O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 07, 2015 9:24 pm

O PREÇO DA PAZ
MARCELO CEZAR

([b]ESPÍRITO [/i]MARCO AURÉLIO)

Idealizamos com sonhos dourados um futuro cheio de felicidade.

Alimentamos expectativas que geram ansiedade e desassossego, fazendo de nossas vidas um verdadeiro inferno.

Quando nada sai como queremos, a frustração e a raiva nos levam ao desânimo e à depressão.

Buscamos soluções nas fugas viciosas do desequilíbrio destruidor.

É quando percebemos que o que queremos é a paz para voltarmos a ter gosto de viver.

Mas teremos de pagar "O preço da paz".

Para Mónica de Casto e Leonel, pelo carinho, pela amizade, por tudo.
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Ave sem Ninho

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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 07, 2015 9:25 pm

PRÓLOGO

Em meados da década de 1980, o Brasil passava por profundas, sucessivas e até mirabolantes mudanças no terreno da economia.
A cada troca de governo, a população era brindada com um conjunto de planos económicos que prometia equilibrar as contas públicas e acabar de vez com os efeitos nocivos da inflação.
Todos esses planos fracassavam, não davam resultado, como se houvesse uma ziquizira, uma tremenda falta de sorte pairando sobre a economia brasileira.
Para se ter uma ideia, a inflação medida no período de março de 1989 a março de 1990 chegou a 4.853%.
Isso mesmo, quase cinco mil por cento!
Uma loucura.
Os trabalhadores recebiam seus salários e corriam ao mercado, a fim de pelo menos conseguir comprar o básico para suas famílias antes que os preços sofressem os aumentos galopantes da inflação em franco descontrole.
As empresas deixaram de produzir e passaram a aplicar seu dinheiro, porquanto os juros das aplicações diminuíam a corrosão efectiva da moeda.
Assim que tomou posse, o então presidente Fernando Collor de Mello anunciou um pacote económico, mais um daqueles terríveis planos, oficialmente chamado Plano Brasil Novo - popularmente conhecido como Plano Collor.
Esse plano tinha como objectivo colocar fim à inflação, ajustar a economia e elevar o país do Terceiro para o Primeiro Mundo.
A moeda vigente, o cruzado novo, foi substituída pelo cruzeiro, totalizando a sétima troca de moeda ocorrida em menos de cinquenta anos.
O governo bloqueou por dezoito meses os saldos das contas-correntes, cadernetas de poupança e demais investimentos superiores a cinquenta mil cruzeiros.
A título de curiosidade, a fim de que o leitor entenda esses valores, sem ser expert em números ou fissurado por economia, finanças ou contas matemáticas, cabe ressaltar que esses mesmos cinquenta mil cruzeiros eram equivalentes a cinquenta cruzeiros reais em menos de três anos e, logo em seguida, com o advento do Plano Real, um real em valores de hoje valia 2.750 cruzeiros reais.
Confuso?
Bastante, mas o brasileiro, como sempre acostumado a adequar-se rapidamente a grandes mudanças, tirou mais essa de letra.
Muito cálculo?
Talvez, entretanto não estamos aqui para dar aulas de matemática, mas simplesmente para informar o leitor de que o valor livre deixado pelo governo Collor no banco era muito pouco.
Os preços foram tabelados e depois liberados gradualmente.
Os salários foram pré-fixados e posteriormente negociados entre patrões e empregados.
As empresas foram surpreendidas com o plano económico e, sem liquidez, demitiram funcionários.
Resultado de toda essa explanação:
Octávio, que em dois anos iria se aposentar, não foi demitido.
Em todo caso, poderia acontecer-lhe coisa pior?
Sim. A empresa em que ele trabalhava famosa pela fabricação de componentes electrónicos, foi à falência, da noite para o dia.
Octávio não recebeu um tostão, e, o pouco que tinha guardado no banco, o governo acabara de reter por conta desse plano económico.
Aos 48 anos de idade, sem curso superior, seria impossível arrumar emprego que lhe pagasse tão bem e lhe permitisse sustentar, sem preocupações, uma família composta de uma esposa e duas filhas.
Mariana, de vinte anos recém-completados, teria de deixar a faculdade.
Letícia, de apenas dezoito anos de idade, teria de esperar para ingressar numa faculdade até sabe lá Deus quando e teria de ir à caça de serviço.
E o que seria de Nair, a esposa de Octávio?
Ela mal concluíra os estudos, muito embora fosse excelente dona de casa.
Mas donas de casa não têm função, pelo menos que possa ser remunerada.
O que a pobre Nair poderia fazer para ajudar no orçamento doméstico?
A cabeça de Octávio latejava; ele sentia pontadas violentas na fronte.
Eram muitas as inquietações, e, parado em frente ao portão lacrado da firma, não sabia nem mesmo qual rumo tomar. Inácio aproximou-se e abraçou por trás o colega de trabalho.
Octávio estava desesperado, não tinha coragem de voltar para casa.
- Não sei o que fazer Inácio.
A falência da empresa e o plano do governo arruinaram minha vida.
Tudo isso vai cair como uma bomba sobre a minha família.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 07, 2015 9:25 pm

Eu sou o chefe do lar, eu banco tudo na minha casa.
Minhas filhas e minha esposa não estão preparadas para uma mudança tão radical em nossas vidas.
- Acalme-se, homem - tornou Inácio, tentando dar tom despreocupado à voz.
Em breve tudo isso passa, o dinheiro retido no banco voltará gradualmente para o nosso bolso e arrumaremos novo emprego.
Octávio esbracejou:
- Mentira! A mais pura mentira!
Eu tenho quarenta e oito anos, não tenho especialização.
Você é jovem, tem vinte e seis, uma vida inteira pela frente.
- Você também.
- Não! Estou velho.
- Qual nada!
- Emprego não vai lhe faltar.
Já eu estou quase para sair do mercado de trabalho.
Ia me aposentar em dois anos. E agora?
- Calmo Octávio.
Sei que, por enquanto, nada que eu lhe disser vai acalmá-lo.
Entretanto, de que vai adiantar o desespero?
Não vai ajudá-lo em nada.
- E minha família? - Octávio não conseguiu conter as lágrimas.
- Nair é mulher maravilhosa, e suas filhas também.
Tenho certeza de que vão ajudá-lo, e vocês, juntos, vão superar esta crise.
Inácio era um bom moço e belo tipo.
Na flor de sua juventude, não deixava de ser notado.
Por onde passava, sempre arrancava suspiros femininos.
Alto, forte, ombros largos, possuía pele bem clara, quase rosada.
Os lábios eram finos, embora bem desenhados.
Os dentes eram perfeitos e seus olhos azuis contrastavam harmoniosamente com os cabelos fartos, ondulados e alaranjados.
Combinação formidável, resultado do cruzamento de um pai goiano, criador de gado e também bem bonitão, e uma mãe linda, alta, loira e filha de suecos.
O jovem crescera na fazenda, no interior de Goiás, e com sete anos de idade instalou-se com a família no Rio de Janeiro.
Os anos passaram e, assim que concluiu os estudos na universidade, recebeu proposta para trabalhar numa empresa em São Paulo.
O casamento de seus pais, Íngrid e Aloísio, chegaram ao fim, de uma hora para outra, sem traumas, aparentemente.
Após amigável divórcio, sua mãe decidiu mudar-se do Rio e vir para São Paulo morar com o filho.
Íngrid e Inácio instalaram-se numa bela casa no Jardim Europa.
Nessa época, Inácio fora recrutado pela fábrica de componentes electrónicos tão logo se graduou em engenharia electrónica.
Fazia dois anos que era chefe e amigo de Octávio.
Inácio gostava muito dele.
A amizade estreitou-se, e logo o rapaz foi convidado a participar da vida íntima de Octávio e conhecer sua família.
Inácio tornou-se bastante inseguro após o divórcio dos pais.
A separação caíra como uma bomba sobre sua cabeça, porquanto ele acreditava que Íngrid e Aloísio viveriam felizes para sempre.
Diante da efectiva separação, o jovem não quis mais saber de namorar, de assumir compromisso sério.
Paquerava as garotas, saía com elas, flertava e mais nada.
Quando o coração começava a pulsar, Inácio pulava fora.
Fugia do compromisso afectivo assim como o diabo foge da cruz.
No entanto, ao conhecer Mariana, Inácio sentiu ser impossível ocultar seus sentimentos.
Isso ficou patente num domingo ensolarado, quando Inácio foi almoçar na casa de Octávio e encantou-se imediatamente com Mariana, a filha mais velha.
Romântico inveterado, o coração de Inácio amoleceu no instante em que Mariana lhe mostrou sua colecção de discos.
Além da atracção mútua, sentiram algo mais em comum: o gosto por músicas brasileiras, especialmente as cantadas por Maria Bethânia.
Mariana displicentemente colocou o disco no aparelho e cantaram Cheiro de Amor.
Os olhares foram correspondidos e Inácio, pela primeira vez em anos, pensou na possibilidade de namoro sério.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 07, 2015 9:25 pm

Depois da tarde agradável, da troca de olhares e das músicas de Bethânia, ele tencionava seriamente conversar com Octávio sobre a possibilidade de namorar sua filha.
Entretanto, não queria confundir as coisas e estava esperando o momento certo para abordar o amigo e dizer-lhe o que ia em seu coração.
Na verdade, o que Inácio tinha de bonito, tinha de inseguro.
O jovem tinha medo de que as moças só se acercassem dele por conta de sua beleza e dinheiro, mais nada.
Octávio agarrou-se ao portão da fábrica.
Tentou inutilmente arrancar o lacre e vociferou:
- Quero meu dinheiro!
A cena era muito triste.
Outros colegas da fábrica também choravam e balançavam a cabeça para os lados, incrédulos, não querendo aceitar a dura realidade que a vida lhes havia imposto.
Octávio parecia estar fora de mim. Gritava cada vez mais alto:
- Exijo meus direitos!
Foram vinte anos aí dentro...
Não posso voltar para casa sem nada...
Inácio procurou acalmá-lo:
- Tudo vai se resolver.
Recebi excelente proposta para trabalhar na Centax.
Está quase tudo acertado.
Vou coordenar os novos projectos no escritório central e, se eu pegar esse cargo de chefia, poderei contratá-lo.
- Mas isso demanda tempo.
Enquanto isso, eu e minha família vamos viver de quê?
- Eu posso ajudá-los.
Sabe que minha família tem muitos bens, bastante dinheiro.
Posso arranjar-lhe alguns trocados até que arrume novo emprego.
Os olhos de Octávio injectaram-se de fúria.
- Isso nunca!
Nunca precisei do dinheiro dos outros.
- Um empréstimo, então.
Depois você me paga, como puder, do jeito que der.
- Não!
- Não seja orgulhoso numa hora destas.
- Eu sempre me virei.
Não vai ser agora que vou depender de alguém.
- Pense na sua família.
Orgulho besta não põe comida na mesa, oras.
Inácio falava, mas Octávio não registava uma só palavra.
Sua cabeça continuava latejando, seus olhos estavam querendo saltar das órbitas.
De repente, seu braço esquerdo começou a formigar.
Logo veio a falta de ar, o mal-estar e, num estalar de dedos, uma terrível dor apossou-se de seu peito, como se o coração tivesse sofrido uma explosão, um ataque devastador.
E sofreu mesmo.
O nervoso fora tanto, que Octávio teve um enfarto fulminante.
Inácio tentou acudir o amigo, que caiu abruptamente sobre si mesmo, mas em vão.
Não adiantou a gritaria, os poucos colegas de trabalho ao redor, os transeuntes que paravam na tentativa inútil de acudi-lo, a chamada por socorro, a chegada do resgate, nada.
Octávio morreu ali mesmo, nos braços de Inácio, bem defronte ao portão da empresa onde trabalhara por tantos anos.
Uma cena triste e deprimente.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 07, 2015 9:26 pm

CAPÍTULO 1

Nair caminhava a passos lentos, quase estáticos.
Sentia ser arrastada, mal se sustinha em pé.
Passara a noite inteira acordada e logo cedo tomara dois calmantes para aguentar o tranco, afinal o dia lhe parecia infindável.
O calor infernal naquela manhã dava-lhe a nítida impressão de que ela iria derreter.
- Podia me derreter mesmo - suspirou aflita.
Assim eu sumiria de vez.
Minha vida se tornou um pesadelo, isso sim.
Mariana e Letícia estavam cada uma ao lado da mãe, seguindo o cortejo fúnebre.
O caixão com o corpo de Octávio seguia mais à frente e as meninas davam suporte e alento à mãe.
Eram muito unidas as três, entretanto Mariana era mais ligada à mãe, sua maneira de ser e pensar era semelhante à de Nair.
Passando delicadamente a mão no rosto da mãe, a fim de secar o suor que escorria pela sua fronte, Mariana tornou:
- Não é o fim do mundo, mamãe.
Formamos um belo trio, somos mulheres fortes.
- Isso mesmo - ajuntou Letícia. - Unidas venceremos essas adversidades.
- Será? - suspirou Nair, hesitante.
- Confie na vida, mamãe.
Tudo vai dar certo.
Nair suspirou profundamente.
Não tencionava, naquele momento, confiar na vida, ou raciocinar, ou mesmo concatenar pensamento que fosse.
Para ela, o futuro parecia algo nebuloso, totalmente incerto, bastante escuro mesmo.
Na verdade, Nair não estava pensando na falta que o amor de Octávio iria lhe fazer dali em diante.
Longe disso. Davam-se bem, respeitavam-se, eram amigos...
E mais nada. Nunca houve amor entre os dois a ponto de fazê-la, agora, chorar de saudade.
O que a fazia sentir-se vazia naquele momento era perceber como havia levado uma vida oca e sem emoção nos últimos vinte anos.
Como isso fora possível?
Aos dezoito anos, Nair apaixonou-se por Virgílio, homem feito, e uns doze anos mais velho que ela.
Diziam ser amor passageiro, de interesses - por parte dela – e de brincadeira - por parte dele.
Mas não era.
Eles se amavam de verdade. Infelizmente, por conta dos desvarios do destino, Virgílio casou-se com Ivana, uma conhecida da família.
Nair ficou chocada, triste e sem opção.
Desiludida e cansada de lutar contra aqueles que julgava serem mais fortes, Nair envolveu-se com Octávio.
Era melhor esquecer logo seu amor por Virgílio; metida num casamento, não teria tempo para lembranças, pensou.
Ela e Octávio casaram-se, constituíram família e viviam seu mundo, com suas filhas, suas rotinas, com tudo acontecendo do mesmo jeito, da mesma maneira, mês após mês, ano após ano.
Pobre Nair...
Aos dezanove anos já era mãe.
Ela abandonou a ideia de continuar a estudar, embora tivesse completado o curso de modista.
Ela era muito boa de corte e costura.
Quando quis aperfeiçoar-se no estudo de costura e aviamentos a fim de colaborar no orçamento doméstico, nova gravidez.
No meio de tanta fralda para lavar e passar o casal não podia dar-se o luxo de comprar fraldas descartáveis, Nair foi levando sua vidinha de dona de casa, cozinhando, lavando e passando, fazendo feira e mercado, cuidando do marido e das filhas.
E agora Octávio morria, sem mais nem menos.
De que teria adiantado casar-se sem amor?
Teria valido a pena?
A vida fora generosa, dera-lhe duas filhas lindas, saudáveis e amorosas.
Entretanto, ela, sem mesmo chegar aos quarenta anos de idade, sentia-se acabada, a pele sem viço, os primeiros fios de cabelo branco despontando na fronte.
Ganhara bastante peso nos últimos anos, perdera a vontade de se cuidar.
Tratava-se de uma mulher viúva, sem profissão definida, sem pensão, sem economias guardadas no banco, sem amor, sem nada.
O medo do futuro tinha razão de existir.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 07, 2015 9:26 pm

A morte súbita de Octávio era castigo, e dos grandes.
Agora Nair tinha certeza de que estava pagando, e muito caro, por ter trocado o amor de sua vida por um punhado de dinheiro.
- A justiça divina tarda, mas não falha - disse para si, aflita, mordendo os lábios, impregnada de culpa.
Inácio andava logo atrás delas.
Estava acompanhado de sua mãe, Íngrid.
Ela era mulher distinta, muito bonita, alta, loura e de andar muito elegante.
Andava de salto alto com a maior desenvoltura do mundo, causando inveja em muitas amigas.
Íngrid sabia do sentimento do filho por Mariana e apoiava-o na decisão de namorá-la.
Sentia carinho pela garota e acreditava que o filho seria muito feliz ao lado da jovem.
Por isso fez questão de acompanhar o cortejo, dar os pêsames à família e oferecer todo e qualquer tipo de ajuda a Nair e suas filhas.
Depois de quase uma hora, muito sol e muito suor, o caixão de Octávio foi depositado no jazigo da família, num cemitério popular, localizado na periferia da cidade.
Os presentes, na maioria amigos do trabalho e poucos vizinhos, vagarosamente começaram a se retirar.
Despediam-se da família do morto e retiravam-se do local, tristes, acreditando que a vida havia sido muito injusta com aquelas pobres mulheres e que dali para frente as três teriam de ralar muito para manter a vida que Octávio lhes proporcionara.
Inácio e Íngrid, após cumprimentarem rapidamente Nair e Letícia, aproximaram-se de Mariana.
- Sinto muito, minha filha - declarou Íngrid.
- Estou muito triste. Mas o que fazer?
Temos de tocar a vida.
De nada vai adiantar reclamar, brigar com Deus.
- Isso é verdade: brigar com Deus não vai trazer seu pai de volta.
- Concordo com a senhora.
- Torço sinceramente para que a vida de vocês volte ao normal o mais rápido possível.
- Por mim, tudo bem.
Estou na faculdade, iniciei meu estágio.
Letícia também é jovem e pode lidar melhor com a perda.
Contudo, mamãe não merecia ficar assim.
Ela perdeu o marido, o companheiro e, o pior de tudo, perdeu o sustento.
O pouco que tínhamos ficou retido no banco, por conta desse plano económico.
Eu e Letícia podemos nos virar, mas o que será de minha mãe?
- Ora, minha filha, sua mãe é jovem, está vendendo saúde.
Sinto que ela é forte o suficiente para driblar as adversidades e crescer por si.
Nair me inspira força.
Talvez se sinta melancólica no início.
Vocês deverão ter paciência com ela.
Depois, com o tempo, tudo volta ao normal e, quando menos se esperar, sua mãe estará envolvida em outras actividades. Acredite.
Mariana concordou com a cabeça, mas nada disse.
O calor era demasiado, e ela não via à hora de sair do cemitério, chegar a casa, tomar um bom banho e descansar.
Seus pés inchados doíam vertiginosamente. Inácio aproximou-se e abraçou-a.
Mariana sentiu-se confortável.
Desde o almoço naquele distante domingo, sentira estar gostando de Inácio.
Esperava uma oportunidade para que pudessem trocar confidências, mas agora o momento era inoportuno para uma declaração de amor.
- Você pode contar comigo para o que der e vier - disse ele, sinceramente emocionado.
Fui amigo de seu pai e gosto de sua família.
E gosto muito de você - falou, sem tirar seus olhos dos de Mariana.
Ela sentiu um brando calor invadir-lhe o peito.
Suspirou e abraçou-o novamente.
E ficaram assim por alguns instantes. Íngrid interveio:
- Nosso motorista nos espera.
Vamos levá-las até sua casa.
- Não precisa se incomodar.
Dona Íngrid - tornou Mariana.
Pegamos o ónibus.
Tem um ponto próximo ao portão de entrada do cemitério.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 07, 2015 9:26 pm

- Não - protestou Íngrid.
- Mas...
- Levaremos as três para casa.
É o mínimo que posso fazer.
Não arredarei o pé daqui sem que venham comigo.
Mariana não teve alternativa.
Aceitou de pronto.
Não estava para ataques de orgulho, nem tinha mais forças para discutir, ou mesmo pensar.
O pai havia morrido na tarde anterior, ela estava acordada desde então.
Ela, a mãe e a irmã estavam visivelmente cansadas.
Letícia foi se despedir de algumas colegas do colégio.
Nair ficou parada, sozinha, próxima ao jazigo.
Olhava para a mistura de cal e cimento que encobria o humilde túmulo e, em sua mente, desfilavam cenas da vida em comum com Octávio.
Tanto sacrifício, tanto esforço...
E agora? Teria valido a pena?
Essa pergunta martelava sua mente.
Uma lágrima escorreu pelo canto do olho.
Nair passou delicadamente a mão sobre o olho e, num movimento natural, ergueu o rosto.
Foi tudo muito rápido.
Petrificada, seus olhos voltaram-se para o lado e ela o viu.
- Não pode ser... - murmurou.
Será que era? Estaria alucinando?
O calor a estaria fazendo ver coisas?
Mas era ele. Um pouco mais velho, mas era ele.
Nair beliscou-se e ele continuava em pé, olhar sério, atrás daquela lápide, encarando-a com pesar.
Quis chamá-lo, mas não teve forças, a voz sumira.
Suas pernas falsearam e ela caiu sobre si ali mesmo.
Inácio e Ismael, o motorista, correram e a acudiram.
Pegaram Nair delicadamente pelos braços e a conduziram até o carro.
As meninas correram atrás preocupadas.
Ingrid considerou:
- Está muito quente.
Vamos até o pronto-socorro.
Nair deve estar desidratada.
Ismael ajeitou o corpo fatigado de Nair no banco de trás.
Íngrid sentou-se no banco da frente.
Mariana e Letícia foram com Inácio no carro dele.
Nenhum deles viu o causador do desmaio.
Não se tratava de espírito ou alma penada, embora o cemitério estivesse repleto dessas entidades que podiam ser sentidas ou vistas por quem tivesse sensibilidade suficiente para percebê-las.
Mas não era o caso.
Tratava-se de um legítimo ser encarnado.
Num canto do cemitério, atrás de uma lápide, estava Virgílio.
Depois que Nair fora acudida, escondido atrás de uma árvore, ele levou as mãos ao rosto e não conteve o pranto.
Virgílio estava muito triste.
Os anos passaram Nair não era mais a menina linda e magrinha com quem ele se entusiasmara e se apaixonara um dia.
Entretanto, ele continuava amando-a como se nunca tivessem se separado, como se o tempo jamais tivesse passado.
Nair, dentro do veículo, acordou e, retomada do susto, sentenciou:
- Leve-me para casa, por favor.
- Você não tem condições, Nair.
Deve estar desidratada.
Não custa nada passarmos no pronto-socorro.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 07, 2015 9:26 pm

- Não quero.
- Tem certeza?
- Sim. Sinto-me melhor.
Preciso ir para casa, tomar um banho e descansar.
- Posso lhe fazer uma proposta?
- Qual?
Íngrid voltou-lhe o rosto e, entre sorrisos, indagou:
- Vamos até minha casa.
- Não.
- Por quê?
- Por favor, não queremos incomodar, de maneira alguma.
- Não será incómodo.
Vocês estão cansadas.
Se forem para sua casa, não terão disposição para cozinhar.
Íngrid ergueu os olhos na direcção do vidro retrovisor, encarando o motorista.
- Ismael?
- Sim, senhora?
- Encoste o carro e faça sinal para Inácio emparelhar.
Mudança de planos. Vamos para casa.
- Sim, senhora.
Ismael diminuiu a marcha, baixou o vidro e, com o braço para fora, fez sinal para que Inácio se aproximasse com seu carro.
Alguns minutos depois, estavam todos na casa de Íngrid.
Ela conduziu Nair e as meninas até uma saleta bem aconchegante.
Cerrou as persianas, tornando o ambiente acolhedor e sem o incómodo do sol.
As três sentaram-se e imediatamente tiraram os sapatos.
- Isso mesmo - disse Íngrid, sorridente.
Fiquem à vontade.
Vou até a cozinha pedir para que nos prepare uma refeição leve.
- Não tomaremos seu tempo, Dona Íngrid - tornou Mariana.
- Hoje estou ao dispor de vocês. Fiquem à vontade.
Mais tarde, quando desejarem, Ismael as levará para casa.
- Muito obrigada - respondeu Letícia.
- Não estou fazendo nada por obrigação.
Estou adorando ser-lhes útil de alguma maneira.
Agora tratem de descansar, fiquem à vontade.
Volto num instante.
Inácio aproximou-se e sentou-se ao lado de Mariana.
- Sente-se melhor?
- Hum, hum. Sua mãe é muito legal.
É simpática, e seu sorriso expressa sua bondade.
- Mamãe é espontânea, verdadeira.
Jamais faria jogo de cenas com vocês.
Sinto que ela está solidária, triste e de alguma maneira quer lhes ajudar neste momento tão difícil.
- Assim que as coisas melhorarem, vamos lhes preparar um almoço - sugeriu Letícia.
- Isso, sim, era só o que me faltava - objectou Nair.
- O que é isso, mamãe?
- Mal sabemos o que será de nossas vidas daqui para frente e vocês me vêm com essa de almoço? Francamente!
- Mamãe, estamos tristes e perdidas.
Também não sabemos o que será de nossas vidas daqui por diante.
Mas francamente digo eu!
De que adianta essa amargura?
Precisamos nos manter unidas.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 07, 2015 9:26 pm

- E ser fortes - acrescentou Letícia.
Nair nada disse.
Baixou a cabeça, esticou as pernas sobre uma banqueta e cerrou os olhos.
Estava se sentindo amarga, azeda, e não queria discussão.
Estavam todas exaustas, e o melhor era procurar não pensar em nada.
Mas ela não conseguia evitar o fluxo de seus pensamentos.
A imagem de Virgílio veio-lhe forte, e Nair não conseguia desenvencilhar-se da cena.
Seu corpo estremeceu levemente.
- Meu Deus, quantos anos! - suspirou.
Anos atrás ela participara de um joguete por conta de dinheiro, uma quantia suficiente para comprar bom sobrado em simpático bairro na zona leste da cidade.
No momento, de que adiantava lembrar-se desse período negro de sua vida?
O passado havia acabado e estava morto, enterrado para sempre.
Mesmo abatida, cansada e esgotada, algo dentro dela tinha forças para lembrar-se com ternura de seu grande, único e inesquecível amor: Virgílio Gama.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 07, 2015 9:27 pm

CAPÍTULO 2

Ivana andava de um lado para outro da sala, esbaforida, praguejando, rangendo os dentes de ódio, puro ódio.
Acabara de chegar de uma loja chique na Rua Óscar Freire e sentia-se indignada, a última das criaturas.
- Bloquearam meu cartão de crédito! - bramiu.
Isso é um absurdo, um acinte à minha pessoa.
Ivana só queria saber de gastar, e mais nada.
Para ela, Virgílio teria de tomar satisfações com a gerente, deveria até processar a loja por danos morais.
Entretanto, ela não conseguia falar com o marido.
Daí sua irritação descomunal. Ela ligara para o escritório, e Virgílio havia saído para uma reunião.
Reunião? Essa era boa!
Ela sabia que o marido não queria atendê-la.
Além de neurótica, Ivana era mulher extremamente desconfiada.
Desconfiava de Deus e do mundo, inclusive de sua melhor amiga, Otília Amorim.
Ivana só confiava em si mesma.
Dessa vez estava espumando de ódio, e por dois motivos.
Primeiro, pelo vexame na loja de roupas.
Na hora de pagar, o cartão fora recusado.
Um constrangimento sem tamanho.
E segundo porque Virgílio era quem resolvia esses problemas e, para variar, ele não estava, ou mandava a secretária dizer que não estava em sua sala.
Ivana odiava ser preterida pelas amigas de seu círculo social.
Soubera no dia anterior que conhecida socialite não a convidara para um almoço beneficente em prol de crianças carentes de renomada instituição.
Ivana pouco se importava com a finalidade dos eventos, desde que pudesse ser fotografada e aparecer em todas as colunas ou revistas da moda.
Mas justamente esta socialite podia ver o capeta na frente, menos Ivana.
Fuxicos de alta sociedade, digamos assim.
Nem mesmo sua poderosa amiga Otília pôde interceder a seu favor. Impedida de ir ao almoço resolveu fazer compras. Isso sempre aliviava sua tensão.
Assim que chegou da loja e não conseguiu falar com o marido, Ivana fora acometida de forte enxaqueca - o que ocorria sempre que era contrariada - e passou à tarde em casa, afundada na cama, numa mistura interessante de barbitúricos, bombons e vodca.
No finalzinho da tarde, irritada - como de costume -, ela ligou a televisão e ficou apertando o controle remoto do televisor à deriva.
Numa dessas trocas de canais, deixou-se entreter por aqueles programas vespertinos, estilo mundo-cão, sensacionalistas de cabo a rabo.
Ivana gostava de ver o sofrimento exacerbado das pessoas.
Isso a confortava.
Ela começou a rir com a história de uma mulher que havia perdido tudo numa enchente, quando outro repórter, num tom exageradamente dramático, começou a relatar a morte do ex-funcionário de renomada empresa, fabricante de componentes electrónicos, que acabara de falir.
Enquanto ele entrevistava algumas pessoas, o programa mostrava uma foto da identidade de Octávio, amarelada, tirada há mais de vinte anos, e em seguida uma imagem rápida de Nair tentando ser entrevistada na porta de casa sobre a tragédia que se abatera sobre sua família.
A cena foi bem curtinha, rápida, mas o suficiente para que Ivana imediatamente se lembrasse de Nair.
- Não pode ser...
Seus olhos arregalaram-se e seu corpo estremeceu.
- Ela ainda mora neste planeta? - indagou para si, em tom de horror mesclado com ironia.
Ivana esboçou sorriso sinistro.
Lembrou-se de anos atrás, quando obrigou o pai de Virgílio a fazer proposta irrecusável a Nair, desde que ela se afastasse do namorado e deixasse o caminho livre para Ivana.
A tonta aceitou rapidinho e sumiu da vida de Virgílio, permitindo a união dele com Ivana.
Contudo, ela tinha certeza de que Nair pegara o dinheiro e sumira, fora para outra cidade, talvez até outro Estado.
E agora a televisão diante de seus olhos mostrava-lhe que Nair nunca saíra da capital.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 07, 2015 9:27 pm

No entanto, ela deu de ombros:
- Se Virgílio quiser, pode ficar com ela, mas só depois que nosso trato terminar.
Ivana desligou o aparelho e correu ao telefone.
O desbloqueio do cartão de crédito era algo de suma importância para sua existência.
Sem o cartão de crédito, Ivana não era nada, sentia-se impotente, órfã.
Assim que a secretária lhe disse que Virgílio estava em reunião, Ivana sentiu o sangue ferver.
Despejou toda a sua ira sobre a garota, bateu o telefone com força e ruminou:
- Ele adora me tirar do sério!
Ficou aguardando o marido chegar do trabalho, mas nada.
Eram quase oito da noite quando a secretária ligou:
- Seu Virgílio precisa tratar de assunto urgente e pegou um voo para o Rio de Janeiro e...
Ivana nem terminou de ouvir.
Desligou e em seguida atirou o aparelho contra a parede, espatifando-o sem dó.
- Meu Deus! Vou ficar sem cartão e sem dinheiro - exagerou.
Ela tinha o dom de dramatizar as situações.
Era só pedir para a secretária de Virgílio ou mesmo pedir dinheiro ao filho.
Mas Ivana era turrona e, quando ficava irritada, perdia o controle de si mesma.
Virgílio tivera mesmo de resolver assunto urgente no Rio de Janeiro e mandara avisar a esposa por mera questão de formalidade.
Estava acostumado a fazer isso, via secretária, pois ele e Ivana mal se falavam.
Entretanto, ela não conseguira pregar o olho, e já passava das seis da tarde do outro dia e nada de Virgílio dar o ar da graça.
Nem ao escritório ele tinha ido.
Bruno adentrou a sala e aproximou-se dela.
- Oi, mãe, tudo bem?
- Tudo bem uma ova!
- O que foi?
- Seu pai, para variar.
- Papai viajou de novo?
- Sim.
- Já sei... - Bruno coçou o queixo e finalizou:
O seu cartão foi bloqueado de novo, certo?
- Não brinque comigo quando estou nervosa, Bruno.
Meu humor hoje não está para isso.
- E quando seu humor está bom?
Ela não respondeu.
Quis revidar, mas estava sem vontade.
Embora não fosse dada a demonstrações de afecto, como abraçar ou beijar, gostava do filho, mas não discutia com ele ou mesmo com Nicole, a caçula.
Jamais discutira com os filhos.
E jamais participara de suas vidas.
Ivana sempre tivera horror a crianças, e não foi diferente quando teve as suas.
Criara Bruno e Nicole por intermédio de babás, empregadas e educadoras.
Ivana nunca teve jeito para assumir o papel de mãe.
Achava que tinha feito sua parte carregando-os no ventre e colocando-os no mundo.
Cumprira seu papel e até pagara alto preço por ele, literalmente.
Sim, porque, depois da segunda e última gestação, ela gastou os tubos para deixar o corpo em ordem, sem um resquício dos tempos de gravidez.
Até o minúsculo corte da cesariana desaparecera sob os cuidados de renomados e experientes cirurgiões plásticos.
- Ele sempre vai e volta mãe.
Tem sempre assuntos urgentes a tratar.
- Ele poderia me ligar, dizer que estava de viagem, deixar-me algum dinheiro.
- Se quiser, eu lhe dou algum.
Ou mesmo ligo para a administradora do cartão e tento desbloqueá-lo.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 07, 2015 9:27 pm

- Isso é dever de seu pai.
Ele tem de me dar satisfações.
Afinal, não gasto tanto assim.
Bruno não conseguiu evitar o riso.
Ivana não tinha noção do que estava dizendo.
Ele procurou mudar o assunto.
- Por que não pediu para ele ligar?
Não disse à secretária que era urgente?
- Disse, mas seu pai não gosta de falar comigo quando está no trabalho.
Não sei por quê.
- Eu sei.
- O que é?
- Você sempre o trata aos berros.
- Eu, aos berros? - indagou surpresa.
- Você poderia tratá-lo com um pouco mais de respeito.
- Não aguento mais este casamento.
- E por que ainda permanecem juntos?
- O que disse? - a indagou, na tentativa de ganhar tempo e arrumar uma desculpa bem esfarrapada.
- Peça o divórcio.
- Não diga uma coisa dessas - esbracejou Ivana.
- É loucura a maneira como ambos vivem.
Isso não pode fazer bem.
Eu e Nicole somos adultos, vocês podem se separar.
- Tenho medo de ser achincalhada pela sociedade.
- Nos dias de hoje?
Todo mundo casa e separa.
Esse preconceito faz parte do passado.
- Isso é problema meu.
- Sim, mas...
Ivana atalhou o filho:
- Trate de sua vida.
- Só estou tentando compreender.
- Disso trato eu - finalizou ela, ao mesmo tempo em que consultava o relógio.
O que está fazendo em casa tão cedo?
Não tem aula de esgrima? - indagou, contrariada.
- Parei com a esgrima há seis meses.
- Nem tinha percebido.
- Creio que fosse demais para você perceber alguma coisa.
- Por quê?
- Você mal nos dá atenção.
Ivana fez muxoxo.
- Não me venha com choramingas.
Você é adulto e sabe cuidar de sua vida.
Não tem mais idade para ficar preso à barra da saia da mãe.
- Não é isso.
É que você podia pelo menos ser um pouco mais amorosa só isso.
Bruno abaixou-se e pegou nas mãos dela.
Ivana sorriu para o filho.
Entretanto, não podia contrariar sua natureza.
Ela tinha dificuldade de lidar com demonstrações de carinho e afecto, não só com os filhos, mas com todos ao seu redor.
Fazia parte de seu temperamento.
Ela alisou a mão do filho de maneira pouco carinhosa.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 07, 2015 9:27 pm

- Não tenho culpa de ser o que sou.
- Poderia tentar mudar.
O que acha?
Ivana se desenvencilhou das mãos do filho e levantou-se.
- Não me amole.
Ela não gostava desse tipo de assunto.
Mudou a postura de voz e retrucou:
- E a ajuda aos necessitados?
Não tem com quem brincar? - perguntou, em tom de desdém.
- Está com dor de cabeça de novo?
- Sim.
Ivana vinha tendo fortes dores de cabeça nos últimos tempos, enxaquecas que a deixavam mais irritada que de costume.
Virgílio pedira-lhe para consultar um especialista, visto que aquilo não era normal.
Ivana retrucava e dizia que não era velha, tampouco doente, para ir atrás de um médico.
Afirmava que as dores de cabeça persistiam porque ela era naturalmente nervosa.
Para que a dor de cabeça não a incomodasse tanto, Ivana adorava ficar em casa sozinha, sem ninguém por perto, sem um pio.
Os empregados estavam acostumados e procuravam fazer o mínimo barulho possível.
Em casa, a presença dos filhos, principalmente Nicole, irritava-a sobremaneira.
Sua filha, nos últimos tempos, vivia trancada no quarto, ouvindo música pesada - rock, estilo heavy metal -, e isso atrapalhava seu descanso.
Bruno aproximou-se por trás e delicadamente massajou suas têmporas.
Ivana fechou os olhos e sentiu alívio imediato.
Enquanto massajava a mãe, ele comentou:
- Estou preocupado com Nicole.
- Por quê?
- Ela não dormiu em casa esta noite.
Ivana deu de ombros:
- Nicole é adulta, dona de seu nariz.
- Mãe, sabe que sempre me preocupei com ela.
E se lhe aconteceu alguma coisa?
- Notícia ruim chega rápido.
Tenho certeza de que Nicole está bem.
Provavelmente foi assistir a algum show de rock pauleira e dormiu na casa de alguma amiga.
- Acha isso normal?
- Sua irmã não dorme em casa desde os quinze anos de idade.
Ela é crescidinha, adulta, tem vinte e um anos.
Nessa altura de minha vida não vou preocupar-me com filho.
- Estou cismado.
Nicole tem andado com pessoas que não me agradam.
- Se está incomodado, que tome as providências.
- Ela não me escuta.
- Nicole não escuta ninguém.
Só dá ouvidos àquele namoradinho dela, o Artur.
- Sabe, mãe, eu não gosto desse tal de Artur.
- Por quê?
- Ele tem uma turma barra-pesada.
Ivana abriu os olhos e afastou-se. Acendeu um cigarro.
Tragou e deu uma baforada.
- Até que enfim sua irmã arrumou alguém que goste dela.
Ela tem de levantar as mãos para o céu.
O tom de Bruno era de pura preocupação:
- Artur é mau carácter, rapaz sem moral.
Ele está com Nicole porque ela paga as noitadas, as bebidas.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 07, 2015 9:28 pm

Por favor, mãe, garanto que, se você conversar com ela...
Ivana cortou o filho:
- Nem por decreto! Não tenho essa...
Essa... Habilidade é essa a palavra.
Não sei lidar com educação de filho.
Nicole que não venha reclamar que não tem com quem desabafar.
Pago muito bem pelo seu desabafo, três vezes por semana.
- Sim, mas...
- Mas nada.
Eu pago preço salgado para sua irmã fazer terapia, e você vem-me dizer que está preocupado com ela?
- Receio que ela esteja metida com droga pesada.
- Só porque aquele motorista desconfiou que aquele pacotinho de maconha fosse dela?
Faz tanto tempo...
- Mãe, é sério.
- A maconha é inofensiva.
Era vendida em farmácias sob o nome de cigarros índios.
Seu avô a vendia para curar sintomas da asma e para insónia.
- Disse bem: era.
Sua venda é proibida no País desde fins da década de 30.
Ela não respondeu.
- Mãe, não acho que a maconha seja inofensiva.
Os olhos de Nicole estão sempre avermelhados, sua boca sempre seca.
Outro dia eu a peguei com taquicardia.
Ivana preferia não encarar a realidade.
Era melhor fazer de conta que nada estava acontecendo.
Desconversou:
- Ora, Bruno, por que você também não vai fazer análise?
O rapaz baixou os olhos, pensativo.
A mãe não dava a mínima para ele ou para a irmã.
A bem da verdade, Ivana não dava a mínima para ninguém.
Tudo girava em torno dela, de seu mundo, de seus desejos e caprichos.
Ela não enxergava um palmo diante de si.
Era ela, depois ela e, mais adiante, ela.
- Seu pai já devia estar em casa - desconversou Ivana.
- Você nunca controlou os horários dele.
O que a aflige?
- Nada, absolutamente nada.
Por coincidência, naquele exacto instante Virgílio adentrou a sala.
Estava cabisbaixo.
Murmurou um boa-noite, subiu rapidamente as escadas e dobrou o corredor, indo directo para o quarto.
Bruno foi até o bar e serviu-se de refresco, enquanto Ivana, bufando, pulava os degraus numa rapidez incrível.
Alcançou Virgílio entrando no banheiro.
Acendeu novo cigarro.
Tragou nervosa e, ao expelir a fumaça, perguntou:
- Onde esteve?
- Trabalhando, como sempre.
- Onde esteve? - Ivana parecia não escutar e insistia na pergunta.
- Já disse...
- Não faça com que eu me sinta estúpida.
Virgílio baixou os olhos e lentamente foi tirando a roupa.
- Preciso de um banho. Dê-me licença.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 07, 2015 9:28 pm

- Por quê?
- Oras, estou cansado, Ivana.
Tive de resolver assunto sério no Rio, viajei ontem à noite e trabalhei o dia inteiro hoje e... - Ele engoliu as palavras.
- E?
- Nada.
Ivana cerrou os punhos e rangeu os dentes.
Apagou o cigarro na pia do banheiro, irritada.
Precisava atirar alguma coisa contra a parede para aliviar sua tensão.
Ela sempre atirava alguma coisa contra a parede quando sentia raiva.
Chilique total e absoluto.
Era a maneira de aplacar sua ira.
Ela olhou ao redor e encontrou sua vítima: o secador de cabelos.
Avançou sobre o objecto, pegou-o sobre a pia e atirou-o com força contra o espelho.
Um estrago só.
- Está muito nervosa - rebateu Virgílio, acostumado àqueles ataques da mulher.
Já disse que precisa consultar um especialista, talvez um neurologista.
- Não mude de assunto.
- Amanhã mando consertar o espelho.
Depois você compra outro secador.
Ainda tem limite no cartão de crédito, não tem?
Ivana uivou:
- Argh! Fico maluca quando você desconversa.
Virgílio nada respondeu.
Ela continuou:
- Fiquei aqui sozinha, sem marido e sem cartão de crédito.
- Bloquearam seu cartão de novo?
- Sim. Imagine a saia justa que passei na loja.
- Você precisa medir mais os seus gastos.
Ivana estava cansada e farta de tudo e de todos.
- Não aguento mais esta vida.
- É mesmo? - perguntou Virgílio, tom jocoso.
- Não vejo a hora de ficar livre de você.
- Sinceramente, minha cara, eu penso o mesmo em relação a você.
Em todo caso, amanhã cedo pedirei o desbloqueio de seu cartão.
- Você controla tudo, eu não posso mexer no nosso dinheiro.
- Faz parte do acordo.
Ela o encarou com olhos injectados de rancor.
- Tem certeza de que não tem mais nada a me dizer?
- Não, não tenho. Por quê?
Ivana deu uma gargalhada.
- A sua namoradinha pré-histórica apareceu na televisão.
Está morando aqui na cidade e ficou viúva. O que acha?
Virgílio engoliu seco.
Meteu a cabeça sob o duche morno para disfarçar.
- Não lhe devo satisfações.
- Ah, não?
Você sabe muito bem que não podemos pular a cerca.
Isso arruinaria nosso contrato.
Só estou lhe avisando, Virgílio: cuidado com quem você anda.
Não deixarei que nada nem ninguém atrapalhe nossa vida.
E, depois de tanto sacrifício, não acho justo entregar todo o nosso dinheiro de mão beijada aos nossos filhos.
Quero minha independência.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 08, 2015 9:31 pm

Virgílio pendeu a cabeça para os lados, enquanto a água escorria por seu corpo.
- Não entendi o que meu pai nos fez.
- Como, não entendeu?
Ficamos ricos.
- Ricos e infelizes.
Perdemos a chance de sermos felizes.
Mas agora isso não tem mais importância.
Aguentei você por quase vinte e quatro anos.
- Você é bom de cálculo.
- Falta pouco mais de um ano para eu me livrar de você.
Ambos fomos idiotas e irresponsáveis.
Sacrifiquei meu amor e casamo-nos, expandi os negócios da família.
Tudo por dinheiro.
- E não foi bom?
- Veja como estamos infelizes.
Virgílio falou e terminou de lavar-se.
Fechou o chuveiro e pegou a toalha.
Vagarosamente foi enxugando o corpo, o pensamento alheio, distante.
Ivana voltou para o quarto, pensativa:
"Tantos anos de sacrifício!", pensou ela.
"Espero que ele não vá atrás daquela mulher.
Não, por enquanto.
Precisamos cumprir nosso trato.
Depois ele pode fazer com ela o que bem entender.
Mas Virgílio que não queira me enganar.
Se eu descobrir que ele a procurou de novo, não respondo por mim?
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 08, 2015 9:31 pm

CAPÍTULO 3

Nair terminou de tomar sua sopa, descansou a tigela sobre a mesinha e recostou-se na poltrona.
O caldo quente lhe caíra bem, e agora seu corpo reclamava-lhe do cansaço.
- Sinto que está na hora de partirmos - disse, enquanto bocejava.
- Também creio estar na hora, mamãe - tornou Letícia, corpo alquebrado.
- Ismael vai levá-las - sentenciou Íngrid.
- Não será necessário.
Vocês nos acolheram, e não queremos mais dar trabalho.
Íngrid ignorou-a:
- Vou chamá-lo.
Ela saiu à procura do motorista, enquanto Letícia e sua mãe colocavam os sapatos.
Mariana e Inácio estavam no jardim de inverno.
Passaram boa parte da tarde em agradável conversação.
- Sabe que gosto muito de você, não?
- Sei. Não paro de escutar nossa música.
- Eu também - sorriu ele, emocionado.
- Mas sinto-me insegura.
- Insegura? Como assim?
Mariana hesitou.
Baixou a cabeça envergonhada.
- Eu moro na periferia, minha família é humilde.
E, agora que perdemos papai, não sei ao certo qual será o rumo de nossas vidas.
- E daí?
- Faço parte de um mundo bem diferente do seu.
Você é rico, mora na área nobre da cidade, frequenta ambientes sofisticados, bem diferentes daqueles por onde transito.
- Não sou bairrista e preconceituoso.
Às vezes encontro alguns amigos na Toco, e, pelo que notei, fica perto de sua casa.
- É uma onda, uma moda.
Montaram essa danceteria na Vila Matilde, mas isso logo passa.
- Não. As pessoas estão cansadas de frequentar os mesmos lugares.
O lazer não se concentra mais somente nos Jardins e no centro da cidade.
Eu vou com frequência à zona leste.
Ele riu. - Talvez porque meu coração já soubesse que você estava por perto.
- Eu tenho medo.
Inácio balançou a cabeça para os lados.
- Quando duas pessoas estão apaixonadas e percebem que esse sentimento é verdadeiro, nada mais lhes importa.
- Como não?
- Juntos poderemos passar por cima das diferenças sociais.
- Acredita mesmo nisso?
- Eu não me importo com essas coisas; minha mãe, também não.
E tenho certeza de que meu pai e minha irmã, lá no Rio de Janeiro, também não se importam.
- Não? - indagou Mariana, surpresa.
- De maneira alguma.
Papai não dá a mínima para os valores cultivados pela sociedade.
Tem maneira própria de encarar as coisas, e jamais se envolveu em minha vida, porquanto está sempre viajando e cuidando de nosso património.
Mamãe gosta muito de você e já me confessou que ficaria muito feliz se namorássemos.
- Não sei...
- Eu a entendo.
Quando meus pais se separaram, fiquei muito triste.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 08, 2015 9:31 pm

Sempre acreditei que um dia viveria uma linda história de amor, igual à deles.
Quando recebi a notícia do divórcio, fiquei chocado.
Era como se o meu sonho de amor tivesse ido por água abaixo.
Jurei não mais me apaixonar ou me envolver afectivamente com uma garota.
Embora ainda esteja emocionalmente fragilizado, um pouco confuso, sinto que vale a pena namorar você. Acredite.
- Aprecio sua sinceridade.
No entanto, somos muito diferentes, pertencemos a mundos distintos. Isso pode atrapalhar.
- Olhe Mariana, temos apoio da família e nos gostamos.
Qual o problema?
Acredita que sua mãe possa interferir?
- De maneira alguma. Isso, não.
Mamãe jamais interferiria em minhas decisões.
Ela também simpatiza muito com você.
- Então façamos um trato.
- Qual? - perguntou ela, em tom surpreso.
- Deixemos as nossas inseguranças de lado.
- Posso pensar, mas...
- Mas?
Mariana pousou suas mãos nas de Inácio.
Mordeu levemente os lábios.
- Tem outro ponto - suspirou ela, por fim.
- O que a aflige?
Mariana sentiu-se embaraçada.
Inácio prosseguiu:
- Se nada pode impedir nosso namoro, o que a deixa tão insegura?
- Teresa...
- Que Teresa?
- Teresa Aguilar.
Está sempre grudada no seu pé.
Inácio deu uma gargalhada.
Mariana fez bico.
- Do que é que está rindo?
- Está com ciúmes?
- Não, bom... É que...
Inácio não a deixou terminar de falar e delicadamente beijou-lhe os lábios.
Mariana estremeceu de prazer.
- Sei que você gosta de mim, Inácio.
Mas sempre sinto aperto no peito quando o vejo ao lado dessa patricinha de araque.
- Teresa é só uma amiga do Rio.
Ela não é apaixonada por mim, nunca rolou nada entre nós.
- Às vezes sinto que ela tenta dar suas investidas.
- Problema dela, porque meu coração já tem dona.
Beijaram-se novamente.
Mariana estava apaixonada, queria muito namorar, sonhava até mesmo casar-se com Inácio.
Contudo, ao lembrar-se de Teresa, seu peito se fechava, ela sentia um aperto estranho, uma sensação muito desagradável.
Ismael dobrou a esquina e diminuiu a marcha no meio do quarteirão, defronte a um conjunto de sobradinhos geminados, com a mesma cor, e até mesmo com pessoas parecidas.
Algumas crianças brincavam na rua.
Algumas mães, encostadas em suas portas, ficavam de olho nos filhos.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 08, 2015 9:32 pm

Em toda vizinhança há aquela vizinha bisbilhoteira, do tipo que adora cuidar da vida alheia, conferir horários de chegada e saída das pessoas, observar atentamente quem bate à porta de quem.
No quarteirão onde Nair morava havia duas dessas vizinhas.
Salete e Creusa davam palpites na vida de tudo e de todos.
Quando interpeladas, juravam que queriam ajudar, forem amigas, solidárias.
Qual nada! Elas sentiam um prazer indescritível em vasculhar a vida íntima dos vizinhos.
Elas pareceram adivinhar que Nair chegaria naquele momento.
Salete e Creusa estavam debruçadas sobre o portãozinho de ferro da casa desta última, impacientes.
Assim que avistaram Ismael estacionar no meio-fio da calçada e Nair saltar do carro, correram em sua direcção.
- Querida, sentimos muito - declarou Salete, tentando imprimir pesar na voz.
- Não pudemos ir ao enterro porque o cemitério é muito longe, não tínhamos como pegar condução e - a voz de Creusa soava fria e esganiçada - eu sou sozinha e solteira, não tenho ninguém para me acompanhar.
Pensamos que talvez, se ficássemos aqui à sua espera, bem, sabe...
Nair as interrompeu com gentileza:
- Sei, sei obrigada por tudo.
No entanto sinto-me exausta e preciso descansar.
Poderíamos nos falar outra hora?
- Claro - tornou Salete, tentando esconder a contrariedade.
- Precisa mesmo descansar.
Depois de tudo que passou...
Pobrezinha! - emendou Creusa, abraçando Nair de maneira ostensiva e chorando em seu ombro.
- Preparamos um jantar para vocês.
Afinal de contas, sabíamos que chegariam arrasadas e, bom, tenho certeza de que você vai ter um ataque daqueles quando entrar em casa.
Quando fiquei viúva, custei a adentrar minha casa, sabe...
Nair suspirou e fechou os olhos.
Estava tão cansada que parecia não ter mais lágrimas, por ora.
Letícia e Mariana desceram do carro e juntaram-se à mãe.
Letícia, sempre a mais ousada, tomou a dianteira.
Falou, decidida:
- Por favor, senhoras.
Estamos muito cansadas e queremos ir para casa.
Daqui a uns dois ou três dias passem por aqui, visitem-nos, e serão bem recebidas.
No entanto, agora queremos ficar sós.
- Eu fiz janta, oras...
- Dona Salete - Letícia estava séria e sua voz era firme -, por favor, deixe-nos sozinhas, sim?
Agradeço sua preocupação, mas já nos alimentamos e queremos descansar, ficar sós.
Respeite nossa dor.
Letícia falou enquanto puxava o braço de Nair.
Mariana despediu-se de Ismael e, sem graça, despediu-se das vizinhas.
- Até mais.
As duas fizeram bico e balançaram a cabeça para o lado.
Salete estava indignada.
- Veja só quanta ingratidão!
- Pois é, Salete.
Você passou a tarde toda no fogão cozinhando para elas, e veja como foi tratada.
Não acho isso justo.
- Eu também não acho justo.
Somos vizinhas há tantos anos, e essa fedelha da Letícia me snoba desse jeito.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 08, 2015 9:32 pm

- Essa menina é jovem, inconsequente.
Fiquei sabendo - Creusa baixou a voz - que tem gente drogada morando aqui no quarteirão.
Salete levantou as mãos para o alto, em tom desesperador.
- Era só o que me faltava.
Quem lhe contou isso?
- O pessoal da delegacia.
Disseram que estão de olho, fazendo ronda aqui na nossa rua.
- Que horror! Você sabe quem é?
- Ainda não descobri.
O pessoal não me contou.
Eles têm medo de que eu fique preocupada.
Salete anuiu:
- Eles têm razão.
Você mora sozinha, é solteira, não tem parentes, não tem ninguém.
A equipe do delegado quer que se sinta segura.
- Aonde foi que chegamos, hein?
Estou indignada.
- E por acaso você acha...
- Acho, não! Eu tenho certeza.
A Letícia sempre teve uns amigos esquisitos.
Vai ver, até o pai sabia de alguma coisa e morreu por conta de desgosto - dramatizou.
Salete estava boquiaberta.
- Pode ser verdade.
Deus me livre e guarde.
Ainda bem que meu filho nunca se meteu com elas.
Creusa continuou a falar, e sua voz safa cada vez mais esganiçada, tamanha euforia em falar mal da vida alheia.
- Seu filho é um tesouro, Salete.
Nunca queira compará-lo a essas duas aí.
A Nair sempre teve a mão solta na educação das meninas.
Octávio bem que sabia botar ordem na casa.
Agora quero ver com vai ser.
Talvez se tornem duas perdidas, pobrezinhas.
- Confesso estar ainda chocada.
Precisamos conversar com o delegado, obter mais informações, manter a vizinhança em estado de alerta.
Vamos embora.
- Vamos, sim - anuiu Creusa, acrescentando:
- Não ligue, não, Salete.
A Letícia sempre foi metida, snobe mesmo.
Quero ver agora, que o pai morreu como elas vão se virar!
Pago para ver toda essa banca delas ir ao chão, num estalar de dedos.
- Bem feito para todas elas.
Nair nunca foi de muita conversa sempre bastante reservada, e agora está sozinha.
Vai correr e pedir ajuda para nós, mas também não facilitaremos.
- É isso mesmo.
Que elas paguem o preço por serem tão metidas.
As duas foram se afastando, gesticulando, ruminando algumas palavras, e logo a atenção de Salete foi desviada para outro vizinho que elas juravam estar traindo a esposa.
Elas cochicharam, desceram a má-língua sobre a vida do pobre rapaz e esqueceram Nair e suas filhas, por ora.
Nenhuma delas percebeu uma massa cinzenta que pairava sobre suas cabeças, tamanha a quantidade de pensamentos negativos que emanavam acerca dos outros.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 08, 2015 9:32 pm

Tanto Salete quanto Creusa possuíam comportamento típico de gente que não tem o que fazer e cuja tentativa de olhar para dentro de si é coberta pelo mais absoluto pavor.
Esse era o caso delas e muitas outras vizinhas espalhadas pelo mundo afora:
preocupar-se com a vida alheia a fim de não ter de encarar a sua própria vida e tomar as atitudes necessárias para mudar, amadurecer e crescer.
Dentro de casa, Nair teve um choque.
O ambiente parecia triste, sem vida, um silêncio aterrador.
Enquanto Mariana e a mãe se puseram a chorar, Letícia foi abrindo as cortinas, permitindo que um restinho de sol atravessasse a fresta da janela e iluminasse a sala, tornando a casa mais acolhedora.
- Ficamos sozinhas, mas temos de continuar a viver.
Uma tragédia dessas pode acontecer com qualquer família.
Uns perdem o pai, outros a mãe, outros ainda perdem seus filhos.
Faz parte da vida, é algo natural.
- Você vê tudo com muita naturalidade - esbracejou Nair.
Não sente dor? Não está triste?
Letícia aproximou-se da mãe e pegou em sua mão.
Enquanto falava, uma lágrima escorreu-lhe pelo canto do olho.
- Claro que sinto dor, é óbvio que estou muito triste.
Perdi meu pai, ele morreu.
É difícil continuar vivendo e saber que aqueles que amamos não estão mais aqui.
Mas, com o tempo, a dor diminui, a saudade aumenta e a gente se acostuma.
- Para você é tudo muito fácil.
Acredita em vida depois da morte, em reencarnação.
- Isso me conforta.
- A morte para você tem outro significado - comentou Mariana.
Parece ser menos trágica.
- Você também tem o direito de pensar assim.
- Pois eu - declarou Nair, em tom decidido - digo a você que acho isso tudo fantasioso demais.
- Ora, mãe, por que pensa assim?
Nair deu de ombros. Sentenciou:
- Porque, para mim, depois da morte não existe mais nada.
Morremos e pronto: está tudo acabado.
- Você pensa e acredita que a vida seja assim?
Para você, a gente nasce, vive e morre?
- Sim. O resto é fantasia.
Letícia meneou a cabeça negativamente para os lados.
Levantou-se e, encarando tanto a mãe quanto a irmã, perguntou:
- E o caso de crianças que morrem cedo demais?
As duas deram de ombros.
Não sabiam o que responder.
- Se Deus é tão justo e bom quanto se diz, por que Ele permitiria que uma criança vivesse meses ou poucos anos de vida e lhe tirasse a oportunidade de crescer, de estudar, de namorar, de constituir família, de progredir pelos seus próprios esforços...
- Não sei. Nunca parei para pensar nisso - disse Nair.
- Cada um de nós abriga um espírito dentro do corpo físico.
Um bebé recém-nascido, por exemplo, abriga um espírito.
- Será? - indagou Nair, pensativa.
- Até mesmo um feto.
A partir do momento em que você está gerando um ser, ele já possui alma.
- Isso, não. Um feto é um feto, oras!
- Não, mãe. Um feto é vida.
E vida abriga espírito, não importa a forma.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 08, 2015 9:32 pm

- E um feto pode sentir dor?
- Claro!
Nair levou a mão à boca.
De repente, lembrou-se do passado, do acidente.
Nunca pensara que um feto pudesse sentir dor.
Aquilo a desestabilizou profundamente.
Sentiu uma culpa muito grande, lembrou-se do passado, e não conseguiu evitar o choro.
Mariana abraçou a mãe e lançou olhar raivoso à irmã.
- Veja só o que você fez.
- Eu?!
- Sim. Vem com essas bobagens de espíritos, morte, dor, numa hora destas?
- Eu só estava...
Mariana cortou-a:
- Letícia, pare com esse papo.
Não toque mais nesse assunto aqui dentro de casa.
Eu e mamãe não gostamos de falar sobre espíritos.
Mariana ajudou Nair a levantar-se e subiram os degraus vagarosamente em direcção aos quartos.
- Vamos, mãe. Está na hora de se trocar e descansar.
Não deixarei ninguém perturbá-la - falou e voltou à cabeça para trás, fuzilando a irmã com o olhar.
Letícia deu de ombros.
Mais cedo ou mais tarde elas teriam de lidar com o assunto.
Ela sabia que um dia Nair e Mariana seriam obrigadas a despir-se do orgulho e de seus preconceitos para encarar as verdades da vida.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 08, 2015 9:32 pm

CAPÍTULO 4

Virgílio apanhou a pasta e caminhou em direcção à garagem.
Ivana colocou-se à sua frente.
- Acordou com as galinhas?
Ultimamente não estava saindo tão cedo assim.
Algum problema com as nossas farmácias?
- Não, absolutamente nenhum.
Muito trabalho, como de costume.
Viajo quinta à noite e vou esticar o fim-de-semana.
- Vai para onde?
- Não interessa. Já faz anos que cada um de nós cuida da própria vida.
Ivana mordeu o lábio.
- Não estou gostando nada disso.
Se você for atrás daquela fulana...
Virgílio riu:
- Fulana? Nem fulana nem sicrana.
Você sabe, tanto quanto eu, que somos impedidos de ter amantes.
Faz parte do nosso castigo.
Às vezes penso por que meu pai seria tão ardiloso a ponto de fazer com que nós dois, que nunca tivemos nada em comum, ficássemos juntos por vinte e cinco anos, sem direito ao menos a puladas de cerca.
Ainda é difícil entender uma atitude insana como essa.
- Atitude insana é aturá-lo por todos esses anos.
Estou farta de você, de seu azedume, de sua palidez.
- Pois então aproveite minha escapada de fim-de-semana e remodele os quartos.
Transforme o quarto de hóspedes no meu quarto e fique sozinha.
O nosso quarto pode ser só seu. O que acha?
- Patético isso sim.
- Nada patético.
Temos dois quartos de hóspedes.
Deixar só um para visitas já está bom demais.
Eu fico com o quarto no canto do corredor e ficamos mais afastados um do outro.
- Preciso de dinheiro para fazer as mudanças.
- Dinheiro não é problema, Ivana.
Gaste o que achar necessário.
Aliás, por conta de nosso casamento, seu património só aumentou e talvez nesta vida você nunca saiba o que é viver apertado.
- Ainda bem. Não nasci para ser pobre.
Virgílio nada disse.
Baixou a cabeça e entrou no carro.
- E não se esqueça de desbloquear meu cartão, ou pagar a factura, ou mesmo aumentar o meu limite.
Não quero mais passar constrangimentos em lojas ou restaurantes.
Virgílio assentiu com a cabeça.
Entrou no carro, deu partida e se foi.
Ivana ficou pensativa por instantes.
Resolveu:
- Ligarei para minha amiga Otília.
E assim o fez.
Correu até a sala e discou o número.
Ivana e Otília eram amigas de longa data.
Otília não era fútil como Ivana e também não era de chiliques.
Tampouco vivia em eterno estado de tensão pré-menstrual, como Ivana.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 08, 2015 9:33 pm

Otília queria mais era viver a vida, aproveitando o que ela podia dar-lhe de melhor.
Fazia bom uso de seu dinheiro.
Ela adorava participar de leilões de arte, por exemplo.
Comprava quadros de artistas famosos e também apostava em jovens pintores.
Otília já havia lançado dois rapazes no mundo das artes, e no momento ambos estavam excursionando pela Europa, expondo e vendendo seus trabalhos.
Otília estava sempre de olho em novos talentos.
Viajava bastante, sabia efectivamente curtir a vida.
Filha de rico industrial casara-se com outro rico empresário e tinha dinheiro suficiente para manter uma família por mais de três gerações seguidas.
Não tivera filhos porque descobriu que o marido era estéril.
Adamastor também não queria adoptar uma criança.
Se Deus o havia feito estéril, então a vida do casal deveria ser diferente - ele assim pensava.
Otília Amorim acatou frustrada, a decisão do marido.
Com os anos, descobriu que poderia usar seu instinto materno reprimido na busca, orientação e promoção de jovens artistas.
Ela descobrira nova vocação e podia extravasar suas qualidades maternais.
E também era conhecida da sociedade pelos saraus que promovia, ora em seu casarão próximo ao Parque do Ibirapuera, ora em seu sumptuoso chalé localizado em Campos do Jordão.
Otília atendeu ao telefone ofegante.
- O que foi? - indagou Ivana.
E brincou:
- Peguei-a num momento impróprio?
- Longe disso, amiga.
Adamastor saiu para trabalhar faz uma hora.
Acabei de chegar do parque.
Fui fazer minha caminhada diária.
- Você e essa mania de andar, correr, nadar.
- Precisamos exercitar o corpo, minha amiga.
Ainda mais na idade em que estamos.
- Deus me livre!
Prefiro pagar bons profissionais.
A plástica supre tudo isso.
- Até certo ponto.
O organismo precisa ser estimulado, precisa de exercícios.
- O meu, não.
- Caso mude de ideia, venha dia desses caminhar comigo.
- Agradeço o convite, mas prefiro meu cigarro e minha vodca.
- Não sei como consegue se entupir com tanta besteira, Ivana.
- Sou forte.
- Pois bem.
O convite está feito, pela milésima vez.
Quando quiser, me avise um dia antes.
- Está certo. Vou pensar no caso.
- Afinal, de que adianta ter dinheiro e não poder usufruir dele?
- Do que está falando, Otília?
- De ficar doente, ter algum problema grave de saúde e ficar imobilizada numa cama, sem poder usar nosso dinheiro.
- Que horror!
- Isso, sim, é que é castigo.
Por isso prefiro me exercitar, fazer boa alimentação, abusar só de vez em quando.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 08, 2015 9:33 pm

- Vire essa boca para lá!
Otília riu.
- Você ligou por quê?
- Porque é minha única amiga.
Ivana tinha razão.
Otília era sua única e verdadeira amiga.
Não havia pessoa no mundo que aguentasse os chiliques de Ivana.
Mas Otília os aguentava.
Gostava de Ivana, não importando se a amiga era descontrolada ou não.
Isso era problema dela.
O que importava era o sentimento.
E Ivana, por seu lado, sabia reconhecer isso.
Sentia que podia se abrir com Otília, falar de suas intimidades, a seu modo, sem ser censurada.
Ivana acendeu um cigarro e pigarreou:
- Quer ir comigo ao shopping?
- Você só pensa em comprar, comprar e comprar.
- E para que mais serve o dinheiro, Otília?
- Para viajar, viver melhor, incentivar gente jovem e de talento.
- Eu nunca gastaria meu dinheiro com gente que não conheço. Isso é o cúmulo.
- Eu gosto de você, Ivana.
Embora estouvada, é autêntica, não faz género.
Ivana sorriu do outro lado da linha.
Ela admitia ter um génio de cão e era sincera, embora curta e grossa.
- Preciso de umas ideias para mudar e reformar o quarto de hóspedes.
- Quer ver móveis? Comigo?
- Ah, Otília, você tem bom gosto indiscutível.
Tenho certeza de que vai me ajudar.
- Está bem. Quer que meu motorista haja apanhe que horas?
Às onze está bom para você?
- Está óptimo.
Depois almoçamos naquele restaurante do qual lhe falei semana passada.
Ivana protestou:
- Argh! Naquele restaurante só servem comida sem gordura, sem sal, sem gosto.
Eu prefiro uma churrascaria.
- Nem por decreto eu piso numa churrascaria! - disse Otília, rindo.
Façamos o seguinte:
eu a acompanho nas lojas e você vai almoçar comigo, naquele restaurante.
- Está perfeito - respondeu Ivana, meio a contragosto.
- Aguardo você às onze.
Ivana pousou o fone no gancho feliz da vida.
Gastar, fazer compras em geral, atenuava sua irritação.
Ela não precisava de ginástica e exercícios para aliviar suas tensões quotidianas.
Bastava-lhe um bom cartão de crédito na mão, sem limite de gastos.
Mais nada.
Na verdade, ela estava farta daquele casamento.
Anos atrás havia aceitado casar-se com Virgílio por capricho e por vontade das famílias dos dois para preservar e aumentar o património.
O pai de Ivana herdara uma pequena farmácia localizada num excelente ponto no centro da cidade.
Endividado e sem tino para os negócios, Everaldo quase perdeu o estabelecimento.
Ivana, esperta e só pensando em cifrões, procurou Homero, o pai de Virgílio, e fez-lhe uma proposta irrecusável.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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