O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 27, 2015 8:19 pm

- Um romance espírita! Que horror!
- Não é um horror, mãe.
- Desde quando você lê esse tipo de bobagem?
- Não é bobagem. Faz bem para mim.
- Não importa o que me diga.
Desde quando lê esse tipo de livro?
- Desde que papai morreu.
- O que tem esse livro a ver com a morte de seu pai?
Acaso vai trazê-lo de volta?
- Não, claro que não.
Mas a leitura tem confortado meu coração.
Eu não consigo aceitar o facto de papai ter morrido e tudo ter acabado.
É difícil aceitar a morte, tentar me conformar de que nunca mais vou encontrar aquela pessoa que tanto amei na vida.
- É duro, mas é a realidade.
Nascemos, vivemos, morremos e ponto final.
- A Mila me deu de presente esse livro para que eu pudesse abrir meus olhos e minha mente e entendesse um pouco mais sobre os mistérios da vida.
Eu jamais havia perdido algum ente querido antes.
Quando nasci, meus avós já haviam morrido.
Por essa razão, nunca havia me ligado nesses assuntos de morte, de espiritualidade.
- Só podia ter o dedo da Mila aí.
Ela está enchendo a sua cabeça de caraminholas, isso sim.
- Este livro traz conforto à minha alma.
Desde que comecei há ler alguns dias atrás, tenho me sentindo mais leve e dormido melhor.
- Quanta besteira!
- Não é besteira. É facto.
- Eu não quero vê-la mais lendo esse tipo de romance.
- Esse livro é meu, mamãe.
Por favor. Dê-me aqui.
- Não, senhora.
Este livro vai para o lixo.
Esse tipo de leitura só nos faz mal.
Faz-nos acreditar em algo fantasioso.
Reencarnação é conversa para boi dormir.
Teresa afastou-se e tropeçou sobre algo.
Desequilibrou-se e ouviu atrás de si:
- Você está em nossa casa.
Exigimos respeito.
Leandro falou e tirou o livro das mãos dela.
Entregando-o à esposa.
- Depois que terminar, eu gostaria de dar uma lida.
Sempre tive curiosidade em relação aos assuntos espirituais e já ouvi comentários bem positivos acerca dessa escritora.
Sabia que ela é carioca como nós?
Letícia abriu franco sorriso.
Adorou o marido ter tomado aquela atitude.
Abraçou o livro com enorme carinho.
- Isso aqui tem me ajudado a compreender muita coisa.
A Mila sempre quis conversar comigo sobre esses assuntos, mas eu não tinha o menor interesse.
Depois que papai morreu bom, comecei a ler aos poucos e estou gostando muito, além de a história ser envolvente e dinâmica.
- Não vou permitir que essas bobagens cheguem aos ouvidos do meu neto - disparou Teresa.
- O que vai ou não chegar aos ouvidos do seu neto cabe a mim e à minha esposa decidirmos - respondeu Leandro de maneira firme.
Do nosso filho cuidamos nós.
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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 27, 2015 8:19 pm

Agora, por favor, se não tem mais nenhum móvel ou quadro para mudar de lugar, favor se retirar.
Você está tirando a paz desta casa, para variar.
Teresa sentiu uma raiva muito grande.
Quase partiu para cima do genro.
Mordiscou os lábios e escutou:
- Atrevido! Desgraçado!
Quem esse homem pensa que é?
Não pode nos desrespeitar.
Teresa simplesmente repetiu.
Foi como se ela tivesse sido tomada por uma força maior, como se aqueles pensamentos, de facto, fossem dela própria.
- Atrevido! Desgraçado!
Quem pensa que é?
Letícia e Leandro olharam-se com verdadeiro estupor.
- Mamãe! Que jeito mais grosseiro é esse de falar com Leandro?
Como ousa?
Ela caiu em si e vociferou:
- Você está fazendo a cabeça de minha filha contra mim!
Quer colocar lenha na fogueira e nos afastar. Você é mau.
Disse isso entre lágrimas, rodou nos calcanhares e saiu, batendo o salto.
Letícia aproximou-se do marido e instintivamente o abraçou.
- Tudo bem?
- Tudo. Nunca vi sua mãe agir de maneira tão grosseira.
- Nem eu.
- Nem parecia ela.
- Ela ficou nervosa quando viu o romance espírita.
- Pode ser.
Mas ela teve um comportamento para lá de estranho.
- Mamãe está nervosa.
Tem amigos interesseiros não sai daquele clube.
Tem uma vida muito infeliz.
- Porque quer.
Poderia viajar o mundo, conhecer outros lugares, culturas, travar amizades interessantes ou arrumar um marido.
Teresa ainda está em forma e mal passou dos cinquenta anos.
- Também acho.
Leandro olhou para a capa do livro e perguntou, entre sorrisos:
- O livro está lhe fazendo bem?
- Oh, sim. Tenho me sentido menos triste.
Pelo menos quando o leio sinto-me muito bem.
- Então, se lhe faz bem, continue lendo.
Ela sorriu timidamente e ele sugeriu:
- Por que não liga para Mila e marcam uma ida ao shopping?
- Ricardo pode precisar de alguma coisa.
- Deixe disso. Vá se divertir.
Eu não tenho mais nada de trabalho para fazer.
Acabei de ligar para São Paulo, chequei meus e-mails e encerrei o expediente.
Vou passar o fim-de-semana grudado no Ricardinho, conforme lhe prometi no hospital.
Saia um pouco para espairecer.
- Tem razão. Eu vou sair.
Mamãe me tirou do sério e preciso dar uma volta.
Vou ligar para Mila.
- Faça isso.
- Obrigada.
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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 27, 2015 8:19 pm

- Não há de quê. Divirta-se.
Leandro falou e deu uma piscadela.
Letícia sentiu um friozinho no estômago.
Fazia tempo que o marido não se mostrava tão amável.
Ela subiu, entrou no quarto e ligou para Mila.
A amiga ficou de passar com o carro e pegá-la no condomínio dali a meia hora.
Edgar recebeu alta do hospital e foi-lhe recomendado alguns dias de descanso.
Embora não tivesse um histórico de suicídio na família, tampouco houvesse atentado contra a própria vida antes, mesmo assim o psiquiatra do hospital recomendou tratamento psicológico.
Sugeriu um acompanhante terapêutico.
O rapaz acabou na casa dos pais, sob protesto.
- Não quero ficar aqui.
Tenho a minha própria casa.
- Não tens condições de ficares sozinho, por ora - ponderou a mãe.
Vais ficar connosco o fim-de-semana todo.
- Fim-de-semana?
- É. Pedi para a Dra. Vanda vir até aqui.
Ela é excelente psicóloga.
- Não preciso de terapia. Não sou louco.
- Embora terapia não seja para loucos, o que fizeste foi insano.
- Eu sei. Precisa repetir isso quantas vezes?
- Quantas vezes for necessário para que acordes e despertes para a vida.
Chega de sofreres - falou Maria José.
- É difícil. É duro sofrer por amor.
- Vês como precisas de tratamento psicológico?
Ninguém morre por amor.
Um sentimento tão lindo como esse não pode causar dor ou sofrimento.
Ainda não sabes o que significa o amor.
- Sei, sim! - protestou Edgar.
Maria José sabia ser impossível continuar a conversa.
Edgar andava irredutível, parecia estar com a ideia fixa na cabeça.
Ela perguntou:
- Querias mesmo tirar a própria vida por conta daquela sirigaita?
- Você sempre a chamou de sirigaita.
Desde a primeira vez que a viu.
- Eu reconheço uma sirigaita a distância.
- Não fale mal de Denise, mamãe.
Ela estava nervosa.
- Nervosa? - bradou Maria José.
Aquela sirigaita é da pior espécie.
Nunca simpatizei com ela.
- Fica difícil conversarmos. Denise é boa pessoa.
Ela vai esfriar a cabeça e vamos voltar a nos entender.
Maria José ia falar, mas Fernando fez gesto negativo com a cabeça.
Acomodaram o rapaz em seu antigo dormitório.
- Descanse meu filho - tornou o pai.
Tome esse remedinho. É para acalmar seus ânimos.
Mais tarde voltamos a conversar.
Edgar assentiu com a cabeça e tomou o medicamento.
Em instantes, adormeceu.
Fernando tranquilizou a esposa:
- O médico solicitou dar-lhe esse sossega-leão e que, em hipótese alguma, o deixemos sozinho.
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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 27, 2015 8:20 pm

Não sabemos se ele voltará a cometer desatinos.
- Estou indignada.
Meu filho, um homem tão bom e correcto, tão amável, deixar-se cair em tristeza por essa mulher.
Eu fico irritada com essa falta de amor-próprio de nosso miúdo.
- Edgar é humano, feito de carne e osso.
Tem sentimentos. Sempre foi apaixonado por Denise.
- Isso não é amor, é praga.
- Talvez agora ele comece a reflectir sobre sua vida.
Um acontecimento desses sempre faz a pessoa parar para pensar na própria vida.
- Nosso filho ainda não encontrou o amor.
A empregada apareceu no corredor e avisou:
- O enfermeiro está lá embaixo.
- Pode mandar subir.
Em poucos instantes um rapaz alto e forte, vestido de branco, subiu as escadas, dobrou o corredor e cumprimentou Fernando e Maria José.
Em seguida, eles o acompanharam ao quarto.
Edgar dormia placidamente.
- Deixem comigo.
Estou acostumado com esses casos.
Vou cuidar do seu filho.
- Agradecida.
Eles desceram as escadas e foram para a biblioteca.
- Não me conformo.
- Com o quê?
- Meu filho ter de ser vigiado vinte e quatro horas. Pode?
- É preciso - respondeu Fernando.
- Será mesmo?
- É duro entendermos essa sandice, mas Edgar tentou matar-se.
Não pode ficar sozinho e precisa de acompanhamento terapêutico.
- Vou ligar para a Dra. Vanda.
- Ela não virá logo mais à noite?
- Quero que venha logo. - Maria José consultou o relógio de pulso.
Não a acho muito convencional, mas parece que resolve os casos.
Lembras da filha do reitor da universidade?
- E como esquecer?
Foi abandonada pelo noivo uma semana antes do casamento.
- Um escândalo na época.
- Lembro-me bem.
Foi um escândalo que tomou conta das revistas de mexericos por muito tempo.
- Pois bem. A menina ficou num estado de dó, nem comia tamanha tristeza.
Depois de algumas sessões com a doutora transformou-se em outra mulher.
Hoje está casada, tem dois filhos lindos e vive muito bem ao lado do actual marido.
É uma mulher feliz.
- Tem razão, quanto mais cedo, melhor.
Ligue sim. Nosso menino precisa de nossos cuidados.
Maria José assentiu com a cabeça.
Pegou o cartão na bolsa e discou para o consultório da psicóloga.
No fim da tarde do mesmo dia, Denise estava em outra sintonia.
Sentada numa cadeira, fechou os olhos, respirou o ar puro e abriu os braços para a imensidão do mar azul.
- Isso aqui é o paraíso.
- É uma delícia.
- Nunca me senti tão leve, tão bem!
- O pôr-do-sol é dez.
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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 27, 2015 8:20 pm

- É mesmo?
- Hum, hum. Você vai adorar.
Jofre sorriu e entregou-lhe uma taça de champanhe.
Ela bebericou e coçou o nariz.
- As bolhas da champanhe me fazem cócegas.
- Você é um espectáculo de mulher.
- Obrigada pelo elogio tão directo.
- É casada, certo?
- Era. Eu me separei recentemente - mentiu.
Faz alguns meses.
Em breve vou assinar os papéis da separação e serei uma mulher livre.
- Já é livre.
- Pelos olhos da lei ainda sou casada.
Mas não quero mais vínculos com meu ex-marido.
- Tem filhos?
- Não tivemos.
- Gosta de crianças?
- Gosto de ver, bem de longe.
Jofre riu e disse num tom irónico:
- Também não gosto muito de crianças.
Elas são um pé no saco.
- Combinamos em alguma coisa.
- Faz o quê da vida?
- Sou executiva da Dommênyca.
Jofre soltou ligeiro assobio.
- Uau! É a loja de electrodomésticos mais famosa do Brasil.
- É sim. Crescemos a olhos vistos.
Nosso concorrente mais próximo está a anos-luz de distância.
Somos os melhores.
Eu me orgulho do meu trabalho.
- Bem que a gente achávamos que te conhecia de algum lugar.
Você já deu entrevistas na televisão, não?
- Sim. Às vezes apareço no noticiário nocturno de alguma emissora.
Agora com essa crise económica sempre sou requisitada para entrevistas.
- Essa crise vai passar?
- Como tudo na vida.
- Uma mulher como você precisa de homem por quê?
Aliás, as mulheres estão ficando cada vez me nos dependentes de nós.
Denise sorriu.
- Nem tanto. Ainda precisamos muito dos homens.
- Será?
- Eu pelo menos preciso de um.
- Isso me deixa animado.
Trocaram olhares significativos.
Denise bebericou mais do champanhe e procurou mudar o rumo da conversa.
Estava interessadíssima em Jofre, mas queria se fazer de desinteressada e difícil.
- O que é essa medalhinha no seu peito?
Jofre pegou a medalhinha e a beijou.
- É Santo António, padroeiro da minha cidade.
Quer dizer, da cidade que eu escolhi e me acolheu como filho.
- Qual é?
- Duque de Caxias.
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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 27, 2015 8:20 pm

- Não conheço pessoalmente, mas já ouvi falar.
É um município situado na Baixada Fluminense.
Sabia que a cidade deve seu nome ao patrono do Exército Brasileiro, Luís Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxias, nascido naquela região?
- A gente não sabíamos.
- Fica longe daqui, não?
- É só pegar a linha Vermelha e num pulo chegamos.
Meus amigo tudo moram lá.
Mudei para cá fazem alguns anos.
- E o que você faz?
- Trabalho com importação e expo...
Com comércio de carnes.
- Tem escritório próprio?
- Sim. Meu escritório fica em Duque de Caxias.
Como tenho muitos dos negócios espalhados pela cidade, tem vez que fico em São Conrado.
A gente temos uma bela cobertura com piscina.
Os olhos de Denise brilharam de cobiça.
- Cobertura com piscina?
- Com piscina e cascata!
Mandei instalar dois peixes dourados que cospem água. Lindos!
Denise tentou imaginar os tais peixes.
Logo notou que Jofre podia ser rico, mas tinha um gosto para lá de duvidoso.
Era só notar o colar pesado ao redor do pescoço, a pulseira de ouro no pulso, o relógio excessivamente chamativo, além dos tropeços no idioma...
Mas e daí? Ele era um charme e ela estava gostando de sua companhia.
- É casado?
Jofre deu uma risadinha bem sapeca.
- Tive uns rolo, se é que me entende, mina!
Tenho dois filhos espalhados por aí.
Pago pensão para as mulheres.
- Não tem contacto com eles?
- Não. Já disse que acho criança um pé no saco.
Aconteceu e eles nasceram.
Elas acharam que iam me prender por conta da barriga.
Qual nada. A gente não somos de ficar preso em mulher.
Quer dizer, se quando a mulher interessa.
Ele disse e piscou para Denise.
Ela estava leve por conta da taça de bebida.
Sorriu e não disse nada.
Jofre podia ser brega e vestir-se de maneira cafona e espalhafatosa.
Mas era um bonito mulato na casa dos trinta, corpo atlético, tórax bem desenvolvido e naquela hora da descida do sol, seus olhos pareciam duas pedras preciosas que faiscavam de desejo.
Denise levantou-se e desequilibrou-se.
Ele foi rápido, aproximou-se e a tomou nos braços.
Foi inevitável. Beijou-a com sofreguidão, demoradamente.
Denise percebeu-se tonta, tamanho prazer que sentira.
- Você beija muito bem. Muito bem.
- Não viu nada.
Fazemos outras coisas bem melhores do que beijar.
- Mesmo? - a indagou de maneira provocativa.
- Vem - convidou ele, fazendo sinal com os olhos na direcção do quarto que ficava na parte de baixo da embarcação de luxo.
Denise desceu com Jofre e amaram-se por horas a fio.
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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 27, 2015 8:20 pm

Até que seus corpos cansados, suados e satisfeitos pelo ato sexual sentiram-se fatigados.
Dormiram a sono solto e só acordaram quando a noite ia alta.
Jofre voltou com o iate até a Marina da Glória e deixou Denise em terra firme.
- Lamento não poder acompanhá-la.
Ainda temos negócios a tratar.
- Adoraria vê-lo de novo.
- Quando volta para o Rio?
- Não sei ao certo, trabalho muito.
- E o outro fim-de-semana?
- Não me recordo de algum compromisso na semana que vem.
Em todo caso vou checar minha agenda e...
Ele a cortou com delicadeza.
Apanhou a bolsa dela, pegou o celular e apertou alguns números.
- Aí está marcado o meu número particular.
Só para pessoas especiais.
Liga para gente a hora que quiser.
Denise adorou a atitude.
Sentiu um calorão apoderar-se do seu corpo e um desejo incontrolável por Jofre.
Ela abanou o rosto.
- Adorei o dia. Pensei que fosse ficar ali, no meio daquela gente idiota, e acabei tendo um dia para lá de especial.
Você foi meu salvador da pátria.
- A gente podemos ser tudo o que você quiser.
- Além de tudo, é um sedutor nato.
- Você merece tudo de bom que podemos ofertar.
- Assim fico envaidecida.
- É para ficar. Estamos ao seu dispor.
Jofre a beijou novamente com volúpia.
Denise sentiu as pernas tremerem e nova onda de desejo a dominou.
Precisava se recompor.
Afastou-se com delicadeza e despediram-se.
Ele voltou para seus negócios e ela tomou um táxi até o hotel.
Pegou a chave na recepção e subiu.
Entrou no quarto, despiu-se e se jogou na cama grande e confortável.
- Estou tão feliz!
Denise virava-se para um lado e para outro da cama.
Abraçou-se a um travesseiro macio.
- Não consigo imaginar tudo o que me aconteceu desde ontem.
Briguei com Edgar, deixei-o de uma vez por todas.
Pensei que fosse ter um dia adorável ao lado do Leandro e acabei conhecendo Jofre.
Como a vida é divertida!
Em instantes, recapitulou tudo, desde a saída de casa na noite anterior, passando pela expectativa de um dia feliz ao lado de Leandro e o término da noite completamente saciada nos braços de Jofre.
- Esse homem é até melhor que Leandro.
Deve valer mais a pena investir nele.
Ou nos dois. Vou levando as histórias paralelamente.
O que importa que eu me dê bem e que nunca seja passada par trás.
O resto que se lixe!
Ela gargalhou, levantou-se e foi tomar uma gostosa chuveirada.
Horas antes, naquela tarde, Letícia arrumara-se com capricho.
Colocara um vestido florido, colar de pedras, sandálias, fizera um rabo-de-cavalo.
Estava animada, mas de repente sentiu uma onda de tristeza.
Foi rápido demais, assim, num instante.
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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 27, 2015 8:20 pm

Ela começou a bocejar, sentiu um pouco de tontura e jogou-se numa poltrona perto da penteadeira.
- Que vida triste - disse num gemido enquanto se abanava com as mãos.
Ela não percebeu, mas um espírito aproximou-se e murmurou em seus ouvidos.
- Sua vida é triste por conta desse canalha.
Leandro não a merece.
Letícia sentiu ligeiro desconforto.
Era como se aquela voz viesse de sua própria cabeça.
Argumentou:
- Leandro é bom pai.
- Mas não é bom marido.
- Ele é bom marido.
Se eu sentisse um pouco mais de prazer, talvez pudéssemos voltar a ser um casal apaixonado e feliz.
- Nunca! Jamais! - esbracejou a voz.
O suor começou a escorrer pela sua testa.
Iara bateu na porta. Letícia mandou-a entrar.
Ela viu a patroa sentada na poltrona, branca como cera. Preocupou-se.
- O que foi Letícia? Está passando mal?
- Nada de mais, Iara. Um leve desconforto.
- Mesmo?
- Sim. Não estou acostumada com ventilador.
Você ligou para o técnico vir consertar o ar condicionado?
- Ele virá logo mais à tarde.
Ligou agora pouco para confirmar o horário.
- Ai que bom. Ao menos vou dormir bem esta noite.
- Quer um copo de água? Um refresco?
- Não. Vou sair.
- Subi para avisar que Mila a está aguardando no carro.
- Óptimo.
- Peço para ela subir?
- Não será necessário, Iara. Estou de saída.
Ela falou, levantou-se, apanhou a bolsa grande sobre uma cómoda e desceu.
Despediu-se do filho e do marido.
- Você está pálida e com suor escorrendo pela testa - observou Leandro.
- É o calor.
- Quer um copo com água, mamãe?
- Não, meu querido.
Sinto pequeno desconforto.
Coisas do calor. Como pode?
Eu nasci no Rio e nunca me habituei com o calor.
- Tem certeza? - perguntou Leandro.
- Tomei um banho rápido e me arrumei depressa. Logo passa.
Leandro beijou-a na face e continuou ao lado do filho, assistindo aos seriados.
Ela respirou fundo, colocou os imensos óculos escuros e saiu.
Entrou no carro de Mila.
- Amiga, que cara é essa?
- Que cara?
- Eu a conheço desde que nascemos.
- Dá para perceber?
- Mesmo atrás desses óculos gigantescos nota-se que está pálida.
- Não sei.
- Vamos, diga-me, o que foi?
- Um torpor, uma sensação desagradável. Acho que é o calor.
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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 27, 2015 8:21 pm

- Calor?
- Hum. Hum. Está fazendo mais de 40 graus!
A sensação térmica chega a mais de 50.
- E por acaso estava na Sibéria?
A vida inteira sentiu esse calor.
- O ar condicionado do quarto está quebrado.
Providenciei o conserto e só tenho usado ventilador de teto.
- Calor nada! Você não está com boa aparência.
- Acho que exagerei no almoço.
Estou me sentindo meio melancólica.
- Isso está me cheirando à interferência espiritual.
- Tudo para você é interferência espiritual.
- É o que estou sentindo.
- Que coisa, Mila.
- Tirando a preocupação com o Ricardinho e o hospital, como tem sido o seu dia?
- Normal. Senti-me mais segura quando o Leandro apareceu.
Tudo correu bem, eles estão na sala assistindo a DVDs de seriados americanos, que Ricardo adora.
- Que mais?
- Minha mãe esteve a pouco em casa, tivemos uma discussão boba por conta do livro que você me deu, mas nada que pudesse me abalar.
A bem da verdade, eu até estava me sentindo muito bem.
- Nenhuma indisposição, nada?
- Nada.
- Pois vejamos:
você estava bem, não tinha nada, e de repente começou a suar frio, passar mal, ter repentes de humor...
- Talvez tenha sido a presença de minha mãe.
Ela foi muito estúpida com o Leandro.
Nunca a vi tratá-lo tão mal.
- Está acostumada com esse tratamento entre eles desde sempre.
- Você não estava lá para ver.
- Teresa nunca engoliu seu casamento.
Tinha planos para você se casar com aquele rapaz, herdeiro da siderúrgica.
- Minha mãe queria que me casasse com qualquer homem, excepto Leandro.
- E o que mais?
- Hoje notei que ela falou com ódio.
Muito ódio. Minha mãe é uma pessoa difícil, mas nunca a vi tão transtornada.
- Já lhe disse que sinto algum espírito rondando a sua casa.
- Será?
- Tenho estudado os fenómenos mediúnicos com seriedade e afinco.
Olho para a sua casa e sinto uma coisa esquisita.
- Mesmo?
- Afirmativo. Agora mesmo, esperando você, notei que havia uma sombra próxima ao jardim - apontou para o local.
- Não gosto nem de ouvir falar.
- É para o seu bem.
Ao menos você toma consciência dessa realidade, estuda, aprende.
- Para quê? - indagou Letícia, sem ânimo.
- Para se defender e afastar esse espírito com essas energias nocivas que estão perturbando você e seus familiares.
- Somos pessoas de bem.
- E qual o problema?
- Por que um espírito iria nos atrapalhar?
- Porque estamos rodeados de espíritos.
Os nossos olhos não os vêem, mas isso não quer dizer que eles não existam.
Se não os vemos, precisamos saber como lidar com esses seres, principalmente os negativos, que carregam ódio no coração, entende?
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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 27, 2015 8:21 pm

- Entendo. É que me dá medo.
- Se propuser a ler e entender do assunto aposto que o medo vai se dissipar.
Letícia abraçou a amiga.
- Oh, Mila. Confio tanto em você!
Se me diz que está sentindo um espírito nos rondando, é porque deve ser verdade.
- Pois sim, minha querida.
Mila deu partida e saíram do condomínio.
Logo ganharam a Avenida das Américas.
Mila dirigia com atenção.
- O que mais quer saber?
Pode perguntar.
- O que mais percebe?
- Posso ser sincera? De verdade?
- Claro que pode!
Nunca houve segredos entre nós duas.
- A minha intuição diz que seu pai está por perto.
Letícia remexeu-se no assento e tirou os óculos escuros.
- Não fale nem por brincadeira uma coisa dessas!
- Acho que o Dr. Emerson está por aqui.
Em espírito, claro.
- Não é possível.
Eu cremei o corpo do meu pai.
Ajudei a fechar o caixão.
Peguei suas cinzas e as espalhei no mar. Não pode ser.
- Você cremou o corpo físico do seu pai, o corpo de carne.
O espírito continua mais vivo do que nunca.
- Não me disse certa vez que quem morre vai para outras dimensões?
- Por certo.
- Meu pai com certeza não se encontra mais entre nós.
- Depende.
- Como depende?
A pessoa morre e vai para um mundo de luz ou para o Umbral, certo?
Você é quem disse.
- As coisas não são tão fáceis assim.
Estudar sobre os mistérios da vida e mais, sobre o que ocorre depois da morte do corpo físico é assunto complexo que exige estudo, muito estudo.
Tem espíritos que depois da morte do corpo físico ficam aqui na Terra.
Geralmente, eles não conseguem fazer a passagem para o lado de lá, pois estão presos à família, têm assuntos pendentes, estão aflitos, querem dizer um adeus, dar uma comunicação ou mesmo não têm consciência de que estão mortos.
- Meu pai deve estar num bom lugar.
Num plano superior, como se diz. Era óptimo pai.
- E um péssimo sogro.
Lembra-se das brigas homéricas que ele tinha com Leandro?
- Eles nunca se bicaram.
Mas isso não é motivo para afirmar que o espírito de papai esteja por perto, e ainda por cima nos influenciando de maneira negativa.
Se estivesse, com certeza estaria me ajudando e não me atrapalhando.
Eu e papai éramos muito ligados.
- É relativo. Emerson pode estar enxergando coisas que você não vê.
- Como assim?
- Os espíritos têm uma capacidade formidável de perceber nossos pensamentos, por exemplo.
Além disso, quando estão vagando pela Terra, geralmente se encontram em desequilíbrio emocional, o que os torna mais amargos e perturbados.
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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 28, 2015 9:01 pm

Eles ficam tomados por uma energia densa, pesada.
Quem é sensível percebe logo a presença deles.
É algo forte e perturbador.
- Tudo é muito novo para mim.
Nunca quis me interessar por religião ou espiritualidade.
Fui baptizada na igreja católica, depois fiz primeira comunhão.
Aos poucos fui me afastando da missa, dos eventos ligados à igreja.
Deixei de frequentar a missa de domingo e, às vezes, rezo em casa.
- A oração é importante, não importa se temos ou não algum tipo de religiosidade.
Mas só a oração não basta para que fiquemos livres dessas influências negativas.
- O que sugere? - indagou Letícia bastante interessada.
- Nunca é tarde para começar a estudar e tentar entender essa fantástica relação entre os mundos.
- Desde que me deu aquele romance espírita, tenho pensado na possibilidade concreta da continuação da vida, tenho repensado nas desigualdades sociais...
Letícia falou e Mila desacelerou o carro.
O sinal num dos cruzamentos da Avenida das Américas ficou vermelho.
Pararam próximas à faixa de pedestres e logo duas crianças aproximaram-se com balas e chicletes nas mãozinhas sujas e maltratadas.
As duas dentro do carro fizeram sinal negativo com a cabeça e elas se afastaram, indo em direcção a outro veículo tentar vender os produtos.
- É disso que falo amiga - Mila apontou para as crianças.
Por que elas estão aí, largadas nas ruas sem abrigo, sem direito à educação e sem um teto decente para morar?
Por que não estão na escola recebendo ensino, aprendendo a ser cidadãs, recebendo amor e carinho de seus pais ou responsáveis?
- Fruto da desigualdade social.
- Ao menos acredita em Deus?
- Por certo! Por mais que não seja tão religiosa como antes, acredito numa força que rege nosso mundo.
- Se Deus, ou essa força, rege a vida e nos trata a todos de maneira igual, por que essas crianças estão levando uma vida dura e triste e seu filho está em casa, no aconchego do lar, ao lado do pai, rodeado de amor e carinho e com toda sorte de conforto e cuidados?
Ricardinho nasceu em um lar abençoado, tem o amor dos pais e essas crianças estão aí, passando fome, desprotegidas, talvez órfãs ou convivendo com pais violentos. Por quê?
Letícia sentiu um aperto no peito.
Não sabia o que responder.
Abriu a janela do carro e fez sinal com uma das mãos para uma das menininhas.
A pequena se aproximou e abriu largo sorriso.
- Quer um saquinho de bala, tia?
- Claro. Quanto custa?
- Um real o pacote.
- Quantos anos tem?
- Nove.
- Não deveria estar na escola?
A garota sorriu com ironia.
- Eu não posso ter esse luxo.
- Por que não?
- Tenho de trabalhar.
- Sua mãe não a colocou na escola?
- Não tenho mãe nem pai.
Eu e meus três irmãos somos criados pela minha avó, que é doente.
Tenho de ajudar a comprar comida e remédio.
Vovó disse que Deus não paga as contas nem manda comida ou remédio lá do céu.
Letícia sentiu-se muito triste.
Se Deus tratava a todos da mesma maneira, por que deixaria aquela criancinha tão indefesa largada no mundo, correndo o risco de passar fome, frio ou sofrer abusos?
Começou a entender um pouquinho do que Mila estava lhe falando.
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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 28, 2015 9:01 pm

Abriu a bolsa e entregou para a pequenina uma nota de dez reais.
Os olhos da menina brilharam emocionados.
- Tudo isso para mim?
- É.
- Vai levar toda a caixa de balas?
- Vou sim - Letícia pegou a caixa com as jujubas.
A menina saiu correndo, feliz da vida, mostrando às outras crianças a nota de dinheiro.
O sinal ficou verde e Mila deu partida.
- Tudo bem, você vai me dizer que o governo não ajuda que as crianças merecem cuidados, atenção especial etc.
No entanto, vamos olhar a situação com olhos mais espirituais e racionais, desprovidos de emoção.
- Essa cena de há pouco me cortou o coração.
- Se nascemos e morremos uma única vez, pois que essa menininha tem de viver tão pobremente e o seu filho tem direito a tudo?
- Seria uma grande injustiça viver uma vez só.
- Percebe?
Já que somos iguais perante a vida, todos deveríamos nascer viver e morrer da mesma forma.
- Isso não acontece.
Eu mesma não me conforme com essas crianças abandonadas.
- Claro que podemos fazer alguma coisa para ajudá-las a ter uma vida melhor.
Podemos criar organizações, ajudar na educação, fazer várias acções humanitárias que possam dar uma possibilidade de vida mais positiva e um futuro prazeroso para essas crianças.
Mas o que quero dizer é que elas não estão vendendo balas num sinal fechado somente por uma questão de desigualdade social.
Isso existe, mas o problema é muito mais complexo e profundo.
- Já pensei nesse assunto algumas vezes.
Tenho conhecidas que mal se relacionam com seus pais.
Eu, por outro lado, perdi o meu que tanto amava.
- Acontece com todos nós.
Parece que somos todos iguais, mas na verdade não somos.
Somos semelhantes, contudo jamais seremos iguais.
- Isso é facto.
- Nossa vida pode ser parecida, Letícia, entretanto, é carregada de significados muito particulares e únicos.
A minha vida, as minhas experiências, minhas alegrias e dores são muito importantes para mim, e talvez não sejam importantes para você, contudo elas vão moldar o meu espírito, de acordo com a trajectória de minha vida aqui no planeta.
- Amiga você é tão mais esclarecida do que eu!
- Eu sempre me interessei pelo assunto.
- Sinto até vergonha de ser tão tosca na questão espiritual.
- Eu comecei a pensar no assunto desde pequena.
Não me conformava de ter perdido meus pais tão cedo.
- Também pudera.
Mal havia nascido quando seus pais morreram naquele acidente horrível.
- Eu era um bebé, tinha acabado de nascer e meu pai precisava fazer uma apresentação, acho que recebeu convite para uma peça.
Minha mãe deixou-me com minha tia.
Era para ser assim.
Como cresci sem conhecê-los, parece que tudo foi mais fácil.
Talvez se os tivesse perdido na adolescência, ou mesmo na fase adulta, os sentimentos tivessem sido diferentes.
- Como aconteceu comigo.
Dói muito a perda de meu pai.
- E, com você foi diferente.
No fim das contas cresci rodeada de muito carinho.
Meus tios foram óptimos e fizeram o possível para eu não sentir tanto a falta dos meus pais.
- Houve momentos em minha vida que eu achei muito injusto você ter ficado órfã.
- Não enxergo como injustiça.
Tenho plena convicção de que meu espírito quis passar por essa experiência a fim de valorizar a família.
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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 28, 2015 9:01 pm

Hoje não damos mais valor aos pais, aos entes queridos, aos laços de sangue que nos unem.
Não temos mais respeito por aqueles que nos deram a vida, que nos deram a chance de reencarnar e amadurecer o nosso espírito por meio de uma série de ricas experiências que se a vida na Terra é capaz de nos oferecer.
- Nunca sentiu falta dos seus pais?
- Sim. Muitas vezes, mas nunca me revoltei.
Quando titia me deu de presente O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec, fiquei maravilhada.
Mais de mil perguntas e respostas esclareceram muitas das dúvidas que eu carregava em meu íntimo.
- Leu o livro e tudo se resolveu?
Todas suas dúvidas foram dissipadas?
Acreditou sem ter provas?
- Aí é que você se engana.
Na adolescência, minha tia me deu de presente livros que comprovam cientificamente a reencarnação.
- Só encontrou respostas nos livros?
Qualquer um pode escrever o que quiser e publicar.
Isso não me convence.
- Já mocinha, eu reencontrei meu pai.
- Como assim? Ele morreu e...
Mila a cortou com delicadeza.
Sorriu:
- Eu tive um sonho, muito embora tenha sido tão vivo aquele encontro, que depois de muito estudar tive a certeza de que saí do corpo físico para me encontrar com ele.
Faz um bom tempo que aconteceu, mas parece que foi ontem.
- Nunca me contou isso.
- Você nunca perguntou, oras.
- Não queria tocar no assunto e vê-la triste.
Sabe que é como uma irmã para mim - disse Letícia, apertando delicadamente a mão da amiga.
- Também gosto muito de você, como uma irmã.
- Esse assunto não me entristece.
- Não? - perguntou Mila surpresa.
- De maneira alguma. - Letícia interessou-se.
Como foi esse sonho?
Mila sorriu ao recordar-se da primeira vez que sonhara com o pai.
- Meu pai estava muito bem no sonho.
Explicou-me que seu espírito decidira desencarnar naquele acidente.
Afirmou que nós três - eu, ele e minha mãe havíamos traçado esta vida antes de nascermos, prevendo esses acontecimentos.
- Voltou a reencontrá-lo, quer dizer, a sonhar outras vezes?
- Faz muito tempo que não sonho com ele.
Papai tem sua própria vida, vive numa outra dimensão.
- Se eu pudesse acreditar nisso!
- É só abrir sua mente e seu coração para as verdades da vida.
Quando acreditamos que a vida continua após a morte, parece que nosso coraçãozinho fica menos apertado.
A saudade é grande, e nunca vai nos abandonar, mas não há desespero ou revolta.
Temos plena convicção de que vamos reencontrar nossos entes queridos quando a nossa jornada terminar neste mundo.
Tudo é uma questão de tempo.
- Acha mesmo que estou sofrendo interferência espiritual?
Mila assentiu com a cabeça.
- Seu pai está rondando sua casa...
Não tenho dúvidas.
- O que faço?
- Mantenha bons pensamentos.
Estude mais a respeito do mundo dos espíritos.
Precisa aprender lidar com o invisível.
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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 28, 2015 9:02 pm

- Não tenho livros.
Só aquele romance que você me deu.
- Vou comprar O Livro dos Espíritos e O Livro dos Médiuns para você.
- Não precisa, não. Eu os compro.
- Quero lhe dar de presente.
Estou com uma forte intuição de que esses livros vão ajudá-la bastante compreender tudo o que diz respeito à espiritualidade você vai aprender a lidar com essas energias.
- Obrigada, Mila.
Vou ler com carinho e enchê-la de perguntas.
Prepare-se.
A amiga sorriu.
- No que puder esclarecer, será um prazer ajudá-la.
Aproveite e converse com Leandro a respeito.
Ele me parece uma pessoa de mente aberta par esses assuntos.
- É sim.
Disse-me que quer ler Uma história de ontem tão logo eu o termine.
- Parece que estão se reaproximando.
Estou certa?
Letícia suspirou contente.
- Precisamos conversar sobre isso.
Tenho sentido enorme desejo de me entregar a ele.
- Pois se entregue. É seu marido.
- Eu quero, mas depois não quero.
Parece que há duas Letícias.
- Conversou com seu analista?
- Sim.
- Temos a tarde toda para conversar. Chegamos.
Mila entrou no estacionamento do shopping, colocou o carro numa vaga e logo estavam entretidas entre vitrines e sacolas de compras.
Mais um episódio do seriado CSI chegou ao fim e Ricardinho sentiu fome.
Sugeriu ao pai:
- Vamos fazer um lanche?
- Mesmo? Tem fome?
- Bastante!
- Isso é bom sinal.
- Acho que foram os pontos no joelho que abriram meu apetite.
Leandro passou delicadamente as mãos pelos cabelos do filho.
- Vou pedir para a Iara fazer um lanche para nós,
- Não, pai. Vamos os dois até a cozinha.
Aprendi a fazer um sanduíche muito maneiro.
Vem comigo.
Ricardo foi puxando o pai até a cozinha.
No caminho, Leandro quis ir ao banheiro.
- Vai à frente e num minuto estarei na cozinha.
- Está certo, pai.
Leandro entrou no lavabo e Ricardo foi até a cozinha.
Iara estava na área de serviço.
O menino abriu a geladeira, pegou alguns frios e o pote de maionese.
Colocou-os sobre a bancada próxima da pia e, ao virar-se, viu nitidamente uma forma humana, embora meio esfumaçada, quase transparente, encostada na porta do armário.
A forma humana estava constrangida.
Não queria ser vista.
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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 28, 2015 9:02 pm

Ricardo sorriu e cumprimentou:
- Oi, vovô. Como está?
Emerson sentiu um nó na garganta.
Era a primeira vez que o menino lhe dirigia a palavra.
- Você pode me ver?
- Posso.
- Já me viu aqui na sua casa antes?
- Já.
- Por que nunca falou comigo?
- Porque achava que era coisa da minha imaginação.
Na semana passada vi um filme na televisão sobre espíritos chamado O Sexto Sentido e perdi o medo de falar com você.
Percebi que sou igual ao garoto do filme.
Como tem passado? - perguntou Ricardinho, com tremenda naturalidade.
- Estou bem.
- Eu soube no filme que aqueles que morreram e continuam aqui no planeta têm coisas mal resolvidas, assuntos pendentes. É isso?
O avô ia responder, apesar de estar atónito, contudo, Leandro entrou na cozinha.
- Falando sozinho, filho?
- Não, pai.
Leandro olhou ao redor e não viu ninguém.
- A Iara não está na cozinha.
- Mas meu avô está.
Quer dizer, estava. Sumiu.
- O quê?
- É. O vovô estava aqui.
Começamos a conversar, mas você apareceu e ele sumiu.
- Deve estar brincando.
O seu avô morreu. Faz um tempinho.
- Eu sei né, pai?
Fui ao velório e ao enterro.
Eu me lembro. Mas o espírito dele está vivo.
Leandro assustou-se com a desenvoltura do filho.
Ricardo falava com naturalidade desconcertante.
Pego de surpresa, indagou:
- O que ele lhe disse?
- A conversa estava engrenando quando você chegou.
Agora só vai aparecer de novo quando ele quiser.
- Vou tirar você desta casa, seu cretino - sussurrou o espírito.
Leandro sentiu os pelos dos braços eriçarem e um arrepio na espinha, além de uma sensação pesada no estômago.
Ele não escutou a frase, mas sentiu a presença de Emerson na cozinha.
- O vovô disse alguma coisa no seu ouvido e partiu.
O que foi que ele disse?
- Não sei, não escutei nada.
Leandro tentou disfarçar o incómodo.
- Eu não queria que você assistisse àquele filme na televisão.
Viu no que deu?
Ficou impressionado.
- Fiquei nada.
O filme me ajudou a entender algumas coisas.
- Que coisas, Ricardo?
- Depois vamos conversar mais sobre o assunto.
O menino falou, pegou a bandeja com os sanduíches e foi para a sala.
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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 28, 2015 9:02 pm

Leandro estava boquiaberto com a naturalidade com que o filho entabulara aquele conversação surreal.
Quando Letícia chegasse mais à noite, ele contaria sobre essa estranha conversa do filho e a sensação ruim que se apoderara de seu
corpo.
Leandro espantou os pensamentos desagradáveis com as mãos.
Acompanhou Ricardo até a sala.
A noite chegou.
Letícia e Mila entraram na casa carregadas de sacolas de compras.
Leandro e Ricardo brincavam no videogame.
- Acho melhor ir para minha casa.
- Imagine Mila.
É nossa convidada para o jantar.
- É noite de sexta-feira.
- Você não gosta de sair nessas noites.
Sempre me disse que sextas e sábados devemos ficar em casa ou ir à casa dos amigos, pois os lugares todos estão sempre lotados.
Mila riu.
- Tem razão.
Os bares, restaurantes e cinemas ficam apinhados de gente.
Prefiro o aconchego do lar e um filminho, uma pipoca.
Passei da idade de enfrentar filas e mais filas.
- Assim nunca vai encontrar um bom partido.
- Que nada!
Viu como fui paquerada no shopping?
- Mas não deu trela.
- Não me interessei por nenhum deles.
Sinto que na hora certa eu vou encontrar um homem que me desperte os sentimentos mais puros e verdadeiros.
E isso poderá acontecer na rua, no trânsito, na fila do supermercado.
Eu não preciso estar em lugares cheios de gente para me apaixonar.
E, de mais a mais, as mulheres de nossa idade estão muito competitivas.
Até brigam por homem, veja só!
Letícia riu.
- As mulheres estão perdendo a vergonha.
Estão mais atiradas.
- Eu não tenho pressa de nada.
No momento certo vou encontrar o homem de minha vida.
- Você fala com tanta propriedade.
Sempre me disse isso desde a adolescência.
Namorou poucos meninos.
- É o meu jeito.
Eu sinto que na hora certa eu vou saber.
- Eu quero muito que você seja feliz, Mila.
- Eu também quero de coração, que você se acerte com o Leandro.
Formam um lindo casal.
Eu sempre apostei na relação de vocês.
- Pois é. Eu também.
- Lembre-se de nossa conversa no shopping.
Deixe seu orgulho de lado.
Abra seu coração e tente se entender com seu marido.
Letícia deixou as sacolas de compras sobre um sofá e abraçou a amiga.
- Não sei o que seria de mim sem você. Obrigada.
Mila emocionou-se e a beijou no rosto.
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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 28, 2015 9:02 pm

- Sou feliz por compartilhar sua amizade.
- Podemos jantar e depois assistimos a um DVD.
Tenho vários títulos na sala de TV.
- Você tem aquele filme - Mila coçou o queixo - O Melhor Amigo da Noiva, com o Patrick Dempsey?
- Se tenho? Claro.
Adoro esse actor. Ele é um gato!
- Queria arrumar um namorado assim, no estilo dele, sabe?
- Óptimo. Escolhemos o filme.
É uma comédia romântica deliciosa.
Depois, faremos baldes de pipocas.
Se ficar muito tarde, você dorme no quarto de hóspedes.
- Combinado. Vou ficar.
- Assim me ajuda a espantar algum fantasma, caso apareça.
- Não estou sentindo nada.
- Não disse que foi impressão?
Leandro deixou o filho jogando sozinho e foi ao encontro delas.
- Como foi à tarde? Divertiram-se?
- Bastante - tornou Letícia.
Compramos umas besteirinhas.
Coisas de mulher.
- Um batom, um par de sandálias - prosseguiu Letícia.
Leandro passou a língua pelos lábios, nervoso.
- O que foi? Está apreensivo.
Mila sorriu e foi caminhando para outra sala.
- Fiquem à vontade.
- Não - sugeriu Leandro. - Fique.
Acho que você pode me ajudar a entender o que aconteceu aqui nesta tarde.
- Alguma coisa com nosso filho? - perguntou Letícia preocupada.
- Sim. Mas não se desespere, não é nada grave, creio.
- O que aconteceu?
Ele fez sinal para elas se afastarem da saleta de TV.
Entraram na sala de jantar e Leandro cerrou as portas de correr.
Começou a contar o episódio surreal:
- No meio da tarde, Ricardo sentiu fome e propôs fazermos um lanche.
Fui ao banheiro primeiro e quando entrei na cozinha ele falava sozinho.
- Sozinho?
- Sim. Disse-me que estava conversando com o avô.
- Como assim? - perguntou Letícia, sem entender.
- Ele me afirmou que estava conversando com o espírito do seu pai.
Letícia levou a mão à boca.
- Não pode ser!
- Ele falou com naturalidade.
Afirmou se tratar do espírito do avô.
- Ricardinho teve muitos amiguinhos imaginários na infância, mas depois dos sete anos tudo se acalmou.
Mila interveio.
- Ricardinho tem sensibilidade apurada.
- Mas ele é muito novo, Mila.
- E daí? Geralmente nessa idade a criança começa a despertar sua sensibilidade.
- Você mesma disse que é perigoso uma criança desenvolver mediunidade.
Falou isso lá no shopping.
- Forçar uma criança é perigoso.
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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 28, 2015 9:03 pm

No entanto, no caso do seu filho, é natural, espontâneo.
Ricardinho não é bem uma criança.
Tem doze anos.
Depois do jantar, vamos fazer o Evangelho no Lar.
- Como assim?
Mila sorriu.
- O Evangelho no Lar é uma prática comum entre os espíritas.
Trata-se de uma reunião familiar, em torno do livro O Evangelho Segundo o Espiritismo ou outro que tenha mensagens que discutem os textos sagrados como Pão Nosso ou Fonte Viva.
Todos se sentam ao redor da mesa e é feita uma prece.
Depois, inicia-se uma leitura de algum trecho do Evangelho ou de um dos livros citados.
Faz-se comentários, debate-se e encerra-se com nova prece.
É simples, dura entre quinze e trinta minutos.
- E serve para quê?
- Para manter a casa protegida pelos espíritos de luz, para afugentar o lar de espíritos que queiram nos perturbar.
Daí precisarmos fazer essa reunião uma vez por semana, preferencialmente no mesmo dia e horário.
- Gostei - disse Leandro.
- Hoje, depois que fizermos nossas orações e estivermos protegidos e amparados pelos amigos espirituais, vou ler algumas partes de O Livro dos Médiuns e tirarei suas dúvidas, na medida do possível - disse Mila.
- Bem que você insistiu em me comprar os livros hoje.
- A minha intuição não me engana amiga.
- Eu sou a culpada disso.
- Por que diz isso, Letícia?
- Eu deixei Ricardinho assistir a um filme na televisão semana passada.
Ele ficou radiante.
Leandro emendou:
- Fui eu quem o deixou assistir a esse filme sobre espíritos.
O menino ficou impressionado.
- Calma. Não é isso, não - tornou Mila com amabilidade na voz.
Ricardo tem doze anos de idade.
Geralmente a sensibilidade começa a despertar por volta dessa idade, entre doze, treze anos.
Seu filho é muito esperto, inteligente.
O filme somente despertou e aguçou sua sensibilidade.
A leitura e compreensão dos livros que comprei, ao contrário do que você imagina, vão ajudá-lo a entender melhor o mundo invisível que nos rodeia.
- Não sei ao certo. Tenho medo.
Falar de espíritos, mexer com os mortos...
- Ninguém está aqui mexendo com os mortos - emendou Mila.
- Estamos falando sobre uma eventual comunicação com alguém que não se encontra mais neste mundo. Só isso.
- Mas Ricardinho assustou-se? - indagou Letícia ao marido.
- De forma alguma. Falava naturalmente.
Parecia que o avô estava vivo, na frente dele.
Não vi nada, contudo senti um arrepio estranho, uma sensação desagradável.
- Você não viu, mas Emerson esteve aqui.
E, virando-se para Letícia:
- Não lhe disse que percebi uma presença estranha no seu jardim esta tarde?
- Foi.
- Agora tenho certeza de que era o espírito do seu pai.
- Se vocês vissem Ricardinho falar com ele!
Foi de arrepiar!
- Emerson nunca gostou de você, Leandro - tornou Mila.
Quando o espírito desencarna, quer dizer, quando deixa o corpo físico, torna-se mais subtil e mais sensível às irradiações de pensamentos das pessoas.
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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 28, 2015 9:03 pm

Dessa forma, as emoções do desencarnado se fundem às do encarnado ou encarnados ao seu redor.
Se você é feliz aqui no planeta, ao morrer vai sentir muito mais felicidade.
O mesmo ocorre com a raiva e mágoa.
As emoções se agigantam fora do corpo físico.
Daí necessitarmos ter alto grau de equilíbrio emocional.
- Se tudo isso é verdade, por que ele esteve aqui?
- Não sei ao certo.
Cada caso é um caso.
Depois do jantar vamos fazer o culto do Evangelho no Lar.
Deixaremos o filme para outro dia, amiga.
- Vou colocar Ricardinho para dormir mais cedo e...
- Qual nada! - protestou Mila.
Ele deve estar presente.
Quanto mais cedo entender do assunto, melhor.
- Ele é muito novo.
- Engana-se, minha amiga.
Seu filho pode aparentar ser jovenzinho, entretanto seu corpo físico abriga um espírito maduro que viveu muitas e muitas vidas.
- Não sei. Esses assuntos sempre me deixaram nervosa.
- Não tem por que ficar nervosa.
Quanto mais souber acerca do mundo espiritual, mais fácil aprenderá a lidar com os espíritos e as energias que deles emanam, permitindo receber as vibrações salutares dos amigos invisíveis e defender-se das energias perniciosas daqueles que não a querem bem.
- Vou falar com Iara para colocar mais um prato à mesa.
- Eu vou conversar com o Ricardo.
- O que vai perguntar a ele, Mila?
- Nada de mais.
Quero saber como foi essa visita do avô, mais nada.
- Está sentindo a presença do meu sogro?
- Estou Leandro.
Emerson está por perto.
- E agora? Temos de saber o que ele quer.
Edgar abriu e perpassou os olhos pelo ambiente tentando imaginar onde se encontrava.
Avistou uma figura alta e forte sentada logo à sua frente.
- Eu morri?
- Não, por que pergunta? - indagou o enfermeiro.
- Não sei onde estou, e você está todo de branco...
- Está na casa dos seus pais.
O rapaz passou as mãos pela testa.
Lembrou-se de tudo.
- Essa não! Eu não queria vir para cá.
- Tinha de ser assim - o enfermeiro levantou-se, aproximou-se da cama e mediu a pulsação.
Em seguida, perguntou:
- Como se sente?
- Bem.
O enfermeiro tocou uma sineta e em instantes Maria José apareceu na soleira.
Correu até a cama do filho.
- Como andas minha criança?
- Melhor, mãe. Melhor.
- Sentes fome?
- Não. - Edgar ajeitou o corpo e sentou-se na cama.
Maria José apoiou os travesseiros entre suas costas e a cabeceira da cama.
- Precisamos conversar.
- Não quero conversar, mãe.
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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 28, 2015 9:03 pm

- A Dra. Vanda está lá embaixo.
Chegou há pouco.
- Quem é essa?
- Uma psicóloga.
Ela é muito gira! - disse Maria José animada, usando a expressão portuguesa que significa legal, bacana, interessante.
E emendou:
- Vai ajudá-lo e...
Edgar cortou a mãe secamente.
- De maneira alguma!
Recuso-me a falar com uma psicóloga.
- É importante.
É bom conversar com um profissional e receber tratamento adequado.
- Tratamento?
Acaso me acha louco?
- Não, todavia o que tentaste fazer não é normal.
- Foi um acto desesperado.
Não vai mais se repetir.
- Ela vai ajudar-te a equilibrar teus sentimentos, dominar tuas emoções.
- Não quero.
Maria José levantou-se e exalou profundo suspiro.
- Na minha casa mando eu!
Estou farta de ver-te nesse estado.
A Vanda vai subir e tu vais, ao menos, conversar um bocadinho com ela, nem que seja por um minutinho.
- Mas...
- Nada de, mas!
Não se encontras em teu juízo perfeito.
Eu tomo as rédeas e, enquanto estiveres em casa, vai ser assim, como eu quero.
Ela falou, virou-se de maneira abrupta e saiu do quarto.
Logo a psicóloga entrou e encostou a porta.
Vanda era uma mulher de presença, muito simpática.
Tinha um semblante tranquilo; andava e vestia-se elegantemente.
Fez uma mesura com a cabeça para o enfermeiro e este se retirou do quarto.
Ela aproximou-se da cama e sentou-se numa cadeira.
Sem tirar os olhos dos de Edgar, cumprimentou-o.
- Como vai?
Ele fez cara de pouquíssimos amigos.
- Vou indo.
- Sente-se bem?
- Hum, hum.
- Precisa de alguma coisa?
- Quero sossego. Não preciso de nada.
- Por que tentou o suicídio?
A palavra era muito forte para ele.
Sabia ter atentado contra a própria vida, no entanto, a palavra suicídio não lhe caía bem aos ouvidos.
Era como se sentisse fraco, impotente, um nada.
Edgar percebeu sua face avermelhar-se.
- Eu não tentei nada.
- Não?
- Foi um momento de fraqueza.
De repente, quando eu me dei conta do acto insano, estava lá, caído no chão.
Ainda bem que não aconteceu nada.
- Descreva-me os seus sentimentos em relação à Denise.
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Ave sem Ninho

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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 28, 2015 9:03 pm

- Como?!
- O que você sente por sua esposa?
Ele revirou-se nervosamente na cama.
Abaixou os olhos.
- Eu amo a minha mulher.
Amo-a com todas as minhas forças.
- Tem certeza?
- Claro. Denise é a mulher da minha vida.
Sem ele não sei viver.
- E se tivesse de viver sem ela?
Como seria?
- Não imagino. Ela vai voltar.
Foi uma briguinha à toa. Ela me ama.
Vai voltar e tudo vai ser como antigamente.
- Você já parou para pensar que não existe relação perfeita, e sim a relação possível?
- Mas a minha relação é perfeita! - disse Edgar sem dar atenção ao comentário.
- Vamos imaginar o pior.
Suponha que ela não volte.
Edgar falou num tom acima do normal.
- Ela vai voltar!
- Calma. Estou conversando com você.
- Não quero conversar com você.
Por favor, retire-se.
Vanda não disse nada.
Meneou a cabeça para cima e para baixo, fez algumas anotações num bloquinho, guardou-o na bolsa e levantou-se.
Saiu do quarto e em seguida o enfermeiro entrou.
Edgar começou a chorar e gritar por Denise.
O rapaz teve de lhe aplicar um sedativo.
Vanda desceu e sorriu para Maria José e Fernando.
- Ele está muito resistente, mas vai mudar.
- Tens certeza, Vanda?
- Absoluta.
- Estou nervosa.
Edgar gritou contigo.
- É normal. Ele está se sentindo fraco e impotente.
Não quer demonstrar sua fraqueza e acredita piamente que a esposa vai voltar para ele.
- Mas sabemos que não vai.
- Não sei - tornou Fernando.
Essa rapariga bem que pode querer voltar.
Denise é temperamental e manipuladora.
- Não vou permitir - protestou Maria José.
Essa mulher não vai mais se aproximar do meu filho.
- Vamos aguardar - retrucou Vanda.
Eu sinto que o ciclo entre seu filho e Denise ainda não terminou.
Ele tem uma dependência emocional muito grande em relação a ela.
Talvez com o tempo ele mude.
- Vais ajudar-nos, não?
- Farei o possível.
Retornarei amanhã de manhã.
- Obrigada, Vanda.
Eles se despediram e a psicóloga foi embora.
- Acha mesmo que ela é boa?
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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 28, 2015 9:03 pm

- Tenho as melhores referências, Fernando.
Vanda vai ajudar nosso filho.
Eu sinto isso - disse Maria José, enquanto levava a mão ao peito.
Depois de um jantar leve e descontraído, Letícia convidou a todos para irem ao escritório.
Era uma mistura de biblioteca com escritório, local que Leandro usava nos fins de semana para seu trabalho.
O cómodo era todo em tons claros, móveis modernos e bem distribuídos.
Havia duas poltronas e um sofá de dois lugares, bem confortáveis.
Mais ao canto havia uma mesa redonda para reuniões, com quatro cadeiras.
Mila fez sinal para sentarem-se.
- Aqui está perfeito.
O ambiente exala tranquilidade.
Leandro saiu e voltou em seguida com uma bandeja.
Nela havia uma jarra com água e quatro copos.
Mila indicou que ele colocasse a bandeja sobre a mesa.
- Eu gosto muito daqui - ponderou Leandro.
É o meu cantinho predilecto quando estou sozinho na casa.
Aqui trato de alguns assuntos da empresa e vez ou outra, sento-me com Ricardinho e lemos algum livro juntos.
- É. Papai e eu lemos em silêncio e depois paramos e discutimos o texto.
Acabamos de ler Quintessência, do Jorge Desgranges.
É um livro maneiro, e eu sabia que o Santiago não tinha cometido aquele crime horroroso.
Não é, pai?
- É sim. No momento estamos fazendo a análise de Dom Casmurro, de Machado de Assis.
- Você conhece o livro, Mila? - indagou Ricardo.
- Conheço. É um clássico da literatura brasileira.
Aprecio demais os livros de Machado, mas você não é muito jovem para ler e entreter-se com esse tipo de leitura?
- Imagine! Eu tenho quase treze anos.
Sou praticamente um homem.
Todos riram.
Letícia o abraçou e o beijou no rosto.
- Esse menino é diferente.
Sei que todas as mães dizem o mesmo de seus filhos, entretanto, Ricardo tem uma sensibilidade ímpar.
Ele se diverte com a leitura de um clássico nacional, assim como se diverte com o videogame.
- Gosto de muitas coisas.
- E qual o seu parecer em relação ao livro do Machado de Assis? - indagou Mila com os olhos brilhantes e curiosos.
- Eu acho que a Capitu não traiu o Bentinho.
Ele deixou-se levar pela maledicência dos outros.
Ela é pura e apaixonada pelo marido.
Meu pai acha que ela traiu o marido.
Ficamos horas discorrendo sobre o tema, não é papai?
Leandro abriu largo sorriso.
- É. Ricardo tem razão.
Divagamos e imaginamos o pensamento dos personagens.
Mila sorriu e conversaram sobre outros livros de Machado.
Sentaram-se à mesa e ela pediu que fechassem os olhos.
- Vamos nos desligar de tudo o que conversamos até agora.
Deixemos o assunto dos livros de lado, as conversas do jantar.
Vamos respirar e soltar o ar bem devagar.
Eles a obedeceram.
Ela continuou:
- Agora vamos fazer a prece inicial.
Mila fez sentida prece de abertura.
Em seguida, leu um trecho de O Evangelho Segundo o Espiritismo.
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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 28, 2015 9:04 pm

Discutiram o tema, fizeram uma prece por eles pelos familiares e amigos.
Pediram protecção para a casa e que, se algum espírito ali estivesse que recebesse auxílio dos amigos ali presentes.
Terminaram com nova prece e marcaram de se reunirem no mesmo dia da semana seguinte, no mesmo horário.
- Estou sentindo uma agradável sensação - disse Letícia.
- Eu também - emendou Leandro.
Devemos fazer essa reunião mais vezes.
- Interessante seria vocês se reunirem ao menos uma vez por semana e fazer o que fizemos.
O Evangelho no Lar nos fortalece, ajuda a manter a harmonia, além de os espíritos amigos virem e nos inspirarem coisas boas.
Embora o recomendado seja fazer a reunião com pelo menos duas pessoas, em casa eu faço sozinha.
- Venha fazer aqui connosco também - pediu Ricardo.
- Adoraria participar. Senti-me muito bem.
Todos concordaram afirmando com a cabeça.
- Agora vamos tomar a água.
Ela está fluidificada.
Em seguida, Mila tirou de sua bolsa um livro de capa verde, com o título em dourado.
Foi Ricardo quem leu.
- O Livro dos Médiuns.
O que é isso?
- Esta obra foi escrita por Allan Kardec, o codificador do espiritismo.
Já ouviu falar?
O menino fez um gesto afirmativo com a cabeça.
- Conheço-o.
Não sei de onde, mas já ouvi falar.
- O Livro dos Espíritos trata dos fundamentos da doutrina.
É um livro rico em ensinamentos.
Já O Livro dos Médiuns, lançado alguns anos depois, é uma espécie de guia que Kardec escreveu para ajudar as pessoas a lidarem com a sensibilidade.
Segundo o autor - Mila correu os olhos no texto - seu objectivo consiste em indicar os meios de desenvolvimento da faculdade mediúnica, tanto quanto o permitam as disposições de cada um, e, sobretudo, dirigir-lhe o emprego de modo útil, quando ela exista.
- A leitura parece bem agradável.
Ele é repleto de perguntas e respostas.
- Isso mesmo, Ricardinho, do mesmo modo que O Livro dos Espíritos.
- Às vezes acontece algo estranho comigo, sabe Mila?
- Como o quê, por exemplo?
- É como se eu já conhecesse esse livro.
Parece que eu já o li.
É como o sonho que tenho com uma moça linda.
Ela me leva até um teatro cheio de jovens da minha idade.
Todos ficam sentados e em silêncio.
Dos auto-falantes sai uma melodia linda, que nos inspira à introspecção.
É feita a leitura de uma pergunta retirada de O Livro dos Espíritos.
Ricardinho fez um sinal afirmativo com a cabeça.
- Já sei! É do sonho que conheço esses livros!
- É mesmo? - indagou Leandro.
- Sim, pai. Alguém voluntariamente se levanta, lê a resposta e um professor nos explica melhor, caso a gente não entenda.
- Você sai do corpo físico e vai até uma colónia espiritual destinada a estudos mediúnicos - complementou Mila.
- Puxa, que legal!
- Nunca nos contou antes, filho - disse Leandro.
- É tão natural, pai.
Isso acontece já faz um bom tempo.
Eu não comento porque a mamãe fica nervosa.
Não gosta que eu fale sobre espíritos.
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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 28, 2015 9:04 pm

- Porque não é assunto para garotos de sua idade.
Você tem que brincar com seus amigos, joga videogame...
- Não concordo.
Vovô me disse que você sempre foi medrosa.
Letícia sorriu ao lembrar-se do pai.
Emerson dizia que a filha era medrosa, insegura, e que ele estaria sempre por perto para ampará-la.
- Papai falava isso com frequência.
Mas ele morreu. Eu o cremei.
- Já conversamos sobre isso, amiga - pondero Mila.
O que morreu foi o corpo físico do seu pai.
O seu espírito está vivo. É eterno.
- Repito que acho tudo fantasioso demais.
- Vamos aproveitar e fazer uma pequena leitura de O Livro dos Médiuns? - perguntou Mila de maneira jovial.
Todos assentiram.
Ricardinho sorriu animado.
Mila abriu o livro e, por coincidência, tratava da mediunidade das crianças.
Ela leu boa parte das pergunta e discutiram sobre o tema.
Leandro interessou-se tomou o livro das mãos dela.
Leu:
- Mas há crianças que são médiuns naturais, seja de efeitos físicos, de escrita ou de visões.
Haveria nesse caso o mesmo inconveniente?
- Não. Quando a faculdade espontânea se manifesta numa criança, é porque isso pertence à sua própria natureza e a sua constituição é adequada.
Não se dá o mesmo quando a mediunidade é provocada, excitada.
Observem que crianças que têm visões geralmente pouco se impressionam com isso, é o caso de Ricardinho com o avô - ponderou Mila.
As visões lhe parecem muito naturais.
A criança lhes dá pouca atenção e geralmente as esquece.
Mais tarde, a lembrança lhe volta à memória e é facilmente explicada, se ela conhecer o espiritismo.
Letícia interessou-se e cravou Mila com outras perguntas.
Na medida do possível ela foi respondendo, intuída pelos amigos espirituais ali presentes por conta do Evangelho no Lar, e assim mantiveram o ambiente com energias positivas ao redor.
- Está vendo, mãe?
Nunca forcei nada.
E não sou mais criança.
- Ricardo tem razão.
Nem nós, tampouco ele, procuramos por esse assunto.
O espiritismo tem entrado em nossa vida de maneira natural.
Eu sempre fui simpático à doutrina, contudo, acho que devemos procurar estudar e entender melhor o assunto.
- Tenho medo - ponderou Letícia.
- Por essa razão devemos estudar querida - replicou Mila.
Conforme estudamos e compreendemos melhor o assunto, o medo naturalmente se dissipa.
Existe muita crença ruim acerca da morte.
Precisamos mudar nossos conceitos em relação a ela.
- Tem razão.
E por falar em morte, vovô está na porta do escritório - falou Ricardo, num tom natural.
Letícia levou a mão ao peito.
Sentiu um misto de excitação e medo.
- Onde está? Eu não o vejo.
- Está ali na soleira - apontou o garoto.
Tem um moço simpático ao lado dele.
Está falando que veio buscar o vovô.
Mila e Leandro olharam para a porta e nada viram.
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Re: O AMOR É PARA OS FORTES - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 28, 2015 9:04 pm

Mila sentiu leve torpor.
Percebeu que o espírito de Emerson estava ali.
Ricardo continuou:
- Ele não pode ficar porque disse que a energia da sala não permite.
Disse que é uma energia diferente da que ele pode suportar.
- Seu avô não deve estar bem.
O que ele quer? - indagou Mila.
Ricardo ficou olhando para a porta e fez sinal positivo com a cabeça.
- Está falando que está por aqui, que continua tomando conta de minha mãe, mas que, infelizmente, vai ter de partir.
- Ele não vive mais neste mundo.
Não foi chamado para ir para outro local?
- Foi. Mas está resistente.
Está dizendo que, agora que vamos nos reunir toda semana para fazer orações, ele não mais poderá ficar na casa.
- Vamos orar por ele.
Ricardo fez sinal negativo com a cabeça.
- Não vai adiantar.
- Por quê? - perguntou Leandro.
- Ele gargalhou e disse que orações não vão ajudar.
Quer que mamãe abra os olhos.
Ricardo espremeu os olhos e perguntou:
O quê? Como?
Tem certeza, vovô?
Isso que diz é muito grave.
Ah, que pena.
- O que foi?
- Ele sumiu com o outro moço. Foram embora.
- O que ele disse? - perguntou Leandro.
Ricardinho falou com a maior naturalidade do mundo:
- Que você tem uma amante.
Fazia semanas que Leandro não retornava as ligações de Denise.
Ela estava nervosa e irritada.
Jamais homem algum havia deixado de ligar.
Era sempre ela quem sumia. Sempre.
Estava perdendo a concentração no trabalho.
Durante uma importante reunião de negócios sua mente estava em outro lugar.
Inácio a chamou por mais de três vezes:
- Denise, o que acontece?
Ela voltou a si e perguntou, sem jeito:
- O que foi? Desculpe-me.
Estava com a cabeça longe daqui.
- Bem longe, eu percebi.
- Desculpe mesmo, Inácio, onde estávamos?
Ele leu a minuta do contrato e ela assentiu.
- Está certo. Vou fazer pequena anotação e pedir para Marina digitar dez por cento.
- Excelente. O departamento financeiro não vai perceber essa diferença?
- Mantive a mesma percentagem, mas diminuí a margem de lucro da empresa.
Estou vendendo nossos produtos para aquela outra empresa, por valor abaixo do mercado.
Depois você nos revende por preço bem maior e me repassa meio a meio o lucro.
E, obviamente, o Evaristo, chefe da contabilidade, recebe bom dinheiro para maquiar os balancetes.
Sem a ajuda dele seríamos pegos. Facilmente.
- Confia mesmo nesse homem?
- Ele ganha um bom salário, mas é homem ganancioso e sem escrúpulos profissionais.
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