O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 13, 2015 9:06 pm

E nem tivera motivo nesses dias para ter um chilique que fosse.
Pensativa, Ivana pousou a xícara de chá sobre a mesinha de centro e disse a Otília, num tom odioso:
- Não sei o que fiz para ter uma família tão estúpida.
Acho que grudei chiclete no cabelo de Jesus.
Otília riu à beça e contemporizou:
- Não exagere amiga.
Você tem uma linda família.
- Nem me diga uma coisa dessas!
Não sei por que Deus me dotou de família, sabe?
Se eu pudesse, voltaria no tempo e teria feito uma cirurgia.
Poderia ter me dado o presente da esterilidade.
Otília bateu três vezes na madeira.
- Não fale um absurdo desses.
- Falo, sim, com conhecimento de causa.
- Tenho algo a lhe confessar.
Ivana encarou a amiga nos olhos.
- Confissões? Adoro confissões.
- Eu e Adamastor não tivemos filhos porque ele é estéril.
- Nunca me contou isso antes.
Otília mordeu os lábios, apreensiva.
- Talvez culpe talvez vergonha.
Pensei em adoptar uma criança, mas Adamastor foi contra, sempre.
Eu aceito seu modo de ser.
Eu sempre amei meu marido, acima de tudo.
- E nem cogitou mais a adopção?
- Não. Com o passar dos anos, usei meu instinto maternal na promoção desses jovens artistas.
Sinto-me como se fosse uma mãe para todos eles.
Isso me conforta.
Ivana fez uma careta.
- Eu deveria fazer assim também.
Dava um dinheiro, bancava uma exposição e depois adeus.
- Você me ofende ao falar nesse tom.
- Desculpe-me.
Mas deveria ficar feliz em ter um marido estéril.
Deus lhe deu o marido que deveria ter dado a mim.
- Não fale assim nem por brincadeira.
Uma pequena lágrima escorreu pelo canto do olho de Otília.
Ela tinha certeza de que Ivana não podia estar dizendo a verdade.
Era muito desumano.
Ivana prosseguiu sem tacto suficiente para desviar e até mesmo mudar o assunto.
- Fez bem você de não adoptar, de não criar nenhuma criança.
Eu estraguei meu corpo, sofri para colocá-los no mundo, tive de contratar enfermeiras, babás, amas-de-leite.
Ao invés de gastar nesses anos todos com empregados e educação, poderia muito bem ter empregado o dinheiro em viagens, cirurgias plásticas e uma vida menos enfadonha.
Veja só: Bruno é um molengão que adora se meter com gente bem aquém de nosso nível social.
Está sempre rodeado de gente pobre e sem cultura.
Um desgosto só.
Se desgosto fosse uma doença incurável e fatal, eu estaria agonizando a esta hora.
Otília pigarreou:
- E Nicole...
- Bom essa é uma perdida.
- Acho Nicole tão bonita!
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 13, 2015 9:06 pm

- Bonita e drogada, grande coisa...
É viciada e não quer saber de se tratar. Só atrapalha.
- Em todo caso, é sua filha e precisa de sua atenção.
- Ela é adulta e sabe cuidar de si.
- Não sabe - protestou Otília.
Nicole precisa de você.
Ivana levantou-se irritada.
- Só não atiro esta xícara pelos ares porque o serviço de chá é inglês e sei que era de sua bisavó.
Além do mais, você é minha amiga.
Mas, por favor, nunca mais me diga uma barbaridade dessas.
- Bom, é que não estamos falando de qualquer pessoa, mas de sua filha.
É sua responsabilidade fazer algo para o bem-estar de Nicole.
Ivana cheirou a xícara da amiga.
Otília espantou-se.
- O que está fazendo?
- Cheirando sua xícara para saber se tinha algo estranho.
Pensei que estivesse tomando algum chá alucinógeno.
- Nem por brincadeira.
- Então não fale mais besteira.
Essa menina não vale o prato que come.
Isso se chama ingratidão.
Eu a coloquei nas melhores escolas dei-lhe estudo, boas babás, brinquedos, roupas, uma vida de princesa, e Nicole prefere se meter em buracos, guetos e andar na companhia de viciados, de dependentes químicos.
A responsabilidade é minha por ela ser torta?
- Sim. Ao menos trate de conversar com sua filha.
Às vezes uma boa conversa ajuda bastante.
- Eu não tenho habilidade para isso.
Não sou terapeuta para escutar problema dos outros.
Otília balançou a cabeça para os lados.
Ivana estava irascível.
Era dura como uma pedra.
Por fim retrucou:
- Você também é viciada.
- Eu?! Está louca?
- Você fuma cigarro.
- Vício aceitável pela sociedade.
- Não importa, mas é um vício.
- No entanto, se fizer algum mal, só farei a mim mesma.
Eu não atrapalho a vida de ninguém, não crio problemas, não tenho ataques nem entro em convulsão caso acabe meu maço de cigarros.
Eu sou controlada, oras!
Não sou um estorvo para a sociedade.
Mas Nicole é.
Ela pensa que análise não custa caro.
Eu pago uma fortuna para essa menina fazer terapia.
E tenho certeza de que muito em breve terei de gastar dinheiro com clínicas para viciados.
- Converse com sua filha antes que seja tarde.
- Tenho certeza de que cada vez mais fica distante uma cura.
Creio que Nicole não tem salvação.
- Não teme pelo pior?
Como assim:
- Sei lá, uma overdose, por exemplo.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 13, 2015 9:06 pm

- Problema dela.
Ela escolheu essa vida, ela que responda por isso.
Não moverei mais uma palha para ajudá-la.
Ela é crescidinha, adulta.
Ela quer usar drogas?
Pois que use, oras.
Mas saiba se controlar.
Lembra-se de quando íamos às festas da Ângela?
Otília esboçou leve sorriso.
- Lembro-me como se fosse hoje.
- Tínhamos de tudo à mão, não tínhamos?
- Os tempos eram outros.
Era uma época de liberação de costumes, de paz e amor, de quebra de convenções sociais.
Foi um período de libertação, de brincadeiras.
Éramos jovens e nunca poderíamos falar abertamente com nossos pais.
Entretanto, hoje é diferente.
Pais e filhos estão mais próximos.
- Diferente, nada - esbracejou Ivana.
Naquela época não tínhamos limite, nem nós nem toda a alta sociedade carioca, paulista e mineira juntas.
Contudo, estamos aqui inteiras. Por quê?
- Bom, porque sabíamos o que queríamos e tudo não passava de brincadeira, de experimentos, mais nada.
Nunca fomos ligados em droga alguma.
- Exactamente isso.
Não éramos depressivas e dependentes.
Mas Nicole não tem firmeza, não tem dignidade suficiente para se manter no controle sem cair no ridículo.
- Não teme se arrepender?
Ivana deu de ombros.
- Eu lavei as minhas mãos.
Não quero mais saber dela e de seu envolvimento com drogas.
Ela que pague o preço. Ou Virgílio.
Ele quer se redimir e está atacando de bom pai.
- Talvez seja o remorso.
- Pior para ele.
Eu não sei o que é remorso. Ainda bem.
- Nicole ainda namora aquele rapaz?
- O Artur?
- Esse mesmo.
- Não faço ideia. Eu o vi algumas vezes lá na porta de casa.
- Ele é um delinquente.
- Exagero.
- Ele pode ser uma má influência para sua filha.
Não me disse dia desses que Nicole piorou depois que passou a namorar Artur?
- Artur, Celso, João...
São tantos os amigos que a levaram para o mau caminho...
Nicole é fraca, essa é a verdade.
Otília notou a contrariedade nos olhos de Ivana.
Procurou mudar a conversa.
- Quer outra xícara de chá?
- Não gosto muito de chá.
Preferia uma vodca.
- Estamos no meio da tarde.
E está um friozinho gostoso aqui na serra.
Um chá, uma xícara de chocolate...
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 13, 2015 9:06 pm

- Não. Você se cuida demais.
- É bom cuidar do corpo, da alimentação.
Não acha que poderia se exercitar um pouco?
- Como assim?
- Fazer exercícios, dar umas caminhadas.
O ar da serra é tão puro, tão bom...
Como é gostoso encher nossos pulmões de ar fresco!
- Deus me livre!
Não preciso.
Não gosto. Não quero.
- Uma boa caminhada pode ajudá-la a descarregar as energias.
Talvez diminuir sua irritação.
- Não creio ser necessário.
- Se mudar de opinião...
- Por falar em opinião, quando vai me levar na mulher que lê mãos?
- A Consuelo?
- Essa mesma - tornou Otília, desanimada.
- Descobri que é uma charlatona.
Faz trabalhos escusos, tudo por dinheiro.
Eu me enganei com ela.
Ivana deu de ombros.
- Eu falei.
Esse povo que diz que vê e fala com espíritos, que lê cartas ou mãos, só quer arrancar dinheiro da gente.
- Não generalize.
Existe muita gente boa que trabalha para o bem, que ajuda as pessoas de verdade.
- Você acredita demais no ser humano.
- Claro. Por que não deveria acreditar?
- Porque o ser humano mente, não é de confiança.
Otília consultou o relógio.
- Está ficando tarde.
Vou acender a lareira.
- Não será necessário.
- Por quê?
- Estou cansada de ficar aqui, sem fazer nada.
- Trouxe algumas fitas de vídeo - volveu Otília, animada.
- Com aqueles filmes velhos e açucarados?
Otília riu da rabugice da amiga.
- Não. Trouxe alguns clássicos.
Você escolhe.
Otília levantou-se e foi até uma prateleira no fundo da sala.
Pegou algumas fitas de vídeo e trouxe até Ivana.
- Escolha você mesma.
Tem Bette Davis, Lana Turner, Dóris Day, Rock Hudson...
Ivana interrompeu-a:
- Poupe-me de assistir a essa velharia.
- São filmes que víamos quando jovens, nas matinés.
- Nunca gostei de matinés.
Ia ao cinema somente para ficar mais à vontade com os garotos.
Nunca assisti a um filme por inteiro.
- Então está na hora de assistir a uma película do começo ao fim.
Vou mandar preparar um chocolate quente e fazer pipoca.
Ivana foi ríspida.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 13, 2015 9:06 pm

- Assista sozinha. Tenho de voltar.
- Será que sua sobrinha já chegou?
Ivana procurou se conter, mas a raiva foi bem maior.
Pegou um cinzeiro sobre a mesinha de Otília e atirou o objecto contra a parede, dando um grunhido.
- Ai, que ódio! Só de saber que essa fulaninha ficará em casa, perco o controle.
Otília estava acostumada com os ataques de histeria da amiga.
Sabia com antecedência quando Ivana ia à sua casa, fosse na capital ou em Campos do Jordão, e pedia aos empregados que substituíssem os cristais por peças de vidro comum.
Ivana não notava a diferença e, quando os atirava contra a parede, Otília não a recriminava.
Ela aprendera isso anos atrás, quando Ivana, num acesso de fúria extrema, acabou com uma colecção de cristal Lalique.
Adamastor quase foi internado, tamanho desapontamento.
Otília, esperta e vivaz, optou por trocar os objectos e manter a amizade.
Gostava de Ivana.
Talvez fosse a única pessoa no mundo que gostasse verdadeiramente dela.
Ivana voltou ao normal:
- Desculpe-me, não pude evitar.
- Não tem problema.
- Perdi as estribeiras.
- Eu lhe devo desculpas.
Não deveria falar de sua sobrinha.
- Só de me lembrar de Cininha fico possessa.
A garota sabe me irritar, ela tem o dom de me irritar. Sempre teve.
- Você não a vê há muito tempo?
- Nunca fomos íntimas.
- Ela é sua única parente, não?
- Sim. Só sobrou essa fedelha, mais ninguém.
- Pensei que você conversasse com sua irmã.
- Não. Eu e minha irmã tínhamos uma relação bem distante.
Estávamos em dívidas, meu pai estava com a corda no pescoço e aquele acordo com a família de Virgílio nos tirou da beira da falência.
Minha irmã achou que ficou em desvantagem financeira e nunca me perdoou.
Então ela se mudou com papai para bem longe e se casou com um pobre coitado.
Foi viver no Espírito Santo.
Ivana suspirou. Depois, prosseguiu:
- Nunca tivemos muito contacto.
Depois que meu pai e meu cunhado morreram, cheguei a visitá-la uma ou duas vezes, mas a relação com minha sobrinha nunca foi das melhores.
Agora ela aparece do nada e vem passar uma temporada em casa.
- E se ela quiser ficar? - arriscou Otília, temendo novo ataque.
- Ela não vai ficar! - esbracejou Ivana.
Eu arrumarei um jeito de logo, logo, botar essa menina para correr. Você vai ver só.
- Talvez seja uma boa companhia para sua filha.
- Boa companhia... Essa é boa!
Ela riu em descontrole.
- Por que acha que não?
- Cininha vem de outro mundo, de outro planeta.
É pobre, de vida comedida, não tem verniz social, e ela nada poder fazer por uma viciada em drogas.
- E por que motivo vai recebê-la?
Às vezes você tem atitudes que não compreendo.
- Não gosto dela, mas, se eu não a receber, ela pode fazer algo que me irrite ainda mais.
Ela tem o génio de minha irmã.
Cininha é um ser insuportável.
Eu sei lidar com gente dessa laia.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 15, 2015 8:28 pm

Eu a acolho por alguns dias e depois arrumo uma grande briga, faço um grande escândalo.
A tonta vai embora e não me procura mais.
Vou também dar um dinheiro para que ela compre uma casinha no subúrbio e desapareça de minha vida para sempre.
- Bom, então até mais, Ivana. Se precisar de mim, é só ligar.
Ivana abraçou a amiga e despediu-se.
- Obrigada. Sei que sempre poderei contar com você.
Ela ajeitou os cabelos no espelho do hall, apanhou a bolsa e saiu.
A neblina estava alta. Otília preocupou-se.
- Está muito ruim o tempo.
Fique e vá embora amanhã.
- Tenho de ir.
Cansei da serra e de tanto verde.
Eu é que vou ficar verde se continuar mais tempo aqui. Adeus.
Ivana entrou no carro e deu partida, preparando-se para descer a serra em direcção à capital e também em direcção a todos os problemas que a esperavam.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 15, 2015 8:28 pm

CAPÍTULO 14

Mariana vestiu-se com apuro e saiu contente de casa.
Dobrou a esquina, andou mais algumas quadras e alcançou avenida bem movimentada.
Logo depois adentrou a estação do metro.
Vinte minutos depois, ela estava próxima do escritório da Centax.
Assim que o elevador abriu e ela avistou a moça à sua frente, arriscou:
- Você deve ser Isabel, certo?
A secretária olhou-a espantada.
- Você é...
Mariana sorriu:
- Desculpe-me.
É que nos conhecemos apenas por telefone.
Eu sou Mariana.
- Ah, muito prazer - Isabel deu um sorrisinho malicioso.
À procura do Dr. Inácio?
- Isso mesmo.
Será que ele já terminou a reunião?
- O Dr. Inácio terminou a reunião faz bastante tempo.
Mariana animou-se.
- Poderia chamá-lo?
Preciso muito falar com ele.
Isabel ia responder com naturalidade, entretanto, ao virar-se para a visitante, seus olhos pousaram sobre o presente que havia ganhado de Teresa e ela subitamente mudou o tom de voz, mostrando quanto às pessoas são totalmente influenciáveis e podem mudar à deriva:
- Oh, sinto muito...
- Por quê? O que houve?
- É que o Dr. Inácio saiu faz mais de meia hora.
- Saiu? Estranho...
- Pois é.
- Ele volta ainda hoje?
Isabel riu maliciosa:
- Creio que não.
- Que pena! - tornou Mariana, entristecida.
Em todo caso, foi um prazer conhecê-la. Até mais.
- Até mais.
Isabel mordeu os lábios e, assim que Mariana começou a se afastar, ela comentou, sem mesmo pensar:
- O Dr. Inácio saiu daqui acompanhado pela senhorita Teresa Aguilar.
Mariana estancou o passo.
Voltou até a mesa de Isabel.
- O que é que disse?
- Isso mesmo.
Ele saiu daqui faz uma meia hora, acompanhado da senhorita Teresa.
Mariana sentiu as pernas falsearem por instantes.
Teria ouvido aquilo mesmo?
Procurou insistir:
- Tem certeza de que Inácio saiu daqui acompanhado pela... pela Teresa, a Teresa Aguilar?
- Essa mesma. Estavam numa prosa só.
Animadíssimos, felizes!
Mariana pendeu a cabeça para os lados.
Aquilo não podia estar acontecendo.
Precisava ir mais a fundo nessa história.
- Tem certeza de que saíram?
Isabel fez ar de mofa.
Estava ficando irritada por ter de responder várias vezes à mesma pergunta.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 15, 2015 8:28 pm

- Já disse que sim.
E, a propósito, para você não ter mais dúvidas de que estou falando a verdade - ela consultou o relógio -, há esta hora ambos devem estar no bar do hotel Hilton.
Mariana saiu de rompante.
Estava atarantada.
Será que tudo aquilo era verdade?
Será que Isabel não estava mentindo?
Será? Será?
Era tanta dúvida, tanta insegurança, que Mariana preferiu ver e tirar a prova com os próprios olhos.
Mais uma vez. Chorosa, porém decidida, ela saiu do escritório e correu até a estação do metro.
Passava um pouco das seis da tarde, e muitas pessoas saíam dos escritórios e fábricas nesse horário.
Mariana enfrentou uma fila imensa, empurra-empurra e a lentidão dos trens, que nesse horário andavam mais devagar em virtude da quantidade enorme de passageiros.
Depois de muito aperto, ela desceu na estação República, soltando fogo pelas ventas.
Nem esperou pela escada rolante.
Foi saltando os degraus da escada, até subir à praça.
Estugou o passo até o hotel, ali perto.
Teresa e Inácio adentraram o hall do hotel e dirigiram-se até o bar, quase cheio.
É que algumas pessoas, após o expediente, iam para casa, outras para a faculdade.
Havia sempre um grupo de funcionários de bancos ou empresas que preferiam ir beber com amigos.
Era o chamado happy hour, um momento de descontracção após o expediente, quando muitos se reuniam para bebericar e relaxar, antes de voltar para seus lares.
Inácio cumprimentou um colega de outra empresa, acenou para mais outro.
Todos no bar ficaram extasiados com a beleza provocante e sedutora de Teresa.
O rapaz sentiu-se embevecido, enlevado de facto.
Aproximou-se do bar, e o garção logo os atendeu.
Pediram suas bebidas e acomodaram-se sobre duas banquetas presas ao chão e encostadas no balcão do bar.
Teresa fez questão de dar aquela cruzada de pernas.
O barman quase derrubou o coquetel que estava fazendo, tamanho deslumbre ao notar aquele lindo par de coxas bem torneadas, perfeitas.
Ela sorriu maliciosa para Inácio e disse, numa simpatia contagiante:
- Você precisa conversar com Mariana.
Tenho certeza de que ela o ama.
Inácio coçou a cabeça.
- Não sei ao certo. Essas fotos...
Ainda não as consigo tirar de meu pensamento.
Isso é muito dolorido, me entristeceu demasiadamente.
- Não tire conclusões precipitadas.
Essas fotos podem não ter nada a ver.
- Será?
- Confie em mim.
Sou sua amiga e torço bastante pela sua felicidade.
Mariana é uma boa moça e...
Teresa não terminou de dizer.
Foi surpreendida por duas mãos firmes e decididas a puxar-lhe os cabelos.
A força de Mariana era tamanha que Teresa desequilibrou-se e só não foi ao chão porque ficou com os cabelos sendo sustentados por Mariana.
Uma dor terrível.
As pessoas ao redor estavam incrédulas, não acreditando na brutalidade de Mariana.
Inácio abriu e fechou a boca.
Não conseguia articular som que fosse.
A cena era bizarra e surpreendera-o bastante.
Mariana estava fora de si.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 15, 2015 8:29 pm

Gritava ensandecida:
- Ordinária!
Se passando por amiga da onça!
Teresa sentia dor, mas ao mesmo tempo sentia um prazer sádico em constatar que seu plano estava dando certo.
Fingiu chorar:
- Por favor, não me machuque.
Só estava conversando com seu namorado.
Eu imploro não me machuque.
- Cale a boca - esbracejava Mariana.
Inácio estava atónito.
De repente fora assaltado por pensamentos horríveis.
Não podia ter se enganado tanto assim.
Mariana não podia ser tão maldosa.
Aparentava doçura, era inteligente, amorosa...
Aquela à sua frente não se parecia em nada com a mulher por quem se apaixonara de verdade.
Enquanto Inácio tentava realinhar as ideias, logo após o grande susto, Teresa sentia muita dor, mas estava feliz.
Em seu íntimo, conseguira realizar grande feito, mesmo percebendo que seus cabelos poderiam ser arrancados do couro cabeludo, tamanha a fúria de Mariana.
As pessoas ao redor se afastaram, chocadas.
Dois garçons vieram apressados e tiveram dificuldade em apartar a briga.
Inácio ficou parado, sem acção.
Os rapazes conseguiram separá-las, por fim.
Teresa incorporou a vítima.
Tão logo se viu livre de Mariana, passou a mão nos cabelos e atirou-se nos braços de Inácio, fingindo medo.
- Deus do céu!
Essa moça não está em seu juízo perfeito.
Mariana estava fora de si.
- Cale a boca, ou eu...
- Ainda por cima me ameaça?
Cuidado, senão eu a processo!
- Atrevida!
Teresa fez muxoxo.
Aproveitava a situação e apertava seu corpo contra o de Inácio.
- O que deu em você? - indagou Teresa, fingindo estupor.
É tão possessiva e ciumenta que não reconhece que seu namorado e eu somos amigos?
Mariana bufava de raiva.
- Você não presta!
Teresa procurou ajeitar os cabelos.
A cabeça latejava de dor, mas a cena valia bastante.
Não tinha preço.
Ela fez beicinho e encarou Inácio.
Ele confirmou:
- Teresa é minha amiga.
- Ah, sua amiga - respondeu Mariana, voz entrecortada.
- Você não tinha o direito de entrar aqui e fazer essa cena.
Que escândalo, Mariana! Não tem modos?
- Está me recriminando?
- Sim - disse ele, secamente.
- Ela está tentando nos afastar - suplicou a jovem, num sopro de voz.
- Creio que está na hora de ir embora.
- Temos de conversar, Inácio, por favor.
- Aqui não é o local ideal.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 15, 2015 8:29 pm

- Mas...
- Por favor - ele estava se impacientando -, não me obrigue a ser rude.
Eu também estou magoado com você.
- Então vamos aproveitar e...
Inácio pendeu a cabeça para os lados, negativamente.
Ele apanhou a carteira, tirou um punhado de notas e colocou-as nas mãos de Mariana.
- Pegue um táxi e vá para casa.
Conversaremos outro dia.
- Está me dando dinheiro para ir embora?
- Por favor...
- Vai ficar aqui com essa... Essa sirigaita?
- Mariana... - Ele adoptou postura enérgica na voz:
- Por favor, vá embora e não queira mais nos causar problemas.
A jovem balançou a cabeça para os lados.
Estava triste, desapontada, desiludida.
Inácio não enxergava a realidade.
Ela apanhou as notas de dinheiro e as jogou para o alto.
- Não preciso do seu dinheiro.
E vou fazer um empréstimo para pagá-lo.
- Pagar-me? Não entendi.
- O dinheiro que nos emprestou quando meu pai morreu, eu vou arrumar um jeito de pagá-lo. Ah, se vou.
- Isso não tem nada a ver, e...
Mariana foi seca, curta e grossa:
- Nunca mais quero vê-lo na minha frente.
Disse isso e, antes de sair, seus olhos encontraram os de Teresa.
A morena susteve a respiração.
- Você ainda vai se arrepender de ter feito isso connosco.
Ela falou e saiu cabisbaixa.
Dessa vez Mariana não chorou.
Pelo contrário, sentiu uma força sem igual.
Caminhou até a Praça da República e adentrou a estação do metro.
Não queria pensar em mais nada.
Estava perplexa e chocada, tanto com a situação quanto com sua atitude.
Ela não era dada a brigas, odiava violência.
Mas Teresa havia chegado longe demais.
Assim que o trem chegou e as portas se abriram, Mariana jogou-se sobre um dos bancos, baixou o tronco e abraçou-se às pernas.
Não queria mais pensar em nada.
Queria chegar em casa, de qualquer maneira.
Dominada pelo cansaço e embalada pelo ritmo hipnótico do trem passando nos trilhos, deixou-se tomar por leve estado de inconsciência.
Em sua mente, de forma desordenada, começaram a desfilar imagens e sons dos acontecimentos recentes.
Entremeando o devaneio, Teresa aparecia à sua frente várias vezes, vangloriando-se:
"Agora ele é meu, querida!
Agora ele é meu, querida!"
Como se tivesse recebido um choque, Mariana acordou num salto.
Imediatamente lembrou-se do dia do trote telefónico.
Aquele vício de linguagem, querida, era o mesmo usado pela interlocutora na noite do trote.
A mesma flexão de voz, o mesmo tom jocoso.
A jovem teve um lampejo de lucidez e disse para si:
- Meu Deus! Foi Teresa!
Ela ficou feliz em descobrir isso.
Seu peito se abriu, era como se sua intuição estivesse lhe mostrando o caminho a tomar.
Mas agora de nada adiantava.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 15, 2015 8:29 pm

Ivana contornou o sumptuoso chalé de Otília, uma construção antiga, porém bem conservada, cuja mistura de pedra e madeira lhe conferia ar aconchegante.
A casa era margeada por lindo jardim de azaléias.
Ivana desceu o caminho e ganhou a rua.
- Não gosto desta cidade - disse para si, fazendo uma careta.
Tenho medo de pegar uma doença.
Localizada na Serra da Mantiqueira, a uma altitude de quase 1.700 metros, distante a duas horas da capital paulista e próxima à divisa dos Estados de Minas Gerais e Rio de Janeiro, a cidade de Campos do Jordão possui clima de montanha, reconhecido como um dos melhores do mundo, idêntico ao dos Alpes suíços e local ideal para quem necessita se recuperar de doenças respiratórias.
Quem fosse rico e tivesse problemas respiratórios ou fosse apanhado pela tuberculose, doença incurável anos atrás, ia se tratar na Suíça.
Quem era pobre e tísico - nome popular da tuberculose -, ou quem não pudesse bancar uma viagem ao exterior, tinha de se contentar em se tratar na cidade, que se tornou um reduto no combate à doença.
Alguns sanatórios foram construídos a fim de atender à grande demanda de doentes que procuravam a estância, sendo o primeiro deles o Divina Providência, em 1929.
Só as pessoas ricas tinham acesso à internação.
Todavia, muitos doentes carentes e sem recursos se abrigavam na estação ou mesmo nos vagões da via estrada de ferro Campos do Jordão.
Alguns milionários que frequentavam a região se sentiram sensibilizados e criaram uma sociedade beneficente, a Associação dos Sanatórios Populares de Campos do Jordão, que consistia num hospital feito em madeira, com poucos leitos, mas nos padrões dos sanatórios europeus.
Por volta da década de 1940, o nome Sanatorinhos surgiu da expressão popular.
Era só alguém apresentar o sintoma da doença e logo se ouvia:
- Meu Deus! Você vai acabar no Sanatorinhos.
Os médicos do grupo, extremamente competentes e dedicados, viajavam à Europa para se actualizar com métodos modernos de tratamento.
A qualidade de atendimento foi melhorando, tornou-se conhecida e respeitada, e o nome Sanatorinhos passou a ser visto como sinónimo de qualidade e respeito.
Em seguida, a associação construiu grande e portentoso hospital, todo em alvenaria, com quartos e enfermarias amplos, dotados de modernos aparelhos médicos e cirúrgicos.
Esse era o motivo por que Ivana não gostava de ficar em Campos do Jordão.
A cidade lhe trazia recordações muito desagradáveis, factos do passado que de vez em quando a atormentavam.
Quando Ivana tinha seis anos de idade, sua mãe adoeceu.
Começou com uma tosse seca, e alguns dias depois sua mãe tossiu e encharcou o lenço com sangue.
Ivana soube que a mãe fora se tratar em Campos do Jordão.
Sua mãe nunca mais voltou para casa.
Esse facto marcou profundamente a vida de Ivana.
Com o tempo, personalidades do mundo social, artistas, políticos e empresários, principalmente de São Paulo, entraram numa moda que perdura até os dias de hoje:
ter uma casa de veraneio em Campos do Jordão.
Isso lhes conferia status, prestígio, e desse modo a fisionomia da cidade foi mudando, a partir da década de 1930.
Foi então que Campos do Jordão deixou de ser cidade-sanatório e transformou-se numa próspera e aconchegante cidade turística, cheia de gente bonita e voltada para o turismo e lazer.
Mas Ivana continuava presa ao conceito antigo de que a cidade servia somente para tratamento de físicos.
A menção à cidade também lhe fazia voltar nos anos e lembrar-se da morte de sua mãe, vítima daquela doença.
Embora toda a transformação da estância tivesse ocorrido havia mais de quarenta anos, era-lhe difícil mudar o conceito.
Ivana era pessoa preconceituosa, além de emocionalmente desequilibrada, e havia duas coisas que a tiravam verdadeiramente do sério, deixavam-na amedrontada:
a falta de dinheiro e a possibilidade de ser vítima de alguma doença grave.
Ivana tinha horror à pobreza e a algum tipo de doença que viesse a lhe deixar inválida, imóvel, presa a uma cama.
- Meu santo é forte - bradou no carro.
Ela desceu a serra e, ao sair da Via Dutra e desembocar num braço da marginal do Tietê, notou o trânsito parado, cenário comum da cidade nos fins de tarde.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 15, 2015 8:29 pm

Foi então que Ivana se deu conta de que devia ter saído de Campos do Jordão ou mais à noite ou na manhã seguinte, evitando o horário do rush.
- O que faço? - esbracejou para si, irritada.
Um motorista buzinou logo atrás. Ivana bufou.
O trânsito estava praticamente parado, as vias todas congestionadas.
Ela não tinha como dar passagem.
Ivana fez sinal com as mãos, pelo retrovisor.
O motorista não deu trégua e buzinou, sem cessar.
Ivana não pensou duas vezes.
Desceu o vidro e fez tremendo gesto obsceno com os dedos da mão.
Após gritar alguns impropérios, subiu os vidros.
- Animais! - vociferou.
Pensam que, porque sou mulher, vou baixar a crista?
Mas, por conta de sintonia energética e o azar de Ivana, ela foi justamente se envolver com outro nervoso e neurótico, tão esquentadinho quanto ela.
O sujeito não teve dúvida: acelerou e meteu seu carro na traseira do dela, sem dó nem piedade.
O impacto foi tão forte que o carro de Ivana morreu... e não ligou mais.
Indignada e enfurecida, ela desceu do carro e partiu para cima do carro do rapaz, com chutes e murros.
Dois funcionários da Companhia de Engenharia de Tráfego passavam pelo local e conseguiram controlar a situação, evitando uma tragédia.
À muito custo conseguiram controlar a ira de Ivana.
O rapaz dentro do carro, num reflexo natural, afastou-se e encolheu-se no banco de trás.
- Essa é mais doida que eu - sibilou ele, desesperado.
Após aplacar sua raiva, Ivana foi até um orelhão, ligou para sua companhia de seguros e em seguida ligou para o guincho.
Avisou onde o carro estava - os rapazes da CET ajudaram-na a empurrar o veículo até o meio-fio - e tomou um táxi.
O motorista, habituado com o trânsito caótico da cidade, sugeriu alternativas.
- Faça o que bem entender, oras.
Todo simpático, o rapaz foi puxando conversa.
- Olha que trânsito, e...
Ivana cortou-o de supetão:
- Eu vou pagar pela corrida.
E no preço não está incluído conversar com o motorista.
Faça o favor de dirigir em silêncio. Fui clara?
O motorista engoliu seco.
Pensou:
"Se não precisasse do dinheiro, eu a largava na rua.
Nunca peguei um passageiro tão grosso e estúpido."
O rapaz foi cortando o trânsito pesado e, habilidoso e acostumado com as ruas da cidade, conseguiu se safar do congestionamento da marginal.
Fez caminhos alternativos, remendou aqui e ali, cruzou ruas e avenidas por onde Ivana nunca passara antes.
Quando o motorista parou num sinal vermelho, Ivana tomou um dos maiores sustos de sua vida
Ela até passou a mão pelo vidro do carro, meio embaçado, para ver se enxergava melhor.
Só teve tempo de dizer, entre dentes:
- Malditos!
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 15, 2015 8:30 pm

CAPÍTULO 15

Fim de mais um dia de trabalho.
Michele terminava uma consulta com uma jovem de quinze anos de idade, solteira e grávida de seis meses, quando Bruno adentrou o pequeno salão nos fundos da farmácia.
A adolescente levantou-se e despediu-se de Michele.
Quando a garota saiu, Michele sorriu para Bruno e, deslizando pela sala, chegou até ele e beijou-o nos lábios.
- Como foi o seu dia?
- Corrido.
- E sua irmã?
Bruno passou a mão pelos cabelos.
- Nicole se recupera aos poucos.
Assim que começou sua crise de abstinência, eu e papai a levamos para uma clínica especializada no interior, recomendação do Dr. Sidnei.
Hoje ela frequentou sua primeira reunião em um grupo dos Narcóticos Anónimos.
- O processo de desintoxicação não é fácil.
Além de bons profissionais, é preciso muita força de vontade para se livrar da dependência química.
E, paralelo a essa força, a reunião e ajuda dos Narcóticos Anónimos é vital para recuperação do indivíduo.
Torço e rezo por Nicole.
- Tem notado algum envolvimento, alguma interferência espiritual?
- Nicole está livre das entidades sugadoras, por ora.
Ela resolveu se tratar e, caso não tenha recaído, será difícil algum espírito viciado aproximar-se dela.
As orações que temos feito em grupo ajudam.
Bruno bateu três vezes na madeira.
E procurou dar outro rumo à conversa:
- Este salão logo vai se transformar numa clínica completa.
- Deus o ouça. Os atendimentos não param.
E estou muito feliz que a empresa de Inácio esteja nos dando suporte financeiro.
A verba da prefeitura não estava cobrindo nossas despesas.
Creio que em breve seremos auto-suficientes.
- Depois da conversa que tivemos com papai, ele quer se sentar comigo e propor negócio.
Em pouco tempo, não precisaremos mais da Centax nem da prefeitura.
Bancaremos tudo por conta própria.
- Isso me alivia - suspirou Michele.
É bom ser auto-suficiente, não ter de prestar contas e dar satisfações para quem não está envolvido de corpo e alma no trabalho social.
Às vezes tenho de dar satisfações sobre gastos que eles não compreendem, porquanto não passam o dia todo aqui, com a população.
- E não precisaremos mais cobrar pelas consultas - sorriu Bruno, feliz.
- Com ou sem apoio financeiro, eu vou continuar a cobrar pela consulta.
- Sério?
- Sim.
- Não concordo muito com sua posição de cobrar pela consulta, Michele.
Essas pessoas são pobres, miseráveis, mal têm dinheiro para comida, para o sustento de suas famílias.
Michele sorriu.
- São pobres, mas não podem perder o respeito por si mesmos.
Têm de manter sua dignidade.
A pobreza é um estado mental, em que a própria pessoa se põe numa situação cheia de limites.
- Bastante genérico.
E os que já nascem nesse ambiente?
- Pura afinidade.
Reencarnamos na Terra por afinidade de pensamentos e atitudes.
Isso vai determinar o tipo de pais que teremos o ambiente onde vamos nascer o tipo de corpo que iremos desenvolver.
Quem se priva e acredita no pouco, no menos, terá grande chance de viver muitas vidas na pobreza.
- Pela óptica espiritualista, eu sempre acreditei que nascemos pobres porque fomos ricos em outras vidas e não soubemos dar valor ao dinheiro.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 15, 2015 8:30 pm

- Não. Isso é uma maneira preconceituosa e cómoda de ficar estacionado na pobreza.
A pessoa acredita que é um carma, que Deus quis assim, que a vida tem de ser cheia de sacrifícios, cria uma série de desculpas e assim vai ser.
Cada um tem a vida que acredita.
- Talvez.
- É muito cómodo aceitar que sua vida é limitada, porquanto não precisa fazer muito esforço para crescer.
Aquele que é forte, que não se contenta com pouco e acredita em si, em seu potencial, vence qualquer obstáculo.
Nada lhe é empecilho, nem mesmo a pobreza.
A pessoa arruma um jeito e vai crescendo, de uma forma ou de outra.
As leis universais, que trabalham única e exclusivamente para o bem, acabam por criar situações favoráveis para aqueles que almejam uma vida melhor.
Bruno interveio:
- Dessa forma a pessoa arruma um emprego melhor, conhece alguém que lhe estende a mão. Seria isso?
- Isso mesmo.
Tudo começa a fluir de maneira positiva na vida da pessoa, porque ela decidiu mudar e não ficar presa à limitação que a pobreza lhe impôs, em todos os sentidos.
Por essa razão - ela passou delicadamente o dedo no queixo de Bruno - vou cobrar um valor bem baixo, até simbólico, mas vou cobrar.
Caso eu os atenda de graça, eles não darão valor ao meu trabalho e em breve começarão a exigir mais e mais de cada um de nós.
- Nisso você tem razão.
- Esses jovens precisam ser valorizados, necessitam que lhes demos estímulos, condições de trabalho e estudo, além de alimentá-los de ideias positivas e prósperas.
Aqueles que tiverem um espírito de luta e valentia irão para frente e logo sairão de suas vidas limitadas.
Outros, infelizmente, continuarão tendo vida miserável e sem futuro algum, mas por pura imaturidade espiritual.
- Você fala com muita propriedade.
- Digo isso porque eu e Daniel somos negros e crescemos pobres e sob os olhos preconceituosos da sociedade.
Se deixássemos nos levar pelo vitimismo, não teríamos progredido na vida.
Nossos pais, antes de morrer, ensinaram-nos os verdadeiros valores do espírito.
Acredito na existência do espírito, na força que dele podemos extrair.
Sem o espírito, somos apenas um punhado de matéria, de carne - ela se tocou -, e mais nada.
Nosso corpo físico só tem função por conta da existência dessa substância imaterial, incorpórea, inteligente, consciente de si, na qual se situam os processos psíquicos, à vontade, os princípios morais.
- Falou difícil, mas falou bonito.
- Essa definição você encontra em qualquer dicionário - tornou ela, sorridente.
Nunca se esqueça de que somos dotados de algo aqui dentro - Michele apontou para si - que nos faz semelhantes, porém completamente distintos uns dos outros.
Veja como cada um de nós tem traços diferentes:
cor de pele diferente, estaturas as mais variadas, feições diversas.
Não há pessoas idênticas; nem mesmo os gémeos o são.
Sempre há uma mínima diferença, até imperceptível, seja física ou de carácter.
Somos semelhantes, meu amor, mas jamais seremos iguais uns aos outros.
A natureza é feita de diferenças, e devemos aceitá-las e apreciá-las.
- Faz sentido o que pensa.
- Veja essas pessoas aqui neste bairro afastado e desprovido de toda e qualquer infra-estrutura.
Por que estão morando aqui e por que eu tenho uma vida melhor que a deles?
E por que cargas d'água você vive melhor ainda?
- Não sei talvez obra do destino.
- Resposta simplória, que nos deixa à margem de muitas indagações.
Nunca parou para pensar por que algumas pessoas nascem com a saúde debilitada e outras nascem perfeitas e saudáveis?
Por que Deus, ou a força inteligente que sustenta o universo, criaria um jogo de interesses tão desvantajoso para nós?
Não creio que a providência divina queira brincar connosco.
Estamos em ambientes distintos e posições sociais, físicas, financeiras e morais diferentes por conta de nosso conjunto de crenças, atitudes e escolhas feitas ao longo de muitas e sucessivas vidas.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 15, 2015 8:30 pm

Bruno mordeu o lábio superior para evitar o riso.
Michele falava de maneira especial.
Lembrou-se da conversa que tiveram com Virgílio.
Bruno estava interessado e queira conhecer cada vez mais sobre si mesmo e o mundo espiritual.
- Claro - tornou ele - que uma explicação espiritual diminui em muito minhas dúvidas acerca das diferenças sociais, dos mistérios da vida e da morte.
Mas será que tudo isso é mesmo verdade?
Michele retorquiu:
- Se é verdade ou não, cabe a cada um de nós acreditar.
Mas vamos falar de você.
- De mim?
- Sim. Responda-me: por que, afinal de contas, você nasceu num lar cuja mãe nunca lhe deu carinho e atenção?
- Não sei dizer...
- Por que sua mãe não é igual às outras?
Por que Ivana é diferente e o trata de maneira fria e distante?
Bruno deixou-se pegar de surpresa.
Não sabia o que responder.
No seu íntimo, ansiava por saber a resposta.
Sempre se fizera tal pergunta desde pequeno, e nunca encontrara uma resposta que pudesse aplacar sua revolta.
Na infância e na adolescência fora muito duro viver privado dos carinhos de Ivana.
Ela nunca lhe dera carinho, nunca demonstrou amabilidade.
Jamais participara de nenhuma actividade que envolvesse os filhos, nunca fora a uma competição de colégio, por exemplo.
Os anos passaram e Bruno cresceu.
Decidido a ser feliz, estudou, fez terapia, melhorou bastante e não ligava mais para a falta de atenção da mãe.
Acostumara-se com o distanciamento de Ivana.
Michele arrancou-o de seus pensamentos e prosseguiu:
- Você atraiu uma mãe assim para crescer por si, dar-se o amor e o carinho que ela não lhe deu.
A vida fez isso para você se tornar pessoa forte, diminuir suas fraquezas.
Ivana é pessoa nervosa e desequilibrada emocionalmente.
Ela tem dificuldade em controlar suas emoções e sentimentos.
A vida procurou lhe dar filhos para ver se atenuava essa ira que talvez venha de muitas vidas, mas a maternidade não serenou sua mente nervosa e agitada, tampouco enterneceu seu coração.
Muito pelo contrário; sua mãe continuou fria, distante, não se deixou tocar pela bênção da maternidade.
Parece que tem medo de si mesma, medo de sentir.
- Nunca olhei minha mãe por esse ângulo.
Na verdade nunca compreendi o porquê de ela não gostar de mim ou de minha irmã.
- Sua mãe gosta de vocês do jeito dela.
Vocês criaram em suas mentes que ela deveria se comportar como a mãe modelo, talvez como a maioria das mães de seus amiguinhos.
- Sempre esperei por isso.
E nunca aconteceu.
- A mãe ideal não existe.
- Custei a perceber.
- Não adianta querer que as pessoas sejam como desejamos.
Isso é terrível, nos causa mal-estar interior.
É melhor aceitar que a vida lhe deu uma mãe ausente, aprender a se amar incondicionalmente e parar de implorar por uma migalha de atenção.
- Nunca implorei.
- Mas é o que deseja.
Talvez seja por isso que teve uma mãe como Ivana.
- Acha mesmo?
- Claro. Você teve uma vida de órfão, porquanto seu pai também foi distante.
Virgílio pode ter sido amoroso, mas nunca participou de sua vida.
E o que você ganhou com isso?
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 15, 2015 8:30 pm

- Não consigo perceber - considerou Bruno, pendendo a cabeça para os lados.
- Você foi obrigado a descobrir seus potenciais, melhorar sua auto-estima.
A vida quis lhe mostrar que você não precisa de ninguém lhe paparicando, que você é auto-suficiente e pode se dar carinho e atenção a si próprio.
- Você está impossível hoje - disse Daniel, que entrava na sala.
- Michele me pegou para Cristo hoje - disse Bruno, rindo.
- Mas fez-me pensar sobre muita coisa.
Disse-me coisas muito interessantes.
- Minha irmã é uma mulher toda interessante - tomou Daniel, beijando-a na face.
- Não sinto ciúmes, porque são irmãos - advertiu Bruno, entre risos.
Se não fossem...
Daniel não chegara sozinho. Partiu para as apresentações:
- Esta é Sílvia, irmã de Inácio.
Eles a cumprimentaram com satisfação e alegria. Michele foi simpática:
- A ajuda que a empresa de seu irmão está nos dando é maravilhosa; complementa a verba da prefeitura.
Pena que Inácio não tenha tempo de vir aqui com mais frequência para saber a quantas anda o progresso dessas pessoas.
Sílvia retribuiu o cumprimento:
- Ele confia no trabalho de vocês.
E na verdade esse dinheiro da Centax vai gerar bons profissionais no futuro, inclusive para o próprio quadro de funcionários da empresa.
Um dos trabalhos sociais que vocês vêm realizando é o de afastar esses jovens do caminho das drogas e lhes proporcionar novo horizonte, perspectivas de vida positivas.
Creio que se tornarão óptimos profissionais, e amanhã também serão melhores pais e cidadãos.
- Sem dúvida - disse Michele.
Essa é nossa meta.
Fico contente em poder contribuir pela melhora da vida das pessoas, em todos os sentidos.
Daniel sorriu:
- Sílvia realizava trabalho semelhante na comunidade da Rocinha, no Rio de Janeiro.
- É mesmo? - perguntou Michele, interessada.
- Sim - respondeu Sílvia.
O trabalho de vocês se assemelha ao meu.
- Pretende ficar em São Paulo? - indagou Bruno.
- Sim. Penso em morar aqui.
- Poderemos conversar outra hora e, se quiser, estamos precisando de gente para trabalhar.
A quantidade de pessoas atendidas aumenta a cada mês.
Sílvia sorriu satisfeita:
- Adoraria.
Bruno estendeu-lhe a mão e tornou:
- Estávamos tendo uma pequena aula de espiritualidade.
Sílvia admirou-se:
- O mundo espiritual me fascina.
Só para constar, a crença na espiritualidade mudou muito minha vida.
- Não diga! - exclamou Michele.
- Eu sempre tive sensibilidade, sabe? - retorquiu Sílvia.
E desde pequena tenho sonhos.
- Sonhos? - indagou Bruno, surpreso.
- É. Sonhos premonitórios.
- Interessante... - ponderou Bruno.
Eu comecei este projecto porque tinha sonhos repetidos com este lugar, este bairro.
Michele me afirmou que existem amigos espirituais que aproveitam nosso momento de descanso e nos enviam mensagens por meio dos sonhos.
No princípio achei inverosímil, mas hoje, olhando para este prédio e estes jovens, tenho plena certeza de que fui orientado nos sonhos por amigos do astral superior.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 15, 2015 8:31 pm

- Como ele não é, ainda, estudioso do mundo espiritual, os espíritos decidiram escolher os sonhos para se comunicar com Bruno - finalizou Michele.
- Os meus geralmente são premonitórios - atestou Sílvia.
- Você enxerga o futuro? - indagou Michele.
- Às vezes. E isso me deixa um tanto encabulada.
No começo era difícil, porque eu não conseguia manter a boca fechada e contava tudo, fosse na escola, fosse em casa.
Arrumei algumas confusões e, depois de estudar o assunto e compreender melhor o que me ocorria, passei a ser mais discreta.
Hoje só falo quando tenho liberdade, intimidade com a pessoa.
Sílvia e Michele simpatizaram-se de imediato, e as duas foram naturalmente entabulando conversação, deixando os moços à matroca.
- Que bela moça! - elogiou Bruno.
- Linda, não? - completou Daniel. - Inácio nos apresentou um ao outro, semana passada.
Ela realizava bonito trabalho de promoção social.
Sofreu terrível desilusão amorosa e veio para São Paulo se recuperar, junto à mãe e ao irmão.
- E pelo jeito ela vai se recuperar rapidinho dessa desilusão amorosa...
- Por que diz isso?
- Seus olhos brilham a cada momento que toca no nome de Sílvia.
Você está apaixonado por ela.
Não dá para disfarçar.
- Não dá, não é mesmo?
- Negativo.
Ambos caíram na risada.
- Você já se declarou?
Daniel balançou a cabeça.
- Ainda não.
Ela está muito animada com o projecto e quer trabalhar connosco.
No momento certo, creio eu, pretendo me declarar.
- Tomara que dê certo, meu amigo.
Gostei da Sílvia.
- Ei, que tal todos irmos tomar um lanche?
Estou faminto.
- Eu topo - assentiu Bruno.
Ei, garotas, estão a fim de pegar uma lanchonete?
- Claro! - responderam as meninas, em uníssono.
Enquanto se dirigiam ao exterior do salão, Sílvia sugeriu:
- Gostaria de dar uma passadinha num shopping.
Preciso ver uma blusinha para uma festa.
Daniel suspirou:
- Ah, essas mulheres!
São alucinadas por shopping centers, lojas e compras.
Será que isso já vem no sangue de vocês? - perguntou, em tom de brincadeira.
Sílvia e Michele fizeram careta e, todos animados, entraram no carro de Bruno.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 15, 2015 8:31 pm

CAPÍTULO 16

Virgílio encostou o carro numa rua tranquila.
Desligou o motor e suspirou angustiado.
- O que está acontecendo? - perguntou Nair, preocupada.
- Não tenho me sentido bem ultimamente.
- Algum problema de saúde?
- Não. São tantos problemas, que...
Virgílio não segurou o pranto.
Cobriu o rosto com as mãos em profundo estado de desespero.
Nair condoeu-se.
Pousou suas mãos sobre as dele a fim de lhe transmitir conforto.
- Temos muito que conversar.
Há coisas que estão entaladas na minha garganta por mais de vinte anos.
Entretanto, agora não sinto que seja momento apropriado.
Mas essa sua angústia me preocupa.
O que acontece?
Por que você está me vigiando desde que Octávio morreu?
Virgílio enxugou os olhos com as costas das mãos.
Deu duas fungadas e disparou:
- Desculpe meu descontrole.
Estou me sentindo no limite de minhas forças.
Parece que toda a minha vida está ruindo.
Nem sei por onde começar...
- Comece pelo fato de estar me vigiando.
Ele sorriu.
- Não a estou vigiando.
Eu fico entupido de problemas no trabalho e em casa.
Pego o carro e saio por aí e acabo vindo parar na sua porta.
É como se eu sentisse certo conforto, segurança, algo que não sei explicar.
Por incrível que isso possa parecer, toda vez que chego perto de sua casa eu me lembro do meu pai.
Nair espantou-se.
- De seu pai?
O Dr. Homero?
- Sim. Parece loucura, não?
- Você não deve estar bem da cabeça mesmo.
- Minha vida não anda nada boa.
- Ao chegar à minha casa, você poderia pensar em qualquer um, menos no seu pai.
Aquele homem arruinou a minha vida.
- Soube da trama sórdida ungida entre meu pai e a família de Ivana.
E tenho tantas dúvidas aqui comigo - disse ele, apontando para o peito.
Sinto que temos muito que conversar.
- Não creio que temos muito que conversar.
O tempo passou, estamos ficando velhos.
Ela desviou o assunto.
Nair ainda tinha segredos acerca daquele passado e não se sentia preparada para tocar no assunto.
Virgílio cortou-a abruptamente:
- Não diga isso.
Você mal completou quarenta anos.
Eu estou com cinquenta e dois.
Temos ainda muito pela frente.
Ele apertou a mão de Nair.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 15, 2015 8:31 pm

- Quero ainda conversar com você sobre nosso passado e nossa separação.
Ela sentiu as faces arderem.
Não estava preparada para voltar e remexer em seu passado.
Abriu a boca, mas Virgílio impediu-a:
- Também não quero tocar nesse assunto agora.
Não seria justo nem para você nem para mim.
Ainda há coisas na minha cabeça que preciso esclarecer a mim mesmo.
São como peças de um quebra-cabeças que aos poucos me são mostradas.
O que me trouxe até você foi... foi...
Nair estava impaciente.
- Diga logo, homem!
- Minha filha, a Nicole.
- Sua filha?
- É.
- Quer falar comigo sobre sua filha?
- Sim.
- Não tem a mãe dela para conversar? - perguntou ela, em tom jocoso.
- Não me leve a mal, por favor. Ivana não liga para os filhos.
Sempre os tratou com frieza e distância, se você quer saber.
- Como assim?
- Ivana teve Bruno e Nicole à deriva, talvez até meio a contragosto.
Nunca suportou assumir seu papel de mãe, nunca quis saber de participar da educação de meus filhos, jamais se sentiu responsável por eles.
- Que horror!
- Pois é.
- Eu tenho duas filhas e sou tão apaixonada por elas!
Não consigo imaginar-me criando-as sem eira nem beira, com frieza e distanciamento.
- Ivana mal conversa com os filhos.
Eu confesso ter sido pai ausente, fui relapso mesmo.
Dediquei-me a vida toda ao trabalho e ao acúmulo de nossa fortuna, a fim de garantir bom futuro às crianças.
- Você fez o que geralmente um pai faz.
Vai à luta para manter o bem-estar da prole.
- Mas me tornei ausente.
Eu me arrependo de não ter participado das festinhas de meus filhos, dos aniversários, das reuniões escolares, de ser amigo e poder conversar sobre vários assuntos.
Eu me distanciei de meus filhos e creio que esteja numa situação irreversível.
- Não existe situação irreversível.
Para tudo se tem uma saída.
Aprendi isso na pele, desde quando você me abandonou, e algum tempo atrás, quando perdi o Octávio.
A gente escorrega, cai se machuca, mesmo assim consegue se reerguer e vai tocando a vida.
Aprendi que tudo é uma questão de força de vontade.
Isso depende única e exclusivamente de cada um.
- Sei disso. Compreendo.
Meu filho Bruno é belo rapaz.
Bonito, estudioso, esforçado, trabalha com jovens carentes na periferia.
- Que belo trabalho! Você deve sentir muito orgulho de seu filho.
- Sim. Bruno é o exemplo de filho ideal.
Nunca deu problema na escola, sempre tirou boas notas.
Graduou-se em Economia e namora uma menina linda.
Tenho certeza de que meu filho será muito feliz.
Nair esboçou leve sorriso.
Virgílio, aparentemente, não tinha do que reclamar.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 15, 2015 8:31 pm

Será que estava tentando criar todo aquele clima para se aproximar?
Ela ressabiou-se.
Virgílio, cabeça baixa, prosseguiu:
- O meu maior problema é Nicole, minha filha.
Ela é o oposto de Bruno.
- Como assim?
- Nicole também cresceu à deriva, rodeada de babás e empregadas.
Eu sempre viajando a negócios e Ivana sempre ocupada com seus afazeres, como lojas e salões de beleza.
Eu não percebi o quanto minha filha sentiu nossa falta, precisou de nosso carinho, de nosso colo.
Agora creio ser tarde demais.
Se ao menos eu tivesse percebido, minha filha poderia ter maiores chances de recuperação.
- De que está falando?
O que tem sua filha?
Ele cobriu novamente o rosto com as mãos, não de vergonha, mas por profundo desespero.
- Nicole é viciada em drogas.
Nair levou a mão à boca.
Lembrou-se de suas filhas.
- Que triste!
- Triste e dolorido. A droga está acabando com a vida da minha filha e com a minha também.
- Imagino como deva estar se sentindo.
Virgílio suspirou e começou a contar a Nair tudo sobre o envolvimento da filha com as drogas, como Nicole tornou-se uma dependente química, desde a adolescência.
Conforme ele ia falando, Nair sentia o peito oprimir-se.
Ela procurava entender a dor do pai e tentar ajudá-lo de alguma maneira.
O espírito de Homero, sentado no banco de trás do carro, emocionou-se com o relato do filho.
Ele estava tão concentrado em redimir-se perante Nair que se esqueceu do filho, da nora, dos netos.
Homero sentiu uma ponta de remorso e, assim que fechou os olhos, transportou-se para a colónia espiritual da qual fazia parte.
Foi directo ao gabinete de Consuelo.
- Preciso fazer alguma coisa pela minha neta.
Ela não está bem, tornou-se uma dependente química.
Eu não sabia.
Consuelo nada disse.
Balançou a cabeça para cima e para baixo.
Homero prosseguiu:
- Estou me sentindo muito mal, porquanto fiquei com os olhos voltados para o meu próprio umbigo.
Se eu tivesse zelado pela minha neta, talvez Nicole estivesse seguindo outro caminho.
- Quer ser Deus de novo? - perguntou Consuelo, voz pausada e doce.
- O que disse?
- Deu para consertar a vida de todo mundo?
Não acha ser isso impossível?
- Mas veja Nicole...
Ela está se matando.
- Não podemos actuar nessa jurisdição.
- Como assim?
- Nicole tem seu próprio guia espiritual.
Consuelo levantou-se e aproximou-se dele, tocando-lhe delicadamente o ombro.
- Não se esqueça de que todos os encarnados têm um guia, um anjo da guarda, um mentor, se assim preferir chamar.
De certa maneira, você assumiu o papel de guia espiritual de Nair, só por enquanto.
Isso foi permitido por conta dos laços que os unem há várias vidas.
O guia dela afastou-se por ora, e você assumiu o cargo.
Entretanto, todas as pessoas têm um protector.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 16, 2015 8:10 pm

- Mas Nicole está sempre metida em drogas, más companhias, delinquentes, gente da pior espécie.
O guia dela não pode intervir?
Que mentor é esse que deixa uma pobre menina inocente à beira da perdição, de um caminho sem volta?
Consuelo sorriu e nada disse.
Pausadamente caminhou até a porta e mandou alguém entrar.
- Gostaria de apresentar-lhe.
Creio que já se conhecem de outros tempos.
Homero, este é...
Ele virou-se para a porta e seus olhos espremeram-se para enxergar melhor.
- Quem é você?
O espírito à sua frente fechou os olhos e concentrou-se.
Em instantes adquiriu outra forma.
Os olhos de Homero quase saltaram das órbitas.
Não podia ser verdade.
Ele balbuciou:
- Vo... vo... Você?
Everaldo aproximou-se e estendeu-lhe a mão.
- Como vai, Homero?
Quanto tempo!
Homero mecanicamente apertou-lhe a mão.
- Não nos vemos... bem... é...
- Não nos vemos desde aquela nossa conversa horrível.
Eu bem me lembro.
Pensa que para mim é fácil ter minha consciência acusando-me a todo instante?
Num gesto de desespero fiz um acordo com você e acabei com a felicidade de minhas filhas.
- E de meu filho - ponderou Homero.
- Depois que desencarnei, mudei meu jeito de ver as coisas.
Percebi e entendi aqui no astral, que nada acontece por acaso.
Em outra dimensão percebemos que as coisas acontecem de maneira peculiar.
Não existe o certo nem o errado.
As pessoas fazem escolhas e respondem por elas.
- Mas destruímos a vida de nossos filhos.
- Eu acreditei muitos anos nisso, mas hoje não enxergo assim.
- Não? - indagou Homero, surpreso.
Everaldo deu continuidade:
- Seu filho, Virgílio, deveria ser mais firme, pois é dotado de livre-arbítrio e podia recusar-se a casar com Ivana.
Mas não se esqueça de que a vida, às vezes, nos mete em grandes enrascadas, tudo pelo nosso melhor.
- Como melhor?
Veja como está a vida de Virgílio!
Ou a vida de Nicole!
Crê que estão caminhando para o melhor?
- Ele fez sua escolha, arcou com as consequências delas, aprendeu com o sofrimento, e no momento está repensando sua vida.
Aos poucos ele está se desenvencilhando de seus medos, culpas e frustrações.
Logo vai assumir poder completo sobre sua vida e fazer novas escolhas, descobrir que ainda é possível ser feliz.
- Fiquei preocupado com Nicole.
- Estou cuidando dela - anuiu Everaldo.
- Então vai ser reprovado.
Que espécie de guia é você que deixa sua protegida afundar-se num mundo tão vil quanto o da dependência química?
Everaldo fuzilou-o com o olhar.
Consuelo interveio:
- Vamos nos acalmar.
Ela os afastou e indicou uma poltrona para cada um.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 16, 2015 8:10 pm

Ambos obedeceram e sentaram-se.
Consuelo procurou ser didáctica:
- A nossa tarefa, qual é?
Homero respondeu tímido:
- Nossa tarefa se resume em amparar um espírito com o qual temos afinidade, durante toda a sua jornada na Terra.
- Isso mesmo - afirmou Consuelo.
Todas as pessoas possuem um guia, um mentor.
Geralmente, são designados os espíritos afins e simpáticos para estabelecer tal relação.
Um guia espiritual é via de regra, um espírito mais evoluído que o seu protegido.
Não raro, se vêem mães guiando filhos ou maridos guiando esposas, e assim por diante.
Um guia acompanha o seu protegido, oferecendo-lhe apoio num momento de sofrimento, esclarecimento numa hora de dúvida, ajuda num instante de perigo, etc.
As pessoas, mesmo sem perceber, estão submetidas à influência benévola desse guia constantemente e, ao mínimo pensamento feito a ele, o bondoso espírito se faz presente e exerce sua tarefa caridosa e despretensiosa.
Homero assentiu com a cabeça.
Lembrou-se do curso de guia espiritual que fizera anos atrás.
Everaldo tomou a palavra:
- Um guia está profundamente ligado a seu protegido por motivos de afinidade espiritual e sempre executa sua missão com sentimento espontâneo de ajuda, porquanto essa ajuda também significa o seu próprio desenvolvimento e evolução.
A terminologia "anjo da guarda", utilizada por outras religiões, se encaixa no equivalente a protector espiritual ou mentor espiritual, pois se enquadra perfeitamente para esse espírito missionário, que consiste no amigo constante e amoroso que a vida dispõe a todos os encarnados durante sua vida no orbe terrestre.
- Estamos num estágio de evolução em que cada ser encarnado na Terra está ligado a um protector, um guia espiritual.
Todos, sem excepção.
Acontece que alguns são receptivos a esses guias.
Outros nem imaginam que eles estejam por perto.
E outros até conseguem afastá-los de suas vidas.
- Afastá-los?
- Sim.
- Isso é impossível! - exclamou Homero, contrariado.
- Não. Um guia não fica à mercê do encarnado, fazendo-lhe as vontades e protegendo-o vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana.
Um guia tem o papel de orientar, sussurrar palavras de força e estímulo, transmitir mensagens positivas.
Ou você se esqueceu do curso?
- Não me esqueci.
- Qual é o lema de um guia?
- Qual é? - retrucou Everaldo.
- Jamais se intrometer na vida do encarnado.
Consuelo ajuntou:
- Isso mesmo, Homero.
Nós, como guias, não podemos interferir nas decisões, nas escolhas que os encarnados fazem.
Podemos induzi-los a mudar, a tomar outro caminho, mas jamais fazer por eles.
Veja o caso de Nair.
Você só teve permissão de aproximar-se dela caso não interferisse cm sua vida.
Você simplesmente lhe sugere ideias.
Ela tem o livre-arbítrio e pode captar ou não o que você lhe diz.
Mais nada. Fazer por ela é algo que nem mesmo espíritos mais evoluídos que nós, têm permissão de fazer.
Cada ser é único e deve responder por tudo aquilo que pratica, seja bom ou não.
- Mas Nicole pode morrer.
Everaldo interveio, mais calmo:
- Pode, sim.
Em todo caso, um dia todos que estão na Terra vão morrer, vão desencarnar.
Uns mais cedo, outros mais tarde.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 16, 2015 8:10 pm

Homero baixou a cabeça, triste. Everaldo tocou em seu braço.
- Você precisa saber um pouco sobre algumas vidas passadas de sua neta.
- Ajudaria bastante.
- Nicole adoptou uma postura de vítima nas duas últimas encarnações por conta de uma desilusão amorosa.
Sentindo-se traída e sozinha, ela afundou-se no álcool e morreu em decorrência dos excessos provocados pela bebida.
Surgiu nova oportunidade de reencarne, e então Nicole nasceu numa família rica, só que dessa vez sem perspectiva de vida afectiva, a fim de evitar nova desilusão amorosa.
Entretanto, Nicole ansiava por nova paixão.
Seu espírito possuía esse temperamento, e ela não conseguiu evitar.
Apaixonou-se de novo.
Everaldo suspirou.
Em sua mente vieram muitas lembranças.
Era como se ele pudesse voltar e reviver aqueles tempos.
- Nicole apaixonou-se perdidamente por um oficial do exército inglês e parecia que tudo caminhava para um final feliz, porquanto ele também a amava.
- Então ela teve uma vida feliz, suponho?
- Ledo engano.
- O que aconteceu? - indagou Homero, apreensivo.
- Tudo mudou assim que Nicole recebeu um telegrama do Departamento Britânico de Guerra.
Os telegramas, nos idos de 1916, eram enviados somente em caso de morte.
Nicole entrou em profunda depressão.
Desesperada, perdida e sem rumo, novamente atirou-se à bebida.
Só que naquele tempo as pessoas começavam a se viciar em drogas.
Muitos usavam ópio e heroína.
Nicole afundou-se nas drogas e desencarnou.
Agora procuro ajudá-la a se afastar das drogas e não sucumbir novamente.
Mas isso compete ao espírito dela.
Não posso intervir.
Nem tenho permissão para isso.
Consuelo acrescentou:
- Para que serviria viver na Terra se, a todo problema, um guia pudesse intervir e fazer o que compete ao encarnado!
Homero mordeu os lábios:
- Você tem razão - e, virando-se para Everaldo, perguntou:
- Por que se interessa tanto por Nicole?
Everaldo exalou profundo suspiro.
Encarou Homero nos olhos.
- Fui eu que abandonei Nicole, duas encarnações passadas.
Homero olhou-o espantado.
- Você?
- Sim.
Everaldo fechou os olhos e novamente voltou à forma de duas vidas atrás, da época em que Nicole se viciou pela primeira vez.
- Faço o possível para que ela consiga vencer o vício.
Uma parte minha se sente responsável por tudo isso.
Sei que somos cem por cento responsáveis por tudo que nos acontece, entretanto eu contribuí para o infortúnio de Nicole.
É uma questão de consciência, e, ao invés de me matar de culpa, procuro fazer algo de positivo, algo de bom.
- Everaldo tem conseguido grandes feitos.
Entretanto, há um obsessor encarnado, se assim podemos chamá-lo, que atrapalha bastante.
- Quem é? - indagou Homero, interessado.
- Trata-se de Artur.
Ele tem forte ascendência sobre Nicole - declarou Consuelo.
Artur e Nicole se encontraram no umbral, após sua última encarnação.
Ficaram anos encostando em encarnados viciados e sugando-lhes as energias para sentir o prazer que a droga lhes proporcionara em vida.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 16, 2015 8:10 pm

Muito dos que morreram vítimas da dependência química, hoje no umbral, abusam de Nicole e Artur.
Ou seja, estão fazendo a eles o mesmo que os dois faziam quando desencarnados.
- Situação complicada para todos.
- Mas tudo caminha para o melhor - tornou Everaldo, sorrindo.
Estou ao lado de Nicole e me comprometi que vou ajudá-la no que for possível.
Penso em voltar a Terra como seu filho.
- Isso seria maravilhoso.
Nicole poderia se livrar das drogas, tornar-se mãe, constituir família e ser feliz.
- É o que almejo - concluiu Everaldo.
A conversa fluiu agradável até o momento em que Homero sentiu sinal de perigo.
Consuelo, sentada a seu lado, fez sinal afirmativo com a cabeça.
- Pode descer.
Estou sentindo cheiro de confusão.
Eu e Everaldo vamos ficar na vibração positiva.
Boa sorte.
Homero levantou-se de um salto e sumiu.
Em instantes estava novamente dentro do carro.
Virgílio continuava falando sobre sua filha, sua vida, seus problemas.
Discursava sobre seu casamento malogrado, suas frustrações, enfim, fazia um desabafo completo e total de tudo que vinha lhe acontecendo nos últimos anos.
Nair estava sensibilizada e num ou outro momento deixou que lágrimas escorressem pelo canto do olho.
Homero viu pela janela lateral, mas nada pôde fazer para evitar a tragédia que se abateria sobre ambos.
Ele fechou os olhos e orou, orou com força e vontade.
Logo pequena luz se fez presente dentro do veículo.
Ivana apareceu em total descontrole, feito um bicho.
Saltou do táxi e avançou para cima do carro.
Antes, pegou um pedaço de uma barra de ferro no meio da rua e o arremessou sobre o veículo, repetidas vezes.
Nair encolheu-se no banco e Virgílio fechou os vidros.
Ivana estava fora de si.
- Malditos! Ordinários!
Saiam já desse carro.
Eu vou acabar com a vida dos dois, ou não me chamo Ivana!
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 16, 2015 8:11 pm

CAPÍTULO 17

Bruno e Daniel resolveram dar uma volta enquanto Sílvia e Michele seguiram até uma loja de roupas femininas.
- Não demorem - asseverou Bruno.
Estamos com fome.
- Seremos rápidas - disse Sílvia. - Bem rápidas.
Despediram-se com um aceno.
Bruno e Daniel se entretiveram numa loja de artigos electrónicos enquanto as garotas passeavam, gesticulando animadas, olhando as vitrinas.
Sílvia encantou-se com um modelo de blusa numa vitrina e sugeriu:
- Gostei. Vamos dar uma olhada?
Entraram e foram atendidas em seguida.
- Desejam alguma coisa?
- Estou interessada naquela blusa que está na vitrina - Sílvia apontou com os dedos.
- Essa blusa está vendendo bastante.
É muito bonita.
Você tem excelente gosto.
- Obrigada.
- Qual o número, por favor?
- Creio que tamanho médio.
- Hum, infelizmente esse tamanho está em falta.
Mesmo assim, vou dar uma olhada no stock. Um minuto só.
Sílvia foi para o meio da loja.
Michele comentou:
- Gostei muito dessa moça.
Parece ser bem simpática, tem uma energia muito boa.
- Também senti a mesma coisa - concordou Sílvia.
Letícia voltou em seguida com dois modelos.
Estava desolada:
- Desculpe-me, mas só temos tamanho grande.
Creio que teremos o seu número em stock daqui a uns dois dias.
- Que pena! - tornou Sílvia.
Gostei bastante do modelo.
A gerente aproximou-se.
- Algum problema?
- Não - respondeu a vendedora.
Esta senhorita estava procurando pela blusa da vitrina, mas não temos o número dela.
A gerente encarou Letícia de maneira atravessada.
- Verificou se o modelo que veste a manequim na vitrina é tamanho médio?
- Sim, fiz isso assim que retornei do stock, mas o modelo da vitrina veste tamanho grande.
- Experimente - sugeriu a gerente, encarando Sílvia, com sorriso patético nos lábios.
- Não, obrigada.
- Por quê?
- Eu não uso um tamanho tão grande assim.
Prefiro esperar pelo modelo médio.
- Você tem os ombros largos, talvez o grande não fique tão mal - insistiu a gerente.
Sílvia ia responder, mas Letícia retrucou:
- Não vai ficar bom - disse, virando-se para a gerente.
- Ela usa tamanho médio, e não grande.
A gerente fuzilou-a com o olhar.
Sílvia e Michele perceberam a saia justa.
Sentiram-se constrangidas.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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