O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 25, 2015 8:42 pm

Ela se ajeitou na cama e perguntou:
- Em que posso ajudá-la?
- Tenho de fazer uma viagem urgente.
Marina passou a mão pelos olhos.
Procurou se sentar e pegou a agenda na mesinha de cabeceira.
Abriu-a e verificou.
- Você tem reunião hoje ao meio-dia com o Dr. Inácio.
- Desmarque.
- Essa reunião foi marcada e desmarcada várias vezes.
- Remarque mais uma vez, oras.
- O Dr. Inácio não vai gostar.
Ele estava intratável ontem.
Passou mais de duas vezes na minha sala para confirmar o horário, para saber se estava tudo certo para hoje.
- Deixe que depois eu cuido disso.
Ligue para ele e diga que houve um imprevisto.
- Ele está há mais de uma semana tentando marcar essa reunião.
Quer rever alguns contratos.
Sabe como é ele é o responsável pela área jurídica da empresa e...
Denise a cortou secamente.
- Feche essa matraca! Dane-se o Inácio.
Ele e aquele bando de advogados que ele lidera podem esperar.
- Está certo.
- Não é ele que joga charme para cima de você?
- Ei, o que isso tem a ver com a reunião?
- Pois bem, aproveite e contorne a situação.
Fale manso e com jeitinho.
Inácio vai compreender.
Marina enrubesceu do outro lado da linha.
- Imagine Denise.
- Inácio é louco por você, sabia?
Marina sentiu um arrepio pelo corpo.
Tinha repulsa do homem.
- Eu nunca dei confiança para ele.
- Pois deveria.
- Perdão...
- Inácio é um advogado bem conceituado.
Está na empresa há anos, é queridinho dos donos.
Tudo bem que não é o homem mais lindo do mundo.
Mas beleza não paga as contas, certo?
Inácio está muito bem de vida e poderá realizar todos os seus sonhos.
Ele pode tirá-la dessa vidinha classe baixa por exemplo.
- Estou muito confortável aqui onde moro.
- Inácio pode lhe dar um carro melhor que essa carroça que você tem.
Não é o seu carro que este sempre quebrando e indo para o conserto?
Acaso esse carrinho russo modelo mil novecentos e antigamente está funcionando?
Marina não respondeu, não queria discutir com ela.
Mudou o assunto:
- Você precisa de mais alguma coisa?
- Terá de passar na minha casa agora.
- Como?
- Isso mesmo. Agora.
Eu tenho uns pares de sapatos que preciso levar para o Rio.
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Ave sem Ninho

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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 25, 2015 8:43 pm

Pegue-os no meu closet. Estão na sapateira...
Denise foi explicando onde os sapatos estavam.
Marina escutou tudo e fez algumas anotações.
Era eficiente, mas achava um absurdo ter de fazer esse tipo de serviço para sua chefe.
Denise não respeitava o limite entre trabalho e pedidos pessoais descabidos.
Achava que seus funcionários eram secretários particulares, entregadores, pessoas prontas para qualquer coisa, a qualquer momento.
Quando um funcionário mais irritado tentava se safar de um pedido esdrúxulo, Denise vinha com a conversa da crise financeira que assolava o mundo.
Coagia o funcionário, gritava e dizia que iria demiti-lo.
Muitos deles, com família para sustentar, acabavam cedendo e se submetiam aos seus caprichos.
Marina tentou argumentar e falar o óbvio ululante, ou seja, que seria impossível ir ao apartamento pegar os sapatos e chegar antes das seis horas no aeroporto.
- Eu moro longe.
Creio que não vou conseguir chegar a tempo.
- Pense no seu emprego.
Com tanta gente procurando um posto de trabalho neste tempo de crise, garanto que você vai fazer milagre e chegará ao saguão do aeroporto bem antes de eu embarcar.
- Mas Denise...
Denise desligou o telefone.
Tinha essa mania deselegante de desligar no meio da conversa quando o assunto não mais lhe interessava.
Marina pousou o celular no criado-mudo e balançou a cabeça para os lados.
- Isso é um abuso.
Não gosto de ser pressionada assim dessa maneira.
Eu não vou conseguir chegar ao aeroporto daqui à uma hora.
Se eu não dependesse tanto desse emprego estaria longe das garras dessa mulher.
Marina levantou-se e dirigiu-se ao banheiro, contrariada.
A conversa com Denise parecia ter saído de um filme de ficção.
Ela deixou os pensamentos de lado e fez uma toalete básica.
Marina era uma mulata bem bonita. Simpática, olhos grandes, verdes e expressivos, os cabelos eram longos e naturalmente encaracolados.
Filha de uma mistura de raças - uma branco com uma negra - possuía um corpo escultural, similar ao de uma passista de escola de samba.
Ela era linda e assediada, mas não dava trela para ninguém.
Era a bondade em pessoa.
Tinha uma alma generosa, um coração puro.
Tivera uma vida muito dura, difícil mesmo, e agora estava conseguindo ter melhores condições de vida.
Consuelo, a mãe, tivera vida difícil.
Pernambucana, abandonada pelo marido e com um filho pequeno, trocara a vida árida no agreste por uma melhor na cidade grande.
Arrumou emprego como doméstica e tempos depois nasceu Marina.
Aos onze anos de idade, Marina arrumou emprego de empacotadora num supermercado.
O irmão mais velho era o clássico vagabundo, largara os estudos e nunca quisera saber de trabalhar.
Jofre tinha uma espécie de aversão natural ao trabalho e crescera rodeadas de amigos marginais e viciadas em drogas, amizades para lá de suspeitas.
Aos catorze anos ele envolveu-se num pequeno assalto e foi parar num reformatório para menores infractores.
Numa rebelião, Jofre fugiu, teve uma discussão feia com a mãe e nunca mais deu as caras.
Sumiu no mundo.
Consuelo se desgastava com tanta preocupação.
Passava noites sem dormir.
Tinha medo de que Jofre se envolvesse com bandidos de alta periculosidade.
Dois anos antes ela recebera um pacote com algumas notas de dinheiro.
Era um presente de Jofre.
Além das notas havia uma pequena carta, escrita com um português bem ruim e com uma letra bem infantil, cheia de garranchos.
Num texto curto, ele afirmava estar bem, morando em outra cidade e torcia para que ela também estivesse bem.
Que se precisasse de alguma coisa, era só enviar uma carta ao endereço que constava atrás do envelope.
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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 25, 2015 8:43 pm

Consuelo chorou muito.
Colocou os três mil reais numa poupança e enviou uma, duas, três, várias cartas ao filho, porém todas voltavam constando endereço inexistente.
Aos poucos, seu coração de mãe percebeu que o filho estava mesmo vivendo uma vida marginal e tentou deixar seu desespero nas mãos de Deus.
Rezava todas as noites pedindo protecção para Jofre.
Marina nunca se dera bem com Jofre.
Desde pequena ele implicava com a irmã, chamando-a de nomes feios.
Consuelo dava uns tapas no garoto e ele sossegava.
Contudo, sempre que possível, infernizava a irmãzinha.
Quando ele foi preso e depois sumiu, Marina deu graças a Deus.
Vira que o irmão recebera inúmeras oportunidades de emprego e sempre se deixava levar pela vida mansa.
Era um vagabundo nato e jamais iria mudar.
O tempo passou e Marina adaptou-se à cidade grande; trabalhava de dia e estudava à noite.
Com muito custo, cursou uma faculdade particular, fez curso de inglês e tinha um bom emprego.
Terminara uma relação afectiva algum tempo atrás e não pensava em namorar.
Queria subir na carreira e dar mais conforto à mãe.
Cuidava com carinho de Consuelo, hipertensa havia alguns anos.
Consuelo escutou o passos da filha e indagou:
- Caiu da cama?
- Não caí, mãe.
A minha chefe me tirou da cama.
- Aquela antipática veio importuná-la logo cedo?
- Hoje começou de madrugada!
- Não entendo porque ainda continua trabalhando para essa mulher.
Você é tão competente, tão esforçada.
Merecia emprego melhor.
- O emprego é bom, o salário até que é bom também, mas o que importa são os benefícios.
Graça a esse emprego você tem uma assistência médica de qualidade.
Eu não poderia lhe pagar um plano de saúde.
Custa caro. É por essa razão que eu não posso perder esse emprego, por ora.
- Posso usar o serviço público de saúde.
Marina bateu três vezes na cabeceira da cama.
- Deus me livre e guarde!
Você não vê o sofrimento das pessoas que dependem dos hospitais públicos.
Não quero ver minha mãe largada num corredor do hospital e demorando a ser atendida.
Consuelo emocionou-se com o carinho da filha.
- Eu dou trabalho, não?
- De forma alguma.
Quem me dá trabalho é a minha a chefe.
- Se eu pudesse voltar atrás...
- E voltar atrás para quê?
Fez tudo direitinho criou-me com amor e carinho.
Transmitiu a mim e ao Jofre valores éticos e morais a fim de nos tornarmos pessoas de bem.
Sou uma mulher de valores íntegros graças à educação que me deu.
Pena não poder dizer o mesmo do meu irmão.
- Não fale assim do Jofre.
Ele sofreu muito, coitado.
- Sofreu?
- Passou fome, viemos num pau de arara de Caruaru até São Paulo.
Moramos num cortiço sujo e malcheiroso por anos.
Quando você nasceu, a nossa vida já estava mais ajeitadinha.
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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 25, 2015 8:43 pm

- Isso é desculpa.
Passou sempre a mão na cabeça dele e veja no que deu.
Deve estar por aí, assaltando, ou, sei lá, fazendo até coisa pior.
- Não fale assim de seu irmão.
É sangue do seu sangue.
- Esse não aprendeu valor algum.
Anda perdido por esse mundo.
Marina ia andando de um lado para o outro, atarefada.
Não gostava nem um pouco de falar sobre Jofre.
Sentia uma sensação muito ruim toda vez que se lembrava do irmão.
Os pelos de seu corpo chegavam a eriçar.
Cortou a mãe com delicadeza.
- Tenho um bom emprego e temos uma boa assistência médica.
Não posso me dar ao luxo de largar tudo por conta do génio ruim da chefe.
- Tem razão, meu bem.
- Não vai dar para chegar a tempo. Impossível.
É uma questão de pura lógica.
- Vou rezar para você arrumar um bom marido - retrucou Consuelo.
- Por quê?
- Daí não vai mais precisar trabalhar, oras.
Um marido bonito, honesto, trabalhador, que a sustente...
Marina riu.
- Não precisa se preocupar comigo, d. Consuelo.
Não preciso me dependurar em homem para me sustentar.
Sei me virar. Sempre soube desde que nasci.
- Fala isso porque sofreu com o término do se noivado.
- Não quero falar sobre isso. - Marina mudou rumo do assunto de maneira abrupta, foi até a cozinha, pegou um copo com água e duas caixinha de medicamentos.
Voltou ao quarto.
- Trouxe-lhe o remédios da manhã.
Consuelo ajeitou-se na cama e com certa dificuldade conseguiu manter-se sentada.
Pegou o copo com água e os comprimidos.
Marina pegou o aparelho de pressão e mediu.
- 14 por 10. Está alta.
- Fiquei agitada com as lembranças de seu irmão.
- Pois então não pense nele.
- Sou mãe.
- Você fez tudo o que podia tudo o que estava a seu alcance.
Se ele não aproveitou, problema dele.
Agora vamos, tome seu comprimido.
- As pernas doem muito - falou Consuelo, enquanto engolia o comprimido e bebericava um copo de água.
- Estão inchadas.
O médico sugeriu caminhar um pouco.
Não pode ficar o dia todo sentada na cama o no sofá, assistindo à televisão.
- Essa sua mãe preta lhe dá trabalho, não?
- Já disse que de modo algum.
- Mas o tempo passou e o que me resta?
- Quer saber?
Acredito que nós influenciamos bastante o nosso destino, mãe.
Comece a pensar nas suas pernas curadas.
- Os médicos não acham nada.
Dizem que minha pernas nada têm de anormal.
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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 25, 2015 8:43 pm

E que a pressão sobe porque fico nervosa à toa.
Também, com tanta desgraça na TV.
- Deixe de assistir a esses programas.
Leia um livro.
- Sabe que tenho dificuldade em ler.
- Eu lhe compro um áudio-livro. É só escutar.
- Me dá sono.
- Folheie uma revista de moda. Ou vá conversar com alguma vizinha.
- Perigoso. Acontece cada barbaridade nas ruas...
- Mais um motivo para mudar esse jeito.
Seja mais positiva.
Sua vida pode ser melhor.
- Obrigada pelo estímulo, filha.
- Agora tenho de ir.
Se precisar de algo, ligue no meu celular.
- Pode deixar. Bom trabalho.
Marina beijou a mãe no rosto, apanhou a sua pasta, a bolsa e saiu.
Morava num prédio bem antigo, de três andares, sem elevador, no bairro do Tatuapé.
O apartamento ficava no térreo, tinha dois quartos pequenos, uma sala, cozinha, banheiro e uma pequena área de serviço.
Marina cumprimentou uma vizinha, consultou o relógio e deduziu que talvez não pegasse aquele trânsito pesado do dia a dia para atravessar a cidade.
Deu partida no carro - aquele tal do modelo russo bem velhinho - e ligou o rádio em busca das notícias da cidade e do trânsito.
O som era meio ruim, tinha interferência.
Marina meteu a mão para fora da janela, mexeu na antena enferrujada.
O som melhorou.
- Mesmo sem trânsito, não vou conseguir chegar a tempo.
Ela deu de ombros. Paciência.
Não ia correr feito uma louca e colocar a própria vida e a de outros em risco por conta de um capricho da chefe.
De repente, o carro começou a falhar como de costume.
Ele não aguentava e parava de funcionar.
- Bem que Denise falou.
Deve ter sido praga dela.
Agora estou danada!
Não chegarei ao aeroporto na hora que ela quer.
Acostumada com os problemas constantes no carro, Marina conseguiu fazê-lo chegar, aos trancos e barrancos, até um posto na esquina de casa.
Ao lado havia uma borracharia e uma oficina mecânica.
O rapazes a conheciam de longa data e estavam acostumados a fazer o conserto do veículo.
Com muita sorte, deu para ela pegar um táxi logo em seguida e chegar ao prédio de Denise meia hora depois.
Desceu em frente à portaria.
Estava havendo troca de turno e João aproximou-se e a cumprimentou de maneira jovial.
Marina sorriu, retribui o cumprimento e explicou ao porteiro o motivo de estar lá.
- Não pode subir.
- É urgente, senhor.
- Eu tenho de ter uma autorização por escrito o então ter a permissão do marido dela.
- Pois interfone para o marido dela.
Edgar me conhece por nome, conversamos algumas vezes por telefone.
Se quiser eu falo com ele daqui da portaria explico tudo e o senhor me deixa subir.
João coçou a cabeça e interfonou para o apartamento.
Nada. Ligou de novo. Ninguém atendia.
- Edgar deve estar dormindo.
Vai ter de esperar.
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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 26, 2015 9:33 pm

- Por favor, eu não posso esperar.
A mulher dele quer que eu pegue umas coisas aí no apartamento e leve até o aeroporto.
Se eu não chegar a tempo, ela vai comer o meu fígado!
João mordiscou os lábios e coçou a cabeça de novo.
- Tem razão.
A d. Denise é mulher muito brava.
- Se é!
- Mas a senhorita entende né?
Eu não posso deixá-la entrar. São as normas.
- Por favor, tente de novo.
Ainda é muito cedo, ele não deve ter saído para trabalhar.
- Não mesmo.
O portão está quebrado e sou eu quem abre.
Edgar não sai antes das sete e meia.
- Ligue de novo, por favor.
O rapaz interfonou mais uma vez.
- Não atende. Talvez esteja no banho.
João notou o ar preocupado de Marina.
Sentia que ela era uma boa pessoa e que precisava subir de qualquer jeito.
Mas ele devia seguir as ordens do condomínio, caso contrário seria demitido.
Ele pensou, pensou e decidiu:
- Bom, eu tenho de levar o jornal e posso tocar a campainha.
A senhorita aguarda mais um pouco?
Marina consultou o relógio.
Faltavam dez minutos para as seis da manhã.
Mesmo o rapaz a deixando subir e mesmo que o trânsito ajudasse, ela não chegaria a tempo em Congonhas.
Denise deveria estar prestes a embarcar.
Mas fazer o quê?
Ela estava lá no prédio e deveria seguir ordens.
No caminho do aeroporto ligaria e deixaria uma mensagem na caixa postal da chefe.
Depois aguentaria, por alguns dias, os gritos e impropérios.
Ela olhou para João e disse:
- Eu espero.
João chamou outro funcionário e pediu para que ficasse na portaria.
Pegou o jornal e subiu pelo elevador de serviço.
Ao chegar próximo da porta da cozinha do apartamento de Edgar, notou-a encostada e vislumbrou uma réstia de luz.
- Estranho. A porta está desencostada e a luz acesa.
João olhou para os lados, caminhou até a lixeira perto.
Voltou e bateu na porta. Nada.
Quando foi bater novamente escutou um grito.
João desesperou-se e entrou.
Ao ver Edgar caído no chão e com as mãos no estômago, fez um esgar de espanto e terror:
- Minha nossa senhora!
Aproximou-se, ajoelhou-se.
- O que você fez Edgar?!
- Eu fiz besteira.
- O que bebeu?
- Ingeri veneno de rato.
Ajude-me e leve-me a hospital.
João lembrou-se de acontecimento ocorrido anos atrás com um parente.
Seus olhos perscrutaram o ambiente e ele viu a lata sobre a mesa.
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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 26, 2015 9:33 pm

Perguntou rápido:
- Homem de Deus!
Foi aquilo que você tomou?
- Sim...
Ele nem hesitou. Meteu o dedo na garganta de Edgar e o induziu ao vómito.
Por sorte, o rapaz expeliu rapidamente tudo o que havia ingerido.
João foi ao tanque, lavou as mãos e correu ao interfone.
Pediu para que o funcionário mandasse Marina subir pelo elevador de serviço, rápido.
Quando ela chegou ao andar e saiu do elevador, teve uma sensação estranha.
Caminhou até a porta abriu e, ao ver o homem caído no chão, apertou o passo.
- O que aconteceu?
- Ele tomou veneno, moça.
- Veneno? Santo Deus!
- Acho que consegui fazer sair tudo, mas precisamos chamar uma ambulância.
Marina esqueceu-se dos sapatos de Denise.
Sentiu tremenda compaixão por aquele homem que conhecia somente por telefone.
Abaixou-se e perguntou:
- Pode falar?
Ele assentiu de maneira positiva com a cabeça.
- Tem convénio médico?
Edgar fez sinal com a cabeça.
Marina acompanhou seus olhos e viu a carteira sobre a mesinha da cozinha.
Abriu e pegou a carteirinha do convénio.
Ligou e conseguiu uma ambulância.
- Ele precisa de socorro imediato - disse ela.
- O pior já deve ter passado.
Eu o fiz colocar o veneno para fora.
João agachou-se de novo e perguntou:
- Há quanto tempo tomou isso?
Edgar olhou para o relógio da cozinha.
- Acabei de tomar. Faz alguns minutos.
Logo depois, a ambulância chegou e um dos paramédicos pediu a embalagem do veneno e solicitou a presença de um parente para acompanhar Edgar.
Marina já havia ligado várias vezes para o celular de Denise e nada, só caía na caixa postal.
- Denise já deve estar dentro da aeronave - disse para si.
- Ele tem um grande amigo, o Adriano - tornou João - mas não sei o telefone dele, não.
Edgar pegou na mão de Marina. Estava desesperado.
- Não quero ficar sozinho. Venha comigo.
- Eu não o conheço.
- Por favor!
- Vou tentar mais uma vez localizar sua esposa e...
Ele a cortou, as lágrimas escorrendo pela face:
- Por favor. Não chame a Denise.
Não faça isso. Estou com medo.
Venha comigo.
O que fazer?
Ela estava profundamente abalada e sentiu tremenda piedade pelo rapaz.
Marina percebeu como se uma leve brisa tocasse sua fronte.
Parecei escutar nitidamente uma voz suave e amiga:
- Vá com ele.
Marina até olhou para os lados para ver de onde vinha a voz.
Só viu os paramédicos preparando Edgar para o resgate e João atónito, no canto da cozinha.
- A senhorita faria a gentileza de acompanhá-lo?
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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 26, 2015 9:34 pm

Edgar é um bom moço.
- Eu vou sim.
Vou ligar para o escritório e informa que vou chegar mais tarde.
A minha chefe viajou e não vão precisar de mim.
Sinto que devo acompanhar esse rapaz até o hospital.
Outro funcionário do prédio apareceu na porta da cozinha.
- Eu vi a d. Denise sair ontem era bem tarde da noite.
Ela estava carregando uma mala e com uma cara de poucos amigos.
- Eles devem ter brigado.
João viu um nome e número de telefone preso a um imã de geladeira.
Era de Maria José.
- Eu vou ligar para a mãe dele e informar que está no hospital.
Ele tirou um bloquinho do bolso e anotou um número:
- Ligue e me dê notícias.
Espero que ele fique bem e volte logo para casa.
Nós gostamos muito desse moço.
Ela fez sinal afirmativo com a cabeça e desceu atrás dos paramédicos.
Marina entrou na ambulância e Edgar pegou em suas mãos.
- Obrigado por estar aqui.
Em seguida, ele pendeu a cabeça para o lado e adormeceu.
Foi difícil dissimular a raiva.
Denise fazia beicinhos, caras e bocas para ocultar o ódio que sentia de Marina naquele momento.
- Ela me paga! Parece que fez de propósito.
A hora que chegar ao Rio vou ligar e lhe falar um monte de desaforos.
Ela que prepare os ouvidos para os desaforos.
Estou com ela por aqui - fez um gesto com a mão próxima ao pescoço.
Segunda-feira eu pegarei ela de jeito.
Leandro estava lendo o jornal no assento ao lado.
Desviou a atenção ao vê-la fazer o gesto com a mão.
- O que foi que resmungou?
- Nada, querido.
Estou pensando na incompetência de uma funcionária.
- A situação está difícil e há muita gente que tem emprego e não honra o cargo que tem.
- Pois é. A minha assistente é muito incompetente.
Vou passar-lhe um correctivo na segunda-feira.
Ele sorriu.
- Isso mesmo. Na segunda-feira.
Se eu fosse você, só voltaria a ligar o celular depois do horário de expediente.
Nada de pensar em trabalho hoje.
- Tem razão. Hoje somos só eu e você.
- Até o fim do dia.
Leandro piscou e voltou a ler o jornal.
A comissária de bordo aproximou-se e perguntou a ela:
- Deseja água, café, um suco?
- Quero paz, pode ser? - respondeu estúpida.
A comissária sorriu sem jeito e fez a mesma pergunta para Leandro.
Ele aceitou um copo de café.
- Não precisa descontar a sua raiva em cima da comissária de bordo.
Denise ficava raivosa quando chamavam a sua atenção.
Mas naquele exacto momento precisava aparentar ser a criatura mais dócil da face da Terra.
- Desculpe querido.
É que fiquei brava com a atitude irresponsável da minha assistente.
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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 26, 2015 9:34 pm

Realmente a aeromoça não tem nada a ver com isso.
Denise levantou o rosto e procurou fingir um sorriso:
- Desculpe queridinha.
Um suco de laranja, por favor.
Por dentro ela estava se lixando para a comissária.
Tinha vontade de se levantar e arranhar o rosto da moça, ou desfazer o coque da própria coitada.
Se escolher aquele emprego era porque nascera para servir e não sabia fazer outra coisa, conjecturava Denise.
Leandro voltou à leitura do jornal e ela sorriu feliz.
Em instantes o avião aproximou-se da cidade.
Denise soltou um gritinho de prazer ao ver a ponte Rio - Niterói e a Ilha Fiscal.
Num piscar de olhos, já estavam num táxi rumo ao bairro do Flamengo.
Eles se hospedaram num simpático e discreto hotel e descansaram um pouco.
Depois de amarem-se e banharem-se foram para a rua.
- Vou seguir seu conselho e manterei o telefone desligado.
Ligarei o aparelho somente no fim da tarde ou amanhã.
Hoje quero ficar só com você - tornou Denise, colada no braço de Leandro.
- Vamos fazer um belo programa.
Leandro fez sinal para um táxi e pediu que os levasse até o Jardim Botânico.
- Quero que conheça.
Enquanto o motorista fazia o trajecto, Denise admiravam paisagem do aterro do Flamengo.
O celular dele tocou.
- Faça como eu - tornou ela.
Não atenda. Desligue.
- Não posso. É lá de casa.
Denise fez ar de mofa.
- Deve ser a esposa aflita, a dondoca querendo saber o que vai servir no jantar - pensou ela.
Leandro se desenvencilhou delicadamente dela e pegou o aparelho.
Fez sinal com as mãos para Denise ficar quieta e atendeu, reconhecendo a voz da empregada.
- O que foi Iara?
- A d. Letícia está desesperada.
O Ricardinho caiu do skate e se machucou...
A empregada relatou em poucas palavras o pequeno acidente.
Ricardo havia se machucado na área de lazer dentro do condomínio e estava no hospital fazendo curativos.
Nada de grave.
Mas Leandro nem terminou de escutar.
Desligou o telefone.
Virou-se atónito para Denise:
- Aconteceu um acidente com meu filho.
- Um acidente?
- Sim. Ele está no hospital, parece que não é nada grave.
- Se não é nada grave, melhor sossegar.
- Não posso.
- Ligue depois para a sua esposa.
- De maneira alguma.
É meu filho que está no hospital.
Preciso ir até lá.
- Mas sua família pensa que você está em São Paulo.
- Dane-se o que pensam.
Eu invento uma desculpa.
Preciso ver meu filho.
Teremos de cancelar a nossa programação.
Lamento Denise.
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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 26, 2015 9:34 pm

Leandro falou e pediu para o motorista retornar ao hotel.
Desceram e na recepção ele acertou os valores.
Perguntou a Denise:
- Quer ficar até quando?
- Por mim iria embora agora mesmo.
Qual a graça de ficar sozinha? - disse, num tom seco e irritado.
- Pode aproveitar e fazer bons programas pela cidade.
Faremos o seguinte: para compensá-la desse furo, vou pagar mais uma diária.
Poderá ficar na cidade até domingo.
Ela fez um muxoxo.
- Tudo bem.
- Prometo que vamos fazer outro programa, num outro fim-de-semana.
Ele nem a beijou.
Pegou a mala que o rapaz trouxera havia poucos minutos e partiu rumo ao hospital.
Denise sentiu um ódio surdo brotar dentro de si.
- Desgraçado!
Esse pirralho tinha que se machucar logo agora?
Por que não caiu, bateu a cabeça e morreu de vez? Que estorvo.
Ela respirou fundo e resolveu meio a contragosto, aproveitar a cidade.
Iria valer-se da estadia paga, do conforto do hotel e partiria no domingo de manhã.
Ainda queimava dentro dela uma pontinha de esperança em ver Leandro logo mais à noite.
Denise apanhou um táxi e foi visitar pontos turísticos da cidade.
Não tinha a mínima vontade de ir ao Jardim Botânico e ser picada por uma infinidade de insectos.
Pensou em pegar o bondinho no Pão de Açúcar.
- É para lá que eu vou - disse para si e para o motorista.
Leandro chegou ao hospital, apresentou-se na recepção, perguntou pelo filho e foi encaminhado para uma sala de espera.
Avistou Letícia sentada numa cadeira.
- Oi, Letícia.
Ela levantou delicadamente os olhos.
Surpreendeu-se ao vê-lo.
- O que faz aqui?
- Iara me ligou.
- Como veio tão rápido?
Ele mordiscou os lábios, apreensivo e emendou:
- Quando Iara me disse que Ricardo estava no hospital, não hesitei.
Peguei um avião e corri para cá.
- Chegou rápido.
- É, cheguei rápido - respondeu ele, meio sem-graça.
Letícia nem percebeu a mentira.
Estava deveras preocupada com o filho.
- Estou aflita.
Leandro aproximou-se e pegou em suas mãos frias.
- Suas mãos estão geladas.
Ele começou a fazer movimentos delicados sobre suas mãos, a fim de esquentá-las.
Letícia sentiu agradável bem-estar.
Fechou os olhos por instantes.
Como era bom o contacto das mãos dele!
Leandro indagou:
- O que aconteceu?
- Ricardinho acordou bem-disposto, tomou café e foi brincar com os amigos do condomínio.
Lembra-se do campeonato de skate que ele organizou?
- Lembro, sim.
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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 26, 2015 9:34 pm

- Pois é. Meia hora depois um dos meninos veio até em casa me avisar do acidente.
Fiquei sem saber o que fazer.
Imediatamente peguei a bolsa e corri com ele para cá.
- Ele está bem?
- Parece que levou alguns pontos na altura do joelho.
É que na hora fiquei desesperada.
Era tanto sangue e você não estava.
Se meu pai estivesse aqui... - ela começou a choramingar.
Instintivamente Leandro aproximou-se e apoiou a cabeça dela em seu peito.
- Não fique assim.
Eu estou aqui com você.
- Desculpe-me pela fraqueza.
- Chi! Está tudo bem.
Letícia foi tomada por nova sensação agradável.
Sentia-se segura ao lado do marido.
Amava-o acima de tudo, mas parecia que algo a impedia de uma aproximação maior.
- Canalha! Pensa que nos engana?
Pode ludibriar a minha filha doce e ingénua, mas a mim você não engana! - vociferou uma voz masculina.
Leandro sentiu súbito mal-estar.
Afastou-se de Letícia e passou a mão pela testa.
- Você está pálido!
O que aconteceu?
- Não sei, senti súbito mal-estar.
- Vamos chamar um médico.
- De forma alguma.
Vai ver é o estômago vazio.
Eu não tomei café da manhã.
Letícia levantou-se.
- Vou providenciar algo para você comer.
Enquanto ela se dirigia à cafetaria do hospital, Leandro continuava com aquele estranho mal-estar repentino.
- Idiota! Eu consigo fazer você passar mal.
Você não consegue me ver, não consegue me escutar, não sabe como se defender.
Eu vou fazer você sofrer.
Leandro passou nervosamente as mãos pelos cabelos e apoiou os cotovelos sobre os joelhos.
- Eu estava bem até agora.
Por que esse incómodo?
O espírito ao seu lado iria atormentá-lo ainda mais, não fosse uma voz conhecida e cheia de amor a afastá-lo momentaneamente daquela sensação ruim:
- Papai!
Leandro olhou para o fim do corredor e avistou o filho.
Abriu largo sorriso e, nesse instante, envolvido por uma onda sincera de amor, ficou livre daquela influenciação negativa.
Correu e abraçou o menino, enchendo-o de abraços e beijos.
- Ricardinho, meu filho amado.
O que aconteceu?
- Estava brincando com meus amigos e quis arriscar uma curva.
Foi maneiro! Parada sinistra!
- Filho, eu não entendo essas gírias.
Ricardinho riu.
- Esqueci que você é muito velho!
Leandro riu, meneou a cabeça para os lados e o filho continuou:
- Foi legal, a galera se divertiu, mas aí eu tropecei no skate e meti o joelho na cerca do jardim.
- Quantas vezes pedi para você se proteger e usar joelheiras?
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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 26, 2015 9:34 pm

- Nem me dei conta.
Mas olhe - ele apontou para o curativo - levei três pontinhos.
Não derrubei uma lágrima.
Sou forte, assim como você.
Leandro o abraçou e o beijou no rosto.
- Você é destemido e forte, como eu.
Teve mesmo a quem puxar.
- Vai passar o dia comigo?
- Hum, hum. Vamos para casa, você precisa descansar e...
- Que descansar, que nada! Estou muito bem.
O médico recomendou que eu não ande tanto, pelo menos hoje.
E subir no skate só depois que tirar os pontos...
- Passarei o dia ao seu lado.
- E o trabalho?
- Nada de trabalho hoje. Chega.
Até domingo serei seu companheiro.
- Oba! - Ricardo o abraçou.
Vamos assistir àqueles seriados de TV juntos?
- Todos os que você quiser.
Ricardo abraçou novamente o pai e, olhando em seus olhos, disse com largo sorriso:
- Você é o melhor pai do mundo!
Letícia aproximou-se com uma bandejinha.
Nela havia um sanduíche de queijo quente e um copo com suco de laranja.
Entregou-a ao marido.
- Precisa se alimentar.
- Obrigado.
- Mãe, o papai não vai trabalhar mais hoje e vai passar o dia inteiro, quer dizer, o fim-de-semana todo comigo. Acredita?
Ela afagou-lhe os cabelos sedosos e alourados.
- Acredito, sim.
- Vamos para casa, mãe?
- Tenho de assinar uns papéis e já vamos.
- Vamos juntos - disse Leandro.
Eu vim de táxi e volto dirigindo.
Letícia sorriu.
Pegou a chave do carro e a entregou ao marido.
Os dois, pai e filho, acenaram com a cabeça e partiram felizes rumo ao estacionamento.
Letícia até conseguiu manter bom humor.
O espírito que estava próximo deles resmungou a certa distância:
- Agora não tenho como me aproximar de Leandro.
Quando ele está com Ricardo eu não consigo fazer nada. Que maçada!
O espírito falou e em seguida desvaneceu no ar.
Edgar recebeu tratamento adequado e foi transferido para um quarto.
Ficara em observação e fora liberado no fim da tarde.
Marina conversou com os médicos e recebeu orientações.
- Seu marido vai ficar bem, sem sequelas.
Foi de suma importância ter trazido a latinha do veneno.
A minha colega vai conversar com você e lhe dar mais detalhes.
O médico disse e se afastou rapidamente.
Marina nem teve tempo de dizer que ela não era casada com Edgar, mas deu de ombros.
Uma simpática médica veio ao seu encontro.
- Você é a acompanhante do Edgar?
- Sim, sou.
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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 26, 2015 9:35 pm

- Sou a Dra. Helma.
- Prazer.
- É necessário eu lhe passar algumas informações.
- Pois não.
Helma indicou uma cadeira ali próxima e ambas se sentaram.
De maneira didáctica, a médica falou:
- Os sintomas, no envenenamento com raticidas que são engolidos, dependem do produto e da quantidade ingerida, graças a Deus, Edgar ingeriu uma quantidade muito pequena.
Se a vítima estiver inconsciente, sonolenta ou com crises convulsivas, não se pode, de maneira alguma, induzir o vómito, pelo risco de aspiração pulmonar.
- Como assim? - perguntou Marina.
- O alimento vai para o pulmão, podendo causar broncopneumonia aspirativa.
- No caso dele, que estava consciente...
- No caso do seu marido, como estava consciente, induzir o vómito, posicionando-o deitado de lado, foi à melhor solução.
Da maneira como vocês fizeram.
A médica, de uma simpatia sem igual, procurava ser bem didáctica:
- Em casos assim, se possível, é bom identificar o tipo de veneno que foi ingerido e a quantidade.
Caso a vítima esteja consciente como aconteceu com seu marido só devemos induzir o vómito se os agentes tóxicos forem medicamentos, plantas, comida estragada, álcool, bebidas alcoólicas, cosméticos, tinta, fósforo, naftalina, veneno para ratos ou água oxigenada.
- Não fui eu quem fez isso.
Foi o porteiro do prédio.
Em todo o caso, como se faz para induzir o vómito?
- Coloque o dedo na garganta da vítima o modo mais popular.
A seguir, leve-a ao hospital mais próximo, preferencialmente, munida do rótulo da embalagem do veneno.
Como você agiu.
Ele já havia feito isso antes?
- Não sei.
- Cabe ressaltar que o vómito deverá ser provocado em qualquer tipo de intoxicação em que o dano do acto de vomitar for inferior ao dano provocado pelo produto ingerido.
- Como assim, doutora? Não entendi.
- Nas intoxicações advindas por derivados de petróleo, ácidos e afins não se deve provocar vómito.
De qualquer maneira - tornou a médica de maneira jovial - ele ficará até amanhã em observação.
Depois, vamos dar alta e eu solicito que ele receba acompanhamento psicológico.
Marina agradeceu as observações e afastou-se.
- Hum, todos aqui pensam que Edgar é meu marido. Que coisa!
Pelo menos agora sei tomar providências no caso de algum envenenamento - disse pare si enquanto caminhava na direcção do quarto.
Sorriu ao entrar e vê-lo com aparência melhor.
- Como se sente?
- Muito melhor. O susto passou.
- Ainda bem que chegamos praticamente na hora em que você ingeriu aquilo.
Se demorássemos, talvez os procedimentos fossem mais agressivos ou até você não estivesse vivo.
Uma lágrima escapou pelo canto do olho do rapaz.
Edgar virou o rosto para o lado, na direcção da parede, sentindo enorme culpa.
- Quase destruí a minha vida.
- O que aconteceu?
- Não quero falar sobre isso agora.
- Tem todo o direito de permanecer quieto, afinal mal nos conhecemos.
- Sempre me atendeu de maneira simpática.
Gostava da sua voz quando ligava para falar com Denise lá na empresa.
Marina sorriu.
- Agora me conhece pessoalmente.
Sabe que tenho muito trabalho, não posso ficar aqui o tempo todo e, por essa razão, o João ligou para sua mãe.
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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 26, 2015 9:35 pm

Ela está por chegar.
- Ele ligou para meus pais? Por quê?
- Eu não sou sua parenta e não nos conhecemos.
Como cheguei aqui no hospital ao seu lado, devo permanecer até que chegue um parente ou responsável.
Não consegui localizar sua esposa e João pegou o número de telefone de sua mãe fixado num imã da geladeira e ligou para ela.
- Falou com Denise?
- O celular dela está desligado.
- Para aonde foi?
- Viajou para o Rio, a trabalho.
- Por favor, tente localizá-la.
Eu gostaria muito de poder falar com ela.
- Farei o possível.
Maria José entrou no quarto e, ao ver o filho conversando e aparentemente bem de saúde, levantou os braços para o alto.
- Graças a minha Nossa Senhora de Fátima! - disse ainda num forte sotaque lusitano.
Ela aproximou-se da cama, abraçou e beijou Edgar várias vezes no rosto.
- Aposto que isso foi briga com aquela sirigaita! Aposto!
- Mãe... - ele fez sinal com a cabeça e Maria José acompanhou os olhos do filho.
Foi naquele instante que ela percebeu a presença de Marina.
- Foste tu quem o acompanhaste?
- Sim, senhora.
Prazer - ela estendeu a mão - sou Marina.
Maria José abraçou-a com carinho e derrubou algumas lágrimas. Estava emocionada.
- Salvaste o meu filho!
- Imagine senhora.
Quem o salvou, na verdade, foi o porteiro do prédio.
Eu só o acompanhei até o hospital.
- Estiveste ao lado do meu filho quando ele mais precisou.
Serei eternamente grata a ti.
- Fiz o que qualquer outra pessoa faria.
- Fez o que qualquer pessoa de bom coração faria. - retrucou Fernando, que acabava de entrar no quarto.
O casal encheu Marina de perguntas e ela ficou até meio tonta com o jeito rápido de Maria José lhe dirigir as indagações.
Ela relatou o que a médica acabara de lhe dizer acerca dos procedimentos no caso de ingestão de venenos.
Maria José não se conformava.
Escutava Marina e balançava a cabeça para os lados de maneira negativa.
Mesmo cravada de perguntas, Marina sentiu-se bem ao lado deles.
Percebeu que eram uma família unida e que havia muito amor e carinho entre os três.
Notou a emoção com que Fernando abraçou o filho.
E em seguida perguntou:
- Onde está Denise?
- Ela viajou pai.
- Como assim, viajou?
Edgar deu de ombros.
Não queria falar sobre a discussão que tivera com Denise.
Fernando estava irredutível.
- Era ela quem deveria estar aqui.
A sua esposa. E não uma estranha.
Ele dirigiu o olhar a Marina e completou:
- Desculpe-me a franqueza, mas é uma estranha em nosso seio familiar.
A esposa é quem deveria estar aqui ao lado dele.
- Nós brigamos pai.
- E daí? Brigas entre casais são comuns.
Edgar abriu e fechou os olhos.
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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 26, 2015 9:35 pm

Suspirou num murmúrio:
- Denise me deixou...
Marina notou que era hora de partir.
- Preciso voltar ao trabalho.
E ainda tenho de saber se meu carro vai ficar pronto.
Adorei conhecê-los, embora numa situação nada agradável.
- Pois fique - solicitou Fernando.
- Não posso. Mesmo.
A jovem aproximou-se de Edgar e passou delicadamente a mão sobre seu rosto.
- Sente-se melhor?
Ele apertou a mão dela e sorriu.
- Obrigado. Mil vezes, obrigado.
- Fiz o que meu coração mandou.
- Quando estiver melhor, aparecerei na empresa.
Tomaremos um café juntos, pode ser?
- Fique bem.
Espero que tudo se resolva e você seja feliz.
- Denise vai voltar e tudo vai ficar bem.
Marina não respondeu.
Apertou a mão do rapaz e esboçou tímido sorriso.
Em seguida, despediu-se dos pais dele.
- Simpatizei muito contigo.
Foste o anjo bom que apareceste na hora certa na vida de meu filho.
Nunca vou me esquecer disso.
- Até mais, d. Maria José.
- Fica com meu cartão.
Vem tomar um chá comigo qualquer hora.
Farei pastéis de Belém.
É receita que está há várias gerações na minha família.
- Tenho trabalhado muito, mas farei o possível para nos vermos e nos conhecermos melhor.
Também gostei muito da senhora.
Abraçaram-se e a jovem despediu-se de Fernando.
Quando ela saiu do quarto, Fernando soltou um assobio.
- Que bela morena.
Conhece-a de onde?
- É secretária da Denise.
- Pobrezinha! Trabalha para aquela cobra? - falou Maria José.
- Mãe!
- Ninguém merece trabalhar ao lado daquela mulher impertinente.
Denise é o cão em forma de mulher.
- Você implica com ela.
Sempre foi assim, desde o começo do namoro.
- Acaso te lembras de como ela entrou para a nossa família?
Tive de aceitá-la.
Tu não quiseste fazer aquele teste de DNA e casaste.
- Eu a amava.
Nunca suspeitei de seu comportamento.
Maria José prosseguiu:
- A única coisa boa dessa história toda foi que a pobre da Mabel morreu em paz.
Lembro-me até hoje da sua fisionomia alegre quando Denise entrou na igreja.
Fernando interveio:
- Deixemos o passado para trás, querida.
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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 26, 2015 9:35 pm

De que adianta lembrarmos isso tudo agora.
E, virando-se para o filho, falou e lhe piscou:
- Bonita e simpatia essa rapariga que saiu daqui.
Gostei muito dela.
- Eu também a achei bem simpática - emendou Maria José.
- Agora nos conte o que aconteceu, sem rodeio - exigiu Fernando.
- Meu pai, não quero falar sobre isso agora.
- Por que, não?
- Não é o momento.
- Nada disso. Nada de fugir do assunto.
Eu o conheço muito bem.
Se estiver aqui nesta cama de hospital nos deve satisfação.
O que aconteceu entre você e sua esposa para tomar atitude tão dramática?
Brigaram feio desta vez?
- Ela te deixou-te? - indagou Maria José.
Edgar assentiu com a cabeça.
Maria José sorriu por dentro.
- Sabia que um dia ela sairia da vida de meu filho.
Depois, com olhos húmidos, Edgar passou a relata o dia anterior, desde a saída do escritório até o fim da noite, quando Denise batera o pé na sua decisão e afirmara que iria embora para valer.
- Melhor assim.
Ela não prestava e...
Fernando fez sinal negativo com a cabeça e ela entendeu o recado.
Parou de falar.
Edgar estava frágil, as lágrimas escorriam sem parar.
Maria José abraçou o filho e o beijou no rosto.
- Acalma-te. Tudo vai ficar bem.
- Será, mãe?
- Claro. Tudo passa.
Logo vais para casa, retomar tua vida.
- Assim espero.
Desde que Denise volte para mim...
Fernando sentiu pena do filho.
Sabia o quanto Edgar gostava de Denise.
Sabia o quanto era duro para o filho ter de lidar com essa separação, que para ele, desde o início, estava com os dias contados.
Ele só não esperava que o filho tomasse atitude tão dramática.
Maria José fingia consternação e por dentro estava feliz.
- Nossa Senhora de Fátima escutou as minhas preces!
Preciso ir à igreja e agradecer a graça alcançada.
Denise saiu da vida de meu filho e Edgar vai ser muito feliz. Muito feliz.
Denise não estava se sentindo muito confortável em sua estada na cidade maravilhosa.
O calor estava praticamente insuportável e a fila para pegar o bondinho era um pouco extensa.
Ela odiava filas.
Achava coisa de pobre.
Havia um grupo de turistas japoneses que não entendia patavina sobre as orientações da guia turística.
O sol estava muito forte e ela se esquecera de usar protector solar ou mesmo de colocar um chapéu.
Começava a sentir a pele do rosto e dos ombros arderem.
- Que saco! Estou suando bicas e morrendo de sede.
Ela saiu da fila e foi até uma barraquinha ali perto.
Comprou uma garrafinha de água e, depois de bebe uns goles, sentiu-se melhor.
Voltou para a fila.
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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 26, 2015 9:36 pm

Uma senhora bem baixinha, mais baixa do que a média, nanica mesmo, com cara de poucos amigos, disparou:
- Ei! Aonde pensa que vai?
Denise não lhe deu ouvidos.
A mulher baixinha continuou voz meio esganiçada:
- Está furando fila, ó branquela.
Denise voltou o pescoço para trás e mediu a mulher de cima a baixo.
Fez muxoxo.
- Está falando comigo?
- Por acaso tem outra branquela furando fila aqui na minha frente?
- Vai-te catar! Larga do meu pé, meia-entrada.
Eu estava na fila e fui pegar uma garrafinha de água.
Voltei ao meu lugar.
- Seu lugar é atrás de mim.
Denise estufou o peito.
- Quero ver se você é mulher para me tirar daqui, seu protótipo de gente.
Vai, vem me tirar daqui.
- Olha que eu vou.
Sofro de nanismo, sou pequena, mas destemida.
- Vê se enxerga!
Volte para a nave da Xuxa.
Não é lá que habitam os duendes e gnomos?
Algumas pessoas riram, outras ficaram constrangidas.
Um senhor, tomando as dores da mulher, retrucou:
- Muito feio ofender assim outra pessoa.
Ela não é anã, é prejudicada verticalmente.
Denise jogou o rosto para trás, numa gostosa gargalhada.
- Agora anão é prejudicado verticalmente?
Anão é anão e ponto final.
Essa mergulhadora de aquário está me importunando e ninguém vai me tirar daqui.
A confusão se instaurou.
Um grupo defendia a senhora, que, tão logo percebera a atenção recebida pelas pessoas, adoptou uma postura de vítima da situação.
Mostrou-se ofendida e começou a choramingar.
Outro grupo achava um absurdo Denise dirigir-se de maneira tão vulgar a uma pessoa.
Era muita falta de educação.
E outro grupo achava tudo engraçado.
Divertiam-se com as tiradas dela e com os atrapalhados japoneses.
- Ela pode me xingar de branquela e eu não tenho o direito de me defender?
Que democracia é essa?
- Branquela, não.
Está ficando um pimentão - gritou um.
- Odeio gente grossa - falou uma outra mais atrás.
Denise botou a mão na cintura e balançou a cabeça para os lados.
- Gente nojenta! Odeio povo.
Um homem aproximou-se e murmurou em sei ouvido:
- Ta a fim de sair daqui?
Denise voltou-se para a voz logo atrás de si.
Abriu largo sorriso ao ver aquele homem moreno alto, corpulento.
- Adoraria - respondeu alegre.
- Venha comigo.
Daqui a pouco vão querer esfolarem você viva.
Denise percebeu o português errado, mas gostou do rapaz.
Falou:
- Não fui eu quem começou a confusão.
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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 26, 2015 9:36 pm

Foi essa locutora de radinho de pilha quem começou.
E, voltando-se para a mulher, sugeriu:
- Por que não enfim a cabeça numa tomada e se mata?
Ou por que não se atira do primeiro andar de um prédio?
Quer ver que nem vai pagar ingresso para ir ao bondinho?
Vão permitir que passe por debaixo da catraca.
O homem a tirou dali.
Se Denise abrisse a boa para falar mais um impropério para a pobre mulher com certeza seria executada sumariamente por um grupo indignado com tantas tolices.
- Venha comigo.
Ela ainda virou para trás e fez uma careta para a baixinha.
Mais adiante, longe do grupo e da confusão, quando ele tirou os óculos escuros e Denise notou o par de olhos esverdeados, não se conteve.
- Meu Deus!
Que olhos são esses?
- Meu charme.
- São verdadeiros? - ela levantou uma das mãos e tocou no seu rosto.
- Originais de fábrica!
- Estou impressionada.
- Quando minha fala não seduz, a gente fazemos uso de outros atributos que a natureza deu para mim de presente.
Ela pegou a garrafinha de água e bebericou.
Fingiu não escutar o assassinato que ele cometia com o idioma.
Em seguida, passou a mão pela testa suada.
- Obrigada. Se ficasse mais um pouquinho ali, seria esfolada viva.
- Aquelas pessoas não entenderam o seu senso de humor.
- Agradeço a gentileza em me tirar de lá.
Ele estendeu a mão.
- Prazer, Jofre.
- Eu me chamo Denise - ela também estendeu a mão e o cumprimentou.
Sentiu agradável sensação ao tocar naquela mão grande, áspera e forte.
- É paulista, certo?
- Como adivinhou? - perguntou ela.
- Pelo sotaque.
- Está tão na cara, ou melhor, na fala, assim?
Ele riu.
- Está. Tem um sotaque gostoso, fala cantando as palavras.
Ela sentiu-se lisonjeada.
- Nunca dei atenção ao meu jeito de falar.
- Morei em São Paulo por uns tempos.
- É mesmo?
- E também notei que não é daqui pelo tom da pele.
Tu é muito branquinha para ser carioca.
Sua pele está avermelhada.
Ela notou o vermelhão ao redor das alças do vestido.
- Não estou acostumada a pegar sol e esqueci completamente de passar protector solar.
- Se ficar mais um pouco aqui embaixo do sol, vai ganhar umas bolha pelo corpo.
- Tem razão.
- E esse grupo não quer você por perto.
Quer mesmo subir até o Pão de Açúcar, mina?
- Eu não tinha muita opção.
Pensei em ir ao Jardim Botânico, mas não quero ser picada por pernilongos.
Eu os atraio assim como o mel atrai as abelhas.
- A gente temos muita coisa boa para se fazer na cidade.
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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 26, 2015 9:36 pm

- Aceito sugestões.
- Que tal uma volta no meu iate? - perguntou ele num ar de soberba.
- Iate? - ela indagou surpresa.
- Sim. Iate, tipo esses barco de luxo.
Jofre era um belo tipo, mas não tinha cara de bem-nascido ou postura de um homem endinheirado, como se pessoas com dinheiro tivessem postura diferenciada nos dias actuais.
E o português errado sem concordância, mostrava mesmo que ele não tinha frequentado uma sala de aula.
- Por que a surpresa?
Só por conta da minha cor de pele?
- De modo algum.
Eu não tenho nenhum tipo de preconceito, muito pelo contrário.
- Ah, bom.
- Quando era mais novinha namorei um rapaz bem mais escuro que você, um negro mesmo.
- E gostou? - perguntou ele, num tom carregado de malícia.
- Adorei!
Jamais vou me esquecer daquele homem.
Alto, forte, musculoso.
- Se continuar falando assim, a gente ficaremos com ciúmes desse cara.
Denise riu e fez charme.
Estava gostando desse joguinho de sedução.
- Não fique com ciúmes.
Primeiro porque faz anos que eu me relacionei com ele e segundo, você é muito, mas muito mais interessante que ele.
Jofre riu e piscou.
- Assim está deixando eu amarradão em você.
- Logo de cara?
Você é tão rápido assim?
- Somente com mulher que desperta em mim o desejo.
A gente se interessamos por você desde o momento que a gente te vimos.
- Estava na fila? - ela nem mais ligava para os erros de concordância.
A língua pátria saía esfolada da boca dele, mas Denise estava interessada em outros atributos do rapaz.
Jofre respondia de um jeito diferente.
Era como se falasse de outra pessoa.
Sempre usava a gente no lugar de eu e conjugava de forma errada na primeira pessoa do plural.
Achava que era uma forma de impressionar as pessoas.
- Não. A gente viemos encontrar um amigo e pegar uma encomenda.
Moro aqui faz anos e nunca pegamos o bondinho.
Acho que vamos ter de esperar outra oportunidade.
Meu carango está logo ali - apontou para um automóvel importado, último tipo.
Denise abriu novo sorriso.
- É meu dia de sorte! - disse para si enquanto o acompanhava até o veículo.
Ela entrou e sentou-se.
Jofre deu partida e ligou o ar condicionado.
Denise soltou um gritinho de prazer e recostou-se no banco de couro.
- Ar condicionado! Que delícia!
- Vamos colocar no máximo, mina.
- Aonde vamos?
- Na Marina da Glória.
Meu barco está ancorado lá.
- Nunca andei de barco ou de lancha aqui no Rio
- Se depender de mim vai andar sempre que quiser.
E não é barco, é um iate, como esses das novela das oito.
Jofre falou e encostou propositadamente a mão na coxa dela.
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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 26, 2015 9:36 pm

Denise sentiu um frémito de prazer.
- Esse homem tem pegada do jeito que gosto.
Mais pegada que Leandro até...
Letícia pediu para a empregada servir o almoço e em seguida caminhou até a saleta de TV.
- O almoço está servido.
- Agora? - indagou Ricardo.
- Você precisa se alimentar mocinho.
- Eu e papai estamos assistindo a outro episódio de CSI - Crime Sob Investigação.
- Depois continuam a assistir.
- Ah, mas agora é que o Grissom vai provar quem matou?
Espere mais um pouquinho, vai.
- Nada de esperar.
Afinal de contas, quem vai dar conta de tanta batata frita que a cozinheira fritou?
- Batata frita? Oba!
Leandro desligou o aparelho de DVD.
- Vamos almoçar filho.
Depois voltamos e assistimos ao restante da temporada.
Ricardo levantou-se e foi caminhando com cuidado até a copa.
Leandro levantou-se em seguida e acompanhou-o.
- Devíamos nos reunir mais vezes - sugeriu Leandro.
- Pena que os negócios tomem tanto o seu tempo - finalizou Letícia.
- Preciso estar em São Paulo.
É imprescindível que os negócios sejam dirigidos de lá.
Além do mais, a fábrica fica no interior daquele Estado.
Seu pai, anos atrás, fez um acordo com o governador.
Recebeu subsídios, abatimento nos impostos.
Não consigo vislumbrar a troca da empresa de lugar.
- Nem cogito isso.
São muitos empregados, mais de quinhentos.
Há muitas famílias envolvidas.
- Muitas famílias e muitos interesses, até políticos.
A Companhia se tornou a número um na fabricação de televisores de plasma e de LCD.
Também somos imbatíveis na produção de monitores para computador.
Estamos derrubando os chineses!
- Eu sei de tudo isso.
Papai era homem de visão e transformou uma oficina de reparos de tubos de televisão numa grande empresa, admirada inclusive no exterior.
Sei também que por conta dos impostos e outras burocracias é melhor que a administração fique em São Paulo, mas você se desgasta muito, viaja toda semana.
Não acho justo.
- Não me faz mal algum.
São Paulo fica aqui ao lado.
Meia hora de avião e pronto.
Eu não me desgasto.
- Todavia, Ricardinho sente muito a sua falta.
Sabe, durante a semana, ele comenta que gostaria de tê-lo por perto para ajudá-lo nas lições do colégio.
Outro dia queria que você estivesse aqui para assistir com ele o jogo do campeonato carioca.
Pobrezinho, ficou sozinho na sala.
Leandro meneou a cabeça para os lados.
- Eu sinto muita falta dele.
Talvez possamos arrumar uma alternativa.
- Qual seria?
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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 27, 2015 8:18 pm

- Assim que o inventário ficar pronto, você vai se tornar a accionista maioritária, certo?
- E daí?
- Deverá participar de reuniões importantes.
A sua presença será exigida cada vez mais.
- Eu já pensei no assunto e decidi que vou deixa você a cargo disso.
- Não pode Letícia. A empresa é sua.
- E, de certa forma, é sua também.
Você se esforça e se dedica para que a Companhia continue crescendo.
Viaja o mundo todo atrás de novas tecnologias, procura dar boas condições de trabalho ao funcionários.
Você é um executivo excepcional e merece representar-me no conselho.
Confio em você.
Leandro sentiu leve calor no peito.
- Obrigado por confiar em mim.
Mas eu tenho muitos afazeres.
Uma pessoa de confiança poderia tomar seu lugar.
Que tal a Mila?
- Ela não precisa.
Tem muito dinheiro.
Podemos pensar em nos mudar para São Paulo.
- Deixaria de viver na cidade que mais ama na vida? - perguntou ele, surpreso.
- Sim - Letícia encarou-o nos olhos.
Eu faria tudo para manter minha família unida por mais tempo.
- Creio não ser necessário.
Eu vou estudar meu compromissos com carinho e prometo que vou ser um pai e marido menos ausente.
Leandro falou e pegou na mão dela.
Letícia senti os pelos do braço eriçarem.
Adorava sentir as mãos sempre quentes do marido.
Estava louca de deseje, mas algo a impedia de ser mais carinhosa com Leandro.
O que acontecia?
Ela sorriu e o acompanhou até a copa.
Sentaram-se e Ricardo falou, enquanto devorava as batatas fritas
- Amo vocês.
Adoro quando estamos os três juntos.
Letícia abaixou os olhos timidamente.
Leandro respondeu:
- Eu também gosto muito quando estamos juntos.
Continuaram a conversar até ouvirem a voz de Teresa, mãe de Letícia, vinda da outra sala.
Leandro exalou longo suspiro de contrariedade.
Não se dava bem com a sogra.
Nem com a sogra, tampouco se dava com o falecido sogro.
Não fosse Letícia ter engravidado o casamento não teria sido consumado.
Emerson e Teresa nunca aprovaram Leandro como genro.
Teresa queria que a filha se casasse com alguém da alta sociedade e não com um rapaz classe média.
Ela e o marido nunca foram favoráveis ao namoro, porém, quando descobriram a gravidez da filha, ficaram consternados.
Como toda família que se encontra presa aos ditames sociais e que dá ouvidos aos comentários maledicentes das pessoas, exigiram que sua única filha fosse parar no altar antes de a barriga crescer.
Letícia tinha sido uma menina tímida e quieta, muito reservada, de poucos amigos.
Para falar a verdade, amiga mesmo, só a Mila, desde a infância, quando se conheceram na segunda série do antigo primário.
Eram como unha e esmalte e Mila fazia o papel de irmã mais velha e protectora, embora tivessem uma diferença de idade de pouco mais de um ano.
Letícia tinha trinta anos e Mila estava com trinta e um anos.
Quando garota, Letícia nunca fora chegada a namoro.
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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 27, 2015 8:18 pm

Pensou até em se tornar freira, pois não gostava de sair, de paquerar, de se envolver com os meninos, fosse aos bailinhos da escola, fosse às festas das poucas amiguinhas.
Adorava frequentar a igreja e estava sempre se comungando.
O prazer sempre fora algo difícil de ela alcançar.
No dia em que viu Leandro pela primeira vez, apaixonou-se à primeira vista.
Foi incontrolável, uma onda de calor que se apoderou de todo seu corpo.
Jamais sentira algo igual antes na vida.
Letícia deixou-se seduzir por Leandro e numa festa depois, de muitos goles de champanhe e uma dança de rosto colado ao som de George Michael, aconteceu à primeira intimidade entre ambos.
Ela engravidou, eles casaram e logo depois do nascimento de Ricardinho ela fora perdendo o interesse por sexo.
Cumpria o papel de esposa ao menos uma vez por semana.
Desde a morte do pai, contudo, era com se ela tivesse perdido completamente o prazer em se relacionar com Leandro.
Não se deitava mais com ele e mudara-se para outra suíte.
Teresa entrou e espantou-se ao ver o genro a sentado.
- Meu Deus! Vai cair um raio sobre esta casa.
- Sobre esta casa, não!
Aqui vive uma família feliz.
Ela deu de ombros e retrucou:
- Sei, sei. Você por aqui a esta hora?
- Qual o problema?
- Foi despedido?
- Engraçado. Muito engraçado.
- Para mim é engraçado.
Se Letícia quisesse, poderia demiti-lo.
Deixou a empresa às moscas?
- Não é bem assim.
Há funcionários competente cuidando do seu património, Teresa.
- Você respira trabalho vinte e quatro horas por dia.
Daí a minha estranheza.
- Para ver como sou bom profissional e bom pai.
- Bom pai, essa é boa.
Ela fez uma careta e beijou o neto:
- Como vai querido?
Sente-se melhor?
- Sim, vovó. Bem melhor.
Isso foi coisa boba.
Semana que vem tiro os pontos e estarei pronta para outra.
- Vire essa boca para lá, Ricardinho - tornou ela, voz ríspida.
Chega de dar trabalho para sua mãe.
Olhe como ela está! Coitada.
Em seguida, abraçou a filha:
- Meu bebé. Está pálida!
- Que nada, mamãe, estou bem.
- Precisa se alimentar melhor.
Está muito magra.
Viu a sua foto naquela revista de celebridades?
Todas as minhas amigas comentaram que você está muito magra, Letícia.
Pensam que está com anemia ou bulimia.
- Quanta bobagem, mãe.
Sempre fui magra.
- Quero dar uma olhada no cardápio e ver o que você está mandando fazer.
Nunca teve jeito para lidar com a casa e...
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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 27, 2015 8:18 pm

Leandro e Ricardo trocaram olhar significativo.
Em seguida, levantaram-se.
Leandro sugeriu:
- Vou pedir para Iara servir a sobremesa na saleta de TV.
- Depois conversamos vovó.
Os dois saíram e Teresa continuou:
- Você precisa aplicar um correctivo em seu marido.
- Por quê?
- Ele precisa ficar mais perto de você e de seu filho.
- Eu sei mamãe.
Mas Leandro se esforça.
Trabalha bastante.
- Sei o quanto trabalha.
Pensa que sou tonta?
Somos conhecidos na sociedade.
Já ouvi comentários maledicentes sobre o comportamento de seu marido.
Lá no clube falam que ele anda de caso com uma morena.
Letícia estremeceu.
Não conseguia se relacionar intimamente com Leandro, mas era louca por ele.
Amava-o de verdade.
O facto de saber que ele pudesse estar supostamente envolvido com outra mulher deixava-a aflita e insegura.
Ela espantou os pensamentos ruins que começavam a se formar na sua mente.
- Bobagens.
Essas suas amigas levam uma vida fútil e adoram uma fofoca.
- Bom, onde há fumaça, há fogo.
Fique de olho em seu marido.
- Podemos mudar de assunto?
- Está certo.
Mês que vem teremos a reunião de conselho.
Assim que o inventário ficar pronto...
- Não quero mesmo assumir o conselho.
- Imagine! Você é a herdeira legítima!
Eu não tenho tino para os negócios.
Nunca tive.
- Eu também não.
- Seu pai sempre disse que você seria a sucessora dele.
É importante que alguém do mesmo sangue de continuidade aos negócios. É a única filha.
- Mas eu não gosto de nada disso.
Vou deixar que Leandro tome conta de tudo.
Ele é competente e óptimo profissional.
- Vai entregar a empresa de mão beijada para esse homem?
E se ele conduzir mal os negócios?
E se ele tentar nos enganar e tomar toda nossa fortuna?
Conheço casos de conhecidas que, quando se deram conta, já era tarde demais e só ficaram com a roupa do corpo.
Pobrezinhas.
E ainda foram trocadas por meninas mal saídas das fraldas.
Quanta falta de vergonha
- Leandro é um bom homem.
É bom profissional trabalha com amor.
Desde que assumiu os negócios quando papai morreu a Companhia só cresceu.
Disso você não pode reclamar.
As acções da Companhia dispararam na bolsa de valores.
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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 27, 2015 8:19 pm

Nem a crise financeira as fizeram cair.
- Você tem razão.
Não gosto do seu marido, mas ele é bom profissional.
Ouço comentários óptimos em relação à sua postura profissional.
Mas em relação sua conduta pessoal...
Letícia a cortou com delicadeza.
- Por favor, mamãe.
Não quero falar sobre isso.
Teresa sabia o quanto a filha era apaixonada por Leandro.
No entanto, estava desconfiada.
Algumas amigas juravam ter visto Leandro com outra mulher, em gestos nada profissionais, num restaurante badalado de São Paulo.
Ela sabia que ele devia estar aprontando.
Mas deu de ombros.
Para ela os homens eram todos iguais, Emerson também pulara a cerca, algumas vezes, quando eram casados.
Desde que ela continuasse com uma vida confortável e luxuosa, não ligava para as escapadelas do marido.
Cada comentário que ela escutava acerca das aventuras extra-conjugais de Emerson, Teresa não tinha dúvidas:
comprava uma jóia bem cara como forma de compensara traição.
Fez uma colecção de jóias maravilhosas.
Guardava-a num Banco, tamanha a quantidade e valor altíssimo.
Letícia não era como ela.
Nada esperta, acreditava.
Achou melhor contemporizar.
- E vai ficar em casa o dia todo?
Fazendo o quê?
- Qual o problema?
Eu gosto da minha casa, de cuidar da educação do Ricardo.
Mês que vem começarei um novo curso. História da arte.
- História da arte? Para quê?
- Para enriquecimento cultural. A Mila vai comigo.
- A Mila. Sempre a Mila.
Não tem outra amiga?
- Qual o problema?
Você implica com a Mila desde sempre.
- Acho que Mila coloca ideias de jerico na sua cabecinha.
- Não coloca.
- Ela é muito estranha.
Não se casou até agora.
Será que gosta mesmo de homem?
- Você não existe, mãe.
Vou fazer de conta que não escutei esse comentário infeliz.
- Também falam dela no clube.
Uma pessoa não pode ter um comportamento tão irrepreensível assim.
Mila deve ter algum deslize de conduta.
- Não tem. É uma mulher rica, porém leva uma vida discreta, longe dos holofotes.
O pai era actor de teatro e a mãe milionária.
Ela nunca se deixou levar pele fama dos pais, por conta de ser filha de gente rica e famosa.
É uma pessoa de um coração enorme.
Uma das pessoas mais adoráveis que conheci na vida.
- Pode ser.
- É uma óptima amiga - Letícia emendou.
Como se fosse uma irmã.
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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 27, 2015 8:19 pm

Teresa deu de ombros e continuou, como se não tivesse escutado a filha:
- Não pode fazer ou pertencer a outro círculo de amizades?
O pessoal do clube sente sua falta.
Perguntam sempre de você.
Dizem que vêem você mais nas fotos das revistas do que ao vivo e em cores.
- Não gosto de fuxicos.
Suas amigas só falam mal dos outros, ou de quem tem mais dinheiro, quem viajou para não sei onde, quem traiu e foi traída...
Não, mãe, nossos gostos são bem diferentes.
- Bem que se vê, você não puxou a mim.
É meio caipira.
Não consigo imaginar porque as revista: sempre lhe chamam para dar palpites de etiqueta.
Justo você!
Temos tanto dinheiro e você se veste assim com tanta simplicidade.
- Não sou perua como você.
Não gosto de anda cheia de jóias.
É uma questão tão pessoal!
Sou chamada para dar palpites porque sou discreta.
Teresa levantou-se e vasculhou o ambiente com olhar perscrutador, investigativo mesmo, bem ao seu estilo.
Tirou e moveu objectos de lugar.
Chamou uma das empregadas e mandou mudar um quadro para outra parede.
- Eu gosto do Portinari nesta parede - apontou Letícia.
- Mas fica feio.
Não combina com a decoração de que tanto gosto.
- Trata-se da minha casa, mamãe.
- Se tivesse bom gosto, de facto, eu não daria palpites.
Letícia seguia impotente atrás da mãe.
Teresa dava ordens, mudava objectos de lugar, pedia para colocar um quadro aqui, mudar outro e assim alterava toda a decoração dos ambientes, metendo-se em tudo.
A filha não se atrevia a contrariá-la.
Não adiantava tentar argumentar.
Teresa não lhe dava ouvidos.
Depois de redecorar a copa e a sala de estar, Teresa avistou um livro sobre o piano.
Bisbilhoteira, foi aproximando o rosto na direcção da capa, mas Letícia acelerou o passo e o pegou.
- O que é isso?
- Um livro, oras.
- Deixe-me ver.
- Coisa minha, mãe.
- Letícia...
Esse tom na voz de Teresa era desagradável.
Letícia suspirou e, ainda com o livro por trás do corpo, falou de maneira delicada:
- Um romance.
- Que romance?
- Uma história de ontem.
- Nunca ouvi falar.
É tradução de Sidney Sheldon ou de algum outro autor americano?
- Não. É um romance da escritora Mónica de Castro.
É um livro muito bom e...
Teresa avançou sobre a filha e tomou o livro de suas mãos.
Olhou para a capa e deu um gritinho de indignação.
- Um livro ditado por um espírito?
Que maluquice é essa?
Letícia ia falar, mas Teresa fez um gesto intempestivo com a mão, censurando-a de abrir a boca.
Em seguida, virou e leu a quarta capa do exemplar.
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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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