O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 16, 2015 8:11 pm

Sílvia tomou a palavra:
- Aqui está o meu número de telefone.
Ela anotou-o num papelzinho.
- Assim que chegar o próximo lote de blusas, você me liga.
Letícia sorriu e agradeceu.
As duas estavam saindo da loja quando o bate-boca começou.
Sílvia e Michele pararam para escutar.
A gerente estava possessa:
- Podia ter empurrado aquela blusa.
- Eu não sou de empurrar nada para ninguém.
- Por que não?
- A moça queria tamanho médio.
Se não o temos, paciência.
- Você não sabe vender.
- Como não?
- Crê que elas vão voltar?
- Claro que vão. Fui cortês.
- Tola! Acredita nisso?
Elas nunca voltarão.
- Vão voltar, tenho certeza.
- Você perdeu uma cliente.
Você mal a conhece...
Podia ter empurrado a blusa.
- Pelo menos a minha consciência está tranquila.
- Consciência tranquila e comissão de menos.
Deixou de ganhar por quê?
Afinal, até que ela era bem peituda...
Tenho certeza de que o tamanho grande lhe serviria melhor.
Sílvia ouviu e não gostou.
Rodou nos calcanhares e voltou, imediatamente.
- Escute que tipo de gerente é você?
- Perdão? - volveu a mulher numa voz fria e impessoal.
- Não é de bom-tom falar mal do cliente.
A mulher ficou pasma, uma cor no rosto entre amarelo e verde, talvez.
- Sinto muito.
Eu não quis dizer isso - tentou se desculpar.
- E que essas vendedoras me tiram do sério e...
- Além de não assumir a responsabilidade pelo que fala, tem de culpar outra pessoa?
Que falta de carácter!
Letícia anuiu:
- Estou farta.
Estou cansada de sua falta de carácter, de sua insegurança, de eu ter de fazer o trabalho pesado e você que leva os louros.
- Ei, mocinha, meça bem suas palavras quando se dirigir a mim.
Não se esqueça de que minha cunhada é a dona dessa loja.
- Eu me demito.
A gerente olhou-a espantada.
Letícia era a melhor vendedora da loja. Não podia perdê-la.
E, para piorar, ela própria seria demitida, caso não fechasse a meta de vendas do mês.
Tentou reconsiderar:
- Não me venha com ameaças.
Só por conta de uma situação criada por você e uma cliente qualquer.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 16, 2015 8:11 pm

- Eu não criei situação nenhuma.
E todo cliente deve ser tratado de maneira especial.
São eles que pagam a minha comissão, o meu salário - apontou para o rosto dela - e o seu salário.
- Calma!
- Quero minhas contas.
- Você não pode me deixar na mão.
- Posso, sim. Estou cheia.
Você é desumana.
Não nos dá valor.
Não tenho mais nada a fazer aqui.
A gerente irritou-se e perdeu a compostura.
- Você recebeu semana passada e não fez nenhuma venda até agora.
Não temos nada para acertar.
Pode apanhar suas coisas e ir.
Mas tenha certeza de que, caso se arrependa, aqui você não bota mais os pés - ameaçou.
- Nem ela nem eu - afirmou Sílvia.
Você não tem um pingo de profissionalismo.
Se eu conhecesse a dona da loja, não hesitaria em discorrer sobre suas péssimas qualidades.
- Como?
- Isso mesmo - afirmou Sílvia.
Você é péssima gerente.
A mulher descontrolou-se e passou a falar num tom acima do normal.
Letícia foi até os fundos e apanhou seu casaco e sua bolsa.
Michele tocou-lhe no braço.
- Você está bem?
- Sim, estou.
- Tem certeza?
- Quer dizer, estou meio aturdida.
Eu preciso de trabalho, mas não posso me submeter mais os caprichos dessa mulher.
Estou de consciência tranquila.
Logo vou arrumar emprego bem melhor.
- Muito antes do que você pensa - disse Michele, com convicção.
- Eu também acho - ajuntou Sílvia.
Adorei sua postura.
Se precisar de alguma coisa, posso falar com amigos.
De repente, você consegue um bom emprego.
- Obrigada.
- Estou com tanta fome... - disse Michele.
Os meninos devem estar nos esperando.
- E você? - perguntou Sílvia para Letícia.
Está com fome?
- Sim, mas marquei com meu namorado em frente à lanchonete, lá em cima.
- A que horas você marcou? - indagou Sílvia.
- Nove. E quando eu saio, quer dizer, costumava sair do trabalho.
E ainda são sete e meia.
- Faça-nos companhia. Será um prazer.
Letícia estendeu o braço e apresentou-se.
Michele e Sílvia fizeram o mesmo.
- Você é muito simpática, nasceu para trabalhar com o público.
É atraente, cordial, atenciosa, tem fala pausada - ajuntou Michele.
- Adoro atender as pessoas...
A conversa fluiu agradável e em instantes estavam as três na companhia de Daniel e Bruno.
Compraram lanches e refrescos, escolheram uma mesinha na praça de alimentação e Letícia se enturmou rapidamente no grupo.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 16, 2015 8:11 pm

Mariana chegou à porta de sua casa e agradeceu aos céus assim que meteu a chave na fechadura e entrou.
Acendeu a luz. Ninguém estava lá.
Provavelmente a mãe fora fazer uma entrega ou visitar uma cliente, e ainda era cedo para Letícia voltar do trabalho.
Ela suspirou e jogou-se pesadamente sobre o sofá.
Estava cansada e triste.
Não podia imaginar que Inácio fosse defender a ordinária da Teresa.
Como alguém podia ser capaz de mudar a personalidade em tão pouco tempo?
Como ela pudera se deixar enganar por aquele homem que tanto amava?
A jovem balançou a cabeça para os lados.
Que situação esquisita...
Ela ainda nutria forte sentimento por Inácio.
Sentia que ainda o amava.
Mas o que fazer se ele se mostrava homem frio e insensível?
E ainda por cima era cego a ponto de continuar amigo de Teresa?
Essa era demais!
- Ah, Teresa! - suspirou.
Você é uma pedra no meu sapato.
Ela levantou-se com esforço e apagou a luz.
Tacteou os móveis e deitou-se no sofá, pensando em sua vida e em Inácio.
Teresa ajeitou os cabelos e retocou os lábios com batom.
A cena no bar tinha sido inesquecível e lhe renderia bons frutos.
Só não poderia deixar que as fotos chegassem até Mariana, por enquanto.
- Isso não pode acontecer agora.
Ela vai explicar que o rapaz a estava socorrendo, e naturalmente Inácio perceberá que foi um mal-entendido.
Vai perdoada, porque está apaixonado.
Preciso ganhar tempo.
Ela piscou para sua imagem reflectida no espelho e saiu.
Encontrou Inácio terminando de preencher o cheque.
- Já vamos?
- Sim - respondeu ele, num tom ríspido.
Não temos mais clima para ficar neste bar.
As pessoas estão apontando para nós e fazendo comentários, dando risada nas nossas costas.
Teresa sacudiu os ombros.
Ela não se importava com os outros, não estava nem aí, mas já não via mais motivos para ficar lá com Inácio, jogando conversa fora.
A sua companhia era extremamente desagradável.
Teresa fingia gostar dos mesmos assuntos.
Fazia tremendo esforço para sorrir e afirmar que adorava músicas românticas.
Pensou:
"Odeio músicas românticas, sentimentalismo barato.
Inácio é um tonto apaixonado.
Tenho de fortalecer seu interesse por mim.
Enquanto isso, preciso esforçar-me e aguentar sua conversa idiota e insossa.
Ela levantou os lábios, fingindo contentamento:
- Podemos ir.
- Não.
- Como não, Inácio?
- Vamos em carros separados.
- Eu vim com você.
Meu carro está na garagem da Centax.
Ele abriu a carteira e deu-lhe umas notas.
- Tome um táxi. Eu não estou bem.
Preciso ir para casa.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 16, 2015 8:11 pm

- Mas como?
- Desculpe-me. Boa noite.
Disse e saiu em disparada.
Teresa ficou fula da vida.
Nenhum homem a deixava assim, largada.
Tudo bem que o tonto ainda estava apaixonado pela sem graça da Mariana e estivesse abalado com a briga entre elas.
Mas custava deixá-la em casa?
Quanto desaforo!
Ela rangeu os dentes de raiva.
- Ele me paga.
Ajeitou o decote do vestido e saiu.
Teresa andou alguns metros na calçada a fim de fazer sinal para o táxi, quando uma mão vigorosa apertou-lhe o braço.
Ela deu um gritinho de susto.
Recompôs-se e perguntou, aturdida:
- Você? O que faz aqui?
- Quero dinheiro.
- Não tenho dinheiro.
Artur estava descontrolado.
Os olhos pareciam querer saltar das órbitas, e círculos arroxeados ao redor dos olhos demonstravam que estava sem dormir havia dias, talvez.
Suas pupilas estavam comprimidas.
Uma baba espessa e branquicenta escorria pelo canto de sua boca.
Os cabelos estavam em desalinho.
A aparência era de um típico drogado.
Teresa desenvencilhou-se dele:
- Ei, eu o paguei pelas fotos.
O que mais quer?
- Só posso recorrer a você.
- Não tenho dinheiro agora.
- Eu preciso de droga, entendeu?
- E eu com isso?
Dei muita droga a você nesta vida.
- Por favor, Teresa.
Estou desesperado.
- Peça à sua namoradinha, oras!
- Nicole me arrumava bastante droga, me dava de presente.
Só que ela está tentando ficar limpa, está se tratando e até frequenta reuniões nos Narcóticos Anónimos.
- Bom para ela. Por que não faz o mesmo?
- Não consigo.
E também não quero - esbracejou. - não tenho recursos para manter meu vício.
- Problema seu.
Artur irritou-se.
- Problema nosso!
Vou entregar os negativos das fotos para o Inácio.
A irmã da Mariana está namorando o rapaz da foto, você sabia disso?
- E daí?
- Não vai ser difícil desfazer o mal-entendido.
Teresa gelou.
- Eles estão namorando? Isso estraga um pouco os meus planos.
Terei de arrumar outra forma de afastá-los.
- Quero dinheiro.
- Já disse que não tenho.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 16, 2015 8:12 pm

Artur avançou sobre ela e arrancou de suas mãos as notas que Inácio havia lhe dado para o táxi.
- Vou ficar com esse troco.
- Não pode fazer isso comigo.
Vou chamar a polícia.
Teresa ia gritar e pedir ajuda.
Artur aproximou-se e meteu-lhe o dedo em riste.
- O Tonhão me procurou dia desses.
Uma bomba na cabeça de Teresa não teria feito estrago maior do que ouvir aquele maldito nome.
Ela ficou estática, quase escorregou nos saltos.
- O que foi que disse?
Artur gargalhava sem parar.
Estava fora de si.
- Tonhão me disse que o prazo para pagá-lo está chegando ao fim.
Eu posso muito bem entregá-la e...
Ela considerou.
- Não, isso não! Tonhão vai me matar.
Eu não tenho dinheiro.
Preciso de mais tempo.
Interceda por mim.
Artur balançou a cabeça para os lados.
- Não vou fazer nada por você.
Caí neste mundo do vício por sua culpa.
Teresa ia falar, mas Artur a censurou.
- Qualquer dia, volto para pedir mais.
Você me deve.
Artur rodou nos calcanhares e saiu em ziguezague, passos trôpegos.
Dobrou a esquina e sumiu.
Teresa mal podia acreditar na cena.
E agora? Seu tempo estava chegando ao fim, e ela sabia que Tonhão não costumava estender seus prazos.
Ela lhe devia muito dinheiro.
Precisava unir-se a Inácio o mais rápido possível.
No entanto, procurou não entrar em pânico.
Cada coisa de uma vez.
Tinha de primeiro ir para casa.
Não tinha dinheiro para um táxi, e o carro estava um tanto longe dali.
Teresa respirou fundo, ajeitou o decote do vestido e voltou para o bar.
Não foi difícil encontrar um pretendente.
Havia vários e escolheu um senhor meio bêbado.
Aproximou-se e, com voz que procurou tornar sensual, ofereceu:
- Posso me sentar a seu lado?
O senhor assentiu e Teresa sorriu.
Teria de fazer um pouco mais de sacrifício, mas iria para casa de carro.
Ah, se iria... Nair chegou em casa e também agradeceu por estar bem e viva.
Fazia muitos anos que não via Ivana e, aparentemente, salvo uma ruga aqui e ali, ela ainda continuava a mesma.
Na aparência e nas atitudes.
O tempo passou, porém ela continuava nervosa e atacada, sempre histérica.
- Santo Deus!
Ela continua igual.
Se continuar desse jeito, desesperada, em constante tensão, vai ter um ataque, um derrame.
- Falando sozinha, mãe?
- Oh, Mariana, não sabia que estava em casa.
Por que está tudo escuro?
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 16, 2015 8:12 pm

- Estava reflectindo.
- O que foi?
- Estou tão desiludida... - falou e desatou a chorar.
Nair acendeu a luz e suspirou.
Ela também precisava de alento, mas Mariana estava bem fragilizada.
Aproximou-se da filha, sentou-se ao seu lado no sofá.
Acariciou seu rosto.
- O que tanto a aflige?
Mariana não respondeu.
- Pelo jeito, o encontro com Inácio não foi tão agradável...
- Não, mãe - disse ela chorosa.
Encontrei-o com outra.
- Oh, pobrezinha, desabafe.
Sou toda ouvidos.
- Seu aspecto também não é nada agradável.
O que aconteceu?
- Uma história triste de cada vez.
Conte-me a sua e em seguida eu lhe conto a minha.
Mariana esticou-se no sofá.
Ergueu o corpo e deitou o rosto sobre as pernas da mãe.
- Fui atrás do Inácio.
- E então?
- Ele estava com a Teresa Aguilar.
- Como? - perguntou Nair, assombrada.
- Fui até a Centax e a secretária me informou que ele tinha saído com a Teresa.
Passou-me o endereço e saí feito uma maluca atrás dos dois.
E não é que os flagrei juntos?
- Juntos? Como?
- Juntos, oras.
Conversando, rindo.
- E então?
Mariana bufou.
Sentia-se envergonhada pelo ocorrido.
- Perdi o controle.
Avancei sobre a Teresa, puxei-lhe os cabelos.
Foi horrível.
- Por que foi perder a compostura, minha filha?
- A cabeça estava quente.
- E qual foi à reacção de Inácio?
- A pior possível.
- Dá para imaginar.
- Ele me mandou embora!
Disse que depois conversaríamos.
- Inácio agiu de maneira sensata.
- Saí daquele bar, tão irritada, desnorteada mesmo.
Cheguei em casa e fiquei meditando no escuro.
A Teresa aprontou alguma coisa.
Algo me diz que ela jogou areia em nosso namoro.
- Acredita mesmo nisso?
- Afirmativo. Ela tem mania de chamar todo mundo de querido, de querida.
É irritante. Mas foi justamente por causa dessa mania que acabei concatenando as coisas.
- Coisas? Que coisas?
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 16, 2015 8:12 pm

- Lembra-se do trote?
De quando disseram que Inácio estava num restaurante acompanhado de uma bela loira?
- Sim.
- Foi à mesma inflexão de voz, o mesmo tom jocoso e irritante.
Lembro-me como se fosse agora.
A moça no telefone dizia "Oi, querida", "Viu, querida", igualzinho ao modo de Teresa falar.
E lá no bar a Teresa me olhava como se estivesse satisfeita, esperando por aquilo.
Nair lembrou-se de muitos anos atrás, quando teve encontro com Ivana e esta a encarou da mesma maneira.
Ela pensou:
"Será que Mariana vai ter o mesmo desgosto?
Ela não merece passar pelo mesmo sofrimento que eu.
Farei de tudo para evitar que ela tenha uma vida como a que tive.
Mariana merece ser feliz."
Nair abraçou-se à filha.
- Não fique assim. Tudo se resolve.
- Francamente, estou decepcionada.
- O melhor a fazer é sentar-se com Inácio.
Conversar sempre é bom e não arranca pedaço.
- Estava pensando nisso.
Mas procurá-lo depois de tudo isso?
- Minha filha - ela passou-lhe a mão pelos cabelos -, de que vai adiantar deixar as coisas como estão?
Se acreditar verdadeiramente que Teresa esteja atrapalhando a relação de vocês, procure Inácio e converse com ele.
- Mesmo que ele não queira mais reatar o namoro?
- Mesmo assim.
Você tem sua dignidade.
Não pode baixar a crista desse jeito.
Não conheço homem que goste de mulher sem atitude.
Nos tempos actuais, a mulher precisa ter opinião, expressar seus sentimentos.
A não ser que você não o ame...
Aí é diferente.
- Não, mãe!
Eu o amo.
- Mesmo depois de toda a confusão?
- Sim.
- Então vale à pena.
Converse com ele.
- Você está certa.
Ficar na dúvida só me traz perturbação.
- Ligue e converse com ele.
Ele vai recebê-la, e tendo certeza de que vão se entender.
Mariana abraçou-se à mãe.
- Como eu precisava ouvir essas palavras!
Você não sabe quanto essa conversa me confortou.
- As mães servem para alguma coisa disse Nair, em tom de brincadeira.
- Nem me fale...
Eu só tenho você e Letícia.
Sinto saudades do papai, mas eu sempre me abri com você, sempre fomos mais íntimas.
Nair suspirou:
- Eu e seu pai cumprimos nosso ciclo.
Ele se foi, e eu continuo aqui, portanto preciso me dar forças para viver.
Lembro-me de que foi muito duro o início da viuvez.
Seu pai ganhava bom ordenado e era bom companheiro.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 16, 2015 8:12 pm

De repente, de uma hora para outra, fiquei sem marido e sem sustento.
- Mas fomos nos adaptando à realidade.
Consegui bolsa na faculdade, formei-me e estou prestes a ser promovida na clínica do Dr. Sidnei.
A Letícia tem seu emprego e praticamente sustenta esta casa.
Você saiu daquele estado depressivo, venceu a tristeza e reagiu.
Agora faz pequenos consertos, costura para fora, conquistou freguesia e está fazendo bom dinheiro.
Logo poderá pensar em montar um negócio.
- Nunca pensei que pudesse ter uma profissão, um trabalho.
Tomei bastante gosto pela costura.
Outro dia apanhei alguns cadernos do curso de modista.
Devia ter me dedicado mais ao corte e costura.
- Nunca é tarde.
- Será? Passei dos quarenta anos.
- Não exagere.
Mal completou quarenta.
Tudo preconceito.
Não há idade certa para se começar alguma coisa, um trabalho, um relacionamento, um negócio.
Acreditar que idade faça a diferença é crer em limites.
Por que não pode ser dona de seu próprio negócio?
- Seria tão bom!
Penso numa confecção.
- Excelente ideia.
Letícia leva jeito para lidar com o público.
Você coordena os trabalhos, dá emprego a quem precisa, gera renda, e Letícia vai vender os modelos.
- Ah, quem me dera...
Adorei a ideia.
Eu, uma simples dona de casa, transformando-me numa empresária, gerando empregos, tendo responsabilidade social.
- Por que não?
Qual é a principal empresária turística deste país?
Nair pensou por instantes.
- A Stella Barros, cuja companhia leva seu nome.
- Isso mesmo, mãe.
E sabe quantos anos ela tinha quando começou seu negócio?
- Não faço ideia.
- Dona Stella tinha quarenta e sete anos.
- Quarenta e sete?
Tem certeza, Mariana?
- Sim. O genial Walt Disney fundou a Disneylândia em 1957, em Anaheim, na Califórnia.
Stella Barros teve ideia original e passou a acompanhar, pessoalmente, seu primeiro grupo de turistas ao parque temático.
Ela fez isso até 1965, porquanto a grandiosidade e as dimensões do negócio já não permitiam que ela atendesse seus clientes pessoalmente.
Daí veio a Stella Barros Turismo, em 1965.
Dona Stella, ou Vovó Stella, como é conhecida, contava então com cinquenta e sete anos de idade.
Essa história lhe serve de estímulo?
Nair riu.
- E como! Na realidade, eu tenho mais dezassete anos para começar.
- Não seja molenga!
Mariana partiu para cima da mãe e fez-lhe cócegas.
Nair procurou desenvencilhar-se da filha e cada uma caiu numa ponta do sofá.
Ambas estavam mais leves.
Nair sorriu feliz.
- Não temos do que reclamar.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 16, 2015 8:12 pm

- Vamos melhorar cada vez mais.
Mariana notou que, embora descontraída, Nair chegara em casa preocupada, aflita.
- Mãe, notei que você chegou angustiada.
Onde estava até agora?
Nair pensou e pensou.
Para que mentir?
Mais cedo ou mais tarde o assunto viria à baila e ela precisaria contar com o apoio das filhas.
De nada adiantava evitar.
Teria de enfrentar os fantasmas do passado e passar sua vida a limpo.
E esta noite parecia ideal pata começar.
Ela afirmou:
- Estive com um amigo.
Mariana fez uma careta.
- Amigo?
- Como assim? - Mariana riu.
Explique melhor isso.
- Um amigo de longa data.
- Nunca soube que você tivesse um amigo de longa data, mamãe.
- Há algo que preciso contar a você e sua irmã.
Tem a ver com meu passado.
- Se quiser, pode me contar agora.
Sou toda ouvidos.
Nair fechou os olhos e pediu ajuda ao alto, à sua maneira.
Sentindo-se mais amparada após a pequena prece, sua memória voltou alguns anos no tempo.
- Eu era uma moça cheia de vida, bonita e muito apaixonada.
- Pelo papai?
- Não. Seu pai apareceu depois.
Mariana procurou ocultar o espanto.
Nada disse.
Percebeu que o assunto era sério e queria deixar a mãe à vontade.
Nair, por sua vez, decidiu contar somente o necessário, omitindo factos desagradáveis que no momento não interessariam a Mariana, tampouco a Letícia.
Encheu os pulmões de ar e prosseguiu:
- Apaixonei-me perdidamente por um rapaz.
Ele já era homem formado, uns doze anos mais velho que eu.
Infelizmente, pertencíamos a classes sociais bem distintas.
Ele era rico, bastante rico.
Então nos separamos.
Nair deixou escorrer uma lágrima.
- Foi muito duro ter de abandoná-lo, mas não havia saída.
A família dele era contra, havia interesses financeiros por trás de tudo, e no final das contas os interesses da família dele ficaram acima de nossos sentimentos.
Triste e abatida,
decidi que não queria mais nada, mais ninguém.
Fechei-me no mundo e fui adoecendo, perdendo as forças.
- Eu nunca poderia supor que você tivesse sofrido por amor.
- Mas sofri. Sofri muito.
Chorei escondida, tinha crises depressivas, vontade de morrer.
Algum tempo depois, conheci Octávio numa festa.
Ele também tinha acabado de sofrer uma desilusão amorosa.
- Mesmo?
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 16, 2015 8:13 pm

- Sim. Seu pai flagrou sua noiva nos braços de seu melhor amigo.
Ficara horrorizado e bastante ferido em seus sentimentos.
Na verdade, nós nos unimos pela dor.
Um apoiou-se no outro, e assim resolvemos nos dar a chance de uma vida a dois.
- E conseguiram.
Nair passou novamente os dedos pelo rosto de Mariana.
- Você se parece muito com seu pai.
Os mesmos OLHOS, O nariz fino... - Nair deu novo suspiro.
Enfim, eu e ele nos casamos, acreditando que o matrimónio pudesse cicatrizar nossas feridas emocionais.
Casamo-nos sem amor. Nenhum enganou o outro.
Eu sabia que seu pai amava muito a sua noiva e ele sabia que eu continuava apaixonada por Virgílio.
Entretanto, ambos tentamos esquecer e tocar a vida adiante.
Criamos uma aura de respeito e cumplicidade, mas totalmente desprovida de amor, visto que o coração de ambos estava ligado em outras pessoas.
- Eu notei, quando adulta, que vocês mal se abraçavam ou se tocavam.
Achava que isso era decorrência da rotina, dos anos do casamento.
Mas agora tudo faz sentido.
- Eu e seu pai nunca representamos.
Havia respeito mútuo, mais nada.
- Os dois sofriam por amor.
- Sim.
Mariana emocionou-se. Abraçaram-se.
- Que barra deve ter sido para os dois.
E vocês voltaram a encontrar esses amores do passado?
- Pensamos, eu e seu pai, em nos mudar de cidade, a fim de não os encontrar.
Mas estávamos bem apertados financeiramente e surgiu a oportunidade de um bom cargo na empresa de componentes electrónicos.
Seu pai aceitou o cargo e nos mudamos para a Vila Carrão.
Naquele tempo, essa região era bem afastada, não tínhamos avenidas largas.
Nem trajecto de metro havia.
- Permaneceram na mesma cidade...
Que perigo!
- A noiva de seu pai voltou a procurá-lo logo que Letícia nasceu.
Disse que estava doente arrependida.
Disse que tinha pouco tempo de vida e desejava seu perdão.
- E papai?
- Embora estivesse profundamente magoado, Octávio a perdoou.
Lídia massacrara seu coração, mas o que ele podia fazer?
Seu grande amor estava arrependido e estava à beira da morte.
Ele não tinha por que não perdoá-la.
Quando soubemos da morte de Lídia, seu pai tornou-se mais amoroso com você e Letícia.
Parecia que todo o amor que ele represara por Lídia fluíra para as filhas.
- Papai era bastante amoroso.
Sempre foi muito carinhoso comigo e com Letícia.
- Octávio foi marido formidável, pai exemplar.
Cumpriu direitinho seu papel.
Foi bom pai, bom marido, respeitador, atencioso, amigo.
Mas nunca nos amamos.
Isso eu posso lhe jurar.
- E agora você voltou a encontrar esse... esse...
- Virgílio.
- Ele é viúvo também?
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 17, 2015 10:10 pm

- Não. Casou-se na mesma época que eu, mas parece viver um casamento tortuoso.
Ele e a esposa também não se amam, vivem às turras e estão para se separar.
- Você tem chance de ser feliz.
- Sim. Mas ele tem uma filha que é viciada em drogas.
- Isso é mau.
- Ele tem me procurado desde que Octávio morreu.
Diz que precisa de ombro amigo para desabafar e acredita que eu posso ajudá-lo na cura da filha.
- Situação delicada essa...
Você até pode ajudar a menina, mas ele ainda é casado, né, mãe?
Isso pode lhe trazer problemas.
Nair fechou os olhos e lembrou-se de horas atrás, quando Ivana tentou destruir o carro de Virgílio e surrar os dois.
Ela deu novo suspiro e concordou:
- Não tenha dúvida.
Ele ainda é casado, e isso pode me trazer problemas.
No canto da sala, dois espíritos ouviam a conversa.
Octávio estava emocionado.
- Ela sempre me respeitou nunca me traiu.
- Nair é uma grande mulher.
- Creio que ela agora tem o direito de ser feliz.
- Você está coberto de razão - anuiu Lídia.
Nair merece uma nova chance.
Aproveite o momento de harmonia e despeça-se delas.
Octávio aproximou-se e beijou a filha na testa.
Aproveitou e fez o mesmo na fronte de Nair.
Agradeceu-lhe por ter sido sua companheira em sua jornada.
Depois, segurou a mão de Lídia.
- É hora de cuidarmos da nossa felicidade, Lídia.
- Prometo a você, Octávio, que agora tudo vai ser diferente.
Ela sorriu e, num segundo, ambos os espíritos desvaneceram no ar, deixando sobre Nair e Mariana uma luz intensa, composta de vários matizes, causando-lhes agradável sensação de bem-estar.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 17, 2015 10:10 pm

CAPÍTULO 18

Rogério chegou no horário, nove horas da noite, em ponto.
Estranhou ver Letícia rodeada de pessoas que ele não conhecia.
Pareciam ser simpáticos os casais, mas ele ficou um tanto ressabiado.
Aproximou-se e, mesmo hesitante, cumprimentou a todos com seu sorriso cativante.
Letícia levantou-se de pronto.
- Oi, amor.
Chegou bem na hora.
Ele beijou-a nos lábios.
- Boa noite.
Letícia introduziu o namorado à turma.
De repente, Rogério ficou estático.
A namorada percebeu e indagou:
- O que foi?
Ele se dirigiu a Bruno.
- Não posso acreditar!
Há quanto tempo!
Bruno levantou-se e deu-lhe um abraço bem apertado.
- Rapaz! Que saudade!
Outro dia eu e papai estávamos falando de você.
- Espero que coisas boas.
Bruno riu.
- Só coisas boas.
Meu pai tem muito orgulho de você.
E eu lhe tenho muita admiração.
- Obrigado.
Letícia estava boquiaberta.
- Vocês se conhecem?
- Há um bom tempo - respondeu Rogério.
Bruno apresentou-o aos demais.
Os casais se levantaram e o cumprimentaram.
Bruno puxou uma cadeira e abriram a roda.
- Três casais reunidos - tornou Rogério.
Difícil de ver hoje em dia.
Sílvia procurou consertar:
- Michele e Bruno namoram.
Eu e Daniel somos só...
Daniel interrompeu-a:
- Somos namorados também - irrompeu o jovem, para surpresa de todos e muito mais para espanto de Sílvia.
O jovem apertou sua mão, deu-lhe um beijo no rosto e sussurrou em seu ouvido:
- Essa foi à maneira que encontrei para me declarar.
Creio que você não vá se opor.
Sílvia estava tão emocionada que mal conseguiu articular som.
Ela simplesmente pendeu a cabeça para cima e para baixo, em afirmativo.
- E vocês? - indagou Bruno, dirigindo-se a Rogério e Letícia.
Namoram há bastante tempo?
Letícia respondeu, animada:
- Foi muito interessante.
Saímos para lanchar e fomos ao cinema.
Quando percebemos, estávamos de mãos dadas e foi inevitável: saímos do cinema já namorados.
- O filme ajudou bastante - constatou Rogério.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 17, 2015 10:11 pm

- O que foram ver? - perguntou Michele.
- Ghost - Do Outro Lado da Vida - respondeu Letícia.
- Esse filme é lindo - respondeu Sílvia.
Tenho certeza de que os roteiristas foram guiados por amigos espirituais, porquanto o filme retrata com bastante fidelidade o mundo espiritual.
- É mesmo? - perguntou Daniel, interessado.
Não assisti.
Letícia animou-se e contou-lhe sobre o filme.
- Sam Wheat, interpretado por Patrick Swayze, e Molly Jensen, vivida por Demi Moore, formam um casal apaixonado e feliz.
A felicidade dura pouco, pois logo suas vidas são destruídas.
Ao voltarem de uma apresentação de teatro, o casal é atacado e Sam é morto.
No entanto, seu espírito não vai para o outro plano, e ele decide ajudar Molly, porquanto ela corre risco de morte.
Quem comanda a trama, e por sinal é o mesmo que tirou sua vida, aparentava ser o melhor amigo de Sam.
Para poder se comunicar com Molly, Sam utiliza Oda Mae Brown, interpretada por Whoopi Goldberg, uma médium charlatona e trambiqueira, mas que consegue ouvi-lo e tenta alertar sua esposa do perigo que ela corre. Daniel adorou.
- Precisamos pegar uma cópia quando sair em vídeo.
- Há alguns momentos cómicos e absurdos - ressaltou Michele -, como no caso em que os espíritos entram no corpo da vidente.
Isso não existe, é pura fantasia.
Quando querem se comunicar, os espíritos se aproximam do médium.
A comunicação se faz de aura para aura, e jamais eles entram no corpo físico.
- Concordo com você - replicou Sílvia.
Mas, no geral, o filme é muito tocante.
O fim da sessão só podia resultar em namoro.
Todos riram. Rogério simpatizou de imediato com os jovens.
Tinha a sensação de conhecê-los de longa data, algo como um déjà-vu.
Bruno encarou-o nos olhos.
- Você tem interesse por assuntos espirituais?
- Sim, sou estudioso do assunto.
- É mesmo? - indagou Michele.
Nós todos aqui estudamos o mundo espiritual.
Eu e Daniel somos médiuns e temos um grupo de amigos sensitivos que nos ajudam a oferecer tratamento espiritual às pessoas carentes e necessitadas da periferia.
- Isso me interessa bastante.
- Você nunca me disse nada a respeito disso - observou Letícia.
Rogério beijou-a no rosto.
- Não fique brava comigo - disse ele, fazendo voz melíflua.
- É que, quando minha mãe morreu, eu me senti bastante perdido.
Eu tinha quinze anos de idade, era católico por convenção.
Minha cabeça estava cheia de dúvidas e perguntas: o quê?
Por quê? Como? Onde?
Rogério fez uma pausa e continuou:
- Foi então que os sonhos começaram.
Michele cutucou Sílvia por baixo da mesa.
Perguntou admirada:
- Sonhos?
- É, sonhos.
Comecei a ter sonhos recorrentes com minha mãe.
Os sonhos eram bem reais, eu parecia estar vivendo-os.
- Como assim? - interessou-se Sílvia.
- Minha mãe ficou muito doente e morreu bastante debilitada.
Fiquei com medo de que ela fosse continuar a sofrer, afinal eu era moleque e mal compreendia os mecanismos da vida e da morte.
Foi quando os sonhos começaram.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 17, 2015 10:11 pm

Minha mãe aparecia e me dizia que estava bem, que estava se recuperando e que logo estaria pronta para novas oportunidades.
Dizia que seu ciclo aqui havia se completado, mas, sempre que possível, ela visitaria a mim e papai.
Rogério pigarreou, a fim de ocultar a emoção.
- Você esteve com o espírito de sua mãe, pode acreditar - afirmou Daniel.
- Eu não estudei nada a respeito.
Uma vez atendi uma senhora na farmácia em que trabalho e ela disse que eu tinha mediunidade.
Fiquei um tanto chocado.
Nunca frequentei centro espírita ou desejei entrar em contacto com espíritos.
Cheguei a ler alguns livros, mas depois parei.
- Ainda tem medo? - indagou Letícia.
- Um pouco, talvez.
Essa senhora me assustou, disse-me que era médium e que, se eu não desenvolvesse minha mediunidade, minha vida iria para trás.
Disse que eu seria presa fácil dos espíritos inferiores.
Michele suspirou e meneou a cabeça para os lados.
- Na verdade, mediunidade não se desenvolve se educa.
Infelizmente, muita gente mal informada acredita piamente que devemos desenvolver mediunidade ou então seremos vítimas de espíritos trevosos pelo resto da vida.
- Isso é verdade? - perguntou Rogério, temeroso. - Particularmente, eu não gostaria de desenvolver ou educar minha mediunidade.
- De forma alguma - devolveu Michele em franco sorriso.
Ninguém é obrigado a nada.
Mas afirmar que não quer educar sua mediunidade é o mesmo que um bebé recusar-se a crescer.
É algo inevitável, compreende?
O surgimento, a abertura da sensibilidade é um fenómeno natural, acontece com todas as pessoas num determinado momento da evolução.
Você pode muito bem fechar os olhos para o assunto, não querer estudar nem mesmo educar sua sensibilidade.
Pode até mesmo fechar o corpo num terreiro, como muitos o fazem.
- Não gostaria de chegar a tanto - disse Rogério, apreensivo.
- Você tem livre-arbítrio e pode fazer as escolhas que quiser.
No entanto, a captação das energias você não poderá evitar.
Ao invés de se sentir mal com a mediunidade, você pode aprender a lidar com ela.
- Mas e se eu não trabalhar com os espíritos?
Minha vida pode ir de mau a pior?
Aquela senhora falou a verdade?
- Não se trata disso.
Aquela senhora lhe disse o que acreditava ser verdade para ela.
Muita gente acredita que, se não trabalhar num centro espírita ou mesmo num terreiro, vai sofrer ou mesmo ter uma vida miserável.
Ledo engano. Gostaria que você soubesse que os espíritos superiores não nos obrigam jamais a fazer o que não queremos.
Espíritos mais atrasados talvez até pensem nisso, mas os superiores não.
Os amigos espirituais do bem aproximam-se de nós para doar amor, lucidez, alegria, contentamento.
Daniel interveio:
- Sua mediunidade é uma ferramenta que pode ajudá-lo a viver melhor.
Você pode ter acesso às verdades do mundo espiritual, à sabedoria dos espíritos superiores.
Pode alimentar seu próprio espírito, acabar com seus medos, valorizar as oportunidades que a vida lhe dá, reciclar seus valores, ampliar seus horizontes.
Mas lembre-se de que tudo isso ocorre somente quando nos ligamos no positivo, na corrente universal do bem, ignorando o mal e acreditando que é possível ser feliz.
Rogério adorou a explanação.
E Bruno finalizou:
- Vou resumir tudo para você: entre o bem e o mal, vai ser você quem vai escolher de que lado vai querer ficar. Entendeu?
Os jovens riram a valer.
Daniel sugeriu:
- Estamos aqui conversando e nem perguntamos se Rogério se alimentou.
- Estou morrendo de fome - afirmou o rapaz.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 17, 2015 10:11 pm

Letícia ofereceu-se para acompanhá-lo e escolher um lanche.
Rogério abraçou-a pelas costas.
- Não imaginei que conhecesse o Bruno e seus amigos.
- Eu os conheci hoje.
Faz pouco mais de uma hora.
- Você está brincando comigo! - exclamou admirado.
- Pura verdade. Nem eu acredito.
- Isso é uma grande coincidência.
- Não acredito em coincidências - replicou ela.
Tudo aconteceu porque me demiti.
- Brigou com a gerente?
- Sim. E foi por isso que os conheci.
Briguei com a gerente e arrumei esses novos amigos.
A troca foi válida.
- Está sem emprego.
- Estou.
- Como vai fazer?
- Eu me viro.
Amanhã saio para procurar alguma coisa.
Vou a uma agência que a Michele me indicou.
Ele coçou o queixo e teve uma ideia:
- Tenho uma proposta a lhe fazer.
- Proposta?
- Sim.
- Se for casamento, ainda estou meio duranga.
- Não, amor - disse ele, rindo.
Eu já estava amadurecendo essa ideia havia algum tempo, mas agora parece que será o ideal.
- O que é?
- A Célia, que trabalha no caixa da farmácia, vai se afastar.
Licença-maternidade.
Será que aceitaria trabalhar no caixa e ser minha funcionária?
Letícia exultou de contentamento.
- Agarraria essa oportunidade com unhas e dentes.
Nem que eu tenha de fazer algum curso para entender melhor os números.
Letícia abraçou-o e beijou-o com amor.
Rogério parecia ser o anjo que Deus lhe mandara.
Ivana acordou com uma enxaqueca daquelas.
Fazia uma semana que havia enlouquecido e praticamente destruído o carro de Virgílio.
Ainda se lembrava e rangia os dentes.
- Maldito! Como pôde ser tão vil?
Falta pouco para assinarmos o acordo e nos separarmos.
Por que tem de se meter com essa fulana?
Não pode esperar um pouco mais?
A empregada apareceu e perguntou se Ivana queria tomar café na cama.
Ela respondeu negativamente com um sonoro berro que ecoou por toda a casa.
A pobre da empregada desceu as escadas aos pulos.
Os empregados tinham verdadeiro pavor de se dirigir a Ivana.
Ela bufou e pegou o maço de cigarros na mesinha de cabeceira.
Acendeu e deu largas baforadas.
Virgílio passava pelo corredor e meteu a cabeça dentro do quarto.
- Está melhor?
- Não me dirija mais a palavra, seu traidor.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 17, 2015 10:11 pm

- Eu não estava fazendo nada.
- Numa rua deserta, àquela hora da noite?
Não sou idiota.
- Estava desabafando.
- Desabafo se faz com psiquiatra, psicólogo ou com o raio que o parta.
Tinha de chorar as pitangas justo com ela?
- Não tive a intenção.
- Você nunca teve intenção.
De nada. Você sempre foi um nada.
- Por que tanta bronca da Nair?
Não está louca para se livrar de mim?
Ela apagou o cigarro e acendeu outro em seguida.
- Não agora. Temos um trato.
Depois, se você vai se casar com ela, se mudar, sei lá, isso é problema seu.
Mas que fiquem bem longe dos meus olhos.
Estou me lixando se você vai se casar com ela ou com beltrana ou sicrana.
Não me importo desde que assinemos a separação e eu receba meu quinhão.
Quero meu dinheiro, mais nada.
- Você vai ter em breve seu dinheiro.
- Ainda bem. Não morro pobre, isso nunca.
- Pode ficar tranquila.
Nunca vai ficar pobre.
- Assim espero.
- Estou preocupado com sua filha.
- Agora se preocupa com os filhos?
Não acha um tanto tarde para começar?
- Nunca é tarde.
- Problema seu.
- Nicole não dormiu em casa de novo.
Ivana deu de ombros.
Ele continuou:
- Bruno me informou que ela não quer mais frequentar as reuniões nos Narcóticos Anónimos nem seguir tratamento espiritual.
Ivana engasgou-se com o cigarro, tamanha a gargalhada que deu.
- E você acreditou que ela fosse se recuperar?
Essa é boa!
- Vale tudo para a recuperação de minha filha.
- Nicole é uma fraca, está perdida.
Eu já disse que não vou mover uma palha para fazer o que quer que seja para ela.
- Você tem responsabilidade.
Ela é sua filha.
Ivana não aguentou.
Apagou o cigarro e, mesmo com dores nas têmporas, consegui atirar o cinzeiro em direcção a Virgílio.
Ele baixou a cabeça e o objecto passou rasante, espatifando-se na parede do corredor.
- Essa foi por pouco.
Está melhorando sua pontaria.
Ele falou e saiu.
Desceu as escadas e ouviu motor de carro no lado de fora da casa.
Pensou ser Nicole.
Animou-se, mas não era.
Uma moça de estatura mediana, cabelos anelados e dourados, pele alva e macia, olhos verdes e expressivos, saltou do táxi.
Virgílio não conhecia a moça.
Achou-a atraente.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 17, 2015 10:12 pm

Afinal, era uma pequena e tanto. Muito bonita.
Ela dirigiu-se até a porta e bateu.
A empregada foi atender, mas Virgílio interrompeu-a.
- Deixe. Eu mesmo atendo.
Ele se pôs à frente e virou a maçaneta.
A garota sorriu, mostrando os lábios vermelhos e carnudos, intercalados por dentes alvos e perfeitos.
Sorriso encantador, por sinal.
Ela se apresentou:
- Aqui é a casa do Sr. Virgílio Gama?
- Eu sou Virgílio.
Ela colocou a mala no chão e estendeu-lhe a mão.
- Como vai, tio?
- Tio?
- Eu sou a Cininha.
Virgílio lembrou-se da sobrinha de Ivana.
Apertou-lhe a mão com satisfação.
- Entre, por favor.
- Obrigada.
- Fiquei ressabiado.
Você ficou de aparecer a quase um mês.
- É que o rapaz dos correios anotou errado o telegrama.
Como sei que tia Ivana não ficará muito contente em me ver, resolvi esperar.
- Pode ficar quanto tempo quiser em nossa casa.
Seja muito bem-vinda.
E, sinceramente, meus pêsames pela passagem de sua mãe.
- Faz mais de um ano, e acostumei-me com a situação.
Mesmo assim, obrigada.
- Entre. Deve estar cansada.
Vou mostrar seu quarto.
Cininha acompanhou-o e subiram as escadas.
Ele perguntou:
- Faz tempo que não vê sua tia?
- Alguns anos.
Subiram e Virgílio levou-a até o quarto de hóspedes, entre o dele e o de Nicole.
- Este será seu quarto - disse ele, apoiando-se no braço de Cininha.
Minha filha não está bem.
Fez tratamento de desintoxicação, mas está numa fase de recaídas.
- Sinto muito.
- Quantos anos você tem?
- Vinte e dois.
- Óptimo. Nicole tem a mesma idade e está precisando de novas e boas amizades.
Sinto que você poderá ser uma boa influência para ela.
- Obrigada, tio.
Pode deixar que sou boa em fazer amigos.
- Quer cumprimentar sua tia?
- Sim.
Virgílio conduziu Cininha até o quarto de Ivana.
Ele bateu de leve na porta e abriu.
Antes de Ivana dizer qualquer impropério, Cininha irrompeu no quarto e deslizou até a cama.
Ivana olhou-a de esguelha.
- Quem é você?
- Não se lembra de mim?
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 17, 2015 10:12 pm

- Nunca a vi mais gorda.
A moça abriu largo sorriso e estendeu os braços.
- Sou eu, a Cininha.
- Argh! Você?
- Sim. Acabei de chegar, tia Ivanilda.
Ivana sentiu o sangue subir pelas faces.
Havia mais de vinte anos que nenhum ser humano a tratava pelo nome de baptismo.
Ninguém ousava chamá-la assim, nem mesmo o marido e os filhos.
Estavam terminantemente proibidos.
E agora aparecia essa capixaba e lhe chamava por Ivanilda?
Era muita ousadia.
Cininha devia estar mesmo testando seus brios.
Virgílio foi rápido o bastante para puxar Cininha com força, correr e fechar a porta.
Logo atrás deles o barulho foi aterrador.
- O que foi isso?
- Sua tia acabou de atirar um abajur contra nós.
Desta vez você foi poupada.
Os dois riram e desceram para o café.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 17, 2015 10:12 pm

CAPÍTULO 19

Depois de muitos dias ruminando pensamentos envoltos em dúvidas e inseguranças, Mariana finalmente decidiu procurar Inácio para uma conversa definitiva acerca dos acontecimentos que puseram em risco o namoro de ambos.
Dessa vez não queria ir à Centax.
Gostaria de encontrá-lo em outro lugar, de preferência num local neutro, onde o ambiente não interferisse.
Mariana estava pensando nisso quando Letícia entrou no quarto, alegre e esfuziante.
- Aonde vai, toda faceira? - indagou Mariana, arrancada daquele mar de ideias.
- Eu e Rogério vamos tomar um refresco com a Sílvia.
Vamos dar uma volta, fazer um programinha bem legal.
- Só vocês? E os outros amigos? Não são inseparáveis?
- Daniel, Bruno e Michele vão trabalhar até tarde.
Pretendemos ir até o espaço deles logo mais.
Mariana fez uma careta.
- Programa de índio, isso sim.
Estão todos envolvidos com bruxaria?
Letícia sorriu.
- Não. Michele e Daniel são espíritas e há muitos anos se debruçaram sobre as obras de Allan Kardec, professor francês que deu a base, fundou os pilares do Espiritismo.
Não tem nada de bruxaria nisso.
Não confunda as coisas.
Por acaso crê que Chico Xavier seja bruxo?
- Não, de maneira alguma.
Ele é tão doce, nos passa tanta serenidade, tranquilidade.
- Está na hora de você rever seus pensamentos.
Talvez, ampliando sua consciência, desprovida de preconceitos, você possa enxergar quais são exactamente seus pontos fracos, amadurecer, fortalecer seu espírito e melhorar sua vida neste mundo.
- Como se isso fosse fácil.
Letícia parou de escolher a roupa que ia usar para sair.
Virou-se e sentou-se na beirada da cama de Mariana.
Pegou delicadamente nas mãos da irmã.
- Você está dificultando as coisas.
- Como assim?
- Você está criando sua própria infelicidade.
Mariana espantou-se:
- Eu?!
- Sim.
- Impossível. Eu jamais me faria infeliz.
São os factos, Letícia. Os fatos.
- Ainda presa nesse mal-entendido com Inácio?
- Não consigo entender o que possa ter acontecido.
Primeiro ele me liga desesperadamente e depois, de uma hora para outra, pára de ligar.
Aí eu resolvo esclarecer sobre a loira do restaurante e ele não mais me recebe.
E, quando me encho de coragem, tomo uma decisão e vou atrás da felicidade, encontro Inácio atrelado àquela sirigaita - finalizou nervosa.
- Chi! Calma! Não precisa se alterar.
Creio que esteja no momento de conversar com Inácio.
- Talvez.
- Sabe o que Sílvia me disse ontem?
Mariana balançou a cabeça para os lados.
- Não faço a menor ideia.
- Ela me disse que Inácio anda triste e amuado.
Quase não sai de casa, a não ser para ir ao trabalho.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 17, 2015 10:12 pm

Talvez ele esteja pensando o mesmo que você.
Mariana animou-se.
- Acha?
- Sim. Vocês dois dão muito valor ao que os outros dizem.
Por essa razão, estão deixando de viver uma linda história de amor.
Depois não venha me dizer que a vida lhes foi injusta.
- Como farei?
Gostaria de conversar com ele. Mas...
- Eu e Rogério vamos apanhar Sílvia logo mais.
Não quer aproveitar a carona?
Eu a apresento a Sílvia e você fica para conversar com Inácio.
- Será que ele vai estar lá?
- Enquanto eu me arrumo, ligue para a casa dele.
Letícia deu uma piscadinha para a irmã.
Pegou sua roupa e dirigiu-se até o banheiro.
Mariana sorriu feliz.
Estava determinada a dar um basta naquela situação aflitiva.
Ainda se sentia insegura, não confiava plenamente em si, e suas atitudes ora pareciam firmes como uma rocha, ora flácidas como uma bexiga estourada.
Ela respirou fundo, levantou-se e desceu até o corredor.
Pegou o telefone e discou.
Uma das empregadas atendeu e chamou Íngrid.
- Como vai querida?
- Bem, e a senhora?
- Estou óptima.
Estamos com saudades.
Você não vem à minha casa há um bom tempo. Quando virá?
- Liguei para saber se posso fazer uma visita.
- Será um prazer.
- Queria saber se o Inácio está em casa e...
Íngrid interrompeu-a com delicadeza.
- Claro que está.
Ele mal tem saído ultimamente.
Os amigos ligam, mas ele se recusa a sair.
Está triste e amuado.
Conversei com ele e - Íngrid riu - vocês precisam desatar alguns nós.
- Será que ele me receberia?
- Sem dúvida.
- Como faço?
- Venha de surpresa.
A que horas chega?
- A Letícia me convidou para dar uma volta, passar por aí e conhecer a Sílvia.
- Todo esse tempo, e ainda não conheceu minha filha?
Mariana tentou dar uma desculpa esfarrapada.
- O estágio na clínica do Dr. Sidnei tem me consumido bastante o tempo.
Tenho me esforçado para ser efectivada.
- Vamos aguardá-la.
Será um prazer revê-la.
Mariana desligou o telefone radiante.
Subiu as escadas contente e abriu o guarda-roupas.
Queria estar linda para a ocasião.
Desejava muito se entender com Inácio e retomar o namoro.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 17, 2015 10:12 pm

Ela o amava, muito.
Depois de um bom período presa a um tratamento de desintoxicação de drogas e após participar das reuniões nos Narcóticos Anónimos, Nicole finalmente voltou para casa.
A aparência da garota melhorara consideravelmente.
As olheiras haviam desaparecido e os olhos pareciam mais expressivos, mais brilhantes.
A pele tinha recuperado a coloração rosada e Nicole estava até mais cheiinha.
Seu corpo voltara a ter contornos.
Sua aparência era saudável.
E parecia que a época de trevas finalmente se dissipava.
Ela entrou em casa acompanhada de Virgílio.
Desde a internação, ele passara a estar mais próximo da filha, enchendo-a de mimos, carinho, afecto, presentes.
Ia até a clínica todos os dias, a não ser quando viajava a negócios.
Nessas ocasiões, Bruno tomava à dianteira e cumpria o mesmo papel de Virgílio.
Nicole sentia-se confortável ao lado dos dois.
A reaproximação do pai lhe fizera muito bem.
Havia um pequeno problema, independente de falta ou não de carinho e ajuda profissional.
Devido aos abusos cometidos em outras vidas, Nicole ainda trazia em sua jornada evolutiva alguns perseguidores espirituais, que se afastavam por um tempo, mas que, por invigilância dela mesma, voltavam com toda a força e tentavam a todo custo trazê-la de volta ao mundo das drogas, fosse por meio de sugestão, fosse por obsessão.
Dois desses espíritos estavam à espreita, a certa distância, aguardando o momento de atacar.
Por enquanto ela estava bem e feliz.
Ambos almejavam, suplicavam por uma recaída, um pensamento negativo, por exemplo, para se aproximarem e fazerem Nicole voltar a ser como antes.
Nicole recusou-se a fazer tratamento espiritual, oferecido por Bruno e Michele.
Achava tudo uma grande besteira.
Já estava fazendo coisas demais; por que se envolveria com mais esse tratamento?
Influenciada pelos espíritos obsessores, ela desistiu.
Os dois espíritos ganharam aquela batalha.
Eram eles que conseguiam interferir no raciocínio de Nicole e influenciá-la a ponto de não aceitar tratamento espiritual, de forma alguma.
Enquanto a jovem ainda não cedia às drogas, gastava o tempo entre reuniões com os Narcóticos Anónimos e a vontade de ficar em casa, eles ficavam na cola de Artur.
Artur não quis fazer tratamento.
Nicole implorou, pediu, até chegou a conversar com Virgílio sobre a possibilidade de ajudar no tratamento do namorado, mas Artur recusou-se terminantemente a receber qualquer tipo de auxílio.
Assim que Nicole foi internada,
Artur sumiu por uns tempos, hospedou-se na quitinete de um amigo, também viciado, nas proximidades da Cracolândia.
Tratava-se de um Vale dos Caídos:
uma área livre para o consumo e o tráfico de crack e outras drogas, com todos os males associados: prostituição adulta e infantil, contrabando, moradias sub-humanas e a inesgotável variedade de exploração da miséria.
Foi nessa época que começou a ocorrer à chamada "limpeza urbana":
caminhões-pipa da prefeitura chegavam pela manhã e, com os jactos d'água, expulsavam quem estivesse dormindo em praça pública.
As crianças e adolescentes se dispersavam, ocupando áreas mais distantes do centro da cidade.
Artur, para não ser pego por um desses jactos d'água, preferia o ambiente malcheiroso e sem janelas de seu amigo.
Pelo menos ali ele não seria incomodado.
Diferentemente da cocaína, da qual deriva, o crack é fumado em uma espécie de cachimbo, atingindo imediatamente os alvéolos pulmonares, cuja área de absorção é duzentas vezes maior que a da mucosa nasal.
Dessa forma, cai rapidamente na corrente sanguínea e em quinze segundos está no cérebro.
Seu efeito, porém, dura cerca de cinco minutos, levando o dependente a repetir a dose várias vezes.
E Artur estava cada vez mais seduzido pelos efeitos do crack em seu cérebro.
Nicole sabia do paradeiro do namorado, mas no momento queria ficar em casa.
Estava com saudade de seu quarto, de seus discos, de seus bichos de pelúcia.
Ela entrou na sala e deparou com simpática moça sentada no sofá, como se estivesse à sua espera.
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Ave sem Ninho

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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 17, 2015 10:13 pm

Cininha levantou-se e caminhou até a prima.
Abraçou-a.
- Como vai?
Nicole mordeu os lábios e, após os cumprimentos, perguntou ressabiada:
- Quem é você?
Alguma enfermeira da clínica que vai me monitorar?
- De maneira alguma.
Sou sua prima Cininha, filha da tia Leonilda.
Nicole deu de ombros.
- Nem me lembrava de ter uma tia ou uma prima.
- Mas tem. E temos quase a mesma idade.
Poderemos fazer muitas actividades juntas.
Nicole fez muxoxo.
- Não estou interessada em actividade nenhuma.
Na verdade, gostaria de ver minha mãe.
Cininha deu uma risadinha sem graça.
- Tia Ivanil... quer dizer, tia Ivana está no quarto, acometida de forte crise de enxaqueca.
- Vou vê-la.
Nicole falou e subiu, sem olhar para trás.
Virgílio aproximou-se de Cininha.
- Não a leve tão a sério.
Nicole ainda sofre pelos abusos cometidos.
Sua consciência, seu humor, variam bastante.
Os médicos nos orientaram a ter muita paciência e enchê-la de carinho.
- Não creio que somente isso surta o efeito necessário, tio.
Nicole precisa de tratamento espiritual também.
Virgílio passou a mão pela cabeça.
- Meu filho bem que tentou convencê-la, mas Nicole recusa-se terminantemente.
Fica possessa.
Eu não toco mais no assunto, receio que ela tenha uma recaída.
- Estou sendo sincera.
Qualquer contrariedade poderá levá-la a viciar-se de novo.
- Vire essa boca para lá.
Cininha espantou-se.
- Eu quero que Nicole fique bem, muito bem.
Torço de verdade por isso.
Mas de que adiantam tratamentos e reuniões em instituições especializadas se ela mesma não se dá força para mudar, para fazer tremenda mudança de valores?
O tratamento espiritual pode ajudá-la também.
Não custa nada, é de graça e, garanto, mal pelo menos não lhe fará.
- Será?
- Fazendo tratamento físico e espiritual em conjunto, ela terá grandes chances de vencer e se libertar das drogas.
Caso contrário, vai voltar ao mundo das drogas.
- Isso me tira o sono, sabia?
- Se carinho resolvesse, nem precisaria de clínicas aos montes espalhadas por aí.
Não queira deixar de enxergar e ir fundo no problema de sua filha.
Quando se tem um filho drogado, a tendência é deixar para lá, com pérolas do tipo "Uma hora isso passa, é fase, logo vai crescer e se tornar adulto", desculpas as mais disparatadas e esfarrapadas possíveis.
Não gostaria que minha prima voltasse a esse mundo.
- Ivana me disse que vai lhe pagar terapia.
Cininha ajuntou:
- Numa sessão de terapia, é preciso que o paciente se sinta bem, tenha confiança no terapeuta.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 17, 2015 10:13 pm

De nada adianta levar Nicole ao melhor especialista do mundo, se ela não quiser.
Ela precisa querer ter vontade de ir e se sentir à vontade com o terapeuta.
Não é porque o analista tem fama e prestígio, como acredita tia Ivana, que ele irá resolver o problema de Nicole.
Tem muita gente boa, à surdina, fazendo óptimo trabalho de recuperação.
Nicole precisa deixar de ser mimada e arrogante, mais nada.
Virgílio encarou-a sério.
- Não admito que fale de minha filha nesse tom.
Você mal a conhece.
- Além de depressiva, ela é menina fútil e mimada.
Ainda bem que vou passar um bom tempo na sua casa.
O senhor ainda vai me dar razão.
Virgílio coçou a cabeça, pensativo.
Cininha estava sendo demasiadamente dura com ele.
Nicole era excelente moça.
Era carente, a pobrezinha.
Precisava do amor dele e da mãe para poder se sentir segura e ter uma vida normal.
O importante era que sua filha estava em casa. Isso bastava.
Não tinha mais que gastar energia ou neurónios com esse problema.
Dali a alguns dias ele e Ivana iriam se separar e ele estaria livre para cortejar Nair.
Levaria Nicole para morar com ele, visto que Bruno tencionava casar-se com Michele.
Desde o incidente envolvendo Nair e Ivana, quando esta destruiu o carro de Virgílio, ambos decidiram parar de se encontrar.
Às vezes Virgílio ligava do escritório e contava a Nair às novidades, falando com alegria da recuperação - aparente - da filha.
E mais nada.
Em breve, tudo estaria resolvido e Virgílio vislumbrava uma vida cheia de encanto, na qual todos viveriam bem felizes.
Pensando nisso, ele subiu e foi até seu quarto.
Queria tomar um banho e descansar um pouco antes de almoçar.
Nicole saiu de seu quarto e bateu levemente na porta do quarto da mãe.
Entrou em seguida. Estava tudo escuro.
- Posso acender a luz?
- Nem pense nisso! - bramiu Ivana.
- Mamãe, sou eu.
Ivana levantou a viseira.
Mesmo no escuro, ela cobria os olhos.
Precisava de escuridão total quando era assaltada pelas crises de enxaqueca.
- Já se recuperou? Que bom.
- Podemos conversar?
- Agora não.
- Mas...
- Estou cansada e com dores de cabeça.
- Queria lhe dizer que estou melhor.
- Conseguiu se livrar das drogas?
- Aparentemente.
- Como se sente?
- Muito bem, até engordei um pouquinho.
Você vai ver:
daqui em diante eu serei uma nova pessoa, sem vícios.
Ivana deu uma gargalhada.
Levantou a viseira e sentou-se na cama.
Acendeu o abajur e ficou mirando a filha de baixo a cima.
- Não me faça de idiota.
Você pode fazer seu pai e seu irmão de trouxas, mas não a mim.
Pensa que vou cair nessa mirabolante história da carochinha?
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 17, 2015 10:13 pm

- Como?
- Você está bem hoje, mas quero ver voltar à sua vida sem sal, às suas músicas irritantes, à vida estúpida que sempre teve.
Logo você vai se afundar nas drogas e vai começar tudo de novo.
- Não, mamãe, eu mudei.
- Já vi esse filme antes.
- Agora estou me sentindo forte.
Tenho frequentado a reunião dos Narcóticos Anónimos.
Existem outras pessoas como eu.
E muitas superaram o vício.
- Está frequentando o grupo errado.
Deveria ir aos Idiotas Anónimos.
Nicole esmoreceu, seus lábios tremiam, e a custo ela evitou o choro.
Ivana continuou:
- Muitas dessas pessoas voltam para as drogas porque são fracas, assim como você.
- Como, mamãe?
- Você é fraca, Nicole. Fraca, entendeu?
Você não vale o prato que come.
Logo vai estar estirada em algum canto, num buraco qualquer, coberta de formigas.
Seu fim está decretado.
Ou acredita mesmo que conseguirá tornar-se uma pessoa normal?
- Hã?
- Você não é normal, entende?
Você é viciada, fraca, totalmente descartável para o mundo.
Os olhos de Nicole marejaram.
Ivana prosseguiu com seu discurso frio e petulante:
- Você faz parte da escória da sociedade.
Se dependesse de mim, eu criaria um lugar só para essa gente viciada.
Não tenho dó de vocês.
Não tenho. - Ivana falava num rompante, voz alterada.
Agora, por favor, saia do meu quarto.
Estou com dor de cabeça e quero dormir mais um pouco.
As lágrimas de Nicole corriam insopitáveis.
Ela nunca recebera críticas tão duras de sua mãe.
Era a primeira tentativa de aproximação pacífica, estava se esforçando para que ambas pudessem se tornar amigas, e ela fracassara.
Nicole fracassara mais uma vez.
Tudo que aprendera na clínica e na reunião do grupo de apoio veio abaixo.
A jovem foi tomada de imensa prostração.
Ivana tinha razão: ela não era forte mesmo.
Só tinha dado desgosto aos pais desde que nascera.
Envolvera-se com as drogas, tinha dificuldade para se libertar do vício.
Não tinha profissão, abandonara os estudos.
Jogara a vida para o lixo, pensava.
Naquele momento, Nicole sentiu-se profundamente magoada, abalada mesmo.
Não tinha forças para rebater as duras críticas.
As palavras da mãe lhe feriram fundo.
Vale ressaltar que sua auto-estima era equivalente a zero.
O espírito de Nicole tentava se libertar das amarras do passado, porém era como se ela estivesse presa nesse ciclo pernicioso das duas últimas encarnações.
Agora estava tentando se salvar, levar nova vida, mas Ivana minara o pingo de auto-estima que ela conseguira adquirir nesse tempo todo metida entre tratamento e reunião de grupo de apoio a adictos.
Everaldo desesperou-se:
- Essa conversa a abalou profundamente.
Nicole não tem estrutura para críticas tão duras.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 17, 2015 10:13 pm

Consuelo pegou em suas mãos.
- Quando encarnados, estamos sujeitos a todo tipo de interferências.
Cabe a nós juntar forças e perseverar.
Ivana não precisava ser tão dura, entretanto Nicole aceitou as críticas sem um pingo de defesa.
Não foi forte o suficiente para rebatê-las e tomar atitude mais positiva.
Vamos vibrar para que ela não cometa desatinos.
Everaldo concordou com a cabeça.
Ambos fecharam os olhos, ergueram a cabeça para o alto e proferiram comovem e prece pelo bem-estar da jovem.
Graças a essa prece, os dois espíritos que perseguiam não conseguiram aproximar-se dela.
Conseguiram influenciar Ivana a falar todos aqueles impropérios, mas não chegaram perto de Nicole.
- É só uma questão de tempo - disse um.
Ela vai sucumbir.
- Você tem razão, companheiro - tornou o outro.
Temos de nos vingar.
Nicole acatou tudo que ouvira de Ivana como sendo verdadeiro.
Não havia dentro dela um sistema que fosse capaz de ouvir, reflectir, peneirar e ficar somente com o que bem lhe aprouvesse.
Não. Nicole ouvia e absorvia tudo como sendo seu, sem discernimento algum.
A conversa desestabilizou-a de maneira profunda. É irreversível.
Ela voltou para seu quarto e jogou-se na cama. Chorou bastante.
- Eu não valho nada.
Eu não presto mesmo.
Minha mãe tem razão: eu sou a vergonha desta família.
O melhor que tenho a fazer é sumir, desaparecer.
A jovem chorou, chorou muito.
Foi aí que lhe surgiu a ideia.
Sim, por que não pensara nisso antes?
Ela era maior de idade, sua família tinha dinheiro.
Nicole pensou, reflectiu e decidiu.
Num instante arrumou sua mala, colocando nela algumas roupas e pertences.
Foi até a escrivaninha e pegou sua identidade e seu passaporte.
Pegou um de seus bichos de pelúcia, desses encapados com roupinha de zíper.
Abriu e arrancou de dentro do bichinho dois pacotinhos de cocaína.
Estavam guardados lá do tempo que ela se drogava no quarto, muito antes da internação.
O pessoal da clínica informou Virgílio que jovens adictos tinham por hábito esconder droga entre seus pertences.
Virgílio, tão logo recebera a informação, passou pente fino no quarto, uma inspecção minuciosa.
Checara todas as gavetas, armários, o colchão, dentro de aparelhos de TV e som, todos os cantos do quarto.
Absolutamente tudo. Jamais iria desconfiar ou mesmo deduzir que sua filha escondia droga dentro de bichos de pelúcia.
Nicole sorriu para si.
- Ainda bem que ninguém em casa descobriu meu esconderijo.
Tinha certeza de que nunca pensariam no meu ursinho.
Ela beijou o animalzinho felpudo, jogou-o sobre a cama, enfiou os pacotinhos na mala e fechou-a.
Virgílio estava no banho, Ivana voltara a dormir.
Nicole abriu a porta do quarto, olhou para os lados.
Notou que a porta do quarto de Cininha estava entreaberta e ela estava distraída ao telefone.
Nicole pegou sua pequena valise, botou os documentos na bolsa e desceu as escadas de maneira a não fazer barulho.
Chegou ao corredor e certificou-se de que nenhum empregado estivesse à vista.
Correu até o escritório de Virgílio.
Vasculhou as gavetas de sua secretária e encontrou a combinação do cofre.
Nicole riu satisfeita.
Delicadamente foi girando os números na sequência.
Suspirou feliz quando ouviu pequeno estalo e a porta se abriu.
Os olhos da jovem brilharam emocionados.
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Re: O PREÇO DA PAZ - Marco Aurélio / Marcelo Cezar

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