu quem dou as cartas.
- Eu gostaria de entender melhor: eu tenho um filho, mas você não tem crianças.
Se não ama se marido, por que continua casada?
Denise mordiscou os lábios e ficou pensativa por instantes.
- Estive aqui pensando e não sei por que ainda estou presa a esse casamento sem sal e sem tempero.
- Creio que só ficamos amarrados em quem amemos de verdade.
Senão, é pura perda de tempo.
- Sabe que você me deu uma óptima ideia?
Vou me separar.
- Já é tempo. Pelo menos você liberta seu parceiro e o deixa livre para ser feliz ao lado de outra pessoa.
Denise gargalhou, uma risada debochada e histérica.
- Não consigo imaginar quem pudesse se interessar pelo Edgar.
Ele é tão bobão, tão sem tempero, cama com ele tem gosto de salada de chuchu.
Leandro riu.
- Não diz o ditado que toda panela tem a sua tampa?
- É verdade.
- Vai ver você não é a tampa certa para o Edgar.
- Definitivamente, não.
- Ele ainda pode ser feliz.
Ela deu de ombros.
- Vou até em casa fazer a mala para a viagem direi na cara dele que não quero mais manter esse casamento chato.
Semana que vem, depois do nosso delicioso fim-de-semana juntos, estarei morando aqui.
Poderá vir mais vezes, claro, se quiser.
Leandro nem deu ouvidos ao que ela dizia.
Terminou de se vestir, arrumou algumas peças de roupa na sacola e pediu:
- Encontre-me no saguão do aeroporto de Congonhas às seis da manhã.
- Dorme comigo hoje, vai.
- Não posso. Tenho alguns contratos para analisar e não quero tomar decisões erradas.
Preciso de concentração.
Estamos em época de crise e não posso dar mole.
Qualquer decisão errada - ele fez um sinal com o polegar para baixo - e afundo a Companhia.
E tem outra coisa.
- O que é?
- Vou logo avisando para não se empolgar tanto.
Ficaremos juntos somente amanhã.
Fiz o convite porque você é liberal, tem uma cabeça boa e não pega no meu pé.
Somos amigos que de vez em quando têm intimidades, mais nada.
Sabe que todo fim-de-semana fico com Ricardinho.
É algo sagrado para eu ficar ao lado de meu filho nos fins-de-semana.
- Podia abrir excepção nesse próximo fim-de-semana, não?
- Negativo. Passaremos somente o dia de amanhã juntos.
No fim da tarde eu subirei para a Barra da Tijuca.
- E ficarei sozinha na cidade?
- Vamos ficar juntos amanhã durante a tarde toda, não está bom?
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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 24, 2015 8:17 pm

É só o que posso lhe ofertar.
Passeamos, comemos algo, e outras coisinhas mais.
A diária valerá até o meio-dia de sábado.
Você aproveita o dia e no fim da tarde retorna a São Paulo.
- Pode ser. Quero ficar mais, aproveitar a cidade.
- Bom, se quiser poderá sair e fazer seus passeios.
Você é livre.
Mas o fim-de-semana eu passo com Ricardo, de qualquer jeito.
Não abro mão disso.
Denise mostrou cara de poucos amigos.
Mordiscou novamente os lábios para ocultar a contrariedade.
Disse entre dentes:
- Esse pirralho filho da mãe tinha de estragar o meu fim-de-semana?
- O que foi que disse?
- Nada - ela desconversou e consultou o relógio.
Passa das nove. Preciso ir.
Vou me arrumar e volto mais tarde para o flat.
Amanhã cedo ligarei para a minha assistente e invento qualquer mentira.
O povo morre de medo de mim lá na Dommênyca.
- Chegue ao aeroporto no horário marcado.
Quero pegar o primeiro voo da ponte-aérea.
- Combinado.
Despediram-se e Leandro saiu primeiro, como de costume.
Denise fechou a porta e sentou-se na cama.
Enquanto escovava os cabelos, vociferava:
- Maldito filho! Porque ele tem de estar no meio de nós?
Quero o Leandro só para mim.
Leandro tomou o elevador, desceu e foi até a área dos manobristas.
O carro chegou de seguida.
Ele acomodou-se no banco, acelerou e pegou o caminho do hotel.
Chegou, passou no bar, tomou um uísque e subiu para o quarto, pensando em ligar para a esposa.
Embora mantendo uma relação distante fosse bem ligado à família.
Preocupava-se verdadeiramente com Letícia e Ricardo.
Colocou o celular para carregar a bateria, deitou-se na cama, afrouxou o nó da gravata.
Pegou o telefone e ligou.
Procurou ser simpático.
- Boa noite, Letícia, tudo bem?
- Olá, Leandro. Estou bem, e você?
- Para variar estou correndo muito, mas tudo óptimo.
Houve um silêncio constrangedor. Leandro pigarreou e perguntou:
- Como estão as coisas?
- Muito bem - disse ela, num tom que lutou para manter frio e ocultar a emoção que sentia toda vez que escutava a voz do marido.
- O que fez de bom?
- Precisava de um par de tamancos.
Fui ao Barra Shopping e almocei com a Mila.
- Gosto que saia com a Mila.
- É como se fosse minha irmã.
Temos muitas afinidades e ela entende o meu gosto.
- Ela é excelente amiga.
Letícia fechou os olhos e suspirou profundamente.
Sentia ciúmes do marido, inclusive desses comentários inocentes.
Contudo, como cobrar algo de Leandro?
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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 24, 2015 8:17 pm

Ela perdera o interesse pelo sexo e não achava justo demonstrar seu ciúme.
Ela não tinha o direito de cobrar absolutamente nada dele. Uma pena.
Perguntou:
- Volta na sexta à noite?
- Volto - mentiu ele.
- Ricardinho está contando as horas.
Leandro sorriu feliz.
Só de tocar no nome do filho seus lábios abriam largo sorriso e seu peito se enchia de contentamento.
- Diga a ele que comprei mais um game novo para o Playstation.
- Você vai estragar esse menino.
- Por quê? Ele é óptimo filho.
Sei que os pais sempre dizem que os seus filhos são especiais, diferentes...
Mas Ricardinho é fora de série.
Que garoto de doze anos que gosta tanto de ler os clássicos da literatura universal como também jogar videogame ou andar de skate?
- Tem razão.
Hoje mesmo começou aqui no condomínio um campeonato de skate.
Adivinha quem bolou o campeonato?
- Ricardo.
- Ele mesmo. Está todo contente.
- Além do mais, ele tem tirado notas óptimas na escola, nunca nos deu um pingo de trabalho em nada.
Absolutamente nada.
- Concordo. Sabe que hoje no almoço ele leu uma entrevista do primeiro-ministro inglês na revista e passou a tarde toda me fazendo perguntas sobre o Reino Unido, a rainha Elisabeth II, o primeiro-ministro...
- Ele é inteligente e um filho maravilhoso.
Merece um jogo novo.
- Merece sim, você está certo.
Leandro queria perguntar como iam as sessões no analista, se Letícia sentia-se mais à vontade pare conversar sobre suas intimidades, mas teve receie de constrangê-la.
Em vez disso, simplesmente discorreu sobre problemas da empresa, os efeitos da crise económica mundial, a demora no fechamento do inventário do pai dela e desligou o telefone com um singelo boa-noite.
Letícia desligou o telefone e suspirou triste.
- Por que estou tão triste?
Ela não escutou, entretanto uma voz masculina fez-se ouvir no quarto:
- Não fique triste.
Esse traste não merece o seu amor.
Eu vou cuidar de você, como sempre venho cuidando.
Enquanto dirigia para sua casa, Denise imaginava maneiras, as mais disparatadas, de ter Leandro em seus braços, longe da esposa e do filho.
Conforme dava largas à imaginação negativa, obviamente, começou a se formar em torno de sua cabeça, uma energia de coloração escura que, a cada pensamento sórdido, tornava-se mais espessa e enegrecida.
Numa curva de uma rua, depois de quase atropelar um pedestre, ela mudou o teor dos pensamentos.
- Depois penso num jeito de ter esse homem comendo aqui na palma da minha mão.
Os homens sempre comeram na minha mão.
Denise pensou um pouquinho e se lembrou de Edson, um gerente de Banco que conhecera pouco antes de se casar com Edgar.
A coloração da sua pele ficou avermelhada de ódio por alguns instantes.
Embora quisesse apagar esse homem de sua vida, a memória parecia ter enorme prazer em fazê-la se lembrar dos acontecimentos passados.
Também pudera.
Denise conhecera Edson quando foi abrir uma conta corrente.
Eles trocaram olhares significativos, houve uma paquera e interesse de ambas as partes.
Edson era um homem bonitão, na casa dos trinta e poucos anos, alto, forte e viril.
Casado e pai de três filhos, saía com Denise por pura diversão.
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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 24, 2015 8:17 pm

Ele gostava da esposa, mas, como dizia, não gostava de comer arroz e feijão todos os dias.
Precisava variar o cardápio.
E Denise fora à alternativa.
Alguns meses depois ele decidiu terminar o caso.
Denise não aceitou.
Edson foi duro e até um pouco agressivo.
Ele também era o tipo de homem que fazia toda e qualquer mulher comer na palma de sua mão.
Estavam empatados.
Denise estava à frente de alguém que tinha o mesmo jeito que o dela.
Denise não se deu por vencida.
Falou para si mesma:
- Ah, é assim? Aguarde o troco.
Vingativa e cheia de ódio, um dia ela estacionou na garagem do Banco, pretextou ir ao caixa electrónico para sacar dinheiro e, ao descer de volta à garagem, sem ninguém perceber, riscou toda a lateral do carro de Edson com um canivete.
Dos dois lados.
Depois, não satisfeita, esvaziou os quatro pneus do carro.
Para completar o quadro, entortou os dois pára-brisas.
Sorriu aliviada e sentiu-se vingada.
Entrou no seu carro e saiu da agência gargalhando feito uma doidivana.
De volta ao presente, Denise começou a gargalhar.
- Aquele idiota do Edson levou o troco.
Esse foi o único homem que tentou me fazer de boba.
O único. Leandro que não brinque comigo - ela afastou os pensamentos balançando os cabelos para os lados - agora preciso chegar a casa e terminar meu casamento.
De uma coisa eu tenho certeza: não passa de hoje.
Não sei por que não tomei essa resolução antes.
Ela embicou o carro na porta da garagem e apertou o controle remoto. Nada.
Enfurecida, soltou um grunhido e meteu a mão na buzina, fazendo um barulho estridente. João veio correndo.
- Desculpe senhora.
O portão ainda está quebrado.
- Como? Ainda não mandaram consertar essa joça?
Para que serve o dinheiro do condomínio, que é bem alto por sinal?
- Amanhã cedo o técnico virá arrumar.
Tenha um pouco de paciência, d. Denise.
- Vou falar com o síndico e fazer reclamação dessa sua lerdeza.
- O portão é pesado.
Tenha um pouco mais de calma, por gentileza.
- Funcionários como você merecem estar na rua.
Não sei por que temos de pagar salários para pessoas tão incompetentes como você, Zé.
Ande logo abre logo esse portão, ô infeliz!
João fez sinal afirmativo com a cabeça e abriu.
Assim que ela passou com o carro para dentro ele suspirou:
- Edgar não merece essa mulher.
E ainda por cima sempre erra meu nome.
Chama a mim e a todos o demais funcionários de Zé.
Denise estacionou, saiu do carro e mal cumprimentou a empregada do vizinho que acabava de chegar.
Pelo contrário, saiu apressada para pegar o elevado sozinha.
A moça apertou o passo tentando equilibra as sacolas do mercado, esbaforida até o elevador, mas não conseguiu entrar.
Denise ainda viu o rosto de frustração que a pobre coitada fez enquanto a porta se fechava, mas deu de ombros.
- Detesto pegar elevador com empregada.
Gente folgada.
Ela que pegue o elevador de serviço.
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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 24, 2015 8:17 pm

Olhou para um aviso anexado próximo à porta e viu o nome do síndico.
Resmungou:
- Para que vou perder meu tempo em falar com o síndico?
Vou embora mesmo deste buraco.
Esse prédio que se dane.
Ela chegou ao andar, saiu e meteu a chave na porta.
Ao abri-la notou algo de diferente. As luzes estavam apagadas.
Muito estranho.
Várias velas, de cores, tamanhos e odores variados faziam interessante caminho do corredor até a sala de estar.
Ela olhou para aquilo tudo com um esgar de incredulidade.
- O que é isso?!
Algum despacho?
- Surpresa! - Edgar apareceu segurando um pequeno arranjo de rosas entre as mãos.
- Edgar...
Ele não deixou que ela falasse.
Abraçou-a e a beijou várias vezes no rosto.
- Eu a amo! Eu a amo!
- Me solta, Edgar. Está me melando toda.
Parece um cachorro babão. Que coisa!
- Parabéns.
- O que estamos comemorando? - perguntou ela enquanto entrava na sala e tirava os sapatos de saltos altíssimos.
- Hoje é o nosso aniversário.
- Hã?
- Cinco anos.
Denise fez um esforço mental e lembrou-se do dia em que assinara os malditos papéis no cartório.
- Nem me lembrava.
- Eu sei que você não se liga em datas.
Mas eu me importo.
Ela abriu e fechou a boca.
Estava cansada dessa relação.
Por que se casara com ele?
Por que fizera aquilo?
Desde a saída do flat até agora, sua mente não encontrara resposta.
Vasculhou o escaninho da memória...
Denise tinha sido uma garota bem sapeca.
Namorara os meninos do quarteirão da rua em que morava e do bairro todo; em seguida, quando sua mãe deu graças a Deus de ela ir morar com a tia no Pacaembu, envolvera-se com outros tantos na redondeza, no colégio e na faculdade.
Quantas e quantas vezes fora flagrada no estádio de futebol, perto de casa, em cenas dignas de filmes liberadas somente para maiores de dezoito anos.
A tia; já velhinha e meio senil, não entendia direito o que se passava e Denise não era levada à delegacia, tampouco fichada porque se deitava também com os policiais.
Era uma garota para lá de liberal, promíscua até, do tipo muito fácil e mal falada.
Não estava nem aí com os comentários dos outros.
Por milagre, nunca contraíra nenhum tipo de doença sexualmente transmissível.
Ela conheceu Edgar numa festa de formatura de um de seus conhecidos.
Saiu com ele, levou-o para casa e não gostou nem um pouco da intimidade compartilhada.
Segundo ela, Edgar não tinha pegada.
Iria dispensá-lo no dia seguinte.
Ocorre que a tia simpatizou com o rapaz e prometeu à sobrinha substancial aumento na mesada caso ela namorasse aquele menino.
Denise fazia tudo por dinheiro mesmo e assim foi levando o namoro, sem deixar, no entanto, de sai com outros homens ao mesmo tempo em que namorava Edgar.
Saía com outros homens às escondidas.
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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 24, 2015 8:17 pm

Depois vieram os sites de relacionamentos da internet e tudo ficou mais fácil.
Marcava os encontros com homens que vinham a negócios na capital paulista.
Aliás, foi num desses encontros que ela conheceu um alto funcionário da Dommênyca.
Depois de alguma saídas e ameaças - o homem era casado - Denise conseguiu uma vaga na conceituada empresa.
E ela não tinha dó de meter chifres no namorado.
Edgar não percebia.
Quando algum amigo, como Adriano, por exemplo, vinha lhe dar indirectas sobre as saídas de Denise, ele ficava possesso.
Achava que os amigos inventavam histórias estapafúrdias a fim de melar o namoro dos dois.
Tudo por inveja o acreditava. Pura inveja.
Até que Denise engravidou, sabe-se lá de quem.
Tentou fazer um aborto. Não conseguiu.
Ela chegou à clínica clandestina de aborto, um lugar sujo e fedido no centro da cidade e marcou de voltar dali a dois dias.
Qual não foi a surpresa ao encontrar uma amiga da tia - sempre a tia! - na saída do prédio.
A mulher, muito esperta, juntou dois com dois e logo deduziu o que Denise estava fazendo por lá.
Não deu outra:
descobriu sobre o aborto e contou tudo para sua tia.
Mabel - esse era o nome da tia - estava ficando senil, mas tinha uma religiosidade sem precedentes.
Era católica fervorosa e totalmente contrária ao aborto.
- Se você tirar essa criança, eu a deserdo.
- Eu sou jovem, tia.
Essa criança vai estragar o meu futuro profissional.
Agora que minha carreira deslanchou na empresa, não poderia engravidar.
- Pensasse na carreira enquanto fazia...
Fazia... Essas coisas na cama, sua pecadora!
- Eu errei titia, contudo...
- Não vai ficar com nada de herança.
Vai ficar pobre, sem casa, e voltar para aquele buraco de onde veio.
Denise teve um sobressalto.
Voltar a morar naquela rua sempre cheia de água e ratos? Nunca.
- Não volto para casa. Nem morta.
- Então vai ter essa criança.
- Mas, tia, com relação ao pai...
Denise hesitou.
Não podia dizer que não sabia quem era o pai.
Deitara-se com muitos homens.
- Claro que sei quem é o pai - disse Mabel, num raro momento de aparente lucidez.
- Sabe?!
- Por certo. Claro que você seduziu e engravidou daquele menino, o Edgar.
Denise mordiscou os lábios e abaixou a cabeça.
Sorriu maliciosamente.
Mudou propositadamente modulação da voz.
- É verdade. Eu não queria contar-lhe. Estava com medo.
A família de Edgar não gosta de mim e ele não teve culpa.
A camisinha estourou e...
Mabel ficou ruborizada.
Era mulher séria e recatado.
- Nem ouse me contar como aconteceu tudo isso.
Poupe-me dos comentários sórdidos.
O que me interessa é que você se case com esse rapaz e tenha criança.
Ou vou doar este casarão para a prefeitura.
Estamos combinadas?
- Se a senhora conseguir dobrar aquela cobra da mãe dele...
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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 25, 2015 8:40 pm

E assim foi feito. Mabel, humildemente foi até casa dos pais de Edgar e contou sobre a gravidez.
Foi uma confusão dos diabos.
Os pais de Edgar, portugueses católicos e éticos até o último fio de cabelo conversaram com o filho à exaustão.
Ele era jovem recém-saído da universidade, tinha um bom emprego.
Se não quisesse casar, teria o apoio de seus pais desde que assumisse a criança.
Mabel não arredou pé.
Só sairia daquela casa com a promessa de que a sobrinha teria a criança e que Edgar se casaria com ela.
Edgar optou pelo casamento e nem cogitou a possibilidade de um exame de DNA.
Na sua cabeça ingénua e apaixonada, Denise era-lhe fiel.
A mãe dele, d. Maria José, era uma portuguesa perspicaz, desconfiada de Denise e nunca gostara ou aprovara o namoro do filho.
Se por um lado Mabel era intransigente, por outro Maria José exigia o teste de paternidade.
Depois de muito bate-boca, Edgar aceitou desposar Denise sem fazer o teste.
- Esse filho pode não ser teu - disparou a mãe.
- Jamais volte a dizer uma barbaridade dessas, mamãe.
Denise me ama e só se deitou comigo.
Maria José mediu a futura nora de cima a baixo.
Levantou o sobre olho e meneou a cabeça negativamente para os lados.
Aproximou-se de Denise e sussurrou em seus ouvidos:
- Poderás te casar com meu filho, mas estarei sempre vigilante.
Denise sorriu e devolveu a afronta em novo sussurro:
- Não tenho medo de você.
Nem de você nem do seu bigode, sua víbora portuguesa.
- Não me conheces, sua sirigaita.
- Opa! Nem você me conhece! - retrucou Denise, num tom jocoso em relação à expressão muito utilizada entre os portugueses, que seria algo como o nosso corrente "Puxa"!
- Se magoares meu filho, juro que vou odiar-te pelo resto dos meus dias.
Denise deu de ombros.
- Minha tia quer que eu me case com seu filho.
Aqui há um jogo de interesses.
Eu me caso, tenho a criança e, depois que minha tia morrer, eu me separo.
- Não tens coração!
Como pode ser tão fria e mesquinha?
- Eu faço o que é melhor para mim.
Dane-se os outros.
Eu vou lá me preocupar com os outros?
Desde que eu me dê bem...
- Cuidado! Eu sou mãe coruja e Edgar é tudo o que tenho.
Se magoares meu menino, eu juro que vou rezar muito para que Deus te dê uma grande lição.
- Faça o que achar melhor, Carlota Joaquina - retrucou num deboche.
Assim foi feito e no mês seguinte eles se casaram.
Maria José fora uma jovem bem bonita e muito inteligente.
Estudante de ciências sociais, ela e Fernando, seu marido, participaram activamente pelo fim da ditadura em Portugal.
Logo depois da Revolução dos Cravos ela engravidou e na sequência prestou concurso e ganhou bolsa para fazer doutorado no Brasil.
O casal, jovem e apaixonado, fez as malas e emigraram para cá alguns meses depois.
Fernando havia recebido dinheiro proveniente de uma pequena herança e decidiu abrir uma loja de materiais eléctricos na Rua Florêncio de Abreu, no centro da cidade.
Apaixonaram-se pelo país à primeira vista e nunca mais quiseram voltar. Instalaram-se numa confortável casa no Pacaembu.
Lá, Maria José podia cultivar suas orquídeas, numa grande estufa que Fernando construíra nos fundos da casa, especialmente pare esse fim.
No comecinho do outro ano, depois de uma gestação difícil e parto complicado - que a impediu de gerar outros filhos - nasceu Edgar.
Filho único, ele crescera um romântico obstinado.
Queria viver uma história de amor igual à dos pais.
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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 25, 2015 8:40 pm

Esse casamento com Denise parecia ser o seu conto de fadas.
Ia se casar com a sua amada, a sua princesa.
Dois meses depois do casamento, Denise teve uma cólica seguida de forte hemorragia e perdeu o bebé.
Continuou levando o casamento adiante como também traindo o marido a torto e a direito, sem que ele jamais suspeitasse.
Até conhecer Leandro e cansar-se de vez do marido.
Estava mais do que na hora de pôr fim nessa relação sem sal, sem atractivos.
Denise estava cansada de manter uma relação desgastada.
Edgar era um bom homem, mas era muito pegajoso, melado.
Fazia e concordava com tudo.
Nunca discordava de nada.
Não escolhia lugares para saírem ou viajarem.
Deixava para Denise escolher absolutamente tudo.
E, segundo opinião dela própria, ele era muito convencional na cama.
Enfim, era um robozinho que vivia apenas para agradar a esposa.
Denise espantou os pensamentos fazendo gesto enérgico com uma das mãos.
Voltou à realidade como se tivesse saído de um choque anafilático.
- Eu me perdi nos pensamentos.
Deve ter sido a bebida - ela beliscou a pele do braço e bradou.
Não é possível! Não foi um sonho!
- Claro que não, meu amor.
É dia das nossas bodas!
- O quê?!
- Cinco anos! - Edgar exclamou.
Depois a pegou na mão e a conduziu até o quarto.
Ela entrou e fez cara de nojo.
- Olha o ursinho.
Ele diz o que eu sinto: Eu te amo.
Denise teve vontade de pegar o ursinho e trucidar o bichinho com as unhas longas, afiadas e vermelhas.
- Sabe que eu odeio bicho de pelúcia. Tenho alergia à pelos.
- Ah, mas esse ursinho é especial.
E tem também esse casalzinho abraçado, esculpido em madeira - mostrou.
Ela pegou o bichinho e jogou-o de volta à cama.
Exalou suspiro desagradável:
- Cada ano eu ganho um bichinho.
Que coisa! E esse casalzinho de madeira?
Que tosco! Não pensou numa jóia, por exemplo?
Edgar riu e balançou a cabeça para os lados.
- Meu amor, meu benzinho, estamos casados há cinco anos.
Estamos comemorando bodas de madeira!
Comprei na feirinha de Embu das Artes.
- Bodas de madeira, Edgar?
Eu nunca ouvi falar.
- Mas é. Por essa razão resolvi lhe dar essa estátua de madeira.
Ano que vem vamos fazer bodas de açúcar e, quando completarmos quinze anos, que são bodas de cristal, juro que lhe darei uma jóia dentro de uma taça de cristal. Prometo!
Denise não estava nem um pouco interessada em saber sobre as bodas.
Só um lunático abobado feito o marido poderia ter conhecimento sobre o significado das bodas de casamento.
Ela suspirou contrariada:
- Edgar...
- Você nem tem ideia do que fiz - disse ele cortando-a animado e feliz.
Comprei essas rosas vermelhas porque são as suas preferidas.
Também encomendei salmão fresquinho e fui buscar lá no mercadão.
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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 25, 2015 8:40 pm

A Delis temperou seu prato predilecto.
Não me esqueci do vinho branco.
Ele correu até a cozinha, abriu a pequena adega e pegou a garrafa.
Abriu-a e encheu duas taças.
Voltou correndo para o quarto e entregou uma taça à esposa.
- Um brinde.
Que possamos renovar nossos votos por mais cinco, dez, vinte, cinquenta anos!
Denise pegou a taça e bebeu num gole só.
Precisava da bebida para não explodir de ódio.
Não dava mais para continuar.
Estava cansada de tanta melação.
Ela só tinha olhos para Leandro. Só para ele.
Respirou fundo, pegou a garrafa das mãos do marido e entornou o gargalo.
- Calma amor.
Vai ficar altinha.
Edgar aproximou-se e tentou beijá-la.
Denise o empurrou com força.
- Chega de me melar com esses beijos nojentos!
Ele parou atónito.
Nunca a vira tão ríspida.
- Ei! O que foi?
- Chega Edgar. Chega!
- O que aconteceu, meu amor?
- Não aconteceu nada.
Quer dizer, vai acontecer.
Ela colocou a taça sobre o aparador e correu a porta do closet.
Entrou e apanhou uma mala.
Voltou e a jogou sobre a cama.
- O que está fazendo? - perguntou ele, sem entender.
- Vou deixá-lo.
- Como?
Denise deu um grito que ecoou pelo apartamento todo.
- Vou deixá-lo, entendeu agora?
- Deixar-me?
- É. Vou me separar de você.
Ou preciso pegar um papel e desenhar?
Ela virou-se e voltou ao closet.
Apanhou umas roupas, ajeitou-as de qualquer jeito na mala.
Em seguida caminhou até o banheiro e pegou artigos de higiene e cuidados pessoais.
Pegou também dois frascos de perfume e colocou tudo numa nécessaire.
- Eu vou embora. Para sempre.
- Eu a amo.
Não pode fazer isso comigo.
- Estou fazendo.
Nosso casamento acabou.
- Vamos conversar.
O que foi que eu fiz?
- Nada.
- Algo errado? Eu corrijo.
- Não.
Edgar ajoelhou-se e agarrou-se nas pernas dela.
- Por favor, benzinho, diga: o que foi?
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Ave sem Ninho

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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 25, 2015 8:41 pm

- Pare de cenas, nem parece homem.
Que coisa mais feia.
- Você é tudo para mim.
- Tenha um mínimo de dignidade!
As lágrimas escapavam sem controle.
Edgar entrou num estado de total desequilíbrio.
- Não me deixe!
Você é a mulher da minha vida.
O meu grande amor!
- Não sou não.
- Claro que é.
Ela precisava acabar com aquela cena constrangedora.
Disparou num grito:
- Eu tenho outro!
Edgar sentiu uma dor no peito sem igual.
Denise o empurrou com violência.
Fechou a mala e calçou um par de sandálias.
- Segunda-feira eu passo aqui para pegar o resto das roupas.
Não quero mais nada deste lar - ela fez cara de nojo - tinha de ser decorado pela sua mãe, claro!
Odeio cerejeira.
É tão brega, tão cafona.
A única coisa que presta aqui neste cubículo são as minhas roupas e sapatos.
Ah, e meus perfumes importados.
- Não vá, por favor.
Um casamento de cinco anos não acaba assim de um dia para o outro.
- O nosso acabou no dia que assinei os papéis.
- Não diga uma sandice dessas.
- Eu nunca o amei de facto.
- Não tem problema.
O meu amor é suficiente para nós dois.
- Já disse não.
- Por favor, fique.
Eu prometo que vou mudar, vou melhorar e serei o melhor marido do mundo.
- Não dá mais, Edgar.
Perdi o interesse por você.
- É uma fase. Vai passar.
- Não vai.
- Você tem trabalhado à exaustão.
Vamos tirar umas férias.
Denise sabia que se não usasse sua força, Edgar iria passar a noite toda tentando desesperadamente convencê-la de voltar atrás.
Ela estava determinada e disparou, somente para dar um basta na discussão:
- Sabe de uma coisa?
- Não.
- Eu amo outro homem - disse num tom provocativo.
Eu me deito com outro homem e tenho prazer com ele.
Edgar ficou pálido, sua cor desapareceu e a voz quase sumiu.
- Como?! Outro homem?
- É. Melhor ser sincera e falar de uma vez.
- Isso é uma brincadeira de mau gosto.
Você não pode ter se apaixonado.
Trabalha tanto, vive para a empresa e...
Ela o cortou de maneira abrupta, fazendo gestos largos com as mãos.
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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 25, 2015 8:41 pm

- Estou apaixonada e assim que os papéis da separação ficarem prontos vamos nos casar.
- Você me traiu?
Denise não respondeu.
Ele repetiu:
- Você me traiu?
- Um pouquinho, se é que traição se mede.
Mas não esperava me apaixonar.
- Quem é ele?
- Não lhe interessa.
Edgar a pegou pelos braços e os sacudiu com força:
- Quem é o desgraçado?
- Não lhe interessa, já disse! - ela gritou.
Agora me solte.
Está me machucando.
- Se não vai ser minha, não vai ser de mais ninguém.
Ela gargalhou alto.
- Cão que late não morde!
Você é um fraco. Um nada!
- Não sabe do que sou capaz.
- Vai fazer o que comigo?
Amarrar-me e obrigar-me a ficar acorrentada ao seu lado pela eternidade?
- Por favor, não vá.
Fique. Por mim!
- Você é um molenga.
Não serve nem para segurar mulher.
- Não me ofenda.
- Tem razão.
Não temos mais nada o que conversar.
- Por favor...
- Pare de falar, por favor!
Está me irritando.
Denise puxou a alça da mala para cima e a colocou no chão.
Foi puxando e caminhando até a porta da cozinha, passando por cima das pétalas e assoprando as velas.
- Adeus.
Ela rodou nos calcanhares, saiu e bateu a porta.
Edgar correu, porém ela já havia entrado e o elevador de serviço descia em direcção à garagem.
Ele agarrou-se à porta do elevador.
Chorou sem parar.
Soluçava e sentia uma dor que mal podia explicar.
O peito parecia estar estraçalhado.
Deixou o corpo escorregar e deslizar pela porta até parar no chão.
- Ela não pode me deixar. Não pode.
Depois de uns minutos levantou-se, procurou se recompor e olhou para os lados para ver se algum vizinho tinha visto a cena.
Nada. Entrou no apartamento e mal fechou a porta.
Sentiu outra dor no peito sem igual.
- Denise é o amor de minha vida.
Sem ela esta casa não tem vida.
O rapaz foi se arrastando pelos cómodos e por fim se jogou pesadamente sobre o sofá, as mãos seguravam a cabeça, que doía sem cessar.
- Ela não pode me deixar, ela não pode me deixar - repetia.
As horas foram passando e Edgar não conseguia estancar o choro.
Estava desesperado. O que fazer?
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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 25, 2015 8:41 pm

Amava Denise com toda a sua força.
Ela era a mulher de sua vida.
Não conseguia ver-se ao lado de outra mulher.
Tampouco conseguia ver a sua esposa ao lado de outro.
Era pura fixação, puro apego, uma paixão desenfreada e sem o mínimo de equilíbrio emocional.
Isso que ele sentia por Denise não era amor.
Edgar não sabia disso.
Confundia apego, dependência e carência afectiva com amor.
Ele estava num estado de fazer dó.
De repente, levantou-se e caminhou até a varanda.
Olhou para baixo.
Pensou em se atirar lá de cima.
Hesitou:
- Não. Não tenho coragem.
Depois, voltou até a cozinha e abriu outra garrafa de vinho.
Bebeu até a metade.
- Denise não pode me deixar. Não pode!
Disse isso várias vezes em alto e bom som.
Andou pelo apartamento e cada cómodo lhe trazia uma lembrança agradável.
Moravam lá desde o casamento.
Ele fizera todas as reformas que ela quisera que ela desejara.
Tudo bem que a mãe escolhera os móveis, mas, no geral, o apartamento tinha ficado a cara dela.
A esse pensamento o jovem chorava mais ainda.
O dia estava nascendo e Edgar não conseguia pregar o olho.
Empanturrou-se de castanhas, damascos e nozes.
Escutou o interfone tocar, mas não quis atender.
O rapaz estava muito perturbado das ideias.
Os primeiros raios de sol atravessaram as persianas e atingiram a sala; ele correu mais uma vez para a cozinha.
O relógio marcava dez minutos para as seis da manhã.
- Dane-se. Não vou trabalhar.
Ele bebeu mais um tanto, outro tanto e, enquanto ingeria a terceira garrafa de vinho, tropeçou e caiu no chão.
A garrafa veio junto e espatifou-se.
Edgar olhou para os cacos de vidro e pensou em cortar os pulsos.
- Isso é coisa de mulher!
Tenho de pensar numa outra forma de acabar com toda essa dor.
Levantou-se, apoiou um das mãos no granito da pia.
Foi até a área de serviço pegar vassoura e pano para limpar a sujeira.
Ao abrir o armário sobre o tanque, seus olhos fixaram no rótulo: veneno para rato.
Embora fosse quase impossível um rato aparecer no apartamento, tal produto no armarinho era coisa de Delis.
Um vizinho havia comprado um hamster para o filho e certa vez o bichinho escapara e fora parar na cozinha de Edgar.
Delis ficara apavorada e comprara o veneno, mesmo depois de Edgar explicar-lhe várias vezes que aquele rato branco era inofensivo e não tinha nada a ver com as ratazanas de esgoto.
Um brilho sinistro perpassou pelos seus olhos tristes e inchados de tanto chorar.
- Veneno de rato.
É tóxico e mortal.
Ele até escutou uma vozinha amiga lhe pedir:
- Por favor, não faça essa besteira.
- Minha vida sem Denise não tem sentido.
- Você é jovem e pode ter uma nova chance, outra vida amorosa pela frente.
Você ainda pode ser feliz.
- Não posso. Não quero.
Denise é a mulher da minha vida.
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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 25, 2015 8:41 pm

- Pense, não faça besteira.
Reflicta. Tudo isso vai passar, inclusive essa dor.
- Não.
- Por favor, Edgar...
Ele afastou os pensamentos com as costas das mãos.
- Já disse não!
- Mas...
- Chega! - bramiu.
Edgar pegou a lata de veneno e voltou à cozinha.
Abriu nova garrafa de vinho e misturou com uma colher da substância tóxica.
Não teve mais tempo de raciocinar.
Bebeu o copo num gole só.
Sentiu um gosto amargo e fez careta.
Em seguida, levou as mãos ao estômago e seu corpo caiu sobre o chão da cozinha.
Logo, uma espessa camada de líquido de coloração indefinível escorria pelo canto de sua boca.
Adriano consultou o relógio.
Edgar já deveria ter ligado.
Era hábito o amigo dar uma ligadinha antes de sair de casa, só para informar de que estava a caminho da corrida.
Adriano não dormira direito à noite.
Tivera pesadelos e estava com estranha sensação no peito.
- Devo ter exagerado no jantar - comentou com a esposa, assim que pôs os pés para fora da cama.
- Sinto que devo ligar para Edgar.
- Por quê? Daqui a pouco ele me liga.
- Estou com uma sensação esquisita.
- Você e suas sensações esquisitas!
Logo cedo, amor?
Patrícia revirou-se na cama e apanhou um livrinho de orações sobre a mesinha de cabeceira.
Abriu ao acaso e leu uma frase.
Em seguida, fez sentida prece dirigida a Edgar.
- Não sei o que acontece, sinto que seu amigo não está bem.
- Impossível. Ele e Denise iam comemorar o aniversário de cinco anos.
Edgar estava feliz.
Com certeza a noite foi boa e ele ainda deve estar dormindo.
- Não sei, não.
- Edgar comprou até um ursinho para presenteá-la.
Ah, e lembra aquele passeio que fizemos com ele no Embu no mês passado?
- Sim.
- Na feirinha, Edgar comprou uma estátua de um casalzinho abraçado feita em madeira.
- Comprou o presente errado para a pessoa errada.
Denise odeia esse tipo de presente.
Não consigo imaginá-la agarrada a um ursinho ou a um casalzinho de madeira, contente e feliz.
Adriano riu.
- Confesso que eu também penso o mesmo.
Ele deu uma piscadela e continuou:
- ao menos aprendi com Edgar que nós também fizemos bodas de madeira.
Patrícia sorriu e beijou o marido delicadamente nos lábios.
- Nós não ligamos para datas.
Somos apaixonados e felizes.
Isso é o que importa, de verdade.
- Eu a amo muito.
- Eu também, querido.
- Se você visse como Edgar estava feliz com os preparativos!
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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 25, 2015 8:42 pm

- Denise não gosta desse tipo de demonstração de carinho.
Depois de tanto tempo Edgar ainda não aprendeu?
- Não sei querida.
Ele é um romântico incurável.
Edgar a ama de verdade.
- Aquilo não é amor, é apego.
Embora o mundo tenha evoluído em várias áreas, ainda somos analfabetos no quesito amor.
- Será?
- Veja ao seu redor, Adriano.
Muitas pessoas têm uma vida afectiva tosca, pobre, cheia de problemas.
Poucos são os que se sentem felizes de facto ao lado daquele que afirmam amar.
- É. Hoje há mais separações do que uniões.
As pessoas não ficam tanto tempo juntas.
- Não ficam porque não aprenderam a olhar para dentro de si e ver o que a natureza lhes deu: a imaginação!
- E o que isso tem a ver com sentimento, com amor?
- Tudo. Eu tenho lido e estudado sobre o assunto.
A nossa imaginação é funcional, permite-nos a capacidade de lidar com as formas.
Podemos imaginar o que quisermos.
- E isso não é óptimo?
- Depende - respondeu Patrícia, séria.
A imaginação pode ser responsável pelas piores tragédias humanas.
A loucura, a demência...
- Acha que Edgar está louco?
- Não. Não diria louco, mas ele não usa a imaginação com inteligência.
Esse é o trunfo de uma mente sadia.
Isso posto quem não souber amar, vai sofrer.
- Por quê?
- Porque a imaginação provoca reacções em nosso senso afectivo, que são a emoção e os sentimentos.
- Para mim é tudo a mesma coisa - disse ele enquanto terminava de se vestir.
- São bem diferentes, querido.
As emoções são nossos impulsos vitais, são o nosso combustível.
Elas são representadas, por exemplo, por raiva, entusiasmo, prazer, riso.
Já o sentimento é a satisfação, a realização, o gostar...
- Você deve fazer muito bem aos seus alunos.
Por que não tive uma professora de psicologia tão bonita e tão didáctica?
Ela beijou-o, piscou e continuou:
- É bom ensinar os jovens sobre os atributos do senso afectivo.
O equilíbrio afectivo é vital para uma vida harmoniosa, plena e feliz.
A imaginação está muito ligada ao domínio das emoções, porque é ela quem as provoca.
- Provoca de que maneira?
- Feche os olhos.
Adriano obedeceu.
- E agora, o que faço?
- Imagine você comigo numa praia deserta, num dia lindo de sol, com a água azul do mar numa temperatura bem agradável...
Adriano sorriu com malícia.
- Estou gostando da brincadeira.
- O que sente quando imagina a cena?
- Uma sensação agradável, boa, gostosa.
Um prazer indescritível.
- Viu? Você sentiu porque imaginou uma cena bonita, agradável.
Ela provocou suas emoções.
Agora imagine o seu time levando uma goleada do adversário!
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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 25, 2015 8:42 pm

- Não gostei - protestou ele, entre risos.
Não quero nem pensar numa possibilidade dessa.
- Porque agora sua mente projectou uma cena desagradável.
Nós acreditamos no que imaginamos.
Infelizmente, nosso querido Edgar acredita que amar é chorar, sofrer, fazer tudo pela amada, sem respeitar as próprias escolhas.
Ele perdeu a noção da realidade.
- Falando dessa maneira, fico até preocupado.
- Por essa razão, orar faz bem.
Vamos visualizá-lo bem, alegre, contente.
- Difícil imaginá-lo assim ao lado da Denise. Mas vou tentar.
Adriano fechou os olhos e lembrou-se de cenas felizes ao lado do amigo.
Depois, Patrícia emendou:
- Edgar está casado com a mulher errada.
Denise não tem nada a ver com ele.
- Também concordo.
Mas não podemos nos meter na vida deles.
- Claro que não.
Bom, eu vou até a cozinha preparar nosso café da manhã.
- Ainda é cedo, durma mais um pouco.
- Estou bem-disposta.
Tenho o dia cheio pela frente.
Embora vá dar aulas só na parte da tarde, tenho mercado e Banco para fazer.
- Quer ir comigo ao parque respirar um pouco de ar puro e dar uma caminhada, uma corridinha?
- Boa ideia.
Patrícia abraçou e beijou o marido.
Em seguida Adriano terminou de calçar o par de, foi até cozinha e tomou um copo de suco.
Prendeu o se IPOD no shorts, arrumou os fones de ouvido e logo depois ele e a esposa saíram caminhando até o parque do Ibirapuera, a poucos metros do prédio onde moravam.
Chegaram ao local de costume e nada de Edgar aparecer.
Adriano pegou o celular e ligou.
Tocou, tocou e nada.
Caía directo na caixa postal.
Ele deu de ombros.
- Vai ver a noite foi boa.
Só pode ter sido isso.
- Essa sensação esquisita me diz que há algo estranho.
Você é muito amigo do Edgar.
Vai ver ele não está bem.
- Não pode ser.
Se tivesse acontecido alguma coisa, ele teria ligado do mesmo jeito.
- Tem certeza, querido?
Adriano coçou a cabeça e lembrou-se do que amigo lhe falara antes de desligar o telefone:
- Sabe que não me atraso nunca.
Eu ligarei para você ante de sair de casa.
Vai ver só, amanhã, logo cedinho vamos correr juntos, faça chuva ou faça sol...
Patrícia nada disse.
Fez nova prece em favor a Edgar.
Sabia que se falasse novamente sobre a sensação esquisita, Adriano iria começar uma discussão.
Ela era sensitiva, além de estudiosa dos problemas humanos.
Percebia claramente as energias ao seu redor.
Tinha certeza de que Edgar não estava bem, mas fazer o quê?
- Em determinados momentos, a prece é a nossa única contribuição.
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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 25, 2015 8:42 pm

Patrícia sorriu para o marido e iniciaram a caminhada.
Adriano continuava a sentir aquela dor esquisita.
Não se tratava de dor física, mas um incómodo, uma sensação estranha de fazer gosto.
Procurou afastar os pensamentos com as mãos.
- Estou parecendo minha mulher.
Para a Patrícia, toda sensação desagradável é um aviso.
Que coisa mais besta - disse para si, enquanto ligava seu tocador de músicas e deixava-se envolver, cantarolando uma canção.
Adriano esboçou leve sorriso, encostou-se a uma árvore e começou a fazer sua série de alongamentos.
Patrícia continuou sua caminhada e Adriano, depois, juntou-se a um grupo de amigos que se reuniam para correr no mesmo horário praticamente todos os dias.
- Você não está com a cara boa - comentou um colega.
- É, parece que não dormiu nada - ajuntou outro.
- Cadé o companheiro de corrida?
Adriano não respondeu de pronto.
- Por onde anda Edgar? - indagou outro.
Ele procurou disfarçar a animosidade.
- Tinha um jantar com a esposa e iam esticar a noite numa boate - mentiu.
Creio que está tendo o sono dos justos.
Enquanto fazia seu exercício matinal ele bem que escutou uma voz amiga:
- Pense coisas boas sobre Edgar.
Ele precisa receber boas vibrações.
Por mais que Adriano tentasse, a imagem de Edgar não saía de sua mente.
Ele sorriu ao imaginar uma cena vivida tempos atrás em que ambos riam a valer.
No flat, Denise espreguiçava-se enquanto seu celular a despertava com uma música romântica.
- Preciso mudar essa música.
Coisa do Edgar. Que brega!
Ela levantou-se, calçou as pantufas e foi para banheiro.
Estava com sono, dormira pouco, contudo prometera chegar ao aeroporto às seis da manhã conforme combinado com Leandro.
Por essa razão colocara o celular para despertá-la as cinco em ponto.
Ainda estava escuro quando ela saiu do banheiro e arrumou-se com capricho.
Deu-se conta de que os sapatos de salto ficaram no apartamento.
Esquecera-se deles. Também, depois de toda aquela cena tétrica com Edgar, o que poderia fazer?
- Ai que raiva! Fiquei dando trela para aquele infeliz e esqueci os meus saltos.
Eu preciso desse sapatos.
Não vou viajar sem eles e sandália rasteirinha? Eu? Nem morta.
Denise imediatamente ligou para sua assistente.
Caiu na caixa postal.
Ela ficou irritada e ligou novamente.
Marina atendeu ao telefone com a voz pastosa.
- Pois não?
- Você deve me atender tão logo eu ligue.
- Desculpe, mas quem fala? - indagou Marina ainda sonolenta.
- Marina, sou eu.
Ela estava com sono, no entanto, assim que reconheceu a voz da chefe acordou de imediato.
Marina pigarreou e disse:
- Olá, Denise.
Aconteceu alguma coisa?
- Claro que aconteceu.
Por que diabos eu iria ligar à uma hora dessas para você, criatura?
Para saber se teve bons sonhos?
Marina meneou a cabeça para os lados.
Como poderia esquecer as grosserias da chefe?
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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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