O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 02, 2015 9:13 pm

Chega de sofrer por amor.
- Fico feliz em saber.
- Como anda a Denise?
- Eu já falei que não gosto de misturar as estações.
Por que falar dela?
Eu a vejo como chefe, e uma chefe chata.
Não tenho como fazer comentários positivos acerca dela.
Edgar sorriu.
- Fique sossegada.
Eu estou me libertando dela.
- Pensei que já estivesse livre.
- Até estou. Assinei os papéis da separação.
Num primeiro momento me senti muito mal, precisei fazer sessões com a Dra. Vanda durante a semana toda.
Foram cinco dias de sessão.
Entendi que era o fim e que deveria aceitar.
Afinal, quando um não quer, dois não fazem.
Não é esse o ditado?
- É sim.
Diminuíram o passo e Marina consultou o relógio.
- Preciso me alongar.
Está na hora de ir para a empresa.
- Eu queria muito me sentar frente a frente com Denise.
- Ligue para ela.
- Mudou de celular.
- Vá até a empresa.
Ela não vai ter como fugir.
- Você me deu uma boa ideia.
Será que pega bem ir até o local de trabalho?
- Se ela não o atende e você quer porque quer falar com ela, creio que ir até a empresa não seja tão ruim.
Assim você acaba com essa história de vez, coloca um ponto final.
Edgar animou-se.
- Vou me arrumar e, antes de ir para meu trabalho, passarei na empresa.
- Ela não está. Foi para o Rio de Janeiro ontem e não voltou ainda.
Deixou um recado grosso e estúpido no meu celular, afirmando que retorna hoje após o almoço.
- Você me faria uma gentileza?
- Qual?
- Poderia me avisar quando ela chegar?
- Não gosto disso - disse Marina, com veemência.
- Por favor. É uma última chance de poder trocar algumas palavras com Denise.
Só peço que me ligue quando ela chegar, mais nada.
- Está certo.
Eu farei isso, contudo espero que não se acostume.
- Não vou.
- Já lhe disse antes que não sou pombo-correio ou garota de recados.
- Combinado. Prometo que vai ser a última vez que lhe peço algo dessa natureza.
Você é tão legal, Marina.
Ela deu um sorrisinho amarelo e ele afastou-se.
Patrícia aproximou-se e foi se alongar com Marina.
- O que foi?
- Esse Edgar.
Acredita que ele ainda sente alguma coisa pela ex-esposa?
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Ave sem Ninho

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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 02, 2015 9:14 pm

- Ele disse alguma coisa? - indagou Patrícia.
- Não directamente.
Mas se percebe no jeito que fala.
Ele ainda fica todo animadinho.
Como pode um homem ser largado e ainda morrer de amores pela mulher?
- É desequilíbrio afectivo.
Edgar nunca amou de verdade.
- Ele era louco pela Denise.
- Mas não é amor.
Está claro que o que ele sentiu ou sente nada mais é do que uma paixão, um foguito.
Edgar foi se acostumando com Denise, foi se acomodando na relação.
- Será?
- Marina, muitas pessoas são dependentes emocionais.
Elas acreditam que aquele que escolheram para amar será a sua tábua de salvação.
Entregam o seu poder, a sua vontade ao outro assim, num estalar de dedos.
- Eu nunca faria isso.
Tenho a minha dignidade.
- Muitos não a têm.
Preferem viver de migalhas afectivas, preferem sofrer, mas não largam o parceiro.
É o velho ditado: há pessoas que preferem ficar mal acompanhadas a sós, e acham que ruim com ele, pior sem ele.
- Eu nunca ficaria ao lado de quem me despreza ou não me trata bem.
- Você é diferente. Parecida comigo.
Nós sabemos do valor que temos como mulheres.
Somos fortes, independentes, queremos viver uma relação afectiva séria, prazerosa, que nos dê satisfação.
- Eu não estou desesperada atrás de homem.
- Desesperada não, entretanto eu percebo claramente que você está a fim do Edgar.
- Para você não posso mentir.
Tem se tornado uma boa amiga nesses meses.
- Estou enganada?
- Não está, Patrícia.
Eu me apaixonei por ele.
- E por que não se declara?
- Não.
- Por que não? Ele é descompromissado, separou-se legalmente.
É um homem livre.
- Edgar pode ser um homem livre aos olhos da lei.
Mas ainda está preso em Denise.
- Porque até agora ninguém apareceu para ele e disse:
Ei estou gostando de você!
- E acha que vou fazer isso?
- Pois deveria. Edgar é um homem interessante.
Tudo bem, não faz o meu tipo, é meio sisudo, não me agrada.
E, aqui entre nós, eu sou apaixonada pelo meu Adriano.
Mas se Edgar toca o seu coração, o que está esperando?
- Vou pensar no assunto.
- Promete?
- Sim. Vou olhar aqui para dentro - apontou para o peito - e ter uma conversa com esse coração inquieto.
Na tardinha daquele dia, Denise ligou para Marina a fim de a assistente fazer as alterações na sua passagem aérea.
Marina estava almoçando fora da empresa, não havia sinal suficiente e caiu directo na caixa postal.
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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 02, 2015 9:14 pm

Denise bufou:
- É só eu sair um pouco que ela deixa de me atender.
Não está no escritório e o celular não atende.
Ela discou de novo, Marina não atendeu e ela deixou um recado nada simpático na caixa postal.
Jofre entrou no quarto, sentou-se na cama e a beijou nos lábios.
- Vai embora mesmo, mina?
Ela inclinou o corpo para frente e passou o lençol pelo corpo, cobrindo o corpo nu.
- Estou tão leve!
Depois de me amar na piscina e me trazer para a cama, eu não tenho vontade de sair daqui.
Ele riu.
- A tarde está muito boa. Fica.
- Vou ficar. Estava aqui tentando avisar a idiota da minha assistente, porém ela não me atende.
- Você se esquenta à toa.
- Eu?!
- É. Porque não demite ela?
Arrume outra melhor.
- Você é tão prático, Jofre.
Nada como um homem de atitude para me ajudar.
- A gente gostamos de você.
- Eu também - respondeu ela, espreguiçando-se e bocejando um pouco.
- Estamos com um apetite danado.
Passamos do horário de almoço faz algum tempo.
Vamos descer para o lanche.
Pedi para os empregados fazerem tudo para ti agradar.
- Você é tão gentil.
Eles beijaram-se. A paixão voltou forte e eles amaram-se novamente.
Depois de uma boa chuveirada, Denise colocou um robe de seda branco - presente de Jofre - e dirigiu-se para o lanche.
O apartamento era bem espaçoso, uma cobertura com vista indevassável para a praia de São Conrado.
O facto era que Jofre fazia parte do grupo chamado novo-rico, do tipo com muito dinheiro no bolso, e, em contrapartida, com um gosto bem duvidoso.
Tudo era extravagante, com cores que não combinavam entre si, tapetes e quadros muito feios.
O apartamento tinha uma decoração espalhafatosa e sem cuidados.
- Falta aqui um toque feminino.
Vou dar uma geral neste apartamento - disse, enquanto passava pela sala.
Depois Denise deu de ombros.
Afinal de contas, estava mais interessada no homem do que no gosto dele.
Nem se importava mais com os erros crassos que ele cometia ao falar.
Até achava bonitinho.
Denise caminhou até a varanda onde a mesa fora posta.
Sentou-se e comeu com vontade.
Jofre aproximou-se e a beijou.
- Está com fome!
- Estou faminta.
Você acabou com minhas energias!
Eles riram.
- Estamos amarradão em você.
- Eu também gosto muito de você, Jofre, mas sabe que não podemos ter nada sério.
- Por que não?
- Porque você não é homem de se prender a uma mulher só.
- No momento temos só você.
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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 02, 2015 9:14 pm

- No momento...
- Pois é. O momento é o que importa certo?
Hoje estamos se amando. Isso é o que vale.
Amanhã a Deus pertence.
- Por essa óptica até que vale viver essa aventura.
- Não é mais casada.
- Isso é facto.
Sou uma mulher livre, aos olhos da lei e aos olhos dos homens.
- E aos olhos de Deus e do Diabo - ele emendou.
- É. Sou livre e desimpedida.
Ainda sinto uma pontinha de ódio daquele casalzinho. Mais nada.
- Ainda presa nisso?
Foi até a delegacia, cumpriu sua parte.
A história se acabou.
- Difícil Jofre.
Já se sentiu passado para trás?
- Eu?
- É. Já se sentiu enganado, ludibriado?
Jofre não respondeu de pronto.
Virou o rosto na direcção do mar.
Seus olhos verdes perderam-se naquela vista deslumbrante.
Foi obrigado a voltar alguns anos no tempo.
Jofre crescera um menino problemático.
Viu o dia em que o pai, um italiano bêbado e sem escrúpulos, espancou a mãe, pegou o pouco dinheiro que tinham guardado e sumiu com uma menina novinha lá da redondeza.
Largou a família e sumiu do mapa.
Consuelo pediu ajuda a um parente distante.
Ganhou o dinheiro da passagem para São Paulo.
Ela pegou o filho e subiram num pau de arara - espécie de caminhão que transporta nordestinos para o Sudeste e Sul do país.
Depois de uma viagem de dias sobre o pau de arara sacolejante, quente e apinhado de gente, passando fome e sede, chegaram moídos em São Paulo.
Jofre não tinha ideia do dia ou do mês, mas sabia o ano exacto em que botara os pés na capital paulista: 1980.
O menino, de dez anos de idade, surpreendeu-se com aquele agito todo e teve medo da cidade grande.
Aquilo era muito diferente do sertão nordestino.
Jofre ficara impressionado com a quantidade de gente andando nas ruas, dos edifícios que acreditava tocarem o céu.
Sentiu medo, agarrou-se no braço da mãe, sentindo-se um estranho naquele mundo tão diferente de sua realidade.
Foram parar num cortiço húmido, quente e fedido na região central da cidade.
Consuelo arrumou emprego de doméstica, o dinheiro era bem pouco, mas eles tinham ao menos um tecto para dormir e se proteger do frio e um prato de comida por dia, geralmente uma mistura de feijão com farinha.
Jofre engraxava sapatos na Praça da Sé.
Acordava cedinho, tomava um copo de café e um pão duro e seco de dias atrás.
Para melhorar o sabor do pão, que mais parecia uma pedra, o menino o mergulhava no copo com café.
Depois, ele saía e ia andando até a praça.
Ganhava uns troquinhos e com um dos engraxates aprendeu a aspirar cola de sapateiro.
Jofre entrou em êxtase.
O produto deixava-o leve, anestesiado.
Parecia não sentir as dores do mundo.
Por alguns momentos ele podia ficar em paz consigo próprio, vivendo numa outra dimensão.
Ele viciou-se em cola.
Depois, vieram as drogas mais pesadas.
Consuelo desesperava-se, tentava ajudar o filho, mas não tinha muito que fazer.
Iriam recorrer a quem? Eram muito, mas muito pobres.
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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 02, 2015 9:15 pm

Num dia, com uns trocados no bolso e sob o efeito da cola, Jofre entrou num cinema voltado para o público adulto no centro da cidade.
Queria assistir aos filmes proibidos, aqueles de sacanagem, que os companheiros tanto diziam que ele deveria assistir.
Anestesiado pela cola de sapateiro, o menino entrou na sala de exibição errada.
Quando a tela começou a projectar as imagens, ele fixou os olhos e só os desviou quando as luzes se acenderam e a sessão acabara.
Tratava-se do filme Pixote - A Lei do Mais Fraco, que tinha acabado de estrear e fazia grande sucesso de crítica e público.
O filme retratava a vida de um garoto da mesma idade que Jofre.
Pixote era um menino de rua recolhido num reformatório para menores.
Lá, faz amizade com outros meninos.
Numa rebelião, essas crianças fogem e formam uma espécie de família, vivendo de pequenos assaltos, lutando pela sobrevivência.
O efeito da cola havia passado e Jofre deixou as lágrimas correrem livremente.
Assistiu à próxima sessão e depois a mais outra.
Saiu do cinema cabisbaixo e triste.
- Eu vou acabar como esse garoto - disse para si.
Jofre praticou pequenos furtos, depois se envolveu num assalto e foi parar na FEBEM - Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor - na época, uma autarquia cuja função era executar medidas sócio-educativas aplicadas pelo Poder Judiciário aos adolescentes autores de actos infracionais.
Ele ficou lá por mais de um ano.
Depois de uma rebelião, ele e outros meninos fugiram.
Jofre voltou para casa e descobriu Consuelo grávida.
- O que é isso, mãe?
- Estou esperando um filho.
- O pai voltou? - indagou ele, temeroso.
- Não.
- Mas você está grávida!
Consuelo estava cheia de vergonha.
- Aconteceu.
- Você se deitou com outro homem?
- Foi.
- Quem é ele, mãe? Quem? - Consuelo não respondeu.
Eu exijo saber!
Ela desconversou.
- O que faz aqui? Fugiu da FEBEM?
- Fugi daquele inferno.
- Tudo vai melhorar meu filho.
- Você me enganou.
Não merece minha confiança.
Ela tentou abraçá-lo e Jofre se esquivou.
O relacionamento deles nunca mais foi o mesmo.
Consuelo enchia-se de culpa.
Acreditava que ela não tinha sido uma boa mãe e por essa razão ele crescera daquela forma.
Marina nasceu e o ambiente em casa ficou péssimo.
Jofre olhava para a irmã e tentava imaginar quem seria o pai.
Infernizava a pequena por qualquer motivo e um dia até bateu em Marina, machucando-a.
Um dia, depois de uma discussão com Consuelo, saiu de casa. Jofre sumiu.
Envolveu-se com o crime pesado e foi levado por uns traficantes para viver no Rio de Janeiro.
Instalou-se em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, e, conforme os anos foram passando ele foi se tornando um traficante temido e respeitado.
Muitos anos se passaram desde aqueles dias de 1980, mas a dor de sentir-se enganado e traído continuava viva, pulsando em seu peito apertado e magoado.
Denise precisou cutucá-lo para que ele lhe desse ouvidos.
- O que foi? - perguntou ela.
- Hã?
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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 02, 2015 9:15 pm

- Parece que você sumiu por instantes.
Foi parar na lua?
Jofre balançou a cabeça para os lados.
- A gente se perdemos no tempo.
Nada de mais - ele sorriu e perguntou:
- O que foi que disse mina?
- Que eu adoraria me vingar do desgraçado.
Leandro me largou feito um cão sem dono.
Eu não mereço ser passada para trás assim, dessa forma.
- O que pensa fazer? - indagou ele enquanto sorvia um gole de suco de laranja com vodca.
- Sei lá. Pensei em tanta coisa!
Tanta barbaridade!
- A gente iríamos sugerir apagar a esposa, mas se você quer que ela sofra, não vai adiantar morrer.
- Estou sem saber o que fazer.
Só quero me vingar. Depois, sigo minha vida adiante.
- Disse que ele ama a mulher e o filho.
- É. Um fedelho que vive grudado com o pai.
Uma coisa! Ficávamos juntos, contudo o fim de semana era sagrado.
Leandro sempre corria para ver e ficar com o filho.
- Já sabe o que fazer.
- Como assim? - perguntou Denise, sem entender.
- Você diz que quer se vingar desse homem, certo?
- Sim.
- E também quer que a mulher dele sofra né?
- Exactamente.
- Para atingir os dois ao mesmo tempo, marido e mulher, você tem que atacar o filho.
A gente já tínhamos comentado contigo do sequestro, lembra?
Denise havia rejeitado a ideia por medo.
Nunca pensara chegar tão longe.
Mas que risco corria? Nenhum, acreditava.
Jofre era homem de vida marginal, experiente e malandro, poderia ajudá-la a dar um susto na família.
Ela levantou-se excitada, abraçou e beijou Jofre várias vezes na boca.
- Você é demais! Precisamos atacar esse menino.
Assim, tanto Leandro quanto Letícia vão sofrer à beça.
Mas como fazer?
- Isso é fácil.
Somos bem relacionado, temos uns amigos e podemos apagar o menino.
- Matar o fedelho?
- É.
Denise mordiscou os lábios.
- Não precisamos chegar a tanto.
Só queria um susto, um bom susto.
- Sequestro o menino por uns dias.
- Uns dias?
- É. Podemos sequestrar o garoto e levar ele para um esconderijo.
A gente conseguimos fazer isso rapidinho.
Se vai te deixar feliz, fazemos.
- Eu quero. Quero muito.
Adoraria ver Leandro e Letícia desesperados.
Acho que essa é a forma de me vingar.
Como podemos fazer?
Jofre sorriu e começou a falar.
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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 02, 2015 9:15 pm

Foi explicando à Denise como podia sequestrar o filho do casal.
Pediu que ela juntasse informações sobre a vida da família:
onde morava, qual a escola que o menino frequentava quem eram as empregadas, se havia motorista, absolutamente tudo, Tim-Tim por Tim-Tim.
Denise respondia tudo com os olhos cheios de rancor:
- Eles vão pagar caro por toda humilhação que me fizeram passar!
Depois da leitura de um trecho de O Evangelho Segundo o Espiritismo, Mila pediu que os presentes dessem as mãos, formando um círculo, e fez sentida prece de agradecimento.
Terminada a prece, ela sentiu ligeiro bem-estar.
Havia dias estava com uma sensação esquisita no peito e não conseguia identificar o porquê.
No finzinho da reunião espiritual na casa de Letícia, que já ocorria com regularidade havia alguns meses, foi que ela se lembrou:
fazia dias que vinha sonhando com o pai.
Sempre o mesmo sonho.
Ainda agora, na hora de tomar o copo com a água - fluidificada pelos amigos espirituais durante o Evangelho no Lar - lembrou-se com maior nitidez de tudo o que vinha sonhando.
Mila saía do corpo físico, andava pelo quarto e seu perispírito atravessava a parede.
Numa fracção de segundos ela chegava perto de um acidente, os aviões em chamas, pessoas mortas e carbonizadas de um lado, outras sentindo terrivelmente o corpo arder em chamas e outras ainda clamando por socorro.
Uma cena muito triste.
Ela levava a mão à boca para abafar o grito de pavor.
Logo em seguida, o pai aparecia do meio dos escombros, cheio de fuligem sobre o corpo, as roupas rasgadas, a pele bem queimada.
Mila não conseguia se mover, tamanho medo. Fechava os olhos.
- Não se assuste, sou eu, papai.
Ela escutou a voz familiar e abriu os olhos.
Apertou-os para enxergar melhor.
- Papai? Você?
- Sim, querida, sou eu.
Mila deu-se conta do acidente que vitimara o pai e a mãe, muitos anos atrás.
- Você morreu neste acidente!
Faz muitos anos.
- Sim, faz.
- Estou de volta ao passado, é isso?
- Não. Eu plasmei cenas do passado para você saber que sou eu de verdade.
- Você as recriou?
- De certa forma, sim, porquanto foi à única maneira de você saber que sou eu, minha filha.
O acidente aconteceu há muito tempo, é verdade, todavia eu precisei recriar algumas cenas para que você soubesse que não se trata de um espírito impostor.
Ambos abraçaram-se.
- Quanta saudade, papai.
O espírito sorriu.
- Também sinto muita saudade.
Antes você sonhava comigo, encontrávamo-nos e depois que retornava ao corpo físico não se lembrava de nada.
Hoje está mais lúcida, tem estudado bastante e evidentemente volta ao corpo físico com a memória mais fresca.
- Comento com Letícia que desde que passamos a nos reunir semanalmente para as orações, sonho com você, mas é algo que não me lembro, só sinto.
Agora, não. É tudo tão real!
- Mas é real, filha.
Não está falando comigo?
- Tanto tempo sem o seu abraço!
- Entendo que a separação foi benéfica e muito importante para o nosso crescimento espiritual.
- Pode acreditar, já faz algum tempo, tenho dado incrível valor à família.
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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 02, 2015 9:16 pm

- Esse foi o motivo maior para que eu e sua mãe não compartilhássemos do seu crescimento.
Seu espírito queria viver sem os pais.
Ela o abraçou de novo, sentindo o perfume que ele usava toda vez que fazia a barba, um suave cheiro de lavanda.
Uma lágrima escorreu pelo olho.
Mila secou-a delicadamente com os dedos.
O pai lhe estendeu as mãos e imediatamente a conduziu até um lindo jardim.
O cheiro das flores perfumadas era inebriante.
Mila sorriu e apertou a sua mão.
Na Terra, em última encarnação, ele fora Artur, pai de Mila.
Depois do seu desencarne, no plano espiritual, preferiu ser chamado pelo nome que tivera numa vida anterior a esta: Leónidas.
Mila estava emocionada.
- Você me faz tanta falta.
Cresci sem você e mamãe por perto.
- Seu espírito precisava valorizar a família.
Havia algumas encarnações que você não dava o devido valor aos seus familiares.
Antes de nascer, pediu para encontrar uma família que só tivesse você como filha e que estivessem destinados a morrer cedo.
Daí você nasceu minha filha.
- Então você sabia que iria morrer naquele acidente horrível?
- Em total consciência, não.
Mas meu espírito sabia.
- O acidente já estava previsto?
- De forma alguma.
Antes de reencarnar, dependendo do nosso grau de lucidez, podemos traçar a nossa vida futura na Terra.
Existem departamentos no mundo astral que cuidam disso, são os chamados Departamento de Reencarnação, subordinados ao Ministério do Auxílio.
- Não sabia que o mundo espiritual era tão organizado.
Leónidas abriu largo sorriso.
- Somos muito organizados, até mais do que na Terra.
Mila interessou-se.
- E daí, o que acontece nesses departamentos?
- O espírito é atendido por um cooperador técnico, uma espécie de funcionário capacitado do departamento.
Há a chance de se conhecer a família, pedir para nascer em determinado país, claro que tudo depende do grau de evolução do espírito requerente.
Eu sabia que iria morrer jovem, mas não imaginava a maneira como iria desencarnar.
O processo de morte é muito complexo e a morte de cada um está relacionada ao conjunto de crenças e valores do espírito, dentre outras peculiaridades que ainda não temos maturidade espiritual para entender.
- Quer dizer que a vida aproveitou aquele acidente para levar você e mamãe de volta ao mundo espiritual?
- Com certeza.
- Como ela está?
Mal me lembro de seu rosto.
- Você era muito pequena.
Nem de mim deveria lembrar-se.
- Por que me lembro bem de você e não me lembro quase nada dela?
- Porque eu e você estamos ligados por laços de amor, de amizade, há muitas vidas.
Sua mãe é uma querida amiga minha não tinha vínculos com você.
Agora, há um amor de mãe e filha que foi germinado nesta vida e que talvez vocês aprofundem em futuras existências.
Conversaram bastante e, no fim, Mila confessou:
- Essa sensação estranha diminuiu, contudo não abandona o meu peito.
- Momentos difíceis estão por vir.
- Algo grave?
Leónidas procurou tranquilizá-la.
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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 02, 2015 9:16 pm

- O que é grave diante dos olhos de Deus?
Veja minha filha, tudo é aprendizado, tudo é experiência.
- Fico aflita só de pensar que algo ruim possa acontecer comigo ou com as pessoas de quem gosto.
- Faça prece.
- E o que mais?
- Faça prece - Leónidas repetiu.
- Só?
- Você não tem ideia da força que a prece tem.
Uma ligação com Deus ou com os amigos espirituais do plano superior, por menor que seja, desde que sincera e verdadeira, tem uma força incrível e pode, inclusive, mudar o curso dos acontecimentos.
Muitas tragédias no orbe terrestre foram evitadas por conta de oração.
- Não sinto que algo vá acontecer comigo.
- E não vai.
Você já conheceu alguém que lhe quer muito bem.
Serão muito felizes.
Mila imediatamente lembrou-se de Carlos Alberto.
No entanto, eles só tinham saído algumas vezes para jantar.
Eram bons amigos, mais nada.
Ela esboçou sorriso ténue e o pai emendou:
- No momento vim para lhe pedir que fique em prece, sempre que puder.
Ore bastante, qualquer parte do dia ou da noite.
Entre em contacto com Deus toda vez que sentir vontade.
Você precisará estar em total equilíbrio emocional a fim de ajudar aos seus amigos.
- Eu tive mesmo a impressão de que seja algo relacionado com Letícia e sua família.
Leónidas desconversou.
- Está na hora de eu ir.
Não se esqueça de rezar.
O poder da oração vai ajudar muito a todos os envolvidos.
Leónidas abraçou a filha com enorme carinho.
Beijou-a na testa e sumiu.
Ela voltou imediatamente ao corpo físico e despertou ainda sonolenta.
Não se recordava de muita coisa, a não ser sobre o poder da oração.
Abriu os olhos e encarou os amigos ao redor.
- Desculpem, acho que cochilei um pouquinho.
Ricardo levantou-se e a beijou.
- Obrigado por nos fazer tão bem.
Mila emocionou-se, mas sentiu novamente a sensação esquisita no peito.
Então o problema era com Ricardinho!
Agora ela lembrara-se de parte da conversa com o pai.
Ricardo poderia correr risco.
Mas que tipo de risco?
Ela procurou ocultar a angústia.
Beijou-o também e pediu:
- Não quer pedir para Iara nos fazer uns lanchinhos?
- Pedirei agora mesmo.
Estou com fome! Com licença.
Ela o encarou e percebeu algo estranho, uma luz escurecida em torno do menino, como se fosse uma energia diferente, mais densa, que tentava se aproximar de Ricardo.
Mila fechou os olhos e por alguns instantes ligou-se aos amigos espirituais.
Fez rápida, porém sentida prece.
O ambiente tornou-se novamente mais leve e tranquilo.
- Adorei sua prece - comentou Leandro.
Foi sincera e tocou meu coração.
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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 02, 2015 9:16 pm

- O meu também - emendou Letícia.
Tenho me sentido mal nos últimos dias.
Embora esteja enjoada, meu coração serenou um pouco.
Tive a nítida sensação de que alguém estivesse querendo nos fazer mal.
- Imagine meu bem! - tornou Leandro, alisando delicadamente a mão sobre o braço dela.
Nada de mal pode nos acontecer.
Leandro levantou-se.
- Vou ver se os lanches estão à mesa.
Assim que ele saiu, Mila indagou:
- Foi ao médico?
- Fui. Ele pediu uns exames, mas tudo de rotina.
- Se precisar, eu posso acompanhá-la.
Letícia sussurrou à amiga:
- Acho que o bebé vai nascer logo.
- Sério?
Mila teve um lampejo e lembrou-se da conversa com o pai.
Tudo veio à sua mente, cada detalhe.
Agora ela ficara em dúvida:
será que o problema era com Ricardinho ou com o bebé que estava prestes a nascer?
Ela suspirou e abraçou Letícia.
Falou sem pensar:
- Essa criança vai trazer muita felicidade para vocês.
Letícia abraçou-se a ela novamente.
Sentiam carinho sincero e especial uma pela outra.
Seus corações estavam ligados havia muitas vidas.
Numa vida anterior a esta as duas foram primas.
Foram criadas juntas, mas Mila, não suportando as regras rígidas impostas por sua família, fugiu com um estrangeiro e fora morar em terras distantes.
Por muitos anos corresponderam-se por carta.
Letícia sabia que a prima tinha problemas de relacionamento com a família - não se dava bem com os irmãos, mas entendeu e nunca sentiu nenhuma mágoa pelo sumiço da prima.
Sentia, de verdade, que Mila gostava dela e precisava viver longe dali.
Anos depois, muito velhas, tiveram a chance de se reencontrar e reviver alguns momentos de alegria...
Depois do abraço afectuoso, as amigas deram-se as mãos e foram até a copa para o lanche.
Edgar melhorou sobremaneira com as constantes sessões de terapia.
Aprendera a se dar valor, a elevar sua auto-estima.
Percebera, com a prestimosa ajuda da Dra. Vanda, que ele era mais importante do que Denise, que ele deveria ser amigo de si próprio em primeiro lugar e que o casamento de ambos jamais teria chances de um final feliz; afinal de contas, para um relacionamento durar bastante, é necessário que os envolvidos queiram e desejem, de coração, que ele dure.
Obviamente, ele teve de aprender a abandonar o sonho de querer viver a mesma história que seus pais.
Edgar precisava viver a sua vida, do seu jeito, de acordo com a sua personalidade e com as necessidades do seu espírito.
Depois de alguns meses, as sessões diminuíram para uma vez por semana.
Vanda até quis lhe dar alta, contudo ele estava adorando conhecer a si mesmo cada vez mais.
Isso o fortalecia e o tornava um homem mais confiante, firme e, porque não dizer, mais bonito.
Sim. Edgar parecia estar mais bonito. Trocara os óculos por lentes de contacto.
Os cabelos estavam mais curtos, cortados à moda.
O rapaz adoptara um charmoso cavanhaque e percebia, envaidecido, que despertava a atenção das mulheres.
Aproveitou-se dessa nova fase e começou a sair com algumas moças.
Nada de compromisso sério.
Ainda sentia que precisava de certo tempo para iniciar e se entregar a um novo relacionamento afectivo.
Ele bem que tentou entrar em contacto com Denise.
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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 03, 2015 8:52 pm

O tempo foi passando, a vontade de conversar com ela foi diminuindo e agora ele não mais queria saber de nada que estivesse relacionado ao seu tempo de casado.
Adoptara uma postura tão firme e de auto-estima tão alta que jogara no lixo o porta-retratos com a foto do casamento de ambos - aquela foto que ele tanto amava e beijava sempre.
O que Edgar ainda não entendia é que ele deveria sentir-se bem consigo próprio e não ter de mostrar ao mundo que era o homem mais confiante do Universo.
Aos poucos, ele estava - e iria - aprender a lição da verdadeira auto-estima.
Foi numa noite, saindo de um badalado restaurante na região dos Jardins e acompanhado por uma loira de fechar o comércio, que ele ficou frente a frente com Denise.
Ela estava com Inácio.
Ao vê-lo, Denise procurou fingir não notar sua presença e baixou os olhos.
- Como vai, Denise?
Ela levantou a cabeça e sorriu irónica.
- Vou bem.
Inácio o cumprimentou.
A loira foi para a mesa e ele continuou:
- Quanto tempo, hein?
Está tudo bem, tudo em ordem?
- Sim.
- Bom lhe ver.
Vamos tomar um café qualquer dia.
- Creio que não temos nada para trocar, uma ideia sequer.
- Fomos casados por cinco anos.
- Estamos separados há mais de um ano.
- E daí? Não acha que podemos ter uma amizade!
- Não. Eu não quero a sua amizade.
- Você é mesmo dura e seca.
Uma mulher prepotente e arrogante.
Como pude me envolver com você?
- Porque é um idiota, um imbecil que não sabe segurar mulher.
Dou graças a Deus de estar livre de você.
- Eu agradeço todos os dias por você ter saído da minha vida.
Não sabe o quanto sofri, o quanto chore por sua causa.
Ela deu de ombros.
- Quer que eu sinta pena de você?
Pois não sinto.
- A minha terapeuta está certa.
De nada adianta tentar uma aproximação com você.
Pura perda de tempo.
Edgar estava se afastando e Denise correu e sussurrou em seu ouvido:
- Olha, aqui neste restaurante não servem porções de veneno para rato.
Se quiser tentar se matar de novo eu lhe dou uma arma bem potente.
É tiro e queda!
Ele meneou a cabeça negativamente para os lados,
- Você não presta Denise.
Não vale nada. Até nunca mais.
Edgar falou e foi até o toalete.
Entrou, aproximou-se da pia, abriu a torneira e jogou muita água fria no rosto.
Olhou para a sua imagem reflectida m espelho.
Disse para si:
- Não se preocupe. Sou um homem de bem.
Mereço ser feliz. Nunca mais vou pensar em Denise.
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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 03, 2015 8:53 pm

Nunca mais.
Edgar falou, enxugou o rosto e foi até a mesa.
Sentou-se ao lado da loira e tentou entabular conversação agradável.
- Quem era aquela mulher? - indagou à loira.
- Minha ex-esposa.
- Bonita ela.
- Você é mais bonita.
- Obrigada.
- Importa se eu fizer o pedido?
- De maneira alguma.
Gostaria de um refresco.
- Não vai me acompanhar num drinque?
A loira riu-se e enrubesceu.
- Você me parece um bom sujeito.
Vou aceitar. Mas um drinque só está bem?
Edgar acenou com a cabeça e fez sinal para o garção.
Do outro lado do restaurante, sentados e bebericando um drinque, Inácio não conteve a curiosidade.
- O que foi que sussurrou no ouvido do seu ex?
Denise deu uma gargalhada.
- Eu já lhe contei que quando eu o deixei, o infeliz do Edgar tentou se matar, ingerindo veneno de rato?
- Pesado, hein?
- Pesado nada.
Quem quer se matar de verdade arruma um jeito certeiro de morrer.
Joga-se do vigésimo andar de um prédio, atira-se sobre um trem em movimento, dá um tiro certeiro no coração.
Ou toma os remédios certos e com as doses cavalares certas.
Edgar não queria se matar queria chamar atenção, mais nada.
- Ele está bem.
Não parece um fraco.
- Mas é. Um bobão. Sabe o que disse a ele?
Que aqui neste restaurante não servem porções de veneno para rato.
Inácio teve forte acesso de riso.
- Você é impossível!
Uma mulher terrível, Denise.
- Convenhamos que tenho senso de humor.
- Sarcástico.
- Não importa. Um tonto é sempre um tonto.
Esse é o babaca que atrasou minha vida em cinco anos.
- Ele está muito bem.
Mais corado, mais forte, bonitão eu diria.
E olha que ele tinha cara de picolé de chuchu.
Está acompanhado de uma linda loira.
- Aquela lá?
É uma tremenda pistoleira.
- Como sabe disso?
- Sou experiente e vivida, Inácio.
Já subi o morro com o Jofre.
Sei diferenciar uma mulher de uma piranha.
- O que importa é que ele está muito bem acompanhado.
Denise deu de ombros.
- Dane-se ele. Eu o desprezo totalmente.
Não sinto nada pelo Edgar, nem raiva.
- Nada de nada? Nem um pingo de sentimento?
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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 03, 2015 8:53 pm

- Para ser franca, se ele morresse hoje eu não sentiria absolutamente nada.
Percebe o meu grau de sentimento por esse infeliz? Nulo, zero.
Inácio bebericou sua vodca e completou:
- Agora que está amarrada no ricaço da Baixada...
- Jofre é homem para mulher nenhuma botar defeito.
É homem com H maiúsculo.
- É homão, tudo bem, mas não o fez esquecer o Leandro.
- Por que você tem de tocar em assunto tão desagradável?
- Foi só um comentário.
- Comentário infeliz.
Peça a conta e vamos embora.
- Acabei de pedir os pratos.
- Inácio! - Denise falou num tom mais alto que o habitual:
- A conta!
Ele fez gesto afirmativo com a cabeça.
Pediu a conta, pagou e saíram do restaurante.
Inácio deu o tíquete para o manobrista pegar seu carro.
Denise estava de cara amarrada.
Eles entraram no carro e Inácio foi dirigindo.
- Desculpe-me.
Não queria deixá-la nervosa.
- Tudo bem. Mas vou lhe falar de Jofre.
Ele me fez esquecer todo e qualquer homem que conheci na vida.
- Mesmo? Ele fala errado, tem cara de bandido. Não sei...
Denise fechou os olhos e suspirou.
- Adoro os tipos perigosos.
Esse homem me deixa de quatro.
Jofre pode falar errado, ter cara de bandido e ter amigos barra-pesada.
Não me importo, porque ele me tem como nenhum homem me teve antes.
Jofre faz com que eu me sinta mulher desejada.
Ele me valoriza.
- E por que quer tanto atazanar o Leandro?
Se sente valorizada, amada e desejada...
- A minha história com Leandro é pura vingança. Só isso.
- Quer mesmo seguir seu plano adiante?
- Quero.
- Eu acho tudo muito arriscado.
Denise o fuzilou com os olhos.
- Eu só não puxo o freio de mão deste carro porque não quero provocar um acidente e morrer.
Tenho muito que viver, muito que me divertir, vou ficar muito rica.
E vou assistir de camarote à destruição daquela família carioca.
- Você tem dinheiro, abriu conta em Bancos estrangeiros, desfalcou a Dommênyca em milhares de dólares.
Pode viver muito bem em qualquer parte do planeta.
Hoje, eu deixaria essa vingança de lado.
- Está amarelando?
- Eu?!
- Sim. Que história idiota é essa agora de tentar fazer com que eu pare com meu plano?
- Porque acho que dá tempo de desistir.
- Não sou mulher de desistir.
- Denise, você tem tudo, dinheiro, homem.
É saudável, jovem e bonita, tem muitos anos pela frente.
Vá curtir a sua vida.
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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 03, 2015 8:53 pm

- Não foi você quem me incitou?
- Fiz um comentário sobre vingança tempos atrás, achei que tudo era brincadeira, nunca pensei que fosse querer chegar tão longe, arriscar-se tanto.
- Tem coisa melhor do que arriscar?
Dá até um friozinho gostoso na barriga.
- Denise, pare e reflicta.
- Eu vou ir muito longe.
Conto com a sua ajuda, Inácio.
- Sabe o que acontece...
Denise o cortou violentamente.
- Não! Não sei o que acontece, Inácio!
E nem quero saber!
Você prometeu me ajudar.
- Estamos falando da vida de um garoto, filho de gente conhecida da sociedade.
É muito arriscado.
- Já disse que adoro correr riscos.
- Pense e reflicta.
- Não tenho o que pensar.
Mas você tem o que pensar e reflectir.
- Eu?!
- Sim. Sabe que tenho todos os documentos que você adulterou na Dommênyca.
Eu tenho os originais guardados num cofre.
Você também levou muita grana.
É só eu estalar os dedos e esses maníacos da Polícia Federal virão como abutres sobre você.
Vão comer você vivo, sem dó nem piedade.
Quer aparecer em rede nacional, sendo algemado por aqueles brutamontes e um repórter falando:
Foi preso hoje o advogado Inácio Mello Farias, que liderava uma quadrilha...
Inácio engoliu em seco e parou num sinal.
Olhou para ela com o suor escorrendo pela testa.
- Não precisa continuar.
Sei que tenho o rabo preso contigo.
Eu vou fazer o que me pediu.
- E o que lhe pedi? - perguntou ela.
- Você, Denise, é a mentora do sequestro de Ricardo Ferraz Dantas, filho do empresário Leandro Dantas e de Letícia Theodoro Ferraz.
- Gravou bem os nomes!
E que mais?
- Quer que eu tome providências para transformar meu sítio em cativeiro do menino.
Preciso demitir ou afastar meu caseiro e deixar o pessoal do Jofre ficar lá por pelo menos uma semana.
Devo providenciar mantimentos e...
- Isso mesmo! - Ela bateu palmas.
Parabéns. Sabe que quero o sítio pronto para a semana que vem.
Esse fedelho tem ser sequestrado logo.
Sem falta. Sabe que sigo um cronograma rígido.
- Por certo - concordou ele.
Denise falou e quando percebeu estava na porta de seu novo endereço, um sumptuoso casarão no Jardim Europa, um dos endereços mais chiques e caros da cidade.
- Chegamos - disse Inácio ao encostar o veículo no meio-fio.
Pode contar comigo.
Sabe que farei o que quer, mas que fique claro uma coisa.
- O que é?
- Se algo der errado, eu mal sabia do que estava acontecendo no meu sítio.
Vou negar tudo, como Judas.
Não serei preso por conta de um capricho seu.
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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 03, 2015 8:53 pm

- Pode ficar tranquilo, nada vai dar errado.
- Assim espero.
- Boa noite.
Ela bateu a porta do carro, um holofote acendeu-se imediatamente na calçada.
O portão automático abriu-se e um segurança apareceu.
- Boa noite, d. Denise.
Ela nem cumprimentou o rapaz.
Entrou em casa, tirou os sapatos e jogou-se sobre uma poltrona.
Delis veio ao seu encontro.
- Deseja alguma coisa, senhora?
- Por acaso eu chamei você, idiota? Chamei?
- Desculpe, é que...
- Nem sei por que lhe convidei para trabalhar comigo, Delis.
Você serve para trabalhar para o Edgar.
Uma idiota servindo a outro idiota.
- Se não precisar de mais nada vou me retirar.
- Aproveitando que a songamonga está na minha frente, vá me preparar um Martini.
Preciso de um drinque antes de dormir.
Denise terminou de falar, fechou os olhos e começou a imaginar o desespero de Leandro e da esposa.
Não via a hora de Jofre botar as mãos naquele garoto estúpido.
Delis abaixou a cabeça envergonhada, tentava a custo segurar as lágrimas.
Correu para a cozinha.
- Que vontade de matar essa mulher!
Como ela pode ser tão grossa, tão estúpida?
O segurança entrou pela porta da cozinha e emendou:
- Fique triste não, Delis.
Aqui se faz aqui se paga.
- Mas essa daí só se dá bem.
Olha o casarão, o luxo, o dinheiro...
- E, no entanto, vive sozinha, presa à arrogância e à ilusão.
- Se eu não tivesse filhos pequenos para criar, juro que iria embora agora mesmo.
Até hoje me arrependo de ter deixado o trabalho de diarista.
Eu tinha patrões bem legais e o ex-marido dela, o Edgar, era um doce de patrão.
Uma das pessoas mais boas que conheci na vida.
- Provavelmente veio para cá para ganhar mais.
- A proposta na época era irrecusável.
O salário é bom, mas estou deveras arrependida.
Se pudesse voltar no tempo!
- Confie em Deus que tudo vai ficar bem.
Você é boa pessoa, Delis.
- E você também, Chico.
É um bom homem.
Temos de dar duro, sacrificarmo-nos.
Somos pessoas honestas e educadas.
E olhe para essa aí:
vive bem, tem uma vida confortável, um emprego excelente.
Não sei como ela tem tudo isso, sendo tão mal-educada - falou Delis, enquanto preparava o Martini para Denise.
- Não se compare a ela.
Você tem um bom coração.
Pessoas como Denise nunca se dão bem na vida.
- Ela sempre se deu bem na vida, Chico. Sempre.
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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 03, 2015 8:54 pm

- Um dia a casa cai.
A casa sempre cai...
Na rua, Inácio espumava de ódio.
Deu partida e saiu cantando os pneus.
- Quem Denise pensa que sou?
Um idiota tal qual o ex-marido dela?
Que acata tudo, que a obedece feito um escravo?
Ela não me conhece.
Chantageou-me e não sabe com quem está se metendo!
Ele foi ruminando os pensamentos até chegar a casa.
Estacionou o carro e disse:
- Essa mulher vai me pagar caro por tentar me chantagear - ele olhou para o gravador de MP3 discretamente colocado próximo ao banco do passageiro.
O dispositivo electrónico era eficiente para gravar conversas.
Quantas vezes Inácio se utilizara dele para gravar reuniões sigilosas e depois chantageava Deus e o mundo com as conversas gravadas.
Arrancou dinheiro de muitos empresários que pagavam propinas para vender seus produtos na Dommênyca.
Ele sorriu e introduziu o dispositivo no som do carro:
- E o que lhe pedi?
- Você, Denise, é a mentora do sequestro de Ricardo Ferraz Dantas, filho do empresário Leandro Dantas e de Letícia Theodoro Ferraz.
- Gravou bem os nomes! E que mais?
- Quer que eu tome providências para transformai meu sítio em cativeiro do menino.
Preciso demitir oi afastar meu caseiro e deixar o pessoal do Jofre ficar lá por pelo menos uma semana.
Devo providenciai mantimentos e...
- Isso mesmo! - Ela bateu palmas.
Parabéns.
Inácio não cabia em si tamanha alegria.
Saberia dar o troco em Denise.
E não iria demorar muito.
No restaurante, enquanto comiam, Edgar começou a se cansar da loiraça.
Embora linda, ela só queria falar das plásticas a que se submetera nos últimos meses para ficar com aquele corpo escultural.
Ele arrependera-se amargamente de tê-la convidado para sair.
Num dado momento, Edgar percebeu, duas mesas à frente, um grupo de conhecidos que acabava de se sentar.
Reconheceu imediatamente Adriano e Patrícia.
Pediu licença e foi ao encontro do casal.
- Olá, queridos.
Adriano levantou-se e abraçou o amigo.
- Seu sumido!
- Tenho saído bastante.
Como vai. Patrícia?
- Bem - respondeu ela, curta e grossa.
- Vocês não sabem quem eu encontrei aqui hoje.
- Quem? - indagou Adriano, curioso.
- A Denise.
- Mesmo?
- Em carne e osso.
Conversamos um pouco, ela foi muito estúpida.
Eu a enfrentei, mesmo ouvindo coisas desagradáveis de sua boca.
- Denise sempre foi desagradável - tornou Patrícia.
- Sabe que foi somente hoje que a minha ficha caiu?
Eu não consigo imaginar o porquê de ter arrastado um bonde por uma mulher tão arrogante.
Adriano o abraçou.
- Parabéns. Você a enfrentou e agora não vive mais atormentado pelo fantasma dessa mulher.
Que você seja feliz!
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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 03, 2015 8:54 pm

- Eu quero mais é aproveitar.
Trouxe uma loiraça que conheci na internet - apontou para a mesa logo atrás.
- Bonita a moça - disse Adriano.
- E você, o que acha Patrícia?
- Não acho nada.
- O que foi?
- Que foi o quê?
- Está sendo ríspida comigo.
Eu lhe fiz alguma coisa?
- Você é tão patético, Edgar.
Eu sempre o achei um sujeito formidável, um homem fantástico.
Sempre teci elogios a seu respeito e Adriano é prova disso - o marido pendeu a cabeça em sentido afirmativo, para cima e para baixo.
Não sei o que aconteceu, porque, de uns tempos para cá, você sai com uma mulher atrás da outra, como se estivesse brincando de bonecas.
Não acho uma atitude legal de sua parte.
- Natural. Depois do que passei com Denise sinto-me no direito de aproveitar a vida.
- E aproveitar a vida para você resume-se em sair com uma mulher diferente por noite? É isso?
- É sim.
- Só para alimentar seu ego?
Depois de tantas sessões de terapia ainda não aprendeu a ter equilíbrio e procurar conhecer alguém que possa amá-lo e ser correspondido?
- Isso não existe.
Eu não caio mais nessa arapuca de casamento.
Quer fazer duas pessoas se odiarem?
É só fazer com que elas se casem.
Ele falou e deu uma sonora risada.
Adriano ia rir, mas diante do olhar de reprovação da esposa, baixou os olhos, constrangido.
Marina apareceu.
- Desculpem a demora.
Peguei o ónibus errado e saltei algumas quadras lá atrás.
Edgar fechou o cenho.
- Vocês me trocaram pela Marina.
Agora é Marina para cima e para baixo.
- Ao menos ela não nos envergonha.
- O que é isso, Patrícia?
É pessoal? - indagou ele, atónito.
- Sim. Você, sempre tão amoroso, tão sensível, um marido fantástico, de repente se transformou nessa galinha, só para satisfazer ao seu ego doente.
Não percebe que existem mulheres muito mais interessantes do que essas loiras e morenas plastificadas cheias de botox?
Não percebe que pode viver um relação tão boa quanto a minha e de Adriano?
Acho que todas as mulheres são como Denise?
Pois saiba que não são.
- Até agora não conheci nenhuma mulher que me atraísse, se quer saber.
Um bando de fúteis.
São boas para a cama, nada mais - fez sinal apontando novamente para a mesa em que estava sentado.
- A sua energia de garanhão atrai esse tipo de mulher fútil, que não quer saber de compromisso.
Se estivesse mesmo querendo se envolver com alguém que valesse a pena, teria de mudar essa postura de galanteador barato.
Acredita que ainda tem dezassete anos de idade?
Você agora é um homem, o deveria se portar como um.
Vê se enxerga!
Adriano balançou a cabeça para os lados.
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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 03, 2015 8:54 pm

Patrícia retrucou:
- Volte para a sua mesa e para a sua loira divina.
Alimente e satisfaça seu ego e deixe que o verdadeiro amor escorra pelas suas mãos. Seu cego!
- Bom, eu vou para a minha mesa.
Acho que não sou benquisto aqui.
- Não é mesmo - finalizou Marina.
- Até você? Pensei que fosse minha amiga.
- Pensou? - ela falou sustentando o olhar.
Que pena.
Edgar não entendeu, despediu-se com um aceno e voltou para a sua mesa.
Os três se sentaram e Adriano sussurrou:
- Vocês pegaram pesado com ele. Sabemos o quanto ele sofreu.
Precisa se divertir oras!
- Divertir-se? - indagou Patrícia incrédula.
- O rapaz tentou se matar.
Chorou e sofreu por amor.
Vamos ter um pingo de piedade.
- Eu não tenho pena dele - replicou Patrícia.
Edgar não usa a imaginação com inteligência.
A imaginação desenfreada, sem controle, pode nos causar sérios problemas, não só nesta encarnação, como por vidas e mais vidas à frente.
Concordo que a terapia o ajudou.
Ao menos Edgar parou de reclamar, parou de chorar e de sofrer.
- Isso é óptimo, não é?
- Até certo ponto, Adriano.
Edgar vem fazendo isso há meses.
Flertou com todas as solteiras do nosso grupo de corrida.
Não pode ver um rabo de saia que logo monta em cima da coitada.
Isso não é vida.
Edgar sempre foi um homem apaixonado, nasceu para o matrimónio.
- Ficou traumatizado depois do que Denise lhe aprontou.
- Não acredito em vítimas.
Nós podemos escolher, somos dotados de livre-arbítrio.
Ninguém obrigou Edgar a se casar com Denise.
- Não se esqueça de que ela engravidou.
- Vai saber de quem!
Sabemos que Denise saía com todos os homens do bairro.
Não deixava escapar quase nenhum.
- Eu não dei bola para ela - respondeu Adriano.
- Nós namorávamos.
E você nunca foi o tipo da Denise.
- Edgar tem direito de levar a vida que quer.
Marina levantou-se.
- Vou ao toalete refazer a maquilhagem.
Transpirei um pouquinho vindo do ponto de ónibus até o restaurante.
Ela caminhou até o lavatório e Patrícia cutucou o marido.
- Não estou defendendo a moral e os bons costumes.
Sabe que não sou hipócrita e aceito as pessoas como são.
- Então deixe o nosso amigo em paz.
- Não percebe - Patrícia bebericou um pouco de guaraná e baixou o tom de voz - que Marina está apaixonada por Edgar?
- Marina? - indagou Adriano, estupefacto.
- Sim. Ela apaixonou-se e...
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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 03, 2015 8:54 pm

- E por que não se declarou?
- Olhe para seu amigo.
Ele só quer saber de farra.
Marina não é mulher de farra.
- Foi por essa razão que disse a ele agora a pouco que está deixando o amor escorrer pelas mãos?
Agora entendo você, amor.
- Óbvio Adriano. Marina deu várias indirectas.
Depois que percebeu Edgar interessado superficialmente em toda e qualquer mulher, preferiu ficar na dela, quieta.
- Precisamos fazer alguma coisa, querida.
- O infeliz está se sentindo o rei da cocada preta.
Quer porque quer sair com todas as mulheres do mundo.
- Nós vamos dar um jeito nisso - Adriano falou e pousou delicadamente a mão sobre a da esposa.
Patrícia sorriu e o beijou nos lábios.
- Sabia poder contar com você.
Marina voltou e sentou-se.
Estava mais bonita por conta do efeito da maquilhagem, mas Patrícia percebeu que ela havia chorado.
Marina estava apaixonada por Edgar e estava difícil sufocar esse amor.
- Você está bem? - perguntou Adriano.
- Sim. Estou cansada, mas bem.
- Vamos pedir os pratos? - sugeriu Patrícia.
- Estou com pouca fome.
- Precisa comer. Está muito magra.
Tem trabalhado muito.
- Ainda bem que aos sábados vou tomar passe.
Se não fosse o passe, acho que estaria de cama.
- Não é fácil ter uma chefe como Denise.
- Não é mesmo, Adriano.
- Por que não se demite? - indagou ele.
- Porque a empresa oferece um excelente convénio médico.
Eu não tenho condições de bancar um plano de saúde sozinha.
Minha mãe está doente e precisa da assistência médica.
Não tenho coragem de deixá-la num hospital público.
- Entendo - respondeu Adriano, penalizado.
- Você pode procurar outro emprego que lhe pague mais - sugeriu Patrícia.
- E a crise económica?
Está difícil arrumar emprego.
- Difícil para quem acredita que seja difícil - emendou Patrícia.
O nosso país já está praticamente livre dos efeitos da crise mundial.
Há emprego, sim.
- Acaso acha que faço corpo mole?
- De maneira alguma, no entanto está se sentindo muito vítima da situação, como se Denise fosse o lobo mau e você a pobre menina indefesa que não consegue se livrar dele.
- Isso não é maneira de falar com sua amiga - protestou Adriano.
- Por isso mesmo. Ela é minha amiga.
Amigos falam a verdade.
Marina está se deixando levar pelo vitimismo, está paralisada num medo imaginário, tendo só pensamentos negativos e não toma atitude.
Eu sei que o mundo vem enfrentando uma crise económica muito séria, porém nosso país está se saindo muito bem.
Os postos de trabalho estão crescendo na indústria e eu, particularmente, acredito que quem quer de verdade arrumar emprego, vai arrumar um.
- Eu assisto ao noticiário na televisão e me assusto.
- Porque se impressiona negativamente com as notícias.
Veja quantas pessoas estão aqui sentadas, neste óptimo restaurante, comendo e pagando suas contas.
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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 03, 2015 8:55 pm

Creio que todos aqui estão empregados.
Todos devem trabalhar.
Acha que não existe uma vaga para você numa cidade que abriga dez milhões de pessoas?
- Creio que sim.
- Você é competente, Marina.
Eu já lhe pedi seu currículo algumas vezes.
Tenho uma boa rede social e profissional de amigos.
Quem sabe alguém não lhe oferece um bom trabalho, com melhor remuneração e até com uma melhor assistência médica?
Por que pensar só no pior?
- Isso mesmo - concordou Adriano.
Por que pensar que vai arrumar um emprego menor e ganhar um salário menor?
Por que não acredita no seu potencial e vai atrás de algo melhor?
Patrícia ajuntou:
- De nada adianta tomar passe e ficar cultivando esses pensamentos que só nos aterrorizam o espírito e nos paralisam.
Você precisa reagir, Marina.
Precisa começar a mudar seus conceitos, rever suas crenças e posturas diante da vida.
É uma mulher forte, batalhadora, que nasceu pobre, viveu muitos anos na mais absoluta pobreza.
Conseguiu concluir os estudos, está terminando a pós-graduação, fala idiomas.
Depois de tudo o que passou na vida, tem medo de mudar de emprego?
Adriano interveio:
- Para quem passou necessidades na vida, como fome e sede - que é o seu caso - ir atrás de um posto de trabalho não é um bicho de sete cabeças.
Marina assentia com a cabeça.
Mexia para cima e para baixo, concordando com tudo.
Patrícia propôs:
- Façamos o seguinte:
você providencia seu currículo para mim e Adriano.
Vamos enviar e-mails para os amigos, espalhando-o por aí, entre nossos conhecidos, até que num determinado momento alguém vai ler, interessar-se e chamá-la para uma entrevista.
Vá lá, minha amiga, acredite. Confie na vida.
Conforme iam conversando, mais e mais Marina sentia uma gostosa sensação de bem-estar.
A amizade de Adriano e Patrícia estava lhe fazendo tremendo bem e ela, pela primeira vez em muito tempo, começava a criar forças para tomar uma atitude em relação ao seu actual emprego.
Ela estava tão entretida e interessada na conversa que, por ora, esqueceu-se do sentimento forte que nutria por Edgar.
Marina mal conseguiu pregar o olho naquela noite.
A conversa sobre emprego que tivera com o casal de amigos a animara sobremaneira.
Sentia-se encorajada a enfrentar as grosserias de Denise.
Uma voz amiga soou em seu ouvido:
- Tenha coragem e força.
Faça o que seu coração achar melhor.
Marina conversava com a voz como se estivesse falando consigo própria:
- Nunca gostei de trabalhar com a Denise.
Fui ficando porque o emprego é bom, os funcionários são óptimos e foi-me oferecido um bom plano de assistência médica.
Estou cansada de ser maltratada.
- Cultive pensamentos positivos. Fique no bem.
Não se misture às energias perniciosas emanadas por Denise ou Inácio.
Confie porque você tem tudo para viver uma vida plena e feliz.
- Eu preciso confiar.
Sou uma boa pessoa.
Quero o bem para mim e para os meus amigos.
Não vou mais admitir ser espezinhada na frente dos meus colegas. Não vou.
Leónidas aproveitou a passagem e deu um passe restaurador em Marina.
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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 03, 2015 8:55 pm

Aos poucos, ela foi perdendo os sentidos, o sono foi chegando forte e ela adormeceu.
- Que menina bonita.
- Achou mesmo, Emerson?
- Sim. Estava um pouco preocupada com o trabalho, mas depois você serenou seu espírito.
Ela dorme feito um anjo.
- Marina precisa recarregar suas energias.
Precisará estar em equilíbrio para lidar com o que vem pela frente.
- Já fizemos isso com minha filha, meu genro... - Emerson balançou a cabeça.
- O que vai acontecer que eu não sei?
Você não está visitando todas essas pessoas à toa.
- Não. Muitos acontecimentos estão por vir e vão transformar sobremaneira a vida desta moça - apontou para Marina - como também vão modificar em muito a vida de sua filha, de seu genro e de seu neto.
- O que vai acontecer?
- Aguarde e verá.
- Não gosto de segredinhos!
- Por falar em segredinhos, quer me acompanhar, por favor?
Emerson deu de ombros, sorriu para o corpo de Marina deitado na cama e seguiu Leónidas até outro cómodo da casa.
Era o quarto de Consuelo.
Estava dormindo, porém seu perispírito estava agitado.
Sua mente estava muito confusa, agitada, triste, preocupada...
- Nossa essa daí está muito tensa, preocupada.
- Essa é a mãe de Marina.
- Hum. Seus pensamentos estão agitados.
A sua mente está muito acelerada.
Ela vai acordar moída, corpo alquebrado, sentindo-se cansada.
- Nos últimos dias Consuelo tem acordado assim, tensa, preocupada.
Não sei quanto tempo mais seu corpo físico vai resistir.
Ele está dando sinais claros de esgotamento.
- O que podemos fazer?
- Dar um passe nela.
Você me ajuda Emerson?
- Eu?!
- Sim, você mesmo.
Está na hora de fazer alguma coisa boa para as pessoas aqui do mundo.
Você andava perdido, alheio, depois ficou anos influenciando negativamente sua filha e atormentou seu genro além da medida.
- Agora vai ficar me jogando na cara os meus deslizes?
- De forma alguma.
Pare de se comportar como um pobre coitado, porque, de coitado, você não tem nada.
Leónidas esticou o olho para baixo:
- Eu o conheço muito bem.
- Nunca fiz essa transmissão de energia antes.
- É fácil. É só se concentrar, levantar suas mãos, pegar energia do Alto e em seguida pousar as mãos alguns centímetros acima do perispírito dela.
Vamos tentar?
- Pode ser.
Leónidas esfregou as mãos e as elevou.
Emerson fez o mesmo.
Logo os dois estavam transmitindo energias revigorantes e de equilíbrio para Consuelo.
Aos poucos, seu perispírito ficou menos agitado e sua mente serenou um pouco.
- Olha como deu certo! - vibrou Emerson.
- Consuelo vai ter um sono reparador, ao menos nesta noite.
- E agora, o que vamos fazer?
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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 03, 2015 8:55 pm

- Ainda vamos ficar aqui, só mais um pouquinho.
Leónidas aproximou-se de Emerson e perguntou:
- Não se lembra dela?
- Não.
- Tem certeza?
Olhe com mais calma.
Emerson espremeu os olhos.
- Não. Não faço a mínima ideia de quem seja.
- Não vou fazer você voltar outras vidas, mas vamos nos lembrar de alguns factos desta última encarnação?
- Até que enfim vou ter acesso a uma vida passada!
- Negativo.
Vamos voltar a algumas épocas desta última, de quando foi casado com Teresa, e foi pai de Letícia.
- E de que vale eu me lembrar dessa vida?
Eu me lembro de tudo!
- Tudo?
- Sim. Nasci em 1949, fundei a Companhia em 1971, casei-me com Teresa em...
Leónidas aproximou-se e colocou a mão direita sobre a testa de Emerson.
Ele sentiu um torpor, as ideias tremulando na mente.
Da mão de Leónidas saía uma luz de coloração amarelada.
Emerson fechou os olhos e as cenas vieram vibrantes, bem nítidas.
Consuelo era uma bela negra na casa dos vinte e poucos anos quando foi trabalhar na casa de Emerson.
Ele havia alugado um apartamento em São Paulo, vivia mais na capital paulista do que com sua família no Rio.
Era uma época de hiper inflação, de preços descontrolados, economia caótica.
Ele precisava estar à frente dos negócios para não falir, como vinha acontecendo com os concorrentes menos preparados para enfrentar as constantes crises económicas pelas quais o país passara no início da década de 1980.
Emerson trabalhava bastante, isso não se podia negar, fazia de tudo para que a Companhia continuasse sólida no mercado.
O trabalho o consumia a tal ponto que ele ia do apartamento para o trabalho e vice-versa.
Foi uma época que ele sequer podia cogitar a possibilidade de dar umas escapadas e se divertir, como faziam alguns amigos.
Consuelo trabalhava no apartamento três vezes por semana.
Fora indicada por uma amiga que não tinha os três dias livres.
Ela aceitou de pronto e levava o serviço nas costas.
Afinal, no apartamento só vivia uma pessoa e Emerson só o utilizava para dormir.
Era muito fácil limpar os cómodos, pois estavam sempre em ordem.
Num dia, Emerson chegou cedo do trabalho.
Houve um comício, confusão, e muitos sectores da sociedade, cansados de enfrentar os valores galopantes da inflação, entraram em greve.
Os funcionários de sua empresa também aderiram ao movimento e ele não teve alternativa - teve de voltar para casa antes do fim do expediente.
Consuelo estava de saída.
Ela o cumprimentou.
- O senhor está gostando do serviço?
- O apartamento está sempre limpo.
- Falta eu fazer alguma coisa?
Quer que eu cozinhe algo?
- Não. Não precisa.
- Ah - ela falou de maneira jovial - eu comprei tudo o que o senhor colocou na lista.
Aproveitei e também comprei umas frutas e verduras.
As maçãs estavam óptimas, a alface estava bem fresquinha.
Quer ver? Estão aqui na prateleira.
Consuelo abriu a geladeira e inclinou o corpo para frente.
Naturalmente o vestido subiu, e Emerson deparou-se com um par de coxas esculturais.
- Uau! - assobiou.
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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 03, 2015 8:55 pm

- O que foi seu Emerson?
Comprei muitas maçãs? - indagou ela, sem imaginar que ele estivesse medindo-a de cima a baixo com olhos de pura volúpia.
Emerson estava sem se deitar com uma mulher havia meses.
Justo ele, que no Rio de Janeiro deitava-se com a esposa e com algumas garotas que encontrava em bares.
O desejo foi forte.
Ele a abraçou por trás e murmurou em seu ouvido.
- Estou louco de desejo!
Consuelo deixou-se entregar.
Ela era uma mulher séria.
Casara-se aos catorze anos, tivera um filho.
Tivera uma vida infeliz, rude.
O marido a abandonara e ela vivia havia algum tempo na capital.
Jamais cogitara sair com outro homem, mas ela era mulher de carne e osso, tinha desejos.
Ela fechou os olhos, gemeu de prazer e entregou-se a ele, ali mesmo no chão da cozinha.
Assim foram levando.
Toda semana Emerson arrumava um jeito de chegar a casa mais cedo e deitar-se com Consuelo.
Eles se davam muito bem na cama.
Ele era bem viril e ela extremamente feminina.
Faziam estripulias na cama.
Até que ela engravidou.
- Você vai ter de tirar essa criança - dizia ele, de maneira intempestiva.
- Isso eu não vou fazer.
Não tiro essa criança.
- Eu não quero um filho.
- Pois eu quero.
- Para quê? - perguntou ele raivoso.
Para me chantagear?
Consuelo era mulher ingénua, tinha um coração puro.
Nunca imaginara ficar grávida para tirar algum proveito da situação.
- Assim me ofende!
Eu não quero nada do senhor, nada - gritou ela enquanto as lágrimas rolavam incontroláveis.
Emerson percebeu que Consuelo estava sendo sincera.
Ela não era uma aproveitadora.
Eles não se protegiam, porquanto naqueles tempos não era usual a utilização de preservativos.
Ele a abraçou e levou sua cabeça ao peito.
- Chi! Calma.
Tudo vai dar certo.
- Como? Eu sou pobre, moro num cortiço.
Tenho um filho adolescente que me dá muito trabalho.
Eu não tenho condições de cuidar dessa criança sozinha.
Por favor, ajude-me.
Tomado de pena, Emerson resolveu ajudá-la.
Pegou um dinheiro no Banco, uma quantia na época suficiente para Consuelo comprar uma casinha e ter um rendimento razoável.
Duas semanas depois, entregou-lhe o envelope com a seguinte condição:
- Eu espero que isso lhe ajude.
Não temos mais nada o que conversar.
Ela pegou o pacote de dinheiro, as mãos trémulas.
Abaixou a cabeça, rodou nos calcanhares e foi embora.
Nunca mais se viram.
Consuelo nunca mais o procurou.
E, com o passar dos anos, outras mulheres apareceram.
Emerson foi se esquecendo e nunca mais quis saber do paradeiro de Consuelo.
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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 03, 2015 8:55 pm

Era assunto do passado, morto e enterrado.
Emerson parecia sair de um transe.
- O que foi isso? - perguntou ele, sentindo leve mal-estar, a respiração ofegante.
- Agora se lembrou de tudo?
- Meu Deus! Quantos anos!
Eu era jovem.
Leónidas apontou para a cama onde Consuelo dormia a sono solto.
O passe vai ajudá-la a se desligar um pouco da mente perturbada por tantos problemas e preocupações.
- Ela também era jovem.
Uma jovem muito bonita e fogosa.
Emerson olhou, olhou e, aos poucos, foi reconhecendo aquela mulher.
- Mas não pode ser!
Esta é a mulher que engravidei?
- Sim.
- Está velha, acabada.
- Não está velha, mas está bem acabada.
Os anos não lhe sorriram.
Consuelo teve uma vida dura, sofreu - e ainda sofre com os desatinos do filho, perdido nesse mundo de Deus.
Ela teve uma linda menina e, se não fosse por Marina, ela teria desencarnado há muitos anos.
Emerson levou a mão à boca para evitar um gemido de surpresa.
- Ela teve o filho!
- O filho, não. A filha.
- Você está querendo me dizer...
Leónidas moveu a cabeça para cima e para baixo.
- Que aquela moça no outro quarto é sua filha.
Emerson botou a mão na cabeça.
- Tantos anos se passaram...
Nunca iria imaginar que ela estivesse viva e que tivesse tido a criança.
- Teve a criança e depois comprou este apartamento com o dinheiro que você lhe deu.
- Pensei que ela pudesse estar bem, afinal, dei-lhe um bom dinheiro na época, suficiente para ela parar de trabalhar se assim o desejasse.
- Consuelo usou a cabeça.
Comprou esse apartamento e aplicou o dinheiro na poupança.
Mas você bem sabe como a economia do país sofreu altos e baixos.
Houve um governo que confiscou a poupança de todos os cidadãos.
- Eu me lembro dessa época horrível.
A sorte é que eu transformava meu dinheiro em dólar.
Guardava os maços de dólar no cofre da empresa.
Se não fizesse isso, talvez tivesse quebrado.
- Consuelo perdeu o pouco dinheiro que tinha.
Marina transformou-se numa moça responsável.
Trabalhou desde cedo, estudou, concluiu o curso de inglês e de espanhol.
No momento está fazendo pós-graduação.
É uma moça competente, tem tino para os negócios, igual ao pai.
Emerson sentiu uma dor no peito sem igual.
Seu espírito saiu em disparada e ele literalmente voou até o quarto de Marina.
Parou diante dela e fitou-a por longo tempo.
Ela dormia placidamente e ele, lágrimas nos olhos, mexia a cabeça para os lados, contemplando aquele ser que fora gerado dele.
- Minha filha.
Olha que morena bonita!
- Muito bonita.
E de coração puro, igual ao da mãe.
Marina é um espírito ligado nas forças do bem.
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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 03, 2015 8:56 pm

- O que vai lhe acontecer?
Você me disse a pouco que a vida dela vai mudar sobremaneira.
- Marina está a ponto de ser demitida.
O convénio médico vai lhe dar cobertura por mais um mês.
Depois disso, sabe-se lá Deus o que vai acontecer.
- Eu preciso fazer alguma coisa.
Ela precisa saber que sou seu pai, que ela tem direito à parte da minha herança.
- Por esse motivo o trouxe aqui.
Dependendo do seu esforço e da vontade de Consuelo, talvez o futuro de Marina seja diferente.
Você não gostaria de ajudá-la?
- Pois claro! Mas e Teresa?
Minha esposa tem muito apego ao dinheiro.
Pode arrumar encrenca, pagar excelentes advogados e esticar o caso na Justiça.
- Negativo. Teresa vai sofrer muito com o que vem pela frente.
Eu sinto que seu espírito vai amadurecer, vencer a ilusão e ela vai concordar em repassar uma parte da herança para Marina.
- Você me deixa preocupado.
Conte-me o que vai acontecer.
- Não. Agora você precisa se concentrar para ajudar Marina a ter conhecimento sobre você.
- Mas como?
Quer que eu incorpore num Centro Espírita e lhe conte a verdade?
- Isso não se faz.
- Não imagino como vou fazê-la saber a verdade.
- Ficando ao lado de Consuelo.
Inspirando bons pensamentos nela.
Tente convencê-la de contar a verdade para a filha.
- Marina não tem a mínima ideia de quem seja o pai?
- Consuelo disse que foi um namorado.
Que ele sumiu ao saber da gravidez.
Ao menos ela não mentiu para a filha.
Só deixou de contar quem fora o homem que a engravidou.
- Realmente ela é uma mulher de fibra, decente, honesta e batalhadora.
Não quis saber de meu dinheiro.
- E se não estivéssemos aqui, ela nunca pensaria em contar nada para Marina.
Consuelo morre de medo de a filha rejeitá-la.
Tem medo de Marina ir embora, assim como Jofre.
A sua vida na Terra está com os dias contados.
Entretanto, se ela desencarnar e não contar vai sofrer muito aqui no astral.
Eu sinto que seu espírito ficaria tão perturbado que ela iria parar directo no Umbral.
- Naquele lugar onde ficam as pessoas perturbadas?
- Esse mesmo. E, quer saber?
Se você ficar mais um tempo aqui também será transportado para o Umbral.
Emerson arregalou os olhos, atónito.
- Já ouvi comentários horríveis a respeito desse lugar.
Você que conhece tantos lugares astrais, pode mesmo me dizer se esse lugar é tão ruim?
- Como diz nosso querido amigo André Luíz, o Umbral funciona como região destinada a esgotamento de resíduos mentais; uma espécie de zona purgatorial, onde se queima a prestações o material deteriorado das ilusões que a criatura adquiriu por atacado, menosprezando o sublime ensejo de uma existência terrena.
Emerson arrepiou-se todo.
- Dá até para imaginar como é.
- Pois é, meu amigo.
Você é um espírito de sorte.
Se eu não estivesse por perto e você continuasse influenciando sua filha, naturalmente seria transportado para lá.
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